Nem só de vermelho e branco se constrói um desfile. Em meio às cores que definem a identidade da Unidos de Padre Miguel, uma ala rompe o padrão cromático e provoca impacto imediato na Sapucaí.
A Ala 19, “O Gritador”, surge no setor do Encantamento como um ponto de tensão na narrativa de “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”. Com a fantasia em preto e branco, caveira no topo do estandarte e estética sombria, a ala representa uma entidade do folclore nordestino: um espírito que grita na noite e habita o limiar entre a vida e a morte. É Carnaval. É festa. Mas também é memória, respeito e espiritualidade.
A presença da ala dialoga com o período retratado no enredo, a invasão holandesa e o contexto de guerra que marcou a história de Clara Camarão. O brilho não apaga o luto. O espetáculo não esquece as perdas.
José Feital, de 65 anos, aposentado e há 14 anos na escola, descreve o impacto já na concentração. “Foi inusitado chegar na concentração com essa fantasia. As crianças ficam assustadas e encantadas ao mesmo tempo. Tirei foto com o público, mas é importante explicar que estamos representando uma lenda e que isso faz parte do enredo da Unidos de Padre Miguel, que foi chefiado por uma líder guerreira. É preciso ter muita coragem para vestir esse manto, porque precisamos representar com orgulho. Na época da invasão dos holandeses houve muita morte, e estamos aqui representando essas perdas. Vamos brilhar e fazer acontecer a vitória da escola”.
José Feital. Foto: Juliane Barbosa
Luciana Santana, 42 anos, vive sua estreia na escola e sente o peso simbólico da fantasia. “As pessoas ficam assustadas com a fantasia, mas encantadas ao mesmo tempo. Desfilar na avenida com toda essa montagem é uma emoção.”
Pamela Reis, 43 anos, autônoma e há dois anos na Unidos, destacou a curiosidade do público diante da quebra estética. “A reação é engraçada. As pessoas perguntam qual é a escola, porque foge das cores tradicionais. A gente explica a história e elas gostam demais. Não precisa de preparação psicológica para vestir essa fantasia. E hoje ainda é sexta-feira 13, as caveirinhas vêm aí para fazer sucesso na avenida”.
Pâmela Reis. Foto: Juliane Barbosa
Já Ewerton da Silveira, 50 anos, há 12 anos na escola, chama atenção para o impacto visual e físico da ala. “A coisa mais luxuosa é a reação das pessoas. Ninguém acredita no que está vendo, é a maior alegria. Para alguns exige preparação física para sustentar a fantasia, o estandarte da caveira e atravessar a avenida”.
Ewerton da Silveira. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
O contraste que fortalece o enredo, a Ala 19 quebra o vermelho dominante e mergulha o público em uma atmosfera de respeito ao sobrenatural. O preto e branco simboliza o limiar entre vida e morte, presença e ausência, medo e fascínio.
No Carnaval, onde a alegria costuma ser a protagonista, “O Gritador” lembra que a história também é feita de dor, resistência e memória. A guerra, o sangue derramado e as perdas fazem parte da construção do povo que hoje celebra sua identidade.
Ao destoar das cores da escola, a ala não enfraquece a narrativa, e sim aprofunda.
Entre caveiras e gritos simbólicos, a Unidos de Padre Miguel mostra que o Carnaval também pode ser silêncio, sombra e reverência. Porque celebrar a ancestralidade é, acima de tudo, não esquecer. E na Avenida, até o medo pode virar encanto.
Quarta escola a desfilar na Sapucaí na noite de abertura da Série Ouro, na sexta-feira, na Sapucaí, a Unidos de Bangu apostou na força das novas gerações para ecoar a mensagem de um dos maiores hinos da música popular brasileira. A ala infantil número 08, intitulada “A Voz do Morro é de Criança”, colocou pequenos sambistas para cantar “Zé do Caroço”, canção mais emblemática de Leci Brandão, homenageada pelo enredo.
Ala das crianças da Unidos de Bangu Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Com fantasias que remetem ao serviço de alto-falante do Morro do Pau da Bandeira, a Vermelha e Branca transformou as crianças em porta-vozes de um legado que atravessa gerações, provando que, quando o morro fala, o futuro escuta.
A ideia da ala infantil surgiu para simbolizar o contraste entre a letra forte e a política da música com a inocência das crianças que a interpretam. Para Maria Valma, de 70 anos, coordenadora da ala, ver os pequenos entoando um hino de resistência na avenida é motivo de emoção e responsabilidade.
“É uma grande felicidade para nós, pois assim instigamos um entusiasmo neles, para que eles cresçam e desenvolvam o desejo de se engajar nas pautas que acreditam”, acredita.
Ela também falou sobre como conseguiu transmitir a mensagem de mobilização comunitária a uma geração tão conectada às telas.
“Eu acho que, apesar de elas viverem sob telas, as nossas crianças já estão entendendo a mensagem que estamos passando de forma clara. É muito importante esse desfile para elas nesse quesito. E o objetivo é que elas continuem aprendendo e se posicionando pelo que acreditam”, pontua Maria.
O megafone como a arma mais poderosa
Na concentração, as crianças falaram com brilho nos olhos sobre a responsabilidade de representar a escola e a homenageada, e deixaram a emoção tomar conta de si, da forma mais genuína.
Maria Eduarda, de 12 anos Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Maria Eduarda, de 12 anos, moradora de Bangu e desfilando pela primeira vez na escola, contou ao CARNAVALESCO o que gostaria de gritar em um megafone para todo mundo ouvir.
“Eu falaria que a escola veio muito bonita, muito arrumada, com tudo muito organizado. Vamos receber a nossa Leci Brandão como ela merece, com a nossa música e o nosso enredo maravilhoso. Que a gente consiga, este ano, aumentar a nossa escola”, conta.
Daniele Coelho, 14 anos Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Daniele Coelho, de 14 anos, compartilhou a emoção do momento que está vivendo, provando que criar sonhos nas crianças é transformador.
“Nossa fantasia vem representando o Morro da Mangueira. Fiquei muito feliz de estar participando desse dia. A minha primeira grande experiência de vida. Quero lutar para que eu e todos os jovens possam viver momentos históricos como esse também. Que todos curtam bastante o Carnaval!”.
Isadora Tereza, de 13 anos Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Isadora Tereza, de 13 anos, também compartilhou a expectativa da estreia na avenida.
“Estou muito animada e muito ansiosa para ver tudo o que vai acontecer no meu primeiro desfile na Bangu em homenagem à Leci, que conheci pela escola”, contou ela, provando que a missão da escola também é levar cultura e conhecimento a uma nova geração.
Gabriela Vitória de Oliveira, 10 anos Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já Gabriela Vitória de Oliveira, 10 anos, se emocionou ao falar da estreia e deixou uma linda mensagem com reflexão, bem madura para a sua idade.
“Eu diria para todos curtirem bastante a vida, porque ela é curta. Enquanto eu puder estar vivendo, eu vou curtir mesmo momentos como hoje. Estou até arrepiada. É a primeira vez. Faltam alguns minutos para começar e eu espero que a Unidos de Bangu ganhe”, afirma.
As amigas Camile Vitoria, Daniele Chaves e Maria Luiza Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Camile Vitória, 14 anos, que também desfila pela primeira vez e sonha em seguir carreira no Carnaval, foi direta e expressou apenas um desejo: “ É Unidos de Bangu. É sobre isso. Somos unidos até morrer. Estamos aqui para ver nossa escola crescer”.
Daniele Chaves, 11 anos, e Maria Luísa, 12 anos, moradora de Padre Miguel, que já desfilou na Estrelinha da Mocidade e agora integra a ala da Bangu, concordam com a amiga e em tom de alegria e divertimento, gritam em tom de torcida: “Para cima, Bangu!”.
Entre megafones cenográficos e vozes ainda em formação, a ala 08 mostra que a resistência também pode ser cantada com pureza.
A Unidos de Bangu, quarta escola a desfilar na primeira noite da Série Ouro do carnaval carioca, na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, emocionou o público com o enredo “Coisas que Mamãe me Ensinou”, que celebra a trajetória da cantora e compositora Leci Brandão, de 81 anos, símbolo de resistência e consciência da luta do povo preto.
Jimena, Júlia e Jorge Abreu. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Um dos destaques do desfile foi a Ala 18 “A Coragem de Ser Quem Se É”, inspirada no histórico Jornal O Lampião da Esquina, no qual Leci assumiu publicamente sua homossexualidade em 1978, em plena ditadura militar. Com fantasias impactantes, repletas de recortes com manchetes de jornal, a ala transformou a avenida em um grito coletivo de liberdade e orgulho.
Moradora de Bangu, a fisioterapeuta Luíza Fonseca, de 27 anos, desfilou pela primeira vez ao lado do noivo, Igor Barbosa, 28, morador de Olaria, que já desfilou outras vezes na Grande Rio e na Imperatriz. Para eles, vestir a fantasia foi dar continuidade a um grito que atravessa décadas.
“Acho que não tem nada que represente mais essa ala do que a liberdade. Liberdade por estarmos aqui, bem, felizes, fazendo o que a gente ama, afirmou Igor.
Luiza e Igor. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Eu acho que a nossa missão hoje é dar continuidade desse grito que a gente deu lá atrás e que até hoje a gente continua buscando e lutando por esses direitos”, completou Luíza.
Quanto a importância de trazer à maior vitrine do mundo a pauta da homossexualidade, que, nos anos 70, só era trata em um jornal de pequena circulação, ela fez questão de opinar.
“É de total importância, pois muita gente não tem nem conhecimento de que isso já acontecia lá atrás, em uma época tão importante. E continuar dando voz e hoje em dia mais visibilidade para a causa que, mesmo depois de tanto tempo, é tão marginalizada, é necessário”, afirmou.
Igor concordou com a noiva: “Acho que precisamos continuar batendo nessa tecla até a gente conseguir ter total liberdade para ser e fazer tudo o que queremos”.
Também estreante na avenida, Michele Ermenegildo de Oliveira, de 44 anos, moradora de Bangu, escolheu a ala para viver o momento ao lado da namorada, Rosi da Silva, 46, de Santa Cruz, orientadora educacional, que também desfilou pela primeira vez. Michele se identifica com a luta de Leci pela liberdade de ser uma pessoa LGBT.
Michele e Rosi. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Hoje eu me encontro na mesma situação que ela, porque tenho uma companheira que está desfilando junto comigo. Eu estou muito feliz de realizar esse sonho ao lado dela. Esse desfile significa o nosso grito de resistência”, declarou.
Ao imaginar uma manchete sobre o momento, Michele declarou seu amor pela escola.
“Seria a de uma pessoa que nunca entrou em uma avenida e está se sentindo muito realizada, representando a escola do coração, que é a Bangu”.
E, se pudesse gritar algo na Sapucaí, não hesitou em responder: “Respeito! Pediria que houvesse respeito às escolhas de cada um. Seria um mundo muito melhor”.
Diretamente do Texas, onde mora com a família há 27 anos, o executivo Jorge Abreu voltou ao Brasil para desfilar na Bangu ao lado da esposa, Jimena Abreu, 49, e da filha norte-americana Júlia, de 24 anos.
Para Jorge, vestir a fantasia ainda representa um ato político: “É um ato de coragem e também de apoio. Todos os tipos de pessoas têm que ter um lugar nesse planeta. É importante a gente apoiar uns aos outros em todos os âmbitos”.
Sobre o clima do desfile, ele avaliou: “Eu acho que é a combinação de resistência e alegria. O samba é lindo e a fantasia aqui está muito linda, está todo mundo bem animado. Eu acho que desfilar hoje vai ser bem bacana”.
Já quanto a sua manchete, ele brincou: “Jorginho pisa pela primeira vez na Sapucaí”.
Jimena também realizou um sonho antigo, que era o de desfilar na Marquês de Sapucaí. “Um sonho de criancinha, que estou realizando hoje. Estou representando a minha família. Minha mãe nasceu em Bangu. Estou muito feliz de estar aqui por ela”, contou.
Já Júlia destacou a importância histórica da pauta para a causa LGBT.
“É tão importante ainda hoje, mesmo que na época da ditadura fosse ainda mais difícil. Ninguém falava sobre isso. As pessoas existiam, mas era muito tabu. Ninguém falava disso porque era ruim. Mesmo agora, ainda tem um monte de pessoas no mundo que moram em lugares onde não é permitido ser homossexual. Ter muma ala e um desfile de carnaval que está dando visibilidade e importância para isso é muito legal. Eu fiquei muito feliz quando soube que eu seria parte desse desfile A avenida precisa desses gritos de resistência. O mundo não está perfeito ainda. Mas carnaval é sempre alegria e vamos também comemorar tudo o que já foi conquistado pela comunidade LGBT”.
Com recortes de jornal estampados no corpo e coragem estampada na alma, a Ala 18 transformou a Sapucaí em manchete viva: a de que ser quem se é continua sendo, acima de tudo, um ato de resistência e também de celebração.
Um desfile sublime da bateria “Guerreiros” da Unidos de Padre Miguel, na estreia de mestre Laion Jorge no Boi Vermelho da Vila Vintém. Um ritmo enxuto, equilibrado e muito bem equalizado foi exibido. Execuções de bossas em módulo foram simplesmente ovacionadas, num desfile que pode ser considerado, sobretudo, energético.
Na cabeça da bateria “Guerreiros”, uma ala de cuícas sólida tocou junto de um bom naipe de agogôs, que executou um desenho rítmico nas nuances da bela obra da escola da Vila Vintém. Uma ala de chocalhos de nítida virtude técnica se exibiu de modo entrelaçado com um naipe de tamborins de imensa qualidade coletiva. O belíssimo casamento musical entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto do destacado trabalho envolvendo as peças leves do Boi Vermelho.
Na parte de trás do ritmo da UPM, uma afinação privilegiada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram firmes, mas bastante precisos. Surdos de terceira com balanço encantador ajudaram no belo trabalho dos graves. Uma ala de repiques coesa tocou junto de um naipe de caixas espetacular, auxiliando de forma luxuosa no preenchimento musical dos médios.
Bossas profundamente conectadas à melodia do samba, aproveitaram as variações para consolidar seu ritmo. Além de boa musicalidade, os arranjos também exibiram uma consistente pressão sonora, provocada pela potente afinação de surdos. Num arranjo mais dançante, toda a bateria “Guerreiros” se posiciona de um só lado (posterior a cabine), reverenciando júri e público. A bossa em questão foi muito aplaudida, gerando comoção popular sempre que apresentada. Outra paradinha ovacionada era a do estribilho, onde ritmistas movimentavam os braços e depois faziam sinal de flecha, como o samba pede. A retomada era com pressão sonora e recebeu interação popular sempre que exibida.
Uma grande apresentação da bateria “Guerreiros” da UPM, na estreia de mestre Laion no Boi Vermelho. Um ritmo bastante equilibrado e com equalização de timbres bem privilegiada. Após uma exibição muito boa da primeira cabine, a bateria da Unidos seguiu sendo muito aplaudida, agora por todo o júri, numa apresentação energética no segundo módulo. Na última cabine (dupla) de julgadores, mais uma bela apresentação para coroar um belo desfile da bateria “Guerreiros”.
A Unidos de Bangu levou para a Marquês de Sapucaí, como quarta escola da noite pela Série Ouro, um dos momentos mais políticos e emocionantes do Carnaval 2026. No enredo “As Coisas que Mamãe me Ensinou”, a agremiação homenageou Leci Brandão não apenas como sambista, mas como deputada atuante na defesa da cultura popular, das raízes africanas e dos direitos sociais.
Um ponto alto desse discurso veio na terceira alegoria, o “Quilombo da Diversidade”, carro que coroou o desfile com a presença da própria artista e celebrou sua luta no mandato na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), incluindo leis aprovadas em prol das minorias.
Com destaques trans e forte presença da comunidade LGBTQIAPN+, o carro transformou a avenida em território de afirmação e orgulho. Entre plumas, cores vibrantes e mensagens de resistência, a militância ganhou forma estética e política.
Érica Sipp, de 50 anos Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Érica Sipp, de 50 anos, cabeleireira, desfilando há dois anos na escola, destacou a importância de ocupar esse espaço.
“É sempre bom levantar a bandeira do nosso público, da nossa comunidade LGBT. Ainda mais com Leci sendo a homenageada, já ele ela não deixa de ser uma militante. Então pra gente é muito importante lutar pela nossa causa”, afirmou.
Sobre a mistura entre arte e política no Carnaval, foi enfática: “Hoje em dia é muito importante. Pode juntar música, política, televisão. Pode misturar tudo, tudo é válido quando a causa é positiva”, disse.
Para ela, atravessar a Sapucaí teve um significado ainda mais profundo. “A gente que é trans bota a cara a tapa todo santo dia na rua. Poder passar pela maior passarela do mundo levantando a nossa bandeira é muito importante pra gente estar nessa causa”, concluiu.
Lucas Santos, de 34 anos Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Lucas Santos, de 34 anos, anestesista, estreante na Bangu, falou sobre representatividade e união. “Eu achei muito interessante pelas roupas, pelas cores, pela representatividade. Levar para um lado onde todo mundo está junto e todo mundo é aceito e normalizar tudo, eu acho muito legal”, afirmou.
Ao comentar o fato de a homenageada ser sambista e parlamentar, defendeu a união das duas esferas. “A arte movimenta as pessoas e ajuda a gente a se unir todo mundo junto. Eu acho que a arte defende o amor e a união de todo mundo”, disse.
Para ele, desfilar em homenagem a uma deputada que atua na causa é simbólico. “Todo mundo que defende a nossa causa e luta a favor disso é muito importante. Ter uma voz dentro do governo que defenda as minorias é sempre muito importante”, concluiu.
Caio Eduardo, de 21 anos Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Também estreante, Caio Eduardo, de 21 anos, do setor administrativo na área elétrica, ressaltou o alcance social do tema.
“Esse tema tem muita relevância, porque atinge uma boa parte da população. A representatividade é muito importante até pra encorajar e pra que não ocorra tanta intolerância”, afirmou.
Sobre política e arte caminharem juntas, foi direto: “Tudo é política. Principalmente a arte é uma forma de manifestar esse lado crítico. Então tem tudo a ver”, disse.
Para ele, representar a diversidade em um carro como aquele é motivo de responsabilidade. “Tá aqui com essa fantasia maravilhosa representando a diversidade é muito lindo”, pontuou.
Aline Fernandes, de 42 anos Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Aline Fernandes, de 42 anos, também em seu primeiro desfile pela escola, falou sobre liberdade e verdade na representação. “Eu acho que a representação já vem da diferença da gente estar dando liberdade para todos os gêneros”, afirmou. Para ela, a atuação política da homenageada faz diferença. “Quando tem verdade é diferente. Eu acho que na Leci isso é um caso diferente. É um diferencial na nossa cultura brasileira e pro samba”, disse.
Desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, o desfile costurou ancestralidade, cultura e militância. No alto do “Quilombo da Diversidade”, Leci Brandão simbolizou não apenas a artista consagrada, mas a parlamentar que transformou o mandato em instrumento de luta.
A Unidos de Padre Miguel é definitivamente uma escola que não sabe brincar. Depois de um carnaval no Grupo Especial em que entendeu que recebeu um julgamento não lá muito justo, a UPM brindou a Sapucaí com mais um desfile primoroso. Como no ano passado, como em 2024, quando subiu, é certo que o Boi Vermelho, salvas raras exceções, é uma escola que faz desfile sempre de nível de Grupo Especial. Seja com mais ou menos componentes, seja com mais ou menos alegorias, a qualidade que vem é de excelência. E o que se viu em mais este carnaval foi isso: comissão de frente de alto nível, casal em alta consciência rítmica, desbunde na qualidade das fantasias, alegorias impactantes, samba na boca do público e uma comunidade aguerrida que canta e brinca carnaval como se estivesse no quintal da Vintém. De fato, o lugar da UPM não é nesse grupo.
Com o enredo “Kunhã-Eté, o Sopro Sagrado da Jurema”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, a Unidos de Padre Miguel foi a quinta escola a passar pela Sapucaí, nesta primeira noite de desfiles da Série Ouro, com o tempo de 55 minutos.
Paulo Pinna, que também assina a coreografia da comissão do Salgueiro, estreou no Boi Vermelho da Zona Oeste apresentando, inicialmente, ainda na coreografia, guardiões da memória que firmam o pé e riscam no solo sagrado a potência de uma aldeia que não se curva ao invasor. Com indumentária indígena e pele tingida de vermelho, esses guardiões adentram o tripé que representou uma aldeia que floresce de troncos velhos, que se enraíza na força e na ancestralidade e que se curva para consagrar o seu povo. Nesse momento, os guardiões da memória se enroscam nas raízes da Jurema. Ajuremado, no giro do Toré, o pajé conduz e induz o ritual, evocando a ira terrena e suplicando pelo fulgor de almas ancestrais.
Nisso, surge a Kunhã-Eté, desbravadora, desconfiada, encaixando-se na sacralidade do passo marcado. Das águas sagradas do Rio Potengi, abençoadas pela Mãe D’Água e tingidas de urucum pelos potiguaras, surge a consagração: Kunhã-Eté, símbolo feminino. A pivô da comissão, representando Kunhã-Eté, nesse momento dança em um espelho d’água com efeito de chafariz. Do alto do tripé, da Jurema Sagrada, no clímax da comissão, surge a predestinação, em sangue quente, borbulhando nas veias de um corpo potente, emanando coragem, força e empoderamento. Uma comissão de nível de Especial pela sincronia da coreografia, encadeamento dos fatos apresentados, altíssima qualidade estética do tripé e do figurino dos componentes, que ainda brilhava e se destacava na luz cênica. Um dos melhores trabalhos de Paulo Pinna.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O experiente casal Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas estreou na UPM e encarnou o sangue potiguara, vermelho vivo como o urucum que tinge corpos e histórias. Ao vestirem-se de vermelho-sangue-urucum, o corpo indígena assume poder, beleza e proteção mágica, reafirmando sua ligação com a terra e com a Jurema Sagrada. O vermelho que dominou o casal é sangue que significa vitalidade e continuidade: o que escorreu para que a cultura sobrevivesse e se transformasse em canto.
A dupla apresentou uma coreografia muito intensa, utilizando-se de forma bem eficiente do espaço. No início, o casal buscava giros e rodopios. Cris emendou uma sequência de giros bem intensa. Depois da apresentação do pavilhão para os jurados, os dois se encontram e, no refrão do meio, fazem um passo indígena no trecho “Ê cabocla pele morena”; na segunda vez, Marcinho faz um passo de ritual dos povos originários. No geral, uma dança sem problemas aparentes, intensa, com a parte clássica do que se pede para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, além de movimentos que remetem ao enredo de forma sutil, mas bem colocada na coreografia.
ENREDO
O enredo “Kunhã-Eté, o Sopro Sagrado da Jurema”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato, trouxe uma homenagem à indígena Clara Camarão, símbolo da força potiguara que combina ancestralidade, espiritualidade e resistência. Dividido em três setores, inicialmente a Unidos de Padre Miguel apresentou o nascimento encantado de Clara, evocando a profecia xamã que anuncia sua vinda ao mundo, flechada pela Mãe D’Água e banhada pelas águas do Potengi. O segundo setor trouxe feitos históricos da Kunhã-Eté, exaltando sua participação em batalhas contra os invasores holandeses.
No último setor, Lucas Milato mergulhou no encantamento de Clara, sua transformação em entidade sagrada que habita a Jurema, eternizada como guardiã do povo, da floresta e da história. Enredo com a cara da Unidos de Padre Miguel, com ancestralidade, religiosidade, cultura e força de mensagem. Milato apresentou a história com diversidade nas fantasias, produzindo a estética indígena como pano de fundo, mas não só trazendo uma coleção de penas e palhas, e sim soluções criativas e foco no encadeamento da história.
EVOLUÇÃO
Apesar de terminar com a cronometragem máxima permitida, a Unidos de Padre Miguel soube dosar bem a sua passagem pela Sapucaí. Grande, a escola sabia que o ritmo não poderia ser tão arrastado. Então, deu um sprint de maior energia no início e chegou bem ao final sem ter que correr. Na pista, do componente, o que se viu foi alegria, espontaneidade, mas muita garra. O sangue nos olhos, que me permita Betinha da Vigário, esteve presente neste desfile da comunidade da Vila Vintém. Mesmo em algumas alas em que a fantasia era mais volumosa e o cansaço parecia bater, os foliões mantiveram o ritmo e a intensidade na dança e na alegria.
Por fim, não foram identificados buracos, grandes espaçamentos ou alas se embolando durante o cortejo da UPM pela Sapucaí. A escola trouxe poucas alas coreografadas, que deram um brilho maior ao desfile sem prejudicar a espontaneidade do componente, além de estarem bem alinhadas com o contexto do enredo, como foi o caso da ala cênica “A Batalha de Tejucupapo”, que falava justamente do embate ocorrido nesse lugar contra os invasores holandeses. O figurino duplo trazia as mulheres lideradas por Clara Camarão e os soldados holandeses.
HARMONIA
Se estamos falando de uma escola que faz desfile de Grupo Especial, essa agremiação precisa ter um intérprete de elite no carnaval. E a Unidos de Padre Miguel tem. O multicampeão Bruno Ribas mais uma vez mostrou toda a sua qualidade para liderar o carro de som do Boi Vermelho da Zona Oeste, tendo a companhia, entre outras, da voz potente feminina de Lissandra Oliveira, que, inclusive, iniciou o desfile cantando o alusivo do samba.
Bruno, com sua voz sedosa, única, com uma extensão vocal que compreende ir facilmente do grave ao agudo, ajudou a impulsionar mais um samba da Unidos que passou muito forte na Avenida. E, se a presidente Lara Mara pediu para o folião da Unidos de Padre Miguel “botar para fu…”, a comunidade respondeu com muita garra, mais uma vez, cantando o samba durante todo o tempo com energia, correção e intensidade.
SAMBA-ENREDO
O samba dos compositores Thiago Vaz, Jefinho Rodrigues, W. Corrêa, Richard Valença, Miguel Dibo e Cabeça do Ajax segue a predestinação da escola para colocar grandes obras na Sapucaí. Se, desde o esquenta, Bruno Ribas colocou a régua lá no alto cantando a obra do ano passado, o samba-enredo deste ano não ficou aquém. Com o andamento um pouco mais à frente, sem atrapalhar a força da divisão rítmica e da profundidade da melodia, a obra rendeu melhor que no ensaio técnico, interagindo com o público e fazendo com que a escola pulsasse, vibrando muito forte pela Sapucaí.
Com um refrão de baixo mais forte, mais profundo, convocando o componente a lutar em versos como “Vai, meu Boi Vermelho, honre a tua história” e “Quantas vezes for preciso, haverá renascimento”, essa parte mexe com o componente e é, com certeza, a mais cantada com força pela agremiação. Já o refrão do meio, “Quando ecoa o tambor…”, tem muita musicalidade, ritmo e balanço, leva a dançar, e a bateria “Guerreiros”, de mestre Laion, ainda fortaleceu essa parte com uma bossa de toada indígena. Alto rendimento da obra na Sapucaí.
FANTASIAS
O conjunto estético desenvolvido por Lucas Milato apresentou volumetria, qualidade estética, leitura, criatividade, bom gosto e uso de materiais de excelente qualidade, além do cuidado nos detalhes, como a presença constante de adereços de mão e alto nível de acabamento dos figurinos. No início da escola, o carnavalesco mesclou o vermelho característico da Unidos de Padre Miguel e a estampa indígena, trazendo para a Sapucaí um tapete de grande volume de penas bem desenvolvidas com xilogravura indígena, que ajudavam a fazer da cabeça da escola um grande culto à cultura indígena e às origens da homenageada.
Destaque para a primeira ala, “Troncos Velhos”, pela riqueza de detalhes e pela volumetria da fantasia, que vinha antes do abre-alas. Depois, temos na Unidos a aparição de um dourado, às vezes mais predominante na fantasia, outras em contraste com cores mais claras, como o verde e o azul das baianas no figurino “Kunhã Clara Guerreira”, que trouxe como símbolo a própria Clara Camarão. O traje evocou o movimento circular das águas e das florestas – o azul das saias dialoga com a proteção da Mãe D’Água, enquanto os grafismos indígenas e as folhas da mata reforçam a ligação espiritual e ancestral dos potiguaras. No final, a predominância do verde quando o desfile encerra ao falar do encantamento de Clara e da espiritualidade indígena. Destaque para a fantasia “Jurema Sagrada”, da ala 15, e “Encantamento da Mata”, logo em seguida. Trabalho primoroso de Lucas Milato. Alta qualidade estética.
ALEGORIAS
A Unidos de Padre Miguel trouxe para este desfile um conjunto alegórico formado por três alegorias, e todas apresentaram alta qualidade de acabamento, boa leitura, criatividade, volumetria, traço limpo nas esculturas e consonância com a estética das alas que vinham antes ou depois. O carro abre-alas, “A Consagração de Kunhã-Eté”, representou o momento em que a heroína Clara Camarão passou a carregar a missão de ser guerreira revelada pelas forças encantadas e ancestrais. O carro era composto por um corpo cilíndrico representando o Rio Potengi em tons vermelhos e, sobre a base, uma sucessão de elementos míticos, traduzindo a relação entre o mundo real e o encantado. Além disso, a alegoria possuía movimento na cauda da criatura aquática que vinha na parte de trás.
A segunda alegoria, “A Batalha de Guararapes”, trouxe o cenário das guerras luso-brasileiras contra a ocupação holandesa no Nordeste. Plasticamente, o carro apresentou um cenário de guerra. Na frente, leões sangrando, significando a derrota dos invasores. Nas laterais, o exército luso-brasileiro, composto por portugueses e indígenas. Este carro apostou no dourado. Já a terceira alegoria, “Território Encantado”, apresentou Clara Camarão deixando o plano dos homens e adentrando o plano encantado. O carro traz o verde de uma terra de encantaria, com as matas. Toda a sua estrutura é tomada por troncos, cipós e raízes. Grandes cabeças indígenas compõem as laterais. No centro, no alto, um cocar e o corpo radiante de Clara pintado em seu novo plano. Talvez seja a melhor alegoria que vai passar pela Série Ouro, carro de altíssimo nível estético e de muito volume.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Guerreiros”, agora sob a coordenação de mestre Laion Jorge, trouxe a fantasia “Invasores Holandeses”, assumindo a forma dos exércitos flamengos, militares que ocuparam o Nordeste. A bateria levantou a Sapucaí fazendo coreografia, inclusive realizando o gesto da flecha no trecho do samba “e seja a flecha viva da memória”, além das bossas bem encaixadas na obra.
A rainha Dedê Marinho veio com a fantasia “Resistência Indígena”, com o vermelho tomando todo o figurino, como se a terra estivesse viva no corpo da rainha através de LEDs. Bruno Ribas tacou fogo na Sapucaí ao cantar o samba do ano passado, “Egbé Iyá Nassô”, no esquenta. A presidente Lara Mara inflamou a escola em seu discurso antes do samba, lembrando da força de renascimento do Boi Vermelho.
Terceira escola da noite da última sexta-feira, a União do Parque Acari abriu o desfile, em homenagem a Brasiliana, com uma ala que representou artistas precursores da brasilidade cênica e da dramaturgia brasileira: o Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias do Nascimento em 1944. Fundamental para a presença negra nos palcos, historicamente elitizados, o TEN transformou o teatro em instrumento de denúncia e afirmação racial, exaltando a cultura e a experiência negra e periférica em suas obras.
Estandarte de Ruth de Souza em ala que homenageia o Teatro Experimental do Negro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
A ala, vestida com uma bata estampada e adornada com motivos africanos como buzios e estampas Ankara e Bongolans, carrega também estandartes com imagens de Lea Garcia, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Rute de Souza. Os componentes da escola ressaltam a alegria de representarem os artistas.
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Silvio Ribeiro conheceu o Teatro Experimental do Negro através do enredo da agremiação e de sua participação na ala.
“Infelizmente não conhecia, apesar da minha idade, mas já tinha ouvido falar por alto sobre o Teatro Experimental do Negro. Agora procuro me aprofundar mais no conhecimento, porque como eu sou amante da história, estou até começando a me virar mais na história do negro. Isso vai ser bastante importante esse desfile também, porque agora está me dando essa consciência. Esses artistas que a escola representa, que eu já conhecia, como que eu estou contente de representar eles dentro desse estandarte”, contou ao CARNAVALESCO.
Silvio Ribeiro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Por outro lado, conhecendo Abdias do Nascimento, Rute de Souza e tantos outros ícones representados nos estandartes, Silvio se sente interpretando cada um deles.
“Eu sinto como se tivesse “incorporando” cada um desses personagens. Eu vou me sentir na avenida como se fosse um desses”, afirmou.
Já Cristiane de Souza, apaixonada por teatro, tinha conhecimento sobre o TEN antes mesmo do desfile, e reconhece a importância do teatro como instrumento popular de cultura.
Cristiane de Souza. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
“Eu sou apaixonada por teatro, independente de que teatro seja, teatro é sempre teatro. E exaltar a cultura nos tempos de hoje que todo mundo só pensa na internet, fica muito na tela, ir ao teatro é uma coisa… é um universo diferente, que não precisa ter muita grana. Tem peças populares, de fácil acesso pra quem tem menos grana, cultura para todo mundo”, disse.
Numa fantasia que representa tanta ancestralidade negra, o jovem Yuri Vinicius, 19 anos, sente o peso e responsabilidade de representar uma ala tão significativa.
“É algo forte. A gente vê tudo que foi construído na nossa parte teatral do nosso país, tudo que foi construído com muito orgulho de ser um povo brasileiro, de mostrar a nossa africanidade aqui no nosso país, que temos heranças. É muito divertido também. A gente está aqui levando essa energia e, claro, a gente também faz parte desse teatro. Também é uma responsabilidade grande, porque eu acho que não é qualquer um que pode colocar fantasia e sair desfilando. A gente tem que saber o que a gente está interpretando”, disse.
Yuri Vinicius. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Maria Clara Aguiar, de Brasília, veio ao Rio de Janeiro desfilar na Sapucaí pela primeira vez, trazida por uma amiga da agremiação. Emocionada, fala sobre a emoção de carregar um estandarte que representa Léa Garcia, e ressalta que a luta contra o racismo é de todos.
“Para mim representar mulheres fortes é sempre uma honra. O artista negro tem que ocupar os espaços que são dele, que são de direito. Isso é uma festa popular fortíssima, então ter um movimento forte como esse é tudo. É uma resistência gigantesca. Apesar de ser uma mulher branca, eu acho que a gente não pode se isentar. A gente tem que lutar contra, não é ficar ali em cima do muro, não. Tem que sempre ir contra”, afirmou.
Maria Clara. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Ao exaltar a negritude que ocupou espaços historicamente elitizados, Andrea Araújo, que é médica, compartilha a identificação com sua trajetória ao ver outros ícones negros em lugar de destaque e reconhecimento, apesar do racismo.
Andrea Araújo. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
“Eu sou uma negra que lutei muito pra me formar como médica e manter minha cultura. É difícil quando a gente vem de uma outra realidade, ascender socialmente. A gente encara muitos obstáculos, então eu tinha que estar nesse lugar de representatividade”, declarou.
A Unidos de Bangu transformou a Marquês de Sapucaí em território de memória e reverência na noite em que foi a quarta escola a desfilar pela Série Ouro. Com o enredo “As Coisas que Mamãe me Ensinou”, homenagem à cantora e compositora Leci Brandão, a agremiação levou para a avenida um desfile marcado por ancestralidade, força feminina e compromisso social. Na segunda alegoria, intitulada “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa”, a Velha Guarda ocupou o centro da cena, simbolizando a conexão entre Bangu e Mangueira sob o olhar de esculturas de Cartola, Dona Zica e Jamelão.
O carro representou o encontro da tradição da Zona Oeste com a da Zona Norte. Entre esculturas que remetiam aos pilares do samba mangueirense, os integrantes mais antigos da escola lembravam que ali estava a raiz — a memória viva que sustenta o presente.
Neusa, baluarte da agremiação Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Baluarte da agremiação, Neusa Oliveira, de 83 anos desfila desde criança e se emocionou ao falar da homenagem.
“Eu vi muita coisa nessa vida, muita vitória e muita dificuldade também. Ver a Bangu homenageando a Leci é uma emoção grande. Ela é Mangueira, mas virou mãe de todo mundo que ama o samba. Isso é bonito demais”, afirmou.
Ao comentar a presença simbólica dos ícones Verde e Rosa no carro, completou: “É como se eles estivessem olhando pela gente. Cartola, Dona Zica, Jamelão. Tudo isso é raiz. Dá até arrepio”, disse.
Maria do Carmo Jorge, de 60 anos Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Maria do Carmo Jorge, de 60 anos, está há uma década na escola e destacou o sentimento de união entre territórios.
“A Velha Guarda recebe com orgulho. É uma homenagem que une bairros, une comunidades”, afirmou. Sobre Leci, reforçou a admiração: “Ela é voz do povo, é coragem. Ela canta o que muita gente sente. Por isso a gente se rende”, concluiu.
Jackson dos Santos, de 72 anos. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Com 20 anos de desfile, Jackson dos Santos, de 72 anos, ressaltou o peso histórico do momento. “A Bangu já passou por muita coisa, e ver essa homenagem é sinal de maturidade. A gente reconhece quem construiu o samba”, afirmou. Cercado pelas esculturas, sentiu a força da tradição. “É como desfilar acompanhado de lendas. A gente sente uma força diferente na avenida”, disse.
Walmir Antônio, 66 anos FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Já Walmir Antônio, de 66 anos, que há 27 desfila pela escola, falou sobre o simbolismo de “vestir” a alma Verde e Rosa. “A gente veste o Verde e Rosa com dignidade. É respeito à história e à tradição”, afirmou. Para ele, a homenageada é incontestável. “A Leci é resistência, é luta, é talento. Não tem como não tirar o chapéu”, concluiu.
Sônia Maria, 79 anos Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Sônia Maria, 79 anos, há 10 desfiles na Bangu, resumiu o sentimento da ala. “A Velha Guarda recebe essa missão com carinho. Samba é união”, disse. Sobre a artista, reforçou: “A Leci é rainha porque é verdadeira. Ela canta com o coração”, afirmou.
Desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, com samba-enredo assinado por Dudu Nobre, Junior Fionda, Vou Pro Sereno, entre outros compositores, o desfile celebrou a trajetória de Leci Brandão como defensora da cultura popular, das raízes africanas e dos direitos sociais. Na segunda alegoria, porém, foi a Velha Guarda quem deu o tom mais profundo: entre memórias e esculturas sagradas do samba, a Bangu mostrou que tradição se reconhece, se respeita e se abraça.