Início Site Página 60

Ala coreografada da UPM representa vitória feminina em batalha contra holandeses

No Carnaval 2026, a Unidos de Padre Miguel, escola que é reconhecida por colocar mulheres em locais de destaques, levou à Sapucaí o enredo “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, idealizado pelo carnavalesco Lucas Milato, em homenagem à Clara Camarão, mulher indígena responsável por liderar as batalhas contra a invasão holandesa no século XV. 

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

A agremiação foi a quinta a desfilar nesta sexta-feira, reafirmando a importância de colocar mulheres em posições de protagonismo. Entre os momentos da história de Clara Camarão, houve a batalha Tejucupapo, em que, com pimenta e água fervendo, as mulheres, lideradas pela homenageada, vencem a tropa holandesa com auxílio de pimenta e água fervente, e é isso que a ala 12 apresenta em sua coreografia. 

Gabriela Coreografada UPM
Gabriela Lima. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A professora Gabriela Lima, 32 anos, está em seu segundo ano desfilando na agremiação e falou sobre a representação do enredo:

“Eu acho que é uma honra a gente poder estar aqui contando essas histórias que não costumam ser contadas nem por meios oficiais. O carnaval tem esse papel também de trazer aqui para a avenida, de mostrar para o Brasil, para o mundo todo essas histórias que muitas vezes não são contadas em outros lugares. Para a gente é uma honra poder estar reverenciando essa personagem, essa mulher forte, guerreira, como todas as mulheres da Unidos de Padre Miguel”. 

“Por ser uma escola que tem um protagonismo feminino também muito grande na liderança, a nossa presidente, que agora é presidente, mas já foi diretora de Carnaval, e são muitas mulheres em cargos de liderança também. Pra gente a Clara Camarão é uma inspiração, assim como as outras mulheres da Unidos de Padre Miguel. É só continuando essa história de mulheres guerreiras, que não começou hoje, vem lá de trás e a gente está podendo reescrever esse protagonismo feminino que sempre fez parte da nossa história”, disse Gabriela. 

Vanessa Coreografa UPM
Vanessa Barbosa. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Uma história construída a mais de uma década, Vanessa Barbosa, de 43 anos, vigilante, desfila na agremiação há 13 anos e falou sobre o processo de preparação física para esse momento:

“Foi árdua, a gente ensaiava de duas a três vezes por semana, fora os ensaios de rua, foi bem complicado, mas a galera conseguiu pegar a coreografia ‘legalzinho’. […] A nossa coreografia é uma guerra, as mulheres estão brigando para manter o lugar delas de origem e os homens são os soldados que estão nos impedindo, vai ser uma batalha mesmo na avenida, e ao meu ver vai ser muito legal e eu acho que a galera também vai gostar”. 

Ana Coreografada UPM
Ana Catarina. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A trancista, Ana Catarina, de 26 anos, está indo para o seu segundo ano desfilando com a agremiação e, para ela, representar a força da mulher em um cenário de batalha, foi o que mais chamou atenção dela: 

“É uma luta contra os homens e, no final, ver que a mulher tem essa força e a gente consegue lutar unidas, isso foi muito emocionante”.

“Eu me sinto muito bem representada e é interessante para mim porque eu não conhecia essa história. É gratificante, emocionante, muito bonito, orgulhosa pela minha escola ter escolhido, estar escolhendo mulheres para vir homenageando nesses últimos anos”, disse Ana sobre a escolha do enredo. 

Gabriel Coreografada UPM
Gabriel Alves. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Gabriel Alves, de 21 anos, repositor, desfila na Unidos de Padre Miguel a 2 anos e também falou sobre o processo de preparo físico:

“A gente já vem se preparando há alguns meses, desde julho, agosto. Todo um físico tem que ser mantido, tem que ter bom cardio, bom preparo, não pode dar bobeira. A academia tem que estar em dia pra aguentar, ainda mais que a gente é ala coreografada. A ala 12 vem representando uma ala coreografada. Exige muita dedicação, um bom respiro, uma boa coordenação, motor, tem que estar tudo em dia”.

“Elas estão vindo de camponesas e a gente está vindo de holandeses e ao longo do desfile a gente vai retratando essa batalha, então temos várias cenas de ação, várias cenas de luta. Representando bem esse momento da passagem e da vitória das meninas contra os holandeses”, concluiu Gabriel.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Vigário Geral no desfile no Carnaval 2026

0

Um desfile muito bom da bateria “Swing Puro” da Acadêmicos de Vigário Geral, dirigida por mestre Luygui. Um ritmo possante foi exibido, graças a uma afinação potente e pesada de surdos. O chapéu demasiado elevado dos ritmistas prejudicou a visão pela pista, dando trabalho extra a diretores de bateria prestativos e antenados. Esse fato fez com que muitos ritmistas desfilassem sem a espontaneidade ideal, já que tinham que se preocupar em visualizar as sinalizações da diretoria.

vigario geral desfile 2026 13

Na cabeça da bateria “Swing Puro”, uma boa ala de cuícas veio na frente do ritmo. Chocalhos de exímia qualidade tocaram juntos de um naipe de tamborins de virtude musical coletiva impressionante. O belo entrosamento musical entre tamborins e chocalhos foi o maior destaque do belo trabalho envolvendo as peças leves.

Na parte de trás do ritmo da Vigário, uma afinação potente e bastante pesada de surdos foi exibida. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza e precisão. Surdos de terceira de inegável qualidade ficaram responsáveis pelo balanço envolvente. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas bem consistente, que auxiliou no ritmo e em bossas, acentuando as levadas com eficiência. Ajudaram também no ótimo preenchimento dos médios, uma ala contendo taróis sólidos.

Bossas possantes se aproveitavam das nuances melódicas do samba da Vigário para consolidar seu ritmo. Tudo com bastante pressão sonora, por causa da pesada e impactante afinação das marcações. É possível dizer que a criação musical levou em conta um conceito contemporâneo para dar vida aos arranjos, diante da complexidade rítmica de alguns, além da dificuldade de execução elevada. Mesmo difíceis, as execuções em módulos ocorreram sem problemas, graças à qualidade técnica acima da média dos ritmistas.

Uma apresentação muito boa e poderosa da bateria “Swing Puro” da Vigário, dirigida por mestre Luygui. Um ritmo com potência sonora dos surdos foi exibido, tudo com uma criação musical de conceito bem contemporâneo. A “Tropa do Amassa” deu seu recado com categoria, realizando boas apresentações no primeiro e no segundo módulo de julgadores. A exibição na última cabine (dupla) foi fabulosa, arrancando aplausos dos julgadores, evidenciando o grande desfile da bateria da Vigário.

Freddy Ferreira analisa a bateria da União da Ilha no desfile no Carnaval 2026

0

Um desfile espetacular da bateria da União da Ilha do Governador, comandada por mestre Marcelo Santos. Um ritmo bem equilibrado, bastante enxuto e muito bem equalizado. A equalização privilegiada de timbres, proporcionada por uma afinação de surdos acima da média, permitiu uma fluência entre os mais diversos naipes da “Baterilha”.

desfile 2026 16 1

Na parte da frente do ritmo da tricolor insulana, um bom naipe de cuícas tocou junto de agogôs sublimes, que executaram a convenção pautada pela melodia do samba da Ilha com perfeição. Um naipe de chocalhos tecnicamente acima da média se exibiu interligado a uma ala de tamborins de imensa qualidade musical. O belíssimo casamento rítmico entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto do trabalho irretocável das peças leves.

Na cozinha da “Baterilha”, uma afinação poderosa e potente de surdos foi notada, imprimindo um groove fabuloso ao ritmo insulano. Marcadores de primeira e de segunda foram precisos e seguros. Surdos de terceira deram um balanço bastante envolvente, valorizando o belo trabalho dos graves. Uma ala de repiques bem coesa e técnica tocou junto de caixas de guerra impressionantes, com sua batida rufada clássica ressoando pela Avenida como se fosse uma só. Um espetáculo à parte o naipe uníssono de caixas da União da Ilha.

Bossas bem vinculadas as nuances melódicas da obra da Ilha foram exibidas com perfeição nas cabines. Sempre pautadas pelas variações do samba, mostraram impacto da pressão sonora de surdos, além de uma acentuação privilegiada de um naipe de caixas maravilhoso, ajudando a rechear as camadas de médios com muita propriedade nos arranjos. A boa conversa rítmica do arranjo do final da segunda que descamba no estribilho merece exaltação musical, graças a um movimento simples, mas preciso de surdos que marcavam igual ao coração, conforme pedia o samba.

Uma apresentação grandiosa da historicamente famosa “Baterilha”, dirigida pelo mestre Marcelo Santos. Um ritmo insulano com ótima fluência entre os naipes e com bossas conectadas ao samba foi exibido. Uma boa e enxuta apresentação na primeira cabine iniciou o desfile em alto estilo. Uma apresentação muito boa no segundo módulo, que só não foi superior a exibição fantástica na última cabine. Desfile para a “Baterilha” gabaritar o quesito com louvor.

Visual futurista e bateria segura garantem brilho da Ilha, mas escola enfrenta obstáculos técnicos na evolução

0

A União da Ilha do Governador cruzou a Marquês de Sapucaí como a sexta agremiação da primeira noite de desfiles. Com o enredo “Viva o hoje! O amanhã? Fica pra depois!”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola não apenas apresentou um tema; ela propôs um manifesto contra a ansiedade dos novos tempos, buscando no brilho dos astros e na força do subúrbio a justificativa para a celebração imediata. A agremiação entregou um conjunto plástico criativo, coroado por uma comissão de frente teatral e um casal de mestre-sala e porta-bandeira que flutuou em tons de prata.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Entretanto, se o enredo pregava o “viva o hoje”, o rigor do cronômetro e a organização da pista foram os grandes vilões da jornada. Entre o brilho de uma Rainha de Bateria resiliente e o simbolismo emocionante do encontro entre gerações, a escola deixou pelo caminho pontos preciosos em evolução e harmonia, evidenciados por buracos no cortejo e um canto que, embora correto, não atingiu a explosão necessária para contagiar a avenida em sua totalidade.

COMISSÃO DE FRENTE

A abertura da União da Ilha do Governador foi um mergulho no Rio de Janeiro do início do século passado, sob a execução coreográfica de Junior Scapin. A comissão de frente utilizou o elemento cenográfico “O Observatório da Avenida Central”, inspirado nos extintos coretos da época para narrar um momento histórico em que os olhos da cidade estavam vidrados no céu, em uma moderna Babel tomada pelo frenesi da passagem do cometa mais famoso do universo.

desfile 2026 05 1

Diferente de interpretações iniciais do CARNAVALESCO, a performance não tratava de “mensageiros”, mas sim da representação da própria sociedade da época e seus desejos proibidos, retraídos e escondidos. Diante do medo coletivo de um possível fim do mundo naquele dia, esses desejos foram expostos em praça pública através de uma libertação súbita. Na Avenida, os 14 bailarinos iniciaram a apresentação com passos marcantes e dinâmicos em elegantes figurinos dourados, remetendo à arquitetura eclética e à sofisticação daquele período.

O elemento central da narrativa é o diário sendo aberto para contar segredos. A encenação dos três bailarinos em roupas íntimas, portanto, simboliza a exposição desses segredos sexuais e a queda das máscaras sociais diante da efemeridade da vida. O ápice da apresentação foram faíscas brilhantes disparadas do elemento cenográfico e um foguete que subiu ao céu, celebrando essa catarse coletiva sob o rastro do cometa.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, João Oliveira e Duda Martins, surgiu blindado por um figurino inteiramente prateado, evocando a luz fria, porém intensa, dos cometas. O bailado foi uma lição de etiqueta carnavalesca. João Oliveira executou um cortejo tradicional, em que cada giro servia como escudo protetor para o pavilhão.

desfile 2026 08 1

Duda Martins, com uma postura altiva e segura, demonstrou controle técnico. Seus giros, potentes e precisos, não permitiram que o pavilhão enrolasse em nenhum momento, mantendo a bandeira desfraldada. A conexão visual entre os dois foi o ponto alto, revelando uma sintonia lapidada.

HARMONIA E SAMBA

O samba-enredo foi conduzido com garra pelo intérprete Tem-Tem Jr., que encontrou na bateria do mestre Marcelo Santos o suporte ideal. A bateria, aliás, foi o relógio mais preciso da escola, com um trabalho consistente e bossas que respeitavam a melodia, dando o tom da resistência.

desfile 2026 16 1

No entanto, a harmonia vocal da escola apresentou um comportamento binário. Enquanto algumas alas da comunidade sustentavam o canto com vigor, percebeu-se que, em outras, houve um silêncio que contrastava com a potência da obra. Faltou aquela explosão de canto uníssona, necessária para elevar a harmonia ao patamar de nota máxima absoluta, embora a qualidade musical da ala de intérpretes tenha sido inquestionável.

EVOLUÇÃO

O quesito evolução foi o calcanhar de Aquiles da agremiação. O início fluido e empolgante deu lugar a certa desorganização conforme a escola avançava.

Próximo ao terceiro módulo de julgamento, as alas perderam o espaçamento ideal, criando um efeito visual de aglomeração em alguns pontos e rarefação em outros.

desfile 2026 12 1

O erro mais grave ocorreu diante do segundo módulo, onde um buraco se abriu à frente da segunda alegoria, comprometendo a continuidade visual do desfile. O excesso de pessoas de apoio em determinados setores também prejudicou a estética da evolução, tornando o passo da escola ora rígido, ora apressado para cumprir o cronômetro.

FANTASIAS E ALEGORIAS

O abre-alas, em azul profundo com detalhes dourados, trouxe uma volumetria impressionante, embora um problema estrutural na parte superior, que apresentava um aspecto de “afundamento”, tenha gerado preocupação técnica.

desfile 2026 10 1

O segundo carro foi uma celebração à opulência, com cores claras e acabamento impecável, servindo de palco para destaques luxuosos. Já a terceira alegoria rompeu com a tradição ao mergulhar em uma paleta de cores neon e prata, desenhando um futuro lúdico e criativo. Nas alas, a utilização de cores primárias e o uso de esplendores com grande volumetria garantiram um efeito de mar de fantasias.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Gracyanne Barbosa deu uma aula de profissionalismo. Mesmo calçando tênis devido a uma ruptura de tendão, sua presença foi magnética. O carisma e a técnica de samba no pé compensaram a ausência do salto alto, provando que a realeza está na postura, e não no calçado.

desfile 2026 15 1

Por fim, a última ala da escola entregou o golpe de mestre emocional: a união entre as crianças da escola e a Velha Guarda. Ver os guardiões da memória caminhando lado a lado com a promessa do futuro foi a materialização perfeita do enredo. A Ilha mostrou que, embora o relógio da avenida possa ser cruel, a alma da comunidade é atemporal.

Entre o medo e o encanto: a Ala 19 da Unidos de Padre Miguel leva o sobrenatural à Avenida

0

Nem só de vermelho e branco se constrói um desfile. Em meio às cores que definem a identidade da Unidos de Padre Miguel, uma ala rompe o padrão cromático e provoca impacto imediato na Sapucaí.

A Ala 19, “O Gritador”, surge no setor do Encantamento como um ponto de tensão na narrativa de “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”. Com a fantasia em preto e branco, caveira no topo do estandarte e estética sombria, a ala representa uma entidade do folclore nordestino: um espírito que grita na noite e habita o limiar entre a vida e a morte. É Carnaval. É festa. Mas também é memória, respeito e espiritualidade.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

IMG 4210
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A presença da ala dialoga com o período retratado no enredo, a invasão holandesa e o contexto de guerra que marcou a história de Clara Camarão. O brilho não apaga o luto. O espetáculo não esquece as perdas.

José Feital, de 65 anos, aposentado e há 14 anos na escola, descreve o impacto já na concentração. “Foi inusitado chegar na concentração com essa fantasia. As crianças ficam assustadas e encantadas ao mesmo tempo. Tirei foto com o público, mas é importante explicar que estamos representando uma lenda e que isso faz parte do enredo da Unidos de Padre Miguel, que foi chefiado por uma líder guerreira. É preciso ter muita coragem para vestir esse manto, porque precisamos representar com orgulho. Na época da invasão dos holandeses houve muita morte, e estamos aqui representando essas perdas. Vamos brilhar e fazer acontecer a vitória da escola”.

Jose UPM
José Feital. Foto: Juliane Barbosa

Luciana Santana, 42 anos, vive sua estreia na escola e sente o peso simbólico da fantasia. “As pessoas ficam assustadas com a fantasia, mas encantadas ao mesmo tempo. Desfilar na avenida com toda essa montagem é uma emoção.”

Lucina UPM
Luciana Santana. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Pamela Reis, 43 anos, autônoma e há dois anos na Unidos, destacou a curiosidade do público diante da quebra estética. “A reação é engraçada. As pessoas perguntam qual é a escola, porque foge das cores tradicionais. A gente explica a história e elas gostam demais. Não precisa de preparação psicológica para vestir essa fantasia. E hoje ainda é sexta-feira 13, as caveirinhas vêm aí para fazer sucesso na avenida”.

Pamela UPM
Pâmela Reis. Foto: Juliane Barbosa

Já Ewerton da Silveira, 50 anos, há 12 anos na escola, chama atenção para o impacto visual e físico da ala. “A coisa mais luxuosa é a reação das pessoas. Ninguém acredita no que está vendo, é a maior alegria. Para alguns exige preparação física para sustentar a fantasia, o estandarte da caveira e atravessar a avenida”.

Ewerton UPM
Ewerton da Silveira. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O contraste que fortalece o enredo, a Ala 19 quebra o vermelho dominante e mergulha o público em uma atmosfera de respeito ao sobrenatural. O preto e branco simboliza o limiar entre vida e morte, presença e ausência, medo e fascínio.

No Carnaval, onde a alegria costuma ser a protagonista, “O Gritador” lembra que a história também é feita de dor, resistência e memória. A guerra, o sangue derramado e as perdas fazem parte da construção do povo que hoje celebra sua identidade.

Ao destoar das cores da escola, a ala não enfraquece a narrativa, e sim aprofunda.

Entre caveiras e gritos simbólicos, a Unidos de Padre Miguel mostra que o Carnaval também pode ser silêncio, sombra e reverência. Porque celebrar a ancestralidade é, acima de tudo, não esquecer. E na Avenida, até o medo pode virar encanto.

Ala “A Voz do Morro é de Criança”, da Unidos de Bangu, ecoa um grito de resistência e fé nas novas gerações pela Sapucaí

0

Quarta escola a desfilar na Sapucaí na noite de abertura da Série Ouro, na sexta-feira, na Sapucaí, a Unidos de Bangu apostou na força das novas gerações para ecoar a mensagem de um dos maiores hinos da música popular brasileira. A ala infantil número 08, intitulada “A Voz do Morro é de Criança”, colocou pequenos sambistas para cantar “Zé do Caroço”, canção mais emblemática de Leci Brandão, homenageada pelo enredo.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

ALA DAS CRIANCAS DA UNIDOS DE BANGU
Ala das crianças da Unidos de Bangu
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Com fantasias que remetem ao serviço de alto-falante do Morro do Pau da Bandeira, a Vermelha e Branca transformou as crianças em porta-vozes de um legado que atravessa gerações, provando que, quando o morro fala, o futuro escuta.

A ideia da ala infantil surgiu para simbolizar o contraste entre a letra forte e a política da música com a inocência das crianças que a interpretam. Para Maria Valma, de 70 anos, coordenadora da ala, ver os pequenos entoando um hino de resistência na avenida é motivo de emoção e responsabilidade.

“É uma grande felicidade para nós, pois assim instigamos um entusiasmo neles, para que eles cresçam e desenvolvam o desejo de se engajar nas pautas que acreditam”, acredita.

Ela também falou sobre como conseguiu transmitir a mensagem de mobilização comunitária a uma geração tão conectada às telas.

“Eu acho que, apesar de elas viverem sob telas, as nossas crianças já estão entendendo a mensagem que estamos passando de forma clara. É muito importante esse desfile para elas nesse quesito. E o objetivo é que elas continuem aprendendo e se posicionando pelo que acreditam”, pontua Maria.

O megafone como a arma mais poderosa

Na concentração, as crianças falaram com brilho nos olhos sobre a responsabilidade de representar a escola e a homenageada, e deixaram a emoção tomar conta de si, da forma mais genuína.

IMG 5921
Maria Eduarda, de 12 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Maria Eduarda, de 12 anos, moradora de Bangu e desfilando pela primeira vez na escola, contou ao CARNAVALESCO o que gostaria de gritar em um megafone para todo mundo ouvir.

“Eu falaria que a escola veio muito bonita, muito arrumada, com tudo muito organizado. Vamos receber a nossa Leci Brandão como ela merece, com a nossa música e o nosso enredo maravilhoso. Que a gente consiga, este ano, aumentar a nossa escola”, conta.

CRIANCAS BANGU
Daniele Coelho, 14 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Daniele Coelho, de 14 anos, compartilhou a emoção do momento que está vivendo, provando que criar sonhos nas crianças é transformador.

“Nossa fantasia vem representando o Morro da Mangueira. Fiquei muito feliz de estar participando desse dia. A minha primeira grande experiência de vida. Quero lutar para que eu e todos os jovens possam viver momentos históricos como esse também. Que todos curtam bastante o Carnaval!”.

ISADORA TERESA
Isadora Tereza, de 13 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Isadora Tereza, de 13 anos, também compartilhou a expectativa da estreia na avenida.

“Estou muito animada e muito ansiosa para ver tudo o que vai acontecer no meu primeiro desfile na Bangu em homenagem à Leci, que conheci pela escola”, contou ela, provando que a missão da escola também é levar cultura e conhecimento a uma nova geração.

GABRIELA VITORIA
Gabriela Vitória de Oliveira, 10 anos
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já Gabriela Vitória de Oliveira, 10 anos, se emocionou ao falar da estreia e deixou uma linda mensagem com reflexão, bem madura para a sua idade.

“Eu diria para todos curtirem bastante a vida, porque ela é curta. Enquanto eu puder estar vivendo, eu vou curtir mesmo momentos como hoje. Estou até arrepiada. É a primeira vez. Faltam alguns minutos para começar e eu espero que a Unidos de Bangu ganhe”, afirma.

AS AMIGAS CAMILE VITORIA
As amigas Camile Vitoria, Daniele Chaves e Maria Luiza
Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Camile Vitória, 14 anos, que também desfila pela primeira vez e sonha em seguir carreira no Carnaval, foi direta e expressou apenas um desejo: “ É Unidos de Bangu. É sobre isso. Somos unidos até morrer. Estamos aqui para ver nossa escola crescer”.

Daniele Chaves, 11 anos, e Maria Luísa, 12 anos, moradora de Padre Miguel, que já desfilou na Estrelinha da Mocidade e agora integra a ala da Bangu, concordam com a amiga e em tom de alegria e divertimento, gritam em tom de torcida: “Para cima, Bangu!”.

Entre megafones cenográficos e vozes ainda em formação, a ala 08 mostra que a resistência também pode ser cantada com pureza.

Colorado do Brás 2026: Galeria de fotos do desfile

0

Fantasias com recortes de jornal relembram entrevista histórica de Leci Brandão e transforma a avenida em palco de resistência e liberdade

0

A Unidos de Bangu, quarta escola a desfilar na primeira noite da Série Ouro do carnaval carioca, na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, emocionou o público com o enredo “Coisas que Mamãe me Ensinou”, que celebra a trajetória da cantora e compositora Leci Brandão, de 81 anos, símbolo de resistência e consciência da luta do povo preto.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Jimena Julia Jorge Bangu
Jimena, Júlia e Jorge Abreu. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Um dos destaques do desfile foi a Ala 18 “A Coragem de Ser Quem Se É”, inspirada no histórico Jornal O Lampião da Esquina, no qual Leci assumiu publicamente sua homossexualidade em 1978, em plena ditadura militar. Com fantasias impactantes, repletas de recortes com manchetes de jornal, a ala transformou a avenida em um grito coletivo de liberdade e orgulho.

Moradora de Bangu, a fisioterapeuta Luíza Fonseca, de 27 anos, desfilou pela primeira vez ao lado do noivo, Igor Barbosa, 28, morador de Olaria, que já desfilou outras vezes na Grande Rio e na Imperatriz. Para eles, vestir a fantasia foi dar continuidade a um grito que atravessa décadas.

“Acho que não tem nada que represente mais essa ala do que a liberdade. Liberdade por estarmos aqui, bem, felizes, fazendo o que a gente ama, afirmou Igor.

Luiza Igor Bangu
Luiza e Igor. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

“Eu acho que a nossa missão hoje é dar continuidade desse grito que a gente deu lá atrás e que até hoje a gente continua buscando e lutando por esses direitos”, completou Luíza.

Quanto a importância de trazer à maior vitrine do mundo a pauta da homossexualidade, que, nos anos 70, só era trata em um jornal de pequena circulação, ela fez questão de opinar.

“É de total importância, pois muita gente não tem nem conhecimento de que isso já acontecia lá atrás, em uma época tão importante. E continuar dando voz e hoje em dia mais visibilidade para a causa que, mesmo depois de tanto tempo, é tão marginalizada, é necessário”, afirmou.

Igor concordou com a noiva: “Acho que precisamos continuar batendo nessa tecla até a gente conseguir ter total liberdade para ser e fazer tudo o que queremos”. 

Também estreante na avenida, Michele Ermenegildo de Oliveira, de 44 anos, moradora de Bangu, escolheu a ala para viver o momento ao lado da namorada, Rosi da Silva, 46, de Santa Cruz, orientadora educacional, que também desfilou pela primeira vez. Michele se identifica com a luta de Leci pela liberdade de ser uma pessoa LGBT.

Michele Rosi Bangu
Michele e Rosi. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

“Hoje eu me encontro na mesma situação que ela, porque tenho uma companheira que está desfilando junto comigo. Eu estou muito feliz de realizar esse sonho ao lado dela. Esse desfile significa o nosso grito de resistência”, declarou.

Ao imaginar uma manchete sobre o momento, Michele declarou seu amor pela escola.

“Seria a de uma pessoa que nunca entrou em uma avenida e está se sentindo muito realizada, representando a escola do coração, que é a Bangu”. 

E, se pudesse gritar algo na Sapucaí, não hesitou em responder: “Respeito! Pediria que houvesse respeito às escolhas de cada um. Seria um mundo muito melhor”.

Diretamente do Texas, onde mora com a família há 27 anos, o executivo Jorge Abreu voltou ao Brasil para desfilar na Bangu ao lado da esposa, Jimena Abreu, 49, e da filha norte-americana Júlia, de 24 anos.

Para Jorge, vestir a fantasia ainda representa um ato político: “É um ato de coragem e também de apoio. Todos os tipos de pessoas têm que ter um lugar nesse planeta. É importante a gente apoiar uns aos outros em todos os âmbitos”. 

Sobre o clima do desfile, ele avaliou: “Eu acho que é a combinação de resistência e alegria. O samba é lindo e a fantasia aqui está muito linda, está todo mundo bem animado. Eu acho que desfilar hoje vai ser bem bacana”. 

Já quanto a sua manchete, ele brincou: “Jorginho pisa pela primeira vez na Sapucaí”. 

Jimena também realizou um sonho antigo, que era o de desfilar na Marquês de Sapucaí. “Um sonho de criancinha, que estou realizando hoje. Estou representando a minha família. Minha mãe nasceu em Bangu. Estou muito feliz de estar aqui por ela”, contou.

Já Júlia destacou a importância histórica da pauta para a causa LGBT.

“É tão importante ainda hoje, mesmo que na época da ditadura fosse ainda mais difícil. Ninguém falava sobre isso. As pessoas existiam, mas era muito tabu. Ninguém falava disso porque era ruim. Mesmo agora, ainda tem um monte de pessoas no mundo que moram em lugares onde não é permitido ser homossexual. Ter  muma ala e um desfile de carnaval que está dando visibilidade e importância para isso é muito legal. Eu fiquei muito feliz quando soube que eu seria parte desse desfile A avenida precisa desses gritos de resistência. O mundo não está perfeito ainda. Mas carnaval é sempre alegria e vamos também comemorar tudo o que já foi conquistado pela comunidade LGBT”. 

Com recortes de jornal estampados no corpo e coragem estampada na alma, a Ala 18 transformou a Sapucaí em manchete viva: a de que ser quem se é continua sendo, acima de tudo, um ato de resistência e também de celebração.

Vigário Geral 2026: Galeria de fotos do desfile

0

Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Padre Miguel no desfile no Carnaval 2026

0

Um desfile sublime da bateria “Guerreiros” da Unidos de Padre Miguel, na estreia de mestre Laion Jorge no Boi Vermelho da Vila Vintém. Um ritmo enxuto, equilibrado e muito bem equalizado foi exibido. Execuções de bossas em módulo foram simplesmente ovacionadas, num desfile que pode ser considerado, sobretudo, energético.

upm desfile 2026 16

Na cabeça da bateria “Guerreiros”, uma ala de cuícas sólida tocou junto de um bom naipe de agogôs, que executou um desenho rítmico nas nuances da bela obra da escola da Vila Vintém. Uma ala de chocalhos de nítida virtude técnica se exibiu de modo entrelaçado com um naipe de tamborins de imensa qualidade coletiva. O belíssimo casamento musical entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto do destacado trabalho envolvendo as peças leves do Boi Vermelho.

Na parte de trás do ritmo da UPM, uma afinação privilegiada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram firmes, mas bastante precisos. Surdos de terceira com balanço encantador ajudaram no belo trabalho dos graves. Uma ala de repiques coesa tocou junto de um naipe de caixas espetacular, auxiliando de forma luxuosa no preenchimento musical dos médios.

Bossas profundamente conectadas à melodia do samba, aproveitaram as variações para consolidar seu ritmo. Além de boa musicalidade, os arranjos também exibiram uma consistente pressão sonora, provocada pela potente afinação de surdos. Num arranjo mais dançante, toda a bateria “Guerreiros” se posiciona de um só lado (posterior a cabine), reverenciando júri e público. A bossa em questão foi muito aplaudida, gerando comoção popular sempre que apresentada. Outra paradinha ovacionada era a do estribilho, onde ritmistas movimentavam os braços e depois faziam sinal de flecha, como o samba pede. A retomada era com pressão sonora e recebeu interação popular sempre que exibida.

Uma grande apresentação da bateria “Guerreiros” da UPM, na estreia de mestre Laion no Boi Vermelho. Um ritmo bastante equilibrado e com equalização de timbres bem privilegiada. Após uma exibição muito boa da primeira cabine, a bateria da Unidos seguiu sendo muito aplaudida, agora por todo o júri, numa apresentação energética no segundo módulo. Na última cabine (dupla) de julgadores, mais uma bela apresentação para coroar um belo desfile da bateria “Guerreiros”.