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Negritudes de Acari: Componentes se reconhecem em artistas do Teatro Experimental do Negro

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Terceira escola da noite da última sexta-feira, a União do Parque Acari abriu o desfile, em homenagem a Brasiliana, com uma ala que representou artistas precursores da brasilidade cênica e da dramaturgia brasileira: o Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias do Nascimento em 1944. Fundamental para a presença negra nos palcos, historicamente elitizados, o TEN transformou o teatro em instrumento de denúncia e afirmação racial, exaltando a cultura e a experiência negra e periférica em suas obras.

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Estandarte de Ruth de Souza em ala que homenageia o Teatro Experimental do Negro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A ala, vestida com uma bata estampada e adornada com motivos africanos como buzios e estampas Ankara e Bongolans, carrega também estandartes com imagens de Lea Garcia, Abdias do Nascimento, Haroldo Costa e Rute de Souza. Os componentes da escola ressaltam a alegria de representarem os artistas.

Estandartes Ala 1 Acari
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Silvio Ribeiro conheceu o Teatro Experimental do Negro através do enredo da agremiação e de sua participação na ala.

“Infelizmente não conhecia, apesar da minha idade, mas já tinha ouvido falar por alto sobre o Teatro Experimental do Negro. Agora procuro me aprofundar mais no conhecimento, porque como eu sou amante da história, estou até começando a me virar mais na história do negro. Isso vai ser bastante importante esse desfile também, porque agora está me dando essa consciência. Esses artistas que a escola representa, que eu já conhecia, como que eu estou contente de representar eles dentro desse estandarte”, contou ao CARNAVALESCO.

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Silvio Ribeiro. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Por outro lado, conhecendo Abdias do Nascimento, Rute de Souza e tantos outros ícones representados nos estandartes, Silvio se sente interpretando cada um deles.

“Eu sinto como se tivesse “incorporando” cada um desses personagens. Eu vou me sentir na avenida como se fosse um desses”, afirmou.

Já Cristiane de Souza, apaixonada por teatro, tinha conhecimento sobre o TEN antes mesmo do desfile, e reconhece a importância do teatro como instrumento popular de cultura.

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Cristiane de Souza. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu sou apaixonada por teatro, independente de que teatro seja, teatro é sempre teatro. E exaltar a cultura nos tempos de hoje que todo mundo só pensa na internet, fica muito na tela, ir ao teatro é uma coisa… é um universo diferente, que não precisa ter muita grana. Tem peças populares, de fácil acesso pra quem tem menos grana, cultura para todo mundo”, disse.

Numa fantasia que representa tanta ancestralidade negra, o jovem Yuri Vinicius, 19 anos, sente o peso e responsabilidade de representar uma ala tão significativa.

“É algo forte. A gente vê tudo que foi construído na nossa parte teatral do nosso país, tudo que foi construído com muito orgulho de ser um povo brasileiro, de mostrar a nossa africanidade aqui no nosso país, que temos heranças. É muito divertido também. A gente está aqui levando essa energia e, claro, a gente também faz parte desse teatro. Também é uma responsabilidade grande, porque eu acho que não é qualquer um que pode colocar fantasia e sair desfilando. A gente tem que saber o que a gente está interpretando”, disse.

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Yuri Vinicius. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Maria Clara Aguiar, de Brasília, veio ao Rio de Janeiro desfilar na Sapucaí pela primeira vez, trazida por uma amiga da agremiação. Emocionada, fala sobre a emoção de carregar um estandarte que representa Léa Garcia, e ressalta que a luta contra o racismo é de todos.

“Para mim representar mulheres fortes é sempre uma honra. O artista negro tem que ocupar os espaços que são dele, que são de direito. Isso é uma festa popular fortíssima, então ter um movimento forte como esse é tudo. É uma resistência gigantesca. Apesar de ser uma mulher branca, eu acho que a gente não pode se isentar. A gente tem que lutar contra, não é ficar ali em cima do muro, não. Tem que sempre ir contra”, afirmou.

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Maria Clara. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Ao exaltar a negritude que ocupou espaços historicamente elitizados, Andrea Araújo, que é médica, compartilha a identificação com sua trajetória ao ver outros ícones negros em lugar de destaque e reconhecimento, apesar do racismo.

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Andrea Araújo. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu sou uma negra que lutei muito pra me formar como médica e manter minha cultura. É difícil quando a gente vem de uma outra realidade, ascender socialmente. A gente encara muitos obstáculos, então eu tinha que estar nesse lugar de representatividade”, declarou.

Velha Guarda da Bangu exalta Leci sob a proteção dos ‘santos’ da Mangueira na Sapucaí

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A Unidos de Bangu transformou a Marquês de Sapucaí em território de memória e reverência na noite em que foi a quarta escola a desfilar pela Série Ouro. Com o enredo “As Coisas que Mamãe me Ensinou”, homenagem à cantora e compositora Leci Brandão, a agremiação levou para a avenida um desfile marcado por ancestralidade, força feminina e compromisso social. Na segunda alegoria, intitulada “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa”, a Velha Guarda ocupou o centro da cena, simbolizando a conexão entre Bangu e Mangueira sob o olhar de esculturas de Cartola, Dona Zica e Jamelão.

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O carro representou o encontro da tradição da Zona Oeste com a da Zona Norte. Entre esculturas que remetiam aos pilares do samba mangueirense, os integrantes mais antigos da escola lembravam que ali estava a raiz — a memória viva que sustenta o presente.

NEUZA DA SILVA
Neusa, baluarte da agremiação
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Baluarte da agremiação, Neusa Oliveira, de 83 anos desfila desde criança e se emocionou ao falar da homenagem.

“Eu vi muita coisa nessa vida, muita vitória e muita dificuldade também. Ver a Bangu homenageando a Leci é uma emoção grande. Ela é Mangueira, mas virou mãe de todo mundo que ama o samba. Isso é bonito demais”, afirmou.

Ao comentar a presença simbólica dos ícones Verde e Rosa no carro, completou: “É como se eles estivessem olhando pela gente. Cartola, Dona Zica, Jamelão. Tudo isso é raiz. Dá até arrepio”, disse.

MARIA DO CARMO JORGE
Maria do Carmo Jorge, de 60 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Maria do Carmo Jorge, de 60 anos, está há uma década na escola e destacou o sentimento de união entre territórios.

“A Velha Guarda recebe com orgulho. É uma homenagem que une bairros, une comunidades”, afirmou. Sobre Leci, reforçou a admiração: “Ela é voz do povo, é coragem. Ela canta o que muita gente sente. Por isso a gente se rende”, concluiu.

JACKSON DOS SANTOS
Jackson dos Santos, de 72 anos.
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Com 20 anos de desfile, Jackson dos Santos, de 72 anos, ressaltou o peso histórico do momento. “A Bangu já passou por muita coisa, e ver essa homenagem é sinal de maturidade. A gente reconhece quem construiu o samba”, afirmou. Cercado pelas esculturas, sentiu a força da tradição. “É como desfilar acompanhado de lendas. A gente sente uma força diferente na avenida”, disse.

WALMIR ANTONIO
Walmir Antônio, 66 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Já Walmir Antônio, de 66 anos, que há 27 desfila pela escola, falou sobre o simbolismo de “vestir” a alma Verde e Rosa. “A gente veste o Verde e Rosa com dignidade. É respeito à história e à tradição”, afirmou. Para ele, a homenageada é incontestável. “A Leci é resistência, é luta, é talento. Não tem como não tirar o chapéu”, concluiu.

SONIA MARIA
Sônia Maria, 79 anos
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Sônia Maria, 79 anos, há 10 desfiles na Bangu, resumiu o sentimento da ala. “A Velha Guarda recebe essa missão com carinho. Samba é união”, disse. Sobre a artista, reforçou: “A Leci é rainha porque é verdadeira. Ela canta com o coração”, afirmou.

Desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, com samba-enredo assinado por Dudu Nobre, Junior Fionda, Vou Pro Sereno, entre outros compositores, o desfile celebrou a trajetória de Leci Brandão como defensora da cultura popular, das raízes africanas e dos direitos sociais. Na segunda alegoria, porém, foi a Velha Guarda quem deu o tom mais profundo: entre memórias e esculturas sagradas do samba, a Bangu mostrou que tradição se reconhece, se respeita e se abraça.

União da Ilha 2026: Galeria de fotos do desfile

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos de Bangu no desfile no Carnaval 2026

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Um ótimo desfile da bateria “Caldeirão da Zona Oeste” (CZO) da Unidos de Bangu, na estreia do experiente mestre Dinho na agremiação. Um ritmo equilibrado, com andamento confortável e bossas pautadas pela simplicidade musical foi exibido.

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Na parte da frente da bateria da Unidos de Bangu, um naipe de cuíca ressonante se exibiu junto de uma ala de agogôs sólida, que pontuou as nuances melódicas através de sua convenção. Um naipe de chocalhos com boa técnica tocou demonstrando entrosamento com uma ala de tamborins de boa coletividade, que efetuou um desenho rítmico, baseado nas variações na melodia do samba.

Na cozinha da bateria CZO, uma afinação muito boa de surdos foi percebida, dando impacto sonoro nítido aos potentes graves. Surdos de terceira deram um balanço envolvente ao miolo do ritmo. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas de guerra com bom volume.

Bossas com boa musicalidade ajudaram a impulsionar a obra da escola, além de auxiliar na evolução dos componentes. Boa conversa rítmica no estribilho serviu para atrelar a africanidade sempre presente na carreira da homenageada, Leci Brandão. De uma sagacidade ímpar a nuance rítmica que exibiu uma levada de Mangueira dentro do final da segunda do samba, num arranjo sutil, mas com sonoridade impactante. Uma criação musical pautada pela simplicidade nos arranjos e tendo na assimilação fácil um dos seus maiores trunfos, permitindo espontaneidade por toda a pista.

Uma ótima apresentação da bateria CZO da Unidos de Bangu, sob o comando de mestre Dinho, estreando na regência da escola. Um ritmo pautado pela simplicidade musical criativa ajudou a impulsionar o bom samba da escola, além de auxiliar o desfilante. Impressionante como a leveza dos arranjos ajudou os ritmistas na espontaneidade, aumentando a sensação de grande desfile.

Do Quintal à Sapucaí: Bangu homenageia Leci com solidez e emoção

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Sendo a 4ª escola da noite a desfilar na primeira noite de desfiles da Série Ouro, a Unidos de Bangu, com o enredo “As coisas que mamãe me ensinou”, homenageou a trajetória de Leci Brandão na música, na política, na Mangueira e no ativismo. Com uma comissão didática e segura e um casal tecnicamente consistente e elegante, a Bangu deixa a Sapucaí com credenciais para pleitear boa colocação na apuração de quinta-feira. A escola terminou o esfile com 56 minutos, 1 minuto além do máximo permitido, e, será penalizada na apuração.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

De autoria dos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, a escola transformou a avenida em extensão do quintal e da militância da artista, costurando ensinamentos maternos, consciência social e samba como ferramenta de transformação.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão é coreografada por Fábio Costa e composta por 15 componentes. Sete malandros em prateado reluzente e sete cabrochas em vermelho intenso representaram a alma do samba que conduz Leci pela vida. Intitulado “Alma do Samba”, o número trouxe o samba na vida de Leci, apresentando-se com essência e espírito que se expressam na música, na cultura e na paixão pela vida, sendo a alma de sambista que a leva à quadra da Mangueira e às rodas de samba desde criança.

* LEIA AQUI: No “Quilombo da Diversidade”, Bangu transforma a Sapucaí em tribuna de orgulho e resistência

Falando em criança, a pivô da comissão era uma garotinha, que interagiu o tempo todo com os malandros e as cabrochas. A coreografia no chão foi muito bem executada, com passos de samba e dança de salão; a essência sambista foi traduzida.

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Mas o ponto alto foi o tripé que a comissão trouxe: uma vitrola que se abria e na qual os bailarinos subiam. Do interior da vitrola surgia uma Leci madura, microfone em punho, acompanhada por um caboclo, Iansã e Ogum, referências diretas às citações do refrão do samba.

* LEIA AQUI: Velha Guarda da Bangu exalta Leci sob a proteção dos ‘santos’ da Mangueira na Sapucaí

Distribuindo a coreografia pelo tripé e com instrumentos musicais retirados dele, o show se encerrava com homens fazendo uma ilusão, como se o violão estivesse flutuando.

Nos três módulos de jurados, a comissão se apresentou sem erros, carismática e causando excelente efeito visual.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Leonardo Moreira e Bárbara Moura veio vestido de “Ancestralidade Familiar”, com as cores dourada e vermelha. Eles representaram a conexão com os antepassados, em especial a de Leci com seus pais, simbolizando as raízes da identidade cultural e comportamental da artista.

O figurino estava muito bem elaborado; a ancestralidade e a família eram visíveis nas fotos de Leci coladas na fantasia, como se fossem porta-retratos colocados carinhosamente.

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Com uma coreografia muito bonita e, muitas vezes, didática, o casal teve seu desempenho evoluindo conforme passava pelas três cabines. No primeiro módulo, a porta-bandeira demonstrou nervosismo visível na expressão facial em alguns momentos, deixando a dança não tão fluida em algumas passadas. O vento se fez presente durante a apresentação; mesmo com a bandeira molhada, era notável que ele atingia o pavilhão de forma considerável. No entanto, Bárbara tirou de letra, não se abateu nem deslizou na condução da bandeira, apresentando segurança e mais leveza na dança, assim como Leonardo, que rapidamente notou o vento e demonstrou destreza ao pegar o pavilhão no segundo módulo, mesmo sob forte interferência que quase o tirou de sua mão. Foi aí que o nervosismo da primeira cabine começou a desaparecer.

Na terceira cabine, a apresentação foi perfeita; a química entre eles, que era tímida no início, já dava sinais de maior entrosamento.

Podem esperar boas notas na apuração; foi uma bela apresentação.

ENREDO

Dividido em três setores, o desfile foi concebido sem se apoiar em uma narrativa meramente biográfica. A Bangu optou por um desfile que evocou valores, posturas e aprendizados. A figura de Leci apareceu não apenas como cantora e compositora, mas como cronista do cotidiano, política, lésbica e mangueirense.

No primeiro setor, “A Ancestralidade que Trago Comigo”, o abre-alas “Minha Ancestralidade me Moldou” representou a proteção dos orixás de Leci (Ogum e Iansã) em sua trajetória de vida e toda a construção de costumes e ensinamentos de seus pais.

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No segundo setor, “Uma Carreira Construída à Base do Amor e da Fé”, a alegoria “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa” trouxe a forte ligação de Leci com o morro e a Estação Primeira de Mangueira, mesmo sem ter morado lá.

No terceiro setor, “Socialista Graças a Deus”, a alegoria “Quilombo da Diversidade” foi a representação fiel da luta e do compromisso de Leci com as causas sociais. Bandeiras LGBT, remetendo à orientação sexual da cantora, foram o destaque que encerrou o desfile.

ALEGORIAS E ADEREÇOS

As três alegorias da Bangu não apresentaram nenhuma avaria ou problema visual. Todas estavam bem finalizadas, com detalhes e adereços bem feitos e seguros. Destaque para a unidade regular em todos os carros.

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O abre-alas “Minha Ancestralidade me Moldou” apresentou uma belíssima Iansã na ponta do carro. A segunda alegoria, “Paixão por Regar a Árvore Frondosa no Palácio Verde e Rosa”, como o nome já diz, bem verde e rosa, remetendo à paixão de Leci Brandão pela Mangueira, causou belo efeito na avenida, embora as esculturas com orelhas desproporcionais tenham quebrado a sobriedade do conjunto, conferindo ao carro um tom involuntariamente jocoso.

A última alegoria, “Quilombo da Diversidade”, na qual Leci veio sentada à sua frente, representou toda a luta da artista e sua reafirmação como mulher lésbica. O carro, assim como os outros, não apresentou nenhum problema estético.

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FANTASIAS

Apesar de modestas, todas as alas estavam com fantasias sem avarias. A escola dificilmente poderá perder décimos com as alas que desfilaram. No entanto, as fantasias das composições, especialmente na alegoria “Quilombo da Diversidade”, apresentaram concepção simplificada e baixo volume cenográfico, o que pode impactar a leitura plástica do conjunto.

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HARMONIA

O carro de som passou muito bem pela avenida, mas não é possível dizer o mesmo sobre o canto da escola, que passou desequilibrado pelas alas. Mesmo com o bom desempenho dos intérpretes Fred Viana e Pipa Brasey, o canto da comunidade se mostrou irregular entre as alas, com trechos visivelmente enfraquecidos e componentes pouco engajados. Poderia ter sido melhor; algumas alas passaram com muitos componentes calados.

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SAMBA

Composto por Dudu Nobre, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Binho Teixeira, Laura Roméro, Junior Falcão, André Baiacu, Geraldo M. Felicio, Valtinho Botafogo, Gilsinho da Vila, Fábio Bueno, JV Albuquerque, Jonas Marques e Juca, o samba apresentou força no refrão “Ogunhê, meu pai Ogum / Epahey Oyá / Bato cabeça pra saudar seus orixás”. Com sua letra, serviu perfeitamente para homenagear Leci Brandão, com citações às suas músicas famosas, como “As Coisas que Mamãe me Ensinou” e “Zé do Caroço”. O samba foi potente na avenida.

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EVOLUÇÃO

É um quesito para a escola se preocupar: muitos componentes apenas andavam pela avenida. A escola acelerou o passo do meio para o final. A bateria não entrou no segundo recuo, mas isso não foi suficiente para evitar a correria no último setor. Terminando o desfile com 56 minutos, um acima do máximo permitido, a escola será despontuada em 0,1 ponto na apuração.

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A Unidos de Bangu apresentou um desfile coeso, visualmente regular e conceitualmente bem resolvido. Comissão e alegorias sustentaram a proposta com segurança, enquanto pequenos ajustes em harmonia e evolução podem pesar na leitura dos jurados. Ainda assim, a escola deixou a Avenida com uma homenagem firme, consciente e competitiva.

OUTROS DESTAQUES

Os carros alegóricos causaram belíssimo efeito na Sapucaí. Muito significativo um desfile homenageando uma mulher lésbica ter uma rainha trans, como Camila Prins.

Terreiro que forma, Sapucaí que consagra: Acari transforma fé em arte no abre-alas da Série Ouro

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A União do Parque Acari desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a terceira escola a passar pela Avenida. Levando o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a agremiação abriu o desfile com uma declaração estética e política sobre pertencimento. As escolas disputam uma vaga no Grupo Especial de 2027, e o primeiro carro já sinalizou o tom da narrativa. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes das primeiras alas falaram sobre o impacto da alegoria e a expectativa para a reação do público.

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Abre-Alas da Acari. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A primeira alegoria representou a formação e o batismo do Grupo dos Novos, embrião do que viria a ser o Brasiliana. A proposta destacou o terreiro como espaço de formação artística e afirmação cultural, ponto de virada estética e identitária. Foi nos terreiros de candomblé que o grupo buscou a essência de sua musicalidade e de suas representações cênicas. 

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

No histórico Ilê de Joãozinho da Gomeia, integrantes foram batizados e passaram a integrar o núcleo artístico da companhia. A ambientação do carro evocava o xirê, reafirmando o sagrado como fonte criadora.

Na parte frontal do abre-alas, a representação de Exu, orixá da comunicação entre visível e o invisível, conduzia a narrativa visual. Frequentemente alvo de demonizações por uma cultura eurocêntrica, Exu surgia ali ressignificado, central e majestoso. 

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Esculturas de homens negros, com trajes inspirados nos bailarinos do grupo, reforçavam a dimensão estética e política da obra. Estamparias e referências ao Ilê da Gomeia atravessavam a composição. No alto, a imagem de Joãozinho da Gomeia abençoava a cena, como símbolo de orientação espiritual e artística.

A imponência do abre-alas emocionou quem estava na concentração. “Espetacular! O carro é maravilhoso, ele é muito bonito, gigante. Ele é lindo mesmo. Imponente. Tem que pedir licença para Exu, abrir os caminhos. Quanto mais força a gente conseguir tirar de um terreiro, ou seja de qualquer outro local faz sempre bem pra gente”, afirmou Marcos Lima, 40 anos, técnico de informática. 

A fala traduz o sentimento de reverência e reconhecimento que tomou conta dos componentes. Para muitos, abrir caminhos é também afirmar identidade.

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Marcos e Marleno. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Marleno, 46 anos, técnico de radiologia, também destacou a simbologia do momento. “O carro é muito bonito mesmo e é Exu, né. Abrir os caminhos para o Parque Acari. Abrir o desfile assim é uma energia muito boa. Exu é caminho aberto. Preconceito cultural sempre tem em relação a nossa religião, as pessoas têm a cabeça muito fechada”, contou. 

Já Gina Rumy, 47 anos, comerciante, ressaltou o impacto visual: “Essas cores vibrantes que chamam muita atenção e riqueza visual para a escola”. As declarações reforçam o orgulho coletivo que atravessa a comunidade.

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Gina e Tatiane. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para Tatiana Pereira, 44 anos, engenheira, o carro representou mais que estética. “Vendo a alegoria senti um destaque para nossa comunidade, sendo representada na Avenida. A emoção das pessoas que contempla tudo isso”, relatou. A presença de símbolos do terreiro no abre-alas foi compreendida como afirmação de protagonismo negro em um espaço de grande visibilidade. Ainda que não conhecessem a história do Grupo dos Novos antes de ela se tornar enredo, os entrevistados reconheceram a importância da narrativa. A Avenida, nesse sentido, se transforma em sala de aula e altar.

Ao levar para a Sapucaí a história de um grupo que encontrou nos terreiros a base de sua expressão artística, o Parque Acari transforma o sagrado em espetáculo sem esvaziá-lo de sentido. O abre-alas sintetiza a ideia de que o terreiro é também espaço de formação estética, política e comunitária. 

Entre esculturas, cores e símbolos, a escola reafirma que abrir caminhos é reconhecer as origens. Se depender da força evocada na concentração, Exu já cumpre seu papel. E a comunidade de Acari segue desfilando com fé, memória e afirmação cultural rumo ao sonho do acesso ao Grupo Especial.

Legado que ecoa na Avenida: União do Parque Acari exalta a arte negra como herança viva na Sapucaí

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A União do Parque Acari desfilou na noite desta sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, e foi a terceira escola a cruzar a Avenida em busca de uma vaga no Grupo Especial de 2027.

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Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Com o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a agremiação levou para a Passarela do Samba uma celebração da arte negra brasileira e de seu legado. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes das primeiras alas falaram sobre emoção, reconhecimento e a força transformadora da cultura, especialmente ao representar o encerramento do desfile com a ala “Legado à Arte Negra Brasileira”.

A proposta da ala parte de um princípio direto: o legado que continua nos palcos e na vida. Inspirada na trajetória da Brasiliana, grupo que por décadas encenou
manifestações culturais afro-brasileiras no Brasil e no mundo, a fantasia simboliza a semente plantada por esse pioneirismo. Dos palcos surgiram novos núcleos artísticos, como o Ballet Folclórico de Mercedes Baptista, o Teatro Popular Brasileiro de Solano Trindade e o Grupo Folclórico Senzala de Domingos Campos. Na Avenida, a narrativa ganhou corpo em cores, brilho e emoção.

Visualmente, a ala apostou nas cores da bandeira do Brasil como base, com predominância do verde, amarelo e azul, em diálogo com o dourado e o preto, que estruturam a estética da fantasia. Adereços na cabeça remetem à cena e à dramaturgia, enquanto bandeiras homenageiam grupos e movimentos artísticos inspirados pela Brasiliana. O conjunto reforça a ideia de que a arte negra conquistou espaço nos grandes teatros e reivindica, na Sapucaí, o reconhecimento desse protagonismo histórico.

A emoção tomou conta dos componentes: “A gente sente uma emoção, a fantasia é linda, uma emoção maravilhosa”, afirmou Dalva, doméstica, de 67 anos. Para ela, falar de legado é também falar de transformação. Ao comentar o avanço do protagonismo negro, destacou mudanças na educação e no tratamento, mas reforçou o desejo de evolução. “Espero que essa juventude de hoje aceite e respeite cada vez mais o nosso espaço”, completou.

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Dalva, 67 anos, doméstica, e Alberto Valadares, 65, autônomo
Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Alberto Valadares, de 65 anos, autônomo, ressaltou o cuidado com o figurino e a responsabilidade de representar essa história na Avenida. “O ajuste, a dedicação, a perfeição e o cuidado com a fantasia foram perfeitos. Acredito que pode melhorar muito ainda (o progresso negro), colocando mais negros não só dentro do carnaval como na vida em um geral. Queremos ocupar todos os espaços”, declarou.

A arte como instrumento de transformação social também esteve presente nos relatos. Pedro Henrique, 47 anos, técnico de enfermagem, contou que participou de um projeto cultural no Complexo do Alemão em parceria com uma universidade, voltado à ressocialização de pessoas em situação de rua e em uso abusivo de drogas.

“Hoje temos negros dentro da comunidade, que mudaram de vida através do projeto que os inseriu dentro da faculdade”, destacou, conectando a experiência pessoal ao discurso da ala.

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Pedro Henrique, 47, técnico de enfermagem e Maria Clara, 29 anos, assistente social
Foto; Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Já Maria Clara, de 29 anos, assistente social, afirmou que não conhecia a história da Brasiliana antes do enredo, o que a levou a refletir sobre o papel das escolas de samba na preservação da memória.

“A fantasia tá bem brilhosa, refletindo a cultura do teatro no Brasil. Eu não conhecia a história da Brasiliana antes do enredo, o que é louco, como a gente desconhece a nossa própria cultura, a escola de samba tem esse papel de trazer pra gente a história que ainda está ou ficou escondida”, analisou. Para ela, fechar o desfile com essa mensagem é simbólico. “A arte transformou a minha vida, no sentido da violência mesmo, nos faz ver além e levar a vida com mais leveza. Acho que tem que deixar a gente fazer Carnaval, porque ainda tem muito um lugar de inferiorizar o que a gente produz e reduzir nossos espaços. O carnaval é um lugar onde a gente ainda vê esse espaço e em expansão”, finalizou.

Conjunto estético se sobressai junto com comissão e casal em desfile da Parque Acari

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A União do Parque Acari trouxe para a Sapucaí um enredo cultural, importante e com forte valorização da cultura afro-brasileira, algo bastante característico na carreira do carnavalesco Guilherme Estevão. Com alegorias e fantasias de muito bom gosto, coloridas e com materiais de qualidade, o artista defendeu bem a história e o legado do grupo de teatro Brasiliana, mostrando a prometida evolução da escola, que no carnaval passado já contou com o talento do artista. Com destaque também para a comissão, que, de forma simples, mas com qualidade estética e performática, sintetizou bem o enredo, e o primeiro casal, que pisou com firmeza na Sapucaí, com coreografia mais clássica, mas com um bailado eficiente. Nos quesitos de chão, porém, a escola ficou abaixo, devendo no canto e na evolução, um pouco morna, faltando mais energia e espontaneidade.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, a União do Parque Acari foi a terceira escola a passar pela Sapucaí na primeira noite de desfiles da Série Ouro, com o tempo de 54 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Fábio Batista fez sua estreia na Parque Acari trazendo 15 componentes vestidos com o figurino “Templo ao Corpo Negro”, representando um itã do ritual da criação do mundo. A comissão relacionou a ancestralidade com os personagens do show tipicamente brasileiro. No início da coreografia, os componentes apresentaram a dança da criação, com o dom do ser humano de se mover de forma rítmica e expressiva. Esta dança foi representada como elemento de ligação entre o homem e sua ancestralidade.

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Em seguida, houve a transformação dos componentes em figuras importantes da cultura brasileira, como as cabrochas, a mulata e os malandros ancestrais. Depois, a capoeira também foi representada, com o clímax na aparição de Exu e, no final, com Olofin condecorando o show com sua presença e o globo terrestre em suas mãos, simbolizando os caminhos abertos para o espetáculo. A escola utilizou o tripé de forma competente para esconder os personagens e para que houvesse a troca de roupa, que no geral foi bem simples.

A indumentária e o tripé, mesmo sem apresentar grande luxo, eram de muito bom gosto e estavam bem terminados. O tripé também tinha um efeito de jogar papel picado, que depois acabava ficando para a dança do casal. Apresentação de qualidade na sintetização do enredo e no desenrolar performático dos bailarinos.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Renan Oliveira e Amanda Poblete estrearam como casal na Acari com a fantasia “Memória e Ancestralidade Afro-Brasileira”, representando justamente esses elementos como pilares da construção rítmica, expressiva e da forma de interpretação dos atores negros. A roupa fez referência a Exu, primeiro orixá da gira, que, a partir de suas cores, vermelho e preto, definiu a colorimetria da fantasia. Na apresentação, o casal optou por uma coreografia mais clássica, voltada para a valorização do pavilhão.

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Primeiro Casal da União do Parque Acari
Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Em um momento da dança, Amanda chegou a dar quase 18 giros seguidos, em um trecho com a troca do sentido dos rodopios. Renan soube se aproveitar bastante da fantasia, com a capa em godê e as calças mais sanfonadas, que abrilhantaram o efeito da dança. O mestre-sala também mostrou uma postura muito destacada no cortejo à porta-bandeira. Com um samba mais reto, a dupla manteve essa pegada mais clássica, permitindo-se um “passinho” diferente no trecho “tem frevo rasgado de sombrinha”, justamente quando a obra cita a dança popular de Pernambuco. Uma curiosidade, mais latente na primeira apresentação de julgamento, mas também nos outros módulos, foi que a comissão havia jogado bastante papel picado na pista. No momento da dança do casal, quando Amanda girava, o papel era levantado pela saia, produzindo um bonito efeito. Não ficou claro se foi proposital, mas abrilhantou a apresentação do casal.

Negritudes de Acari: Componentes se reconhecem em artistas do Teatro Experimental do Negro

HARMONIA

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Leozinho Nunes e Tainara Martins, em seu terceiro carnaval juntos na Amarela, Branca e Rosa da Zona Norte, mostraram maturidade e entrosamento. Foi muito positivo notar o crescimento de Tainara Martins a cada ano, que esteve o tempo todo com a voz firme, em diversos momentos arriscando a realização de terças e vocalizações de forma eficiente e pertinente ao samba. Leozinho, experiente, soube conduzir e, de forma solidária, sem vaidade, aproveitou o trabalho da colega, abrilhantando o rendimento dos dois. Bom trabalho do carro de som, apesar de o samba não ter conseguido “pegar” na Sapucaí. Já o canto dos componentes deixou a desejar. Era fácil notar diversas alas com vários integrantes passando sem sequer mexer a boca. O samba aparentemente não conseguiu atingir os componentes e talvez algumas fantasias mais pesadas também tenham influenciado no canto.

ENREDO

O enredo “Brasiliana”, desenvolvido pelo carnavalesco Guilherme Estevão, homenageou o primeiro emblemático grupo de teatro musical negro do Brasil, trazendo para a Sapucaí sua história, seus personagens e o protagonismo negro na brasilidade dessa arte. No primeiro setor, a Parque Acari apresentou o Grupo dos Novos surgindo a partir de dissidentes do Teatro Experimental do Negro. Neste setor, a escola fez um mergulho pelos terreiros da Baixada Fluminense, com a contribuição da cultura afro-brasileira para um universo que nunca esteve no teatro e a apresentação do batismo do Grupo dos Novos no terreiro de João da Gomeia.

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Em seguida, a Acari mostrou a formação do Teatro Folclórico Brasileiro, com a musicalidade do interior, principalmente do Nordeste, e manifestações como o frevo, a festa do coco, a capoeira e o maracatu. Por fim, a agremiação da Zona Norte demonstrou a formação do grupo propriamente dito, após o olhar de censura sobre o Teatro Folclórico Brasileiro, diminuindo-o como não representante da cultura brasileira. Nesta parte, o desfile apresentou o Brasiliana “batendo o pé” firme e levando para o mundo traços marginalizados da cultura nacional, com o afro-brasileiro popular na figura do samba. Apesar de não ser uma história tão difundida como a de outros grupos de teatro, a ideia da homenagem realizada por Guilherme Estevão se apresentou de forma clara e com fácil leitura. Enredo fora da caixinha, não óbvio, com desenvolvimento também fora do comum, mas de fácil compreensão.

EVOLUÇÃO

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A evolução da Parque Acari também foi um ponto abaixo do esperado. A escola não teve nenhum grande problema de buraco ou grandes espaçamentos, nem correria, mas faltou mais energia dos componentes e espontaneidade. Em diversos momentos, era possível perceber na fisionomia dos integrantes o ar de cansaço, talvez porque algumas fantasias, muito bem desenvolvidas, pareciam estar um pouco mais pesadas. Em boa parte do desfile houve preferência por alas muito enfileiradas, o que parecia tornar a apresentação mais engessada, sem que o componente demonstrasse liberdade para brincar o carnaval.

SAMBA-ENREDO

Desenvolvido em regime de encomenda pelos compositores Moacyr Luz, Fred Camacho e Gustavo Clarão, a obra teve um bom andamento da bateria, que não deixou um samba mais reto ficar monótono, embora apresentasse algumas partes melodicamente repetidas, como na cabeça do samba. A melodia é de fácil assimilação pelo componente, com estrofes bem marcadas no sentido de indicar para onde a obra vai, com subida inicial bem definida, andamento bem colocado e trechos melódicos no final que identificam a chegada de um clímax. No entanto, os refrões têm pouca explosão, são mais retos e sem uma diversidade melódica mais impactante que pudesse suprir essa falta de “subida”.

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A impressão nas estrofes era de que o samba iria acontecer nos refrões, como se fosse chamar com força, mas eles não se destacavam tanto quanto a obra vinha prometendo no restante da música. Por isso, talvez, não tenha havido grande interação com o público nem destaque expressivo no canto da comunidade. Desfile com grande riqueza de enredo acabou passando morno.

FANTASIAS

Pelo segundo ano consecutivo desenvolvendo o desfile da União do Parque Acari, Guilherme Estevão trouxe para a Sapucaí um conjunto estético com muita qualidade de cores, evitando tingir excessivamente as fantasias com as cores da escola, mas trazendo-as sempre de forma discreta e combinando-as com as outras tonalidades presentes no desfile, por terem mais relação com o enredo. Houve grande diversidade cromática, começando nos primeiros setores com tons mais claros e estampas afro.

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A primeira ala, “Teatro Experimental do Negro”, conseguiu relacionar o preto e branco com tons mais quentes, como amarelo e laranja nas penas, tudo isso com uma estampa afro. Neste trecho, destaque também para os passistas com a fantasia “Macumba”, que representou a fé afro-brasileira, muitas vezes perseguida, mas no teatro exaltada. A roupa era predominantemente nas cores de Exu, vermelho e preto. No segundo setor, o colorido tomou conta, como na Ala 10, “Frevo”, que mostrava uma das figuras representadas no Teatro Folclórico, o bailarino de frevo. Nela, Guilherme Estevão apresentou uma indumentária bastante colorida, com a famosa sombrinha na mão.

Logo em seguida, na ala “Brasiliana: danças e folias pelo mundo”, o carnavalesco utilizou o amarelo e o rosa da escola para retratar o folclore brasileiro pelo mundo. No final, trouxe um pouco do verde ao abordar temas mais indígenas, como nas alas “Caboclos” e “Cafezal”, e finalizou com estética mais carnavalesca ao retratar personagens típicos do carnaval, como na ala das baianas com a fantasia “Isso é samba”, representando a própria baiana carnavalesca com pano da costa, pompons, babados e as cores da União do Parque Acari. No geral, fantasias de muito bom gosto, boa volumetria, utilização de materiais não tão óbvios e criatividade.

ALEGORIAS

Guilherme também foi muito criativo nos carros, com capricho nas estampas laterais, esculturas bem feitas e desenvolvimento de elementos que eliminaram um pouco a estética mais “caixotão”. O abre-alas, “Grupo dos Novos: o batismo da Gomeia”, trouxe mandalas em movimento, produzindo um efeito interessante. O carro retratou o universo do candomblé e o batismo do Grupo dos Novos no terreiro de João da Gomeia, com elementos como a saudação a Exu. Foi uma alegoria com tons terrosos e quentes, referências à estamparia africana e à materialidade dos terreiros, com esculturas de expressões bem fortes e traço artístico bem definido.

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No segundo carro, “Teatro Folclórico Brasileiro: Cortejo do Maracatu”, a escola trouxe o rei do maracatu, interpretado por Haroldo Costa, por meio de um carro colorido, com estética nordestina e cenografia referenciada na época. A partir daí, o desfile ganhou mais colorido. Na última alegoria, “Brasiliana: o Carnaval Brasileiro pelo mundo”, a Acari mostrou a valorização do samba e a apresentação da figura do malandro e das cabrochas. A alegoria trouxe as cores da escola mais predominantes e talvez tenha sido aquela em que o carnavalesco optou mais pelo óbvio.

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OUTROS DESTAQUES

A bateria “Fora de Série”, dos mestres Erick Castro e Daniel Silva, veio com a fantasia “Ritos para um Rei Nagô”, inspirada no próprio Rei Nagô, figura presente no quadro da companhia de teatro. A rainha Luciana Picorelli veio de “Estrela dos Candomblés”, como protagonista da abertura dos atos de exibição do Teatro Folclórico nos palcos. No discurso, o presidente Carlos Eduardo Freitas, o Dudu, aproveitou a audiência para pedir ao poder público mais atenção às enchentes na região do Complexo do Amarelinho, em Acari, além de relembrar o intérprete Gilsinho, falecido no ano passado, que chegou a ser vice-presidente da escola.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Uniao do Parque Acari no desfile no Carnaval 2026

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Um desfile excelente da bateria da União do Parque Acari, sob o comando dos mestres Daniel e Erik. Uma conjunção sonora de raro valor foi produzida, com uma bela equalização de timbres, o que proporcionou fluidez musical entre todos os naipes. Bossas musicais e bem atreladas ao que o samba pedia foram exibidas com extrema precisão.

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Na parte da frente do ritmo, uma ala de tamborins de nítida virtude técnica tocou interligada a um naipe de chocalhos de boa coletividade. Uma ala de cuícas segura também auxiliou a preencher a musicalidade de grande qualidade das peças leves.

Na cozinha da bateria da Acari, uma bela afinação de surdos foi notada, causando uma equalização de timbres bem acima da média. Marcadores de primeira e segunda foram firmes e seguros. Surdos de terceira com ótimo balanço ajudaram a dar molho à parte de trás do ritmo. Repiques ressonantes e coesos exibiram bom trabalho junto de um naipe de caixas com musicalidade coletiva apurada. Simplesmente sensacional o preenchimento da sonoridade dos médios.

Bossas extremamente musicais foram exibidas corretamente, com direito a todos os gostos. A nuance rítmica de frevo rápida da segunda do samba só não encantou mais que o toque de Maracatu seguida de uma levada baiana, terminando com uma conversa rítmica extensa, apurada e de alto refino. Uma proposta de paradinha ousada, complexa e muito bem executada, mesmo diante de uma certa densidade musical.

Uma excelente apresentação da bateria da União do Parque Acari dos mestres Daniel e Erik, exibindo um ritmo que fez jus ao apelido da bateria, “Fora de Série”. Bem equalizada e equilibrada, a fluência rítmica entre as diversas peças foi um dos pontos altos de uma bateria da Acari com camadas musicais muito bem definidas. Uma boa apresentação ocorreu na primeira cabine, seguida de uma exibição irretocável no segundo módulo de julgador. Na última cabine, mais uma apresentação de imensa qualidade foi realizada, num desfile com potencial para brigar pela pontuação máxima, quiçá disputar eventuais premiações.

Abrindo caminhos: Renan Oliveira e Amanda Poblete apresentam União do Parque Acari com a força de Exu

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O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da União do Parque Acari,Renan Oliveira e Amanda Poblete, abre os caminhos na Passarela do Samba com a força de Exu. A agremiação leva para a Marquês de Sapucaí o enredo “Brasiliana”, de autoria do carnavalesco Guilherme Estevão.

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Primeiro Casal da União do Parque Acari
Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Peça essencial no panteão afrorreligioso, Exu é o primeiro orixá, saudado e alimentado primeiro em cerimônias religiosas. Responsável pela comunicação, tem as ruas e encruzilhadas como ponto de força e, muitas vezes, é mal interpretado pela cultura dominante. Assim como em Brasiliana, os primeiros representantes do pavilhão no panteão da escola representam e reforçam o verdadeiro significado da divindade.

“Representar Exu, eu não tenho palavras para isso. Representar um orixá, eu acho que é uma bênção, de fato, divina.Então,eu não poderia estar mais feliz e mais lisonjeada”, disse a porta-bandeira.

“E a gente ficou muito feliz. Principalmente sendo da religião, cultuando Exu também nas nossas casas. É tratar com respeito e representar uma entidade tão importante pra nós. Exu é vida, Exu é caminho e Exu, se Deus quiser, vai nos dar aí os 40 pontos e tudo o que a gente merece”, somou o mestre sala.

Com a responsabilidade de representar o orixá e conciliar o bailado, o casal resguarda a dança tradicional, apesar da adição de elementos da dança afro, características da enérgica divindade.

“Nós não exageramos, mas colocamos sim alguns passos característicos da dança de Exu. Nós tentamos ao máximo dividir também, sabendo que aqui é uma representatividade carnavalesca, que nós não estamos vestidos de orixá, estamos vestidos com uma ideia do orixá. A gente soube dividir bem essas coisas e é um bailado clássico de mestre-sala e porta-bandeira”, afirmou Renan.

Com um enredo que exalta artistas em lugares de destaque, a identificação e honra para artistas do samba, representantes de um pavilhão não poderia ser diferente. Renan fala sobre a emoção de fazer parte de um enredo que valoriza artistas negros que abriram caminhos, fundamentais para seu trabalho com arte hoje.

“É uma representatividade grande. Hoje, eu viajo bastante, eu faço muitas coisas. Inclusive, pelas outras agremiações, que é a Mangueira, representando esses percussores que começaram essa história lá atrás. Montaram um show com características brasileiras, com características das danças que a gente gosta, da nossa dança, da nossa cultura, levaram esse show à frente e viajaram para todos os países”, compartilhou Renan.

O casal vive o primeiro ano da parceria defendendo o pavilhão da União do Parque Acari. Renan também é 2º mestre sala da Mangueira, e Amanda chega à escola com 17 anos de carreira e passagens por escolas como Viradouro, Vila Isabel, Renascer de Jacarepaguá e Tuiuti. Felizes com o trabalho construído e com bailado bem casado, compartilham que a parceria foi formada com dedicação.

“Com muito trabalho, com muito suor, mas com muita felicidade, com muita alegria, muita consciência de que é um trabalho coeso, um trabalho compacto que a gente vai apresentar aqui na avenida hoje”, contou Amanda.