“Um dia volto pra te ver, meu grande amor!”: União da Ilha une passado e futuro em desfile
Penúltima escola da sexta-feira de desfiles da Série Ouro, a União da Ilha do Governador levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Viva o hoje! O Amanhã? Fica pra depois”. A obra fala da saga intergaláctica do cometa Halley. Numa brincadeira entre passado e futuro, relembra o passado glorioso ao remeter a estética do carnaval, “O Amanhã”, da Professora Maria Augusta, de 1978.
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FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO
O último carro da agremiação trouxe uma referência estética ao carnaval campeão da Professora, de plástica vintage remetendo a carnavais antigos e tons claros.

FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Joseli Rocha, torcedora da União da Ilha desde a infância, não abre mão de desfilar na escola mesmo após se mudar do bairro. Este ano, ela participa da ala que representa o Cometa, no último setor da escola. A componente relembra a genialidade da carnavalesca, falecida em 2025.
“Ela teve grandes carnavais e foi uma grande carnavalesca, não só com a União da Ilha, mas com outras escolas, também. Era uma pessoa de muita sabedoria, de muita vida. E todos os carnavais dela eram campeões, porque ela tinha muito bom gosto, não só na elaboração das fantasias, como em todo o enredo e em toda a sequência”, disse.

FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Já para Micha, membro da Ala dos Compositores e parte da escola há mais de 20 anos, a homenagem vem em tempo oportuno.
“A homenagem chegou em boa hora, com muita justiça. Para a gente que já está há um tempinho nisso, realmente foi uma ideia maravilhosa. E chegou na hora certa, tudo tem sua hora”, compartilhou.

FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Sanchez Martins, membro velha guarda, desfila pela União da Ilha do Governador há mais de 20 anos, seguindo o legado do pai. Em um olhar para o futuro da escola, deixa a mensagem que o respeito e valorização a escola devem voltar.
“O futuro para a União da Ilha é ser campeão. Que vejam a União da Ilha com bons olhos, porque a bandeira pesa muito”, refletiu.
E para Micha, o futuro Insulano deve ser feliz e colhendo os frutos dos meses de ensaio para o desfile do Carnaval 2026.
“Que a escola seja feliz, faça um bom desfile como fizemos nos ensaios de rua. Estamos num processo em que ficamos um tempo em lugares mais altos, e saímos. Mas com força e fé, essa certeza vai voltar ao coração do Insulano”, confiante, disse.
Chorões de Carlitos: União da Ilha transforma compositores em estrelas do cinema mudo na Sapucaí
A União da Ilha do Governador desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida. Com o enredo “Viva o Hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola levou para a pista uma reflexão sobre tempo, memória e celebração da vida. Em disputa por uma vaga no Grupo Especial para 2027, a tricolor insulana apostou na emoção e no inusitado. Entre os destaques, a Ala 14, dos compositores, chamou atenção pela ousadia estética e simbólica.
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Batizada de “Chorões na Cine-Ouvidor”, a ala representou o encontro entre o chorinho, expressão musical do início do século passado e o nascimento da sétima arte no Rio de Janeiro. A referência ao histórico Cine Ouvidor resgatou o impacto cultural provocado pela chegada do cinema à cidade em 1910, no mesmo contexto da passagem do Cometa Halley. Na Avenida, os poetas insulanos encarnaram personagens cômicos, misturando samba e humor físico. A imagem era poderosa: a ala de compositores do samba caracterizados como ícones do cinema mudo.
Em vez do tradicional terno, os compositores surgiram caracterizados como Charles Chaplin, eternizado pelo personagem Carlitos. A fantasia reforçou o diálogo entre música e cinema, entre o som vibrante do samba-enredo e a estética silenciosa da comédia clássica. “Vir vestido de Chaplin tem tudo a ver com o enredo, ainda mais vir encarnado de Charles que é uma figura antológica. Fico muito emocionado e feliz quando vejo essa arquibancada lotada, lembro dos áureos tempos da União da Ilha, quando ela chegava e o povo vinha junto”, afirma Acelídio Silva, 70 anos, aposentado. Ele conta ainda que já cometeu várias loucuras pela escola, tantas que não consegue enumerar.

Para quem estreia na ala, a emoção ganha contornos ainda mais intensos. “Está sendo uma experiência maravilhosa, porque é a primeira vez que desfilo na ala dos compositores. Passam vários filmes ao ver a arquibancada lotada. Eu amo Charles Chaplin e amo a minha Ilha”, conta Angila Nunes, 53 anos, técnica de enfermagem.
A entrega à escola atravessa décadas e gerações. “É arrepiante, um momento mágico. Desfilo há uns 20 anos e todo ano é assim. Minha maior loucura pela Ilha foi assim que meu filho nasceu, levá-lo para quadra com dois meses de idade apenas. É um filme de muita alegria, União da Ilha nas cabeças e vamos subir”, fala Márcia Almgren, 45 anos, administradora. Histórias como essa evidenciam que o pertencimento não se limita ao desfile, mas se constrói no cotidiano e na herança cultural transmitida dentro das famílias.
A médica Cassandra Pisco, 40 anos, também associa o enredo a uma reflexão contemporânea. “Já viajei com a União da Ilha três dias de ônibus para representar a escola lá na Argentina, há uns dez anos atrás, desfilo já tem treze anos”. Sobre o filme que passa em sua cabeça, ela afirma: “Tendo como base o nosso enredo que é pra gente viver o hoje e fazendo um contraponto com a nossa realidade atual é ‘Tempos Modernos’, que fala muito da questão que a gente é uma máquina, só vive em prol do trabalho, da forma que a gente é tratado, a gente não tá vivendo mais, só sobrevivendo”.
Ao encarnar um ícone do cinema mudo e, ao mesmo tempo, cantar samba-enredo a plenos pulmões, a ala sintetizou o espírito do desfile. “É um orgulho poder dar voz não só a esse personagem, mas para refletirmos também que não somos máquinas, somos humanos, o quanto a gente ainda precisa dessa vivência, experimentar e representar a nossa cultura nacional”, finaliza Cassandra. Em tempos acelerados, a Ilha escolheu celebrar o agora, com humor, crítica e paixão.
Reparação Histórica: Unidos de Padre Miguel dá um novo significado à história de Clara Camarão
Nesta sexta-feira, a Unidos de Padre Miguel levou à Sapucaí o enredo “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, idealizado por Lucas Milato. A obra faz celebração à história de Clara Camarão, indígena potiguara que se tornou símbolo da resistência feminina após vencer batalhas contra as tropas holandesas.
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A escola se deparou com um empecilho: após a morte de Felipe Camarão, seu marido, não havia mais registros históricos sobre sua vida, indicando que, para a história, ela só foi relevante enquanto tinha um homem ao seu lado — uma perspectiva antiquada. No entanto, motivados a abordar esse assunto, a escola decidiu criar a ficção de que Clara não morreu, mas se tornou uma figura encantada e adentra às florestas. Para chegar na alegoria, a agremiação faz uma travessia por meio das fantasias.

FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O estudante de direito, Danilo Salvatore, de 25 anos, desfila na agremiação há 6 anos. Danilo usava a fantasia Jurema Sagrada, que indica o início da transição de Clara para se tornar um ser encantado.
“A nossa fantasia fala sobre a árvore sagrada. Tem tudo a ver com a Clara Camarão, sobre a travessia. Essa árvore representa muito a Unidos de Padre Miguel, o sagrado. A Unidos de Padre Miguel, dentro da Vila Vintém, é o que tem de mais sagrado lá. Tanto para os componentes da Unidos, quanto para a nossa comunidade, a Unidos é o que tem de mais sagrado. E ela vem falando sobre isso, ela vem representando esse algo sagrado que a gente tanto zela”, diz Danilo.
“A gente sabe que diversos que passaram, que tiveram um marco histórico na nossa humanidade, no nosso Brasil, muitas histórias foram se apagando com o tempo. E a Unido de Padre Miguel faz esse trabalho. Ao invés de deixar a história morta, ela vem ressuscitando a história e mostrando que não. É um povo de resistência. Eles merecem sim ser ouvidos, merecem ser contados nessa história, e é o que a Unido de Padre Miguel vem representando. A Clara Camarão não morreu, a história dela não foi apagada”, completa o estudante.

FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Outra fantasia que representa essa transição encantada é a “Pai do Mangue”, que aparece como um guia para a homenageada. A assistente social, Beatriz Custódia, de 26 anos, desfila na agremiação há 2 anos e contou como foi levar esse enredo e essa fantasia à Sapucaí.
“A UPM é união, é família, é tudo. É alegria, é diversão. E esse enredo tem uma conexão com a comunidade, com a direção da escola, que é uma direção de mulheres. Acredito que Clara Camarão resiste dentro da UPM, resiste através dessa direção, através da comunidade que é muito forte e que está resistindo depois desse grande baque que a gente levou. Me sinto muito especial dentro dessa ala”, revela Beatriz.
“É uma forma da gente trazer uma justiça para essa personagem, para essa mulher tão importante na história do Brasil. E aí eu volto a repetir: é uma conexão que no século XV das mulheres, dessa forma de resistir a todo o contexto social, a toda a forma de injustiça que as mulheres sofrem, que o povo preto sofre, que o povo indígena sofre. É uma forma bem carnavalizada, bem alegre, bem divertida, mas é sim uma forma de trazer justiça a essa grande mulher do Brasil”, completa Beatriz.

FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A fantasia que precede o carro da floresta sagrada é “O Gritador”, uma entidade temida da mitologia nordestina. Com seu brado, ele anuncia a morte ou para assustar quem está adentrando ilegalmente no território sagrado da Jurema. O motorista Julio Ribeiro, de 33 anos, desfila na escola a dois anos e contou o que sentiu ao vestir essa o adereço.
“A história em si de você mostrar tudo. Não mostrar só a parte dos indígenas, mas você mostrar uma morte, você mostrar um renascer, mostrar tudo, acho isso muito legal. É justamente isso que essa imagem traz:o medo, de você, de quem é de fora e está entrando em uma área sagrada. Acredito que o medo constrói a pessoa, porque se você não tiver medo, você pode acabar qualquer hora. O medo também mostra que você pode ser muito mais capaz, ao invés de viver na mesmice. Não tem que mostrar só a parte boa, tem que mostrar também que tem a morte. Que você pode renascer, que você pode nascer, crescer e morrer”, avalia.

FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Enfim, na terceira alegoria, que representa o encontro de Clara Camarão com a natureza. O cabeleireiro e maquiador Júnior Oliveira, de 31 anos, é destaque há três anos e acompanha a agremiação desde sua infância. Ele contou a sensação de estar no carro alegórico.
“Nossa, é uma sensação incrível, porque nos faz perceber o quanto a nossa Floresta Amazônica e os povos indígenas foram e são importantes para as nossas vidas. E hoje eu venho representando a encantaria de toda pajelança, trazendo a riqueza dos nossos povos, das nossas terras. É uma energia tão grande e eu sou do Candomblé também, e isso é inexplicável. Só quem está vivendo esse momento pra sentir e pra saber”, diz.
“Faz parte do nosso cotidiano. É tanta luta, tanto preconceito, tanta injustiça, sendo que nossa terra, de onde nós viemos, é essa riqueza. E é isso que nós queremos passar, essa mensagem: que, apesar de tudo, apesar de todo o sangue, todo o sofrimento, há um lugar maravilhoso e iluminado para todos”, conclui Júnior.
Vigário Geral tem estética criativa, enredo ousado, mas peca na leitura e no canto da comunidade
A Vigário Geral pisou na Sapucaí com muita criatividade, trazendo um enredo diferente, satírico, baseado em ideia criativa dos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini. Com estética criativa, uso de materiais diferentes, soluções estéticas inovadoras e carros grandiosos, a dupla ousou na ideia, mas pecou um pouco na leitura e no encadeamento da história, que não ficou muito clara para o público. O início, com a caravela e o mar, até dava bom entendimento, mas, a partir da metade do desfile, a história e a proposta não se traduziram nas fantasias de forma clara. Apesar de um bom rendimento do samba, a comunidade cantou pouco. Comissão e casal tiveram pequenas questões que podem não influenciar tanto na nota. A evolução também não foi perfeita, mas o carro de som, comandado por Danilo Cezar, deu show.

Com o enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa”, desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a Vigário Geral, com o tempo de 55 minutos, encerrou a primeira noite de desfiles da Série Ouro.
COMISSÃO DE FRENTE
À frente dos componentes da Vigário Geral desde 2020, Handerson Big apresentou a comissão “Sátira do Pequeno Invasor”, que trouxe um sujeito de mangas bufantes, suando sob o sol de 40 graus, na vestimenta de um português do período das grandes navegações. Na coreografia de deslocamento, esse invasor se desloca com uma pequena caravela meio destruída e com um globo terrestre que ora ele sobe em cima, ora ele empurra. Na apresentação para o júri, este personagem dança com o globo, onde a Europa ocupa o centro, esticada e inflada por um ego cartográfico. Ele joga o mundo para o alto, os componentes se unem nessa dança e depois colocam o globo na caravela.

No clímax dessa sátira, os componentes retiram da roupa pequenos mapas-múndi que, na verdade, de um lado têm imagens de monstros mitológicos e, do outro, as letras que formam o nome Vigário Geral. Após se assustarem com as imagens desses seres, eles se juntam e formam o nome da escola no final. A ideia é bem legal, tem muito a ver com o enredo, traz um tom de sátira e irreverência. O que prejudicou um pouco foi o uso da iluminação cênica. Em alguns momentos-chave, a Sapucaí ficava muito escura, como no momento em que os invasores erguiam o globo juntos. Em outro momento, quando os personagens apresentavam os monstros nos mapas, a iluminação muito baixa não destacava a cena, e as imagens não ficavam muito nítidas. No geral, uma ideia legal; a execução poderia ser melhor.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Johny Matos e Isabela Moura, veio com o figurino “A dança das marés”, que representou o fenômeno natural do movimento de sobe e desce do nível do mar, causado pela atração gravitacional da Lua e do Sol, criando um ciclo constante. É um bailado de ondas que, junto ao vento, leva as embarcações rumo ao desconhecido.

A dupla optou por uma coreografia intensa, com Isabela dando muitos giros e mostrando muita força e talento para sustentar o pavilhão. A única questão a ser analisada foi no primeiro módulo de julgamento, que não é duplo, em que, em dois momentos, nos giros, a bandeira não ficou bem desfraldada, como é recomendado ao casal no julgamento. Mas eles se mantiveram bem nas outras cabines, fazendo inclusive um passinho muito interessante no verso do samba “Deixa o chão tremer”, em que Johny parecia interagir com o público. Do casal, só essa situação a se analisar na primeira apresentação.
HARMONIA
O “pequeno notável”, o capixaba Danilo Cezar, em seu terceiro desfile pela Vigário, mais uma vez mostrou que é nos pequenos frascos que estão os melhores perfumes. Que voz. Terminou o desfile como começou: com muita potência, afinação, correção e colocando muita expressão na apresentação do samba, pois a obra pedia um pouco de irreverência e picardia. E, com a ajuda das vozes de apoio, ele conseguiu dominar a obra.

Já a comunidade ficou abaixo no canto. Era fácil notar, em diversas alas, componentes que não cantavam, e, em algumas alas, era difícil achar gente cantando, como na ala “Imaginária Riquezas”. Na ala “Vigarista à vista”, a primeira da escola, os componentes estavam com o rosto tampado com pano, dificultando o canto para o desfilante e a visualização, pelo jurado, de quem estava cantando. E foi assim em diversas alas. O canto ficou devendo.
ENREDO
O enredo “Brasil Incógnito – O Que Os Seus Olhos Não Veem, A Minha Imaginação Reinventa” teve como objetivo recontar a história do Brasil a partir da perspectiva dos monstros e seres mitológicos criados pelos colonizadores. Os carnavalescos fizeram desses seres os verdadeiros heróis do país, de forma cômica, sarcástica e crítica.
O primeiro setor apresentou a estética marítima, com caravela híbrida e criaturas fantásticas. Nele, a Vigário Geral mostrou o primeiro encontro do invasor com o desconhecido nas águas do oceano Atlântico.

Já no segundo setor, a floresta e a invasão europeia dialogaram com o imaginário indígena distorcido. Nele, a escola abordou a entrada de bandeirantes, clérigos, viajantes, naturalistas e artistas no interior verde do Brasil.
Por fim, o último setor ressignificou esses “monstros” como símbolos da cultura brasileira, defendendo que a história de um país também é a história de suas criaturas imaginadas. Nessa última parte, a agremiação retratou a terra: os sertões revelaram-se uma região árida e pouco habitada, prolífera em causos, visagens e assombrações.
Apesar de um enredo ousado, irreverente e com crítica histórica, na Avenida, olhando fantasia por fantasia, havia certa dificuldade de relacionar os setores e de transportar o que era mostrado para a narrativa proposta pelos carnavalescos.
EVOLUÇÃO
A Vigário começou seu desfile com muita energia, no ritmo do samba, com espontaneidade e alegria. A escola manteve o tom de picardia do enredo e se apresentou brincando o carnaval, sem alas coreografadas e sem alas engessadas.

O único problema foi no segundo módulo de julgamento, quando a escola teve um momento em que o casal se movimentou e a ala de trás não acompanhou, deixando um espaçamento equivalente ao tamanho entre duas torres de som.
Na reta final, a Vigário ainda parou um pouco nos últimos setores para brindar o público com a bateria. Não foi um desfile perfeito no quesito, mas não chegou a ser um problema grave, pois a cabine não era dupla.
SAMBA-ENREDO
O samba foi produzido por Verônica dos Tambores, Junior Fionda, Marcelinho Santos, Junior Falcão, Flavinho Avelar, Geraldo M. Felício, Camila Lúcio, Gilsinho da Vila, Rogério Máximo, Rafael Gonçalves, Soares do Cavaco, Antônio Neto e Davison Jaime.

Baseado em um enredo que, mais do que qualquer coisa, é uma sátira, o samba da Vigário tem uma pegada engraçada, lembrando os melhores tempos, por exemplo, da São Clemente, tratando, neste caso, um assunto histórico com uma roupagem leve, com desconstrução, o que resultou em uma obra alegre, para cima. O andamento escolhido pela bateria e pela direção musical ajudou, assim como o rendimento do carro de som, que impulsionou a obra.
Destaque para os dois refrões “Se a canoa não virar…” e “Deixa o chão tremer…”, que eram os momentos em que o samba mais se destacava e a comunidade mais cantava.
FANTASIAS
O conjunto estético desenvolvido por Alex Carvalho e Caio Cidrini foi outro ponto alto do desfile na questão da estética, da criatividade e dos materiais alternativos. A dupla mais uma vez mostrou um trabalho com assinatura própria.
As primeiras alas, em um setor que trata do mar, trouxeram tons de azul mais claro na indumentária. As fantasias “Vigarista à vista”, falando dos portugueses que, para justificar a invasão, criaram um Brasil mitológico; logo depois “Criaturas marinhas”, que representava a vastidão do mar e o desconhecido do que havia nele por parte dos exploradores daquele tempo; e “Assombrações litorâneas”, que tratou do fascínio pelo desconhecido que aportou no litoral brasileiro, no mesmo setor e no mesmo tom de azul, produziram um efeito estético e de colorimetria interessante.

No segundo setor, houve mais utilização de tons dourados. No último setor, a escola trouxe cores mais vivas ao retratar dimensões da cultura brasileira. Já os tons mais desbotados, como o da ala das baianas “Relatos sertanistas”, trouxeram o que o próprio nome da fantasia indica: anotações, cartas e documentos que permitiram e validaram as descobertas feitas durante as jornadas, funcionando como ferramentas de registro científico, histórico e pessoal.
No final, a literatura de cordel também estava retratada na última ala, em consonância com os tons do último carro.
ALEGORIAS
Assim como nas fantasias, as alegorias tiveram a assinatura dos carnavalescos. Com trabalho estético criativo, bem executado e utilização de materiais diferentes do uso comum, a escola mostrou ter superado o incêndio no pré-carnaval, apresentando três alegorias de muito valor estético.

O carro abre-alas, primoroso e alto, com o nome “Imponente Brasil Submerso”, trouxe uma ode às assombrações do mar, bioma pelo qual os falsos “descobridores” adentraram o Brasil. Na alegoria, a caravela, símbolo maior da expansão marítima europeia, dialogava com a fauna e a flora marinha, como uma espécie de navio metamorfo que representava o medo do desconhecido. Da lateral, saíam bolas de sabão.
Na segunda alegoria, “Quimérico Nativo”, a escola apresentou uma floresta diferente de tudo que já havia sido visto por aqueles que chegaram à praia: árvores de todos os tamanhos, misturadas com orquídeas, cipós, samambaias, arbustos e ervas. No chão, sempre molhado, raízes e mudas. A segunda alegoria da Vigário Geral retratou as florestas tropicais do Brasil com seus enxames de insetos e répteis.

A terceira alegoria, “Malassombro Sertanejo”, apresentou a dura vida de quem desbravou o Brasil profundo, resultando em um carro alegórico inspirado nos causos do sertão nordestino. Para tal conceituação, a estética cordelista foi inspirada na obra visual de J. Borges e na obra textual de Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré e Cego Aderaldo.
Na figura central, o Cramulhão, meio monstro, meio humano, fruto da mestiçagem religiosa, sintetizava os temores do destino final dessa viagem no tempo e na alma brasileira. Carros de muita qualidade estética e criativa.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Swing Puro”, de mestre Luygui Silva, com a fantasia “Visagens da mata”, representou as aparições, assombrações, encantamentos ou seres sobrenaturais que povoam as florestas e tanto assustaram quanto fascinaram os povos locais e as expedições estrangeiras.
A rainha Patrícia Souza representou os rituais antropofágicos dos povos originários. Já os passistas da Vigário, com a fantasia “Bicho-fera”, representaram a onça-pintada, animal que causou muito espanto aos portugueses em sua chegada.
A presidente Betinha valorizou o trabalho de sua equipe, que superou o incêndio no barracão da agremiação.
União da Ilha transforma medo em luxo e abre a Série Ouro com espetáculo de contrastes na Sapucaí
A União da Ilha do Governador desfilou na noite da última sexta-feira, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida. Com o enredo “Viva o Hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira, a escola abriu sua apresentação propondo um mergulho no contraste entre o deslumbramento e o temor.
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Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da primeira ala detalharam emoções, expectativas e a responsabilidade de representar, logo no cartão de visitas, a identidade visual da comunidade insulana na disputa por uma vaga no Grupo Especial para 2027.
Inspirado no brilho lunar que corta o Universo, a escola trouxe para a Avenida a imagem de uma população dividida entre o fascínio e o medo diante da passagem de um cometa. De um lado, figuras elegantemente vestidas sob a influência de ares franceses; de outro, figuras do início do século passado, remetendo a um possível colapso atmosférico. O contraste se materializa no diálogo entre luxo e caos, traduzindo a pergunta que intitula a alegoria: “Será que o mensageiro desse caos sou eu?”.
A estética mistura referências da Belle Époque com o Movimento Steampunk. As figuras monstruosas, de visual impactante, foram confeccionadas com sobras de materiais e fantasias de carnavais anteriores, cedidos por colaboradores e escolas coirmãs. A proposta sustentável de Marcus Ferreira não apenas reduz desperdícios, como também reforça a criatividade como marca do fazer carnavalesco, ressignificando o passado para construir o presente.
Estreante, Nayana Gottgtroy, 47, doméstica, fala sobre sua percepção da fantasia que estava vestindo. “Para mim representa a elegância. É a primeira vez que desfilo, então tá sendo uma emoção e uma expectativa fora do normal”, afirmou. Sobre o reaproveitamento de materiais na alegoria, ela foi direta: “Acho muito melhor, reaproveitar é sempre o caminho mais sustentável”. Para Nayana, a responsabilidade de estar no Abre-Alas exige que a primeira impressão seja inesquecível, mesmo com a correria que teve para sua preparação.

Componente da escola desde 1997, Carlos Salcedo, 39 anos, técnico de enfermagem, também veste o luxo da composição afrancesada. “A minha fantasia representa a elegância, me sinto lisonjeado e extremamente feliz em vir no abre-alas. Acho uma boa ideia as escolas investirem nisso (uso de materiais recicláveis na produção de fantasias e alegorias), é muito mais sustentável”. Em sintonia com o samba-enredo, ele garante que, se o mundo acabasse ao fechar dos portões, sairia realizado da Avenida.
Carlos ainda destacou o peso emocional de abrir o desfile. “Emocional não tem jeito, a gente sempre fica emocionado, já o físico é a alimentação, beber muita água, praticar atividades físicas e descansar pra gente poder aguentar essa batalha na Avenida”, afirmou. A fala reforça que, por trás do espetáculo visual, há preparo e disciplina para sustentar o impacto que a escola deseja causar logo nos primeiros minutos de apresentação.

A estrangeira Morgan Little, 44 anos, vendedora, viveu sua primeira experiência no carnaval carioca diretamente no Abre-Alas. “É a minha primeira vez no carnaval do Rio, estou muito animada e mais animada ainda em poder fazer parte desse show. Minha fantasia é bem luxuosa, colorida e repleta de detalhes, parte a parte”. Encantada, ela afirmou não poder estar mais feliz e que quer “aproveitar tudo e ser muito feliz com a União da Ilha na Avenida”, sintetizando o espírito do enredo que celebra o hoje.
Entre o medo simbolizado pelas máscaras de gás e o luxo refletido nos figurinos elegantes, a União da Ilha construiu uma abertura que convida à reflexão sobre o tempo, o agora e o amanhã incerto. O Abre-Alas, com sua mistura insana de Steampunk e Belle Époque, não apenas impactou visualmente, como reafirmou o pertencimento de seus componentes a uma narrativa que transforma incerteza em arte.
Técnica e plástica consistentes colocam Colorado do Brás entre os destaques da noite
Quem estava no Anhembi no último sábado, viu ferver o caldeirão da Colorado do Brás. A escola apresentou um desfile tecnicamente positivo, sustentado principalmente pela plástica impecável e uma forte comissão de frente. Com enredo “A Bruxa Está Solta – Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a agremiação apostou na ressignificação da figura da bruxa como mulher detentora de saberes ancestrais.
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A escola foi a segunda a desfilar e encerrou sua apresentação em 1h02min51seg, dentro do tempo regulamentar e agora briga pelas cabeças.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão de frente abriu os portais do enredo ao representar o Grande Sabbath, ritual que inaugura o universo místico proposto pela Colorado. A encenação foi de fácil leitura e transformou o Anhembi em uma atmosfera de celebração dos saberes ancestrais.
Coreograficamente, a proposta apostou em uma construção mais ritualística, com movimentos que buscavam evocar a ideia de cerimônia e invocação. Além disso, a presença de um caldeirão com fumaça na cena ajudou na narrativa.

Ao longo das cabines, a apresentação se manteve regular com tempo médio de execução de 2 minutos no chão. O ponto de maior impacto esteve quando Sabbath foi suspenso no tripé, que representava os quatro elementos da natureza. Após a suspensão, o ator encena um ritual em uma performance solo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Brunno Mathias e Jessika Barbosa defenderam o pavilhão em diálogo direto com o enredo, traduzindo em dança o universo místico proposto pela escola.
Leves e visivelmente à vontade na pista, os dois apostaram em uma condução solta, marcada por alegria de quem realmente brinca na pista. Nos refrões, os passinhos laterais surgiram como resposta ao ritmo do samba. Em trechos específicos da letra, como na menção à noite de lua cheia, o casal apontava para o céu, reforçando a conexão entre coreografia e narrativa.

Jessika, em especial, incorporou gestos que remetiam o ato de enfeitiçar, desenhando movimentos com as mãos que dialogaram com a ideia da bruxa como figura de poder e encantamento. Nas apresentações para os jurados, esse recurso ganhou força quando os dois passaram a executar o gesto em conjunto, como se, simbolicamente, “lançassem um feitiço” sobre as cabines.
HARMONIA
O canto da Colorado do Brás apresentou comportamento irregular ao longo do desfile. Os apagões potencializaram a resposta da arquibancada e dos componentes, sobretudo nos refrões, quando houve aumento evidente de volume e participação coletiva. Nesses momentos, a escola alcançou seus melhores picos de rendimento no quesito.

Fora dos trechos de apagão, porém, o canto se manteve mais regular, com execução correta, mas sem a mesma força coletiva observada nos refrões.
ENREDO
A proposta de ressignificar a figura da bruxa como símbolo de mulheres detentoras de saberes ancestrais se desenvolveu em uma narrativa que partiu do ritual, atravessou a perseguição histórica e percorreu diferentes culturas até desembocar no presente. Na avenida, as bruxas surgiram representadas sob múltiplas formas: do imaginário popular e cultural, com personagens reconhecíveis e figuras icônicas, até referências a lendas antigas, tradições espirituais e saberes femininos ligados à cura e à ancestralidade.

Essa amplitude de representações contribuiu para uma leitura clara do enredo ao longo dos setores, facilitando a compreensão do público. O conjunto manteve coerência ao longo da pista, com encadeamento lógico entre os setores e respeito à narrativa apresentada.
EVOLUÇÃO
O andamento do desfile da Colorado do Brás foi, de modo geral, fluido, com as alas avançando de forma correta ao longo da pista. A opção por alas mais engessadas resultou em uma leitura visual mais rígida, porém contribuiu para a manutenção do espaçamento e da organização do conjunto parte da apresentação.

O principal ponto de atenção no quesito ocorreu na frente do Setor H, quando se abriu um espaço significativo entre o primeiro casal e a ala seguinte. O intervalo chegou a cerca de 12 grades de distância, em frente ao módulo de jurados, exigindo que algumas alas acelerassem o deslocamento para recompor o espaço vazio. Apesar da correção rápida da situação, o episódio pontual pode pesar na avaliação do quesito, já que rompeu momentaneamente a fluidez que vinha sendo mantida até então.

SAMBA-ENREDO
O samba-enredo funcionou como eixo de sustentação do desfile, alternando momentos de maior explosão coletiva com trechos de menor resposta da escola.
Alguns momentos do samba se mostram mais favoráveis ao canto em massa, como o “Vem ver vai ferver o caldeirão”.
FANTASIAS
As fantasias desempenharam papel central na tradução visual do enredo da Colorado, especialmente por se tratar de uma narrativa que depende fortemente de símbolos. De modo geral, os figurinos se mostraram muito bem acabados, com atenção aos detalhes e forte impacto visual, garantindo leitura clara em grande parte das alas.
É válido destacar também a maquiagem dos destaques que estavam em cima da terceira alegoria “A Convenção das Bruxas”.

Alguns setores tiveram destaque pela clareza imediata da proposta, enquanto outras alas exigiram maior atenção do público para interpretação, como as alas 09 e 10, que representavam a Bruxa de Blair e Malkin. Outro ponto de atenção foi a transição de cores a partir do segundo setor, quando o desfile passou de tons mais escuros para cores mais vivas de forma relativamente brusca, criando contraste perceptível e alterando o visual do conjunto.
Ainda assim, o alto nível de acabamento e a consistência das fantasias ao longo da pista sustentaram a leitura do enredo e o impacto cênico da escola.
ALEGORIAS
As alegorias funcionaram como marcos visuais da narrativa, estruturando os grandes momentos do enredo: o da perseguição, o dos saberes ancestrais, o da construção da bruxa no imaginário popular e o da libertação final. Cada carro apresentou uma leitura própria.

O grande destaque entre as alegorias da Colorado do Brás foi o abre-alas, que apresentou a perseguição às bruxas como eixo central da narrativa. O carro utilizou efeitos pirotécnicos em momentos estratégicos, com faíscas semelhantes a sinalizadores e três entradas de fogos de artifício ao longo da apresentação.
Além dos efeitos visuais, o carro apostou em encenação. Atrizes representavam uma prisão, reforçando o tema da perseguição. No trecho do samba que menciona o “grito calado”, as personagens gritaram simultaneamente, criando um momento de impacto nas arquibancadas.
A segunda alegoria das “Curandeiras Indígenas”. O carro se destacou não apenas pela concepção visual, mas também pela movimentação em cima, onde as componentes realizavam coreografias que remetiam a um ritual, dialogando com a ideia de saber ancestral.

Já a alegoria da “Convenção das Bruxas” apresentou uma mudança perceptível na paleta, com cores mais vibrantes e maior variedade visual. O carro reuniu personagens marcantes do imaginário popular, como Bruxa do 71, Úrsula, Cuca, Glinda, entre outros, além da presença de crianças remetendo à história de João e Maria na tradicional casa de doces da bruxa. A leitura foi imediata para o público, especialmente pela identificação com figuras conhecidas, consolidando o setor mais popular do desfile.
OUTROS DESTAQUES
A bateria Ritmo Responsa, comandada pelo Mestre Acerola de Angola, também interagiu com o público ao longo do desfile. Com coreografias bem executadas e intervenções pontuais, como gritos em momentos específicos do samba, eles contribuíram para elevar a energia da pista em alguns trechos. A bossa do refrão do meio se destacou como um dos pontos em que os componentes mais se soltavam.

À frente da bateria, Talita Guastelli confirmou na avenida o que já vinha sendo observado nos ensaios. Bailarina de formação, a rainha de bateria impressionou ao desfilar durante toda a apresentação sambando na ponta dos pés, aproximadamente uma hora de desfile sustentando o movimento. A resistência e o domínio técnico chamaram atenção e se consolidaram como um dos destaques individuais.
No rio vermelho da resistência: o abre-alas da Unidos de Padre Miguel anuncia força, ancestralidade e luta por retorno ao Especial
Abrir um desfile é mais do que iniciar uma apresentação. É definir o tom, a energia e a identidade de toda uma escola. Em 2026, a Unidos de Padre Miguel inicia seu cortejo na Marquês de Sapucaí mergulhando no vermelho simbólico do Rio Potengi para contar a história de “Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema”.
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O enredo homenageia Clara Camarão, indígena potiguara símbolo de coragem na resistência contra a invasão holandesa no século XVII. A narrativa celebra o protagonismo feminino, a espiritualidade da Jurema e a força ancestral dos povos originários.
O carro abre-alas representa o Rio Potengi tingido de vermelho, urucum e sangue, marcando o nascimento místico de Clara Camarão. Uma imensa escultura da Mãe D’Água domina a alegoria, enquanto o símbolo da escola, o Boi Vermelho, surge metamorfoseado em Pajé, unindo identidade, espiritualidade e tradição. À frente desse “rio vermelho”, a responsabilidade é sentida no corpo.

Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Ana Cristina Fonseca, advogada, de 65 anos, desfila há seis anos na escola e fala com garra sobre abrir o desfile.
“Vai ser contagiante abrir o desfile como a primeira ala. Estou com sangue nos olhos para vencer esse campeonato, porque esse ano a Unidos de Padre Miguel retorna para a Especial. A nossa flechada antes de entrar na Avenida é para espetar os jurados e nos fazer campeões. É uma emoção sem tamanho viver e representar esta escola, tem que cantar e gritar para soltar tudo que está dentro do corpo”, revela a componente.

FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Celso da Silva, psicólogo, de 65 anos, está há três anos na escola e destaca o peso simbólico do momento.
“Estou extremamente emocionado. Não imaginei a força e a carga que essa escola está representando na avenida. A nossa flechada antes de pisar na avenida é a demonstração da certeza, do foco e da garantia de que viemos para vencer. O Boi representa a força, a ancestralidade e ele é a vida”, confiante, afirma.

FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Elizabeth da Silva, de 55 anos, autônoma, vive seu segundo ano na Unidos e se emociona ao falar sobre o significado do abre-alas: “É uma emoção sem fim pertencer à Unidos de Padre Miguel. A nossa flechada é para assumir a Especial em 2027.” Com os olhos cheios de lágrimas, ela resume o sentimento coletivo de quem atravessa o rio vermelho carregando mais que fantasia: “carrega pertencimento”.

FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
William Costa, de 53 anos, militar, também no segundo ano na escola, enxerga o abre-alas como um marco simbólico. “Não tem coisa melhor que abrir o desfile, participar do abre-alas que tem um significado importante e de potência na história. O Boi Vermelho está no nosso sangue, no nosso coração e é a nossa família”.

FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Já Flávia Fernandes, de 61 anos, gráfica e componente há sete anos, conecta o enredo ao protagonismo feminino exaltado pela escola.
“É maravilhoso ser mulher e representar a nossa história, a força que só nós mulheres temos. O público precisa desfilar para entender a emoção que é representar e viver a Unidos de Padre Miguel e o Boi Vermelho”, analisa.
No primeiro impacto visual da Avenida, a Unidos de Padre Miguel não apenas abre o desfile: ela anuncia resistência, espiritualidade e identidade. Dentro do rio vermelho, entre urucum e ancestralidade, a escola reafirma sua origem, sua fé e seu desejo de vitória. Mais do que um abre-alas, é um chamado. Um sopro sagrado que ecoa da Jurema à Sapucaí.
Ala coreografada da UPM representa vitória feminina em batalha contra holandeses
No Carnaval 2026, a Unidos de Padre Miguel, escola que é reconhecida por colocar mulheres em locais de destaques, levou à Sapucaí o enredo “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, idealizado pelo carnavalesco Lucas Milato, em homenagem à Clara Camarão, mulher indígena responsável por liderar as batalhas contra a invasão holandesa no século XV.
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A agremiação foi a quinta a desfilar nesta sexta-feira, reafirmando a importância de colocar mulheres em posições de protagonismo. Entre os momentos da história de Clara Camarão, houve a batalha Tejucupapo, em que, com pimenta e água fervendo, as mulheres, lideradas pela homenageada, vencem a tropa holandesa com auxílio de pimenta e água fervente, e é isso que a ala 12 apresenta em sua coreografia.

A professora Gabriela Lima, 32 anos, está em seu segundo ano desfilando na agremiação e falou sobre a representação do enredo:
“Eu acho que é uma honra a gente poder estar aqui contando essas histórias que não costumam ser contadas nem por meios oficiais. O carnaval tem esse papel também de trazer aqui para a avenida, de mostrar para o Brasil, para o mundo todo essas histórias que muitas vezes não são contadas em outros lugares. Para a gente é uma honra poder estar reverenciando essa personagem, essa mulher forte, guerreira, como todas as mulheres da Unidos de Padre Miguel”.
“Por ser uma escola que tem um protagonismo feminino também muito grande na liderança, a nossa presidente, que agora é presidente, mas já foi diretora de Carnaval, e são muitas mulheres em cargos de liderança também. Pra gente a Clara Camarão é uma inspiração, assim como as outras mulheres da Unidos de Padre Miguel. É só continuando essa história de mulheres guerreiras, que não começou hoje, vem lá de trás e a gente está podendo reescrever esse protagonismo feminino que sempre fez parte da nossa história”, disse Gabriela.

Uma história construída a mais de uma década, Vanessa Barbosa, de 43 anos, vigilante, desfila na agremiação há 13 anos e falou sobre o processo de preparação física para esse momento:
“Foi árdua, a gente ensaiava de duas a três vezes por semana, fora os ensaios de rua, foi bem complicado, mas a galera conseguiu pegar a coreografia ‘legalzinho’. […] A nossa coreografia é uma guerra, as mulheres estão brigando para manter o lugar delas de origem e os homens são os soldados que estão nos impedindo, vai ser uma batalha mesmo na avenida, e ao meu ver vai ser muito legal e eu acho que a galera também vai gostar”.

A trancista, Ana Catarina, de 26 anos, está indo para o seu segundo ano desfilando com a agremiação e, para ela, representar a força da mulher em um cenário de batalha, foi o que mais chamou atenção dela:
“É uma luta contra os homens e, no final, ver que a mulher tem essa força e a gente consegue lutar unidas, isso foi muito emocionante”.
“Eu me sinto muito bem representada e é interessante para mim porque eu não conhecia essa história. É gratificante, emocionante, muito bonito, orgulhosa pela minha escola ter escolhido, estar escolhendo mulheres para vir homenageando nesses últimos anos”, disse Ana sobre a escolha do enredo.

Gabriel Alves, de 21 anos, repositor, desfila na Unidos de Padre Miguel a 2 anos e também falou sobre o processo de preparo físico:
“A gente já vem se preparando há alguns meses, desde julho, agosto. Todo um físico tem que ser mantido, tem que ter bom cardio, bom preparo, não pode dar bobeira. A academia tem que estar em dia pra aguentar, ainda mais que a gente é ala coreografada. A ala 12 vem representando uma ala coreografada. Exige muita dedicação, um bom respiro, uma boa coordenação, motor, tem que estar tudo em dia”.
“Elas estão vindo de camponesas e a gente está vindo de holandeses e ao longo do desfile a gente vai retratando essa batalha, então temos várias cenas de ação, várias cenas de luta. Representando bem esse momento da passagem e da vitória das meninas contra os holandeses”, concluiu Gabriel.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Vigário Geral no desfile no Carnaval 2026
Um desfile muito bom da bateria “Swing Puro” da Acadêmicos de Vigário Geral, dirigida por mestre Luygui. Um ritmo possante foi exibido, graças a uma afinação potente e pesada de surdos. O chapéu demasiado elevado dos ritmistas prejudicou a visão pela pista, dando trabalho extra a diretores de bateria prestativos e antenados. Esse fato fez com que muitos ritmistas desfilassem sem a espontaneidade ideal, já que tinham que se preocupar em visualizar as sinalizações da diretoria.

Na cabeça da bateria “Swing Puro”, uma boa ala de cuícas veio na frente do ritmo. Chocalhos de exímia qualidade tocaram juntos de um naipe de tamborins de virtude musical coletiva impressionante. O belo entrosamento musical entre tamborins e chocalhos foi o maior destaque do belo trabalho envolvendo as peças leves.
Na parte de trás do ritmo da Vigário, uma afinação potente e bastante pesada de surdos foi exibida. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza e precisão. Surdos de terceira de inegável qualidade ficaram responsáveis pelo balanço envolvente. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas bem consistente, que auxiliou no ritmo e em bossas, acentuando as levadas com eficiência. Ajudaram também no ótimo preenchimento dos médios, uma ala contendo taróis sólidos.
Bossas possantes se aproveitavam das nuances melódicas do samba da Vigário para consolidar seu ritmo. Tudo com bastante pressão sonora, por causa da pesada e impactante afinação das marcações. É possível dizer que a criação musical levou em conta um conceito contemporâneo para dar vida aos arranjos, diante da complexidade rítmica de alguns, além da dificuldade de execução elevada. Mesmo difíceis, as execuções em módulos ocorreram sem problemas, graças à qualidade técnica acima da média dos ritmistas.
Uma apresentação muito boa e poderosa da bateria “Swing Puro” da Vigário, dirigida por mestre Luygui. Um ritmo com potência sonora dos surdos foi exibido, tudo com uma criação musical de conceito bem contemporâneo. A “Tropa do Amassa” deu seu recado com categoria, realizando boas apresentações no primeiro e no segundo módulo de julgadores. A exibição na última cabine (dupla) foi fabulosa, arrancando aplausos dos julgadores, evidenciando o grande desfile da bateria da Vigário.

