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Público reage ao primeiro dia de desfile das escolas da Série Ouro

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Por Maria Estela Costa e Juliane Barbosa

A superstição deu lugar ao espetáculo na Marquês de Sapucaí. Nesta sexta-feira, 13 de fevereiro, o primeiro dia de desfiles da Série Ouro transformou expectativa em vibração, arquibancadas cheias e análises apaixonadas do público que acompanhou cada detalhe das apresentações.

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Sete escolas passaram pela Avenida levando enredos marcados por identidade, território, ancestralidade e disputa por uma vaga no Grupo Especial. Mais do que assistir, o público avaliou, comparou e reagiu da comissão de frente ao último módulo da bateria.

A Unidos do Jacarezinho abriu a noite e trouxe a comunidade para o centro da cena. A agremiação levou à Sapucaí o enredo “O ar que respira agora inspira novos tempos”, idealizado pelo carnavalesco Bruno de Oliveira, em homenagem à trajetória do cantor Xande de Pilares.

Douglas Gomes, de 30 anos, assistente administrativo, avaliou a apresentação da escola da Zona Norte do Rio.

“Muito bom, o enredo muito bom, a construção também muito boa, a bateria estava ótima. Eu acho que a história que eles contaram e tudo mais sobre o Xande de Pilares ficou ótima. Não faltou nada, eu acho que a bateria foi 100%. A escola vem para subir. Eu acho que, dentre todas, foi a melhor de hoje”, confiante, afirma.

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Douglas Gomes, de 30 anos
FOTO: CARNAVALESCO

Na sequência, a Inocentes de Belford Roxo apostou em um desfile vibrante e reforçou a sua identidade na tentativas de convencer os jurados e as arquibancadas. A Caçula da Baixada levou para a Avenida o enredo “O sonho do tal pagode russo, nos frevos do meu Pernambuco”, idealizado pelo carnavalesco Edson Pereira, em homenagem à cultura pernambucana e ao músico Luiz Gonzaga.

O jornalista Rodrigo Coutinho, de 39 anos, revelou ter ficado surpreso com a apresentação da agremiação da Baixada Fluminense.

“Foi um desfile que me surpreendeu. Achei visualmente a escola estava com boas soluções. Óbvio, não tinha luxo, mas não tinha nada mal acabado. Tinha leitura, estava com fantasia e acho que a escola foi bem no chão. Foi um dos melhores desfiles de chão da Inocentes nos últimos anos. Gostei muito. Não só a escola cantando, mas o carro de som também junto com a bateria”, analisou o jornalista.

O jornalista Rodrigo Coutinho
O jornalista Rodrigo Coutinho, de 39 anos
FOTO: CARNAVALESCO

A União do Parque Acari levou para a Avenida a força de sua narrativa e manteve o ritmo da disputa acirrado. A agremiação apresentou o enredo “Brasilidades”, pensado pelo carnavalesco Guilherme Estevão, em homenagem ao Teatro Folclórico Brasileiro, que anos depois se tornou o Brasiliana e foi responsável por levar a cultura brasileira mundo afora.

Josiane Martins, 40 anos e bibliotecária: “Achei um desfile morno, não teve nada deslumbrante na escola e senti falta dos componentes cantando, agitando e sacudindo a avenida, poderiam ter entregado mais neste desfile”.

Josiane Martins 40 anos e bibliotecaria
Josiane Martins, 40 anos e bibliotecária
FOTO: CARNAVALESCO

Vinicius Assis, é contador e tem 42 anos. “Achei a plástica do desfile ótimo, foi muito bonita. Mas o enredo não agitou o público. Houve uma falta de empolgação ou algo que causasse mais alegria na Avenida. Por outro lado, o carnavalesco fez ótimas escolhas e foi muito bonito”.

Vinicius Assis e contador e tem 42 anos
Vinicius Assis, é contador e tem 42 anos
FOTO: CARNAVALESCO

Já a tradicional Unidos de Bangu apresentou o enredo “As coisas que mamãe me ensinou” com garra, dividindo opiniões e arrancando aplausos em pontos estratégicos da Sapucaí. O tema foi planejado pelos carnavalescos Alexandre Costa, Lino Sales e Marcus do Val, e celebra a vida e trajetória profissional da cantora Leci Brandão.

Zelma Silva, 74 anos e secretária executiva da Bolsa: “Eu gostei, estava bonitinho. O desfile dela estava um desfile, assim, animado. Estava simples, mas os componentes estavam bem animados. Eu gostei da porta-bandeira e do mestre-sala. Fizeram uma graça aqui, se esforçaram muito e fizeram muito bonitinho”, comentou.

Zelma Silva 74 anos e secretaria executiva da Bolsa
Zelma Silva, 74 anos e secretária executiva da Bolsa
FOTO: CARNAVALESCO

Um dos momentos mais comentados da noite foi a passagem da Unidos de Padre Miguel, que investiu em impacto visual e emoção para marcar seu retorno e reafirmar sua potência na Série Ouro. A agremiação levou um enredo que aborda a potência feminina: “Kunhã-Eté: O sopro sagrado da Jurema”, pensado pelo carnavalesco Lucas Milato, em homenagem a Clara Camarão, indígena Potiguara que se tornou símbolo da resistência feminina após liderar batalhas contra as invasões holandesas.

Sueli Loureiro, 77 anos e professora aposentada. “Eu adorei. Para mim, é a melhor escola que passou hoje. Eu não vi a primeira, mas das outras que eu vi, foi a melhor. Gostei muito da Comissão de Frente da UPM, me emocionou. Foi muito linda, perfeita”.

Sueli Loureiro 77 anos e professora aposentada
Sueli Loureiro, 77 anos e professora aposentada
FOTO: CARNAVALESCO

A União da Ilha do Governador manteve o alto nível da disputa, com um desfile técnico e envolvente que gerou debates nas arquibancadas.

Érica Valentino, 38 anos e auxiliar de serviços gerais: “A União da ilha fez um desfile bonito. Teve harmonia, mas faltou um pouco de conexão com o público, principalmente no Setor 1, que nós somos a comunidade raiz. A apresentação foi boa, mas o enredo deixou a desejar para levantar a arquibancada”.

Erica Valentino 38 anos e auxiliar de servicos gerais
Érica Valentino, 38 anos e auxiliar de serviços gerais
FOTO: CARNAVALESCO

Thiago Tononi, 25 anos, é bailarino: “A União da Ilha veio bem bacana. A escola estava grande, e as fantasias volumosas. Por mais que seja uma fantasia grande e bonita, eu acho prejudicial para o componente. A escola surpreendeu e mostrou que veio para competir, mas referente ao enredo, estava confuso. O intérprete tem uma voz boa de se ouvir, porém eu não consegui conectar as alas com a história do enredo”.

Thiago Tononi 25 anos e bailarino
Thiago Tononi, 25 anos, é bailarino
FOTO: CARNAVALESCO

A última escola desta sexta-feira foi a Acadêmicos de Vigário Geral. A agremiação fechou a Avenida com energia intensa, deixando a sensação de que a disputa está completamente aberta. O enredo escolhido foi o “Brasil Incógnito: O que seus olhos não veem, a minha imaginação inventa”, formulado pelos carnavalesco Alex Carvalho e Caio Cidrini. A obra faz uma releitura da história do Brasil Colônia, por meio de um ponto de vista decolonial.

Fernando da Silva, 59 anos e professor: “A Vigário se apresentando por último é meio complicado, porque a arquibancada está mais vazia. Isso influencia em saber se o público gostou do enredo, e a grande maioria já gastou muita energia. Acredito que, dentro das escolas de disputa desta noite, a Vigário fez uma boa apresentação. Está em um bom patamar”.

Fernando da Silva 59 anos e professor
Fernando da Silva, 59 anos e professor
FOTO: CARNAVALESCO

Técnica irretocável aliada a andamento do samba enriquecem desfile dos Acadêmicos do Tatuapé

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Os Acadêmicos do Tatuapé atravessaram o Sambódromo do Anhembi, na última sexta-feira, em desfile válido pelo Grupo Especial do Carnaval de São Paulo em 2026. Quarta escola a cruzar a Passarela do Samba, a apresentação foi marcada pelo excelente desempenho da ala musical e pela impecabilidade técnica do cortejo, encerrado após 62 minutos na Avenida. A Escola da Emoção desfilou com o enredo “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”, assinado pelo carnavalesco Wagner Santos.

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O Tatuapé é uma escola sempre focada em buscar o título. As apresentações da Azul e Branco cumprem seu papel cultural, e sua comunidade se diverte na Avenida. O que se viu no Anhembi foi, mais uma vez, uma escola que vem para a briga, conseguindo trazer um enredo político sem o peso da política, mostrando os benefícios da reforma agrária e das técnicas alternativas de cultivo. Que a Escola da Emoção continue exercendo seu importante papel cultural, e se suas escolhas musicais ou estéticas geram debates, cabe às outras agremiações mostrarem competência superior.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Leonardo Helmer, a Comissão de Frente representou na Avenida “O Broto Primordial”. Assim como no ano anterior, o quesito apostou em uma apresentação abstrata, com a missão de começar a narrativa do enredo e entregá-la para o elemento seguinte do desfile. Um elemento alegórico representava esse broto, com dimensões imponentes e visual rústico e marcante, acompanhando a caracterização dos dançarinos da comissão.

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Não há uma leitura verbal direta do que ocorreu. Trata-se de uma dança sensorial, cujo objetivo foi fazer o público imaginar o surgimento da vida através do que passava diante de seus olhos. Foi uma abertura de desfile onírica e exótica, mas certamente impactante. As fantasias dos dançarinos eram vívidas, e junto da alegoria formaram um único conjunto, em especial no ato em que todos os componentes coreografavam em cima do tripé. Durante a passagem pelo primeiro módulo, a finalização desse ato aparentou uma demora de conclusão, pela tentativa de guardar os adereços de mão na estrutura destinada, algo que foi mais ágil no restante dos módulos em que foram observados.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O “Casal Foguinho” do Tatuapé, formado por Diego Campos e Jussara Souza, se apresentou com fantasias representando o “Céu”. Conseguindo trazer os desejados 30 pontos há oito anos, a dupla novamente fez uma apresentação correta, cumprindo as obrigatoriedades em todos os módulos em que foram observados. Mesmo durante a passagem pelo terceiro jurado, quando a escola parou parcialmente de evoluir para a execução do recuo da bateria, o casal lidou bem com a situação. É esperado que a sequência de boas avaliações continue aumentando.

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HARMONIA

O samba do Tatuapé ecoou pelo Sambódromo do Anhembi na boca de sua apaixonada comunidade com vigor e irreverência. Ajudados por uma evolução tranquila do início ao fim, os desfilantes brincaram o carnaval à vontade, contribuindo consideravelmente para tornar o desfile altamente técnico da escola um espetáculo agradável de se acompanhar. A escola pode esperar bons frutos do desempenho do quesito no dia da apuração.

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ENREDO

“Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra” é um enredo concebido com apoio do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Apesar do que a curiosa parceria entre os Acadêmicos do Tatuapé e um dos mais conhecidos movimentos sociais do Brasil possa sugerir, a reforma agrária não foi o único elemento explorado no desfile.

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Como a própria Comissão de Frente entrega logo no início, a apresentação da Escola da Emoção começa com o surgimento da vida e a celebração do mundo criado por Tupã, dentro da crença dos povos originários. É no segundo setor que a história da exploração da terra começa a ganhar forma, ao mostrar como os invasores portugueses utilizavam a mão de obra no período do Brasil Colonial, as culturas semeadas e as primeiras lutas sociais pelo direito dos pequenos produtores. A demanda pela reforma agrária começa a ser explorada no terceiro setor, destacando os elementos mais intimistas relacionados à agricultura familiar. O desfile se encerra com mais culturas típicas desse grupo de trabalhadores rurais, chegando ao último carro com direito a uma grande festa na roça.

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Na Avenida, a leitura da narrativa foi clara, e o conjunto de fantasias serviu como uma espécie de tapete para os elementos apresentados pelas alegorias. Espera-se que o quesito consiga cumprir sua missão no dia da apuração.

EVOLUÇÃO

O Tatuapé realizou no Anhembi um andamento de desfile praticamente perfeito. A fluidez foi constante do início ao fim diante dos módulos em que foram observados, e a manobra do recuo de bateria foi executada com maestria, tendo na corte de bateria papel fundamental para fechar os espaços sem alardes. Quesito que tem impactado as escolas consideravelmente nos últimos anos, pode ser um trunfo importante para as pretensões da Azul e Branco.

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SAMBA-ENREDO

O samba do Tatuapé para o Carnaval de 2026 foi fruto da junção dos dois finalistas do concurso, por isso a lista de compositores é grande: Turko, Zé Paulo Sierra, Silas Augusto, Rafa do Cavaco, Cláudio Russo, Luis Jorge, Fábio Souza, Dr. Élio, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinícius, Lucas Donato, Salgado Luz, Daniel Goulart, Fabian Juarez, Fábio Oliveira, Wagner Forte e Chico Maia. Curiosamente, não é a primeira vez que obras assinadas por Turko e Aquiles da Vila são unidas por decisão de uma escola de samba. A última vez em que isso ocorreu foi em 2023, com o samba do desfile campeão da Mocidade Alegre.

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A Escola da Emoção adotou como critério a escolha de sambas que apresentam rigorosamente o conteúdo de cada setor do desfile, o que faz com que junções de samba sejam muito comuns. A busca pela obra mais funcional possível dentro da narrativa do enredo gera resultados muitas vezes controversos, sendo o samba de 2026 um exemplo desse processo. Essa postura pode estar atrelada a um de seus maiores trunfos: o poderoso carro de som, comandado há mais de uma década pelo intérprete Celsinho Mody. Com uma das vozes mais exaltadas da atualidade, conta com um elenco de apoio implacável, com destaque para a potência vocal da cantora Keilla Regina. Juntos, conseguem fazer com que a escolha da escola funcione bem na Avenida, proporcionando um desfile imersivo e agradável, seja qual for o enredo.

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Em 2026, novamente os cantores do Tatuapé cumpriram as expectativas. A condução do samba foi irretocável, e Celsinho Mody mais uma vez foi um dos principais destaques do desfile da escola. A comunidade cantou o samba com clareza e animação, mostrando que a estratégia da escola pode ser contestada o quanto for, mas inegavelmente funciona.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias do Tatuapé procurou retratar, dentro da divisão de setores, cada ambiente proposto. O maior desafio para a compreensão das vestimentas, porém, está na ausência de uma linearidade clara na narrativa. A função primordial do quesito se deu mais pela construção de cenários, como visto especialmente no Setor 2, onde a Ala 2 fez uma representação do trabalho escravo e a Ala 6 retratou a Guerra de Canudos, mas os componentes entre essas duas alas apenas representavam culturas agrícolas. O Setor 3 trouxe elementos associados às plantações, enquanto o Setor 4 trouxe mais exemplos de plantações. O peso narrativo ficou majoritariamente nas alegorias, tirando a obrigação das fantasias de chão de contarem o enredo diretamente, ao transformar os componentes em uma massa cromática de apoio visual.

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As fantasias do Tatuapé estavam bonitas, e contavam com uma leveza que facilitou aos componentes desfilarem tranquilamente. A ala do Algodão e do Café estavam especialmente belas, e chamaram atenção pela solução inteligente no uso de materiais. É um quesito que pode render boas notas para a escola.

ALEGORIAS

Os Acadêmicos do Tatuapé apresentaram na Avenida um conjunto formado por quatro carros alegóricos. São eles: O Abre-alas, “A Criação de Tupã”, fez uma grande representação de como a natureza era antes da chegada dos invasores portugueses. O Carro 2, “A ganância, a cobiça humana, os vilões da agricultura”, trouxe um cenário caótico em que o uso desenfreado de técnicas agressivas de plantio, como queimadas para limpar a terra e agrotóxicos, são muito utilizados por grandes produtores rurais. O Carro 3, “Área de Reforma Agrária Popular: Assentamento”, mostra os frutos das lutas pelo direito à terra dos pequenos agricultores, como o trabalho manual e a vida comunitária. Por fim, o Carro 4, “Tem festa na roça: É a festa da colheita”, faz a grande celebração pelo resultado de um trabalho bem-feito.

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As alegorias evidenciam a qualidade do método de construção de desfiles do Tatuapé, onde a história contada por meio dos carros alegóricos e do samba torna o tapete formado pelo conjunto de fantasias um grande cenário de fácil leitura narrativa. Na Avenida, porém, notou-se uma disparidade no nível de acabamento entre o carro Abre-alas, mais rico em detalhes, em relação às demais alegorias, em especial a última, que teve um uso demasiadamente elevado de tecido estampado como solução de acabamento.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Qualidade Especial” teve uma boa apresentação na Avenida. Os comandados pelo mestre Cassiano Andrade, estreante no posto pela escola, contribuíram para o andamento do samba com um bom conjunto de bossas. Mas o destaque principal fica para a corte de bateria liderada pela Rainha Muriel Quixaba, onde juntas tiveram papel determinante para a excelente execução do recuo pelo quesito, fechando os espaços sem dar chances para evidenciar buracos. Beleza e samba no pé ajudam muito, e isso elas têm de sobra, mas atuar de maneira tão positiva para o desempenho não é algo que se vê em todas as escolas.

Tatuapé 2026: Galeria de fotos do desfile

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Conjunto alegórico e comissão de frente são destaques principais no desfile da Dragões da Real

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Nesta sexta-feira de carnaval, a Dragões da Real realizou seu desfile oficial no Sambódromo do Anhembi, exaltando as Guerreiras Icamiabas. Com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”, a escola apresentou um espetáculo de forte identidade indígena, marcado por alegorias monumentais e um conjunto coeso.

A agremiação da Vila Anastácio demonstrou atenção ao novo manual do julgador e conseguiu executar suas propostas de forma satisfatória. O canto foi predominante ao longo de todo o percurso, sustentado por um conjunto musical bem entrosado. Destaque para as convenções do mestre Klemen e para o apagão conduzido por Renê Sobral. Como já apontado no pré-carnaval, a escola certamente brigará pelas primeiras posições da tabela. O desfile foi concluído em 1h03.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Ricardo Negreiros, a comissão apresentou o quadro “As Icamiabas e o Sopro da Floresta”. Cinco elementos compuseram a encenação: o nascimento da Icamiaba, as guerreiras já formadas, uma pajé, os espíritos da floresta e o amuleto muiraquitã, representado por uma criança.

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O ápice ocorreu na transformação das Icamiabas recém-nascidas em guerreiras. O elemento alegórico se fechava e, ao reabrir, revelava novas personagens com flechas e fantasias vermelhas, simbolizando força e impacto. A troca de elenco, com efeito visual surpreendente, arrancou aplausos do público. Todos os movimentos obrigatórios, saudação ao público e apresentação do pavilhão, foram executados com clareza. Assim como nos ensaios técnicos, a comissão teve fácil leitura e traduziu bem o enredo, especialmente ao destacar o surgimento das Icamiabas e o muiraquitã.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Rubens de Castro e Janny Moreno, com a indumentária “A Proteção Espiritual e a Superação”, realizou uma apresentação tecnicamente segura. Os movimentos obrigatórios foram executados com precisão, inclusive as finalizações após os giros horário e anti-horário. Embora a coreografia não tenha sido exuberante, o desempenho foi correto e satisfatório.

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HARMONIA

Repetindo o padrão dos últimos anos e dos ensaios técnicos, a Dragões manteve excelência no canto. Mesmo com fantasias de grande volumetria, a escola sustentou a harmonia do início ao fim do desfile. O apagão nos versos finais, a partir de “Valentes guerreiras”, foi um dos momentos mais marcantes. Diferentemente do habitual, não ocorreu no refrão principal, mas em outro trecho do samba, demonstrando ousadia do conjunto musical.
O samba foi abraçado pela comunidade e teve uma arrancada forte, contagiando inclusive as arquibancadas.

ENREDO

A proposta foi exaltar a lenda das Guerreiras Icamiabas, mulheres amazônicas associadas à força, resistência e preservação ambiental. O enredo também estabeleceu um paralelo com o empoderamento feminino contemporâneo, evidenciado em versos como: “Levam nome de Marias, mulheres comuns… No peito amor, na pele urucum”.

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Esteticamente, o desfile foi marcadamente indígena, sobretudo nas alegorias. A segunda alegoria, que retratou Iaci e Iara, destacou-se pelo clima de floresta, com animais em movimento, água jorrando e uma imponente representação de Iara.

A última alegoria trouxe uma mensagem atual e reflexiva, simbolizando a destruição da Amazônia, com predominância do preto. Não houve um final feliz, mas sim um alerta necessário. A Dragões conseguiu articular de maneira respeitosa as lendas amazônicas, o empoderamento feminino e a conscientização ambiental, oferecendo um espetáculo visual bem acabado, criativo e de fácil leitura.

EVOLUÇÃO

A evolução foi satisfatória e manteve a característica da escola: intensidade e movimentação coletiva. A Dragões desfilou compacta, sem riscos de buracos ou divisão de alas. Impressionou o espaçamento mínimo entre uma ala e outra, fruto do trabalho atento dos coordenadores ao longo da pista. Algumas alas coreografadas também se destacaram pela criatividade.

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SAMBA-ENREDO

Sob o comando de Renê Sobral, o carro de som apresentou alto nível técnico. Músicos como Jorginho Soares integraram o conjunto, e a cantora Mayara Lima realizou uma bela abertura com voz e cordas na introdução. Após o grito de guerra, a escola teve uma largada impactante. A letra, aliada aos arranjos e ao entrosamento com mestre Klemen, manteve o público envolvido durante todo o desfile.

FANTASIAS

Com assinatura do carnavalesco Jorge Freitas, as fantasias apresentaram alta volumetria, luxo e excelente acabamento. Os costeiros merecem menção especial. A evolução compacta valorizou o colorido da escola na avenida, criando um contraste visual marcante, especialmente no primeiro setor.

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ALEGORIAS

O abre-alas, “Aldeia Icamiaba e as Iguanas da Proteção”, trouxe um dragão, símbolo da escola, na maior escultura já apresentada pela agremiação, com movimentos e efeitos de fumaça. O restante do carro exibiu riqueza de detalhes indígenas, reforçando o respeito estético ao tema.

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A segunda alegoria, “Iaci e Iara no Templo das Esmeraldas e das Muiraquitãs”, destacou o amuleto sagrado em formato de sapo. Sapos cenográficos com movimentos de boca e língua deram dinamismo ao carro. As esculturas de Iara e Iaci impressionaram pelo realismo, e a água jorrando no topo reforçou a simbologia da mãe das águas. Apesar de deixar o chão molhado, o efeito não comprometeu a evolução.

O terceiro carro, “A Transformação Icamiaba na Resistência contra os Invasores”, simbolizou a chegada europeia e a defesa do território. A escultura feminina com traços humanos e animais remeteu à força mítica das guerreiras.

A quarta alegoria, “Fogo e Destruição: a Luta pela Preservação do Santuário Icamiaba”, encerrou o desfile com tom reflexivo. A predominância de cores escuras reforçou a mensagem de alerta ambiental. Observou-se, porém, a exposição de uma roda no lado direito, o que pode ser considerado elemento visual indesejado.

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No geral, o conjunto alegórico foi um dos grandes destaques da noite, alinhado ao novo modelo de julgamento, que valoriza impacto visual e acabamento.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Ritmo que Incendeia”, comandada por mestre Klemen, desfilou caracterizada como “Guerreiros Tupi”, mantendo regularidade e energia ao longo do percurso.

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As baianas, representando as “Mulheres Anciãs”, encantaram vestidas de vermelho. Já a corte de bateria, com a rainha Karine Grum, a musa Lexa e a princesa Yohana Obyara, imprimiu carisma e samba no pé ao desfile.

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Em síntese, a Dragões da Real apresentou um desfile consistente, visualmente impactante e tecnicamente competitivo, credenciando-se como forte candidata às primeiras colocações do carnaval.

A ala “Brasil Devorador”, da Vigário Geral, transforma o monstro do desconhecido em potência na Sapucaí

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Última escola a entrar na avenida no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral levou à Marquês de Sapucaí a ala 18, “Brasil Devorador”, tradicional ala de amigos da escola e responsável pelo fechamento conceitual do enredo.
A ala materializou a ideia central de que o olhar colonial transformou o Brasil em “monstro” para justificar invasões e violências, e o país respondeu devorando culturas, misturando referências e criando algo novo. O figurino traz uma bandeira do Brasil estilizada com a frase “O que nos faz Brasil é nossa alma devoradora”. Aqui, o “monstro” deixa de ser ameaça e vira potência criativa.
O carnavalesco Vitor Vasale, do Espírito Santo, acompanhou o amigo Giovanni Lima, professor universitário de Uberlândia, que estava pela primeira vez no Rio. Vitor comentou o que, para ele, diferencia o Brasil quando o assunto é cultura popular.

 

 

Vitor e Geovane Acari
Vitor e Geovane. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Eu acho que o caldeirão cultural que o Brasil é contribui muito para essa característica nossa. Então, assim, essa mistura de povos que se dá por esse processo de colonização e que se reinventa e se ressignifica o tempo todo contribui para a gente ser essa nação tão diferente”.
“E tem uma perspectiva antropofágica. Porque chega o processo de colonização bastante violento com quem está aqui, mas também introduz pessoas a partir de processos de violência pela escravização. E aí essas pessoas, a partir dos seus próprios repertórios e também resgatando aquilo que a própria terra dá, criam uma noção de território que é muito bonito e talvez seja uma das mais bonitas do mundo, sabe? Um povo que acolhe a diferença. A gente vive um monte de tensões e de polarizações, mas acho que, em suma, a gente acolhe. Acolhe a diferença”, completou Geovane.
Vitor ainda ressaltou o papel do carnaval nesse processo.
“Eu acho que o Rio de Janeiro e a própria escola de samba e o desfile de escola de samba são uma aula sobre isso, do quanto que a negritude conseguiu fazer, através da resistência, essas marcas de um povo. O carnaval hoje é a vitrine cultural do Brasil, e nada mais nada menos é a marca de um povo”.
Geovane ampliou a leitura para além da negritude: “E a Vigário Geral não está falando nem só da negritude. Ela fala dos indígenas, dos povos originários, e pensar como isso se construiu. E é uma revisão, não é nem uma visão. E estamos felizes que é revisão. Eu acho que a gente está contando a história, porque no processo de colonização a gente importou muitas histórias que não eram nossas, e o carnaval conta o que é nosso. Tem uma noção de revisão histórica muito interessante”.
Sobre a frase “O que nos faz Brasil é a nossa alma devoradora”, ambos concordaram que ela faz senrtido: “Com certeza. Totalmente”.
“Eu acho esse ‘devorador’ uma proposição metodológica, porque o processo dos 1500 imputa pra gente tudo que não é nosso e a gente mastiga isso e, a partir dessa mastigação, devolve e cria esse caldeirão de culturas que o Vitor disse. Então a gente primeiro come, e o que come vira o que a gente está mostrando, o que faz todo sentido o Brasil devorador. Os povos afro que chegaram ao Brasil já tinham isso na cultura deles, na África. Quando você conquistava por meio da guerra ou pelo que fosse, tinha essa característica de você se apropriar também daquilo que você não eliminava, você agregava à sua cultura. E foi muito isso que aconteceu no Brasil. Agregou e fez disso outra coisa gigantesca, brilhante e maior. E o carnaval, como arte contemporânea mesmo, no sentido do pensamento elaborado, é pegar esse processo de violência e dizer: ‘toma aqui, lidem com isso’, aprofundou Geovane.
A nutricionista Gabriela Flauzido, 32 anos, também se reconheceu na proposta do enredo.
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Gabriela Flauzido. Foto: CARNAVALESCO
“É sobre como o de fora vê a gente realmente como monstros ou coisas muito diferentes. Assim, o que é diferente é tratado como ruim. Precisamos reinventar essa ideia pra poder mostrar que, às vezes, o que é visto como ruim, na verdade, é o que faz a gente ser o que a gente é”.
Para ela, o carnaval é o maior retrato dessa transformação: “O carnaval representa muita coisa sobre o retrato do Brasil. Não é só a dor, mas tudo. O espelho do Brasil é o que a gente representa nessa festa. A forma como conseguimos fazer com que toda a dor, a desigualdade, as coisas que podem parecer ruins, realmente reinventamos e colocamos isso na festa. É tanta coisa, por exemplo, as escolas que falam sobre os indígenas, sobre toda a nossa história, que é um passado triste, que a gente reinventa numa festa que é alegria”.
A designer de moda e moradora do Maracanã, Hannah Vaz, 35 anos, enxergou essa “alma devoradora” em diversos aspectos da nossa cultura.
Hannah Vaz
Hannah Vaz. Fotos: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Tudo que cai na mão do brasileiro a gente reinventa. Eu trabalho com gastronomia, a gente vê isso, por exemplo, com comida. A gente frita sushi. No Brasil, para tudo a gente dá o nosso jeitinho, dá a nossa cara e fica ainda melhor”.
Sobre o que diferencia o Brasil no campo popular, ela analisou: “Eu acho que a gente conseguiu fazer uma união, apesar de colônia. Viemos puxando um pouquinho de lá, um pouquinho de cá, e a gente conseguiu transformar em algo realmente nosso, não uma cópia de outras coisas. Conseguimos ressignificar todas as culturas que vieram pra gente. E agora a gente tem algo que é genuinamente brasileiro. No momento atual é mais do que essencial a gente mostrar o quanto que a gente tem orgulho de ser brasileiro, né? Porque tantas coisas a gente tem visto aí que têm acontecido e têm dado uma manchada no nosso nome, mas a gente não pode deixar a peteca cair, não. Aqui é Brasil, como diz muito por aí, aqui é Brasil”.
O professor e parceiro criativo do carnavalesco Caio Cidrini, Guilherme Chalo, de 33 anos, participou da escrita da sinopse do enredo e se sente diretamente representado por ele.
“Foi bem interessante esse processo de repensar o país através dessa ideia do monstro, essa ideia de alguma coisa que a gente não conhece, mas é fundamental para a nossa formação e para a nossa história. Acho que o enredo e o desfile vão representar bastante essa ideia de repensar através dessas estranhezas, dessas coisas que alguns não conseguem entender, compreender, se conectar. O enredo ai trazer essa geografia de forma bem interessante. A cultura popular tem essa dimensão de mistura, mas tem essa dimensão também de reinvenção do nosso povo através disso que o enredo fala, disso que o enredo se propõe a refletir e pensar através da mistura. O samba fala de uma espécie de miscigenação com a coroa, o cocar e a pele preta. Acho que a cultura popular tem um pouco disso. Ela é uma espécie de síntese violenta, difusa, estranha, mas super fundamental pra gente pensar esse Brasil popular, com gente que se critica, que se pensa, que se faz pensar. A escola de samba tem esse papel também, isso é importante”, ele analisou de forma minuciosa.
Guilherme Chal
Guilherme Chalo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Na Sapucaí, a Ala 18 encerra o desfile com a bandeira erguida no peito e uma afirmação: o Brasil que foi chamado de “monstro” é, na verdade, criador.

Quando nasce um monstro? Vigário Geral transforma o medo em potência na Sapucaí

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Quando nasce um monstro? A pergunta ecoou na Marquês de Sapucaí na primeira noite de desfiles da Série Ouro, quando a Acadêmicos de Vigário Geral foi a sétima escola a atravessar a avenida com o enredo “Brasil Incógnito – O Que os Seus Olhos Não Veem, a Minha Imaginação Reinventa”.

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Assinado pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, o projeto propõe uma revisão crítica do imaginário colonial ao transformar o “bestiário” descrito pelos europeus em símbolo de resistência e reinvenção histórica.

A ideia é simples e provocadora: aquilo que foi chamado de monstruoso passa a ocupar o centro da narrativa. O medo, antes instrumento de dominação, torna-se potência criativa. Entre componentes de diferentes alas, a reflexão ganhou corpo e voz.

Professor e estreante na escola Vinicius Moraes 35 anos
Professor e estreante na escola, Vinícius Moraes, 35 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Professor e estreante na escola, Vinícius Moraes, 35 anos, entende a monstruosidade como construção social: “É muito relativo. O que é monstro pode ser para uns e para outros não ser. É algo que depende do ponto de vista. O próprio enredo vem dizer que é tudo uma construção social”.

Para ele, o medo nasce do desconhecimento e do preconceito: “O medo tem uma coisa de desconhecimento, de preconceito, e isso pode ser interpretado como uma ameaça, como algo ruim”, disse.

Ao comentar como o Brasil foi historicamente descrito como selvagem ou monstruoso, Vinícius apontou interesses de poder por trás dessa narrativa.

“Havia todo um interesse em pintar o Brasil dessa maneira. Era com o intuito de deturpar, converter e retirar a imagem do Brasil. Existe um interesse de poder nesse sentido”, afirmou.

O professor também questiona a ideia de padrão: “Alguém estabelece o padrão. Se você não está dentro dele, dizem que aquilo é errado ou complicado, e isso começa a assustar”, disse. Para o professor, a inversão proposta pelo enredo dialoga com um novo olhar sobre a história do país: “Nos últimos anos temos visto esse novo olhar sobre a história do Brasil. Monstros nem sempre são como foram pintados”, concluiu.

O produtor cultural Mike Vieira de 34 anos
o produtor cultural Mike Vieira, de 34 anos
FOTO; Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Também estreante na agremiação, o produtor cultural Mike Vieira, de 34 anos, reforçou que o termo pode carregar sentidos opostos. “Quando você chama o outro de monstro é muito mais sobre a sua percepção do que sobre o que o outro de fato é. Pode ser elogio ou algo negativo. Quando aquilo é estranho para nós, o primeiro sentimento é medo, até que se conheça de fato”, disse.

Ao falar sobre a mistura cultural brasileira, frequentemente vista como ameaça ao longo da história, Mike defendeu a força dessa identidade plural: “Somos um povo tão multicultural que o resto do mundo tem um pouco de medo, porque sabe que nunca vai chegar aos nossos pés culturalmente”.

Ele acredita que o carnaval responde ao medo com criatividade e superação. “O carnaval é construção coletiva, luta e superação. Existe sempre o medo de que algo dê errado, mas no final dá tudo certo”, encerrou.

Já Hélida vê na proposta da escola um gesto de reeducação histórica: “Fomos educados a ver a história do nosso país de uma forma. Quando artistas mudam esse ponto de vista e contam a história não pelo olhar do colonizador, mas pelo lado de quem sofreu a invasão, mostram um novo olhar que não estamos acostumados, porque aprendemos de outra maneira”.

Sara Etienne 43 anos
Sara Etienne, 43 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Desfilante que retorna à escola após mais de três décadas, Sara Etienne, 43 anos, desfilou pela primeira vez na ala infantil, em 1992. Para ela, o termo “monstro” também oscila entre o medo e a admiração.

“Chamam de monstro quando consideram alguém muito feio ou assustador, mas também quando a pessoa é muito importante na música ou no teatro, por exemplo. É alguém grande, imenso”, afirmou.

Na Avenida, a Vigário Geral levou à cena a pergunta que atravessa séculos: quem define o que é monstruoso? Ao devorar simbolicamente o olhar colonial e reinventar suas próprias imagens, a escola transforma o medo em narrativa, a diferença em potência e o monstro em espelho.

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Guardiãs que giram a história: baianas da Vigário Geral transformam memória em resistência na Sapucaí

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A cada giro de saia, a ala da baianas da Acadêmicos de Vigário Geral transformou a Marquês de Sapucaí em um grande livro aberto. Batizada de “Relatos Sertanistas – Pergaminhos: as histórias que giram”, as baianas representaram cartas e registros oficiais que narram a história do Brasil, mas também evocou aquilo que nunca coube nos documentos oficiais: a memória viva da cultura afro-brasileira, transmitida pelos corpos, pelas famílias e pela oralidade.

Inserida no enredo “Brasil Incógnito – O Que os Seus Olhos Não Veem, a Minha Imaginação Reinventa”, desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini, a ala reforçou a proposta da escola de revisar criticamente o imaginário colonial.

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MARIA INES
Maria Inês Ramos. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ao transformar o “bestiário” da colonização em símbolo de resistência, a Vigário Geral, sétima a desfilar na primeira noite de desfiles da Série Ouro, inverteu a lógica do colonizador e celebrou a identidade brasileira sob a ótica da reinvenção e da antropofagia cultural.

Com dez anos na escola, a arquiteta Maria Inês Ramos Silva, de 66 anos, definiu a experiência de vestir a fantasia como um ato de reverência aos ancestrais.

“Eu sinto que estamos representando os nossos ancestrais. A nossa cultura afro-brasileira nasceu conosco. O samba nasceu conosco. É uma cultura que, por mais que tentassem, não conseguiram apagar. Nós estamos aqui representando exatamente isso”, afirmou.

Para ela, ser baiana é assumir o papel de guardiã da memória e da ética do samba. “A memória do samba é o respeito. E o respeito que está faltando muito hoje em dia. Precisamos reaprender a respeitar principalmente os mais velhos, que estão sendo tidos como descartáveis. Se a gente não aprende com os mais velhos, não aprende com ninguém”, disse. 

Ao definir o que representa ocupar aquele posto, resumiu: “Representa a alegria de viver. Somos guardiãs da memória da escola”, concluiu.

MARIA NAZARE
Maria Nazaré. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A médica Maria Nazaré, de 69 anos, e irmã de Maria Inês, também há cerca de uma década na ala das baianas, descreveu a emoção de dar continuidade a uma linhagem que considera fundamental para a identidade das escolas de samba.

“É uma emoção incrível, porque estamos dando continuidade à tradição de uma ala que está nas raízes da escola. Somos as mães do samba. É a maternidade de um filho que você não pariu. É uma honra fazer parte da história de baianas famosas como Dona Neuma e de tantas outras que seguem atuando”, afirmou.

Ela relembrou que o samba é herança familiar e atravessa gerações. “Minha mãe nos levava para o Carnaval muito pequenas. Não lembramos de um único ano da nossa infância em que não estivéssemos fantasiadas e dançando com ela. Quinze dias antes de um Carnaval, ela faleceu, mas pediu que mantivéssemos a tradição. E nós dançamos em homenagem a ela”, disse.

Para Maria Nazaré, desfilar de baiana tornou-se uma escolha definitiva. “Passei a vida em outras alas, mas há cerca de dez anos desfilo de baiana e não quero outra vida. É tradição, é história, são nossos antepassados e as nossas descendentes que continuarão”, concluiu.

LETICIA MARTINS
Letícia Martins. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Representando uma geração mais jovem da ala, a pedagoga Letícia Martins, de 39 anos e há três anos na escola, relatou a força simbólica que sente ao entrar na avenida. “Eu sinto a ancestralidade. É como se a própria história do Carnaval estivesse sendo contada ali, através da fantasia e da ala. É uma sensação muito forte de conexão”, afirmou.

Primeira integrante de sua família a cruzar a Sapucaí, Letícia enxerga na ala das baianas um compromisso com a continuidade. “Representa a preservação da história do samba. É manter viva essa tradição tão importante”, disse.

JUCIARA DA CONCEICAO
Juciara da Conceição. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Quem também destacou o sentido ritualístico do movimento das saias rodadas, foi Juciara da Conceição, de 61 anos. Ela descreveu a sensação de fazer parte de um segmento tão importante da escola: “Eu sinto que levo o poder do movimento. Quando a gente gira, aquela saia enorme cria um redemoinho que parece limpar o caminho para a escola passar. É como se eu estivesse carregando o axé e uma energia de cura. Cada giro é um presente de alegria para quem está na arquibancada”, afirmou.

Ela também ressaltou que preservar a memória do samba passa pelo cotidiano da comunidade. “Faço questão de preservar a memória do acolhimento no barracão. O samba não é só o brilho da avenida; é o café compartilhado, é o cuidado de uma componente com a outra enquanto costuramos os adereços. A escola é uma rede de apoio onde ninguém fica para trás”, disse.

A baiana contou ainda que o samba chegou como processo de transformação pessoal. “O samba entrou na minha vida como cura e redescoberta na maturidade. Não nasci em berço de samba, mas o samba me adotou quando eu mais precisei de alegria”, afirmou.

Ao refletir sobre o papel da ala  dentro da hierarquia do desfile, foi categórica: “Ser baiana representa a soberania feminina. Mesmo que não sejamos o foco das câmeras como a rainha de bateria, somos o alicerce. Sem a ala das baianas, a escola nem pode competir. É orgulho de ser o fundamento da festa”, concluiu.

Ala “A Fera que o Invasor Temia”, da Vigário Geral, traz a garra e o protagonismo da onça para os passistas

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Última escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no primeiro dia de desfiles da Série Ouro, a Acadêmicos de Vigário Geral veio com a ala das passistas inspirada na onça, animal que descrito com temor pelos primeiros colonizadores, mas que no enredo ganha novos significados: resistência, feminilidade, poder ancestral e garra.

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Entre as integrantes está a francesa Anahí Renoso, de 34 anos, que mora no Brasil há quatro anos, desfila pela Grande Rio e saiu pela primeira vez na Vigário Geral. Ao falar sobre representar a onça pintada, ela destacou a força do animal.

“É muito bom, porque nas lendas amazônicas a onça sempre aparece com essa característica de feminilidade, de sensualidade, de poder da floresta e de toda a parte mais religiosa dos caboclos. Tudo está encarnado dentro desse animal e acho muito bom porque também bate muito com a minha personalidade. Eu devo devorar a avenida mesmo, com garra para o pavilhão. Para mim, como gringa, é um estudo da cultura, além de ser um desfile. A onça na avenida mostra a resistência dentro do samba também e a garra de uma escola para ganhar o carnaval”, comenta a francesa.

As passistas Anahi e Alicia francesas
As passistas Anahí e Alícia, francesas
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Anahí também relembrou o enredo da Grande Rio que homenageou a onça.

“Eu já me sinto muito familiarizada com a onça, porque eu também vim de onça dourada no ano da Grande Rio. E esse ano da onça foi muito bom na escola, porque mostrou essa garra da escola também na avenida. Então eu gosto de ser onça. Parece que em cada escola que desfile tem uma onça sempre”.

Ao lado dela, a conterrânea Alícia Rodrigues, de 24 anos, desfilou pela primeira vez na Vigário. Com planos de morar no Brasil e participação confirmada no Carnaval de Recife com o Maracatu, ela celebrou a energia da ala.

“Eu acho que vai ser muito lindo lá na Avenida. A gente vai quebrar tudo com o samba no pé da ala da comunidade. A onça é um animal muito misterioso, e ela também tem uma energia bem particular por conta das lendas da Amazônia e tudo isso. Então, eu acho que é uma energia fantástica também”, afirma.

a musa Betao assumiu um papel de lideranca e protecao
a musa Betão assumiu um papel de liderança e proteção
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

À frente da ala, a musa Betão assumiu um papel de liderança e proteção.

“Eu venho representando a mãezona da ala das passistas. Como eu já estou há anos na Vigário Geral, para mim está sendo uma honra vir no primeiro ano como musa das passistas. ‘Mãezona’, como eles me chamam. A a onça quer proteger, e eu estou aqui pra proteger as minhas crias com samba no pé ralegria”, conta a musa.

Matheus Andrade de 20 anos
Matheus Andrade, de 20 anos
FOTO: CAROLINA FREITAS/CARNAVALESCO

Para Matheus Andrade, de 20 anos, morador da Penha, administrador e funcionário do CE-Rio, a estreia na escola veio carregada de emoção.

“É uma honra muito grande. É o meu primeiro ano aqui sendo passista da Vigário. Foi muita luta, muito suor no chão, porque isso é muito difícil, mas hoje eu tenho um sonho realizado. Estar aqui nessa escola tão incrível, que abre portas para tantas pessoas que, muitas vezes, onde não tem porta aberta, a gente abre janela. Então é muito honrado mesmo que eu esteja nessa escola na Avenida. A gente tem que ter garra, tem que ter personalidade. É carão, bocão, pernona, cabelo pro alto. E é isso, a onça vai cantar na avenida hoje com a Vigário”, resumiu sobre o momento.

Matheus também refletiu sobre a força que, ao longo da história, foi interpretada como ameaça.

“Depois do ocorrido que teve, de carros pegarem fogo, infelizmente no Carnaval acontece muito isso. Hoje a escola está magnífica, com os carros todos prontos. A escola está com uma garra muito grande. A gente, infelizmente, viu o Jacarezinho hoje no estado do fogo. Mas a Vigário hoje mostra realmente o pessoal que veio dar o sangue pela Vigário, junto com os carnavalescos Alexandre, Alex e Caio. Eles fizeram o impossível na Vigário. E hoje, daqui a pouquinho, a escola vai entrar e vai mostrar a força da onça junto com a Vigário na Avenida”, desabafa.

Moradora da Penha, Adriana Oliveira, de 50 anos, falou sobre o protagonismo muitas vezes invisível das passistas.

“Embora o chão da escola e a comunidade e as passistas tenham uma grande parte desse sucesso, desse chão, elas na verdade não pontuam. Porém, elas auxiliam no quesito da bateria, no quesito da evolução. Então, assim, de uma forma ou de outra, a gente tem um protagonismo não visto, mas ele está aí, ele existe”, avalia a passista.

Sobre a fantasia, ela apontou a conexão com o enredo: “Nesse caso, o enredo, eu acredito que a cabeça da onça e as penas que remetem ao indígena, aos povos originários. Nesse enredo, esse é o detalhe que mais faz referência”.

Estreando na Vigário, a psicóloga Thais Monsores, de 32 anos, reforçou a potência coletiva da ala.

“A escola está vindo super bonita esse ano, a gente está vindo com uma força muito grande. E a ala das passistas realmente é uma ala super animada, que demonstra toda a força da escola, toda a animação, toda a garra”, afirma.

Sua colega de ala, Érika Espada, de 50 anos, que trabalha na Comlurb e construiu amizade com Thais nos ensaios, associou a onça à força feminina dentro da agremiação.

“E a onça é um animal que é muito potente, muito forte também, que representa muito bem o que nós somos, o que a ala das passistas da Vigário é. É uma resistência. O animal também vem significando a força da mulher, também das passistas, que a presidenta também é uma mulher que segura a escola com muito amor e força. A gente vem representando também a força da mulher, a força da presidenta e que vamos, se Deus quiser, conseguir algo muito bom para a Vigário Geral”.

Questionada sobre o elemento da fantasia que melhor simboliza essa proposta, ela nem pensou duas vezes antes de responder: “Com certeza, a cabeça da onça”.

Na Sapucaí, a “fera” que um dia foi temida como ameaça ressurge agora como símbolo de ancestralidade e a potência de uma onça que não ruge com samba no pé pela comunidade de Vigário Geral.

“Um dia volto pra te ver, meu grande amor!”: Ilha une passado e futuro na última alegoria

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Penúltima escola a desfilar na sexta feira de desfiles da Série Ouro, a União da Ilha levou para a Sapucaí o enredo “Viva o hoje! O Amanhã? Fica pra depois”, assinado pelo carnavalesco Marcus Ferreira, sobre a saga intergalática do cometa Halley. Numa brincadeira entre passado e futuro, a agremiação relembrou seu passado glorioso ao remeter a estética do carnaval “O Amanhã”, da Professora Maria Augusta, de 1978.

No último carro, a escola trouxe uma referência estética ao carnaval campeão da Professora, de plástica vintage remetendo a carnavais antigos e tons claros.

Carro 3 Uniao da Ilha
Última Alegoria da União da Ilha. Foto: Mariana Santos

Joseli Rocha, torcedora da União da Ilha desde a infância, tendo mesmo se mudado da Ilha do Governador, não abre mão de desfilar na escola. Esse ano, participa da ala que representa o Cometa, no último setor da escola. A componente relembra a genialidade da carnavalesca, falecida em 2025.

“Ela teve grandes carnavais, ela foi uma grande carnavalesca, não só com a União da Ilha, mas com outras escolas também. Era uma pessoa de muita sabedoria, de muita vida. E todos os carnavais dela eram campeões porque ela tinha muito bom gosto, não só na elaboração das fantasias, como em todo o enredo em toda a sequência”, disse.

Joseli Uniao da Ilha
Joseli Rocha. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Já para Micha, membro da Ala dos Compositores, parte da escola há mais de 20 anos, a homenagem vem em tempo oportuno.

“A homenagem chegou em boa hora, com muita justiça. Para a gente que já está há um tempinho nisso, realmente foi uma ideia maravilhosa. E chegou na hora certa, tudo tem sua hora”, compartilhou.

Micha Uniao da Ilha Compositores
Micha. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Sanchez Martins, membro da velha guarda, desfila pela União da Ilha do Governador há mais de 20 anos na União da Ilha, seguindo o legado do pai que fazia parte da escola desde os tempos dos desfiles no Cabula. Em um olhar para o futuro da escola, ele deixou a mensagem que o respeito e valorização da escola devem voltar.

“O futuro para a União da Ilha é ser campeã. Que vejam a escola com bons olhos, porque a bandeira pesa muito”, refletiu.

Sanchez Martins Velha Guarda Uniao da Ilha
Sanchez Martins. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

E para Micha, o futuro Insulano deve ser feliz e colhendo os frutos dos meses de ensaio para o desfile do Carnaval 2026.

“Que a escola seja feliz, faça um bom desfile como fizemos nos ensaios de rua. Estamos num processo em que ficamos um tempo em lugares mais altos, e saímos. Mas com força e fé, essa certeza vai voltar ao coração do Insulano”, disse.

Detalhes fantasia cometa joseli
Detalhes fantasia do cometa. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO