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‘Na arte, alforria pra resistir’: Circo de Preto abre desfile do Arranco

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A terceira escola de sábado na Série Ouro traz a arte circense para a Marquês de Sapucaí. O ‘Terreiro de Zé Espinguela’ se torna o Circo Guarany ao homenagear Maria Eliza dos Reis, artista negra que se transformava no Palhaço Xamego, escondendo sua real identidade. Ela foi a primeira palhaça negra do Brasil.

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Detalhes do abre alas do Arranco
Detalhes do abre-alas do Arranco
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

O ‘Circo de Preto’ é o tema da alegoria que abre o desfile do Arranco do Engenho de Dentro. Para os componentes, a representação negra na avenida é espelho ao falar de suas próprias histórias e de seus antepassados.

O passista Du Costa vem a frente do abre alas
O passista Dú Costa vem à frente do abre-alas
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

O passista Dú Costa vem à frente do abre-alas para domar a zebra do Circo Teatro Guarany. Ele representa o Palhaço Gostoso, irmão do Palhaço Xamego. Para ele, contar histórias de protagonismo negro é essencial para abrir o debate acerca da importância da contribuição negra para o Brasil.

“É importantíssimo para os dias de hoje, porque eu sou um homem preto, minha mãe é uma mulher preta, meus amigos são pretos, então ter um enredo referente à mulher preta, brasileira, é muito importante para a gente, porque abre espaço para a gente dialogar com a sociedade sobre a nossa importância, nossa cultura, a nossa vivência”, declarou.

Com uma história que se desenrola no contexto pós-abolição da escravidão no Brasil, a negritude de Maria Elisa se imprime em sua arte. Ela era neta de Leopoldina Souza, uma ex-escravizada, e filha de João Alves da Silva, que nasceu 13 anos após a abolição e se tornou empresário, fundador do Circo Teatro Guarany.

Luis Monsoris e semi destaque do carro
Luís Monsoris, é semi-destaque do carro
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Luís Monsoris, é semi-destaque do carro e tem a oportunidade de brilhar em uma criação própria. O componente é decorador oficial da escola e trabalhou no abre-alas e nas demais alegorias que a agremiação levou para a Avenida. Como homem negro, ele se sente representado ao falar de uma artista negra que se destacou na história.

“Representar minha cor, não preciso falar mais nada. E é a primeira palhaça negra do Brasil. Eu, como homem, gosto muito do enredo. É um enredo alegre, é um enredo que representa a corte do carnaval”, disse.

Ao propor um picadeiro na Passarela do Samba, o Arranco também busca a alegria como enfrentamento as dificuldades. Robson Ramos, componente do carro, afirma que carnaval e circo tem tudo a ver.

“O circo é uma cultura que nos traz tanta coisa alegre, e o carnaval também é alegria. O carnaval tem muita coisa alegre. A cultura que o carnaval nos traz é tão rica, que as pessoas que falam besteira não sabem o quanto isso daqui engrandece o nosso dia a dia”, afirmou.

Robson Ramos componente do carro afirma que carnaval e circo tem tudo a ver
Robson Ramos, componente do carro, afirma que carnaval e circo tem tudo a ver
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Estácio de Sá 2026: Galeria de fotos do desfile

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Samba funciona em desfile do Águia de Ouro sobre Amsterdã

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Na segunda apresentação da noite de domingo no Anhembi, a Águia de Ouro fez uma travessia simbólica entre São Paulo e Amsterdã, teve referências à arte, à história e aos debates sobre liberdade que marcam a identidade da capital holandesa.

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Com o enredo “Mokum Amsterdã – O voo da Águia à cidade libertária”, a escola organizou o desfile em setores que alternam momentos de contemplação e celebração. No entanto, embora todos os elementos previstos tenham sido representados na Avenida, a conexão entre eles nem sempre se mostrou orgânica, o que deixou a narrativa por vezes confusa.

A evolução acabou sendo o ponto mais frágil da apresentação. A escola acelerou em determinados setores e comprometeu a fluidez do conjunto. A Águia de Ouro encerrou seu desfile em 57min59seg, dentro do tempo regulamentar, mas com passagem mais rápida do que o necessário em alguns trechos da pista.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Robson Bernardino, a comissão levou para a pista o encontro simbólico entre o “rei de cá” e o “rei de lá”, citado diretamente no samba. A cena se desenvolveu sobre o tripé que representava a Ponte Magra, cartão-postal de Amsterdã que atravessa o rio Amstel.

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A coreografia aconteceu integralmente sobre o elemento, que tinha altura próxima à cabine de jurados, o que favoreceu a leitura nos módulos. A encenação reuniu um número grande de personagens, de Van Gogh e Anne Frank a DJs, mulheres do Distrito da Luz Vermelha, representante da diversidade e usuário de cannabis. A quantidade de figuras deu a sensação de uma apresentação confusa em determinados momentos, ainda que todas estivessem previstas dentro do enredo. Posteriormente, esses mesmos personagens reapareceriam distribuídos em diferentes alas ao longo do desfile, reforçando a proposta temática da escola.

O elemento alegórico apresentou acabamento simples e leitura bastante literal da cidade.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Alex Malbec e Monalisa Bueno representaram a liberdade de Amsterdã com uma coreografia marcada por giros intensos e movimentos amplos. A fantasia dialogava com a ideia de ave e voo, com volume e imponência que criavam a sensação de leveza como se flutuassem na dança.

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A apresentação na cabine teve duração aproximada de dois minutos. O casal demonstrou boa sintonia e se mostrou confortável na condução do pavilhão, explorando bem a proposta de liberdade sugerida pelo figurino e pelo enredo.

HARMONIA

Com Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto no comando do carro de som, a Águia apresentou um samba de fácil assimilação. O refrão teve forte resposta das arquibancadas, especialmente no trecho “vou ficar bem louco nesse carnaval”, que foi prontamente acompanhado pelo público.

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Os intérpretes chamaram bastante a escola, pulando e incentivando o canto principalmente no refrão de cabeça. A bossa em ritmo de reggae também animou o Anhembi, com componentes e arquibancada realizando passinhos para o lado sincronizados. Antes da entrada da bossa, os cantores faziam chamadas que ajudavam a elevar a energia do momento.

ENREDO

“Mokum Amsterdã” se constrói a partir da imagem da Águia atravessando um portal até encontrar as águas do rio Amstel, ponto de partida para apresentar a capital holandesa. A transição, no entanto, é bastante fantasiosa e de difícil assimilação imediata.

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Depois disso, o desfile passa a apresentar blocos temáticos, primeiro as referências históricas e culturais, depois os quadros ligados às liberdades e, por fim, as celebrações e festas. O problema é que, na prática, esses momentos parecem apenas colocados em sequência. Faltou uma ligação mais evidente entre um trecho e outro para que o público percebesse uma progressão da história, e não apenas a sucessão de temas.

Todos os elementos propostos estiveram representados, mas a narrativa acabou soando mais fragmentada do que contínua.

EVOLUÇÃO

A evolução foi o principal ponto de atenção da Águia de Ouro. A escola já iniciou o desfile em andamento acelerado, sem necessidade naquele momento. Depois, conseguiu estabilizar o ritmo e manter uma passagem mais regular ao longo dos setores centrais.

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Após a bateria realizar o recuo, houve abertura de espaço na altura do módulo de jurados, configurando buraco na pista. Na sequência, quando a comissão de frente ultrapassou o portão, a escola voltou a acelerar novamente, encerrando o desfile em ritmo mais apressado do que o necessário.

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No restante, as alas se mantiveram organizadas. Mesmo enfileirados, os componentes não vieram excessivamente engessados, e o volume das fantasias ajudava a preencher visualmente a avenida. A Águia concluiu sua apresentação em 57min59seg, dentro do tempo regulamentar, mas com variações de andamento do samba.

SAMBA-ENREDO

O samba foi um dos pontos mais eficientes da azul e branco na avenida. De fácil assimilação e com refrões diretos, cumpriu bem a função de envolver arquibancadas e componentes. O trecho “vou ficar bem louco nesse carnaval” foi o momento de maior explosão, com resposta imediata do público, que acompanhou em coro.

Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto tiveram atuação participativa, chamando constantemente a escola e a arquibancada. Os intérpretes faziam chamadas que preparavam o impacto da bossa. É um samba funcional, que dialoga com a avenida e favorece a participação geral.

FANTASIAS

As alas cumpriram o que se propunham a representar. A ala 1, “Águas do Rio Amstel”, trouxe fantasia fluida, reforçada por coreografia com mãos dadas que simulava o movimento de um rio.

As baianas, representando os girassóis de Van Gogh, estavam visualmente bem resolvidas e dialogavam diretamente com a alegoria seguinte, inspirada na “Noite Estrelada” e nos girassóis do artista, que foi representado ao longo da avenida.

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As alas dedicadas a artistas e pensadores holandeses mantiveram coerência com o que foi proposto. Já a ala sobre Anne Frank gerou desconforto pela sensibilidade do tema.

De modo geral, as fantasias cumpriram sua função narrativa, mas apresentaram acabamento simples.

ALEGORIAS

As alegorias foram mais um ponto de atenção da Águia de Ouro. O conjunto se mostrou mais simples em comparação ao que foi visto no Anhembi ao longo da noite, com estruturas literais e acabamento que poderiam ter mais requinte.

O abre-alas apresentou iluminação pontilhada que criava um efeito visual interessante e ajudava na ambientação  proposta pelo enredo, mas estruturalmente manteve simplicidade na composição.

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A terceira alegoria trouxe Anne Frank à frente, além de ciclistas, arquitetura típica e tamancos holandeses. A reunião desses elementos no mesmo carro já dificultava uma leitura mais coesa e, além disso, a representação de Anne Frank sorridente e escrevendo em seu diário causou estranhamento pelo tom adotado, considerando o peso histórico e o contexto retratado.

A quarta alegoria, dedicada às liberdades, teve melhor impacto visual ao simular as vitrines do Distrito Vermelho. Ainda assim, o carro funcionava como uma grande junção de referências: cannabis, prostitutas, diversidade LGBTQIAPN+, todas agrupadas sob o conceito de liberdade. A síntese temática era clara, mas os elementos apareciam mais sobrepostos do que integrados entre si.

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Já o último carro reuniu DJ, referências à cannabis, cerveja e bandeiras de Amsterdã, Brasil e Águia de Ouro em clima festivo. Novamente, os símbolos surgiam lado a lado, sem construção conceitual mais aprofundada. No módulo 2, o carro final passou com iluminação apagada.

Também não foi apresentado o tripé “Seres Encantados das Águas do Rio Amstel”, previsto anteriormente pela escola.

OUTROS DESTAQUES

A bateria Batucada da Pompeia, comandada pelo Mestre Moleza, teve bossa em reggae como um dos pontos mais animados do desfile.

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A rainha Renata Spallicci cantou o samba, acompanhou as bossas com coreografias e interagiu com o público, assim como as musas.

No conjunto, a Águia de Ouro apresentou um desfile coerente com a proposta anunciada, ainda que com dificuldades de articulação narrativa e problemas pontuais de evolução.

Do enredo aos bastidores, mulheres comandam o Arranco na Sapucaí: ‘Devolver o matriarcado para o samba’

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O Arranco do Engenho de Dentro foi a terceira agremiação a desfilar, na noite deste sábado (14), na Marquês de Sapucaí pela Série Ouro. Com o enredo ” A Gargalhada É o Xamego da Vida”, desenvolvido por Annik Salmon, a escola não apenas levou à cena a trajetória de Maria Eliza, mulher que ocupou o picadeiro em um espaço historicamente masculino, como também espelha essa narrativa na própria estrutura interna.

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Annik Salmon e a unica mulher a assinar um desfile na Sapucai em 2026
Annik Salmon é a única mulher a assinar um desfile na Sapucaí em 2026
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Da criação estética à condução musical, o Arranco apresentou mulheres em postos de comando e reafirmou que representatividade também se constrói nos bastidores. Única mulher a assinar um desfile na Sapucaí no Carnaval 2026, Annik reconhece no enredo um reflexo direto da própria trajetória.

“Me reconheço muito com a história do enredo. É uma história que quando eu descobri me tocou muito, porque hoje eu sou a única mulher como carnavalesca na Sapucaí, e a gente não vê abertura para outras mulheres ocuparem esse lugar. É uma história que me toca. E eu gosto de enredo assim, de enredo onde eu possa ter local de fala. É uma história que tem identificação com a agremiação. Acredito que a escola vem mais forte, identificada com o enredo, cantando forte”, comenta a carnavalesca.

Ela não esconde a responsabilidade e o peso de ocupar esse espaço sozinha. Annik também pontua como a presença feminina na criação estética impacta a identidade do desfile.

“Fico muito feliz que posso inspirar muitas outras e abrir caminhos para que outras venham também. A mulher em todo meio sempre é mais cobrada. Ela precisa se reafirmar sempre, mostrar sua competência, provar que ela merece estar ali. A mulher tem um olhar diferente para a arte. Ela é mais sensível, detalhista, vê os pequenos detalhes, acho que essa é a diferença”, afirma.

Ha quatro anos como interprete oficial Pamela revela que a cobranca e constante
Há quatro anos como intérprete oficial, Pâmela revela que a cobrança é constante
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Sob o comando do carro de som, Pâmela Falcão simboliza outra frente de liderança feminina. Para ela, ocupar o posto de intérprete é, também, um gesto político dentro do samba.

“Ser a titular em um carro de som é falar de resistência diariamente, é resistir para existir. Devolver, na verdade, o matriarcado para o samba. O samba nasceu na Praça Onze, na casa da Tia Ciata. Em que momento a gente se perdeu? Em que momento a mulher perdeu o seu lugar?”, questiona a intérprete.

Há quatro anos como intérprete oficial, Pâmela revela que a cobrança é constante: “A gente precisa sempre provar mais, cada vez mais”.

Mesmo diante do julgamento dobrado, ela ressalta que os 40 pontos conquistados em harmonia reforçam a potência feminina na condução da escola. Sobre a recepção do público, completa: “A potência vocal não é a mesma e nunca vai ser, mas é muito gostoso ver o acolhimento das pessoas na Avenida, parando e pedindo para tirar foto. Eu não me acostumei com isso ainda, confesso, mas é muito gostoso”.

Ledjane Motta ocupa um espaco estrategico
Ledjane Motta ocupa um espaço estratégico: a direção musical do carro de som
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Nos bastidores do som, Ledjane Motta ocupa um espaço estratégico e historicamente masculino: a direção musical do carro de som. Ela destaca o simbolismo de ser pioneira na função dentro da escola.

“O Arranco é todo amor, estou muito feliz e agradecida de estar em uma escola que acreditou na possibilidade de uma mulher cumprir esse papel nunca desempenhado por uma antes. O meu papel é garantir a energia que o carro de som vai emanar para todos os meus componentes na Avenida”, comenta.

Segundo Ledjane, para o enredo deste ano, o trabalho foi pensado para que a energia da “gargalhada e do chamego” fosse rapidamente compreendida pela Sapucaí.

“A minha ideia é fazer com que a Sapucaí entenda rapidamente que a energia é essa, que é para cantar feliz e gritar”. Ao falar sobre resistência, ela é direta: “Mulher e homem entendem de música igualmente. Acredito que, por natureza e culturalmente, a mulher tem uma sensibilidade maior. A mulher é criada para resolver tudo, afazeres domésticos, como filhos, uma escola, por exemplo. Acredito que essa seja a diferença”, avalia.

Ao unir discurso e prática, o Arranco do Engenho de Dentro transformou o desfile em afirmação coletiva. O enredo que celebra Maria Eliza ecoou na própria estrutura da escola, onde mulheres ocupam decisões estéticas e musicais. Na Avenida, a gargalhada deixou de ser apenas elemento narrativo para se tornar símbolo de resistência, pertencimento e reconhecimento.

Laísa Lima conduz bateria do Arranco e marca presença feminina histórica na Sapucaí

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Única mestra de bateria do carnaval carioca, Laísa Lima conduziu o Arranco do Engenho de Dentro pela Marquês de Sapucaí na noite do último sábado, transformando a presença feminina no comando da bateria em marca histórica da Sapucaí. Terceira escola a desfilar pela Série Ouro, a agremiação levou para a Avenida o enredo “Gargalhada É o Xamego da Vida”, desenvolvido pela carnavalesca Annik Salmon, e reafirmou sua identidade marcada pela liderança de mulheres dentro e fora da pista, na disputa por uma vaga no Grupo Especial em 2027.

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Laisa Lima mestra de bateria
Laísa Lima. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A proposta do desfile transformou a Avenida no “Grande Circo Falcão” do Engenho de Dentro para contar a história de Maria Eliza Alves dos Reis, a palhaça Xamego. Pioneira negra em um período de severas restrições, ela precisou vestir-se como palhaço homem para conquistar espaço e aplauso nos picadeiros, rompendo padrões e abrindo caminhos. Ao aproximar essa trajetória do presente vivido por Laísa Lima à frente da bateria, o Arranco constrói uma narrativa em que memória, cultura popular e protagonismo feminino se encontram como gesto político e afetivo.

À frente da bateria, Laísa Lima simboliza essa virada histórica. Ela detalhou ao CARNAVALESCO como pensou a construção de um espaço verdadeiramente inclusivo. “Comecei pensando justamente nisso e hoje temos a maior parte da bateria composta por mulheres, não só com instrumentos leves, não tem porque ter isso. Tivemos uma escolinha desde abril. Temos mulheres em todas as marcações, inclusive na diretoria. Cuíca, agogô, em todos os instrumentos. Para as pessoas entenderem que não é só a Laísa, queremos essa representatividade e inclusão dentro da bateria”, afirmou.

Sobre a cobrança por ocupar um posto historicamente masculino, Laísa reconhece o peso e o simbolismo da função. “É diferente, mas eu sinto que é uma responsabilidade e que bom que essa responsabilidade veio pra mim, não é fácil, é uma história de reconhecimento e pertencimento. Espero que entendam que a gente merece ter mais lugar dentro do carnaval”, declarou. A fala dialoga diretamente com o enredo que celebra uma mulher que precisou desafiar padrões para existir em cena.

A mestra ainda relacionou sua trajetória ao próprio samba-enredo apresentado na Avenida. “O samba já diz: ‘é uma história de coragem, garra e fé’ e o que não falta é fé em mim, aprendi a ter coragem e a garra é movida por 330 pessoas acreditando no nosso trabalho. Quero muito inspirar outras mulheres, não quero ficar sozinha aqui, quero ver muitas outras por aqui também”, afirmou Laísa Lima.

A liderança feminina também se reflete na condução artística do desfile. Annik Salmon imprime sua assinatura criativa ao transformar o picadeiro em alegorias, fantasias e cenas que dialogam com a resistência de Maria Eliza. A estética circense ganha contornos de celebração popular, sem perder a dimensão política da narrativa, que encontra na bateria regida por Laísa uma de suas traduções mais diretas na Avenida. Ao contar a história de uma mulher que precisou se reinventar para existir em cena, a escola também fala sobre tantas outras que seguem reinventando espaços de poder.

Na Avenida, a emoção foi construída em camadas: o riso como linguagem, o circo como metáfora e a mulher como centro da narrativa. O samba-enredo conduziu o público por essa viagem afetiva, evocando o brilho dos picadeiros e a força de quem transformou dificuldade em espetáculo. A Sapucaí acolheu uma história que mistura arte, amor e resistência, traduzindo em canto e movimento a importância de reconhecer pioneiras muitas vezes invisibilizadas.

Ao cruzar a Sapucaí como única mulher a reger uma bateria no carnaval carioca, Laísa Lima não apenas conduziu o ritmo do Arranco, mas projetou a imagem de um futuro em que a presença feminina à frente de uma bateria deixou de ser exceção para se tornar regra. Entre o riso do picadeiro e a força do tambor, sua passagem pela Avenida transformou representatividade em som, gesto e permanência.

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Pequenas joaninhas alvinegras guardiãs da natureza: crianças encantam a Sapucaí em ala da Botafogo Samba Clube

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A fofura tomou conta da Marquês de Sapucaí na segunda noite de desfiles da Série Ouro, neste sábado. Abrindo a apresentação da Botafogo Samba Clube, a ala infantil “Guardiã da Biodiversidade” coloriu a avenida com pequenas joaninhas alvinegras que traduziram em gesto simples a mensagem ambiental do enredo dedicado ao paisagista Roberto Burle Marx.

Daniela Cursino Botafogo
Daniela Cursino e o filho Bento. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Na fantasia, o tradicional vermelho do inseto deu lugar ao preto e branco do Botafogo. A escolha teve um motivo especial: símbolo de equilíbrio ecológico, a joaninha apresenta o cuidado com a flora brasileira e a preservação dos biomas celebrados no desfile.

Com linguagem lúdica, a ala transformou a infância em imagem de futuro. Na pista, asas, antenas e movimentos leves evocavam proteção à natureza, enquanto as crianças encarnavam valores que precisam ser cultivados desde cedo para florescer adiante.

Para a representante de atendimento Daniela Cursino, de 33 anos, mãe de Bento, falar de preservação com os pequenos é essencial:

“Eu acho que, para o futuro, eles já saberão o que tem que preservar. Sem a natureza não dá para sobreviver. Por isso, é importante criarem essa consciência desde pequenos e, lá na frente, aplicarem isso no dia a dia”.

botafogo Lara e mae
Renata Pires e a filha Lara. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A pesquisadora Renata Pires, de 43 anos, mãe de Lara, destacou a memória afetiva construída na avenida: “É o segundo ano que ela desfila, e isso fica para a vida toda. É vínculo com a cidade, com o carnaval, com a escola e também com o time. Eu achei linda a ideia da ala. Colocar as crianças como representação da biodiversidade tem tudo a ver”.

Entre as próprias crianças, a mensagem ambiental apareceu com naturalidade. Bento, de 10 anos, contou o que aprendeu ao vestir a fantasia:

“Eu achei legal porque a gente entende que precisa preservar as florestas. As árvores dão oxigênio, e sem elas a gente não consegue respirar”.

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Bento. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Lara, de 8 anos, foi direta no alerta: “Não se pode jogar lixo na natureza. Tem que preservar, porque sem as árvores a gente não tem oxigênio”.

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Lara. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Helena Félix, de 7, resumiu a importância da mensagem: “Tem que preservar, porque a natureza é importante para todo mundo, para as pessoas e para os animais”.

Já Eduarda Toledo, de 11 anos, celebrou o aprendizado vivido no carnaval: “Gostei de saber o significado da joaninha. Se a gente não cuidar do ambiente, pode chegar uma hora em que o mundo acaba”.

Eduarda Toledo
Eduarda Toledo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Além da mensagem, o encantamento com a fantasia também marcou a experiência. Cada detalhe ganhou preferência própria.

“Gosto das asas, porque depois posso usar como almofada”, contou Lara, rindo.

“Eu amo que parece um macacão”, disse Helena.

Bento concordou: “Meu favorito é o capacete com as duas antenas. São bonitinhas”.

Entre asas delicadas, pequenas descobertas e lições ditas sem peso, a ala infantil transformou a avenida em jardim vivo — lembrando que o futuro da natureza talvez comece justamente na simplicidade do olhar de uma criança.

Império Serrano 2026: Galeria de fotos do desfile

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Freddy Ferreira analisa a bateria da Em Cima da Hora no desfile no Carnaval 2026

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Um bom desfile da bateria “Sintonia de Cavalcante” da Em Cima da Hora, dirigida por mestre Léo Capoeira. Um ritmo bem vinculado e integrado ao enredo de vertente africana foi exibido, com bossas que auxiliaram a sincretizar a sonoridade da escola de modo notório. Infelizmente, penas elevadas no chapéu dos ritmistas fez com que diretores tivessem trabalho dobrado, sendo atuantes demais durante a pista, para passar sinalizações de forma visível.

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Na cabeça da bateria da Em Cima da Hora, uma boa ala de cuícas ajudou no preenchimento musical das peças leves. Um naipe de agogôs eficiente exibiu uma convenção pautada pelas nuances do melodioso samba da escola. Uma ala de tamborins de virtude coletiva tocou interligada a um grande naipe de chocalhos. Simplesmente impressionante o carreteiro de uma ala de chocalhos que fez seu ritmo com um balanço bem apurado.

Na parte de trás do ritmo da “Sintonia de Cavalcante”, uma afinação acima da média foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram vigorosos, mas precisos. Surdos de terceira deram bom balanço entre os graves. Uma ala de repiques coesa e ressonante tocou junto de um naipe de caixas de guerra de qualidade musical.

Bossas altamente musicais e vinculadas à africanidade do enredo foram exibidas. O casamento musical entre o belo samba da agremiação e os arranjos se deu de modo intuitivo e orgânico. Uma criação conceitual bastante atrelada ao tema de matriz africana da escola do bairro de Cavalcanti, juntando a religiosidade solicitada pela obra à sonoridade produzida com fluidez pela bateria da Em Cima da Hora. Com destaque para a bossa do estribilho, com direito a tamborins fazendo “palminha de macumba” e atabaques tocando junto de agogôs.

Uma boa apresentação da bateria da Em Cima da Hora, comandada por mestre Léo Capoeira. Um ritmo com andamento mais quente e bastante fundamento foi exibido, altamente integrado ao tema da agremiação. Bossas com sonoridade africana mostraram seu impacto pela pista, algumas vezes até soltando o último verso do estribilho para ser cantado em coro. A passagem pelo primeiro módulo se deu de forma correta. Na segunda cabine, a exibição pareceu musicalmente superior, arrancando aplausos do julgador. Na última cabine (dupla) uma apresentação mais curta foi realizada, devido a proximidade do tempo limite.