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Império Serrano apresenta enredo forte, estética ousada, mas sofre com evolução arrastada e problemas de acabamento

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Sempre que a Serrinha desponta na Avenida, há sempre uma coisa diferente que mexe com o público. E, quando a escola honra as suas raízes ao fazer homenagens a personalidades negras, e principalmente do sexo feminino, já se sabe que, no mínimo, vai emocionar a Avenida. Ela tem o dom. E, neste desfile de 2026, mais uma vez tocou o coração do imperiano e do sambista em geral. Homenagem importante e necessária. Além disso, o carnavalesco Renato Esteves apresentou uma estética pertinente, diferente, fora do óbvio, mas com alguns pequenos problemas de acabamento, tanto nas fantasias quanto nas alegorias. Apesar do bom canto da comunidade, o samba não pegou com o público, o que acabou trazendo também uma evolução mais arrastada.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, o Império Serrano foi a quarta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, com o tempo de 55 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Marlon Cruz, a Comissão de Frente do Império Serrano apresentou Ponciá-Evaristo a partir de suas referências fundadoras: a mãe, as tias, as mulheres do cotidiano, a ancestralidade e a escrita. Uma comissão que apostou no traço emotivo. Nesse ambiente, a comissão trouxe lavadeiras realizando o trabalho cotidiano. Enquanto isso, a artista que representou a personagem observava atentamente a cena e, a partir dessa observação silenciosa e profunda, nasceu sua paixão pela escrita. Já no elemento cenográfico que representava um rio, ou o entorno de um rio, as lavadeiras lavavam as roupas e faziam o movimento para quarar, batendo na pedra e produzindo um pequeno efeito de água no pano verde.

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Depois, uma delas desenhava um sol no chão com um cajado. O ápice dramático da apresentação ocorreu com a representação da dor materna: uma das componentes simboliza ser baleada e cai nas mãos da pivô. Diante desse lamento coletivo, Oxum surgiu, enxugou as lágrimas e protegeu seu povo e suas crianças, reafirmando seu papel ancestral de cuidado, acolhimento e preservação da vida. O grande efeito estava na saia de Oxum, que ia ficando comprida enquanto a orixá dançava e se elevava para o delírio do público, e surgiam as imagens de mulheres relacionadas à homenageada. Comissão de ótima interação com o público, de mensagem forte e efeitos bem aplicados, que funcionaram e estavam de acordo com o enredo. Elemento cenográfico de acabamento apenas satisfatório.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Matheus Machado e Maura Luíza, vestiu “O Mulungu Ancestral e a Flor do Mulungu”, em que o mestre-sala representou a árvore sagrada, que simbolizou a memória profunda, a raiz africana e o tempo longo da diáspora. Já a porta-bandeira simbolizou a síntese da potência feminina negra e figura central da escrevivência-enredo. A flor é estado de graça, é beleza que nasce da resistência, é a mulher negra que verte em leite a seiva que dá a vida.

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A dupla começou um pouco mais tímida no primeiro módulo, mas não cometeu erros aparentes e se soltou mais a partir do segundo. Coreografia que aproveitou muito bem os momentos mais afros do samba e as bossas da Sinfônica do Samba. No final da apresentação, já no refrão principal, no “É Kizomba…”, a dupla fez um passo afro com muita energia e vibração. No segundo módulo, onde o casal teve a sua melhor apresentação, Matheus deu uma leve hesitada ao pegar a bandeira, que parecia que iria escapar, mas, depois de dois toques, segurou firme. Só esse ponto de preocupação neste módulo. No último, não houve problemas desse tipo, mas o casal teve que esperar uma passada inteira porque a comissão demorou a tirar o elemento cenográfico da frente da cabine de jurados. A dupla pareceu incomodada. A apresentação ali não foi ruim ou problemática, mas ainda esteve um pouco abaixo na intensidade do que no segundo.

ENREDO

“Ponciá Evaristo Flor do Mulungu” trouxe a força e a vivência da mulher preta como foco principal, a partir de uma homenagem à professora, doutora em Literatura Comparada, considerada a maior literata negra deste tempo: Conceição Evaristo. O enredo foi concebido em formato de conto, incorporando elementos ficcionais que evocavam o conceito de escrevivência, formulado pela homenageada. A escola dividiu o desfile em cinco capítulos. No primeiro, “Olhos d’Água”; no segundo, “Becos da Memória”; no terceiro, “História de Leves Enganos e Parecenças”; no quarto, “Cadernos Negros”; e, no último, “Escrevivências”.

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Nesse contexto, a personagem Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu assumiu, neste desfile, papel central como síntese simbólica e narrativa, personificando tanto a vida e a experiência de Conceição Evaristo quanto os universos ficcionais que a autora construiu ao longo de sua atuação como escritora e intelectual negra. A personagem inédita, criada para a condução deste enredo, protagonizou uma narrativa que tensiona memória, ficção e ancestralidade, revelando o entrecruzamento entre vida, escrita e resistência. Ótimo ter saído do óbvio na homenagem para valorizar os pensamentos da escritora, ideia que ajudou o Império a também trazer uma estética diferente, mas muito pertinente.

EVOLUÇÃO

Nesse quesito, a Serrinha não fez uma grande apresentação. Talvez por um samba cadenciado, mas puxado para trás por conta de suas características, o Império Serrano evoluiu de forma muito arrastada, demorando a chegar aos módulos de julgamento. Grande, a escola inclusive nem fez a bateria de Mestre Sopinha entrar no segundo recuo, passando direto a fim de permitir um final de desfile sem maiores problemas. Nos últimos setores, a escola ainda apressou um pouco o passo.

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Na última apresentação de módulo, a comissão de frente demorou a tirar o elemento cenográfico, o que fez o casal perder a passada do samba para entrar, fazendo com que a escola tivesse que ficar mais tempo parada. Entre casal e comissão também ficou um espaçamento maior na frente do júri, pois era o lugar onde o casal iria se apresentar. A dupla ficou mais próxima da ala, esperando a passada do samba, o que pode gerar questionamentos sobre esse espaço que ficou. Importante ver como os jurados de Evolução vão interpretar essa situação.

HARMONIA

Estreando na Serrinha, o intérprete Vitor Cunha não sentiu o peso e o tamanho de defender o pavilhão de uma escola detentora de grandes obras e com nove títulos no Grupo Especial. Ao contrário, mostrou-se bastante tranquilo, encarando a missão de impulsionar os componentes no canto, o que aconteceu bem e era esperado, vista a comunidade que a Serrinha tem.

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Já o samba não rendeu tanto, não por culpa do carro de som, que realmente deu o seu melhor, mas por características da própria música, mais cadenciada, sem um grande momento de explosão. Bom entrosamento entre carro de som e bateria, vozes afinadas e excelente trabalho de sustentação das vozes de apoio para deixar Vitor mais à vontade.

SAMBA-ENREDO

O samba é de autoria dos compositores Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romal, Marco Aurélio, Victor Mendes, Mateus Pranto e Gabriel Simões. A obra até se relaciona com o enredo, com uma cara mais emotiva, mas nostálgica, com bons momentos, principalmente na cabeça do samba, que permitem algumas bossas mais afros para a bateria e para a dança do casal nos trechos em que faz reverência a Oxum.

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O refrão do meio tem uma virada de melodia interessante. No “Folia de Reis”, há uma quebra interessante na linha melódica, com um caminho harmônico diferente do restante da obra, o que a engrandece. Porém, o samba não teve um grande rendimento, não houve muita interação do público, o que produziu um desfile morno, com uma evolução mais arrastada. Faltou maior vibração, ainda que a obra sempre se relacionasse com o caráter nostálgico.

ALEGORIAS

O carnavalesco Renato Esteves levou para o desfile do Império Serrano três alegorias. O carro abre-alas, “Consagração”, representou justamente a consagração da personagem central do enredo, Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu, a Nossa Senhora da Conceição e, consequentemente, a Oxum. Estruturado em duas partes, na porção frontal a escola trouxe a figura de Oxum e a força das águas doces, os Olhos-d’Água, concebidos como um grande assentamento simbólico da orixá. Já a parte traseira da alegoria retratou um grande festejo em homenagem a Nossa Senhora da Conceição.

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A segunda alegoria, “Navio Mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”, materializou o momento de travessia vivido pela Favela do Pindura-Saia após o aguaceiro provocado pela violência estrutural e pela especulação imobiliária. O carro se estruturava a partir do barro, que remete à criação, à fertilidade e à memória moldável. A escultura central em forma de navio, em barro, representou as lembranças de Ponciá sobre o Pindura-Saia. A figura de Sabela se impôs como eixo da alegoria: divindade-navio, ventre-travessia, corpo que carregou a comunidade inteira. As construções de favela surgiram integradas ao corpo do navio, reforçando a ideia de que o território não é apenas espaço físico, mas seus corpos, vínculos, afetos e identidades. Cenograficamente, a alegoria estabeleceu uma transição visual e emocional no desfile.

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A última alegoria, “Casa de Preto Também é Academia”, constituiu o ponto de consagração intelectual e simbólica do desfile, encerrando o percurso narrativo. Cenograficamente, a alegoria apresentou uma arquitetura que fundiu casa, biblioteca, terreiro, palácio e escola de samba. Livros, símbolos da escrita, expandiam-se em formas monumentais, dialogando com elementos ancestrais e populares. Ao elevar a Casa Escrevivência à condição de Academia Ancestral, um palácio, o desfile consagrou Ponciá-Evaristo, Conceição Evaristo e as escrevivências negras como saberes eternos. Na conclusão da alegoria, o elemento visual final propôs uma releitura crítica da imaginária clássica do herói e do monstro, tão recorrente na tradição ocidental, nela a forma de uma menina negra em posição de comando.

No geral, Renato Esteves mostrou boas soluções estéticas, relacionando ancestralidade com elementos do hoje, relacionando o afro e o religioso católico, como no primeiro carro. Apesar de uma estética interessante e ousada, os carros ficaram devendo no acabamento. No abre-alas, por exemplo, na parte de cima havia um buraco e escada não decorada, quebrando a carnavalização da alegoria.

FANTASIAS

Fantasias também foram um ponto em que o Império enfrentou um contraste técnico. Se, por um lado, as soluções estéticas e de material foram interessantes, como nos carros, por meio do uso de materiais não tão óbvios como espuma e cordões, por outro, o acabamento dos figurinos não esteve tão apurado, como na ala 9, “Sabela”, e na ala “A Gente Combinamos de Morrer”, ambas com estética interessante, mas o collant por baixo, que aparecia, diminuía o apuro plástico. E a ala “Kizomba de Preta Literatura”, já no fim do desfile, celebrou a festa da literatura negra e consagrou a obra e a intelectualidade de Conceição Evaristo, mas era simplesmente composta por pessoas com camisa e calça, como em ensaio.

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Por outro lado, posso encerrar a análise do quesito enaltecendo a ala das baianas, “Conceição Yalodê”, que fazia referência à origem do nome de batismo de Conceição Evaristo, por ter sido consagrada a Nossa Senhora da Conceição. Esteticamente, a fantasia apresentou uma releitura dos elementos e signos presentes na indumentária de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Logo no início do desfile, foi uma das alas de baianas mais bonitas que passaram na Sapucaí.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Sinfônica do Samba”, de Mestre Sopinha, em sua fantasia representou Fio Jasmim, personagem extraído do romance da autora intitulado “Canção para Ninar Menino Grande”, que traz para o centro do desfile o único protagonista masculino da obra de Conceição Evaristo. Em sua construção estética, a indumentária da bateria se inspirou na figura do maquinista ferroviário, associando trabalho, deslocamento e modernidade. A fantasia tinha até luz no chapéu.

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A rainha Quitéria Chagas veio de Oxum, simbolizando a força ancestral que está por trás da vida de Conceição Evaristo. A fantasia dos passistas fez referência ao artigo “Samba-Favela”, escrito por Conceição Evaristo em 1968, publicado no Diário Católico, período em que a autora integrava a Juventude Operária Católica. Nas vias plásticas, a fantasia se estruturou a partir de cores vibrantes e contrastantes, com predominância dos verdes, que evocam vitalidade e continuidade. No esquenta, como não poderia faltar, Vitor Cunha cantou “Aquarela Brasileira”, seguido pela Sapucaí inteira, e também “Besouro Mangangá”, do título de 2022.

‘Mulher de Mil Olhos’ transforma Sapucaí em território de proteção e ancestralidade no Império Serrano

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O Império Serrano foi a quarta escola a desfilar no segundo dia de apresentações da Série Ouro. A agremiação levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A verde e branco da Serrinha homenageou a escritora mineira Conceição Evaristo, transformando suas “escrevivências” em imagens de resistência, literatura negra e força ancestral feminina.

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Componentes da Ala 09 do Império Serrano
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O desfile misturou elementos biográficos com personagens da autora e transformou a Avenida em um grande conto poético contra o racismo e a desigualdade. Um dos momentos centrais foi a Alegoria dois: “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”, que apresentou o “Navio que não é Negreiro, é de Refúgio”. Com estética terrosa, de barro e reconstrução, o carro representou a enchente na favela e a transformação da personagem mítica Sabela em embarcação de fé e salvação para sua comunidade.

Na ala que representou a “mulher de mil olhos”, símbolo da proteção e da vigilância de Sabela, quatro componentes compartilharam suas emoções: Frederico de Oliveira, de 50 anos, geofísico e estreante na escola; Camila Gomes, 36 anos, designer de sobrancelhas, com duas décadas de trajetória no Império entre idas e vindas; Hugo Melo, 36 anos, analista de TI, também em seu primeiro desfile; e Joyce Braga, 29 anos, analista, que realizou o sonho de estrear na escola do coração.

A emoção de vestir a Mulher de Mil Olhos

Frederico de Oliveira de 50 anos
Frederico de Oliveira, de 50 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Frederico, a fantasia carregada de simbolismo despertou um sentimento novo: “É uma sensação de força, de potência e, sobretudo, fazer parte da ala dá uma sensação de pertencimento que eu não conhecia. É uma sensação muito boa. O Império está de parabéns pelas fantasias, pela forma que desenvolveu o desfile o por trazer esse enredo tão importante para todos nós”, afirmou.

Camila destacou o peso da representatividade ao falar da autora homenageada: “Representar e falar sobre a Conceição Evaristo é muita responsabilidade para a gente. Uma mulher negra, escritora. Eu sinto muita emoção e fico muito feliz de desfilar pelo Império Serrano mais uma vez. Estou muito orgulhosa de estar nessa ala e, sobretudo, nessa escola que sempre traz enredos que nos emociona e nos alegra”, disse.

Hugo ressaltou a dimensão histórica do enredo e a responsabilidade de levar essa mensagem para a Avenida: “É muito importante relembrar a nossa história, desde a colonização e a escravidão. Não podemos perder nossas origens. O samba-enredo nos faz refletir sobre o mundo atual e sobre o que podemos melhorar como pessoa. Desfilar com um enredo como esse me faz aprender sempre com a cultura afro. Ainda por cima, tenho o privilégio de vir nessa ala incrível. É uma felicidade difícil de definir”.

Proteção, amuleto e confiança no desfile

Os búzios aplicados nas fantasias simbolizavam os olhos de Sabela, a entidade que tudo vê e tudo protege. Frederico revelou que, mais do que proteger, sentia-se amparado: “Espero que a ala proteja a escola, mas, mais do que proteger, eu me sinto protegido. Que a coesão da ala proteja o Império e que a gente faça um grande desfile. Tenho certeza que isso vai acontecer e a escola vai ser muito bem representada”, garantiu.

Camila Gomes 36 anos designer de sobrancelhas
Camila Gomes, 36 anos, designer de sobrancelhas
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Camila lembrou as dificuldades enfrentadas no último Carnaval e demonstrou confiança na retomada: “Depois de um ano complicado, em que mais de 90% da escola ficou sem fantasia, este ano vamos entrar na Avenida com o pé direito. Certeza que a nossa fantasia vai ajudar a trazer a proteção que a nossa escola precisa e merece”.

Hugo também destacou o clima interno da agremiação como sinal positivo: “As alas estão bonitas, as fantasias alegres, os carros muito bem feitos. Vejo muita dedicação nos ensaios. A escola vem com gana e acredito que vai fluir bem na Avenida. E essa fantasia aqui vai cumprir a missão de proteger a escola e pavimentar o caminho para que tudo dê certo”.

Para Joyce, a ala funciona como um verdadeiro talismã: “Depois de tantos anos de luta, isso aqui vai ser o nosso amuleto. Com certeza estamos ajudando a proteger o Império para fazer um grande desfile”.

As mulheres que salvam e ensinam

Inspirados pela força matriarcal de Sabela, os componentes refletiram sobre as mulheres que marcaram suas trajetórias. Frederico destacou a base familiar e uma educadora que mudou seu caminho: “Minha mãe, minha avó, minhas tias sempre foram fundamentais. E destaco uma professora que me deu muita força em um momento em que eu precisei e não encontrei apoio em outra pessoa. O nome dela é Cristina Quintela”.

Camila foi direta ao apontar suas referências: “Minha mãe, minhas avós e minha sogra. Todas serviram de exemplo para mim. Sou uma felizarda em ter mulheres tão incríveis na minha vida”.

Hugo Melo 36 anos analista de TI
Hugo Melo, 36 anos, analista de TI
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Hugo ampliou a lista e reforçou a importância do reconhecimento feminino na sociedade: “Minha mãe, minha avó materna, minha esposa, minha sogra e todas as mulheres da minha família são importantes — cada uma com seu ensinamento. O homem precisa saber valorizar e cuidar das mulheres”.

Joyce conectou sua história pessoal à cultura do samba e à identidade preta: “Minha mãe e minhas tias, todas do mundo do samba e da cultura preta, são minhas maiores referências. Busco me espelhar nelas. A minha referência é enorme dentro da minha própria família e isso é muito bom”.

Mocidade Alegre realiza desfile completo e briga no topo da tabela

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A Mocidade Alegre realizou neste sábado de Carnaval o seu desfile oficial. Em busca da décima terceira estrela, a agremiação do bairro do Limão levou ao Sambódromo do Anhembi o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”. O desfile se destacou positivamente em praticamente todos os quesitos, representando a escola com excelência, embora a evolução tenha apresentado oscilações. Na parte final, com o tempo apertado, alguns componentes precisaram acelerar o passo, o que gerou leve correria. Ainda assim, a Mocidade exibiu um conjunto alegórico impactante, fantasias de alto nível, comissão de frente criativa e um time musical bastante entrosado. A Morada do Samba confirma seu favoritismo e deve brigar pelas primeiras colocações na apuração.

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COMISSÃO DE FRENTE
Liderada por Jhean Allex, a comissão de frente representou a “Trupe do Teatro Experimental do Negro”. Os componentes do chão vestiam fantasias coloridas com cabeça de serpente, fazendo referência a Oxumaré, orixá associado à serpente e ao arco-íris. A escola construiu essa ligação de forma clara ao apresentar Léa Garcia como filha da entidade já na abertura do desfile.
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No topo do elemento alegórico, uma mulher representando Léa Garcia era coroada e elevada como se ascendesse a um palco, criando um efeito de levitação. O tripé, inteiramente dourado, reforçava a ideia de divinização. Enquanto isso, os integrantes posicionados no chão saudavam o público e apresentavam a escola, cumprindo os itens obrigatórios do manual do julgador. O ápice da encenação estava no elemento alegórico, que sintetizou de forma didática e impactante a ascensão artística de Léa Garcia em linguagem carnavalesca.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
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O casal Diego Motta e Natália Lago apresentou a fantasia intitulada “Arroboboi, Oxumaré!”. No terceiro ano consecutivo juntos, mantiveram sintonia com a paleta colorida da comissão de frente. Nas duas primeiras cabines de julgamento, executaram corretamente os movimentos obrigatórios, além de desenvolverem a coreografia com segurança dentro do samba. A escola mais uma vez investiu em uma fantasia bela e leve, que favoreceu a evolução do casal sem comprometer a fluidez da apresentação.
HARMONIA
O canto da comunidade ecoou com força na avenida. A Mocidade Alegre repetiu o desempenho dos ensaios técnicos e demonstrou uma harmonia consistente. Os apagões conduzidos por mestre Sombra foram momentos estratégicos que evidenciaram a sintonia entre bateria, carro de som e componentes. Destacaram-se os trechos entre “Evoé mulher” e “Você ainda está aqui”, seguidos por convenções e pequenas paradinhas no “Ô malunga ê”. As intervenções empolgaram o público e valorizaram o conjunto. Não foram observados atravessamentos, e o quesito foi executado com segurança.
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ENREDO
“Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra” teve como proposta retratar a trajetória e a obra de Léa Garcia sob uma ótica afro-religiosa e poética. A escola associou a atriz a Oxumaré, ressaltando o simbolismo do colorido como representação de sua vida e legado. A saudação “Arroboboi” aparece no samba e ao longo do desfile, reforçando essa construção narrativa. A leitura do enredo foi clara, especialmente por meio da comissão de frente e das alegorias, que traduziram com criatividade a importância histórica da artista.
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EVOLUÇÃO
De modo geral, a escola evoluiu de forma leve e organizada. As primeiras alas enfrentaram dificuldades pontuais por conta dos costeiros, o que comprometeu um pouco a fluidez inicial. Até o recuo da terceira alegoria, o andamento era preciso. A partir dali, com o tempo reduzido, houve orientação para acelerar o ritmo. Apesar da mudança de velocidade, não foram identificados buracos ou falhas na divisão de alas.
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Como ponto positivo, algumas alas coreografadas deram dinamismo ao desfile. A ala das passistas também se destacou pela coordenação e pelo samba no pé. Ainda assim, as oscilações no andamento podem gerar algum tipo de avaliação mais criteriosa por parte dos jurados.
SAMBA
A ala musical, liderada por Igor Sorriso, protagonizou momentos de grande vibração no Anhembi. O intérprete demonstrou domínio do samba e manteve a escola empolgada do início ao fim. O entrosamento com mestre Sombra, consolidado ao longo de mais de uma década, foi evidente. Mesmo após um período de afastamento no passado, Igor reafirma sua relevância na história da Mocidade Alegre e consolida mais uma atuação memorável.
FANTASIAS
Com exceção das primeiras alas, que enfrentaram dificuldades com as indumentárias, a escola apresentou um conjunto de fantasias harmonioso e visualmente impactante. As cores foram bem exploradas, as ideias criativas e os adereços de mão chamaram atenção pela originalidade. O resultado foi um desfile esteticamente coeso.
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ALEGORIAS
O abre-alas representou o “Assentamento de uma revolução cultural negra”. A alegoria, predominantemente vermelha com detalhes em dourado, trazia esculturas de mulheres em destaque. O letreiro remetia ao estilo adotado pela escola nos anos 2000, evocando identidade e memória visual.
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A segunda alegoria fez referência a “Orfeu Negro da Conceição”, obra marcante da carreira de Léa Garcia. Elementos cenográficos com movimentação constante deram dinamismo ao carro, reforçando a importância do trabalho na trajetória da atriz.
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A terceira alegoria trouxe o tema “A bênção Yabás, saudação às Deusas Negras nos estúdios”. Com predominância do dourado, apresentou uma imponente escultura central que jorrava água e realizava movimentos, sendo uma das alegorias mais didáticas na transmissão do enredo.
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O quarto carro, intitulado “Um Kikito para Léa”, fez alusão ao prêmio conquistado pela atriz em 2004 no Festival de Gramado. Fotografias da artista compunham a cenografia, facilitando a compreensão da homenagem dentro da proposta narrativa.
OUTROS DESTAQUES
A bateria Ritmo Puro, fantasiada de “O Imperador Jones”, apresentou bossas criativas sob o comando de mestre Sombra, com destaque para o apagão nos versos finais do samba.
Tripés distribuídos ao longo do desfile enriqueceram a apresentação, especialmente o último, que trouxe uma destaque sambando enquanto o elemento se movimentava, criando um efeito visual interessante.
A rainha de bateria Aline Oliveira teve atuação vibrante, com samba firme no pé. Em um momento marcante, pegou o bandeirão da Ritmo Puro e o sacudiu, levando o público ao delírio.

‘Na arte, alforria pra resistir’: Circo de Preto abre desfile do Arranco

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A terceira escola de sábado na Série Ouro traz a arte circense para a Marquês de Sapucaí. O ‘Terreiro de Zé Espinguela’ se torna o Circo Guarany ao homenagear Maria Eliza dos Reis, artista negra que se transformava no Palhaço Xamego, escondendo sua real identidade. Ela foi a primeira palhaça negra do Brasil.

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Detalhes do abre alas do Arranco
Detalhes do abre-alas do Arranco
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

O ‘Circo de Preto’ é o tema da alegoria que abre o desfile do Arranco do Engenho de Dentro. Para os componentes, a representação negra na avenida é espelho ao falar de suas próprias histórias e de seus antepassados.

O passista Du Costa vem a frente do abre alas
O passista Dú Costa vem à frente do abre-alas
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

O passista Dú Costa vem à frente do abre-alas para domar a zebra do Circo Teatro Guarany. Ele representa o Palhaço Gostoso, irmão do Palhaço Xamego. Para ele, contar histórias de protagonismo negro é essencial para abrir o debate acerca da importância da contribuição negra para o Brasil.

“É importantíssimo para os dias de hoje, porque eu sou um homem preto, minha mãe é uma mulher preta, meus amigos são pretos, então ter um enredo referente à mulher preta, brasileira, é muito importante para a gente, porque abre espaço para a gente dialogar com a sociedade sobre a nossa importância, nossa cultura, a nossa vivência”, declarou.

Com uma história que se desenrola no contexto pós-abolição da escravidão no Brasil, a negritude de Maria Elisa se imprime em sua arte. Ela era neta de Leopoldina Souza, uma ex-escravizada, e filha de João Alves da Silva, que nasceu 13 anos após a abolição e se tornou empresário, fundador do Circo Teatro Guarany.

Luis Monsoris e semi destaque do carro
Luís Monsoris, é semi-destaque do carro
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Luís Monsoris, é semi-destaque do carro e tem a oportunidade de brilhar em uma criação própria. O componente é decorador oficial da escola e trabalhou no abre-alas e nas demais alegorias que a agremiação levou para a Avenida. Como homem negro, ele se sente representado ao falar de uma artista negra que se destacou na história.

“Representar minha cor, não preciso falar mais nada. E é a primeira palhaça negra do Brasil. Eu, como homem, gosto muito do enredo. É um enredo alegre, é um enredo que representa a corte do carnaval”, disse.

Ao propor um picadeiro na Passarela do Samba, o Arranco também busca a alegria como enfrentamento as dificuldades. Robson Ramos, componente do carro, afirma que carnaval e circo tem tudo a ver.

“O circo é uma cultura que nos traz tanta coisa alegre, e o carnaval também é alegria. O carnaval tem muita coisa alegre. A cultura que o carnaval nos traz é tão rica, que as pessoas que falam besteira não sabem o quanto isso daqui engrandece o nosso dia a dia”, afirmou.

Robson Ramos componente do carro afirma que carnaval e circo tem tudo a ver
Robson Ramos, componente do carro, afirma que carnaval e circo tem tudo a ver
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Estácio de Sá 2026: Galeria de fotos do desfile

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Samba funciona em desfile do Águia de Ouro sobre Amsterdã

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Na segunda apresentação da noite de domingo no Anhembi, a Águia de Ouro fez uma travessia simbólica entre São Paulo e Amsterdã, teve referências à arte, à história e aos debates sobre liberdade que marcam a identidade da capital holandesa.

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Com o enredo “Mokum Amsterdã – O voo da Águia à cidade libertária”, a escola organizou o desfile em setores que alternam momentos de contemplação e celebração. No entanto, embora todos os elementos previstos tenham sido representados na Avenida, a conexão entre eles nem sempre se mostrou orgânica, o que deixou a narrativa por vezes confusa.

A evolução acabou sendo o ponto mais frágil da apresentação. A escola acelerou em determinados setores e comprometeu a fluidez do conjunto. A Águia de Ouro encerrou seu desfile em 57min59seg, dentro do tempo regulamentar, mas com passagem mais rápida do que o necessário em alguns trechos da pista.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Robson Bernardino, a comissão levou para a pista o encontro simbólico entre o “rei de cá” e o “rei de lá”, citado diretamente no samba. A cena se desenvolveu sobre o tripé que representava a Ponte Magra, cartão-postal de Amsterdã que atravessa o rio Amstel.

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A coreografia aconteceu integralmente sobre o elemento, que tinha altura próxima à cabine de jurados, o que favoreceu a leitura nos módulos. A encenação reuniu um número grande de personagens, de Van Gogh e Anne Frank a DJs, mulheres do Distrito da Luz Vermelha, representante da diversidade e usuário de cannabis. A quantidade de figuras deu a sensação de uma apresentação confusa em determinados momentos, ainda que todas estivessem previstas dentro do enredo. Posteriormente, esses mesmos personagens reapareceriam distribuídos em diferentes alas ao longo do desfile, reforçando a proposta temática da escola.

O elemento alegórico apresentou acabamento simples e leitura bastante literal da cidade.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Alex Malbec e Monalisa Bueno representaram a liberdade de Amsterdã com uma coreografia marcada por giros intensos e movimentos amplos. A fantasia dialogava com a ideia de ave e voo, com volume e imponência que criavam a sensação de leveza como se flutuassem na dança.

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A apresentação na cabine teve duração aproximada de dois minutos. O casal demonstrou boa sintonia e se mostrou confortável na condução do pavilhão, explorando bem a proposta de liberdade sugerida pelo figurino e pelo enredo.

HARMONIA

Com Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto no comando do carro de som, a Águia apresentou um samba de fácil assimilação. O refrão teve forte resposta das arquibancadas, especialmente no trecho “vou ficar bem louco nesse carnaval”, que foi prontamente acompanhado pelo público.

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Os intérpretes chamaram bastante a escola, pulando e incentivando o canto principalmente no refrão de cabeça. A bossa em ritmo de reggae também animou o Anhembi, com componentes e arquibancada realizando passinhos para o lado sincronizados. Antes da entrada da bossa, os cantores faziam chamadas que ajudavam a elevar a energia do momento.

ENREDO

“Mokum Amsterdã” se constrói a partir da imagem da Águia atravessando um portal até encontrar as águas do rio Amstel, ponto de partida para apresentar a capital holandesa. A transição, no entanto, é bastante fantasiosa e de difícil assimilação imediata.

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Depois disso, o desfile passa a apresentar blocos temáticos, primeiro as referências históricas e culturais, depois os quadros ligados às liberdades e, por fim, as celebrações e festas. O problema é que, na prática, esses momentos parecem apenas colocados em sequência. Faltou uma ligação mais evidente entre um trecho e outro para que o público percebesse uma progressão da história, e não apenas a sucessão de temas.

Todos os elementos propostos estiveram representados, mas a narrativa acabou soando mais fragmentada do que contínua.

EVOLUÇÃO

A evolução foi o principal ponto de atenção da Águia de Ouro. A escola já iniciou o desfile em andamento acelerado, sem necessidade naquele momento. Depois, conseguiu estabilizar o ritmo e manter uma passagem mais regular ao longo dos setores centrais.

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Após a bateria realizar o recuo, houve abertura de espaço na altura do módulo de jurados, configurando buraco na pista. Na sequência, quando a comissão de frente ultrapassou o portão, a escola voltou a acelerar novamente, encerrando o desfile em ritmo mais apressado do que o necessário.

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No restante, as alas se mantiveram organizadas. Mesmo enfileirados, os componentes não vieram excessivamente engessados, e o volume das fantasias ajudava a preencher visualmente a avenida. A Águia concluiu sua apresentação em 57min59seg, dentro do tempo regulamentar, mas com variações de andamento do samba.

SAMBA-ENREDO

O samba foi um dos pontos mais eficientes da azul e branco na avenida. De fácil assimilação e com refrões diretos, cumpriu bem a função de envolver arquibancadas e componentes. O trecho “vou ficar bem louco nesse carnaval” foi o momento de maior explosão, com resposta imediata do público, que acompanhou em coro.

Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto tiveram atuação participativa, chamando constantemente a escola e a arquibancada. Os intérpretes faziam chamadas que preparavam o impacto da bossa. É um samba funcional, que dialoga com a avenida e favorece a participação geral.

FANTASIAS

As alas cumpriram o que se propunham a representar. A ala 1, “Águas do Rio Amstel”, trouxe fantasia fluida, reforçada por coreografia com mãos dadas que simulava o movimento de um rio.

As baianas, representando os girassóis de Van Gogh, estavam visualmente bem resolvidas e dialogavam diretamente com a alegoria seguinte, inspirada na “Noite Estrelada” e nos girassóis do artista, que foi representado ao longo da avenida.

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As alas dedicadas a artistas e pensadores holandeses mantiveram coerência com o que foi proposto. Já a ala sobre Anne Frank gerou desconforto pela sensibilidade do tema.

De modo geral, as fantasias cumpriram sua função narrativa, mas apresentaram acabamento simples.

ALEGORIAS

As alegorias foram mais um ponto de atenção da Águia de Ouro. O conjunto se mostrou mais simples em comparação ao que foi visto no Anhembi ao longo da noite, com estruturas literais e acabamento que poderiam ter mais requinte.

O abre-alas apresentou iluminação pontilhada que criava um efeito visual interessante e ajudava na ambientação  proposta pelo enredo, mas estruturalmente manteve simplicidade na composição.

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A terceira alegoria trouxe Anne Frank à frente, além de ciclistas, arquitetura típica e tamancos holandeses. A reunião desses elementos no mesmo carro já dificultava uma leitura mais coesa e, além disso, a representação de Anne Frank sorridente e escrevendo em seu diário causou estranhamento pelo tom adotado, considerando o peso histórico e o contexto retratado.

A quarta alegoria, dedicada às liberdades, teve melhor impacto visual ao simular as vitrines do Distrito Vermelho. Ainda assim, o carro funcionava como uma grande junção de referências: cannabis, prostitutas, diversidade LGBTQIAPN+, todas agrupadas sob o conceito de liberdade. A síntese temática era clara, mas os elementos apareciam mais sobrepostos do que integrados entre si.

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Já o último carro reuniu DJ, referências à cannabis, cerveja e bandeiras de Amsterdã, Brasil e Águia de Ouro em clima festivo. Novamente, os símbolos surgiam lado a lado, sem construção conceitual mais aprofundada. No módulo 2, o carro final passou com iluminação apagada.

Também não foi apresentado o tripé “Seres Encantados das Águas do Rio Amstel”, previsto anteriormente pela escola.

OUTROS DESTAQUES

A bateria Batucada da Pompeia, comandada pelo Mestre Moleza, teve bossa em reggae como um dos pontos mais animados do desfile.

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A rainha Renata Spallicci cantou o samba, acompanhou as bossas com coreografias e interagiu com o público, assim como as musas.

No conjunto, a Águia de Ouro apresentou um desfile coerente com a proposta anunciada, ainda que com dificuldades de articulação narrativa e problemas pontuais de evolução.

Do enredo aos bastidores, mulheres comandam o Arranco na Sapucaí: ‘Devolver o matriarcado para o samba’

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O Arranco do Engenho de Dentro foi a terceira agremiação a desfilar, na noite deste sábado (14), na Marquês de Sapucaí pela Série Ouro. Com o enredo ” A Gargalhada É o Xamego da Vida”, desenvolvido por Annik Salmon, a escola não apenas levou à cena a trajetória de Maria Eliza, mulher que ocupou o picadeiro em um espaço historicamente masculino, como também espelha essa narrativa na própria estrutura interna.

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Annik Salmon e a unica mulher a assinar um desfile na Sapucai em 2026
Annik Salmon é a única mulher a assinar um desfile na Sapucaí em 2026
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Da criação estética à condução musical, o Arranco apresentou mulheres em postos de comando e reafirmou que representatividade também se constrói nos bastidores. Única mulher a assinar um desfile na Sapucaí no Carnaval 2026, Annik reconhece no enredo um reflexo direto da própria trajetória.

“Me reconheço muito com a história do enredo. É uma história que quando eu descobri me tocou muito, porque hoje eu sou a única mulher como carnavalesca na Sapucaí, e a gente não vê abertura para outras mulheres ocuparem esse lugar. É uma história que me toca. E eu gosto de enredo assim, de enredo onde eu possa ter local de fala. É uma história que tem identificação com a agremiação. Acredito que a escola vem mais forte, identificada com o enredo, cantando forte”, comenta a carnavalesca.

Ela não esconde a responsabilidade e o peso de ocupar esse espaço sozinha. Annik também pontua como a presença feminina na criação estética impacta a identidade do desfile.

“Fico muito feliz que posso inspirar muitas outras e abrir caminhos para que outras venham também. A mulher em todo meio sempre é mais cobrada. Ela precisa se reafirmar sempre, mostrar sua competência, provar que ela merece estar ali. A mulher tem um olhar diferente para a arte. Ela é mais sensível, detalhista, vê os pequenos detalhes, acho que essa é a diferença”, afirma.

Ha quatro anos como interprete oficial Pamela revela que a cobranca e constante
Há quatro anos como intérprete oficial, Pâmela revela que a cobrança é constante
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Sob o comando do carro de som, Pâmela Falcão simboliza outra frente de liderança feminina. Para ela, ocupar o posto de intérprete é, também, um gesto político dentro do samba.

“Ser a titular em um carro de som é falar de resistência diariamente, é resistir para existir. Devolver, na verdade, o matriarcado para o samba. O samba nasceu na Praça Onze, na casa da Tia Ciata. Em que momento a gente se perdeu? Em que momento a mulher perdeu o seu lugar?”, questiona a intérprete.

Há quatro anos como intérprete oficial, Pâmela revela que a cobrança é constante: “A gente precisa sempre provar mais, cada vez mais”.

Mesmo diante do julgamento dobrado, ela ressalta que os 40 pontos conquistados em harmonia reforçam a potência feminina na condução da escola. Sobre a recepção do público, completa: “A potência vocal não é a mesma e nunca vai ser, mas é muito gostoso ver o acolhimento das pessoas na Avenida, parando e pedindo para tirar foto. Eu não me acostumei com isso ainda, confesso, mas é muito gostoso”.

Ledjane Motta ocupa um espaco estrategico
Ledjane Motta ocupa um espaço estratégico: a direção musical do carro de som
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Nos bastidores do som, Ledjane Motta ocupa um espaço estratégico e historicamente masculino: a direção musical do carro de som. Ela destaca o simbolismo de ser pioneira na função dentro da escola.

“O Arranco é todo amor, estou muito feliz e agradecida de estar em uma escola que acreditou na possibilidade de uma mulher cumprir esse papel nunca desempenhado por uma antes. O meu papel é garantir a energia que o carro de som vai emanar para todos os meus componentes na Avenida”, comenta.

Segundo Ledjane, para o enredo deste ano, o trabalho foi pensado para que a energia da “gargalhada e do chamego” fosse rapidamente compreendida pela Sapucaí.

“A minha ideia é fazer com que a Sapucaí entenda rapidamente que a energia é essa, que é para cantar feliz e gritar”. Ao falar sobre resistência, ela é direta: “Mulher e homem entendem de música igualmente. Acredito que, por natureza e culturalmente, a mulher tem uma sensibilidade maior. A mulher é criada para resolver tudo, afazeres domésticos, como filhos, uma escola, por exemplo. Acredito que essa seja a diferença”, avalia.

Ao unir discurso e prática, o Arranco do Engenho de Dentro transformou o desfile em afirmação coletiva. O enredo que celebra Maria Eliza ecoou na própria estrutura da escola, onde mulheres ocupam decisões estéticas e musicais. Na Avenida, a gargalhada deixou de ser apenas elemento narrativo para se tornar símbolo de resistência, pertencimento e reconhecimento.

Laísa Lima conduz bateria do Arranco e marca presença feminina histórica na Sapucaí

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Única mestra de bateria do carnaval carioca, Laísa Lima conduziu o Arranco do Engenho de Dentro pela Marquês de Sapucaí na noite do último sábado, transformando a presença feminina no comando da bateria em marca histórica da Sapucaí. Terceira escola a desfilar pela Série Ouro, a agremiação levou para a Avenida o enredo “Gargalhada É o Xamego da Vida”, desenvolvido pela carnavalesca Annik Salmon, e reafirmou sua identidade marcada pela liderança de mulheres dentro e fora da pista, na disputa por uma vaga no Grupo Especial em 2027.

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Laisa Lima mestra de bateria
Laísa Lima. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A proposta do desfile transformou a Avenida no “Grande Circo Falcão” do Engenho de Dentro para contar a história de Maria Eliza Alves dos Reis, a palhaça Xamego. Pioneira negra em um período de severas restrições, ela precisou vestir-se como palhaço homem para conquistar espaço e aplauso nos picadeiros, rompendo padrões e abrindo caminhos. Ao aproximar essa trajetória do presente vivido por Laísa Lima à frente da bateria, o Arranco constrói uma narrativa em que memória, cultura popular e protagonismo feminino se encontram como gesto político e afetivo.

À frente da bateria, Laísa Lima simboliza essa virada histórica. Ela detalhou ao CARNAVALESCO como pensou a construção de um espaço verdadeiramente inclusivo. “Comecei pensando justamente nisso e hoje temos a maior parte da bateria composta por mulheres, não só com instrumentos leves, não tem porque ter isso. Tivemos uma escolinha desde abril. Temos mulheres em todas as marcações, inclusive na diretoria. Cuíca, agogô, em todos os instrumentos. Para as pessoas entenderem que não é só a Laísa, queremos essa representatividade e inclusão dentro da bateria”, afirmou.

Sobre a cobrança por ocupar um posto historicamente masculino, Laísa reconhece o peso e o simbolismo da função. “É diferente, mas eu sinto que é uma responsabilidade e que bom que essa responsabilidade veio pra mim, não é fácil, é uma história de reconhecimento e pertencimento. Espero que entendam que a gente merece ter mais lugar dentro do carnaval”, declarou. A fala dialoga diretamente com o enredo que celebra uma mulher que precisou desafiar padrões para existir em cena.

A mestra ainda relacionou sua trajetória ao próprio samba-enredo apresentado na Avenida. “O samba já diz: ‘é uma história de coragem, garra e fé’ e o que não falta é fé em mim, aprendi a ter coragem e a garra é movida por 330 pessoas acreditando no nosso trabalho. Quero muito inspirar outras mulheres, não quero ficar sozinha aqui, quero ver muitas outras por aqui também”, afirmou Laísa Lima.

A liderança feminina também se reflete na condução artística do desfile. Annik Salmon imprime sua assinatura criativa ao transformar o picadeiro em alegorias, fantasias e cenas que dialogam com a resistência de Maria Eliza. A estética circense ganha contornos de celebração popular, sem perder a dimensão política da narrativa, que encontra na bateria regida por Laísa uma de suas traduções mais diretas na Avenida. Ao contar a história de uma mulher que precisou se reinventar para existir em cena, a escola também fala sobre tantas outras que seguem reinventando espaços de poder.

Na Avenida, a emoção foi construída em camadas: o riso como linguagem, o circo como metáfora e a mulher como centro da narrativa. O samba-enredo conduziu o público por essa viagem afetiva, evocando o brilho dos picadeiros e a força de quem transformou dificuldade em espetáculo. A Sapucaí acolheu uma história que mistura arte, amor e resistência, traduzindo em canto e movimento a importância de reconhecer pioneiras muitas vezes invisibilizadas.

Ao cruzar a Sapucaí como única mulher a reger uma bateria no carnaval carioca, Laísa Lima não apenas conduziu o ritmo do Arranco, mas projetou a imagem de um futuro em que a presença feminina à frente de uma bateria deixou de ser exceção para se tornar regra. Entre o riso do picadeiro e a força do tambor, sua passagem pela Avenida transformou representatividade em som, gesto e permanência.

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