Início Site Página 50

Estrela do Terceiro Milênio 2026: Galeria de fotos do desfile

0

Freddy Ferreira analisa a bateria do Império Serrano no desfile no Carnaval 2026

0

Um excelente desfile da bateria “Sinfônica do Samba” do Império Serrano, sob o comando do mestre estreante, Felipe Santos. Um ritmo equilibrado e com bossas dançantes, além de bem conectadas à obra da escola foi exibido. Uma conjunção sonora impecável e com um Groove puxado para o timbre grave foi produzida.

imperio serrano desfile 2026 18

Na parte da frente do ritmo do Império Serrano, uma ala de cuícas sólida deixou sua contribuição sonora. O histórico e tradicional naipe de agogôs imperianos foram fabulosos, pontuando a melodia do samba com extrema eficiência, através de um desenho rítmico bem musical. Uma ala de chocalhos de extrema qualidade tocou junto de um naipe de tamborins com virtude técnica coletiva muito apurada. O carreteiro de ambos os naipes juntos foi magistral, evidenciando o trabalho acima da média nas peças leves.

Na cozinha da bateria imperiana, uma potente e pesada afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda foram vigorosos, mas tocando com segurança. Surdos de terceira fenomenais ficaram responsáveis pelo balanço bem envolvente da “Sinfônica”. Repiques coesos e ressonantes tocaram junto de um naipe de caixas simplesmente fabuloso, com sua tradicional batida rufada ecoando por todo o ritmo da escola do morro da Serrinha.

Bossas altamente musicais foram exibidas com precisão cirúrgica. Arranjos pautados pelas nuances da melodia do bonito samba imperiano, consolidando assim seu ritmo. Destaque para a pressão sonora de uma nuance rítmica com um único som de tiro no trecho “que silencia o fuzil”, extremamente casada com o que solicita tanto a melodia, quanto a letra do samba-enredo. Merece menção musical o balanço irrepreensível no arranjo do estribilho, com levada de Jongo, como pede o samba. Acrescentou um aspecto dançante ao conceito criativo musical, impulsionando o samba, além de auxiliar na evolução de componentes pela Avenida.

Uma excelente apresentação da “Sinfônica do Samba”, na estreia de mestre Felipe Santos dirigindo a bateria do Império Serrano. Uma conjunção sonora de alto impacto foi exibida, junto de apresentações potentes em cabines julgadoras. A grande exibição na primeira cabine foi bastante aplaudida. Tudo seguido de uma apresentação soberba no segundo módulo, mais uma vez recebendo ovação popular e aplausos de todo o júri. Encerrando com chave de ouro, mais uma grande exibição na última cabine (dupla), que tem tudo para garantir a pontuação máxima para a lendária “Sinfônica do Samba” do Império.

Freddy Ferreira analisa a bateria do Arranco no desfile no Carnaval 2026

0

Um grande desfile da “Sensação” do Arranco do Engenho de Dentro, sob o comando da primeira mestra de bateria da história da Sapucaí, Laísa Lima. Um momento épico e inspirador, que evidencia a revolução feminina em curso dentro do ritmo de baterias. Uma bateria do Arranco com uma conjunção sonora de raro valor, além de boa fluência entre todos os naipes. Bossas dançantes e atreladas ao enredo circense foram exibidas com qualidade em todos os módulos, confirmando um grande trabalho da bateria “Sensação”.

arranco desfile 2026 16

Na cabeça da bateria da escola do bairro do Engenho de Dentro, uma boa ala de cuícas deu seu recado musical. Logo na primeira fila, três pratos deram brilho sonoro em arranjos. Agogôs sólidos executaram uma convenção se pautando pelas variações melódicas da obra. Um naipe de chocalhos de grande nível técnico tocou junto de uma ala de tamborins de nítida qualidade coletiva, que realizou um desenho rítmico bem conectado à música da escola. O belo entrosamento entre chocalhos e tamborins foi o ponto alto do consistente trabalho das peças leves.

Na parte de trás do ritmo da bateria “Sensação”, uma boa e tradicionalmente pesada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram seguros, tocando junto de surdos de terceira com balanço bem envolvente, dando molho à cozinha do Arranco. Um naipe de repiques coesos se exibiu junto de uma ala de caixas ressonante, complementando de modo eficiente a sonoridade dos médios.

Bossas extremamente ligadas ao melodioso samba do Arranco foram exibidas com eficácia. A sonoridade da bossa com levada nordestina no refrão do meio também merece menção musical. Assim como o arranjo da segunda, iniciado com tapas progressivos, seguindo para uma boa conversa rítmica, que culmina no arranjo do estribilho, que deu todo um ar de clima circense, transformando a Avenida num autêntico picadeiro.
Uma construção musical impecável e muitíssimo bem exibida.

Uma grande apresentação da bateria “Sensação” do Arranco do Engenho de Dentro, dirigida pela primeira mestra a reger um ritmo na Sapucaí, Laísa Lima. Um desfile emocionante, com exímia conjunção sonora e uma musicalidade dançante em bossas bem vinculadas ao tema circense da escola. Na primeira cabine, uma apresentação muito boa foi realizada. A do segundo módulo foi até melhor, arrancando aplausos de todo o júri. Na última cabine (dupla) outra apresentação primorosa evidenciou um grande desfile da bateria do Arranco, da estreante Laisa Lima.

Arranco aposta na força simbólica do riso e entrega conjunto plástico sólido

0

O Arranco do Engenho de Dentro, terceira agremiação a cruzar o Sambódromo da Marquês de Sapucaí neste sábado de carnaval, apresentou um dos projetos mais lúdicos e necessários da Série Ouro: “A Gargalhada é o Xamego da Vida!”. A carnavalesca Annik Salmon não se limitou a uma biografia linear de Maria Eliza, como construiu uma crônica visual sobre o direito ao riso da população negra, elevando a figura da Palhaça Xamego ao status de baluarte da cultura popular brasileira em um desfile marcado pelo equilíbrio entre técnica e explosão emocional.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

arranco desfile 2026 11
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada com rigor cênico, a comissão transportou o público para o Circo Teatro Guarany por meio de bailarinos caracterizados como palhaços clássicos, em uma performance que fundia dança e acrobacia. O elemento cenográfico, um tripé em formato de caixa de palhaço, foi o protagonista de um dos momentos mais inteligentes da noite, com o uso de um monociclo pela bailarina central, que conferiu dinamismo ao cortejo.

arranco desfile 2026 02

O ápice foi a transição identitária na marcação do samba, na parte “é homem, é mulher, não importa”. Em uma troca de figurino ágil e precisa no topo da caixa, a “Palhaça” deu lugar à “Mulher”, revelando Maria Eliza sem os ornamentos do picadeiro, humanizando o mito e emocionando as frisas com uma leitura clara e objetiva.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Diego Falcão e Denadir Garcia protagonizaram uma exibição de gala. Defendendo o pavilhão com a fantasia “A Gargalhada Ancestral”, o casal exibiu figurinos de altíssimo nível, nos quais o dourado e os tons claros serviram de base para um detalhamento em pedrarias pretas e muitas plumas, garantindo volumetria imponente.

No campo técnico, a sincronia foi absoluta. Diego apresentou um bailado tradicional, com giros velozes e cortejo reverente à bandeira, enquanto Denadir flutuou na avenida com giros bem espaçados e precisos, mantendo o pavilhão sempre desfraldado. O sorriso constante do casal ratificou a conexão com a proposta festiva do enredo.

arranco desfile 2026 05

O mestre-sala optou por uma linha de bailado tradicional, caracterizada por cortejo elegante e protetor ao pavilhão. Seus movimentos foram marcados por giros de precisão cirúrgica e sapateado que, em diversos momentos, dialogava diretamente com a letra do samba e as bossas da bateria. Houve equilíbrio notável entre a força de seus passos e a leveza necessária às coreografias que remetiam ao tema festivo, mantendo postura altiva e contato visual firme com sua parceira e com o corpo de jurados.

Denadir Garcia, por sua vez, foi a personificação da suavidade e do domínio técnico. Conduzindo o pavilhão azul e branco com extrema destreza, a porta-bandeira apresentou giro clássico, bem espaçado e com excelente controle de eixo, garantindo que o pavilhão se mantivesse sempre desfraldado, sem enrolar no mastro. Denadir incorporou o espírito do enredo ao seu bailado, fundindo técnica rigorosa a passos mais soltos que remetiam à alegria do samba. Sua performance foi marcada por expressão radiante, transmitindo a segurança de quem possui domínio absoluto de seu espaço e de sua função sagrada.

SAMBA E HARMONIA

A bateria “Sensação” escreveu um capítulo importante da história recente do carnaval sob o comando de mestra Laísa, a única mulher à frente de uma bateria na Sapucaí. A ala musical deu show de criatividade com bossas que incorporavam sons circenses e migravam, com maestria, para a cadência do forró, homenageando a ascendência da família de Maria Eliza.

arranco desfile 2026 16

Esse vigor rítmico serviu de alicerce para uma harmonia robusta. A escola cantou a plenos pulmões, com o refrão principal funcionando como verdadeiro grito de afirmação da comunidade do Engenho de Dentro, amparado por bom trabalho do carro de som.

ALEGORIAS E FANTASIAS

O conjunto alegórico demonstrou excelente aproveitamento de materiais e cores vibrantes. O abre-alas, “A Chegada do Grande Circo Guarany”, em tons de azul e dourado, impactou, mas apresentou falha no acabamento da escultura do Falcão e também em parte da fantasia do destaque no chão.

arranco desfile 2026 24

O uso de materiais metálicos na segunda e na terceira alegorias trouxe brilho extra sob a iluminação da passarela. A última alegoria foi bom fechamento, com explosão cromática e bailarinos realizando movimentos em balanços circenses no topo do carro, conferindo dinâmica vertical que traduziu com fidelidade a alma do enredo. No chão, as fantasias dos destaques mantiveram padrão de acabamento, completando a unidade visual da escola.

EVOLUÇÃO

No quesito Evolução, o Arranco demonstrou maturidade. A escola manteve andamento fluido, sem abrir buracos ou apresentar oscilações de ritmo. As alas estavam compactas, e os componentes demonstravam alegria genuína, brincando o Carnaval sem perder alinhamento técnico.

arranco desfile 2026 18

A leveza das indumentárias permitiu que a agremiação evoluísse com rapidez e preenchesse o asfalto com a densidade de uma escola que brilha para ascender ao topo.

O Arranco do Engenho de Dentro entregou desfile técnico e emocional. Ao elevar Maria Eliza Xamego, a escola reafirmou a importância do riso como ferramenta de luta e a competência feminina nos postos de comando do samba.

OUTROS DESTAQUES

Se o enredo do Arranco celebrava o pioneirismo de uma mulher negra no picadeiro, tratou de atualizar essa narrativa para os dias atuais. Sob o comando de mestra Laísa, a única mulher a ocupar o posto de regente principal no Grupo de Acesso neste carnaval, a “bateria Além da excelência musical, o trabalho de Laísa à frente dos ritmistas simboliza um marco de representatividade na Sapucaí. Com uma regência firme e uma liderança respeitada por todo o corpo de ritmistas, ela provou que o comando do ritmo não tem gênero. A bateria do Arranco não apenas sustentou o canto da escola, mas foi um elemento narrativo fundamental e a sustentação necessária para que a comunidade desfilasse com a alma lavada.

Força do samba e qualidade do enredo dão o tom do desfile dos Gaviões da Fiel

0

Os Gaviões da Fiel atravessaram o Sambódromo do Anhembi, no último sábado, em desfile válido pelo Grupo Especial do Carnaval de São Paulo em 2026. Quarta escola a cruzar a Passarela do Samba, a apresentação foi marcada pela facilidade de leitura do enredo e desempenho de alto nível do samba no cortejo, encerrado após 63 minutos na Avenida. A Fiel Torcida desfilou com o enredo “Vozes ancestrais para um novo amanhã”, assinado pelos carnavalescos Júlio Poloni e Rayner Pereira.

gavioesdafiel desfile26 6

A agremiação alvinegra entrou na Avenida otimista com os bons resultados dos últimos dois anos. Não à toa, sua torcida apaixonada lotou o Sambódromo e cantou com a escola do início ao fim do desfile. O conjunto da obra da escola foi bem satisfatório, apesar de alguns deslizes ocorridos com as alegorias. Se há uma expectativa pelo tão sonhado pentacampeonato, cabe aos jurados definirem isso, mas certamente foi um desempenho para os Gaviões sonharem com mais um excelente resultado.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Helena Figueira, a Comissão de Frente dos Gaviões representou na Avenida “O Transe de Yakoana”. De acordo com a tradição Yanomami, trata-se de um ritual xamânico que permite a eles se comunicarem com os espíritos da floresta, conhecidos como Xapiris.

gavioesdafiel desfile26 17

O quesito retratou um período conhecido como “tempo do sonho”, referente à época anterior da invasão da floresta, desde a sua criação. A Voz Ancestral se personifica em um xamã, que imerge no transe de yakoana. A apresentação foi imersiva, e a representação do momento em que o yakoana é aceso se dá no momento em que componentes sobem no topo dos quatro tripés que acompanharam os dançarinos. Uma abertura de desfile boa para preparar o público para os elementos que viriam a seguir.

gavioesdafiel desfile26 16

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Wagner Lima e Carolline Barros desfilaram pelo segundo ano como primeiro casal dos Gaviões da Fiel. Este ano, a dupla dançou com fantasias representando “A visão de Omama, Thueyoma e as Serenas”, e veio acompanhada de um grupo de guardiões. A dança do casal ocorreu dentro da proposta do enredo, com coreografia marcada dentro da temática proposta. Os balizamentos foram cumpridos com elegância e destreza, fazendo do quesito um ponto positivo dentro do desfile da escola.

gavioesdafiel desfile26 13

ENREDO

“Vozes ancestrais para um novo amanhã” trata-se de um manifesto indigenista que ecoa e enaltece a história, as vozes e os saberes dos povos originários. A Fiel Torcida convidou o público à descolonização do pensamento e à valorização das culturas indígenas, especialmente no contexto das mazelas climáticas e ambientais dos tempos atuais.

gavioesdafiel desfile26 14

Os quesitos apresentaram diferentes momentos históricos, iniciando no período pré-invasão europeia. O setor que abordou o período do Brasil Colonial referenciou os males trazidos de além-mar, como as doenças, queimadas e a matança da vida selvagem e dos povos originários, mostrando as lutas que perduram até os dias de hoje por reparação histórica e direito de simplesmente existirem. O desfile se encerrou com o anseio por um novo amanhã, onde o país passa a entender suas verdadeiras raízes e se volta aos saberes indígenas, para construir um futuro a partir deles, retomando a época em que essas terras eram conhecidas como Pindorama.

Na Avenida, a narrativa funcionou adequadamente, aliada à facilidade de leitura dos elementos visuais apresentados pela Fiel Torcida. É mais um dos quesitos seguros da escola para a apuração.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias dos Gaviões da Fiel, por todos os elementos de pista que desfilaram, teve papel fundamental na narrativa do enredo. Percebeu-se com clareza a representação das diferentes passagens da narrativa, e a forma como alas e casais de mestre-sala e porta-bandeira se comunicaram foi com muito zelo.

gavioesdafiel desfile26 26

O quesito precisa apresentar bom acabamento, facilidade de leitura e cooperar para que os desfilantes brinquem o Carnaval, e nesse aspecto as fantasias dos Gaviões cumpriram bem o seu papel. Não foram observadas falhas que possam comprometer a avaliação da escola, o que pode ser positivo no momento da apuração.

ALEGORIAS

Os Gaviões desfilaram com um conjunto formado por quatro carros alegóricos e um tripé. São eles: o tripé que acompanhou a ala “A Visão dos Ancestrais”, representando os espíritos vislumbrados durante o ritual de yakoana. O Abre-alas, “A Visão do Templo dos Sonhos”, trouxe uma percepção geral dos elementos apresentados na primeira parte do desfile, com a visão que o Xamã, apresentado na Comissão de Frente, teve após imergir no transe de yakoana. O Carro 2, “O Tempo da Estrada”, representou a destruição provocada pelos invasores europeus, arruinando aquele mundo de sonhos. O Carro 3, “Guerra ao Xawara”, ilustrou o enfrentamento mítico de indígenas contra a criatura bestial Xawara. Por fim, o Carro 4 retratou “O Brasil Guajupiá”, que é o anseio da transformação do país na chamada ‘terra sem males’.

gavioesdafiel desfile26 22

Dentro da proposta, as alegorias contribuíram como grandes representações dos elementos inicialmente abordados pelas fantasias, fazendo do conjunto visual da Fiel Torcida uma narrativa didática e impactante, em especial pela boa plástica geral. Mas alguns problemas foram observados quando os carros passaram pelo penúltimo módulo de julgamento, como a iluminação e os efeitos de água do eixo central do Abre-alas, que estavam apagados, e algumas inconsistências de acabamento percebidas na estrutura que sustenta a escultura do gavião, além da iluminação de uma das caveiras do Carro 2. Algumas perdas de décimos podem ocorrer no quesito.

HARMONIA

A Fiel Torcida representou bem o seu pavilhão na Avenida. O canto da comunidade foi valente e vigoroso ao longo de todo o desfile, mantendo o andamento do quesito em elevado nível e convidando o público a cantar junto. É um quesito em que a escola pode se dar muito bem no dia da apuração.

gavioesdafiel desfile26 27

EVOLUÇÃO

Tecnicamente, os Gaviões tiveram um bom desempenho. A evolução teve andamento adequado para o tamanho do contingente levado para a Avenida, e o recuo da bateria foi bem fechado pela ala seguinte. Houve algumas leves oscilações diante do módulo três, mas no restante da Avenida tudo pareceu transcorrer bem.

gavioesdafiel desfile26 25

SAMBA-ENREDO

O samba dos Gaviões para o Carnaval de 2026 foi assinado por Renato do Pandeiro, Rica Leite, Luciano Rosa, Cacá, Vini, Beto Cabeça, Don Souza, Portuga, Alves, Willian Tadeu e Biro. Na Avenida, a obra foi defendida pelo carro de som comandado pelo histórico intérprete Ernesto Teixeira, com mais de 40 anos de Avenida, todos defendendo a Fiel Torcida.

gavioesdafiel desfile26 33

O samba-enredo da escola foi muito elogiado desde seu anúncio, mas a primeira versão divulgada pela escola tinha uma interpretação deveras elevada, que gerou algumas preocupações. Mas desde o lançamento do CD oficial, percebeu-se uma mudança de tonalidade que o tornou mais cadenciado e encaixou perfeitamente no andamento do carro de som.

Na Avenida, os cantores da Fiel Torcida conseguiram conduzir bem a obra, e a facilidade de captação da letra permitiu aos desfilantes cantarem o samba com clareza. As expectativas pela nota máxima são boas para o dia da apuração.

OUTROS DESTAQUES

gavioesdafiel desfile26 4

Sabrina Sato reinou imponente à frente da bateria “Ritimão”, comandada por mestre Ciro. Os ritmistas da escola reproduziram bossas de boa qualidade, e realizaram alguns apagões pontuais respondidos com vigor pela comunidade. A execução do recuo foi bem-feita, com a corte cumprindo bem o seu papel nesse momento importante.

 

Império Serrano transforma escrevivência de Conceição Evaristo em navio de barro na Sapucaí

0

Quarta escola a desfilar na Marquês de Sapucaí, o Império Serrano apresentou um desfile marcado pela força da literatura e da memória ancestral. Com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, assinado pelo carnavalesco Renato Esteves, a verde e branca de Madureira exaltou a trajetória e a obra de Conceição Evaristo. 

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

CARRO
Segunda alegoria do Império Serrano intitulada “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Um dos pontos altos do desfile foi a segunda alegoria, intitulada “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”. O carro representa uma enchente na favela e a transformação da personagem mítica Sabela em um navio de barro para salvar a comunidade. Com estética terrosa, a alegoria aposta no barro e coletividade como imagem de recomeço.

No alto do carro, três componentes deram vida a essa narrativa: Wellington Ramos, de 59 anos, aposentado e há dois anos desfilando pela escola; Ticiane Gomes, de 39 anos, técnica de enfermagem e estreante no Império; e Juliana Amorim, de 30 anos, enfermeira, também em seu primeiro desfile na agremiação.

Representar a resistência em meio à enchente

WELLINGTON RAMOS
Wellington Ramos. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Wellington, desfilar no carro vai além da estética e do espetáculo. “Sinto-me honrado com essa oportunidade. Estar ali em cima representa muito mais do que um desfile, é um reflexo fiel do povo brasileiro, que é um povo batalhador. Estar naquele carro é dar voz a essa resiliência de quem enfrenta as adversidades e se mantém de pé”, afirmou.

TICIANE GOMES
Ticiane Gomes. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Ticiane revelou que o tema dialoga diretamente com sua própria trajetória. “Essa representação toca em um ponto muito íntimo da minha vida, pois eu já vivi na pele essa situação exata. Eu sei o que é enfrentar o desespero e a perda causados pelas enchentes, por isso, estar aqui hoje representa muito para mim. Sinto uma identificação profunda com a proposta desse carro; é como se eu estivesse ali não apenas desfilando, mas honrando a minha própria história de sobrevivência e a de tantas outras pessoas”, disse.

Juliana destacou a emoção de integrar um desfile que homenageia Conceição Evaristo. “Eu estou me sentindo extremamente à vontade e muito feliz com essa oportunidade. Foi maravilhoso poder me integrar à comunidade do Império; eu adorei participar ativamente, ir até o barracão e ajudar inclusive na confecção das fantasias. Ver o processo de perto e colocar a mão na massa tornou tudo muito mais gratificante”, afirmou.

A estética do barro e a conexão com a ancestralidade

A alegoria foge do luxo tradicional e das pedrarias para apostar em uma estética crua, ligada à terra e à reconstrução. Para Wellington, essa escolha dialoga diretamente com a origem do povo brasileiro. “Essa conexão é muito forte e presente. Essa estética me remete diretamente à nossa ancestralidade e, acima de tudo, à verdadeira origem do povo brasileiro. É uma estética que fala sobre a nossa base, que vem da força da favela e da pureza do samba, mostrando de onde realmente viemos”, disse.

Ticiane também enxergou na proposta visual um retorno às raízes. “Sem dúvida alguma. Eu sinto que essa estética é profundamente ancestral. Ela foge do óbvio e nos transporta para as raízes da nossa gente, mostrando a beleza que existe na verdade e na força do povo que resiste. É um visual que fala diretamente com a nossa essência e com o que somos de verdade”, afirmou.

JULIANA AMORIM
Juliana Amorim. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Juliana reforçou a mesma percepção ao relacionar o barro à memória coletiva. “Essa estética mais crua e ligada aos elementos da terra e da história do nosso povo traz uma conexão muito forte com as nossas raízes e com tudo o que veio antes de nós”, concluiu.

O Império como porto seguro

Além de simbolizar o refúgio diante da enchente, o carro também ecoa a própria vivência dos componentes dentro da escola. Para Wellington, o Império Serrano é abrigo. “O Império Serrano é, sem dúvida, um refúgio para mim. Quando estou aqui, vivenciando o dia a dia da escola e participando do Carnaval, eu me sinto renovado e muito melhor. É um ambiente que me acolhe e me faz bem de uma forma muito especial”, afirmou.

Estreante, Ticiane destacou o acolhimento recebido. “O acolhimento tem sido maravilhoso. Eu me sinto totalmente à vontade aqui. Mesmo sendo estreante, a comunidade do Império Serrano nos abraçou de uma forma muito calorosa e o tratamento que recebemos é impecável. Estou saindo daqui com uma sensação de extrema satisfação e felicidade por ter escolhido esse refúgio para o meu primeiro carnaval”, disse.

Juliana já projeta o futuro na verde e branca de Madureira. “A experiência tem sido tão positiva e acolhedora que eu já fiz planos para o futuro: pretendo desfilar no Império Serrano por muitos e muitos anos. Encontrei aqui um lugar onde me sinto bem e que quero levar para a vida”, concluiu.

União de Maricá 2026: Galeria de fotos do desfile

0

Império Serrano apresenta enredo forte, estética ousada, mas sofre com evolução arrastada e problemas de acabamento

0

Sempre que a Serrinha desponta na Avenida, há sempre uma coisa diferente que mexe com o público. E, quando a escola honra as suas raízes ao fazer homenagens a personalidades negras, e principalmente do sexo feminino, já se sabe que, no mínimo, vai emocionar a Avenida. Ela tem o dom. E, neste desfile de 2026, mais uma vez tocou o coração do imperiano e do sambista em geral. Homenagem importante e necessária. Além disso, o carnavalesco Renato Esteves apresentou uma estética pertinente, diferente, fora do óbvio, mas com alguns pequenos problemas de acabamento, tanto nas fantasias quanto nas alegorias. Apesar do bom canto da comunidade, o samba não pegou com o público, o que acabou trazendo também uma evolução mais arrastada.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

imperio serrano desfile 2026 08
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, o Império Serrano foi a quarta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, com o tempo de 55 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Marlon Cruz, a Comissão de Frente do Império Serrano apresentou Ponciá-Evaristo a partir de suas referências fundadoras: a mãe, as tias, as mulheres do cotidiano, a ancestralidade e a escrita. Uma comissão que apostou no traço emotivo. Nesse ambiente, a comissão trouxe lavadeiras realizando o trabalho cotidiano. Enquanto isso, a artista que representou a personagem observava atentamente a cena e, a partir dessa observação silenciosa e profunda, nasceu sua paixão pela escrita. Já no elemento cenográfico que representava um rio, ou o entorno de um rio, as lavadeiras lavavam as roupas e faziam o movimento para quarar, batendo na pedra e produzindo um pequeno efeito de água no pano verde.

imperio serrano desfile 2026 02

Depois, uma delas desenhava um sol no chão com um cajado. O ápice dramático da apresentação ocorreu com a representação da dor materna: uma das componentes simboliza ser baleada e cai nas mãos da pivô. Diante desse lamento coletivo, Oxum surgiu, enxugou as lágrimas e protegeu seu povo e suas crianças, reafirmando seu papel ancestral de cuidado, acolhimento e preservação da vida. O grande efeito estava na saia de Oxum, que ia ficando comprida enquanto a orixá dançava e se elevava para o delírio do público, e surgiam as imagens de mulheres relacionadas à homenageada. Comissão de ótima interação com o público, de mensagem forte e efeitos bem aplicados, que funcionaram e estavam de acordo com o enredo. Elemento cenográfico de acabamento apenas satisfatório.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Matheus Machado e Maura Luíza, vestiu “O Mulungu Ancestral e a Flor do Mulungu”, em que o mestre-sala representou a árvore sagrada, que simbolizou a memória profunda, a raiz africana e o tempo longo da diáspora. Já a porta-bandeira simbolizou a síntese da potência feminina negra e figura central da escrevivência-enredo. A flor é estado de graça, é beleza que nasce da resistência, é a mulher negra que verte em leite a seiva que dá a vida.

imperio serrano desfile 2026 06

A dupla começou um pouco mais tímida no primeiro módulo, mas não cometeu erros aparentes e se soltou mais a partir do segundo. Coreografia que aproveitou muito bem os momentos mais afros do samba e as bossas da Sinfônica do Samba. No final da apresentação, já no refrão principal, no “É Kizomba…”, a dupla fez um passo afro com muita energia e vibração. No segundo módulo, onde o casal teve a sua melhor apresentação, Matheus deu uma leve hesitada ao pegar a bandeira, que parecia que iria escapar, mas, depois de dois toques, segurou firme. Só esse ponto de preocupação neste módulo. No último, não houve problemas desse tipo, mas o casal teve que esperar uma passada inteira porque a comissão demorou a tirar o elemento cenográfico da frente da cabine de jurados. A dupla pareceu incomodada. A apresentação ali não foi ruim ou problemática, mas ainda esteve um pouco abaixo na intensidade do que no segundo.

ENREDO

“Ponciá Evaristo Flor do Mulungu” trouxe a força e a vivência da mulher preta como foco principal, a partir de uma homenagem à professora, doutora em Literatura Comparada, considerada a maior literata negra deste tempo: Conceição Evaristo. O enredo foi concebido em formato de conto, incorporando elementos ficcionais que evocavam o conceito de escrevivência, formulado pela homenageada. A escola dividiu o desfile em cinco capítulos. No primeiro, “Olhos d’Água”; no segundo, “Becos da Memória”; no terceiro, “História de Leves Enganos e Parecenças”; no quarto, “Cadernos Negros”; e, no último, “Escrevivências”.

imperio serrano desfile 2026 07

Nesse contexto, a personagem Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu assumiu, neste desfile, papel central como síntese simbólica e narrativa, personificando tanto a vida e a experiência de Conceição Evaristo quanto os universos ficcionais que a autora construiu ao longo de sua atuação como escritora e intelectual negra. A personagem inédita, criada para a condução deste enredo, protagonizou uma narrativa que tensiona memória, ficção e ancestralidade, revelando o entrecruzamento entre vida, escrita e resistência. Ótimo ter saído do óbvio na homenagem para valorizar os pensamentos da escritora, ideia que ajudou o Império a também trazer uma estética diferente, mas muito pertinente.

EVOLUÇÃO

Nesse quesito, a Serrinha não fez uma grande apresentação. Talvez por um samba cadenciado, mas puxado para trás por conta de suas características, o Império Serrano evoluiu de forma muito arrastada, demorando a chegar aos módulos de julgamento. Grande, a escola inclusive nem fez a bateria de Mestre Sopinha entrar no segundo recuo, passando direto a fim de permitir um final de desfile sem maiores problemas. Nos últimos setores, a escola ainda apressou um pouco o passo.

imperio serrano desfile 2026 12

Na última apresentação de módulo, a comissão de frente demorou a tirar o elemento cenográfico, o que fez o casal perder a passada do samba para entrar, fazendo com que a escola tivesse que ficar mais tempo parada. Entre casal e comissão também ficou um espaçamento maior na frente do júri, pois era o lugar onde o casal iria se apresentar. A dupla ficou mais próxima da ala, esperando a passada do samba, o que pode gerar questionamentos sobre esse espaço que ficou. Importante ver como os jurados de Evolução vão interpretar essa situação.

HARMONIA

Estreando na Serrinha, o intérprete Vitor Cunha não sentiu o peso e o tamanho de defender o pavilhão de uma escola detentora de grandes obras e com nove títulos no Grupo Especial. Ao contrário, mostrou-se bastante tranquilo, encarando a missão de impulsionar os componentes no canto, o que aconteceu bem e era esperado, vista a comunidade que a Serrinha tem.

imperio serrano desfile 2026 25

Já o samba não rendeu tanto, não por culpa do carro de som, que realmente deu o seu melhor, mas por características da própria música, mais cadenciada, sem um grande momento de explosão. Bom entrosamento entre carro de som e bateria, vozes afinadas e excelente trabalho de sustentação das vozes de apoio para deixar Vitor mais à vontade.

SAMBA-ENREDO

O samba é de autoria dos compositores Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romal, Marco Aurélio, Victor Mendes, Mateus Pranto e Gabriel Simões. A obra até se relaciona com o enredo, com uma cara mais emotiva, mas nostálgica, com bons momentos, principalmente na cabeça do samba, que permitem algumas bossas mais afros para a bateria e para a dança do casal nos trechos em que faz reverência a Oxum.

imperio serrano desfile 2026 15

O refrão do meio tem uma virada de melodia interessante. No “Folia de Reis”, há uma quebra interessante na linha melódica, com um caminho harmônico diferente do restante da obra, o que a engrandece. Porém, o samba não teve um grande rendimento, não houve muita interação do público, o que produziu um desfile morno, com uma evolução mais arrastada. Faltou maior vibração, ainda que a obra sempre se relacionasse com o caráter nostálgico.

ALEGORIAS

O carnavalesco Renato Esteves levou para o desfile do Império Serrano três alegorias. O carro abre-alas, “Consagração”, representou justamente a consagração da personagem central do enredo, Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu, a Nossa Senhora da Conceição e, consequentemente, a Oxum. Estruturado em duas partes, na porção frontal a escola trouxe a figura de Oxum e a força das águas doces, os Olhos-d’Água, concebidos como um grande assentamento simbólico da orixá. Já a parte traseira da alegoria retratou um grande festejo em homenagem a Nossa Senhora da Conceição.

imperio serrano desfile 2026 23

A segunda alegoria, “Navio Mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”, materializou o momento de travessia vivido pela Favela do Pindura-Saia após o aguaceiro provocado pela violência estrutural e pela especulação imobiliária. O carro se estruturava a partir do barro, que remete à criação, à fertilidade e à memória moldável. A escultura central em forma de navio, em barro, representou as lembranças de Ponciá sobre o Pindura-Saia. A figura de Sabela se impôs como eixo da alegoria: divindade-navio, ventre-travessia, corpo que carregou a comunidade inteira. As construções de favela surgiram integradas ao corpo do navio, reforçando a ideia de que o território não é apenas espaço físico, mas seus corpos, vínculos, afetos e identidades. Cenograficamente, a alegoria estabeleceu uma transição visual e emocional no desfile.

imperio serrano desfile 2026 16

A última alegoria, “Casa de Preto Também é Academia”, constituiu o ponto de consagração intelectual e simbólica do desfile, encerrando o percurso narrativo. Cenograficamente, a alegoria apresentou uma arquitetura que fundiu casa, biblioteca, terreiro, palácio e escola de samba. Livros, símbolos da escrita, expandiam-se em formas monumentais, dialogando com elementos ancestrais e populares. Ao elevar a Casa Escrevivência à condição de Academia Ancestral, um palácio, o desfile consagrou Ponciá-Evaristo, Conceição Evaristo e as escrevivências negras como saberes eternos. Na conclusão da alegoria, o elemento visual final propôs uma releitura crítica da imaginária clássica do herói e do monstro, tão recorrente na tradição ocidental, nela a forma de uma menina negra em posição de comando.

No geral, Renato Esteves mostrou boas soluções estéticas, relacionando ancestralidade com elementos do hoje, relacionando o afro e o religioso católico, como no primeiro carro. Apesar de uma estética interessante e ousada, os carros ficaram devendo no acabamento. No abre-alas, por exemplo, na parte de cima havia um buraco e escada não decorada, quebrando a carnavalização da alegoria.

FANTASIAS

Fantasias também foram um ponto em que o Império enfrentou um contraste técnico. Se, por um lado, as soluções estéticas e de material foram interessantes, como nos carros, por meio do uso de materiais não tão óbvios como espuma e cordões, por outro, o acabamento dos figurinos não esteve tão apurado, como na ala 9, “Sabela”, e na ala “A Gente Combinamos de Morrer”, ambas com estética interessante, mas o collant por baixo, que aparecia, diminuía o apuro plástico. E a ala “Kizomba de Preta Literatura”, já no fim do desfile, celebrou a festa da literatura negra e consagrou a obra e a intelectualidade de Conceição Evaristo, mas era simplesmente composta por pessoas com camisa e calça, como em ensaio.

imperio serrano desfile 2026 17

Por outro lado, posso encerrar a análise do quesito enaltecendo a ala das baianas, “Conceição Yalodê”, que fazia referência à origem do nome de batismo de Conceição Evaristo, por ter sido consagrada a Nossa Senhora da Conceição. Esteticamente, a fantasia apresentou uma releitura dos elementos e signos presentes na indumentária de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Logo no início do desfile, foi uma das alas de baianas mais bonitas que passaram na Sapucaí.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Sinfônica do Samba”, de Mestre Sopinha, em sua fantasia representou Fio Jasmim, personagem extraído do romance da autora intitulado “Canção para Ninar Menino Grande”, que traz para o centro do desfile o único protagonista masculino da obra de Conceição Evaristo. Em sua construção estética, a indumentária da bateria se inspirou na figura do maquinista ferroviário, associando trabalho, deslocamento e modernidade. A fantasia tinha até luz no chapéu.

imperio serrano desfile 2026 19

A rainha Quitéria Chagas veio de Oxum, simbolizando a força ancestral que está por trás da vida de Conceição Evaristo. A fantasia dos passistas fez referência ao artigo “Samba-Favela”, escrito por Conceição Evaristo em 1968, publicado no Diário Católico, período em que a autora integrava a Juventude Operária Católica. Nas vias plásticas, a fantasia se estruturou a partir de cores vibrantes e contrastantes, com predominância dos verdes, que evocam vitalidade e continuidade. No esquenta, como não poderia faltar, Vitor Cunha cantou “Aquarela Brasileira”, seguido pela Sapucaí inteira, e também “Besouro Mangangá”, do título de 2022.

‘Mulher de Mil Olhos’ transforma Sapucaí em território de proteção e ancestralidade no Império Serrano

0

O Império Serrano foi a quarta escola a desfilar no segundo dia de apresentações da Série Ouro. A agremiação levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A verde e branco da Serrinha homenageou a escritora mineira Conceição Evaristo, transformando suas “escrevivências” em imagens de resistência, literatura negra e força ancestral feminina.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

ALA 9
Componentes da Ala 09 do Império Serrano
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O desfile misturou elementos biográficos com personagens da autora e transformou a Avenida em um grande conto poético contra o racismo e a desigualdade. Um dos momentos centrais foi a Alegoria dois: “Navio-mudança: Refúgio dos Becos e Vielas”, que apresentou o “Navio que não é Negreiro, é de Refúgio”. Com estética terrosa, de barro e reconstrução, o carro representou a enchente na favela e a transformação da personagem mítica Sabela em embarcação de fé e salvação para sua comunidade.

Na ala que representou a “mulher de mil olhos”, símbolo da proteção e da vigilância de Sabela, quatro componentes compartilharam suas emoções: Frederico de Oliveira, de 50 anos, geofísico e estreante na escola; Camila Gomes, 36 anos, designer de sobrancelhas, com duas décadas de trajetória no Império entre idas e vindas; Hugo Melo, 36 anos, analista de TI, também em seu primeiro desfile; e Joyce Braga, 29 anos, analista, que realizou o sonho de estrear na escola do coração.

A emoção de vestir a Mulher de Mil Olhos

Frederico de Oliveira de 50 anos
Frederico de Oliveira, de 50 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Frederico, a fantasia carregada de simbolismo despertou um sentimento novo: “É uma sensação de força, de potência e, sobretudo, fazer parte da ala dá uma sensação de pertencimento que eu não conhecia. É uma sensação muito boa. O Império está de parabéns pelas fantasias, pela forma que desenvolveu o desfile o por trazer esse enredo tão importante para todos nós”, afirmou.

Camila destacou o peso da representatividade ao falar da autora homenageada: “Representar e falar sobre a Conceição Evaristo é muita responsabilidade para a gente. Uma mulher negra, escritora. Eu sinto muita emoção e fico muito feliz de desfilar pelo Império Serrano mais uma vez. Estou muito orgulhosa de estar nessa ala e, sobretudo, nessa escola que sempre traz enredos que nos emociona e nos alegra”, disse.

Hugo ressaltou a dimensão histórica do enredo e a responsabilidade de levar essa mensagem para a Avenida: “É muito importante relembrar a nossa história, desde a colonização e a escravidão. Não podemos perder nossas origens. O samba-enredo nos faz refletir sobre o mundo atual e sobre o que podemos melhorar como pessoa. Desfilar com um enredo como esse me faz aprender sempre com a cultura afro. Ainda por cima, tenho o privilégio de vir nessa ala incrível. É uma felicidade difícil de definir”.

Proteção, amuleto e confiança no desfile

Os búzios aplicados nas fantasias simbolizavam os olhos de Sabela, a entidade que tudo vê e tudo protege. Frederico revelou que, mais do que proteger, sentia-se amparado: “Espero que a ala proteja a escola, mas, mais do que proteger, eu me sinto protegido. Que a coesão da ala proteja o Império e que a gente faça um grande desfile. Tenho certeza que isso vai acontecer e a escola vai ser muito bem representada”, garantiu.

Camila Gomes 36 anos designer de sobrancelhas
Camila Gomes, 36 anos, designer de sobrancelhas
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Camila lembrou as dificuldades enfrentadas no último Carnaval e demonstrou confiança na retomada: “Depois de um ano complicado, em que mais de 90% da escola ficou sem fantasia, este ano vamos entrar na Avenida com o pé direito. Certeza que a nossa fantasia vai ajudar a trazer a proteção que a nossa escola precisa e merece”.

Hugo também destacou o clima interno da agremiação como sinal positivo: “As alas estão bonitas, as fantasias alegres, os carros muito bem feitos. Vejo muita dedicação nos ensaios. A escola vem com gana e acredito que vai fluir bem na Avenida. E essa fantasia aqui vai cumprir a missão de proteger a escola e pavimentar o caminho para que tudo dê certo”.

Para Joyce, a ala funciona como um verdadeiro talismã: “Depois de tantos anos de luta, isso aqui vai ser o nosso amuleto. Com certeza estamos ajudando a proteger o Império para fazer um grande desfile”.

As mulheres que salvam e ensinam

Inspirados pela força matriarcal de Sabela, os componentes refletiram sobre as mulheres que marcaram suas trajetórias. Frederico destacou a base familiar e uma educadora que mudou seu caminho: “Minha mãe, minha avó, minhas tias sempre foram fundamentais. E destaco uma professora que me deu muita força em um momento em que eu precisei e não encontrei apoio em outra pessoa. O nome dela é Cristina Quintela”.

Camila foi direta ao apontar suas referências: “Minha mãe, minhas avós e minha sogra. Todas serviram de exemplo para mim. Sou uma felizarda em ter mulheres tão incríveis na minha vida”.

Hugo Melo 36 anos analista de TI
Hugo Melo, 36 anos, analista de TI
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Hugo ampliou a lista e reforçou a importância do reconhecimento feminino na sociedade: “Minha mãe, minha avó materna, minha esposa, minha sogra e todas as mulheres da minha família são importantes — cada uma com seu ensinamento. O homem precisa saber valorizar e cuidar das mulheres”.

Joyce conectou sua história pessoal à cultura do samba e à identidade preta: “Minha mãe e minhas tias, todas do mundo do samba e da cultura preta, são minhas maiores referências. Busco me espelhar nelas. A minha referência é enorme dentro da minha própria família e isso é muito bom”.

Mocidade Alegre realiza desfile completo e briga no topo da tabela

0

A Mocidade Alegre realizou neste sábado de Carnaval o seu desfile oficial. Em busca da décima terceira estrela, a agremiação do bairro do Limão levou ao Sambódromo do Anhembi o enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”. O desfile se destacou positivamente em praticamente todos os quesitos, representando a escola com excelência, embora a evolução tenha apresentado oscilações. Na parte final, com o tempo apertado, alguns componentes precisaram acelerar o passo, o que gerou leve correria. Ainda assim, a Mocidade exibiu um conjunto alegórico impactante, fantasias de alto nível, comissão de frente criativa e um time musical bastante entrosado. A Morada do Samba confirma seu favoritismo e deve brigar pelas primeiras colocações na apuração.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

mocidadealegre desfile26 20

COMISSÃO DE FRENTE
Liderada por Jhean Allex, a comissão de frente representou a “Trupe do Teatro Experimental do Negro”. Os componentes do chão vestiam fantasias coloridas com cabeça de serpente, fazendo referência a Oxumaré, orixá associado à serpente e ao arco-íris. A escola construiu essa ligação de forma clara ao apresentar Léa Garcia como filha da entidade já na abertura do desfile.
mocidadealegre desfile26 2 1
No topo do elemento alegórico, uma mulher representando Léa Garcia era coroada e elevada como se ascendesse a um palco, criando um efeito de levitação. O tripé, inteiramente dourado, reforçava a ideia de divinização. Enquanto isso, os integrantes posicionados no chão saudavam o público e apresentavam a escola, cumprindo os itens obrigatórios do manual do julgador. O ápice da encenação estava no elemento alegórico, que sintetizou de forma didática e impactante a ascensão artística de Léa Garcia em linguagem carnavalesca.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
mocidadealegre desfile26 3 1
O casal Diego Motta e Natália Lago apresentou a fantasia intitulada “Arroboboi, Oxumaré!”. No terceiro ano consecutivo juntos, mantiveram sintonia com a paleta colorida da comissão de frente. Nas duas primeiras cabines de julgamento, executaram corretamente os movimentos obrigatórios, além de desenvolverem a coreografia com segurança dentro do samba. A escola mais uma vez investiu em uma fantasia bela e leve, que favoreceu a evolução do casal sem comprometer a fluidez da apresentação.
HARMONIA
O canto da comunidade ecoou com força na avenida. A Mocidade Alegre repetiu o desempenho dos ensaios técnicos e demonstrou uma harmonia consistente. Os apagões conduzidos por mestre Sombra foram momentos estratégicos que evidenciaram a sintonia entre bateria, carro de som e componentes. Destacaram-se os trechos entre “Evoé mulher” e “Você ainda está aqui”, seguidos por convenções e pequenas paradinhas no “Ô malunga ê”. As intervenções empolgaram o público e valorizaram o conjunto. Não foram observados atravessamentos, e o quesito foi executado com segurança.
mocidadealegre desfile26 24
ENREDO
“Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra” teve como proposta retratar a trajetória e a obra de Léa Garcia sob uma ótica afro-religiosa e poética. A escola associou a atriz a Oxumaré, ressaltando o simbolismo do colorido como representação de sua vida e legado. A saudação “Arroboboi” aparece no samba e ao longo do desfile, reforçando essa construção narrativa. A leitura do enredo foi clara, especialmente por meio da comissão de frente e das alegorias, que traduziram com criatividade a importância histórica da artista.
mocidadealegre desfile26 16
EVOLUÇÃO
De modo geral, a escola evoluiu de forma leve e organizada. As primeiras alas enfrentaram dificuldades pontuais por conta dos costeiros, o que comprometeu um pouco a fluidez inicial. Até o recuo da terceira alegoria, o andamento era preciso. A partir dali, com o tempo reduzido, houve orientação para acelerar o ritmo. Apesar da mudança de velocidade, não foram identificados buracos ou falhas na divisão de alas.
mocidadealegre desfile26 26
Como ponto positivo, algumas alas coreografadas deram dinamismo ao desfile. A ala das passistas também se destacou pela coordenação e pelo samba no pé. Ainda assim, as oscilações no andamento podem gerar algum tipo de avaliação mais criteriosa por parte dos jurados.
SAMBA
A ala musical, liderada por Igor Sorriso, protagonizou momentos de grande vibração no Anhembi. O intérprete demonstrou domínio do samba e manteve a escola empolgada do início ao fim. O entrosamento com mestre Sombra, consolidado ao longo de mais de uma década, foi evidente. Mesmo após um período de afastamento no passado, Igor reafirma sua relevância na história da Mocidade Alegre e consolida mais uma atuação memorável.
FANTASIAS
Com exceção das primeiras alas, que enfrentaram dificuldades com as indumentárias, a escola apresentou um conjunto de fantasias harmonioso e visualmente impactante. As cores foram bem exploradas, as ideias criativas e os adereços de mão chamaram atenção pela originalidade. O resultado foi um desfile esteticamente coeso.
mocidadealegre desfile26 17
ALEGORIAS
O abre-alas representou o “Assentamento de uma revolução cultural negra”. A alegoria, predominantemente vermelha com detalhes em dourado, trazia esculturas de mulheres em destaque. O letreiro remetia ao estilo adotado pela escola nos anos 2000, evocando identidade e memória visual.
mocidadealegre desfile26 3
A segunda alegoria fez referência a “Orfeu Negro da Conceição”, obra marcante da carreira de Léa Garcia. Elementos cenográficos com movimentação constante deram dinamismo ao carro, reforçando a importância do trabalho na trajetória da atriz.
mocidadealegre desfile26 23
A terceira alegoria trouxe o tema “A bênção Yabás, saudação às Deusas Negras nos estúdios”. Com predominância do dourado, apresentou uma imponente escultura central que jorrava água e realizava movimentos, sendo uma das alegorias mais didáticas na transmissão do enredo.
mocidadealegre desfile26 15
O quarto carro, intitulado “Um Kikito para Léa”, fez alusão ao prêmio conquistado pela atriz em 2004 no Festival de Gramado. Fotografias da artista compunham a cenografia, facilitando a compreensão da homenagem dentro da proposta narrativa.
OUTROS DESTAQUES
A bateria Ritmo Puro, fantasiada de “O Imperador Jones”, apresentou bossas criativas sob o comando de mestre Sombra, com destaque para o apagão nos versos finais do samba.
Tripés distribuídos ao longo do desfile enriqueceram a apresentação, especialmente o último, que trouxe uma destaque sambando enquanto o elemento se movimentava, criando um efeito visual interessante.
A rainha de bateria Aline Oliveira teve atuação vibrante, com samba firme no pé. Em um momento marcante, pegou o bandeirão da Ritmo Puro e o sacudiu, levando o público ao delírio.