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Empreender sem esquecer a ancestralidade no carnaval: os desafios discutidos no Conasamba 2026

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Fotos: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

Por Pedro Ribeiro

No segundo dia do Congresso Nacional das Escolas de Samba (CONASAMBA) 2026, realizado na Fábrica do Samba, em São Paulo (SP), um debate com profissionais, artistas e empreendedores do Carnaval brasileiro possibilitou reflexão e diálogo acerca dos principais desafios para a comunidade envolvida diariamente com a folia, também conhecida como trabalho. O CARNAVALESCO esteve presente para registrar os principais momentos das exposições desse painel repleto de pluralidade. Comandado por Célia Domingues, o debate iniciou-se com a fala de Vanessa Alves, musa da União de Maricá. A nutricionista trouxe para o centro da conversa o empreendedorismo feminino, o cuidado com o corpo para as mulheres e o resgate da autoestima. Ao ser perguntada sobre melhorias para as trabalhadoras e os trabalhadores no Carnaval, a musa apresentou uma defesa potente da necessidade de valorização das mulheres sambistas, incluindo propostas efetivas para esse fim, como transformar o samba das musas, madrinhas e rainhas em quesito.

“A gente pode fazer com que as escolas de samba valorizem essas meninas, as musas. A partir daí, se for exigido que seja quesito, a gente não vai ter mulheres que não são da nossa arte usurpando lugares de meninas da comunidade (…). Eu não estou dizendo que uma menina não pode vir a ser do Carnaval. Mas ela vai ter que aprender a história do Carnaval, a nossa ancestralidade e a nossa dança. Ela vai aprender a cumprimentar o pavilhão (…). Já passou da hora de a gente profissionalizar as meninas do samba: rainhas, musas e integrantes da ala de passistas. A gente tem um coordenador da ala de passistas que recebe; mas e as meninas?”, disse Vanessa.

Após a abertura da musa e rainha Vanessa Alves, foi a vez do cantor e compositor Sandro Ferraz, dez vezes campeão do carnaval gaúcho. Filho do Carnaval, o intérprete escolheu uma argumentação voltada para o fundamento cultural de pertencimento, acolhimento e construção de caráter e valores que emergem do que a escola de samba é em sua essência.

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“Um grande amigo meu dizia que as escolas de samba são os quilombos urbanos que nós temos nos dias de hoje. Então, lá se discute a drogadição, se discute a menina que engravidou muito precocemente, se discute a comida que não se tem na mesa. (…) Escola de samba é um local de acolhimento. Mas, acima de qualquer coisa, escola de samba é lugar de aprendizado”, afirmou Sandro.

Antes de encerrar suas contribuições e partindo da lógica da agremiação como lugar de aprendizagem, Sandro Ferraz trouxe um ponto de vista mais concreto sobre a ampliação das capacidades formativas das escolas. Segundo ele, um dos caminhos poderia ser formar pessoas que tenham condições de escrever projetos e buscar encaminhamentos para trazer recursos públicos ou privados para dentro das escolas.

No sentido legítimo do Carnaval como cidadania, trabalho, política pública e profissão, o carnavalesco e enredista mineiro Felipe Diniz trouxe uma abordagem sobre as barreiras do preconceito que ainda perduram no entendimento da sociedade em torno dessa legitimidade. Ao expor, com exemplos, as ilações às quais os profissionais do Carnaval estão submetidos por uma parcela preconceituosa da população, que sequer reconhece esse labor como “trabalho”, o mineiro retrata o tamanho da luta contra o preconceito em lugares em que o Carnaval possui porte considerado médio no país, como é o caso de Belo Horizonte. Ele também aponta dificuldades ao afirmar que a verba é liberada faltando apenas 20 dias para o desfile. Por isso, os conceitos que ajudam a quebrar esse estigma são necessários.

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“É importante esse reconhecimento. Esse empreendedorismo carnavalesco. Não só para a gente, mas para o Carnaval como um todo. É a nossa ancestralidade. (…) Se fosse ruim, ninguém copiava. Então, acho que o nosso produto tem que ser respeitado. As nossas profissões têm que ser respeitadas”, defendeu Felipe.

O dilema em que o carnaval transita entre empreender e aprender, compor ou resistir, e a defesa da cultura e da ancestralidade em um território suscetível às demandas pragmáticas do mundo dos negócios mostrou-se um excelente desafio para o painel e para o que nascerá dele. O compositor da Baixada Santista, Rubens Gordinho, abordou, de forma cordial e firme, a defesa instransponível da importância de preservar a memória e a história do Carnaval e das pessoas que o construíram em tempos muito mais miseráveis e persecutórios para os sambistas. Em sua abordagem, defendeu que o futuro não pode se esquecer do passado.

“Eu tenho certeza de que esse debate sobre empreendedorismo é muito interessante, porque fomenta o futuro da escola de samba. (…) É muito importante também a preservação da memória, da história do samba e dos nossos sambistas. (…) É preciso empreender na preservação dessa história, para não acontecer um apagamento”, destacou Rubens.

Para encerrar o conjunto de convidados previstos para o painel, o empresário Renato Cândido trouxe para a conversa sua experiência em captação de recursos para o Carnaval. Os recursos e as necessidades, tanto das escolas de samba quanto de seus integrantes, costumam ser inadiáveis, assim como ocorre para a maioria dos brasileiros. Com uma visão mais pragmática, Renato organizou seu ponto de vista de forma didática, ao brincar sobre equiparar a captação de recursos para o Carnaval a um quesito tão crucial quanto qualquer outro. “É o décimo quesito”, brincou.

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A sustentação de que a formação de captadores de recursos dentro das próprias comunidades é central para que a cultura, que também é produto, aconteça e cresça foi um dos pontos defendidos por ele: “Alguém tem que pagar a conta. Esse profissional tem que estar preparado para falar da sua agremiação. É ele quem tem que saber qual é a conduta e quais são as cores do projeto. (…) O cliente está do nosso lado. O cliente é a padaria que conhece sua mãe, seu pai e você. (…) Isso é captação de recurso”, complementou.

O painel, que misturou conflitos capazes de caminhar juntos e alicerçar avanços reais para o carnaval brasileiro, ainda reservou tempo para uma manifestação de Sandro Santos, coordenador-geral do Sistema Nacional de Cultura (MinC), sobre a importância do debate e o panorama relacionado à descentralização dos recursos atuais do Ministério da Cultura:

“Está sendo descentralizado para a Política Nacional Aldir Blanc, que vai para os estados e municípios. Então, temos que fazer a discussão com os municípios, que realizam a relação operacional. Com os estados, fazer a discussão tática; e, cada vez mais, o Governo Federal fica com a decisão estratégica. Portanto, compreender essas discussões e nuances da política cultural é importante”, afirmou Sandro Santos.

‘Nosso lugar não é de subserviência’ Carnaval de rua reivindica protagonismo na Conasamba 2026

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Apesar do nome, o Congresso Nacional das Escolas de Samba (CONASAMBA) 2026 abriu espaço, pela primeira vez, para outra importante manifestação carnavalesca do Brasil: os blocos de rua. A primeira mesa da sexta-feira, intitulada “O Futuro do Carnaval de Rua no Brasil: Governança, Financiamento e Impacto Territorial”, teve participação de uma série de eminentes nomes ligados a tal prática cultural – que fizeram questão de pontuar o quanto os blocos e as escolas de samba fazem parte do mesmo universo e só têm a ganhar quando trabalham em cooperação. Cobrindo a CONASAMBA 2026, o CARNAVALESCO traz um panorama de tudo que foi discutido na ocasião.

Participantes

Presencialmente, eram cinco palestrantes:
– Carla Wendling, coordenadora administrativa da Associação Carioca de Blocos e Bandas Folia Carioca e diretora do Departamento de Blocos e Bandas do Carnaval de Rua da FENASAMBA (RJ)
– Bell Xavier, vice-presidente da UBCRESP (União dos Blocos do Carnaval de Rua do Estado de São Paulo
– Elisa Santos, gestora cultural, produtora executiva, pesquisadora da cultura e presidenta da Sambúrbio Produções
– José Claudemir Martins, vice-presidente da União dos Blocos Carnavalescos da Cidade de Porto Alegre
– Kitanji Nogueira, presidente da Liga dos Cordões e Blocos Carnavalescos da Cidade de Pelotas
Três convidados enviaram vídeos para colaborar com a discussão:
– Lucas Moraes, representante da Liga Belorizontina dos Blocos de Rua
– Jairo Araújo, gestor e produtor cultural/articulador dos blocos de rua do Carnaval do Piauí
– Messias Júnior, sociólogo e coordenador do movimento THE CARNAVAL, dedicado à salvaguarda da folia em Teresina
A mediadora foi Renata Masf, empresária, formada em Relações Internacionais com atuação em Comércio Exterior e Projetos e diretora executiva da UBCRESP.

Divisão em questões

A primeira pergunta levantada por Renata foi “Qual é o principal desafio para o fortalecimento do Carnaval de rua e como ele impacta os blocos e os fazedores de cultura e a população?”. A partir de tal indagação, os convidados foram falando a respeito – sempre dando um panorama dos territórios abraçados.

Carla destacou que os blocos de rua do Rio de Janeiro sempre foram muito ligados à tradicionalidade, mas que a tecnologia soube se integrar à festa: se, antes, nem todos os blocos tinham sequer um sistema de som; hoje em dia, os chamados megablocos (como os de Ivete Sangalo, citado pela palestrante) possuem um aparato gigantesco.
Representante de uma cidade que tem blocos há mais de 110 anos, Kitanji destacou a união entre as instituições de rua e agremiações que ocupam sambódromos e/ou avenidas: “Carnaval de concurso fortalece o carnaval de rua e vice-versa. Não pode existir dicotomia”, comentou.

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Ela foi acompanhada pelo também gaúcho José Claudemir, que traz uma queixa frequente de quem acompanha desfiles: “Não podemos falar do carnaval de blocos sem antes falar do carnaval de escolas de samba. O pessoal que sai regrado nas escolas de samba vai para os blocos se divertir”, comentou. O porto-alegrense, por sinal, destacou que a Prefeitura da capital do Rio Grande do Sul permite que as instituições consigam captar quantias por meio do Orçamento Participativo – que, entretanto, deveria ser muito maior, na visão dele. O representante complementou, falando de governos em geral, que “Por mais que o poder público faça, eles não sabem fazer como a gente faz – e eles não querem que a gente faça. Não vamos pedir dinheiro para o governo, vamos pedir o retorno dos impostos que nós pagamos”, disse.

Elisa seguiu na mesma linha de José Claudemir: “A maioria das ligas ligadas ao Carnaval de rua sobrevivem de editais. “Nesse ano, para o Sambúrbio, os recursos chegaram quinze dias depois do Carnaval”, lamentou. Ela prosseguiu: “Nossa grande barreira é a respeitabilidade do poder público. Os governos só querem estatísticas. Temos que nos fortalecer e nos unir porque juntos somos muito mais fortes”, disparou.

À distância, Jairo colaborou com uma frase marcante: “O primeiro desafio é a ausência de apoio público: isso tem que ser política de estado, não de gestor”, disparou.

Futuro

A segunda perguntada levantada por Renata foi “O que deve acontecer para que o cenário seja modificado e para que aja a valorização do Carnaval de rua em cada um dos territórios representados na mesa?” – indagação que trouxe mais uma série de reflexões para a mesa.

Elisa trouxe o norte – e foi aplaudida: “Temos que buscar caminhos e diretrizes para sermos reconhecidos e respeitados. “Nosso lugar não é de subserviência”, disse.

José Claudemir destacou que a movimentação para criar pontes de diálogo é um ótimo início, mas é possível ir além: “O que precisa fazer já está sendo feito, por isso estamos aqui: temos que continuar fazendo”, ilustrou.

Bell relembrou que é preciso pensar em uma espécie de fonte de recurso de financiamento nacional (e não apenas municipal), também colaborando com fortes pensatas: “É necessário ampliar a participação dos fazedores de Carnaval para ajudar na defesa do Carnaval de rua. Se somos vitrines do mundo, temos que estar amparados”, afirmou.

Por fim, Kitanji novamente colocou o dedo na ferida e comparou a organização dos blocos de rua com grandes eventos: “Edital não é forma de colaborar com o carnaval: não vejo Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos passando isso”, finalizou.

Liga SP abre inscrições nacionais para curso de Economia Circular e Sustentabilidade no Carnaval

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Foto: Laura Souza/Divulgação

O Dia Mundial do Meio Ambiente também marca mais um passo inovador para o carnaval brasileiro. A Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP) anunciou, durante o CONASAMBA 2026, a abertura nacional das inscrições para o Curso de Economia Circular e Sustentabilidade Aplicada ao Carnaval. Fruto de uma parceria com o SENAI-SP, o projeto visa a capacitação gratuita de participantes de todo o país voltada para práticas mais sustentáveis dentro do Carnaval.

O anúncio reuniu representantes da Liga-SP, da UESP, da FENASAMBA e do Núcleo de Sustentabilidade do projeto Carnaval Sustentável SP. Primeiro curso do Brasil desenvolvido especificamente para aplicar os conceitos de economia circular à realidade do Carnaval, a formação foi construída por especialistas e profissionais do setor, reunindo exemplos e desafios presentes no cotidiano das escolas de samba, blocos e organizações carnavalescas.

“É motivo de muito orgulho ver este curso ganhar alcance nacional. Acreditamos que conhecimento e capacitação são ferramentas fundamentais para fortalecer as escolas de samba e preparar o setor para os desafios e oportunidades do futuro. A parceria técnica com o SENAI-SP e institucional com a UESP e a FENASAMBA foi essencial para ampliar esse alcance e levar essa formação para organizações carnavalescas de todo o país, principalmente porque a sustentabilidade é uma pauta cada vez mais valorizada por parceiros e patrocinadores”, afirmou Renato Remondini, presidente da Liga-SP.

O conteúdo aborda temas como reaproveitamento de materiais, gestão de recursos, inovação, sustentabilidade e boas práticas, conectando conceitos técnicos à realidade dos barracões, quadras e comunidades que fazem o Carnaval acontecer. A proposta também valoriza práticas historicamente presentes na cultura carnavalesca, como a reutilização de fantasias, estruturas e materiais.

A ação é mais uma entrega do Carnaval Sustentável SP, programa coordenado pelo Núcleo de Sustentabilidade da Liga-SP, sob liderança de Lúcia Helena. Dentro deste núcleo, Diego Carbonell, especialista em sustentabilidade, é um dos integrantes da equipe do projeto que promove ações de capacitação, conscientização e desenvolvimento de práticas sustentáveis voltadas ao fortalecimento do Carnaval como agente de transformação social, cultural e ambiental.

“Mais do que oferecer uma capacitação, construímos, em parceria com o SENAI-SP, uma formação desenvolvida especialmente para a realidade das escolas de samba e demais instituições carnavalescas. Não se trata de um curso de prateleira adaptado ao setor, mas de um conteúdo criado a partir de exemplos, desafios e situações práticas vividas pelo próprio carnaval, um trabalho que começou com foco em atender as escolas da Liga-SP e foi ampliado por meio da parceria com a UESP e que com o apoio da FENASAMBA poderá ampliar o número de instituições em todo o país, contribuindo para fortalecer a sustentabilidade, a economia circular e a profissionalização do carnaval brasileiro”, destacou Diego Carbonell, integrante do Núcleo de Sustentabilidade da Liga-SP.

A partir de 8 de junho, interessados de qualquer região do Brasil poderão se inscrever gratuitamente por meio dos canais oficiais da Liga-SP e do SENAI-SP. Os participantes terão acesso à plataforma educacional do SENAI-SP e receberão certificação após a conclusão da formação.

Todas as informações sobre o curso em [email protected].

Serviço Curso de Economia Circular e Sustentabilidade Aplicada ao Carnaval

Inscrições: A partir de 8 de junho de 2026

Público-alvo: Dirigentes, profissionais, integrantes de escolas de samba, pesquisadores, estudantes e demais interessados no tema.

Realização: Núcleo de Sustentabilidade – Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP)

Parceria educacional: SENAI-SP

Projeto: Carnaval Sustentável SP

Informações: [email protected]

Conasamba é aberta em São Paulo com defesa da cultura popular e do fortalecimento das escolas de samba

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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Na última quinta-feira, em um feriado gelado na capital paulista, aconteceu a abertura do Congresso Nacional das Escolas de Samba 2026 (CONASAMBA). O evento foi realizado na Fábrica do Samba, com uma estrutura impecável. Desde a entrada, marcada pela bela alegoria da Mocidade Alegre, até o galpão onde serão realizadas as palestras, tudo foi preparado para receber os participantes. O espaço também conta com stands de diversas empresas ligadas ao carnaval, que aproveitam a ocasião para apresentar seus produtos e serviços. Ao longo dos próximos dias, diversas personalidades irão discursar.

Organizado pelo órgão maior, a Fenasamba, o objetivo da CONASAMBA é promover debates sobre temas fundamentais para o futuro do carnaval, além de abrir espaço para que representantes de diferentes localidades apresentem suas culturas e experiências. A programação inclui discussões sobre a atuação da imprensa no carnaval, encontros de mestres-salas e porta-bandeiras, importância das mulheres, entre outros muitos assuntos relevantes. A proposta é proporcionar aos participantes uma rica troca de conhecimentos, ampliando ainda mais a compreensão sobre a maior festa popular do país. Esta é a primeira vez que São Paulo recebe o congresso. A cerimônia de abertura contou com a presença de representantes do poder público municipal, além do presidente da Liga-SP, Tomate, e do presidente da UESP, Nenê. A noite foi encerrada com uma apresentação da atual campeã do carnaval paulistano, a Mocidade Alegre. O CARNAVALESCO acompanhou de perto os discursos que marcaram a abertura deste primeiro dia de evento.

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Troca de experiências

O presidente da Liga-SP, Tomate, abriu os discursos enaltecendo a realização do congresso na cidade de São Paulo e destacando a importância da troca de experiências ao longo dos dias de evento. “É um prazer enorme para o carnaval de São Paulo receber a CONASAMBA na Fábrica do Samba. Quero agradecer aos sambistas, que são a razão deste encontro e lutam conosco em todas as causas. Esta é uma oportunidade de receber um evento dessa grandeza, que representa o Brasil diante do mundo. Agradeço também ao prefeito Ricardo Nunes por, mais uma vez, apoiar o carnaval de São Paulo. Para a Liga Independente das Escolas de Samba, é um privilégio receber vocês em nossa casa. Que possamos viver dias maravilhosos, com muita troca de conhecimento, e que possamos evoluir cada vez mais”, disse.

Resistência do carnaval

Em um longo discurso, o presidente da Fenasamba, Ricardo Kaxitu, exaltou as diferentes manifestações do carnaval brasileiro, desde os grandes espetáculos até os blocos e desfiles realizados nas comunidades. “Os desfiles das escolas de samba vão muito além dos grandes espetáculos dos grupos especiais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em cada cidade, em cada bairro e em cada comunidade, milhares de escolas de samba mantêm acesa a chama de uma tradição que atravessa gerações, formando artistas, preservando memórias e fortalecendo identidades. Nós somos do tempo do samba sem grana e sem glória. Do barracão improvisado, não dessa estrutura maravilhosa que vemos aqui. Da fantasia costurada madrugada adentro. Da vaquinha para comprar tecido. Do ensaio iluminado pela esperança. Do tempo em que o aplauso mais importante vinha da própria comunidade. E é justamente essa memória que orienta o nosso compromisso com o futuro”, comentou.

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O dirigente afirmou que um dos objetivos da entidade é oferecer suporte às escolas de samba de todo o país e promover o intercâmbio de experiências, propósito que também norteia a realização da CONASAMBA. “A Fenasamba defende políticas públicas permanentes que garantam a qualificação dos profissionais do carnaval, ampliem o acesso aos mecanismos de financiamento e promovam o intercâmbio de experiências capazes de fortalecer as estruturas das escolas de samba em todas as regiões do Brasil. Nosso olhar está voltado, sobretudo, para as pequenas e médias entidades. São elas que sustentam as raízes dessa árvore centenária e fazem acontecer, em cada ‘Sapucaizinha’, em cada ‘Anhembizinho’ e em tantos outros espaços pelo Brasil, um encontro marcado com a própria história. São elas que guardam os tambores, as histórias e os sonhos. São elas que transformam dramas em enredos, escassez em criatividade e resistência em desfile”, ressaltou.

Ao encerrar sua fala, em tom metafórico, Kaxitu destacou que o mais importante é garantir a sobrevivência do samba, independentemente do tamanho dos espetáculos realizados. “Não queremos uma Sapucaí ou um Anhembi em cada estado. Queremos, isso sim, milhares de Intendentes Magalhães e de Vilas Esperança espalhadas pelo país. Queremos ruas onde o samba nasça da vizinhança, e não da vitrine. Queremos quadras e terreiros cheios de crianças aprendendo os primeiros passos. Velhas guardas transmitindo suas memórias. Compositores transformando a vida em poesia. E comunidades reconhecendo a si mesmas no espelho de suas escolas e se perguntando se existe algo mais bonito do que elas próprias. Queremos um carnaval que não aparece na televisão, mas que não permite que a cultura brasileira se cale. Queremos um carnaval que floresce no asfalto quente dos bairros, nas pequenas cidades, nos subúrbios, nas periferias, nos becos e vielas, porque o futuro do samba não será construído apenas sob os refletores dos grandes espetáculos. Ele será tecido, como sempre foi, pelas mãos anônimas de quem ama essa cultura sem esperar recompensa. O samba sempre será resistência e ancestralidade. Sempre será quilombo. Sempre será favela. Sempre será senzala; nunca casa-grande. Como cantou a Unidos de Vila Isabel em 1988, no samba-enredo de Luiz Carlos da Vila: ‘Que a força da cultura tenha arte e bravura, um bom jogo de cintura para valer seus ideais. A beleza pura dos seus rituais'”, concluiu.

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São Paulo de braços abertos

Em nome da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), o presidente Alexandre Magno, popularmente conhecido como Nenê, celebrou a realização da CONASAMBA 2026 na capital paulista. “Trazer para São Paulo o encontro do carnaval mundial é uma grande conquista. A Fenasamba nos proporcionou a alegria de realizar, na cidade de São Paulo, um movimento tão importante para a cultura carnavalesca. Fico muito feliz e honrado. Aproveito para agradecer, desde já, a parceria construída entre a Federação Nacional das Escolas de Samba, presidida por Kaxitu; a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, presidida por Renato Remondini, o Tomate; e a União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP), que tenho a honra de representar. Agradeço também a presença dos presidentes e das presidentas que estão aqui, que acreditaram neste projeto, reconheceram a importância do congresso e compreenderam a necessidade de mostrar não apenas São Paulo para o mundo, mas também a riqueza da nossa cultura carnavalesca”, afirmou.

Poder público presente na cultura carnavalesca

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Representando o prefeito Ricardo Nunes e o secretário municipal de Cultura, Totó Parente, o secretário-adjunto Rodrigo Massi discursou destacando a importância das escolas de samba para a cultura nacional. “Recebo e transmito aqui os cumprimentos do nosso prefeito e do secretário Totó, neste espaço tão emblemático da cidade de São Paulo, que é a Fábrica do Samba. Quero dar as boas-vindas a todos os participantes, não apenas da capital paulista, mas também de diversas cidades do Brasil e do mundo. Ontem, Kaxitu e eu recebemos, na Secretaria Municipal de Cultura, uma delegação de Barranquilla, liderada pelo secretário de Cultura daquela cidade. Essa visita demonstra muito bem o tema desta edição: ‘Escolas de Samba para Todos e Todas: Construindo Pontes com o Mundo’. É um exemplo das conexões que a cidade de São Paulo promove e desse trabalho em rede, não apenas em São Paulo e no Brasil, mas também internacionalmente, em favor do fortalecimento das práticas carnavalescas. E quero compartilhar uma notícia muito importante. Em maio, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo aprovou o reconhecimento das práticas carnavalescas como patrimônio imaterial da cidade. Portanto, não estamos falando apenas de economia criativa. Estamos falando de saberes, memória, identidade e patrimônio cultural. Isso é muito importante para todos nós”, declarou.

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‘Amor ao Carnaval e Perseverança’ Aprendizes do Salgueiro celebra legado de Sidclei Santos no Carnaval 2027

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Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A Aprendizes do Salgueiro deu o primeiro passo em direção ao próximo carnaval, gravando o vídeo de lançamento do enredo na quadra da escola-mãe, no Andaraí, Rio de Janeiro. A escola celebrará o legado histórico do mestre-sala Sidclei Santos na Sapucaí em 2027. São 17 anos consecutivos defendendo o pavilhão vermelho e branco, sendo o mestre-sala mais longevo da história da agremiação, além de garantir os 40 pontos no quesito com consistência nos últimos dez anos.

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Para Sidclei, o maior aprendizado que as crianças da Aprendizes podem guardar de sua história vai muito além do bailado: o amor ao carnaval e ao samba, a perseverança e a fé para chegarem onde quiserem.

“A responsabilidade aumenta porque essas crianças são o futuro do samba e o futuro da Acadêmicos do Salgueiro. Eu sei como é difícil chegar lá. É como no futebol: poucos conseguem alcançar o topo. Mas, se duas dessas crianças conseguirem chegar onde eu cheguei, já vou me sentir realizado. Imagino que, no futuro, alguém possa chegar para mim e dizer: ‘Eu desfilei no seu enredo’. Isso vai ser muito especial. O legado que eu quero deixar é o do companheirismo, da lealdade e, principalmente, do amor ao samba e ao carnaval. Porque eu acredito que tudo aquilo que fazemos por amor nos aproxima dos nossos maiores objetivos”, disse.

Legado tem sido palavra-chave na Aprendizes do Salgueiro. Nos últimos seis anos, sob a gestão da presidente Mara Rosa, os enredos têm abordado histórias de ícones da escola-mãe, como a carnavalesca Maria Augusta, que foi homenageada em vida; o mestre Louro, que comandou a bateria “Furiosa” por 40 anos; e o icônico intérprete Quinho, que foi enredo em 2026.

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“Eu penso muito no que nós, adultos salgueirenses, estamos fazendo pelo amanhã. Precisamos fazer com que a história se perpetue e entre no coração das crianças, para que elas conheçam a nossa trajetória e possamos olhar para frente. Inclusive, o nome do nosso projeto social, que reúne diversas oficinas, é ‘O amanhã está garantido’. Não tem como pensar no futuro sem prestigiar os talentos que fizeram parte da história da escola”, refletiu a presidente.

Ao falar de Sidclei, a Aprendizes do Salgueiro investe mais uma vez na noção de pertencimento entre as crianças, que serão o futuro do Salgueiro. Para além disso, o enredo dá a chance de crianças e jovens se reconhecerem e se inspirarem na trajetória do mestre-sala, que foi militar antes de se tornar referência no carnaval, reforçando também a importância da educação e da preparação para o futuro.

“Eles podem ser ritmistas, mas eu quero que sejam ritmistas e médicos, ritmistas e advogados, porque nós vamos passar e eles vão ocupar os nossos espaços. Por isso, levantamos essa bandeira de que educação e cultura precisam caminhar juntas. O Sidclei tem uma história linda. Ele era do Exército, e o pai dele tinha a preocupação de que seguisse a carreira militar. É uma preocupação comum entre muitas famílias: garantir um futuro para os filhos. Precisamos qualificar nossos jovens e pensar no amanhã, porque um dia os pais vão faltar. E, sendo um menino negro, de comunidade, essa preocupação é ainda maior. Acho que as crianças vão reconhecer parte de suas próprias histórias na trajetória do Sidclei”, afirmou.

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E a presidente conta que a ideia da escolha de Sidclei como homenageado veio de uma brincadeira do mestre, que lhe acendeu a ideia. Ao refletir sobre a trajetória do mestre-sala, percebeu o quanto ele é marcante para a história da agremiação e para a sua própria história. A decisão foi mantida em segredo entre ela e o presidente do Salgueiro, André Vaz, até ser revelada em um momento emocionante, durante uma festa de encerramento do Carnaval 2026.

“No ano passado, quando eu estava com a camisa do enredo do Quinho, o Sidclei comentou: ‘Poxa, que legal. Será que um dia eu viro enredo?’. Eu brinquei com ele e respondi: ‘Você tem que torcer para eu continuar sendo presidente para virar enredo’. Aquilo ficou na minha cabeça. Foi um estalo. Decidimos homenagear o Sidclei, que faz parte da nossa história e também da minha infância aqui no Salgueiro. Estamos muito felizes. Acho que ele está celebrando esse momento e participando ativamente de tudo”, compartilhou.

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Aproveitando cada segundo das homenagens, o mestre participou da gravação ao lado das crianças da Aprendizes do Salgueiro. Seguindo os passos da escola-mãe, que “tem fama de fazer história por ser diferente”, a agremiação se torna a primeira escola mirim a produzir um vídeo de lançamento de enredo.

A gravação marca o primeiro passo em direção ao Carnaval 2027, que está em fase inicial nas mãos do carnavalesco Davi Lisboa, com fantasias em processo de confecção. Para Sidclei, cada convite vindo da presidente Mara é um momento de grande emoção, e ainda haverá muitos até fevereiro.

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Durante a gravação, o mestre-sala recebeu mais uma surpresa: o primeiro contato com as crianças da Aprendizes desde o anúncio do enredo, sendo recebido com muito carinho e entusiasmo pelos pequenos.

“A escola está seguindo uma linha de não me contar nada e, a cada dia, eu acabo vivendo uma emoção diferente. Hoje, cheguei à quadra sem saber que teria toda essa recepção. Foi o primeiro encontro com todos os segmentos da Aprendizes do Salgueiro, com o casal, com as crianças. Só de entrar na quadra e ouvir os gritos de ‘enredo, enredo’, eu já me emocionei. Tudo isso é muito novo para mim. Só tenho gratidão à Mara, à diretoria da Aprendizes, ao presidente André e a todos que estão tornando esse momento possível. Estou muito feliz e vivendo uma emoção diferente a cada dia”, contou.

Provando que o legado de Sidclei está em boas mãos, os pupilos Moisés Benjamin, de 12 anos, e Anne Manuela, de 15, defendem o pavilhão da Aprendizes. Anna deu seus primeiros passos na escola há oito anos; Moisés, há sete. Juntos, formam o casal desde 2021.

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“É muito gratificante ver pessoas de dentro, que se criaram aqui, recebendo o devido reconhecimento. Não é alguém que surgiu do nada e virou enredo. É alguém que está aqui há muitos anos, que dedicou a vida ao Salgueiro. É muito bom ver gente da casa sendo reconhecida”, declarou Anna.

O mestre-sala de 12 anos é fã declarado de Sidclei e diz que hoje, além de ídolo, ele também é um amigo. Como iniciante na arte do bailado, Moisés vê um significado ainda maior ao ver sua principal referência ser homenageada.

“Sidclei já me deu aulas, me ajuda bastante e teve um papel importante na minha caminhada dentro do samba. Ele me ajudou a melhorar a postura, o cortejo e a movimentação dos braços. Para mim, o Sidclei é uma referência na dança. Não tenho palavras para descrever a importância dele”, afirmou.

Ter Sidclei como enredo é um momento de consagração da carreira. São trinta anos de trajetória, com os 17 últimos dedicados inteiramente à escola do coração. O mestre-sala começou sua história no Salgueiro aos 16 anos e permaneceu na agremiação até os 23. Também passou pela São Clemente e defendeu o pavilhão da Grande Rio por dez anos, antes de retornar para “casa”. Ao todo, são 24 anos representando o pavilhão salgueirense. E, mesmo com tantas conquistas e grandes desfiles, para ele, o maior momento de sua carreira ainda está por vir.

“Tive muitos momentos marcantes. Foram inúmeras conquistas, desfiles e premiações ao longo da minha carreira. No próximo ano, completo 30 anos como mestre-sala no Grupo Especial. Por isso, é difícil apontar apenas um momento sem ser injusto com toda a minha trajetória. Mas eu sempre digo que o meu momento mais marcante ainda está por vir. Meu maior sonho é conquistar um título com o Salgueiro. Esse é o objetivo que me move. Todas as minhas conquistas pessoais foram importantes, mas o título do Salgueiro é o que eu mais desejo. Tenho certeza de que esse será o momento mais marcante da minha vida”, declarou.

‘Não se torna griô, você nasce griô’: Viradouro revela as raízes de seu enredo para 2027

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Foto: Alicia Oliveira/CARNAVALESCO

“Você não se torna griô, você nasce griô.” A Unidos da Viradouro, campeã do Carnaval de 2026, vem com seu trabalho metalinguístico trazendo o enredo “Griô”. O objetivo da escola é dar voz àquela pessoa que sempre contou a história dos outros. Mas quem conta a história dessas pessoas? Por meio da parceria com o carnavalesco da Unidos da Viradouro, Tarcísio Zanon, o enredista João Gustavo Melo contou ao CARNAVALESCO como surgiram as primeiras intenções para a criação do enredo e como o mito de Kwaku Ananse, figura responsável pela origem dos griôs, tornou-se um dos pilares da narrativa da escola.

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“Esse mito é um mito da contação de histórias, do início de tudo. Kwaku Ananse era um deus meio aranha e meio humano e, a partir disso, foi pedir histórias a Nyame, que era o deus supremo de todas as histórias. Nyame o desafia a cumprir algumas provas. Após vencer esse desafio, ele entrega as histórias a Ananse, que as espalha por toda a Terra. Ele é considerado, pela cultura ashanti, o primeiro contador de histórias do mundo”, explica o enredista.

João também destacou a felicidade de descobrir um tema que, segundo ele, esteve tão próximo da escola o tempo todo. Além disso, ressaltou a importância de valorizar o carnaval e os poetas que mantêm viva a tradição das escolas de samba.

“Estava muito na nossa cara. Quando a gente descobre essas coisas, fica maravilhado, porque sempre ouvimos falar nos griôs. No Carnaval, é um termo muito usual, só que a gente nunca tinha investigado de onde eles vêm, e eles vêm realmente do Mali, de dinastias e famílias. Não se torna griô, você nasce griô. E aí, a partir disso, nós fazemos um paralelo com o carnaval porque, assim como as famílias dos Djelli, que são essa dinastia, esse clã de contadores de histórias, as escolas de samba também são isso. Elas formam grandes irmandades e, a partir disso, você tem grandes poetas. A escola é como se fosse essa família griô também, que se coloca no Carnaval. Não só a Viradouro, mas todas as escolas de samba que, de uma forma ou de outra, acolhem esses poetas, esses baluartes e essa comunidade. A comunidade também é griô, e toda essa junção forma esse grande griôzão que é o carnaval”, comentou o enredista.

Uma das parcerias mais importantes dentro de uma escola de samba é a formada entre o enredista e o carnavalesco. É nesse encontro que as ideias ganham forma e que o desfile começa a ser desenhado. Questionado sobre sua parceria com Tarcísio Zanon, João Gustavo Melo explicou como funciona o primeiro passo para a elaboração do enredo e revelou os três pilares que sustentam a narrativa da Viradouro para o próximo carnaval.

“O nosso primeiro passo foi fazer o roteiro do desfile. E o roteiro ficou muito diverso, porque a história do griô é o griô contando a sua própria história. Ele ficou muito centrado no panorama da África Ocidental e dessas civilizações da África Ocidental. Quando a gente está falando de griô, está falando de uma parte específica da África. A partir dessa delimitação, fomos contando uma história como se fosse um griô narrando essa trajetória. Obviamente, abrimos pedindo licença a Exu, que representa a oralidade e a comunicação. Pedimos também licença a Nanã, que significa a memória do mundo, e a Iroko, que representa a eternidade e o tempo. O nosso enredo vai se basear nessas três fases, nesses três pilares, e, a partir dessa abertura, começamos a contação de histórias. Contar a história de quem conta histórias. E, mais uma vez, trazemos a metalinguagem, como fizemos no ano passado com Ciça”.

Viradouro 2027: leia a sinopse do enredo

Imperatriz divulga calendário de disputa de samba para 2027 com grande final marcada para 18 de setembro

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A Imperatriz Leopoldinense divulgou o calendário de disputa de samba-enredo para o Carnaval 2027. Após a leitura da sinopse do enredo “A memória do Rei e o sumiço de Dona Júlia”, assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira, a escola abriu o processo para a escolha da obra que guiará o desfile na Marquês de Sapucaí no próximo ano. De acordo com o cronograma divulgado, acontecerá no dia 05 de agosto, na quadra da agremiação, em Ramos, a partir das 19h.

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Antes das inscrições das parcerias, a Imperatriz promoverá três encontros de tira-dúvidas com o carnavalesco, nos dias 23 e 30 de junho e 7 de julho, no barracão da agremiação na Cidade do Samba, a partir das 19h. A participação dos compositores é obrigatória em pelo menos 2 encontros, sem a exigência de apresentar a melodia dos sambas.

No dia 21 de julho, haverá uma audição fechada no barracão, restrita à diretoria da escola. Os sambas inscritos serão divulgados ao público no dia 10 de agosto.

A disputa terá início no dia 15 de agosto, com uma feijoada de apresentação que também servirá como primeira rodada eliminatória. O concurso seguirá com eliminatórias nos dias 21 e 28, quartas de final, e uma nova feijoada em formato de semifinal do dia 6 de setembro.

No dia 11 de setembro, os sambas finalistas se apresentarão na quadra da escola para uma última audição antes da decisão. Todas as obras concorrentes serão cantadas pelo intérprete oficial da escola, Pitty de Menezes.

A grande final está marcada para 18 de setembro, quando a Imperatriz Leopoldinense escolherá o samba-enredo que levará para a avenida em 2027.

Veja o calendário

Tira-dúvidas (Barracão, Cidade do Samba, 19h):
23 de junho (terça-feira)
30 de junho (terça-feira)
07 de julho (terça-feira)

Audição interna (Barracão, Cidade do Samba):
21 de julho (terça-feira)

Entrega dos sambas concorrentes (Quadra da escola, Ramos, 19h): 05 de agosto (quarta-feira)

Eliminatórias (Quadra da escola, Ramos):
15 de agosto (sábado – feijoada)
21 de agosto (sexta-feira)
28 de agosto (sexta-feira)

Semifinal (Quadra da escola, Ramos):
06 de setembro (domingo – feijoada)

Audição Finalistas (Quadra da escola, Ramos):
11 de setembro (sexta-feira)

Grande Final (Quadra da escola, Ramos):
18 de setembro (sexta-feira)

Estrela do Terceiro Milênio esquenta a comunidade para a grande final de samba-enredo

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

As eliminatórias de samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio revelarão a primeira canção que embalará um desfile no Carnaval 2027. Os últimos finais de semana já tiveram atividades relacionadas à disputa na quadra da escola do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo. No último domingo, o local teve a apresentação das três canções finalistas, que também serão colocados a prova sete dias depois, na grande decisão. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba, o CARNAVALESCO foi ouvir, além dos sambas-enredo, os compositores e a diretoria da Estrela do Terceiro Milênio sobre as canções que chegaram à final.

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Diretoria direta

Vice-presidente da agremiação, Miriângela Moura foi sucinta ao dizer o que a direção da Estrela do Terceiro Milênio quer do samba: “Queremos um samba que seja realmente descontraído, que na avenida as pessoas consigam ouvir o samba e identificar, através das fantasias e das alegorias, a mensagem que está sendo passada. Que seja algo bem lúdico, de fácil entendimento”, pontuou.

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Compositores animados

Se a diretoria é bastante clara em relação ao que deseja do samba-enredo vencedor das eliminatórias da Estrela do Terceiro Milênio, os autores das obras gostaram do que ouviram na apresentação ao vivo na quadra do Grajaú.

Compositor da parceira do Samba 1000, juntamente com Jorge Diego, Rafa Cria, Ayr Júnior, Rapha Moreira, Willian Tadeu, Mário Presidente, Rubens Gordinho, Rodolfo Minuetto e Rodrigo Minuetto, André Ricardo foi só elogios: “Tanto o rendimento do samba em relação à torcida quanto ele ao vivo no palco foi muito a contento. A Milênio realiza um laboratório antes da eliminatória começar, em que todos os setores participam, e eu fiquei muito contente. O samba teve um rendimento maravilhoso com a comunidade. E, hoje, só veio coroar o rendimento do samba, que estourou. Da segunda para frente, foi louco demais. O samba não cai nunca e isso é muito bom, graças a Deus”, destacou.

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Vale destacar que a parceria do Samba 1000 foi a única que trouxe uma torcida organizada para dar mais força ao canto e realizar coreografias no local.

Sobre torcidas

A presença de torcidas foi um dos temas pelos quais os compositores das outras duas obras finalistas passearam. Márcio Biju, do Samba 01, foi um deles: “A gente não optou por não trazer torcida: a gente é uma parceira muito pequena, e a gente não disputa em todos os lugares. Eu, Renê, Alemão do Pandeiro, e o Reinaldo Papum: em quatro, tudo é mais difícil. A gente veio, montamos um bom palco e viemos com um bom samba. Gostaria de poder trazer um monte de gente para cá, também – mas cada um tem a sua força, e a gente sabe quem tem muita força aqui na comunidade. A gente só veio apresentar a nossa obra: uma obra que foi feita com muito carinho, com muita atenção na sinopse, pensando exatamente no enredo, no que foi proposto pelo carnavalesco e pela diretoria. A gente veio com essa ideia: vamos com um bom palco e mostrar o nosso samba. Se eu pudesse, eu trazia vinte mil pessoas para cá. Mas a gente fez o que a gente sabe. Fazer parceria hoje em dia é difícil, gasta dinheiro demais. A gente fez uma boa gravação, um palco bom. Semana que vem, se Deus quiser, tem mais uma apresentação muito boa para a gente chegar lá e fazer um bom trabalho”, comentou.

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Já Fredy Vianna, da parceria do Samba 99, juntamente com Rodrigo Shumacker, Thiago Meiners, Pitty de Menezes, Claudio Mattos, Morganti Tubino, Ítalo Pires, Herval Neto, Wilson Mineiro, Daniel e Anderson Lemos, fez uma analogia muito interessante sobre a canção dos compositores: “É um samba que tem uma pegada diferenciada, uma pegada que toca no coração. É um samba que tem que ser sentido: você tem que ouvir e sentir ele com o coração, porque ele tem umas melodias viajadas, umas melodias mais ‘viradourenses’, mais tocantes, vamos dizer assim. É um samba de primeira, pegou bem na comunidade. As pessoas ouviram e eu vi que as pessoas foram absorvendo. Nós não tínhamos torcida, mas eu fui olhando na boca de cada componente e eles pegavam alguns trechos, como o refrão do meio e o final. As pessoas iam cantando porque isso é romântico, isso é bonito. O saldo foi muito bom e positivo para a primeira eliminatória”, finalizou.

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Mocidade reinventa gestão da comunidade com tecnologia e valorização do componente

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Foto: Divulgação/Mocidade

Quinhentos e vinte inscritos no primeiro final de semana de recadastramento. Trezentos e sessenta e um no segundo. Oitocentos e oitenta e um componentes foram recadastrados no mês de maio. Os números surgem do entusiasmo da comunidade independente e ganham um novo tratamento de gestão. A Mocidade Independente de Padre Miguel chegou ao ciclo 2027 com um sistema inédito de cadastramento digital.

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“Isso nunca aconteceu na Mocidade”, disse Rodrigo Coutinho, diretor executivo da escola. Ele fala do número recorde de recadastramentos do primeiro final de semana, mas poderia estar falando da mentalidade que os atraiu para implementar o novo modelo de gestão da comunidade.

O novo sistema foi desenvolvido por Felipe Rodrigues, um dos coordenadores do departamento comunitário da agremiação, e conta com um banco de dados que coleta informações como nome, altura, peso e tamanho de cada componente logo na triagem, com cintas que detectam automaticamente as medidas corporais.

A inscrição também passa por um questionário que mapeia o histórico de cada pessoa com a escola. Ao fim do recadastramento, o componente ganha a carteirinha e a camisa da agremiação.

O resultado é um retrato em tempo real da comunidade. Ele resolve um problema antigo. Em novembro, quando a Mocidade precisa fechar a grade de fantasia de cada ala, normalmente parte das vagas ainda não está preenchida. A saída histórica é a chamada grade fantasma: estimativas de tamanho para completar o pedido.

Com o banco de dados, a estimativa deixa de ser um chute e passa a ser um dado. “Eu consigo ver quantos (tamanhos) P tem em toda a escola, quantos M, quantos GG, quantos calçados 39”, explicou Coutinho. “A partir daí eu tiro uma média de cada ala por gênero para complementar a grade”.

Mocidade 2027, leia a sinopse do enredo

Outra novidade é o controle de presença da comunidade, que será feito por meio da carteirinha e de um aplicativo. Nos ensaios, o diretor de ala acessa o sistema pelo celular, registra presença ou ausência e devolve o documento ao componente no fim da atividade. Simples, rastreável, sem papel. “A gente tem um backup no papel caso o sistema falhe em algum momento”, admitiu Rodrigo, “mas tenho certeza que em pouco tempo isso vai cair no gosto do componente e da escola”.

De uma média de 25 ensaios previstos no calendário da agremiação, o componente precisará comparecer a 20. Cinco faltas serão toleradas sem justificativa. A partir da sexta, precisará comprovar o motivo. A regra é clara.

“Acabou aqui na Mocidade o componente vir na hora que quiser e pegar a fantasia. A gente vai valorizar quem veio ao ensaio. Não quero saber se tem 10, 15, 20 anos de Mocidade: se o componente não frequentar os ensaios e não justificar as faltas, vai ser cortado. E vai ter oportunidade de voltar no ano seguinte”, afirmou Coutinho.

A disciplina, porém, tem a sua face de recompensa. A começar pelo escalonamento das taxas de inscrição. Quem se inscreveu na primeira leva pagou R$50. O segundo lote custou R$70. O terceiro fim de semana de recadastramento acontecerá após a Copa do Mundo, ainda sem valores divulgados.

Mocidade anuncia calendário de disputa de samba-enredo e confirma superfinal no dia 05 de setembro

Também serão sorteadas camisas da Boutique da Mocidade para os componentes com maior frequência nas atividades da escola. “É uma série de medidas para valorizar mais o componente que frequenta o ensaio e que vai chegar na avenida evoluindo e cantando bem”, declarou o diretor executivo.

Para Coutinho, esse conjunto de mudanças na gestão da comunidade se articula com a identidade da agremiação. “A melhor escola do carnaval para fazer isso é a Mocidade porque é uma escola de vanguarda, que busca inovação ou pelo menos deveria ter buscado ao longo de toda a sua trajetória. Em algum momento isso se perdeu”, afirmou.

A escola prevê desfilar com cerca de 1.400 componentes de ala de comunidade, divididos entre 16 ou 17 alas, sem contar bateria, baianas, velha guarda, compositores e alas coreografadas.

Na Mocidade de agora, tradição e modernidade se unem na nova gestão de comunidade para fazer brilhar ainda mais a Estrela Guia de Padre Miguel.

Imperatriz Leopoldinense 2027: leia a sinopse do enredo

SINOPSE DO ENREDO ‘A MEMÓRIA DO REI E O SUMIÇO DE DONA JÚLIA’- IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE 2027

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Todo maracatu que desfila não conta exclusivamente a sua própria história: Ele narra algo mais antigo. Uma história, antes da história. Guiado pelo baque do tambor, o maracatu atravessa a imensidão do Atlântico e a extensão dos séculos em busca do que se foi. Ele é o passado e o presente. Ele é a África e o Brasil.

Seu desfile nos leva a uma viagem guiada por uma ancestralidade embalada pelo som. Olhá-lo nos garante acesso a um cortejo em terras africanas. Miragem que nos faz ver o antigo Reino do Congo. Império engalanado em noite de festa. Visão esfuziante que nos faz testemunha da coroação de um monarca negro. Rei majestoso de pele retinta entronada.

O que se vê é a celebração do poder em cortejo. Música e dança. Teatralização majestosa que ecoa numa realeza ancestral que desfila desde tempos imemoriais.

O baque do tambor do Reino do Congo se fez ouvir em terras brasileiras. Agora, o couro vibra e nos leva ao Nordeste do Brasil. Enquanto o som ecoa, o velho reino existe. Enquanto o séquito real caminha pelas ruas do velho Recife, o rei e a rainha do Congo estão entre nós. A origem bantu, ganha o seu traço nagô. Em Pernambuco, a dor do exílio transformou-se em beleza. Novas vestes, outros caminhos, a mesma dignidade.

Aqui, é o porta-estandarte quem anuncia o novo reino que desfila. Na sequência, a dama do paço conduz os mundos invisíveis. O rei e a rainha estão protegidos do sol. Por cuidado, suas capas não podem tocar o chão. Coroados, eles não são meros personagens. São a memória soberana que sobreviveu à travessia. O bem mais valioso, seguido e festejado pela corte que lhes acompanha em cortejo.

Mundo colorido de reinvenções para uma nova existência. Criação moldada feito boneco de barro do chão do Brasil. Uma nova realidade forjada entre as paredes do terreiro. O povo da macumba que desfila vestido de rei e rainha. Brincadeira séria, que se mostra na festa portando ancestrais divinizados carregados como estatuetas de mão. Um mundo de beleza que se sustenta nos mistérios do sagrado.

Dentre os segredos envolvendo a ancestralidade do maracatu, nada é mais representativo e simbólico que os mistérios da calunga. Boneca fetiche e guardiã da secreta presença dos ausentes. Assentamento dos que vieram antes e seguem guiando os passos dos que ainda estão por vir.

Como exemplo, a princesa Dona Júlia. Calunga de imbuia e cera tingida de pigmento negro. Braços e pernas de lenho articulado. Cabeça esculpida em madeira nobre. Cabelo humano bem penteado. Vestido de renda brilhante, colares, joias e capa de veludo bordada em paetês.

Calunga feita a mando do rei coroado do Maracatu-Nação Porto Rico, Eudes Chagas, cinco anos após Dona Santa ser guiada ao òrun. A boneca confeccionada era, na verdade, um trono numa estatueta feminina para que Dona Santa – mãe e mão que lhe iniciou no culto do Xangô de Pernambuco – pudesse seguir próxima dele.

Ausência sentida traduzida em presença. Rainha morta, que não foi posta. A morada do egun da matriarca catimbozeira, da detentora dos segredos da Jurema e Rainha do Maracatu Elefante. Dona Júlia, a calunga, era a presença viva de Maria Júlia do Nascimento, a Dona Santa. Reverenciada no terreiro e alimentada pelo preceito da espiritualidade.

Erguida pela dama do paço nas saídas carnavalescas do Maracatu Porto Rico por mais de uma década, a boneca foi a presença que deu proteção ao maracatu de pai Eudes até o dia de seu encantamento.

Com a morte de seu líder e babalorixá, no final dos anos setenta, os objetos sagrados do Maracatu-Nação Porto Rico foram levados para o museu. Lugar seguro, como mandam as tradições, para guardar algo que brevemente poderia ser solicitado. Naquele espaço, artigos de valor simbólico inestimável estariam resguardados até que a sucessão do Porto Rico – e a sua nova liderança – fosse caso resolvido. Foi assim que Dona Júlia – calunga sagrada ligada ao culto dos eguns – foi parar no museu.

Longe do terreiro, foi guardada em desencanto. Ali, ela era um objeto deslocado de seu sentido sagrado. Mero artefato. Artigo guardado à espera de retornar às mãos daqueles que, com autoridade e autorização, colocariam o maracatu do falecido Eudes na rua e, com isso, reivindicariam sua posse.

Dois anos se passaram até que a missão de tirar o Porto Rico do Museu foi destinada à mãe Elda Viana. Neta de santo de Eudes, ela foi a liderança confirmada pela ancestralidade como apta para a reorganização daquele maracatu. Foi nessa ocasião, ao reivindicar a calunga sagrada de sua nação para voltar ao terreiro e à rua, que os integrantes do Porto Rico tomaram conhecimento do sumiço da calunga que permaneceria desaparecida por longas décadas.

O museu, que devia zelar por sua integridade, informou que Dona Júlia havia desaparecido de suas dependências de forma desconhecida. Mistério duradouro. Ausência e vazio sentidos por mais de três décadas. Certeza de furto e extravio definitivo até que, após trinta e quatro anos de sumiço, a boneca foi levada a um terreiro de candomblé em Olinda acusada de assombrar o morador da residência que, naquela ocasião, era o endereço que escondia seu paradeiro.

Deixada no Ilê Axé Oyá Meguê – sua última localização antes de voltar para a sua verdadeira casa e para as mãos de seus reais donos – a calunga foi entregue aos cuidados das tradições do Xambá. Lá, guiados pela ancestralidade e pela dúvida sobre como proceder diante do objeto misterioso, os sacerdotes do culto recorreram à tábua sagrada e ao jogo dos dezesseis búzios lançados sobre a trama da arupemba. Respondidos pelas divindades, a vontade dos orixás foi a lei: A boneca não podia ficar naquele Ilê. Mais do que isso, todos os esforços deviam ser prioridade para que aquele artigo atingisse o intuito que o havia levado até a porta do Xambá e ao colo de Oyá.

A prioridade para resolução da demanda alcançou o êxito e a calunga voltou para o seu Maracatu de origem dias antes do carnaval 2014. Seu aparecimento foi notícia que correu de boca em boca. De volta aos preceitos religiosos do Ilé Axé Oxóssi Guangoubira após trinta e tantos anos sem cuidados, Dona Júlia estava em desencanto espiritual. Na ocasião, ela era uma boneca que guardava orixá com fome e egun quebrantado. Madeira morta e inanimada.

Para voltar à vida, como se um sopro pudesse lhe encher o pulmão vazio de ar, era necessário preceito e encantamento. Por isso, em toda parte e por todo canto, seu corpo foi limpo com morim vermelho, roxo, branco e preto. Da cabeça aos pés, quatro carreteis de linha foram desenrolados. Ali não mais havia embaraço. Livrou-se de qualquer possível mal e da presença da morte quando um acaçá percorreu sua silhueta. Na sequência, toda sorte de grão seco foi lançado sobre a madeira escura onde seu contorno humano havia sido esculpido.

Era preciso limpeza profunda. Então, entoaram-se as cantigas sagradas para que a energia das folhas de boldo e colônia despertassem antes de se somarem às águas que banhariam a boneca. O líquido derramado lhe abriu as portas para a incorporação. Na intimidade do terreiro onde o umbigo da calunga estava plantado, seu corpo foi colocado diante de um vasilhame de barro – farto em mingau de farinha – do abanador de palha e da colher de pau.

Vela acesa e copo d’água. Pólvora incendiada. A fumaça sobe e a chama aquece os pés da estatueta. O orixá derrama encantamento e atua para animá-la. Em sua cabeça – orí esculpido em madeira que já foi árvore – o mistério é guardado por entre as três frestas abertas tal qual ferida na pele.

O ichãn toca o chão. O galho, preparado no quarto de igbalé, guia o caminho do egun evocado. Dona Júlia se encanta. Agora, ela é madeira viva e sagrada. Boneca que tudo enxerga e boca que come sem se mexer. Levada ao igbá de Oxalá, sentiu sua energia pulsar mais forte quando o sangue de uma cabra, um casal de pombos e cinco galinhas (sendo uma d’angola) escorreu por seu corpo.

Na sequência, vestiram-na de branco. Recolhida no peji (roncó), cumpriu resguardo de três dias antes de ganhar a rua e a folia. Boneca que guarda egun, Dona Júlia passa a falar pela boca de Oyá Igbalé. É a dona dos ventos e senhora da vida e da morte que lhe anima durante sua ida para o cortejo do Maracatu-Nação Porto Rico.

Assim, encantada, foi erguida pelas mãos da dama do paço e conduzida ao carnaval. Depois de tanta ausência, ganhou as ruas do Recife num domingo de momo. Junto ao maracatu que parte do bairro do Pina, brincou à frente da corte, guiada pelo estandarte que leva a caravela de Santa Maria estampada como emblema e da Nação que canta e dança ao som do baque das ondas.

No dia seguinte, uma segunda-feira, foi levada em cortejo noturno para o Pátio do Terço. A folia que marca seu retorno às tradições carnavalescas se encerraria à noite. Uma noite de maracatu onde os tambores tocam – e também se silenciam – para reverenciar quem partiu. Diante da igreja, a ausência de quem se encantou é também a memória dos reis e das rainhas que foram coroados tendo como espectadora a imagem da Virgem do Rosário. Gente que vinha e não vem mais.

Tendo a escuridão do céu como testemunha, o relógio marca a zero hora. A lua da meia-noite boia no céu do mundo visível dos vivos para fazer resplandecer o sol do meio-dia que brilha e anima o reino invisível dos que estão mortos. É nessa hora que as luzes se apagam e a senhora do portão que cede a passagem do Òrun para o Àiyé se manifesta. Quem vinha, agora pode voltar a vir.

Os tambores tocam e a ancestralidade baila. Hora em que Dona Júlia se mostra viva enquanto baila energizada ao sabor das mãos da dama do paço. Ambas, corpos vivos que giram no sentido contrário ao do relógio.

À meia-noite, a princesa Dona Júlia não dança no sentido dos ponteiros que marcam as horas que virão. Ancestral, ela dança no ar sustentada pela dama do paço e se manifesta encantada por buscar – assim como os tambores, os corpos que desfilam e a escola de samba que cruza a avenida – um encontro marcado com aquilo que já se foi.

ENREDO, PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E TEXTO: LEANDRO VIEIRA.

PS: Agradeço imensamente a Mestre Chacon pela generosidade de me presentear com a sua sabedoria, abrir os caminhos e me permitir adentrar os mistérios que as calungas iniciam e encerram entre as quatro paredes dos terreiros. Bato cabeça pro filho de Xangô, sucessor de Mãe Elda, mestre do Maracatu Porto Rico e sacerdote do Ilê Axê Oxóssi Guangoubira.