Primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Estácio de Sá levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Tatá Tancredo: O Papa Negro no Terreiro do Estácio”. A proposta exalta Tancredo da Silva Pinto, líder religioso central na reafricanização da Umbanda Omolokô e na aproximação entre o samba e a espiritualidade afro-brasileira.
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Na bateria “Medalha de Ouro” comandada pelo Mestre Chuvisco, o tributo ganha forma sonora e visual. Sob o tema “O Papa Negro da Umbanda Omolokô”, os ritmistas vestem figurinos que combinam elementos da liturgia católica, como mitra e batina, a referências afro-brasileiras. A estética simboliza a fusão cultural defendida por Tatá Tancredo e reforça o respeito às raízes e à diversidade religiosa.
Victor Diniz Souza da Silva. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
O ator Victor Diniz Souza da Silva, de 30 anos, destaca a emoção de participar do momento.
“Eu não tenho palavras para a homenagem que a Estácio está fazendo a Tatá Tancredo. A bateria vem com uma bossa no refrão que traz o ritmo da religiosidade para mexer com o público. Hoje o leão vai rugir na Sapucaí”.
Denise Melo. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Denise Melo, 60 anos, servidora pública e componente há sete anos, o enredo dialoga com a pluralidade brasileira.
“Sou católica e me sinto honrada em participar de uma escola que homenageia Tatá Tancredo e fala sobre o Papa Negro da Umbanda. O Brasil é samba, axé e religião. Só desfilando para sentir a energia que vibra na avenida”.
Ana Paula. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Já Ana Paula Martins, 39 anos, professora e integrante da escola há 14 anos, vê na bateria um manifesto de identidade e respeito.
“É representatividade, negritude e axé. A bateria mostra que a ancestralidade precisa ser respeitada e que o respeito ao outro passa pela religião, pela cor e pela classe. A Estácio tem chão e tem axé.”
Mais do que sustentar o desfile, a bateria se apresenta como extensão do próprio enredo. Cada batida reafirma a ligação entre terreiro e avenida, entre fé e tambor, entre passado e presente.
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Na Sapucaí, o “Papa Negro” deixa de ser apenas fantasia para se tornar símbolo de resistência cultural e reafirmação identitária — eco de um samba que nasceu nos terreiros e segue pulsando no coração do carnaval.
Um ótimo desfile da bateria “Ritmo Meritiense” da Unidos da Ponte, sob o comando da dupla de mestres, Juninho e o estreante Alex Vieira. Um ritmo profundamente conectado ao que o enredo e samba solicitavam foi exibido. Tudo com bossas dançantes e uma sonoridade potente.
Na parte da frente da “Ritmo Meritiense”, um ala de cuícas segura tocou junto de agogôs de qualidade. Um naipe de tamborins de inegável virtude coletiva se exibiu interligado a uma ala de chocalhos de elevada técnica musical.
Na cozinha da bateria da Ponte, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda ditaram com firmeza o andamento. Surdos de terceira deram bom balanço aos graves. Repiques coesos tocaram juntos de caixas de guerra sólidas.
Bossas absurdamente musicais se aproveitavam das variações melódicas do samba da escola de São João de Meriti para consolidar a sonoridade, integrando a musicalidade da bateria ao ritmo de Funk. Criações musicais bastante pertinentes, atrelando a “Ritmo Meritiense” ao enredo da escola. Simplesmente sensacional o bom balanço envolvendo a bossa do refrão do meio, bastante dançante e que certamente auxiliou componentes na evolução. Outro arranjo que merece menção musical é o Funk do refrão principal, também bem musical e plenamente inserido na proposta da agremiação.
Uma ótima apresentação da bateria da Unidos da Ponte, dirigida pelos mestre estreante Alex Vieira, em dupla inédita com mestre Juninho. Uma sonoridade bastante vinculada ao ritmo de Funk foi exibida. Uma “Ritmo Meritiense” que colocou a Sapucaí para dançar ao som do seu pancadão. As exibições em cabines julgadoras foram boas, com destaque para a apresentação mais solta e divertida no último módulo, que devem garantir boa pontuação a bateria da Ponte, evidenciando seu grande desfile.
Sendo a penúltima escola a desfilar no último dia da Série Ouro, o Tigre de São Gonçalo rugiu a favor das “mulheres da vida”. Com um excelente desempenho do carro de som, um casal correto e uma plástica modesta, a Porto da Pedra fez um bom desfile.
Com o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite” do carnavalesco Mauro Quintaes, a Porto da Pedra trouxe a figura da prostituta como tema central para um debate na Sapucaí.
COMISSÃO DE FRENTE
Intitulada “Encruzilhada de Mistérios”, a comissão da coreógrafa Aline Kelly representou o elo simbólico entre o profano e o sagrado, retratando a realidade das profissionais do sexo sob a perspectiva da espiritualidade afro-brasileira.
Com quinze componentes, sendo dez mulheres e cinco homens, a coreografia teve os bailarinos vestidos com roupas curtas e coloridas, rodando bolsinha e sensualizando. Ao se posicionarem diante dos módulos de julgamento, os bailarinos utilizavam máscaras que simulavam o efeito de desfoque facial, recurso recorrente em reportagens sobre prostituição, reforçando a ideia de invisibilidade social. Mas com a entrada do tripé, elas tiravam as máscaras, e em cima da encruzilhada em forma de tripé, a religiosidade as empoderava, tiravam as máscaras, faziam macumba e rebolavam mais ainda.
A encruzilhada no tripé era demonstrada com as placas de ruas nos dois cantos dele, escritas “Francisco Eugênio” e “Vila Mimosa”, ambos localizadas no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, pontos de prostituição famosos. Além disso, de dentro do elemento cênico, saíam três pomba-giras.
A proposta coreográfica buscou evidenciar a encruzilhada como espaço de tensão, proteção e resistência. Baseada em cinco momentos: A exposição, por isso o rosto oculto; O rito, com a subida no tripé e o contato com as entidades de umbanda; A transformação, tiram as máscaras e usam a bolsinha como arma; O empoderamento, donas de si e de tudo que as cercam.
Nos três módulos, foram ótimas apresentações. No primeiro, um bailarino escorregou e caiu, mas nos demais módulos, tudo correu sem problemas.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com a fantasia “O Axé do Povo de Rua”, vermelha e preta, muito bem feita, Rodrigo França se apresentou caracterizado como Exu, entidade masculina cultuada na umbanda, associada à proteção das ruas e daqueles que nela viviam e trabalhavam. Joyce Santos, caracterizada como Pombagira, entidade feminina da umbanda, também ligada à guarda dos caminhos e à proteção de quem tinha a rua como espaço de morada e ofício.
Com uma coreografia clássica e sem problemas nos três módulos, o casal saiu da avenida tranquilo.
EVOLUÇÃO
Administrando o tempo muito bem, a escola passou com calma, a bateria entrou no segundo recuo e finalizou o desfile com 54 minutos, sem precisar correr e nem ficar estagnada.
Entretanto, faltou maior intensidade na movimentação das alas. A escola desfilou de maneira organizada, porém com pouca vibração coletiva, o que reduziu o impacto visual do conjunto e a potência dramática que o enredo sugeria.
ENREDO
A Porto da Pedra apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, que abordou a trajetória de mulheres que atuaram no que popularmente se denominava “vida”, propondo uma reflexão sobre personagens historicamente marginalizadas. Com concepção do carnavalesco Mauro Quintaes e do enredista Diego Araújo, a escola desenvolveu uma narrativa que revisitou o imaginário da noite e a figura feminina como presença cultural e social no contexto brasileiro.
A construção explorou as múltiplas dimensões dessas mulheres, evidenciando tanto a sedução e a força simbólica atribuídas à noite quanto o julgamento moral imposto pela sociedade, como no primeiro setor, “Prazeres sagrados e profanos”. O desfile apresentou o “doce e o amargo” de suas vivências, ressaltando a busca por dignidade e reconhecimento para além de estigmas. A proposta destacou a complexidade dessas trajetórias, situando-as como parte integrante da história social e cultural do país, visível no segundo setor, “Personagens da Vida”.
Ao final, com o último setor, chamado “Uma Puta Mulher”, o desfile reafirmou o histórico da agremiação na abordagem de temáticas sociais consideradas sensíveis, consolidando sua identidade como escola que utilizava a Marquês de Sapucaí como espaço de reflexão e visibilidade para narrativas frequentemente silenciadas.
HARMONIA
Com uma performance impecável do carro de som, no comando de Wantuir no microfone principal, os componentes não conseguiram cantar o samba à altura do desempenho do intérprete.
A comunidade teve um canto regular, deixando a nítida sensação de que poderia ser melhor. Muitos componentes não faziam esforço para cantar.
FANTASIAS
As fantasias da Porto da Pedra atravessaram a avenida sem nenhuma avaria. As alas “Perdições do Bataclan” com os passistas, “Perpétua Moralidade” e “Meninas do Job” chamaram a atenção, vista a didática e referência nítida ao enredo.
SAMBA
O samba-enredo, composto por Bira, Rafael Raçudo, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Eric Costa, Fernando Macaco (em memória), Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Miguelzinho, Jarrão e Pierre Porto, é um manifesto político, social e de gênero a favor das profissionais do sexo.
As relações do enredo com a escola, escritas no samba, como nos trechos: “Fiz um Porto da Pedra que você jogou” e “Tigresa que mata um leão por dia!” chamam a atenção para a genialidade da composição.
ALEGORIAS E ADEREÇOS
Apesar de modestas, as alegorias foram produzidas corretamente, sem nenhum defeito evidente de acabamento ou concepção.
A primeira alegoria, “Cais da Labuta Meretrícia”, representou a chegada das chamadas Polacas ao Rio de Janeiro, contextualizando o fluxo migratório associado à exploração sexual no início do século XX. Foi um carro de fácil compreensão, sendo um navio com a velha guarda a bordo, com vestidos de marinheiros e polacas. Além do clássico tigre em cima do carro.
Na segunda alegoria “Meu Ofício é o Seu Prazer”, a escola apresentou o exercício da prostituição no ambiente noturno, destacando o contraste entre visibilidade pública e invisibilidade social. Destaque para as composições do carro, com mulheres dançando pole dance e performando muito bem e em conformidade com o enredo.
A última alegoria “Uma Puta Mulher!” encerrou o desfile como celebração da vida e da resistência das profissionais do sexo, enfatizando sua luta por reconhecimento e respeito. Com Lourdes Barreto em destaque no carro e com seu nome gravado na frente da alegoria, a histórica ativista brasileira dos direitos das prostitutas, reconhecida por sua atuação política e social na luta pela cidadania, dignidade e reconhecimento profissional das trabalhadoras do sexo, foi a cereja do bolo no carro de manifestação em defesa dessas mulheres.
OUTROS DESTAQUES
Sempre icônico em suas fantasias, o mestre Pablo vestido de tigresa e com uma peruca loira, com a indumentária chamada “Tigresa Que Mata Um Leão Por Dia”.
Cria do Morro de São Carlos, Tata Tancredo esteve presente, direta e indiretamente, na formação de importantes tradições brasileiras, entre elas a organização da Umbanda, a criação da “Deixa Falar”, pioneira entre as escolas de samba, e a divulgação do tradicional réveillon de Copacabana. Neste sábado, a Estácio de Sá o homenageou na Marquês de Sapucaí. Mais do que celebrar sua vida, a escola inovou na estética ao se inspirar no povo Lunda-Quioco, de Angola.
Carla Close. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A segunda alegoria “Umbanda Omolokô: o Terreiro de Tancredo” recriou o espaço religioso fundado pelo homenageado. Entre referências à natureza, o carro evidenciou a intersecção entre a Umbanda e o samba, reafirmando como ambas as expressões se complementam na cultura brasileira.
Carla Close, de 35 anos, iniciou sua trajetória na agremiação há seis anos e, neste carnaval, desfilou como destaque da alegoria. Representando a pombagira Maria Navalha, ela se encantou ao ver o carro pela primeira vez.
“Me sinto feliz, porque tem tudo a ver comigo, com o trabalho que faço na Europa, com espetáculo da noite. Foi um presente receber essa fantasia”, declarou.
Cintia Gomes. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Recepcionista, Cintia Gomes, de 33 anos, está em seu segundo ano na escola e afirma que a emoção aumenta o frio na barriga, sobretudo com um enredo dedicado a Tata Tancredo.
“Ele lutou muito para trazer a Umbanda e mostrar ao povo o que realmente ela é. Independentemente de religião, os líderes religiosos sempre lutaram para conquistar respeito no nosso país. Isso é muito importante para a gente”, disse.
Renata Palottini. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A advogada Renata Palottini, de 40 anos, desfilou pela primeira vez na Estácio de Sá representando os umbandistas. Para ela, o principal destaque da alegoria é a escultura de um Preto Velho, por simbolizar a ancestralidade dentro da religião.
“Gritar o nome do Tatá na avenida, num país com formação social extremamente desigual, é gritar a história do Brasil. É o Brasil-terreiro sendo lembrado”, afirmou.
Homenagear Tata Tancredo significa resgatar a memória do povo negro e reafirmar que, apesar do preconceito, do racismo e da intolerância religiosa, a luta iniciada por essas comunidades segue viva, sustentada pela resistência e pela fé.
O Império Serrano levou para a Marquês de Sapucaí uma forte mensagem no Carnaval de 2026. O desfile que homenageou a escritora Conceição Evaristo, símbolo da resistência negra, que por muitas vezes usou suas obras como forma de protesto, trouxe a ala “Protesto na Avenida – O Alvo no Peito” como forma de denunciar a brutalidade policial contra o povo periférico do Rio de Janeiro.
Detalhes do guarda-chuva FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Os componentes cruzaram a avenida vestidos de Erês e carregavam alvos estampados no peito, além de guarda-chuvas pingando sangue, erguidos como símbolo de denúncia. Inspirada na estética urbana de Jean-Michel Basquiat. Segundo a escola, a fantasia fez referência aos absurdos cometidos pela violência da cidade, onde objetos cotidianos como uma simples sombrinha já foram confundidos com armas, e a cor da pele que, muitas vezes, determina quem é visto como suspeito. A mensagem que a agremiação quis passar foi clara: “A bala não erra o alvo”.
André Pree, de 31 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Morador de Oswaldo Cruz, o vendedor André Pree, de 31 anos, explicou o simbolismo do guarda-chuva. O adreço trazia a frase “isso aqui não é um fuzil”.
“Estamos trazendo a realidade do dia a dia do Rio de Janeiro. O que se passa na comunidade e, literalmente, com o trabalhador, que sai de casa sem saber se volta. O guarda-chuva que levamos em um dia chuvoso, por exemplo, pode ser um alvo, simplesmente por estarmos o segurando e acharem que é um fuzil. A galera da periferia está sempre mais vulnerável a ser o alvo por qualquer coisa mínima, inclusive a cor da pele. Estamos mostrando justamente como é que funciona no dia a dia da comunidade, da galera que o pessoal de cima não vê”, desabafa o componente.
Questionado se o sentimento de indignação fortalece a evolução na Avenida, ele afirmou sem hesitar: “Garra nesse ponto a gente sempre tem. O Império é uma comunidade que tem chão. Mas, obviamente, isso nos faz vir para mostrar como é que funciona. Como Conceição Evaristo diz, ‘a gente combinou de não morrer’”.
Micael Nascimendo, de 32 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Professor de desenho, Micael Nascimendo, de 32 anos, morador da Penha, falou sobre o impacto de vestir uma fantasia tão simbólica: “É bem sentimental, ainda mais porque, recentemente, teve uma operação, e centenas de pessoas morreram. Ação que, ao meu ver, é mais uma manobra política do que uma tentativa de resolver alguma coisa. Por isso, eu acredito que a escola trazer esse tema é sempre muito importante. E quanto mais as pessoas verem e comentarem sobre isso, melhor”, refletiu.
A referência artística de Basquiat também foi destacada pelo professor: “A arte tem todo um ambiente político também. Quando avaliamos uma arte, também é importante saber o contexto por trás dela”.
Já a professora Rosane Borges, de 41 anos, reforçou o caráter de denúncia do desfile: “O carnaval, além de ser festa, também é uma manifestação de denúncia. Estamos aqui para denunciar essa violência que o povo preto de comunidade sofre. E esse enredo, além de falar das mulheres, fala sobre a violência que o povo preto sofre e que a literatura está aí para denunciar”.
A nutricionista Luziane Ferreira, 39 anos, destacou o papel pedagógico da festa: “O carnaval é cultura, e uma forma de educar a população sobre temas importantes”.
Um bom desfile da bateria “Ritmo Feroz” da Unidos do Porto da Pedra, comandada por mestre Pablo. Mestre Pablo, sempre excêntrico e irreverente, veio fantasiado de Tigresa. Um ritmo potente, com pressão sonora da afinação de surdos foi exibido, junto de bossas complexas, mas bem executadas.
Na parte da frente do ritmo do Tigre, um naipe de tamborins de grande virtude técnica se exibiu interligado a uma ala de chocalhos de ótima ressonância coletiva. Um naipe de agogôs de qualidade, pontuou a convenção baseada nas nuances da melodia do samba. Uma boa ala de cuícas também auxiliou no preenchimento sonoro das peças leves.
Na cozinha da “Ritmo Feroz”, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza, mas segurança. Surdos de terceira ficaram responsáveis pelo bom balanço do miolo, inclusive em bossas. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas sólido.
Bossas bem vinculadas a melodia do samba se aproveitavam das nuances para consolidar o ritmo. Com um conceito criativo pautado pela complexidade e pela dificuldade de execução, os arranjos também exibiram a potência sonora proporcionada por uma boa afinação de surdos. Com participação privilegiada dos surdos de terceira nas paradinhas, que também contavam com acentuação rítmica bem pontuada das caixas.
Uma boa apresentação da bateria da Porto da Pedra, dirigida por mestre Pablo. Um ritmo pulsante exibiu com segurança paradinhas de difícil execução e de certa complexidade musical. Uma sonoridade que contou com marcadores potentes para a realização de arranjos contendo impacto da pressão sonora de surdos. A primeira apresentação em cabine foi boa, mas a do segundo módulo foi até superior, com boa receptividade dos julgadores. Na última cabine (dupla), uma exibição segura e enxuta foi realizada, confirmando o bom desfile da “Ritmo Feroz” de mestre Pablo.
A Estácio de Sá, quinta agremiação a cruzar a Passarela do Samba neste sábado de crnaval, entregou uma apresentação vigorosa e espiritualmente densa na Série Ouro. Com o enredo “O Papa Negro: Tata Tancredo e o Fundamento do Omolokô”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo, a vermelho e branco mergulhou nas raízes do Morro de São Carlos para contar a trajetória de Tancredo Silva. O desfile foi uma demonstração de força da comunidade, aliando um visual tecnicamente consistente a uma harmonia que ecoou como um verdadeiro manifesto de fé e resistência.
Apresentando dois corpos de baile que personificavam a essência do enredo, o primeiro grupo representava o cotidiano e a malandragem do Morro de São Carlos, enquanto o segundo, oculto na parte inferior de um imponente tripé metálico com estampas étnicas, simbolizava a ancestralidade africana e contava apenas com mulheres.
O bailarino que interpretou Tata Tancredo serviu como elo místico entre esses dois mundos. No clímax da encenação, o segundo ato revelou um bailado de passos ancestrais, pulsantes, intensos e aguerridos, traduzindo com clareza a concepção do Omolokô e a mediação espiritual do homenageado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Feliciano e Raphaela, protagonizou uma exibição de gala sob o título “Sentinelas da Fé”. O figurino chamou atenção pela riqueza de materiais e pelo efeito visual inovador, com uma capa de textura holográfica para o mestre-sala, em uma paleta dominada pelo vermelho e preto.
Feliciano exibiu um bailado deslizante e carismático. Com giros precisos e um cortejo de extrema elegância, incorporou coreografias que remetiam às religiões de matriz africana sem perder a essência da dança tradicional do quesito.
Raphaela conduziu o pavilhão da agremiação com maestria esvoaçante. Sua performance foi marcada pela segurança e pelo sincronismo com o par, executando giros com excelente controle de eixo e mantendo a bandeira altiva, simbolizando a guarda dos fundamentos religiosos trazidos por Tancredo.
HARMONIA E SAMBA
A Estácio de Sá reafirmou sua fama de escola de chão. A harmonia foi o combustível do desfile, impulsionada pela interpretação de Tinganá, que conduziu o samba com sua ala musical, sentindo a ausência de Serginho do Porto (cantou pelo Águia de Ouro em SP), mas suprindo-a com técnica e garra. O canto da comunidade atingiu o ápice no trecho “Atabaques no terreiro, na porteira o guardião, uma vela no cruzeiro, duas velas pro leão”, entoado com intensidade. A bateria, sob o comando de mestre Chuvisco, garantiu a cadência necessária para que a escola desfilasse com segurança e organicidade.
EVOLUÇÃO
O quesito Evolução foi um dos pilares da apresentação. A Estácio manteve uma cadência firme e segura, ocupando a avenida de forma orgânica. Não houve registros de buracos ou correrias para compensar o cronômetro. As alas pareciam conscientes de sua função espacial, resultando em um deslocamento coeso até o último módulo de julgamento. Foi uma evolução madura, que não buscou o excesso, mas sim a consistência técnica que o regulamento exige.
ALEGORIAS E FANTASIAS
O conjunto plástico de Marcus Paulo dialogou perfeitamente com a narrativa. O abre-alas, “O Primeiro Fundamento da Curimba”, trouxe o leão, símbolo da escola, em uma proposta festiva e colorida, destacando-se sobre o fundo preto e as luzes da pista. As esculturas apresentaram boa volumetria e acabamento cuidadoso, embora o último carro tenha enfrentado um problema técnico com refletores apagados em sua parte superior.
As fantasias, por sua vez, foram um ponto alto de criatividade, ricas em materiais diversos e com uma paleta de cores amarrada. Preservaram a leveza necessária para a mobilidade dos componentes, garantindo que o luxo não comprometesse a performance das alas.
OUTROS DESTAQUES
Entre os momentos mais simbólicos, a ala das baianas executou elegância e técnica. Com saias amplas e ricamente trabalhadas, ocuparam a pista com uma presença ancestral hipnotizante. Outro ponto de destaque foi um destaque de chão, que desfilou sem o tradicional costeiro, que foi carregado por apoios.
A Estácio de Sá encerrou o desfile com a sensação de dever cumprido, ao unir o fundamento religioso de Tata Tancredo à competência carnavalesca de sua comunidade.
Se a bateria pulsa, a ala das baianas é o coração. No desfile da Estácio de Sá, elas chegam como “As Mães do Réveillon”, vestidas de prata e branco, levando para a Sapucaí a memória da festa de Iemanjá em Copacabana. A celebração foi idealizada por Tata Tancredo e se tornou marco cultural da cidade, dando origem ao atual Réveillon do Rio.
Baianas da Estácio de Sá FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A fantasia “Festa para Iemanjá em Copacabana” carrega no figurino os traços do icônico calçadão, um barco dedicado à Rainha do Mar com vela acesa e uma estrutura leve que valoriza o rodado. Beleza e movimento caminham juntos.
Crueza de Souza Xavier, conhecida na escola como Xavier FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Crueza de Souza Xavier, conhecida na escola como Xavier, de 54 anos, auxiliar de serviços gerais e estreante na ala, fala da responsabilidade de vestir a fantasia das baianas.
“É uma responsabilidade muito grande. A ala das baianas representa o coração de qualquer escola. O público anseia para ver o rodado da baiana. Nós representamos a mãe baiana de todas as escolas, com muito axé, muita força e amor. Não é fácil. Hoje, cada giro nosso é como se estivéssemos levando embora o que é ruim e trazendo o que é bom: força, caminho aberto e boa energia. Vai ficar para trás tudo que for intolerância religiosa ou preconceito”, comenta.
Amanda Ferreira, de 63 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Amanda Ferreira, de 63 anos, empresária e há seis anos na escola, a fantasia toca uma vivência pessoal profunda. Ela relaciona o desfile a um episódio marcante de sua vida.
“É muito importante ver a ala das baianas trazendo o calçadão de Copacabana junto de Iemanjá. É exatamente o que eu vivo no Réveillon do Rio. Estou apaixonada. A Rainha do Mar salvou a minha vida. Eu caí de uma pedra de quatro metros na praia, e hoje não era para estar aqui se não fosse Iemanjá. Eu renasci. Só entende esse sentimento quem desfila. Não adianta explicar, é preciso viver a energia”, revela.
Laucilene Silva, de 56 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Já Laucilene Silva, de 56 anos, biomecânica e há quatro anos na Estácio, descreve a emoção como algo que atravessa o corpo.
“É um misto de emoções representar Iemanjá. Meu corpo arrepia e meus olhos enchem de lágrimas só de pensar em tudo que vivi nessa noite. A ala das baianas veio para lavar a alma e fazer a Estácio ser campeã. Já está na hora desse título. Vamos abrir os caminhos para sermos ainda mais felizes”, comenta.
Penúltima escola a desfilar, a Tom Maior realizou sua apresentação no Carnaval 2026. A agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a cidade de Uberaba e a história de Chico Xavier, com o objetivo de alcançar a melhor colocação possível, já que retorna do Acesso 1. No entanto, o que se viu na pista foi uma escola que jamais deveria ter deixado o Grupo Especial. O nível de investimento no conjunto estético foi altíssimo, com fantasias de elevado padrão e alegorias que podem figurar entre as melhores do carnaval. O grande destaque esteve justamente na estética, aliada ao empenho da comunidade, que mostrou por que a Tom Maior tem trajetória de Grupo Especial.
A escola encerrou seu desfile às 1h02min com o enredo “Chico Xavier: Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, desenvolvido pelo carnavalesco Flávio Campello.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob o comando do estreante Gandhi Tabosa, a comissão de frente apresentou o segmento “Manancial de uma Terra Sagrada”. Toda a coreografia foi executada sobre um tripé que representava as raízes ancestrais. A proposta cênica traduziu a ancestralidade da terra de Uberaba, especialmente no período da pré-história e da era dos dinossauros. Os componentes vestiam figurinos em tom cinza, com pinturas corporais que, combinadas com lentes de contato, reforçaram a atmosfera pré-histórica, sem remeter ao contexto indígena.
Em determinado momento, um integrante realizava uma transmutação cênica e surgia com cabeça de dinossauro. Uberaba é fortemente associada a esse período da história do planeta, e a representação foi satisfatória.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Ruhanan Pontes e Ana Paula Sgarbi desfilou com a fantasia intitulada “Um manancial de terra sagrada”. A vestimenta marcou a abertura monocromática em azul. Experientes e parceiros de longa data em outras agremiações, apresentaram uma performance segura e sincronizada. A coreografia foi bem executada, com movimentos obrigatórios realizados corretamente. Foi uma atuação consistente de ambos.
HARMONIA
A comunidade da Tom Maior demonstrou canto forte ao longo de todo o desfile. Embora o conjunto tenha transmitido certa sensação de frieza, é importante considerar que o samba possui andamento cadenciado, assim como a bateria, o que naturalmente imprime maior lentidão à apresentação. Ainda assim, a escola mostrou uma comunidade aguerrida, que manteve o canto potente do início ao fim. Destacaram-se os apagões promovidos pela bateria Tom 30, que incendiaram os componentes.
ENREDO
A proposta foi levar Uberaba para a avenida, cidade marcada pela presença histórica do médium Chico Xavier. O município é rico em referências culturais e históricas, com forte ligação à pré-história e aos povos originários, ponto bem introduzido na comissão de frente. A Índia também apareceu na narrativa, assim como o Geoparque dos dinossauros, apresentado no abre-alas como Terra de Gigantes, além de elementos da culinária local. A ideia de conduzir o enredo por meio de uma carta psicografada por Chico Xavier foi um recurso criativo e bem aplicado desde a sinopse até o samba-enredo. As alegorias, principalmente, facilitaram a compreensão da narrativa, aliando clareza e beleza estética.
EVOLUÇÃO
A escola evoluiu com leveza e alegria, ocupando a pista de forma correta. Mesmo com o ritmo cadenciado, a intensidade foi mantida, como já havia sido observado nos ensaios técnicos. Os componentes dançaram de um lado para o outro sempre sendo incentivados e orientados pelas lideranças. Em certos momentos havia pedidos para colocar na grade, com o objetivo de não deixar espaçamentos na lateral da pista. Não foram percebidos buracos, divisão de alas ou falhas que comprometessem o quesito.
SAMBA
O samba foi bem interpretado pelo também estreante Léozinho Nunes. O cantor repetiu o desempenho dos ensaios técnicos e conduziu a obra com animação, utilizando cacos que incentivaram os componentes, como o chamado “Vamos lá, geral”. Ele assumiu o microfone no meio do ciclo e demonstrou total domínio da obra, que se encaixou bem em sua voz. O entrosamento com a bateria Tom 30, especialmente nos apagões, foi preciso, sem qualquer atravessamento, evidenciando sintonia entre intérprete e ritmistas.
FANTASIAS
Flávio Campello apostou em uma estética refinada na concepção das fantasias. A abertura completamente azul deu unidade visual ao início do desfile, seguida por um conjunto mais colorido que dialogou harmoniosamente com as alegorias. As indumentárias chamaram atenção pelo acabamento e pela riqueza de detalhes. Vale destacar que as indumentárias não atrapalharam a evolução e o canto da escola. Uma Tom Maior leve, apesar de esteticamente bem servida de materiais.
ALEGORIAS
A primeira alegoria, intitulada “Das águas emana o perfume! A Terra das Águas Claras e Berço de Gigantes”, foi um carro de grande impacto visual que completou a abertura azul da escola, composta pelo casal, pela ala e pelo próprio abre-alas. Uma grande escultura central, em constante movimento, destacou-se ao representar de forma carnavalizada a pré-história de Uberaba.
O segundo carro, “Tem boi pra lá e pra cá! O Zebu: Da Índia para Uberaba”, apresentou esculturas de elefantes e bois, além de forte iluminação e brilho. Houve, porém, um problema técnico: a alegoria teve sua iluminação apagada por um período durante o percurso e passou assim pelo segundo módulo de jurados. Posteriormente, o sistema foi restabelecido e o carro seguiu normalmente.
A terceira alegoria, “O futuro chegou! Nos caminhos para a industrialização”, trouxe engrenagens e esculturas com olhos iluminados, remetendo ao avanço tecnológico e à modernização da cidade.
Encerrando o desfile, o último carro, “Chico de luz e amor! Um templo de fé: eterno Chico Xavier”, apresentou uma alegoria em formato de templo, com escultura realista do médium escrevendo uma carta. A representação emocionou especialmente os admiradores do espiritismo e da trajetória de Chico Xavier.
OUTROS DESTAQUES
A bateria Tom 30, comandada pelo mestre Carlão, executou bossas estratégicas, com destaque para o apagão coordenado envolvendo toda a escola, realizado tanto na pista quanto no recuo. Mais uma vez, Carlão demonstrou experiência à frente da cadenciada Tom 30.
A rainha de bateria Pâmela Gomes e a madrinha Andreia Gomes também se destacaram, sambando com garra e presença durante todo o percurso.