Maricá aposta na força da bateria e na fusão de ritmos para incendiar a Sapucaí
A confiança tomou conta dos ritmistas na Marquês de Sapucaí neste sábado (14), durante o segundo dia de desfiles da Série Ouro. Integrantes da União de Maricá reforçaram um discurso em comum: pertencimento, reconhecimento e a certeza de que o trecho “Vá dormir com esse barulho” pode ecoar como grito de vitória. O CARNAVALESCO ouviu componentes que apostam na força da bateria e na ousadia rítmica como trunfos na disputa pelo tão sonhado acesso.
A principal aposta, segundo os próprios componentes, está na cadência da bateria e na fusão entre o samba carioca e ritmos como ijexá e adarrum. A combinação, vista como ousada e identitária, é tratada como elemento capaz de levantar o público e diferenciar a escola na Avenida.
“Esse ano a Maricá sobe, é nosso. Acho que a Sapucaí vai levantar com o ‘Vá dormir com esse barulho’”, afirma Gabriela Mendes, de 24 anos, técnica de segurança do trabalho, que desfila há quatro anos pela escola. Sobre a mistura do samba com o ijexá e o adarrum, ela destaca: “Brasil é isso, uma grande mistura de ritmos, acho bacana levarmos isso pra Avenida também”. Antes de entrar na pista, Gabriela mantém um ritual simples e simbólico: conferir o instrumento, garantindo que tudo esteja perfeito para o grande momento.

FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
No mesmo tom de confiança, Thalita Ribeiro, de 28 anos, advogada, encara seu segundo desfile pela Maricá com entusiasmo renovado: “Ainda não tenho superstição, acho que vou criar. A bateria vai ser o diferencial. Diferente de todas as outras baterias a de Maricá vai ser a chave para o título”, projeta. Para ela, o refrão de “Vá dormir com esse barulho” tem potência suficiente para não deixar ninguém parado nas arquibancadas.

FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A advogada também enxerga na construção rítmica um elemento estratégico. Ao comentar a presença do ijexá e do adarrum na estrutura do samba, Thalita resume: “É a chave que estava faltando para o nosso 40”. A referência à pontuação máxima revela o foco competitivo da escola, que aposta na inovação sem abrir mão da raiz do samba carioca.

FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A percepção é compartilhada por Gustavo Hinago, de 18 anos, produtor de eventos, que não hesita ao apontar o ponto alto do desfile: “A chave para o título da Maricá é a bateria com toda certeza. O samba carioca com o ijexá e o arredum foram o casamento perfeito”.
Armados de fé e ferro: a mística de Ogum reluz na segunda alegoria da União de Maricá
A União de Maricá desfilou na noite deste sábado, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida em busca de uma vaga no Grupo Especial de 2027. Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a escola levou para a pista um mergulho na força dos amuletos e das proteções ancestrais. No segundo carro alegórico, “Ogum e a Forja do Metal”, o contraste visual e espiritual marcou a noite. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da composição “Armadura de Ogum” falaram sobre fé, pertencimento e emoção.

Se o primeiro momento do desfile reluzia em dourado, o segundo mergulhou no prateado intenso do ferro. A alegoria religiosa e guerreira trouxe cães puxando o carro, atabaques metalizados e uma estética marcada por ferramentas ligadas ao orixá. Vestidos predominantemente em prata e metal, os componentes incorporaram a tecnologia africana de forjar o ferro, evocando proteção e resistência. A transição cromática simbolizava não apenas mudança visual, mas também um chamado à força espiritual.

Devoto de São Jorge, sincretizado com Ogum, o fisioterapeuta Igor Barbosa, de 28 anos, viveu o desfile como um ato de fé. “Sou devoto, carrego comigo um terço e um escapulário de São Jorge que levei na igreja para benzer. Foi uma emoção muito grande vir nesse carro, com essa fantasia. Assim que vi o carro no barracão fiquei encantado, mas só tive dimensão dele hoje, vendo aqui na Avenida. Ele é muito maior do que eu imaginava”, contou. A armadura prateada, para ele, não era apenas figurino, mas extensão de sua devoção.

A relação com a proteção espiritual também esteve presente no discurso de Leandro, de 40 anos, analista de sistemas. “Não tenho uma religião, mas acredito na proteção de São Jorge/Ogum. Acredito que ele vai guiar o desfile de toda a escola. No barracão como é bem apertado, eu não tinha dimensão do tamanho dele, me surpreendi quando vi hoje. Acredito que a escola vai cantar do início ao fim e vamos rumo ao título”, afirmou. Entre crença pessoal e energia coletiva, o sentimento era de confiança.

O enredo ressalta o balangandã como amuleto, como arma simbólica no corpo, e essa ideia atravessava os relatos. Igor reforçou que a preparação espiritual foi essencial para entrar na Avenida protegido. “Só a emoção de estar aqui já me faz ter energia suficiente para cantar e me emocionar o desfile inteiro”, concluiu.
Visualmente impactante, o segundo carro impressionou desde o barracão até o momento do desfile. Os cães que puxavam a alegoria reforçam o aspecto guerreiro, enquanto os atabaques prateados ampliaram a atmosfera ancestral. Para os componentes, ver o conjunto pronto foi um momento de descoberta.
O leão vai rugir: bateria da Estácio de Sá celebra o “Papa Negro” com ritmo, fé e ancestralidade
Primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Estácio de Sá levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Tatá Tancredo: O Papa Negro no Terreiro do Estácio”. A proposta exalta Tancredo da Silva Pinto, líder religioso central na reafricanização da Umbanda Omolokô e na aproximação entre o samba e a espiritualidade afro-brasileira.

Na bateria “Medalha de Ouro” comandada pelo Mestre Chuvisco, o tributo ganha forma sonora e visual. Sob o tema “O Papa Negro da Umbanda Omolokô”, os ritmistas vestem figurinos que combinam elementos da liturgia católica, como mitra e batina, a referências afro-brasileiras. A estética simboliza a fusão cultural defendida por Tatá Tancredo e reforça o respeito às raízes e à diversidade religiosa.

O ator Victor Diniz Souza da Silva, de 30 anos, destaca a emoção de participar do momento.
“Eu não tenho palavras para a homenagem que a Estácio está fazendo a Tatá Tancredo. A bateria vem com uma bossa no refrão que traz o ritmo da religiosidade para mexer com o público. Hoje o leão vai rugir na Sapucaí”.

Para Denise Melo, 60 anos, servidora pública e componente há sete anos, o enredo dialoga com a pluralidade brasileira.
“Sou católica e me sinto honrada em participar de uma escola que homenageia Tatá Tancredo e fala sobre o Papa Negro da Umbanda. O Brasil é samba, axé e religião. Só desfilando para sentir a energia que vibra na avenida”.

Já Ana Paula Martins, 39 anos, professora e integrante da escola há 14 anos, vê na bateria um manifesto de identidade e respeito.
“É representatividade, negritude e axé. A bateria mostra que a ancestralidade precisa ser respeitada e que o respeito ao outro passa pela religião, pela cor e pela classe. A Estácio tem chão e tem axé.”
Mais do que sustentar o desfile, a bateria se apresenta como extensão do próprio enredo. Cada batida reafirma a ligação entre terreiro e avenida, entre fé e tambor, entre passado e presente.

Na Sapucaí, o “Papa Negro” deixa de ser apenas fantasia para se tornar símbolo de resistência cultural e reafirmação identitária — eco de um samba que nasceu nos terreiros e segue pulsando no coração do carnaval.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Unidos da Ponte no desfile no Carnaval 2026
Um ótimo desfile da bateria “Ritmo Meritiense” da Unidos da Ponte, sob o comando da dupla de mestres, Juninho e o estreante Alex Vieira. Um ritmo profundamente conectado ao que o enredo e samba solicitavam foi exibido. Tudo com bossas dançantes e uma sonoridade potente.

Na parte da frente da “Ritmo Meritiense”, um ala de cuícas segura tocou junto de agogôs de qualidade. Um naipe de tamborins de inegável virtude coletiva se exibiu interligado a uma ala de chocalhos de elevada técnica musical.
Na cozinha da bateria da Ponte, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda ditaram com firmeza o andamento. Surdos de terceira deram bom balanço aos graves. Repiques coesos tocaram juntos de caixas de guerra sólidas.
Bossas absurdamente musicais se aproveitavam das variações melódicas do samba da escola de São João de Meriti para consolidar a sonoridade, integrando a musicalidade da bateria ao ritmo de Funk. Criações musicais bastante pertinentes, atrelando a “Ritmo Meritiense” ao enredo da escola. Simplesmente sensacional o bom balanço envolvendo a bossa do refrão do meio, bastante dançante e que certamente auxiliou componentes na evolução. Outro arranjo que merece menção musical é o Funk do refrão principal, também bem musical e plenamente inserido na proposta da agremiação.
Uma ótima apresentação da bateria da Unidos da Ponte, dirigida pelos mestre estreante Alex Vieira, em dupla inédita com mestre Juninho. Uma sonoridade bastante vinculada ao ritmo de Funk foi exibida. Uma “Ritmo Meritiense” que colocou a Sapucaí para dançar ao som do seu pancadão. As exibições em cabines julgadoras foram boas, com destaque para a apresentação mais solta e divertida no último módulo, que devem garantir boa pontuação a bateria da Ponte, evidenciando seu grande desfile.
Do cais à resistência: Porto da Pedra, com um desfile correto, levou à Sapucaí o debate sobre as mulheres da vida
Sendo a penúltima escola a desfilar no último dia da Série Ouro, o Tigre de São Gonçalo rugiu a favor das “mulheres da vida”. Com um excelente desempenho do carro de som, um casal correto e uma plástica modesta, a Porto da Pedra fez um bom desfile.

Com o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite” do carnavalesco Mauro Quintaes, a Porto da Pedra trouxe a figura da prostituta como tema central para um debate na Sapucaí.
COMISSÃO DE FRENTE
Intitulada “Encruzilhada de Mistérios”, a comissão da coreógrafa Aline Kelly representou o elo simbólico entre o profano e o sagrado, retratando a realidade das profissionais do sexo sob a perspectiva da espiritualidade afro-brasileira.
Com quinze componentes, sendo dez mulheres e cinco homens, a coreografia teve os bailarinos vestidos com roupas curtas e coloridas, rodando bolsinha e sensualizando. Ao se posicionarem diante dos módulos de julgamento, os bailarinos utilizavam máscaras que simulavam o efeito de desfoque facial, recurso recorrente em reportagens sobre prostituição, reforçando a ideia de invisibilidade social. Mas com a entrada do tripé, elas tiravam as máscaras, e em cima da encruzilhada em forma de tripé, a religiosidade as empoderava, tiravam as máscaras, faziam macumba e rebolavam mais ainda.

A encruzilhada no tripé era demonstrada com as placas de ruas nos dois cantos dele, escritas “Francisco Eugênio” e “Vila Mimosa”, ambos localizadas no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, pontos de prostituição famosos. Além disso, de dentro do elemento cênico, saíam três pomba-giras.
A proposta coreográfica buscou evidenciar a encruzilhada como espaço de tensão, proteção e resistência. Baseada em cinco momentos: A exposição, por isso o rosto oculto; O rito, com a subida no tripé e o contato com as entidades de umbanda; A transformação, tiram as máscaras e usam a bolsinha como arma; O empoderamento, donas de si e de tudo que as cercam.
Nos três módulos, foram ótimas apresentações. No primeiro, um bailarino escorregou e caiu, mas nos demais módulos, tudo correu sem problemas.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com a fantasia “O Axé do Povo de Rua”, vermelha e preta, muito bem feita, Rodrigo França se apresentou caracterizado como Exu, entidade masculina cultuada na umbanda, associada à proteção das ruas e daqueles que nela viviam e trabalhavam. Joyce Santos, caracterizada como Pombagira, entidade feminina da umbanda, também ligada à guarda dos caminhos e à proteção de quem tinha a rua como espaço de morada e ofício.

Com uma coreografia clássica e sem problemas nos três módulos, o casal saiu da avenida tranquilo.
EVOLUÇÃO
Administrando o tempo muito bem, a escola passou com calma, a bateria entrou no segundo recuo e finalizou o desfile com 54 minutos, sem precisar correr e nem ficar estagnada.

Entretanto, faltou maior intensidade na movimentação das alas. A escola desfilou de maneira organizada, porém com pouca vibração coletiva, o que reduziu o impacto visual do conjunto e a potência dramática que o enredo sugeria.
ENREDO
A Porto da Pedra apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, que abordou a trajetória de mulheres que atuaram no que popularmente se denominava “vida”, propondo uma reflexão sobre personagens historicamente marginalizadas. Com concepção do carnavalesco Mauro Quintaes e do enredista Diego Araújo, a escola desenvolveu uma narrativa que revisitou o imaginário da noite e a figura feminina como presença cultural e social no contexto brasileiro.
A construção explorou as múltiplas dimensões dessas mulheres, evidenciando tanto a sedução e a força simbólica atribuídas à noite quanto o julgamento moral imposto pela sociedade, como no primeiro setor, “Prazeres sagrados e profanos”. O desfile apresentou o “doce e o amargo” de suas vivências, ressaltando a busca por dignidade e reconhecimento para além de estigmas. A proposta destacou a complexidade dessas trajetórias, situando-as como parte integrante da história social e cultural do país, visível no segundo setor, “Personagens da Vida”.

Ao final, com o último setor, chamado “Uma Puta Mulher”, o desfile reafirmou o histórico da agremiação na abordagem de temáticas sociais consideradas sensíveis, consolidando sua identidade como escola que utilizava a Marquês de Sapucaí como espaço de reflexão e visibilidade para narrativas frequentemente silenciadas.
HARMONIA
Com uma performance impecável do carro de som, no comando de Wantuir no microfone principal, os componentes não conseguiram cantar o samba à altura do desempenho do intérprete.
A comunidade teve um canto regular, deixando a nítida sensação de que poderia ser melhor. Muitos componentes não faziam esforço para cantar.

FANTASIAS
As fantasias da Porto da Pedra atravessaram a avenida sem nenhuma avaria. As alas “Perdições do Bataclan” com os passistas, “Perpétua Moralidade” e “Meninas do Job” chamaram a atenção, vista a didática e referência nítida ao enredo.
SAMBA
O samba-enredo, composto por Bira, Rafael Raçudo, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Eric Costa, Fernando Macaco (em memória), Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Miguelzinho, Jarrão e Pierre Porto, é um manifesto político, social e de gênero a favor das profissionais do sexo.

As relações do enredo com a escola, escritas no samba, como nos trechos: “Fiz um Porto da Pedra que você jogou” e “Tigresa que mata um leão por dia!” chamam a atenção para a genialidade da composição.
ALEGORIAS E ADEREÇOS
Apesar de modestas, as alegorias foram produzidas corretamente, sem nenhum defeito evidente de acabamento ou concepção.
A primeira alegoria, “Cais da Labuta Meretrícia”, representou a chegada das chamadas Polacas ao Rio de Janeiro, contextualizando o fluxo migratório associado à exploração sexual no início do século XX. Foi um carro de fácil compreensão, sendo um navio com a velha guarda a bordo, com vestidos de marinheiros e polacas. Além do clássico tigre em cima do carro.

Na segunda alegoria “Meu Ofício é o Seu Prazer”, a escola apresentou o exercício da prostituição no ambiente noturno, destacando o contraste entre visibilidade pública e invisibilidade social. Destaque para as composições do carro, com mulheres dançando pole dance e performando muito bem e em conformidade com o enredo.
A última alegoria “Uma Puta Mulher!” encerrou o desfile como celebração da vida e da resistência das profissionais do sexo, enfatizando sua luta por reconhecimento e respeito. Com Lourdes Barreto em destaque no carro e com seu nome gravado na frente da alegoria, a histórica ativista brasileira dos direitos das prostitutas, reconhecida por sua atuação política e social na luta pela cidadania, dignidade e reconhecimento profissional das trabalhadoras do sexo, foi a cereja do bolo no carro de manifestação em defesa dessas mulheres.
OUTROS DESTAQUES
Sempre icônico em suas fantasias, o mestre Pablo vestido de tigresa e com uma peruca loira, com a indumentária chamada “Tigresa Que Mata Um Leão Por Dia”.
Onde o samba e o sagrado se conectam: Estácio de Sá recria terreiro de Tata Tancredo
Cria do Morro de São Carlos, Tata Tancredo esteve presente, direta e indiretamente, na formação de importantes tradições brasileiras, entre elas a organização da Umbanda, a criação da “Deixa Falar”, pioneira entre as escolas de samba, e a divulgação do tradicional réveillon de Copacabana. Neste sábado, a Estácio de Sá o homenageou na Marquês de Sapucaí. Mais do que celebrar sua vida, a escola inovou na estética ao se inspirar no povo Lunda-Quioco, de Angola.

A segunda alegoria “Umbanda Omolokô: o Terreiro de Tancredo” recriou o espaço religioso fundado pelo homenageado. Entre referências à natureza, o carro evidenciou a intersecção entre a Umbanda e o samba, reafirmando como ambas as expressões se complementam na cultura brasileira.
Carla Close, de 35 anos, iniciou sua trajetória na agremiação há seis anos e, neste carnaval, desfilou como destaque da alegoria. Representando a pombagira Maria Navalha, ela se encantou ao ver o carro pela primeira vez.
“Me sinto feliz, porque tem tudo a ver comigo, com o trabalho que faço na Europa, com espetáculo da noite. Foi um presente receber essa fantasia”, declarou.

Recepcionista, Cintia Gomes, de 33 anos, está em seu segundo ano na escola e afirma que a emoção aumenta o frio na barriga, sobretudo com um enredo dedicado a Tata Tancredo.
“Ele lutou muito para trazer a Umbanda e mostrar ao povo o que realmente ela é. Independentemente de religião, os líderes religiosos sempre lutaram para conquistar respeito no nosso país. Isso é muito importante para a gente”, disse.

A advogada Renata Palottini, de 40 anos, desfilou pela primeira vez na Estácio de Sá representando os umbandistas. Para ela, o principal destaque da alegoria é a escultura de um Preto Velho, por simbolizar a ancestralidade dentro da religião.
“Gritar o nome do Tatá na avenida, num país com formação social extremamente desigual, é gritar a história do Brasil. É o Brasil-terreiro sendo lembrado”, afirmou.
Homenagear Tata Tancredo significa resgatar a memória do povo negro e reafirmar que, apesar do preconceito, do racismo e da intolerância religiosa, a luta iniciada por essas comunidades segue viva, sustentada pela resistência e pela fé.
“A Bala Não Erra o Alvo”: ala do Império Serrano impacta a Avenida ao protestar contra a violência no Rio de Janeiro
O Império Serrano levou para a Marquês de Sapucaí uma forte mensagem no Carnaval de 2026. O desfile que homenageou a escritora Conceição Evaristo, símbolo da resistência negra, que por muitas vezes usou suas obras como forma de protesto, trouxe a ala “Protesto na Avenida – O Alvo no Peito” como forma de denunciar a brutalidade policial contra o povo periférico do Rio de Janeiro.
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FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Os componentes cruzaram a avenida vestidos de Erês e carregavam alvos estampados no peito, além de guarda-chuvas pingando sangue, erguidos como símbolo de denúncia. Inspirada na estética urbana de Jean-Michel Basquiat. Segundo a escola, a fantasia fez referência aos absurdos cometidos pela violência da cidade, onde objetos cotidianos como uma simples sombrinha já foram confundidos com armas, e a cor da pele que, muitas vezes, determina quem é visto como suspeito. A mensagem que a agremiação quis passar foi clara: “A bala não erra o alvo”.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Morador de Oswaldo Cruz, o vendedor André Pree, de 31 anos, explicou o simbolismo do guarda-chuva. O adreço trazia a frase “isso aqui não é um fuzil”.
“Estamos trazendo a realidade do dia a dia do Rio de Janeiro. O que se passa na comunidade e, literalmente, com o trabalhador, que sai de casa sem saber se volta. O guarda-chuva que levamos em um dia chuvoso, por exemplo, pode ser um alvo, simplesmente por estarmos o segurando e acharem que é um fuzil. A galera da periferia está sempre mais vulnerável a ser o alvo por qualquer coisa mínima, inclusive a cor da pele. Estamos mostrando justamente como é que funciona no dia a dia da comunidade, da galera que o pessoal de cima não vê”, desabafa o componente.
Questionado se o sentimento de indignação fortalece a evolução na Avenida, ele afirmou sem hesitar: “Garra nesse ponto a gente sempre tem. O Império é uma comunidade que tem chão. Mas, obviamente, isso nos faz vir para mostrar como é que funciona. Como Conceição Evaristo diz, ‘a gente combinou de não morrer’”.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Professor de desenho, Micael Nascimendo, de 32 anos, morador da Penha, falou sobre o impacto de vestir uma fantasia tão simbólica: “É bem sentimental, ainda mais porque, recentemente, teve uma operação, e centenas de pessoas morreram. Ação que, ao meu ver, é mais uma manobra política do que uma tentativa de resolver alguma coisa. Por isso, eu acredito que a escola trazer esse tema é sempre muito importante. E quanto mais as pessoas verem e comentarem sobre isso, melhor”, refletiu.
A referência artística de Basquiat também foi destacada pelo professor: “A arte tem todo um ambiente político também. Quando avaliamos uma arte, também é importante saber o contexto por trás dela”.
Já a professora Rosane Borges, de 41 anos, reforçou o caráter de denúncia do desfile: “O carnaval, além de ser festa, também é uma manifestação de denúncia. Estamos aqui para denunciar essa violência que o povo preto de comunidade sofre. E esse enredo, além de falar das mulheres, fala sobre a violência que o povo preto sofre e que a literatura está aí para denunciar”.
A nutricionista Luziane Ferreira, 39 anos, destacou o papel pedagógico da festa: “O carnaval é cultura, e uma forma de educar a população sobre temas importantes”.
Freddy Ferreira analisa a bateria da Porto da Pedra no desfile no Carnaval 2026
Um bom desfile da bateria “Ritmo Feroz” da Unidos do Porto da Pedra, comandada por mestre Pablo. Mestre Pablo, sempre excêntrico e irreverente, veio fantasiado de Tigresa. Um ritmo potente, com pressão sonora da afinação de surdos foi exibido, junto de bossas complexas, mas bem executadas.

Na parte da frente do ritmo do Tigre, um naipe de tamborins de grande virtude técnica se exibiu interligado a uma ala de chocalhos de ótima ressonância coletiva. Um naipe de agogôs de qualidade, pontuou a convenção baseada nas nuances da melodia do samba. Uma boa ala de cuícas também auxiliou no preenchimento sonoro das peças leves.
Na cozinha da “Ritmo Feroz”, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda tocaram com firmeza, mas segurança. Surdos de terceira ficaram responsáveis pelo bom balanço do miolo, inclusive em bossas. Repiques coesos tocaram juntos de um naipe de caixas sólido.
Bossas bem vinculadas a melodia do samba se aproveitavam das nuances para consolidar o ritmo. Com um conceito criativo pautado pela complexidade e pela dificuldade de execução, os arranjos também exibiram a potência sonora proporcionada por uma boa afinação de surdos. Com participação privilegiada dos surdos de terceira nas paradinhas, que também contavam com acentuação rítmica bem pontuada das caixas.
Uma boa apresentação da bateria da Porto da Pedra, dirigida por mestre Pablo. Um ritmo pulsante exibiu com segurança paradinhas de difícil execução e de certa complexidade musical. Uma sonoridade que contou com marcadores potentes para a realização de arranjos contendo impacto da pressão sonora de surdos. A primeira apresentação em cabine foi boa, mas a do segundo módulo foi até superior, com boa receptividade dos julgadores. Na última cabine (dupla), uma exibição segura e enxuta foi realizada, confirmando o bom desfile da “Ritmo Feroz” de mestre Pablo.
Estácio alia fundamento religioso, harmonia e evolução segura em desfile consistente na Série Ouro
A Estácio de Sá, quinta agremiação a cruzar a Passarela do Samba neste sábado de crnaval, entregou uma apresentação vigorosa e espiritualmente densa na Série Ouro. Com o enredo “O Papa Negro: Tata Tancredo e o Fundamento do Omolokô”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo, a vermelho e branco mergulhou nas raízes do Morro de São Carlos para contar a trajetória de Tancredo Silva. O desfile foi uma demonstração de força da comunidade, aliando um visual tecnicamente consistente a uma harmonia que ecoou como um verdadeiro manifesto de fé e resistência.
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COMISSÃO DE FRENTE
Apresentando dois corpos de baile que personificavam a essência do enredo, o primeiro grupo representava o cotidiano e a malandragem do Morro de São Carlos, enquanto o segundo, oculto na parte inferior de um imponente tripé metálico com estampas étnicas, simbolizava a ancestralidade africana e contava apenas com mulheres.

O bailarino que interpretou Tata Tancredo serviu como elo místico entre esses dois mundos. No clímax da encenação, o segundo ato revelou um bailado de passos ancestrais, pulsantes, intensos e aguerridos, traduzindo com clareza a concepção do Omolokô e a mediação espiritual do homenageado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal, Feliciano e Raphaela, protagonizou uma exibição de gala sob o título “Sentinelas da Fé”. O figurino chamou atenção pela riqueza de materiais e pelo efeito visual inovador, com uma capa de textura holográfica para o mestre-sala, em uma paleta dominada pelo vermelho e preto.
Feliciano exibiu um bailado deslizante e carismático. Com giros precisos e um cortejo de extrema elegância, incorporou coreografias que remetiam às religiões de matriz africana sem perder a essência da dança tradicional do quesito.

Raphaela conduziu o pavilhão da agremiação com maestria esvoaçante. Sua performance foi marcada pela segurança e pelo sincronismo com o par, executando giros com excelente controle de eixo e mantendo a bandeira altiva, simbolizando a guarda dos fundamentos religiosos trazidos por Tancredo.
HARMONIA E SAMBA
A Estácio de Sá reafirmou sua fama de escola de chão. A harmonia foi o combustível do desfile, impulsionada pela interpretação de Tinganá, que conduziu o samba com sua ala musical, sentindo a ausência de Serginho do Porto (cantou pelo Águia de Ouro em SP), mas suprindo-a com técnica e garra. O canto da comunidade atingiu o ápice no trecho “Atabaques no terreiro, na porteira o guardião, uma vela no cruzeiro, duas velas pro leão”, entoado com intensidade. A bateria, sob o comando de mestre Chuvisco, garantiu a cadência necessária para que a escola desfilasse com segurança e organicidade.

EVOLUÇÃO
O quesito Evolução foi um dos pilares da apresentação. A Estácio manteve uma cadência firme e segura, ocupando a avenida de forma orgânica. Não houve registros de buracos ou correrias para compensar o cronômetro. As alas pareciam conscientes de sua função espacial, resultando em um deslocamento coeso até o último módulo de julgamento. Foi uma evolução madura, que não buscou o excesso, mas sim a consistência técnica que o regulamento exige.

ALEGORIAS E FANTASIAS
O conjunto plástico de Marcus Paulo dialogou perfeitamente com a narrativa. O abre-alas, “O Primeiro Fundamento da Curimba”, trouxe o leão, símbolo da escola, em uma proposta festiva e colorida, destacando-se sobre o fundo preto e as luzes da pista. As esculturas apresentaram boa volumetria e acabamento cuidadoso, embora o último carro tenha enfrentado um problema técnico com refletores apagados em sua parte superior.

As fantasias, por sua vez, foram um ponto alto de criatividade, ricas em materiais diversos e com uma paleta de cores amarrada. Preservaram a leveza necessária para a mobilidade dos componentes, garantindo que o luxo não comprometesse a performance das alas.
OUTROS DESTAQUES
Entre os momentos mais simbólicos, a ala das baianas executou elegância e técnica. Com saias amplas e ricamente trabalhadas, ocuparam a pista com uma presença ancestral hipnotizante. Outro ponto de destaque foi um destaque de chão, que desfilou sem o tradicional costeiro, que foi carregado por apoios.

A Estácio de Sá encerrou o desfile com a sensação de dever cumprido, ao unir o fundamento religioso de Tata Tancredo à competência carnavalesca de sua comunidade.

