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Ponte encerra a noite com desfile leve, dançante, com alto canto da comunidade e sem grandes problemas na pista

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A Unidos da Ponte encerrou o Carnaval da Série Ouro sendo, de fato, a única escola do grupo a desfilar na totalidade do seu desfile com o dia já claro. Ficou claro que, se a agremiação pudesse contar com o recurso da luz cênica, poderia abrilhantar ainda mais alguns elementos do desfile. Porém, a Azul e Branca de São João de Meriti apresentou uma proposta leve para retratar a relação do funk com a ancestralidade, encontrando em sua paleta de cores e em suas fantasias e alegorias recursos para aproveitar a luz do sol.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

A utilização de materiais menos comuns para desfiles fez parte da proposta, ainda que nem sempre o apuro estético tenha sido o melhor, tanto para alegorias quanto para fantasias. Com apresentações sem grandes erros na comissão de frente, evolução correta e com fluidez, além de alto canto da comunidade, impulsionada pelo desempenho do carro de som comandado por Thiago Britto e Matheus Gaúcho, a Ponte encerrou a noite de forma positiva e com o alto astral do tamborzão.

Com o tempo de 54 minutos, a Unidos da Ponte encerrou a segunda noite de desfiles da Série Ouro apresentando o enredo “Tamborzão – O Rio é Baile! O Poder é Black”.

COMISSÃO DE FRENTE

Desenvolvida pela coreógrafa Juliana Frathane, a comissão apresentou o enredo a partir da conexão ancestral existente na musicalidade negra, especialmente na cidade do Rio de Janeiro e na Baixada Fluminense. A apresentação materializou essa ideia recorrendo a símbolos ancestrais africanos, como o totem, o ebó, as máscaras e os grafismos, e a símbolos contemporâneos, como o alto-falante e o disco de vinil. A integração desses signos marcou o desenvolvimento narrativo da comissão e também reafirmou que passado e presente coexistem.

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Os bailarinos eram uma representação abstrata da energia musical negra. O figurino não fez menção a nenhuma entidade específica de alguma cultura de matriz africana, mas simbolizou a energia pulsante presente nos bailes negros. O verso do figurino, majoritariamente na cor azul, representou a ancestralidade em um tempo passado, mas já com embriões do que viria no futuro. A máscara, símbolo de proteção em religiosidades africanas, reforçou a espiritualidade que abre caminhos e afasta energias ruins para que um bom fluxo aconteça no baile.

A frente do figurino, com modelagem e cores mais contemporâneas, simbolizou que essa entidade se transforma com o tempo, se atualiza com as mudanças da cultura e se faz presente na música e nos bailes de hoje. O elemento alegórico representou um totem-paredão, partindo do fato de que, para grande parte das culturas africanas, os totens contam a história de seu povo e representam suas conquistas e feitos. Por isso, no totem, havia símbolos dos bailes negros do Rio.

Na apresentação no módulo, os componentes seguravam os vasilhames ou alguidares enquanto giravam no elemento cenográfico. Enquanto isso, na parte superior, aparecia um DJ que fingia coordenar uma mesa de som, sendo um verdadeiro mestre de cerimônias, MC. Um ponto negativo foi que os efeitos de luz e de fogo apareceram pouco devido à luz do dia, que não os deixava se destacar. Outro ponto interessante da comissão foram os “passinhos” que os componentes faziam no chão e a coreografia de deslocamento com os costeiros coloridos, criando um bonito efeito — esses, sim, aproveitando a luz do sol. Uma apresentação leve, que não se utilizou de grandes recursos, mas apresentou bem o enredo.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Thiaguinho Mendonça e Jéssica Ferreira representaram as majestades do black, com figurinos de rei e rainha africanos, com elementos referentes aos bailes cariocas. O casal simbolizou essa conexão entre passado, presente e futuro por meio da música negra e foi protegido pelo conjunto de guardiões da batida real.

Logo no primeiro módulo, a porta-bandeira teve um problema com o chapéu e, em dois momentos, precisou pôr a mão para segurá-lo. Porém, após a apresentação, o problema foi consertado e, nos demais módulos, a performance transcorreu normalmente. A dupla mostrou desenvoltura ao inserir na coreografia alguns passinhos de funk e finalizações com esses movimentos.

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Alguns dos pontos altos ocorreram no refrão principal, em que os dois fizeram coreografia “jogando de ladinho”, e quando Thiaguinho, sozinho, no verso “Tem charme no viaduto”, mostrou todo o seu swing, realizando uma rabiscada no chão. Um ponto que pode ser analisado pelo jurado é que, na dança, a porta-bandeira esteve um pouco menos intensa que Thiaguinho, que fez movimentos de grande destaque durante as apresentações nos módulos.

ENREDO

“Tamborzão – O Rio é Baile! O Poder é Black” trouxe para a Sapucaí um território de memória, identidade e afirmação cultural, onde o funk é tratado como herança, linguagem política e elo comunitário, transformando a Avenida em um grande baile popular.

O desfile foi dividido em três momentos: iniciou com o anoitecer, seguiu pela madrugada e finalizou com o amanhecer. No primeiro setor, nomeado “O Anoitecer”, a escola mostrou o momento em que a noite chega e a cidade se torna palco para o baile. Nesse setor, foi retratado o subúrbio carregado de axé, de energia sagrada produzida pelos ancestrais.

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No segundo setor, a Ponte aprofundou formas e estilos predominantes e marcantes nos bailes negros para a cultura e a sociabilidade do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, ressaltando a coexistência dos tempos e mostrando que, mesmo nos primeiros bailes, já havia algo de hoje.

O terceiro e último setor simbolizou que, por mais que chegue o fim da noite, não é o final do baile. A festa segue enquanto houver gente dançando e agitando a pista. Nesse setor, a agremiação mostrou a reverberação da Black Rio a partir dos anos 1980, apontando como, de suas mesas de som e paredões, surgiu o funk carioca que tomou conta das ruas e levou o baile para o restante do Brasil e do mundo.

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Nícolas Gonçalves, carnavalesco da nova geração, mostrou criatividade, trouxe uma narrativa popular, fez misturas pertinentes ao relacionar a cultura atual com a ancestralidade e levou muita leveza para a Sapucaí, finalizando os desfiles da Série Ouro com uma mensagem alto-astral que permaneceu na Avenida, com bastante interação com o público.

EVOLUÇÃO

A evolução da Ponte foi correta. Com um contingente não muito grande, a escola passou longe de correr riscos e não colocou a bateria “Ritmo Meritiense” no segundo recuo. Com evolução fluida, sem apresentar buracos ou grandes espaçamentos, a escola brincou o Carnaval, e a leveza do tema fez com que os desfilantes passassem alegres, interagindo bastante com o público, que respondeu à altura.

Muita gente nas frisas, ainda quando a escola passou, caiu no samba e, por que não, também no funk. Quesito sem grandes intercorrências.

HARMONIA

Thiago Britto e Matheus Gaúcho formaram dupla neste ano pela Ponte e tiveram a missão de transformar um samba fora do lugar comum, com qualidade abaixo das melhores obras do grupo, em uma obra que interagisse com o público e ajudasse a tornar o desfile mais leve e alegre. Pode-se dizer que a missão foi cumprida.

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A dupla esteve muito à vontade. Não houve vaidade, com cada um deixando o outro se sobressair no momento certo, além do apoio das vozes muito bem ensaiadas, com destaque para as vozes femininas.

No canto, a Ponte foi muito bem. Já pela manhã, depois das seis horas, a comunidade de São João de Meriti deu seu recado e correspondeu cantando o samba durante todo o desfile. Escola de parabéns em harmonia.

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SAMBA-ENREDO

A obra foi composta por Chacal do Sax, Gustavinho Oliveira, Marquinhos Beija-Flor, Gabriel Simões, Raphael Gravino, Brayan Sá, Valtinho Botafogo, Mateus Pranto, Serginho Aguiar, Naval, Alexandre Reis, Renne Barbosa, Leozinho Nunes, Léo Freire, Gigi da Estiva e Jhonatan Tenório.

De fato, como dito anteriormente, o samba não está entre os melhores do grupo: há palavras que talvez não se encaixem metricamente ou que não embelezem a letra, além de trechos forçados no encaixe. Porém, o trabalho realizado pelo carro de som e pela direção musical fez dele uma obra leve, para cima, que, depois de algum tempo, deixou o público acostumado e com vontade de participar.ponte desfile 2026 25

Se deve ser despontuado em alguns pontos, como os citados acima em sua própria avaliação, o samba também ajudou a escola a ter bom rendimento em quesitos como evolução e harmonia. De tom mais profundo na cabeça, ao falar de ancestralidade, a partir do refrão do meio — “Pega a visão, meu irmão…” — o samba se torna mais leve e alegre, com notas em tom maior, tendo ótimo clímax em “O paredão já tá formado”.

ALEGORIAS

Nícolas Gonçalves trouxe o número máximo de alegorias para o desfile da Ponte. De fato, os carros talvez não estivessem no mesmo nível de outras alegorias que passaram, em termos de volumetria e utilização de materiais de maior qualidade. Porém, o carnavalesco soube usar a criatividade e deu às alegorias contexto próprio do enredo.

Sem grande destaque no apuro plástico, cumpriram o papel de contar a narrativa. O abre-alas representou, por meio de estética que une elementos africanos, futuristas e psicodélicos, a musicalidade negra que atravessa os séculos como expressão cultural no Rio de Janeiro. A estética onírica remetia aos sonhos e ao plano espiritual.

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A segunda alegoria, “O Baile em São João de Meriti e a Coroação do Black”, teve como base registros históricos que indicam a realização de bailes black na quadra da Unidos da Ponte. Nícolas recriou um desses bailes em linguagem carnavalesca. A alegoria foi majoritariamente em tons de marrom e dourado, fazendo referência à pele negra e ao empoderamento como realeza nos bailes black.

Houve também o predomínio de estampas quadriculadas em preto e branco, em referência à equipe de som Soul Grand Prix, que utilizava estética inspirada nas corridas de Fórmula 1 e representava o clima de competitividade dos bailes. A alegoria foi decorada com discos de vinil reais doados e com formas que remetiam a eles, por serem dispositivos de armazenamento sonoro da Black Rio.

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A última alegoria, “Vem pro Baile Funk”, representou um baile funk misturando a estética do subúrbio atual com símbolos modernos e ancestrais. A referência foram os paredões da equipe de som Furacão 2000, carnavalizados com elementos cenográficos que traziam signos do cotidiano das periferias onde aconteciam os bailes.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias seguiu o mesmo caminho das alegorias. Mesmo sem utilizar materiais de alta qualidade, Nícolas foi criativo e conseguiu carnavalizar o universo do funk. Houve ótima utilização de cores vibrantes e tons cítricos, principalmente nos costeiros, aproveitando o brilho do sol.

As baianas, por exemplo, vieram com a fantasia “Nas Vibrações dos Lundus”, abordando a dança e o canto de origem africana em figurino com elementos que remetiam à ancestralidade, como tambores, grafismos e palha. As máscaras com turbantes faziam a conexão do lundu com o presente, por meio da cultura do samba.

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Apesar da criatividade, houve pequenos problemas com alas que deixaram elementos no chão e, na ala “Reflexos do Céu”, composta por grupo performático, alguns componentes estavam sem chapéu. Nada grave, mas, em eventual comparação, ainda que o manual de julgamento não recomende, a escola apresentou qualidade estética inferior a outras concorrentes.

OUTROS DESTAQUES

Os passistas vieram com a fantasia “Realeza das Pistas”, em tons de dourado e vermelho, representando como pessoas negras tinham status de realeza nos bailes black. Destaque para o costeiro com penas de pavão carnavalizadas, simbolizando vaidade, e para a cabeça remetendo a um cabelo black power com discos, como símbolo de representatividade negra.ponte desfile 2026 18

A bateria “Ritmo Meritiense”, dos mestres Alex Vieira e Juninho, trouxe a figura do MC com a proposta de que a bateria é a comandante do baile, estabelecendo conexão ancestral entre os MCs modernos e os tradicionais griôs africanos.

No esquenta, Thiago Britto e Matheus Gaúcho cantaram, em ritmo de samba, sucessos do funk carioca. Em seu discurso, o presidente Tião Pinheiro ressaltou o enredo e afirmou que a escola valoriza a cultura popular.

Carnaval que se vê e se sente: Sapucaí ganha tradução em Libras e amplia inclusão no maior espetáculo da Terra

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O Carnaval é som, cor e vibração. Mas, este ano, a Marquês de Sapucaí deu um passo além: passou a contar com tradução em Libras durante a apresentação dos enredos das escolas de samba. A iniciativa amplia o acesso ao espetáculo e reforça que a festa precisa ser, de fato, para todos.

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Transmissao e feita por um telao
Transmissão é feita por um telão
FOTO: CARNAVALESCO

A presença da intérprete permite que pessoas com deficiência auditiva acompanhem o conteúdo narrativo dos desfiles, compreendendo o enredo, os símbolos e a mensagem levada à Avenida. A novidade foi celebrada pelo público, que destacou a importância da medida como marco de inclusão. A tradução é transmitida em um telão na Passarela do Samba.

Thais de Souza de 31 anos
Thaís de Souza, de 31 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A profissional de educação física Thaís de Souza, de 31 anos, ressaltou o valor educacional e social da iniciativa.

“É muito interessante visualizar a tradução em Libras ao longo do enredo, porque Libras é a segunda língua nacional e infelizmente não temos isso presente nas escolas. Dessa forma, a Sapucaí se torna ainda mais acessível para o público com deficiência auditiva”, pontuou.

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Daniele Lúcio, de 48 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Daniele Lúcio, de 48 anos, servidora pública e profissional da educação, a inclusão vai além da escuta: envolve pertencimento.

“É de suma importância, porque aqui não tem só pessoas que ouvem. A Sapucaí precisa ser um lugar de inclusão. Apesar deles não ouvirem, eles sentem a vibração da bateria e agora podem visualizar o enredo em Libras. Parabéns para quem teve essa ideia. Eu sei a importância da linguagem de sinais em qualquer ambiente. É uma língua que conecta as pessoas, mesmo que existam variações”.

Alegoria “Cais da Memória”, da Porto da Pedra, resgata a chegada das Polacas e expõe exploração de mulheres

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A primeira alegoria da Unidos do Porto da Pedra, intitulada “Cais da Labuta Meretrícia”, trouxe à tona uma das páginas mais silenciadas da história brasileira. O carro retrata a chegada das “polacas” ao país, mulheres judias do leste europeu trazidas pela máfia Zwi Migdal com falsas promessas de casamento, que acabaram escravizadas na prostituição da Zona Portuária do Rio de Janeiro.

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Andressa Urach no desfile da Porto da Pedra
Andressa Urach no desfile da Porto da Pedra
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Cercadas por monstros marinhos que simbolizam o medo da travessia e a violência da exploração, elas são lembradas como vítimas de um sistema cruel, e como símbolo de resistência diante do abandono e do preconceito.Vindo à frente do carro, a musa Andressa Urach retornou ao carnaval após 13 anos e afirmou que o desfile teve um significado pessoal e coletivo.

“Me sinto honrada. Estou há 13 anos longe do Carnaval e, quando recebi o convite da Porto da Pedra, senti que precisava estar aqui para dar voz a essas mulheres. Minha fantasia fala das profundezas do oceano, mas é uma homenagem às polacas, vítimas de tráfico humano, que sofreram abusos e não escolheram essa profissão. Ainda hoje existem mulheres que passam por isso. Quando o país olhar para elas com respeito, como cidadãs que merecem direitos básicos, como moradia e acesso a empregos e a lazer, as coisas podem mudar. A Porto da Pedra está sendo um divisor de águas ao trazer voz para essas mulheres que também merecem direitos e proteção”, enfatiza Urach.

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A advogada Priscila Dima
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A advogada Priscila Dima defendeu a importância da autonomia feminina ao representar essa memória: “É o marco de uma revolução das mulheres entenderem que podem ser o que quiserem, seja em casa, na cama ou na rua. A mulher não precisa da opinião alheia para definir quem é. Ela pode escolher o próprio caminho. Apesar do machismo ainda existir e mulheres morrerem todos os dias, é fundamental que elas reconheçam o próprio potencial, tenham independência emocional e financeira e não se submetam a abusos”, pontua.

Sobre os “monstros” que ainda cercam as mulheres, ela acrescentou: “O machismo é um deles, mas também existe a dependência emocional e financeira. Mesmo quando conquistam autonomia, muitas ainda se submetem a abusos psicológicos e físicos. Isso vem de uma construção histórica que precisa ser enfrentada”.

Luta diária por inclusão

A advogada Mônica Alexandre dos Santos ressaltou que a história das polacas dialoga com outras experiências femininas mais atuais, que também são marcadas pela exploração.

“Eu já conhecia a história das polacas. Eu e minha amiga Glória Ramos estudamos as trajetórias de mulheres pretas pós 1888 e sabemos como essas histórias de exploração atravessam gerações. Apesar delas serem formadas apenas por mulheres brancas, aqui no carro, somos duas mulheres negras representando essa memória, como forma de mostrar que as mulheres, independentemente da raça, são vulneráveis a exploração”, afirma.

A amiga, a professora Glória Ramos trouxe a identificação com a luta cotidiana das mulheres como uma forma poderosa de passar a mensagem do enredo: “Não é apenas uma representação, somos nós mesmas. Mulheres negras trabalhadoras que matam um leão por dia. Essa é uma homenagem às profissionais do corpo que ainda sofrem preconceito. E todas as mulheres são trabalhadoras, com ou sem carteira assinada. As donas de casa são trabalhadoras. Estão sempre na luta”.

Enredo contra o preconceito

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O dentista Sérgio Adriano
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O dentista Sérgio Adriano, responsável pela organização da alegoria, apontou o caráter inclusivo da proposta do carro, destacando que ele é muito mais abrangente do que apenas representar as polacas.

“A principal mensagem do enredo é que não pode ter preconceito. Embora o carro represente as polacas, ele também dialoga com outras mulheres que vieram ao Brasil e foram exploradas, como as mulheres negras que foram trazidas escravizadas e são marginalizadas até hoje. A mensagem principal é quebrar preconceitos. É um enredo que inclui, não exclui”.

Ao falar sobre os “monstros” atuais, ele não hesitou em trazer o problema para os homens: “O feminicídio acontece a toda hora e não tem classe social. Qualquer homem sem caráter pode cometer esse crime. Não precisa ser um marinheiro, um empresário rico da Faria Lima pode ser um feminicida: O país precisa mudar essa história e criar leis mais rígidas para proteger as mulheres”.

Porto da Pedra converte preconceito em dignidade na ala ‘Somos Mulheres do Lar’

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A Unidos do Porto da Pedra levou um dos maiores tabus sociais para a Marquês de Sapucaí. No desfile deste sábado, a escola de São Gonçalo apresentou o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, desenvolvido por Mauro Quintaes, propondo uma reflexão sobre a história e a luta das trabalhadoras do sexo. Dentro dessa narrativa, a Ala 11, “Somos Mulheres do Lar”, ganhou força ao evidenciar que, por trás do estigma, existem mães, filhas e chefes de família que encontram no trabalho o sustento e a dignidade de seus lares.

Detalhes da ala
Detalhes da ala
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A fantasia misturou elementos domésticos, como avental, tábua de passar e boneca, com referências à vida noturna, dialogando diretamente com o verso do samba-enredo: “Também sou moça de família / Mãe e filha, meu sustento vem da luta”.

Para falar sobre essa representação, participaram Rafael Martins, de 38 anos, desfilando na escola há quatro anos; Silvano de Castro, de 50 anos, há cinco anos na agremiação; e Juliana D’Arc de Souza Magalhães, de 31 anos, professora, que desfila na Porto da Pedra há mais de 15 anos.

A profissional do sexo também é mãe e chefe de família

Ao comentar a dualidade presente na fantasia, Rafael Martins avaliou que a sociedade ainda enxerga a profissional do sexo apenas pelo viés do prazer e da luxúria, apagando sua dimensão humana: “Existe um processo de subalternização dessa profissão. A sociedade tende a enxergar a profissional do sexo apenas pelo viés do prazer, como se ela estivesse ali apenas por diversão ou luxúria, ignorando completamente que, por trás daquela figura, existe uma pessoa com necessidades pessoais e responsabilidades familiares como qualquer outra”, afirmou.

Silvano de Castro destacou que o preconceito parte de uma visão que desconsidera as escolhas individuais: “As pessoas olham para isso com um preconceito desnecessário. Cada indivíduo sabe o caminho que está traçando para sua própria vida e as escolhas que faz. Não cabe a ninguém ficar criticando ou tentando se meter na vida alheia”.

Juliana DArc de Souza Magalhaes de 31 anos
Juliana D’Arc de Souza Magalhães, de 31 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Juliana D’Arc de Souza Magalhães ressaltou que a proposta da ala foi justamente ampliar o olhar sobre essas mulheres: “A ideia foi trazer que não é só esse lugar de profissional, mas que também existe uma mãe por trás dessas mulheres. São mulheres completas, não apenas a profissão”.

“Meu sustento vem da luta”: trabalho e dignidade
O verso do samba-enredo ecoou como uma declaração de resistência e sobrevivência. Para Rafael Martins, a frase representou um posicionamento claro sobre respeito e valorização: “Eu vejo essa mensagem como um grito de afirmação. Todas as profissões são importantes para a engrenagem da sociedade. Elas precisam ser valorizadas e tratadas com o devido respeito. Não é uma vida fácil; é uma forma de sobrevivência e sustento que merece reconhecimento como qualquer outra jornada de trabalho”.

Silvano de Castro reforçou que não existe trabalho sem desafios. “Não existe vida fácil em nenhum tipo de trabalho. Eu enxergo a prostituição como um trabalho como qualquer outro. Ela possui dificuldades e desafios da mesma forma que qualquer emprego formal teria”.

Juliana também associou o verso à realidade do sustento diário. “É uma forma de ganhar dinheiro. É uma profissão. Não deixa de ser uma maneira de colocar o alimento de cada dia na mesa, de levar comida para o filho”.

Representatividade para enfrentar o preconceito

RAFAEL MARTINS
Rafael Martins
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A ala também trouxe à tona a realidade de mulheres que escondem a profissão da própria família por medo do julgamento social. Para Rafael Martins, colocar esse debate na avenida foi um passo importante na quebra de estigmas. “Quando trazemos essa discussão para o desfile, mostramos que a remuneração e o sustento que vêm do trabalho, seja ele qual for, são fundamentais para a dignidade humana. Essa representatividade na avenida é um passo importante para quebrar o estigma e mostrar a realidade dessas mulheres”.

SILVANO DE CASTRO
Silvano de Castro
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Silvano de Castro enxergou a iniciativa como um enfrentamento direto ao conservadorismo: “Tudo aquilo que bate de frente com o conservadorismo é extremamente importante. A ala trouxe essa história e essa mensagem necessária para a avenida, e é sob essa ótica de resistência e visibilidade que devemos enxergar essa iniciativa”.

Juliana destacou que o silêncio muitas vezes nasce do medo do julgamento: “O esconder é pelo medo do que vai ser julgado, do que vai ser pensado em relação a elas. Trazer aqui que todas são mães, são donas de casa, são mulheres, ajuda a diminuir esses preconceitos”.

Porto da Pedra transforma Perpétua, de ‘Tieta’, em símbolo contra a hipocrisia na Sapucaí

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A Unidos do Porto da Pedra levou para a Sapucaí o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite”, desenvolvido pelo carnavalesco Mauro Quintaes. Entre os setores que provocaram reflexão está a Ala 09 – “Perpétua Moralidade”, que usa ironia e crítica social para questionar o julgamento direcionado às trabalhadoras do sexo. Inspirada na personagem Perpétua, da novela Tieta, a ala representa o dedo apontado de quem condena em público, mas esconde contradições na intimidade.

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A fantasia mistura símbolos religiosos, marcas de beijo e o gesto de silêncio, compondo uma alegoria visual sobre hipocrisia, desejo reprimido e falso moralismo.

Monica Maia de 62 anos
Monica Maia, de 62 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para falar sobre o significado desse desfile, participaram Monica Maia, de 62 anos, corretora e há dois anos na escola; Jeferson Vieira, de 28 anos, desempregado e há três anos na agremiação; e Nélia Cláudia, de 51 anos, babá e integrante da Porto da Pedra há sete carnavais.

A sociedade ainda é muito parecida com Perpétua?
Para os três componentes, a personagem ultrapassa a ficção e dialoga diretamente com a realidade brasileira. Monica Maia acredita que o país ainda convive com uma cultura forte de julgamento, especialmente contra mulheres.

“A gente ainda vive numa sociedade que aponta muito o dedo, principalmente para as mulheres. Existe um discurso moral muito forte, mas que nem sempre corresponde às atitudes. A Perpétua é esse retrato da hipocrisia: condena publicamente, mas esconde seus próprios desejos”, afirmou.

Jeferson Vieira relaciona essa postura ao comportamento nas redes sociais e ao discurso moralista que nem sempre corresponde à prática: “A gente vê muito isso nas redes sociais: pessoas julgando, atacando, falando de moral e bons costumes, mas vivendo outra realidade escondida. A Perpétua não é só uma personagem, ela representa um comportamento que ainda é muito comum”.

Já Nélia Cláudia destaca que o julgamento recai, sobretudo, sobre quem foge dos padrões sociais: “Existe uma cultura de julgamento muito forte, principalmente contra mulheres que fogem do padrão. Infelizmente ainda temos muito disso no nosso dia a dia”.

Os símbolos religiosos e as marcas de beijo: o que representam?
A fantasia da ala aposta no contraste entre o sagrado e o profano para evidenciar contradições. Para Monica, os elementos visuais funcionam como um choque proposital: “Os símbolos religiosos representam essa imagem de pureza que muita gente quer sustentar. Já as marcas de beijo mostram o outro lado, aquilo que é escondido. E eu acho que é por aí ninguém é totalmente santo, e julgar o outro é muito fácil quando não se olha para si mesmo”.

Jeferson Vieira 28 anos
Jeferson Vieira, de 28 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Jeferson interpreta o figurino como uma crítica direta à fachada moral: “Os símbolos religiosos mostram essa aparência de santidade, enquanto os beijos representam os desejos e as atitudes escondidas. Acho que todo mundo tem suas contradições, então antes de julgar, é preciso ter consciência disso”.

Nélia reforça a ideia de denúncia presente na composição visual: “A religião é importante, mas muitas vezes é usada como instrumento para julgar. As marcas de beijo mostram que por trás do discurso moral existe desejo, existe contradição”.

Desfilar contra o falso moralismo é uma forma de protesto?

Na avaliação dos três integrantes, levar essa crítica para a Avenida transforma o desfile em manifestação artística e política. Monica vê o Carnaval como espaço histórico de questionamento: “Quando a gente entra na Avenida com essa mensagem, está dizendo que a sociedade precisa rever seus preconceitos. É um protesto feito com arte”.

Jeferson destaca que o debate ganha ainda mais força por estar inserido em um enredo que trata das trabalhadoras do sexo: “Quando a gente critica o falso moralismo, está defendendo o direito dessas mulheres serem vistas como trabalhadoras e como seres humanos. É um protesto por respeito”.

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Nélia Cláudia, de 51 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Para Nélia, o tema exige coragem e posicionamento: “A gente está falando de um tema sensível, que muita gente prefere fingir que não existe. Levar isso para a Sapucaí é dizer que essas mulheres merecem respeito e dignidade”.

Trajadas com peso histórico, baianas da Maricá apresentam os balangandãs

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Com tabuleiros à cabeça, as baianas de Maricá evocaram o empoderamento feminino e a força do enredo “Berenguendéns e balangandãs”, assinado por Leandro Vieira. A fantasia das matriarcas do samba remete à luta de mulheres que, ainda no período da escravidão, conquistaram a própria liberdade por meio da venda de adornos e joias metálicas compostas por pingentes e símbolos diversos.

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Fabiana Dantas. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A indumentária traduz o núcleo simbólico do enredo: as negras do tabuleiro, que transformaram as joias em forma de conquistar a alforria.

Em seu terceiro ano na ala, Fabiana Dantas destacou a liberdade como eixo central da representação.

“É imensamente gratificante fazer parte das baianas. Hoje representamos as negras do tabuleiro, com frutas e pães. O enredo mostra a importância da liberdade, não só do povo negro, mas do ser humano como um todo, seja branco, preto, homem ou mulher”, afirmou.

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Detalhe fantasia das baianas. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

As componentes também ressaltam o esforço necessário para evoluir com a fantasia, marcada pelo brilho do ouro das joias, pelas estampas africanas nas cores do pavilhão e pelo tradicional tabuleiro de ganho.

“Leve nunca é, mas com esforço e amor ao que a gente faz, a gente consegue levar”, afirmou Fabiana.

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Apesar do peso, Gisele Bárbio destacou a beleza, o conforto e a potência histórica da indumentária.

“Estou achando essa fantasia maravilhosa. Ela traz ancestralidade. Os balangandãs mostram a força das mulheres. Tenho fé que seremos campeãs. Não é leve, mas é confortável. Vamos arrasar”, disse.

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Gisele Barbio. Foto: Marina Santos/CARNAVALESCO

Veterana da ala, Juliana Nunes se orgulha de representar a herança das mulheres que trabalharam em busca da própria liberdade. Para ela, o empoderamento feminino segue atual e necessário.

“A gente fala de empoderamento feminino, e é muito importante ver isso na avenida, reafirmando que queremos e podemos ser livres”, concluiu.

Última alegoria da Porto da Pedra transforma ofensa em símbolo de reafirmação: ‘Lute como uma puta’

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A Porto da Pedra transformou o encerramento de seu desfile em um ato político com a alegoria “Uma Puta Mulher!”, que propôs a ressignificação da palavra “puta” — até hoje usada como xingamento — para uma expressão de orgulho, força e luta pelos direitos das mulheres.

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Detalhes da alegoria da Porto da Pedra
Detalhes da alegoria da Porto da Pedra
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O carro trouxe uma escultura da ativista Lourdes Barreto e também homenageou Gabriela Leite, fundadora da grife Daspu. Ambas foram pioneiras na criação do movimento das trabalhadoras do sexo no Brasil, que luta por direitos civis e trabalhistas para essas mulheres, além de ser contra a estigmatização.

Juma Santos representou a Tulipas do Cerrado
Juma Santos representou a Tulipas do Cerrado
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Com a ativista Indianarae Siqueira e Raquel Pacheco, a famosa “Bruna Surfistinha”, como destaques, a alegoria reuniu representantes de ONGs e coletivos de trabalhadoras sexuais de diferentes regiões do país. Juma Santos representou a Tulipas do Cerrado, movimento de trabalhadores sexuais do Distrito Federal, e comentou a emoção de participar do momento.

“Eu sou uma trabalhadora sexual com mais de 50 anos aí na estrada. Está sendo muito emocionante para mim estar aqui nesse carro, porque essa é uma pauta que tem que ser discutida. Hoje em dia, quando vão falar de puta ou prostituta, falam de ‘job’. Cada um inventa um termo diferente para nos ofender, mas somos todas profissionais”, desabafa.

Bruna Surfistinha e Indianarae Siqueira
Bruna Surfistinha e Indianarae Siqueira
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já Cleide Almeida é da Vila Mimosa, famoso reduto de prostituição do Rio de Janeiro. Ela ressaltou a importância de Lourdes e Gabriela para o movimento.

“A figura de ambas começaram toda essa história. Elas são como as nossas ancestrais, e nós estamos dando continuidade a essa luta, que é de resistência e de empoderamento, pela justiça social e direitos humanos”, comenta Cleide.

Cleide e a amiga Betania
Cleide e a amiga Betânia
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Amiga de Cleide, Betânia Santos, prostituta em São Paulo, completou: “Para a gente, essa homenagem é muito forte. Lourdes Barreto e Gabriela Leite são as protagonistas na defesa do trabalho sexual e das prostitutas do Brasil”.

‘Lute como uma puta’

Sobre a ressignificação do slogan “Lute como uma puta”, Cleide leva uma certeza consigo: “A Gabriela sempre achou que tínhamos que quebrar esse tabu. Quanto mais as pessoas se acostumarem a falar ‘eu sou uma puta’, a sociedade vai aceitar um pouco mais, com mais respeito e dignidade”.

Betânia enfatizou o poder de levar essa mensagem para uma vitrine mundial como a Sapucaí:“É para que mais pessoas entendam que a puta, assim como qualquer outro cidadão, tem direito, além das necessidades básicas,como ao lazer, ao trabalho e à cultura”, completa.

Camisa Verde e Branco 2026: Galeria de fotos do desfile

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Maricá aposta na força da bateria e na fusão de ritmos para incendiar a Sapucaí

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A confiança tomou conta dos ritmistas na Marquês de Sapucaí neste sábado (14), durante o segundo dia de desfiles da Série Ouro. Integrantes da União de Maricá reforçaram um discurso em comum: pertencimento, reconhecimento e a certeza de que o trecho “Vá dormir com esse barulho” pode ecoar como grito de vitória. O CARNAVALESCO ouviu componentes que apostam na força da bateria e na ousadia rítmica como trunfos na disputa pelo tão sonhado acesso.

A principal aposta, segundo os próprios componentes, está na cadência da bateria e na fusão entre o samba carioca e ritmos como ijexá e adarrum. A combinação, vista como ousada e identitária, é tratada como elemento capaz de levantar o público e diferenciar a escola na Avenida.

“Esse ano a Maricá sobe, é nosso. Acho que a Sapucaí vai levantar com o ‘Vá dormir com esse barulho’”, afirma Gabriela Mendes, de 24 anos, técnica de segurança do trabalho, que desfila há quatro anos pela escola. Sobre a mistura do samba com o ijexá e o adarrum, ela destaca: “Brasil é isso, uma grande mistura de ritmos, acho bacana levarmos isso pra Avenida também”. Antes de entrar na pista, Gabriela mantém um ritual simples e simbólico: conferir o instrumento, garantindo que tudo esteja perfeito para o grande momento.

Gabriela Mendes de 24 anos tecnica de seguranca do trabalho
Gabriela Mendes, de 24 anos, técnica de segurança do trabalho
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

No mesmo tom de confiança, Thalita Ribeiro, de 28 anos, advogada, encara seu segundo desfile pela Maricá com entusiasmo renovado: “Ainda não tenho superstição, acho que vou criar. A bateria vai ser o diferencial. Diferente de todas as outras baterias a de Maricá vai ser a chave para o título”, projeta. Para ela, o refrão de “Vá dormir com esse barulho” tem potência suficiente para não deixar ninguém parado nas arquibancadas.

Thalita Ribeiro de 28 anos
Thalita Ribeiro, de 28 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A advogada também enxerga na construção rítmica um elemento estratégico. Ao comentar a presença do ijexá e do adarrum na estrutura do samba, Thalita resume: “É a chave que estava faltando para o nosso 40”. A referência à pontuação máxima revela o foco competitivo da escola, que aposta na inovação sem abrir mão da raiz do samba carioca.

Gustavo Hinago de 18 anos
Gustavo Hinago, de 18 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A percepção é compartilhada por Gustavo Hinago, de 18 anos, produtor de eventos, que não hesita ao apontar o ponto alto do desfile: “A chave para o título da Maricá é a bateria com toda certeza. O samba carioca com o ijexá e o arredum foram o casamento perfeito”.

Armados de fé e ferro: a mística de Ogum reluz na segunda alegoria da União de Maricá

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A União de Maricá desfilou na noite deste sábado, na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro, sendo a sexta agremiação a cruzar a Avenida em busca de uma vaga no Grupo Especial de 2027. Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a escola levou para a pista um mergulho na força dos amuletos e das proteções ancestrais. No segundo carro alegórico, “Ogum e a Forja do Metal”, o contraste visual e espiritual marcou a noite. Em entrevista ao CARNAVALESCO, componentes da composição “Armadura de Ogum” falaram sobre fé, pertencimento e emoção.

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Se o primeiro momento do desfile reluzia em dourado, o segundo mergulhou no prateado intenso do ferro. A alegoria religiosa e guerreira trouxe cães puxando o carro, atabaques metalizados e uma estética marcada por ferramentas ligadas ao orixá. Vestidos predominantemente em prata e metal, os componentes incorporaram a tecnologia africana de forjar o ferro, evocando proteção e resistência. A transição cromática simbolizava não apenas mudança visual, mas também um chamado à força espiritual.

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Igor Barbosa. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Devoto de São Jorge, sincretizado com Ogum, o fisioterapeuta Igor Barbosa, de 28 anos, viveu o desfile como um ato de fé. “Sou devoto, carrego comigo um terço e um escapulário de São Jorge que levei na igreja para benzer. Foi uma emoção muito grande vir nesse carro, com essa fantasia. Assim que vi o carro no barracão fiquei encantado, mas só tive dimensão dele hoje, vendo aqui na Avenida. Ele é muito maior do que eu imaginava”, contou. A armadura prateada, para ele, não era apenas figurino, mas extensão de sua devoção.

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Leandro. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A relação com a proteção espiritual também esteve presente no discurso de Leandro, de 40 anos, analista de sistemas. “Não tenho uma religião, mas acredito na proteção de São Jorge/Ogum. Acredito que ele vai guiar o desfile de toda a escola. No barracão como é bem apertado, eu não tinha dimensão do tamanho dele, me surpreendi quando vi hoje. Acredito que a escola vai cantar do início ao fim e vamos rumo ao título”, afirmou. Entre crença pessoal e energia coletiva, o sentimento era de confiança.

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Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

O enredo ressalta o balangandã como amuleto, como arma simbólica no corpo, e essa ideia atravessava os relatos. Igor reforçou que a preparação espiritual foi essencial para entrar na Avenida protegido. “Só a emoção de estar aqui já me faz ter energia suficiente para cantar e me emocionar o desfile inteiro”, concluiu. 

Visualmente impactante, o segundo carro impressionou desde o barracão até o momento do desfile. Os cães que puxavam a alegoria reforçam o aspecto guerreiro, enquanto os atabaques prateados ampliaram a atmosfera ancestral. Para os componentes, ver o conjunto pronto foi um momento de descoberta.