Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a União de Maricá foi a sexta escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de desfiles da Série Ouro.
Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A comissão foi assinada pelo coreógrafo Patrick Carvalho e veio composta exclusivamente por mulheres negras, a comissão esteve intimamente ligada à ideia de empoderamento feminino e à construção simbólica da mulher negra como vitrine para o luxo e a exuberância das joias.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, Patrick Vieira falou sobre todo o suporte que a diretoria da escola lhe deu para trabalhar e entregar uma comissão a altura da agremiação.
“Apresentação maravilhosa. Uma comissão que eu idealizei, a escola me deu estrutura e consegui trazer para avenida tudo o que foi planejado”, disse.
O experiente casal Fabrício Pires e Giovanna Justo se apresentou com a fantasia “Realeza e identidade”. Vestindo-se à moda africana, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira ostentou signos de realeza para mencionar o universo estético que o enredo aborda. Ao final do desfile, Fabrício falou sobre a apresentação.
“Fizemos um projeto com cumplicidade, elegância, olho no olho, cadência e mantendo a pegada tradicional. Estamos muito motivados com o desfile”, comentou Fabrício.
Com o enredo “O Papa Negro: Tata Tancredo e o Fundamento do Omolokô”, desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Paulo, a Estácio de Sá mergulhou nas raízes do Morro de São Carlos para contar a trajetória de Tancredo Silva.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
A escola, que joga no quintal de casa, dispensa apresentações e se colocou como uma das candidatas ao título da Série Ouro.
O primeiro casal, Feliciano e Raphaela, protagonizou uma exibição de gala sob o título “Sentinelas da Fé”. Cria da comunidade, Feliciano falou com o CARNAVALESCO sobre a dificuldade de desfilar com óleo na pista.
“A gente tentou imprimir o melhor possível de acordo com o ensaio técnico, mas infelizmente tinha óleo na pista e aí de certa forma a gente acaba sentindo um pouquinho, mas nada que pudesse atrapalhar a apresentação. A gente foi o mais fiel possível, mesmo estando de roupa, mesmo estando diante do calor e tal, mas eu acredito que foi uma bela apresentação”, comentou.
A Estácio de Sá reafirmou sua fama de escola de chão. A harmonia foi o combustível do desfile, impulsionada pela interpretação de Tinganá, que conduziu o samba com sua ala musical com técnica e garra.
“Estou emocionado demais. Pedi tanto por esse momento, pedi tanto por isso, papai do céu, os orixás me ouviram, me atenderam.
Eu não tenho o que reclamar. Essa correria deixa a gente cansado, mas a gente tem que agradecer, porque se a gente reclama, eles vão tirar da gente. Deus tira, os orixás tiram. Então a gente tem que agradecer sempre. Mesmo tendo dificuldade, a gente tem que agradecer, porque uma hora vai melhorar. E hoje não foi diferente. A gente pediu, agradeci, deu tudo muito certo, o resultado tá aí. A gente desempenhou um bom trabalho. Gostaria de parabenizar o nosso carnavalesco, Marcos Paulo, que escreveu esse enredo maravilhoso sobre o Tata Tancredo. E ele tirou onda, não só o nosso carnavalesco, o nosso presidente, todo o nosso carro de som, bateria, medalha de ouro do Mestre chuvisco, tirou onda mais uma vez. Normal, né? Bateria de medalha de ouro, então tira onda. E a toda a nossa comunidade de São Carlos. Que veio também, desceu em peso o nosso morro. Soltaram fogos no começo, ao final em cima. Então a gente tem que agradecer. Agradecer o nosso morro, gratidão, gratidão sempre”, declarou.
Sob a regência do mestre Chuvisco, a bateria “Medalha de Ouro” foi um show a parte com muito samba e macumba, levando o público ao delírio.
“Foi um desfile maravilhoso, né?
Ensaiamos muito para fazer um desfile desse nível. Foi do jeito que a gente imaginou, do jeito que a gente programou.
Deu tudo certo. Estácio arrebentou, quebrou tudo. Agora vamos ver, quinta-feira, o resultado. Se Deus quiser, a gente vai voltar ao grupo especial. E no próximo ano está comemorando o nosso centenário no grupo especial”, disse.
Com o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, o Império Serrano dispensa apresentações. E, quando a escola honra as suas raízes ao fazer homenagens a personalidades negras, e principalmente do sexo feminino, já se sabe que, no mínimo, vai emocionar a Avenida.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, o presidente Jeferson exaltou o Império Serrano e aposta na força dos quesitos da escola para ser campeão da Série Ouro.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
“Depois de tantas dificuldades, nós chegamos aqui para fazer o que o Império Serrano vai fazer de melhor, que é desfilar. A gente não precisa da cambalhota, a gente não precisa de firula para ganhar o Carnaval ou qualquer outra coisa. Carnaval são quesitos. E graças a Deus o Império Serrano tem vários muito bem defendidos. E aí, o resultado é isso aí. Eu quero agradecer a comunidade, a diretoria, todo mundo por esse trabalho maravilhoso”, disse.
A comissão de frente coreografada por Marlon Cruz apostou na emoção. O Império Serrano apresentou Ponciá-Evaristo a partir de suas referências fundadoras: a mãe, as tias, as mulheres do cotidiano, a ancestralidade e a escrita.
“Já falei uma coisa que o carnaval nos traz, né? Falar de pessoas que falam da gente. Eu não tenho nem palavras para explicar essa situação. A Conceição Evaristo fala da minha mãe, fala da minha avó, fala da minha história, fala dos meus amigos que morreram na comunidade Bairro Novo Horizonte, lá em Nilópolis, beirando a Via Light. Fala do meu tio, fala do meu avô. A Conceição retrata a minha história, que não é dita em poesia, através da escrevivência. Eu me sinto realizado de contar um pouquinho da história dessa mulher”, declarou.
O primeiro casal, Matheus Machado e Maura Luíza, vestiu “O Mulungu Ancestral e a Flor do Mulungu”, em que o mestre-sala representou a árvore sagrada, que simbolizou a memória profunda, a raiz africana e o tempo longo da diáspora. Já a porta-bandeira simbolizou a síntese da potência feminina negra e figura central da escrevivência-enredo. A flor é estado de graça, é beleza que nasce da resistência, é a mulher negra que verte em leite a seiva que dá a vida.
“Estamos muito satisfeitos. Tenho certeza que a gente executou o trabalho com perfeição. Foi tudo concluído na maneira que, aliás, superou a nossa expectativa”, disse Matheus.
“É uma emoção muito grande pra mim. Foi uma temporada de superação. Foi uma temporada de resiliência. É uma emoção… Eu tô estravazando agora, né? Você subiu ao posto de primeira, sendo segunda, você sempre tem aquela coisa de será que vai dar certo? É uma aposta. Será que ela vai dar conta? Eu respirei fundo, trabalhei e consegui. Espero que a apresentação tenha sido na altura que o Império Serrano merece. Eu tô muito feliz”, completou Maura.
Na Avenida, o som também desfila. A Ala 17 da Unidos da Ponte, “O Paredão Periférico”, transforma um dos maiores símbolos dos bailes black e do funk carioca em imagem de memória e resistência cultural. O paredão de som, muitas vezes visto apenas como equipamento, surge como guardião de tradição e identidade periférica.
A fantasia associa a estética robusta das caixas de som a formas que remetem a totens ancestrais africanos, sugerindo que a batida também carrega história. Raios estilizados representam a vibração eletrizante que atravessa o corpo, enquanto olhos e grafismos evocam o universo visual dos bailes nas periferias, territórios onde a música funciona como pertencimento e ocupação simbólica.
Sérgio Teixeira, 59 anos, está desfilando pela terceira vez na escola, e vê na ala um reencontro com sua própria juventude.
“Estar na Ponte representando o paredão do baile significa muito porque é a minha juventude na minha escola, uma experiência maravilhosa. É incrível ver que o antigo se mistura com o atual. O baile da antiga ainda está presente no baile funk, seja na música ou na estética. Hoje é dia de sambar e dançar funk, a mistura mais incrível do Rio de Janeiro”.
A internacionalização dessa cultura também se faz presente na Avenida. Cecília Raimundo, argentina, 61 anos, autônoma e há três anos desfilando na escola, ao mesmo tempo que vive no Brasil, fala sobre o impacto dessa experiência.
“Aprender a cultura brasileira é sentir no sangue, é um misto de sentimentos. Estou há três anos no Brasil e ao mesmo tempo que desfilo na Unidos da Ponte. Pretendo continuar até o dia que eu partir. É muito interessante ver funk e samba juntos porque os brasileiros vivem a música profundamente. O ritmo é intenso na dança e transmite uma cultura e um amor pelas tradições brasileiras que eu amo.”
Daniel Carvalho, 40 anos, hidrotécnico e no segundo ano desfilando pela Unidos da Ponte, destaca o caráter afetivo da ala ao conectar o enredo com sua própria trajetória nas periferias cariocas.
“Está sendo muito importante vivenciar esse desfile que retrata a minha juventude. Eu sou de Madureira e escutei muito funk, ainda escuto de vez em quando. O samba e o funk juntos têm tudo a ver, é o ritmo carioca, enraizado na periferia e que retrata o subúrbio do Rio”.
Na Ala 17, o som não é apenas ouvido, é sentido. A vibração do paredão ocupa o corpo, conduz o passo, organiza a dança e transforma a Avenida em território periférico legitimado.
Ao associar tecnologia sonora à ancestralidade africana, a Unidos da Ponte reafirma que o funk não rompe com a tradição: ele é continuidade. É herdeiro de uma linhagem rítmica que sempre usou o tambor, ou a caixa de som, como instrumento de afirmação.
Quando o grave ecoa na Sapucaí, não é apenas festa. É memória amplificada. E no Rio, quando o paredão liga, a história também dança.
O Arranco do Engenho de Dentro trouxe para Sapucaí o enredo “A Gargalhada é o Xamego da Vida!” da carnavalesca Annik Salmon.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
Outra mulher que também estava a frente da escola é Laisa Lima, a única mestra de bateria do carnaval carioca. Ela transformou a presença feminina no comando da bateria em marca histórica da Sapucaí.
“Nossa bateria é uma família. Estou vivendo um sonho. Conseguimos fazer tudo o que planejamos, acho que até melhor. Estamos desde abril trabalhando e espero que os jurados entendam”, declarou Laisa em entrevista ao CARNAVALESCO.
Quem também terminou o desfile muito emocionado foi o mestre-sala Diego Falcão, que fez questão de enaltecer a força da comunidade para colocar o Arranco no lugar em que ele merece estar.
“Mais um ano de superação. A nossa luta é muito árdua. Nossa escola não tem patrono, é a comunidade lutando por ela mesma. Estou com a sensação de ter feito o meu melhor e com a certeza de que os jurados vão nos olhar com bons olhos”, disse.
A comissão de frente foi outro ponto alto da agremiação. Coreografada com rigor cênico pelos coreógrafos Lipe Rodrigues e Márcio Dellawegah, a comissão transportou o público para o Circo Teatro Guarany por meio de bailarinos caracterizados como palhaços clássicos, em uma performance que fundia dança e acrobacia.
“A gente queria trazer um pequeno ato em um alegoria mínima que trouxesse a intenção de um palco, de baú de memórias e felicidade. Acho que conseguimos atingir esse objetivo com alegria e um povo alegre por ver tantas cores, tanta maquiagem para homenagear a galera circense que muitas das vezes não é valorizada. Então, podemos com muito respeito representar os circenses e a história dessa palhaça negra”, comentou a dupla.
Encerrando os desfiles da Série Ouro na noite do último sábado, na Marquês de Sapucaí, a Unidos da Ponte transformou o abre-alas em síntese do enredo “Tamborzão: O Rio é baile! O poder é black!”, conectando ancestralidade africana, cultura do funk e estética tecnológica em uma mesma pulsação visual.
A primeira alegoria traduziu em imagem e movimento a proposta do carnavalesco Nícolas Gonçalves, ao celebrar o funk como força cultural das periferias e herança negra em permanente reinvenção. O abre-alas conectou tecnologia, referências rituais africanas e efeitos de pulsação em 150 batidas por minuto, velocidade comum ao gênero. Enquanto as máscaras evocavam a origem dos batuques, os elementos luminosos apontavam para o presente do baile.
Steve B no abre-alas da Unidos da Ponte. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O cantor estadunidense Stevie B, conhecido por misturar freestyle, hip-hop e funk, esteve presente na alegoria como símbolo do diálogo internacional da batida negra.
“A sensação é incrível. Isso aqui é uma experiência enorme com a cultura brasileira. São 6 horas da manhã, mas a gente tem que aguentar e realmente desfrutar”, afirmou o cantor.
Apesar de já conhecer o país, Stevie disse ainda se surpreender com a intensidade do ritmo: “150 BPM é uma velocidade alta para qualquer um. Mesmo depois de alguns anos vindo ao Brasil, é a primeira vez que sinto isso tão de perto”.
Raíssa Real. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A funkeira Raíssa Real, de 23 anos, estreante pela Unidos da Ponte, também foi destaque no abre-alas e celebrou o desfile ao lado de nomes importantes do gênero. Segundo ela, a alegoria evidenciou mulheres africanas, o DJ monumental e as caixas de som que remetem aos paredões dos bailes.
“Tem muita ancestralidade africana, do início do tamborzão ao funk atual. Eles misturaram essas estéticas e eu achei incrível. O enredo está lindo, a música é linda. Acho que vai entregar bastante”, afirmou.
Rafael Rocha. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O figurinista Rafael Rocha, de 27 anos, também em seu primeiro desfile pela escola, surgiu caracterizado como “Exu da Batida”, fantasia que unia referências afro-religiosas a cabos e conexões do universo sonoro do baile.
“É uma energia de chegada. Mesmo sendo a ponta final do conjunto de abertura, sinto que estou ajudando a colocar essas batidas para jogo. Minha fantasia é a própria batida, e chegar na avenida já nessa vibração do tamborzão é muito impactante”, finalizou.