A terceira escola a desfilar no primeiro dia do Grupo Especial do Rio em 2026, a Portela levou para a Avenida o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”, mergulhando na trajetória do Príncipe Custódio. No recorte apresentado pelo segundo carro alegórico, a escola apostou na imponência do palácio e na força simbólica da corte para traduzir a altivez de um nobre africano que atravessou o Atlântico e fincou história no Brasil. No alto da alegoria, destaques sustentavam a narrativa com postura, figurino e interpretação que conversavam diretamente com o enredo.
O carro que representava a corte de Custódio evocava o antigo reino do Benin com a presença do professor Valter Costa, de 65 anos, no alto da segunda alegoria. Valter assumiu o papel com entrega e consciência do que representava. Ao falar sobre a preparação para transmitir a altivez do Príncipe Custódio, ele destacou que
houve cuidado físico e ensaios intensos para atravessar a Marquês de Sapucaí com firmeza.
“Eu me cuidei muito, ensaiei, fiz um preparo com muita água de coco, para poder passar e passar bem na Avenida”, revelando os bastidores.
A fantasia luxuosa, repleta de aplicações e pedrarias, era parte fundamental dessa construção. Segundo Valter, o peso do figurino não foi encarado como obstáculo, mas como aliado na composição da postura.
“Minha fantasia é luxuosa, mas acredito que o peso e o luxo vão se unir, o famoso útil ao agradável”, afirmou, explicando que a própria estrutura da roupa ajuda a sustentar a imponência exigida pelo personagem.
Na posição de destaque, cada passo precisava ser seguro e cada gesto teatralizado com imponência e confiança.
“Ninguém pode deixar de notar as pedrarias e a performance da figura representada”, ressaltou.
O carro era símbolo de resistência, memória e nobreza africana recriadas pela agremiação.
A Ala 01 transformou a Avenida em território espiritual ao celebrar o Turé, ritual indígena praticado por povos originários do extremo norte do Brasil. A cerimônia, marcada pela gratidão aos seres do Outro Mundo, guia simbolicamente o reencontro do Xamã Babalaô com sua Amazônia Negra.
Componentes da ala FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Com cinco fantasias distintas formando um grande mosaico social e espiritual, a ala inaugural funcionava como rito de passagem. Mais do que um setor coreográfico, é um chamado: um convite para que público e componentes atravessem juntos a fronteira entre mundos do cotidiano ao sagrado, do material ao ancestral.
Matheus Camelo, de 30 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Matheus Camelo, de 30 anos, analista financeiro e estreante na Mangueira, descreve o momento como transformação pessoal e coletiva.
“Muita emoção ser o primeiro ano na escola e já estar na primeira ala. Sinto que abri meus caminhos. A responsabilidade era grande para dar gás na avenida e deu certo. A primeira ala precisa entrar bem e trazer a torcida com a gente. Se a gente entra para baixo, a arquibancada sente. Hoje eu agradeço à Mangueira por tudo que ela ensina ao povo. O próprio enredo é algo que muita gente ainda não conhecia”, comenta.
Julia Santana, de 24 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Julia Santana, de 24 anos, analista de pesquisa de mercado e estreante na agremiação, o Turé se conecta diretamente à identidade mangueirense.
“É muito emocionante ser a primeira ala da Mangueira porque eu sou mangueirense. Mostramos na avenida para o que viemos e o nosso chão firme. Nosso principal ritual é olhar para todos os ancestrais. O enredo do Amapá, da Amazônia Negra, trouxe essa mistura presente na avenida”, diz.
Rosilene Souza Batista, de 53 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Já Rosilene Souza Batista, de 53 anos, doméstica e estreante na verde e rosa, reforça o sentimento coletivo da comunidade: “A emoção domina meu corpo, seja em qualquer ala dessa escola. Nossa comunidade merece o título, merece respeito. Falar do Amapá no Rio de Janeiro é mostrar que o Brasil vai muito além do Sudeste”.
A Portela foi a terceira escola a desfilar neste domingo e apresentou o enredo “O mistério do príncipe do Bará, a oração do Negrinho e a ressurreição da sua coroa sobre o céu do Rio Grande”, desenvolvido pelo carnavalesco André Rodrigues. Na Avenida, a azul e branco de Madureira exaltou a ancestralidade negra no Sul do Brasil, colocando no centro da narrativa a trajetória do Príncipe Custódio e a força do Batuque gaúcho. Ao propor um “Pampa Negro”, a escola rompeu o imaginário do gaúcho exclusivamente europeu e reposicionou o Rio Grande do Sul como território também marcado pela presença e resistência preta.
Para falar sobre essa ressignificação, a reportagem conversou com três componentes: Wallace Costa, 37 anos, estudante, estreante na escola e integrante da ala Lanceiros Negros; Mirela Rocha, 42 anos, professora da UFRJ, portelense desde a infância e também estreante na Avenida; e Vander Anacleto, 43 anos, bancário gaúcho que fez seu primeiro desfile pela azul e branco.
O enredo mudou a visão sobre o Sul do Brasil?
Wallace Costa afirmou que foi o enredo que despertou sua paixão pela Portela.
“Ver a nossa história preta sendo contada de uma forma que nunca foi contada mexeu comigo. Eu desfilo na ala Lanceiros Negros e não conhecia a fundo essa história. Fiquei muito emocionado e orgulhoso de fazer parte dessa ala, conhecendo a trajetória dos Lanceiros Negros que foram enganados. Eles tinham a promessa de serem libertos da escravidão, caso vencessem uma guerra onde usaram lanças contra armas. Venceram e a promessa não se cumpriu. Vir nessa ala me faz viver um momento histórico”, declarou.
Mirela Rocha, nascida no extremo sul de Santa Catarina, em uma cidade de forte cultura gaúcha, destacou que cresceu em meio a uma narrativa embranquecida. “É uma história muito branca, uma história que foi apagada. Eu sou devota do Negrinho do Pastoreio desde criança, algo que minha avó me ensinou. Quando o enredo traz o Príncipe Custódio com o Batuque e o Negrinho recontando essa história, coroando o Príncipe Custódio e o Bará, vejo como uma reinvenção da narrativa preta no Rio Grande do Sul. É recuperação de memória, mas também reinvenção”, afirmou.
Ela ressaltou ainda a potência simbólica do personagem. “O Negrinho do Pastoreio é uma criança escravizada que permanece na memória popular. A Portela o coloca em um lugar de potência. É isso que o Carnaval faz: reconta a história desde um lugar de força”, disse.
Vander Anacleto explicou que, por ser gaúcho, sempre soube da presença negra no estado. “Eu já tenho vivência de que lá existe o povo preto além dos imigrantes. Para mim, não muda a visão, e é justamente por isso que vim desfilar na Portela, para enaltecer o povo preto do Rio Grande do Sul”, afirmou.
Qual a importância de a maior campeã contar essa história?
Para Wallace Costa, o protagonismo da Portela amplia o alcance da mensagem. “É extremamente importante mostrar a nossa história, a história que não é contada. O nosso povo é muito apagado nesse estado. Dizer que nós fizemos parte da construção daquele território e que o estado também é preto é fundamental”, afirmou.
Mirela Rocha destacou a relevância religiosa e cultural do tema. “Existe uma história que ainda não foi contada em relação ao Batuque. Proporcionalmente, o Rio Grande do Sul é o estado que mais tem terreiros de matrizes africanas no Brasil. O Batuque é uma tradição muito própria desse território, muito importante e pouco estudada. Trazer isso para a Avenida é fundamental”, disse.
A professora também chamou atenção para o simbolismo de sua ala. “Eu vou desfilar na ala Orixás. Vamos representar um xerê de Batuque na Avenida, de pés descalços. Isso evoca ancestralidade e permite que o Brasil conheça, pela Portela, uma tradição essencial”, concluiu.
Vander Anacleto reforçou o peso simbólico da escola. “É de muita importância porque traz visibilidade ao povo preto gaúcho. Ter a maior campeã do Carnaval do Rio de Janeiro apresentando esse samba com essa potência amplia essa narrativa”, afirmou.
Você já conhecia o Príncipe Custódio? O que mais impressiona em sua história?
Wallace Costa contou que conheceu a trajetória a partir do enredo. “Eu não conhecia a fundo a história. Quando li o enredo, fiquei apaixonado. A junção com o Negrinho do Pastoreio me tocou muito. Isso me fez querer mostrar a minha cara e fazer parte de tudo isso”, disse.
Mirela Rocha ressaltou a importância histórica do líder religioso. “O Batuque e as expressões afro-gaúchas já existiam antes dele, mas o Príncipe Custódio populariza essa religiosidade entre a classe média e a burguesia gaúcha, que passam a procurá-lo. Ele tira essa prática do lugar exclusivo da criminalização. Essa é uma importância gigantesca”, afirmou.
Ela também se emocionou ao falar da dimensão simbólica do enredo. “A lenda do Negrinho do Pastoreio sempre me tocou. Um dia sonhei que, no enredo da Portela, ele vinha montado na águia, e não no cavalo. O Carnaval não apenas ensina o que não sabemos, mas reconta a história de outro jeito. Trazer essa narrativa de uma nova forma é o que é realmente fundamental”, concluiu.
Vander Anacleto destacou a postura do Príncipe Custódio em um contexto adverso. “No tempo em que ele viveu, já conseguia afirmar sua negritude, manter o terreiro e o Batuque. Se hoje já é difícil, naquela época era muito mais. Isso nos dá ainda mais orgulho”, afirmou.
Encerrando a homenagem a Ney Matogrosso, a ala 22, “Bota pra ferver (Eu quero é botar meu bloco na rua)”, levou à Marquês de Sapucaí diferentes performances e caracterizações do cantor em uma grande celebração popular. Cada personagem apresentou um estilo próprio, unificado pela defesa da liberdade estética e corporal, transformando a festa em espaço de encontro, expressão e pertencimento.
Integrantes das ala “Bota pra ferver”. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Gerente de 35 anos, Rodrigo Madeira, 35 anos, gerente, desfilou pela primeira vez na Imperatriz motivado pela homenagem. Sua fantasia fazia referência ao traje sadomasoquista de inspiração militar, associado à estética gay power. Para ele, a identificação com o enredo passa pela trajetória de Ney na defesa da liberdade de expressão, especialmente da população LGBTQIAPN+.
Rodrigo Madeira, 35 anos, gerente. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
“Para quem é gay, como no meu caso, é uma forma de realmente poder ser quem você é, sem medo, sem pudor. Quem vem da década de 80, um período mais complexo do que o nosso, poder mostrar numa festividade dessa quem você é… isso é gostoso, porque não tem julgamento”, afirmou.
Mônica Tavares, 46 anos, Técnica em enfermagem. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Técnica em enfermagem, Mônica Tavares, 46 anos, desfila na escola há quatro anos. Ela destacou a emoção de unir dois afetos: a Imperatriz e Ney Matogrosso. Sua fantasia representava um cigano sensual, com calça em camadas, moedas douradas e lenço na cabeça.
“O nome do enredo já diz tudo: ‘Camaleônico’ é mutação, transformação, é o direito de se expressar sem medo de ser feliz, de se jogar mesmo”, declarou.
Luzimar Aragão, 50 anos, é integrante da Imperatriz há 16 anos. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Luzimar Aragão, 50 anos e integrante da escola há 16, ressaltou o significado político da homenagem. Sua fantasia remetia à maquiagem burlesca com adornos de pelo, evocando as múltiplas imagens de Ney ao longo da carreira.
“Representar esse artista multifacetado, que sempre levantou a nossa bandeira, é um orgulho enorme. Não só pela comunidade LGBT, mas por todos que enfrentam o preconceito em um país como o nosso”, disse.
Ariane Oliveira, 27 anos, maquiadora. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Ariane Oliveira, 27 anos, maquiadora, desfila na Imperatriz há cinco anos e surgiu caracterizada como cigana de saia vermelha volumosa e elementos dourados. Ela também destacou o trabalho do carnavalesco Leandro Vieira na renovação estética da escola.
“É uma escola que está sempre se reinventando, como o próprio camaleão. O Leandro gosta da novidade, de mostrar o que sabe fazer, e ele está transformando a Imperatriz”, afirmou.
Na Avenida, a ala reuniu sensualidade, teatralidade e diversidade visual em releituras marcantes dos figurinos de Ney Matogrosso, convertendo memória artística em celebração coletiva da liberdade.
Do sertão ao terreiro, a Pérola Negra transformou a avenida em palco para a trajetória de Maria Bonita. Sexta escola a desfilar neste domingo, a agremiação apresentou o enredo “Valei-me Cangaceira Arretada, Maria que Abala a Gira, Valente e Bonita que Vence Demanda” assinado pelo carnavalesco André Machado.
A escola desenvolveu a personagem desde o cangaço histórico até sua consagração espiritual na umbanda, mantendo coerência entre fantasias, alegorias e proposta temática. O desfile seguiu com regularidade na pista, sustentado por boa harmonia e evolução constante.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Alê Batista, a comissão de frente foi dividida em dois grupos: policiais e cangaceiros. A encenação colocou em cena o confronto direto entre repressão e resistência, tendo Maria Bonita como personagem central.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
Durante a apresentação, os policiais detêm os cangaceiros, executam o parceiro de Maria Bonita e a capturam. A coreografia foi marcada por embates físicos que deram intensidade dramática à cena. Em um dos momentos mais marcantes, Maria Bonita risca a faca no chão do Anhembi, gesto que reforça sua postura de enfrentamento e resistência.
A proposta foi objetiva e alinhada ao enredo, traduzindo com clareza o conflito que marcou a trajetória da personagem homenageada.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Natália e Kawe executaram os movimentos obrigatórios previstos no regulamento com segurança e precisão. O sincronismo do casal foi um dos pontos positivos da apresentação.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
Representando Maria Bonita e Lampião, a dupla construiu uma coreografia que dialogava diretamente com o enredo, mantendo postura firme e coerente com a temática. A apresentação nos módulos foi excelente e tecnicamente bem resolvida.
HARMONIA
A Pérola Negra manteve o canto em bom nível do início ao fim, com a escola sustentando o mesmo tom ao longo da pista.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
O rendimento crescia especialmente nas bossas, com destaque para o trecho “o povo do samba te aplaude nesse cortejo de fé”, quando o canto se elevava e ganhava maior força coletiva. Lucas Donato e Juan Briggs conduziram o carro de som com firmeza, mantendo a energia do desfile.
EVOLUÇÃO
A Pérola apresentou evolução constante ao longo do percurso. Os componentes desfilaram soltos e alegres, mantendo regularidade no andamento e boa ocupação da pista.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
A agremiação encerrou seu desfile em 58 minutos dentro do tempo regulamentar, confirmando controle do andamento e organização até o fim do percurso.
FANTASIAS
As fantasias representaram com clareza os setores do enredo e facilitaram a leitura da história. O conjunto visual combinou com a estética do cangaço e com os elementos espirituais associados à Maria Bonita.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
Destaque para a ala das passistas, que trouxe um colorido vibrante ao desfile, enriquecendo a composição visual. Também chamaram atenção as alas posicionadas atrás do terceiro carro, que reforçaram o impacto do setor.
ALEGORIAS
O conjunto alegórico apresentou bom acabamento e manteve coerência com a proposta narrativa. O abre-alas foi um dos pontos mais fortes do desfile, com uma escultura imponente de Lampião no topo.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
A última alegoria teve destaque ao trazer Maria Bonita em seu terreiro, consolidando a transição da figura histórica para entidade cultuada na umbanda.
No conjunto, as alegorias cumpriram seu papel de ilustrar a história contada, mantendo clareza e alinhamento com a proposta.
SAMBA-ENREDO
O samba, composto por Lucas Donato, Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Marcos Vinícius, Chico Maia, Mateus Pranto, Fabian Juarez e Salgado Luz, foi um dos sustentáculos da apresentação.
A obra apresenta fácil assimilação e favoreceu o canto coletivo, contribuindo para o bom rendimento da escola ao longo do desfile.
OUTROS DESTAQUES
Joyce Rocha teve atuação segura como rainha de bateria, com presença marcante e boa interação com o ritmo da escola.
A bateria manteve regularidade e sustentação do samba durante todo o percurso, reforçando o bom desempenho musical da agremiação no Grupo de Acesso 1.
A agremiação apresentou o enredo “Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo”. O grande destaque da apresentação foi o conjunto musical, além do casal de mestre-sala e porta-bandeira. O samba-enredo empolgou, a escola cantou com força e o intérprete Tiganá teve atuação segura. Já a dupla Edgar Carobina e Graci Araújo exibiu elegância e desempenho que pode render bons frutos na apuração.
COMISSÃO DE FRENTE
Liderada pelo coreógrafo Celso Arruda, a comissão de frente foi intitulada “Abrindo os caminhos – Na encruza, encontro da rua com a arte”. A coreografia teve proposta mais simples, com bailarinos caracterizados como damas e malandros executando movimentos coreográficos alinhados ao samba, concentrados sobre o elemento alegórico denominado “A Encruzilhada”.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
A encenação contou ainda com a presença de Exu, representado por um bailarino que realizava movimentos coreográficos no chão, reforçando o simbolismo da cena. Ao fundo, um tripé simulava um bar, com garçons sambando, compondo o ambiente boêmio sugerido pelo enredo.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com a fantasia “A Águia abraça a boemia com a cidade”, Edgar Carobina e Graci Araújo realizaram um desfile consistente. Executaram os movimentos obrigatórios com precisão e demonstraram sincronia evidente ao longo da apresentação. A harmonia entre ambos ultrapassa o contexto do Carnaval paulistano, e na avenida confirmaram o motivo de estarem à frente do pavilhão da escola.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
HARMONIA
Foi um dos melhores desempenhos de canto da Nenê de Vila Matilde nos últimos anos. Desde 2022, quando a escola conquistou o acesso do Grupo de Acesso 2 ao Acesso 1 com a reedição de “Narciso Negro”, não se via tamanha entrega da comunidade.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
A melodia favorece o canto forte, especialmente no refrão principal, momento em que a escola cresce na avenida. O intérprete Tiganá foi peça-chave nesse resultado, conduzindo a comunidade com energia constante e mantendo o samba pulsante do início ao fim.
ENREDO
O enredo “Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo” teve como proposta retratar a emblemática esquina das avenidas São João e Ipiranga, ponto histórico da capital paulista onde está localizado o tradicional Bar Brahma.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
A narrativa foi apresentada de maneira simples e direta. Elementos como prédios icônicos da cidade, o ambiente boêmio e referências a personalidades da música foram inseridos de forma clara, garantindo fácil compreensão do público.
EVOLUÇÃO
A evolução foi o quesito mais delicado do desfile. Logo no início, houve espaçamento significativo entre o abre-alas e a ala das baianas, abrindo cerca de 12 a 13 grades e provocando uma divisão perceptível da escola.
Também se notou correria desnecessária por parte dos componentes, estimulada pela própria liderança, o que acelerou o andamento além do ideal. Esse ritmo apressado dificultou a compactação adequada entre alegorias e alas, criando espaços frequentes e certa tensão para manter os carros em movimento. Foram riscos que poderiam ter sido evitados com maior controle de desfile.
SAMBA
Tiganá estreou no comando do carro de som da Nenê de Vila Matilde e teve desempenho positivo. O intérprete empolgou o público com sua característica vibrante e utilizou cacos que animaram a comunidade, mantendo a energia da Águia da Zona Leste em alta.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
O entrosamento entre o carro de som e a bateria contribuiu para sustentar o rendimento musical da escola ao longo da apresentação.
FANTASIAS
O carnavalesco Danilo Dantas mantém uma concepção clara de figurino por onde passa. Opta por fantasias de menor volume, permitindo maior liberdade de movimento aos componentes. Na Nenê de Vila Matilde, essa escolha ficou evidente, favorecendo a evolução e o canto dos desfilantes, sem que costeiros ou adereços de cabeça atrapalhassem.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
Esteticamente, o conjunto apresentou cores vibrantes e acabamento satisfatório. As fantasias foram um ponto positivo do desfile.
ALEGORIAS
A primeira alegoria representou “Visão romântica e boemia de São Paulo antiga”. Com uma águia de grandes proporções e predominância do dourado, o carro trouxe referências arquitetônicas da capital paulista. Houve um momento de apreensão na concentração, quando o abre-alas apresentou falha técnica, permaneceu apagado e demorou a se movimentar. Após alguns minutos, o problema foi solucionado, mas o susto marcou o início do desfile.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
O segundo carro simbolizou “A esquina musical – Um abraço à cultura da cidade”, com esculturas de personalidades ligadas à cena musical paulistana, reforçando a proposta temática.
A última alegoria apresentou “No palco do samba – Todos se encontram em Sampa”. O carro trouxe esculturas de malandro, baianas e painéis de LED exibindo cenas que remetiam ao ambiente do Bar Brahma dentro do Anhembi, representado na figura de um camarote.
No conjunto, apesar do susto inicial, a escola apresentou alegorias de leitura fácil e sem falhas evidentes de acabamento.
OUTROS DESTAQUES
A “Bateria de Bamba”, comandada pelo mestre Matheus, imprimiu o ritmo característico da Nenê de Vila Matilde, com destaque para a potência dos surdos, que deram sustentação firme ao samba-enredo.
Um excelente desfile da bateria “Swing da Leopoldina” (SL) da Imperatriz Leopoldinense, sob o comando de mestre Lolo. Uma conjunção sonora de raro valor foi apresentada junto de um leque de bossas dançantes e impactantes. Impressionante a fluência musical de todos os naipes, propiciado por uma grande afinação de surdos, com ótima distinção entre os timbres.
Na parte da frente da bateria “SL” da Imperatriz, um naipe de cuícas de raro valor mostrou uma ressonância acima da média. Uma ala de chocalhos tecnicamente apurada exibiu um grande trabalho tocando junto de um naipe de tamborins com coletividade musical ímpar. Simplesmente sensacional o casamento musical entre os chocalhos e tamborins leopoldinenses, valorizando o belo trabalho das peças leves da Rainha de Ramos.
Na cozinha da bateria da Imperatriz, uma afinação de surdos primorosa foi notada. A equalização de timbres ficou diferenciada, destacando a sonoridade dos graves de forma impecável. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com precisão e segurança. Surdos de terceira com um balanço extraordinário foram importantes tanto em ritmo, quanto nas execuções bem feitas dos arranjos. Uma ala de repiques altamente técnica tocou junto de um naipe de caixas de guerra bastante ressonante, evidenciando um trabalho magistral dos naipes médios.
Bossas profundamente conectadas à melodia do samba foram realizadas com precisão cirúrgica. Todas com conteúdo indicando densidade musical e boa diferenciação entre os mais variados timbres, abrilhantando o melodioso samba da escola do bairro de Ramos. Um conjunto de bossas particularmente dançantes foi exibido, auxiliando na evolução do componente da escola, além de encantar júri e plateia. Destaque para o trecho “canto com alma de mulher”, onde a bateria leopoldinense com “desbunde”, “desafia o fácil”, como o samba mesmo solicita no verso anterior. Um arranjo que ousou desafiar a síncope do samba, refinando a sonoridade da bateria da Imperatriz.
Uma apresentação excelente da bateria da Imperatriz Leopoldinense, dirigida por mestre Lolo. Um ritmo enxuto, equilibrado e muito bem equalizado foi exibido. Tudo com um conjunto de bossas bastante dançante e musical, que ajudou a impulsionar a obra melodiosa da escola, além de auxiliar os desfilantes. A apresentação no último módulo teve bom efeito energético, além de uma perfeita execução de bossas, coroando esse grande desfile da “Swing da Leopoldina”.
Primeira a cruzar a Marquês de Sapucaí neste domingo, a Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles do Grupo Especial com um enredo de forte impacto social. Em “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, a agremiação homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e colocou no centro da Avenida o debate sobre a fome. A Ala 14, intitulada “A fome tem pressa”, sintetizou o recado: combater a insegurança alimentar é decisão política e compromisso coletivo.
Detalhes da fantasia da Ala FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A fantasia chamou atenção por sua dicotomia. O real estampado ao lado de um prato vazio traduzia, de forma visual e didática, a ideia de que renda significa comida na mesa. A proposta remetia ao contexto de 2003, quando o país enfrentava índices alarmantes de insegurança alimentar e políticas públicas de combate à fome passaram a ocupar o centro da agenda nacional.
Letícia Martins, de 39 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Para Letícia Martins, de 39 anos, pedagoga que desfila há cinco anos com a escola, a responsabilidade é compartilhada. Ela defende que Estado e sociedade precisam caminhar juntos no enfrentamento do problema.
“Trazer esse tema faz com que as pessoas possam sair da sua bolha e enxergar o mundo como um todo, não acho que seja um ato político trazer isso para avenida e sim um ato humanitário”, disse.
O contador Felipe Costa, de 34 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
O contador Felipe Costa, de 34 anos, em seu segundo ano na escola, também interpreta a fantasia como uma mensagem direta sobre redistribuição de renda. Para ele, dinheiro no bolso representa comida no prato, e o Estado precisa agir em parceria com a sociedade. Felipe entende o combate à fome como política pública e acredita que expor o problema na vitrine global do Carnaval é uma forma de pressionar por soluções conjuntas.
Luiz Couto, 34 anos, supervisor de eventos, reforça a ideia de corresponsabilidade. Ele pondera que não basta cobrar ações do poder público se a própria sociedade alimenta divisões e intolerâncias: “Não adianta a sociedade reclamar e continuar pregando o ódio”, afirmou. O desfile, para ele, prova que o Carnaval também é território de consciência.
Hayres Muniz, 29 anos, motorista que desfila há três anos, associou o enredo à memória de mudanças percebidas desde o início dos anos 2000.
“O mundo todo fica vidrado no carnaval, então a Acadêmicos de Niterói trazendo a história do Lula que ajudou a combater a fome lá em 2002, eu era bem pequeno e você vê a mudança, de lá pra cá a população consegue ir ao mercado, comprar o básico, uma sobremesa, coisas que eu não tive na minha infância e hoje uma mãe pode proporcionar isso com mais facilidade para seus filhos”, relatou.
Já a professora Camila Matheus, 46 anos, no terceiro desfile pela escola, citou trecho do samba: “Comida na mesa do trabalhador, a fome tem pressa, então é importante que a gente saia da miséria, o dinheiro está aí justamente para ajudar nessa questão”, finalizou a componente.
Professores, pais e ex-alunos de universidades públicas defenderam o direito à educação pública na Sapucaí durante o desfile da Acadêmicos de Niterói, que abriu a noite do Grupo Especial apresentando a trajetória do presidente Lula.
Ala Prouni da Acadêmicos de Niterói. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
A fantasia remete ao percurso de ascensão social das camadas mais pobres por meio dos estudos. Desenhos de pichações e casas de favela adornam a beca de formatura usada pelos componentes, além de um estandarte em forma de diploma, no qual aparece o curso concluído por cada integrante ou familiar beneficiado por programas sociais. A representação ecoa experiências pessoais vividas por quem desfilou.
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Movidas pelo enredo e pelo amor à educação, sindicalistas formadas em universidades públicas da Bahia viajaram juntas para prestigiar a escola. Suas trajetórias dialogam com a proposta da ala: foram as primeiras da família a ingressar no ensino superior, tornaram-se servidoras públicas e hoje são mães. Como trabalhadoras de universidade pública, relatam que, graças às políticas sociais, o ambiente acadêmico se tornou mais diverso.
Joana Evangelista, sindicalista da área da saúde, é mãe de Rina Evangelista, administradora formada em uma faculdade particular. Segundo ela, o diploma da filha só foi possível graças ao ProUni, programa que concede bolsas integrais ou parciais para estudantes de baixa renda.
“Foi fundamental para a vida dela, porque era um momento financeiro difícil para a gente. Ela sempre teve boas notas, sempre foi muito estudiosa, mas, sem o ProUni, não teria condições de ingressar. Como sou mãe solo, não havia outra renda para ajudar. Ver a vontade dela de crescer e aqueles sonhos sendo realizados foi muito importante”, declarou.
Para Joana, o diploma universitário é instrumento de redução das desigualdades sociais. O ingresso no ensino superior amplia oportunidades, promove ascensão social e fortalece a autoestima dos jovens.
“Muitas vezes, os jovens se sentem humilhados, retraídos. Quando conseguem alcançar aquilo que sonham, a autoestima se eleva e eles passam a estimular outras pessoas. É isso que precisamos: garantir que famílias mais humildes conheçam e exijam seus direitos. Por meio dessas políticas públicas, temos conseguido ao menos diminuir a desigualdade social”, afirmou.
Do outro lado da sala de aula, o professor e doutor em Geografia Cristiano Brito acompanha de perto trajetórias semelhantes às narradas pela escola. Atuante em projetos voluntários e pré-vestibulares comunitários, ele já presenciou alunos de baixa renda, filhos de empregadas domésticas e trabalhadores informais, ingressarem em cursos como engenharia, matemática e medicina. A experiência reforça, segundo ele, a centralidade da educação como política de Estado.
“O acesso precisa ser para todos. Essa é uma pauta prioritária de qualquer governo, porque não existe nação sem educação”, disse.
Após 30 anos de docência, Cristiano avalia que o acesso ao ensino superior produz efeitos que atravessam gerações.
“Hoje, filhos de trabalhadoras domésticas e de pessoas do mercado informal têm essa oportunidade. Muitos já estão inseridos em empregos qualificados, com salários equivalentes aos de outros profissionais. Isso repercute na qualidade de vida, no acesso a direitos e no bem-estar das famílias, inclusive de mães, avós e bisavós que não tiveram essa chance”, concluiu.
A Imperatriz confirmou a força dos últimos carnavais e entregou mais um desfile de muita qualidade, com enredo de fácil assimilação, conjunto plástico impactante e musicalidade muito forte. O samba rendeu muito graças ao excelente trabalho de mestre Lolo e Pitty de Menezes. A comunidade cantou muito forte, assim como a Sapucaí. Com visual bem pautado na estética de Ney Matogrosso, os componentes vieram vestidos com as marcas que esse espetacular artista deixou em sua estética e em sua musicalidade.
Com boas apresentações do casal em todos os módulos, a dúvida fica por conta da comissão e da evolução justamente na cabine espelhada, pois houve pequenos deslizes nessa porção do desfile, como um desequilíbrio do pivô da comissão e um pequeno buraco à frente dos jurados. Uma pena para um desfile primoroso, mas que não tira a Imperatriz da briga pelo título. Ney Matogrosso, o homenageado, veio no último carro com pouca roupa, como gosta, e na pouca roupa o dourado e verde da Imperatriz, em sua clássica estética egípcia, que também levou para os palcos. E, óbvio, veio dançando. O artista foi aclamado pela Sapucaí.
Com o enredo “Camaleônico”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Imperatriz Leopoldinense foi a segunda escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, com o tempo de 79 minutos.
COMISSÃO DE FRENTE
O coreógrafo Patrick Carvalho levou para a Sapucaí a comissão “CAMALEÔNICO – O MUSICAL”, assumindo o traço performático que caracterizou a figura de Ney Matogrosso no imaginário musical brasileiro como recurso poético, enquanto festejou a obra e a carreira da icônica personalidade abordada como enredo. Na indumentária dos componentes, traços do estilo de roupa de Ney, algo meio vedete, meio homem das cavernas. O elemento alegórico que serviu de plataforma para os bailarinos da comissão, em tons de prata, apresentou-se como uma estrutura que fez “do Ney do palco” e “do Ney da coxia” o material criativo daquilo que é exibido de forma artística.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVLESCO
Diante da plateia, “proscênio” e “camarim” estavam disponíveis para a contemplação de um musical coreográfico que se revelou como uma dramaturgia dançante, em que o homenageado foi apresentado a partir da multiplicidade como marca de sua reinvenção artística e do palco como espaço para a metamorfose. Utilizando-se de recursos de ilusionismo e da iluminação do tripé, que ora aumentava, ora diminuía, o componente que representava Ney Matogrosso aparecia e desaparecia em diversos lugares do elemento alegórico. Truque muito parecido com o ilusionismo de “O Segredo”, mas utilizado de maneira diferente.
A comissão apresentou um aspecto que não veio em mais nenhum momento do desfile: o Ney se preparando para o show ainda no camarim, como que uma preparação para a musicalidade do artista que viria a ser apresentada no desfile. Excelente mote narrativo, comissão que dialogou bastante com o público, teve efeito especial forte, dança e sensualidade, marcas do homenageado. Mas, na cabine espelhada, infelizmente aconteceu um desequilíbrio quando o Ney sobe no piano.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Inseridos no setor batizado “Meio homem, meio bicho”, Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro se apresentaram como uma criatura fantástica que mistura aspectos humanos e animais em hibridismo. Ambos estavam inseridos no universo das performances de Ney Matogrosso, cujos figurinos são interpretações artísticas de animais para a criação de um ambiente de transgressões estéticas em constante estado de transformação. O mestre-sala exibiu-se como uma espécie de fauno, e a porta-bandeira como uma criatura híbrida e fantástica. Predominantemente em azul e roxo, que viriam no primeiro carro, a dupla apresentou uma coreografia madura, segura, aproveitando-se de todo o espaço deixado após o avanço do elemento da comissão.
Dança clássica, mas com muita intensidade do casal. Mais de uma vez na apresentação do módulo, Rafaela deu seguidamente mais de dez giros, com muita energia e correção, sempre deixando a bandeira bem desfraldada, pavilhão bem aberto. Com os giros, a saia da porta-bandeira inclusive ia de cima para baixo de forma muito bonita, tamanho o destreza que a porta-bandeira demonstrava, sempre em movimento bem regular. E Phelipe acompanhava, riscando o chão com muita velocidade e perfeição, cortejando a porta-bandeira. O ponto alto foi no “se joga na festa”, quando a dupla até deu uns “pulinhos”, apresentação de alto nível em todos os módulos. Não se observou nada fora de prumo na apresentação da dupla.
Leandro Vieira trouxe para a Sapucaí um desfile focado na obra de Ney Matogrosso, abordando o quanto o artista se constituiu em um corpo que abrigou muitas identidades. E também o fato de esse corpo abrigar muitas identidades e se constituir em um território muito político. A abordagem da escola focou em suas referências estéticas e visuais, os personagens que incorporou, a construção de sua persona pública associada à transgressão e à sua obra musical. O desfile foi muito fiel, inclusive à estética que o artista marcou como própria e levou para os palcos durante toda a sua carreira.
Como não era da proposta do carnavalesco, a Imperatriz não focou na vida do artista, mas em sua obra e suas influências, principalmente na dança, estética e musicalidade. O enredo passou de forma muito didática na Sapucaí. O início trouxe a correlação de Leandro sobre como Ney teve múltiplas identidades estéticas e de obra, comparando-o a um camaleão; depois, sua musicalidade, sua atenção à latinidade, seu vestuário, seus maiores sucessos e, por fim, sua sensualidade.
O setor esteve dividido da seguinte forma: no primeiro setor, o desfile foi inaugurado a partir de uma visão permissiva e surrealista que lança mão do hibridismo de caráter animalesco adotado pelo homenageado na construção do seu imaginário. Em seguida, a escola mostrou Ney Matogrosso apresentado a partir das impressões de sua personalidade artística surgida para o grande público no início dos anos setenta. O terceiro setor mostrou as muitas figurações incorporadas pelo homenageado em seus discos, shows e escolhas musicais pós “Secos e Molhados”, através de uma personalidade que incorporou a transgressão como material poético para a construção de sua carreira artística. Depois, o desfile dedicou-se à menção de sucessos musicais de uma das mais importantes personalidades da MPB. Por fim, a Imperatriz encerrou o seu desfile com um convite para uma festa permissiva e ensolarada que faz de um bloco musical, exclusivamente associado a uma visão hedonista de mundo, o mote para o desfecho narrativo.
EVOLUÇÃO
A Imperatriz começou o seu desfile imprimindo um ritmo muito bom, até pelo andamento escolhido para o samba, pela influência do esquenta que Pitty levou para a Sapucaí e que já teve excelente resposta. Apostando na espontaneidade do componente, a Rainha de Ramos não trouxe um trabalho mais focado em alas coreografadas; ao contrário, a comunidade fazia coreografias muito mais sugestionadas pela própria letra e pelo próprio ritmo do samba. Ponto alto nas dancinhas na bossa do “Canto com alma de mulher” e no “vira, vira, vira lobisomem”.
Apesar da espontaneidade e do bom ritmo durante a maior parte do tempo da escola na Sapucaí, o quesito é onde talvez o jurado possa encontrar algo nesse desfile da agremiação. Isso porque a terceira alegoria, “Sangue Latino”, teve um pouco mais de dificuldade para entrar, fazendo com que naquele momento do desfile se segurasse um pouco mais o andamento. E outro pequeno ponto foi uma pequena demora para o tripé “Secos e Molhados” se movimentar em frente ao segundo módulo, o módulo espelhado, fazendo com que se abrisse um pequeno buraco muito rapidamente. Únicos pontos mesmo.
HARMONIA
Comandado por Pitty de Menezes, o carro de som mais uma vez deu um show de musicalidade, potência e correção, fazendo desde os primeiros minutos do samba a Sapucaí vir com a escola e sendo muito solidário, confiante e ousado ao deixar alguns trechos do samba só com os componentes, para mostrar como havia confiança no canto da comunidade de Ramos. Diversas vezes, a Sapucaí cantou sozinha uma passada do pré-refrão “Se joga na festa”, quando Pitty jogou para a galera, e também o verso final do refrão do meio, “Pois sou homem com H”, foi de arrepiar.
Canto constante do início ao fim, componentes gritando o samba, comunidade interagindo bastante com o público, inclusive com as frisas e arquibancadas cantando junto. Por fim, precisa ser destacado também o trabalho magistral das cordas, com destaque ainda maior na bossa do “Canto com alma de mulher”, quando a bateria faz quase um pagode com MPB e o violão de sete cordas faz uma jogada no baixo, nas notas mais graves, e o cavaquinho vai para outra métrica, nas oitavas acima — para o leigo, “bem no agudinho”. Que musicalidade do carro de som!
SAMBA-ENREDO
O samba, escolhido em meio à junção de duas obras que concorreram no concurso da Imperatriz, tinha como compositores Hélio Porto, Aldir Senna, Orlando Ambrósio, Miguel Dibo, Marcelo Vianna, Wilson Mineiro, Gabriel Coelho e Alexandre. Durante todo o pré-carnaval foi crescendo a música, que foi apontada por muitos como um samba que estava mais abaixo na safra deste ano.
Porém, a obra parece ter chegado ao ponto neste desfile. No primeiro “Se joga na festa”, a Sapucaí cantou sozinha e depois veio junto com Pitty com toda a energia. Se o samba-enredo é de fato uma obra orgânica, talvez até camaleônica como o homenageado, ele passou muito bem na Sapucaí, cumprindo bem o seu propósito, bem relacionado com o desfile, esquentando uma Sapucaí que ainda estava na segunda escola do primeiro dia. Muita sinergia com o público. Destaque, óbvio, para o “Se joga na festa…”. E quem tem grande responsabilidade nisso foi mestre Lolo e Pitty de Menezes. Que musicalidade dão para a Imperatriz. Estão de parabéns.
FANTASIAS
O conjunto de fantasias da Imperatriz foi muito fiel à estética do homenageado, que possui marcas muito próprias no vestuário. Com uma musicalidade muito propensa a gerar o imagético, ou seja, a ser reproduzida em imagens, Leandro, que deve ter conversado muito com o homenageado, conseguiu não só reproduzir e carnavalizar essa musicalidade, como, em muitas alas, vestir a comunidade como o homenageado. E, por isso mesmo, muito do que passou pela Sapucaí era formado por figurinos leves, que mostraram, sim, o corpo do componente, como a ousada fantasia dos passistas da Imperatriz em tons brancos e um collant que imitava pele e que deixava o formato do corpo bem à mostra ou, em alguns casos, nem havia esse collant.
Mas essa nudez, essa sensualidade, fazia parte da proposta do artista. E isso, em nenhum momento, vestiu mal a escola, pois havia um trabalho muito bom de acabamento, uso de materiais de qualidade e paleta de cores bem ornada com o desfile. Aliás, estética bem única, não parecida com nada que Leandro já levou para a Sapucaí. O início do desfile veio em tons de roxo, azul e vermelho, como nas alas “homem-bicho” e “homem-pássaro”. Depois, os tons de palha ao falar do homem das cavernas, mas logo depois o ressignificando no colorido das cores camaleônicas, azul e vermelho, com tons de rosa, finalizando o segundo setor na estética indígena, mantendo o azul, mas colocando o colorido na ala “Um corpo latino e tropical”.
O terceiro setor apostou em um conjunto estético mais rústico ao citar a musicalidade do cantor, com sucessos e o famoso “homem de Neanderthal”, através da figura de ossos e dentes. Tons de palha seguiram nesse setor, com costeiros em penugem, com estética animal e de savana. Destaque para a ala “O bandido”, que manteve a estética das anteriores, mas trouxe o chapéu de vaqueiro, e, nesse setor, para os guardiões do segundo casal, que vinham com roupa de presidiário, mas carnavalizados. O casal também estava muito bonito.
O quarto setor retomou as cores camaleônicas e apresentou alas mais criativas, como a “Pavão misterioso”, com a cabeça e o bico do animal vindo na frente. Nesse ponto, a paleta de cores buscou o branco e, logo depois, o colorido da ala “Sangue Latino”, já trazendo a influência dos povos originários na musicalidade do canto. Mais à frente, a escola seguiu vestindo Ney e suas músicas. Destaque para a ala “Homem com H”, com o figurino de cowboy em rosa-choque.
No último setor, a Imperatriz voltou mais para a sua paleta de cores, primeiro trazendo o dourado na ala “Pro dia nascer feliz”, que ainda fazia uma bonita homenagem a Cazuza, com o rosto do cantor no adereço de mão, e, em seguida, as baianas trazendo tons de verde-cítrico com rosa, roxo e laranja. Nesse setor, destaque para a ala “Bota pra ferver”, com figurinos diferenciados, como o indígena, o policial, o homem de Neanderthal e a cigana, personagens que Ney vestiu e encarnou antes do carro em que ele vinha. Por fim, outro ponto a se destacar foi a maquiagem de algumas alas, bem dentro do estilo que Ney Matogrosso levou para suas apresentações.
ALEGORIAS
A Imperatriz levou para a Sapucaí um conjunto alegórico constituído de cinco carros e dois tripés. Neste desfile, Leandro fez a opção por carros mais altos, o que até foge um pouco do que o artista vinha trazendo, mesmo nos dois últimos carnavais. O conjunto alegórico brincou muito com alguns signos que fizeram parte da obra do homenageado. As alegorias estavam com acabamento muito bom, usaram bem as composições e apresentaram qualidade plástica bem alta.
O abre-alas “Camaleônico” exibiu-se como uma selva noturna e surrealista, revelando, em sua porção frontal, a figura alegórica de Ney Matogrosso como um corpo seminu junto a uma natureza selvagem de caráter fantasioso. Adornado com elementos que lhe emprestavam contorno fantástico e animalesco, o homenageado foi mostrado em harmonia com a natureza selvagem e a vida animal. Nela, houve a presença de materiais diferentes dos já utilizados por Leandro e iluminação diferenciada também, através de pequenas lâmpadas que mudavam o trecho da alegoria iluminado, tipo um pisca-pisca.
A segunda alegoria lançou luz sobre o universo de transgressões incorporadas por Ney Matogrosso durante a construção de sua identidade artística em meio ao conservadorismo e ao cerceamento de liberdades que marcaram a sociedade brasileira durante os anos de ditadura militar. Para abordar esse ambiente, escorpiões e tanques militares compuseram a cenografia da alegoria, e o vermelho e a incandescência das cores a tingiram como chamas.
A terceira alegoria, “Sangue Latino”, fez alusão à condição dos povos originários latino-americanos diante da violenta invasão sofrida durante o período colonial, tendo o seu visual composto pelo sangue derramado, pela reprodução de signos associados à arte pré-colombiana, pela memória dos templos construídos pelos povos originários que compunham as pioneiras civilizações latinas e pela ornamentação floral de natureza tropical acrescida do imaginário das aves associadas à latinidade.
Na quarta alegoria, a escola mostrou a abordagem dos sucessos de carreira do homenageado, destacando o mais famoso clássico do repertório do artista, a canção “O Vira”. A estética tirou partido da abordagem fantasiosa que direcionou a letra da canção, com a reunião de figuras associadas ao folclore de caráter fantástico e supersticioso, recriando um arvoredo de contorno mágico que reuniu brincantes vestidos de fadas, mencionou o gato preto, a luz da lua e, de forma central e agigantada, a figura alegórica do lobisomem.
A última alegoria, “O arauto do jardim das delícias terrenas”, encerrou o desfile fazendo um convite ao prazer e à liberdade desenfreada, através de um lúdico jardim adornado por figuras humanas em estado de entrega sexual e nudez. Nela veio o homenageado à frente, dançando e interagindo com o público. Destaque também para o tripé “Não vejo pecado ao Sul do Equador”, com serpentes e a coroa da Imperatriz. Excelência no quesito.
OUTROS DESTAQUES
A rainha Iza esbanjou samba no pé, representando a serpente com o clima ardente e erotizado do LP lançado por Ney Matogrosso sob o título de “Pecado”. A bateria “Swing da Leopoldina”, de mestre Lolo, levou para a Sapucaí 250 ritmistas e vestiu a fantasia “O arquétipo do pecado”, homenageando justamente o LP do artista intitulado “Pecado”. A estética emoldurada trouxe a capa tingida pela tinta preta da noite, de bandana, brincos de argola e figurino que lança mão de uma estética erotizada.
Na bossa do “Canto com alma de mulher”, os ritmistas, a rainha Iza e o mestre Lolo fizeram coreografia, dando uma voltinha e virando para o público. Em outro momento do samba, iam e voltavam: cada lado da bateria dava um passo para frente e o outro para trás, e voltavam de forma sincronizada.
O vice-presidente João Drumond, em seu discurso, fez questão de agradecer a cada funcionário e a cada componente da escola e lembrou do senhor Luizinho Drumond, seu avô, grande presidente da escola e também da Liesa, que faria aniversário no dia anterior ao desfile, se estivesse vivo.
No esquenta, Pitty de Menezes mostrou que a Imperatriz não precisa colocar música de bloco: o intérprete emendou logo “Cigana Esmeralda” e “Oxalá”, trazendo a arquibancada para junto da escola.