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Imperatriz traz estética rica, musicalidade sublime e canto avassalador

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A Imperatriz confirmou a força dos últimos carnavais e entregou mais um desfile de muita qualidade, com enredo de fácil assimilação, conjunto plástico impactante e musicalidade muito forte. O samba rendeu muito graças ao excelente trabalho de mestre Lolo e Pitty de Menezes. A comunidade cantou muito forte, assim como a Sapucaí. Com visual bem pautado na estética de Ney Matogrosso, os componentes vieram vestidos com as marcas que esse espetacular artista deixou em sua estética e em sua musicalidade.

Com boas apresentações do casal em todos os módulos, a dúvida fica por conta da comissão e da evolução justamente na cabine espelhada, pois houve pequenos deslizes nessa porção do desfile, como um desequilíbrio do pivô da comissão e um pequeno buraco à frente dos jurados. Uma pena para um desfile primoroso, mas que não tira a Imperatriz da briga pelo título. Ney Matogrosso, o homenageado, veio no último carro com pouca roupa, como gosta, e na pouca roupa o dourado e verde da Imperatriz, em sua clássica estética egípcia, que também levou para os palcos. E, óbvio, veio dançando. O artista foi aclamado pela Sapucaí.

* LEIA MAIS: Jesuíta Barbosa se emociona ao dividir alegoria com Ney Matogrosso na Imperatriz Leopoldinense

Com o enredo “Camaleônico”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Imperatriz Leopoldinense foi a segunda escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial, com o tempo de 79 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

O coreógrafo Patrick Carvalho levou para a Sapucaí a comissão “CAMALEÔNICO – O MUSICAL”, assumindo o traço performático que caracterizou a figura de Ney Matogrosso no imaginário musical brasileiro como recurso poético, enquanto festejou a obra e a carreira da icônica personalidade abordada como enredo. Na indumentária dos componentes, traços do estilo de roupa de Ney, algo meio vedete, meio homem das cavernas. O elemento alegórico que serviu de plataforma para os bailarinos da comissão, em tons de prata, apresentou-se como uma estrutura que fez “do Ney do palco” e “do Ney da coxia” o material criativo daquilo que é exibido de forma artística.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVLESCO

Diante da plateia, “proscênio” e “camarim” estavam disponíveis para a contemplação de um musical coreográfico que se revelou como uma dramaturgia dançante, em que o homenageado foi apresentado a partir da multiplicidade como marca de sua reinvenção artística e do palco como espaço para a metamorfose. Utilizando-se de recursos de ilusionismo e da iluminação do tripé, que ora aumentava, ora diminuía, o componente que representava Ney Matogrosso aparecia e desaparecia em diversos lugares do elemento alegórico. Truque muito parecido com o ilusionismo de “O Segredo”, mas utilizado de maneira diferente.

A comissão apresentou um aspecto que não veio em mais nenhum momento do desfile: o Ney se preparando para o show ainda no camarim, como que uma preparação para a musicalidade do artista que viria a ser apresentada no desfile. Excelente mote narrativo, comissão que dialogou bastante com o público, teve efeito especial forte, dança e sensualidade, marcas do homenageado. Mas, na cabine espelhada, infelizmente aconteceu um desequilíbrio quando o Ney sobe no piano.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Inseridos no setor batizado “Meio homem, meio bicho”, Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro se apresentaram como uma criatura fantástica que mistura aspectos humanos e animais em hibridismo. Ambos estavam inseridos no universo das performances de Ney Matogrosso, cujos figurinos são interpretações artísticas de animais para a criação de um ambiente de transgressões estéticas em constante estado de transformação. O mestre-sala exibiu-se como uma espécie de fauno, e a porta-bandeira como uma criatura híbrida e fantástica. Predominantemente em azul e roxo, que viriam no primeiro carro, a dupla apresentou uma coreografia madura, segura, aproveitando-se de todo o espaço deixado após o avanço do elemento da comissão.

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Dança clássica, mas com muita intensidade do casal. Mais de uma vez na apresentação do módulo, Rafaela deu seguidamente mais de dez giros, com muita energia e correção, sempre deixando a bandeira bem desfraldada, pavilhão bem aberto. Com os giros, a saia da porta-bandeira inclusive ia de cima para baixo de forma muito bonita, tamanho o destreza que a porta-bandeira demonstrava, sempre em movimento bem regular. E Phelipe acompanhava, riscando o chão com muita velocidade e perfeição, cortejando a porta-bandeira. O ponto alto foi no “se joga na festa”, quando a dupla até deu uns “pulinhos”, apresentação de alto nível em todos os módulos. Não se observou nada fora de prumo na apresentação da dupla.

ENREDO

Leandro Vieira trouxe para a Sapucaí um desfile focado na obra de Ney Matogrosso, abordando o quanto o artista se constituiu em um corpo que abrigou muitas identidades. E também o fato de esse corpo abrigar muitas identidades e se constituir em um território muito político. A abordagem da escola focou em suas referências estéticas e visuais, os personagens que incorporou, a construção de sua persona pública associada à transgressão e à sua obra musical. O desfile foi muito fiel, inclusive à estética que o artista marcou como própria e levou para os palcos durante toda a sua carreira.

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Como não era da proposta do carnavalesco, a Imperatriz não focou na vida do artista, mas em sua obra e suas influências, principalmente na dança, estética e musicalidade. O enredo passou de forma muito didática na Sapucaí. O início trouxe a correlação de Leandro sobre como Ney teve múltiplas identidades estéticas e de obra, comparando-o a um camaleão; depois, sua musicalidade, sua atenção à latinidade, seu vestuário, seus maiores sucessos e, por fim, sua sensualidade.

O setor esteve dividido da seguinte forma: no primeiro setor, o desfile foi inaugurado a partir de uma visão permissiva e surrealista que lança mão do hibridismo de caráter animalesco adotado pelo homenageado na construção do seu imaginário. Em seguida, a escola mostrou Ney Matogrosso apresentado a partir das impressões de sua personalidade artística surgida para o grande público no início dos anos setenta. O terceiro setor mostrou as muitas figurações incorporadas pelo homenageado em seus discos, shows e escolhas musicais pós “Secos e Molhados”, através de uma personalidade que incorporou a transgressão como material poético para a construção de sua carreira artística. Depois, o desfile dedicou-se à menção de sucessos musicais de uma das mais importantes personalidades da MPB. Por fim, a Imperatriz encerrou o seu desfile com um convite para uma festa permissiva e ensolarada que faz de um bloco musical, exclusivamente associado a uma visão hedonista de mundo, o mote para o desfecho narrativo.

EVOLUÇÃO

A Imperatriz começou o seu desfile imprimindo um ritmo muito bom, até pelo andamento escolhido para o samba, pela influência do esquenta que Pitty levou para a Sapucaí e que já teve excelente resposta. Apostando na espontaneidade do componente, a Rainha de Ramos não trouxe um trabalho mais focado em alas coreografadas; ao contrário, a comunidade fazia coreografias muito mais sugestionadas pela própria letra e pelo próprio ritmo do samba. Ponto alto nas dancinhas na bossa do “Canto com alma de mulher” e no “vira, vira, vira lobisomem”.

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Apesar da espontaneidade e do bom ritmo durante a maior parte do tempo da escola na Sapucaí, o quesito é onde talvez o jurado possa encontrar algo nesse desfile da agremiação. Isso porque a terceira alegoria, “Sangue Latino”, teve um pouco mais de dificuldade para entrar, fazendo com que naquele momento do desfile se segurasse um pouco mais o andamento. E outro pequeno ponto foi uma pequena demora para o tripé “Secos e Molhados” se movimentar em frente ao segundo módulo, o módulo espelhado, fazendo com que se abrisse um pequeno buraco muito rapidamente. Únicos pontos mesmo.

HARMONIA

Comandado por Pitty de Menezes, o carro de som mais uma vez deu um show de musicalidade, potência e correção, fazendo desde os primeiros minutos do samba a Sapucaí vir com a escola e sendo muito solidário, confiante e ousado ao deixar alguns trechos do samba só com os componentes, para mostrar como havia confiança no canto da comunidade de Ramos. Diversas vezes, a Sapucaí cantou sozinha uma passada do pré-refrão “Se joga na festa”, quando Pitty jogou para a galera, e também o verso final do refrão do meio, “Pois sou homem com H”, foi de arrepiar.

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Canto constante do início ao fim, componentes gritando o samba, comunidade interagindo bastante com o público, inclusive com as frisas e arquibancadas cantando junto. Por fim, precisa ser destacado também o trabalho magistral das cordas, com destaque ainda maior na bossa do “Canto com alma de mulher”, quando a bateria faz quase um pagode com MPB e o violão de sete cordas faz uma jogada no baixo, nas notas mais graves, e o cavaquinho vai para outra métrica, nas oitavas acima — para o leigo, “bem no agudinho”. Que musicalidade do carro de som!

SAMBA-ENREDO

O samba, escolhido em meio à junção de duas obras que concorreram no concurso da Imperatriz, tinha como compositores Hélio Porto, Aldir Senna, Orlando Ambrósio, Miguel Dibo, Marcelo Vianna, Wilson Mineiro, Gabriel Coelho e Alexandre. Durante todo o pré-carnaval foi crescendo a música, que foi apontada por muitos como um samba que estava mais abaixo na safra deste ano.

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Porém, a obra parece ter chegado ao ponto neste desfile. No primeiro “Se joga na festa”, a Sapucaí cantou sozinha e depois veio junto com Pitty com toda a energia. Se o samba-enredo é de fato uma obra orgânica, talvez até camaleônica como o homenageado, ele passou muito bem na Sapucaí, cumprindo bem o seu propósito, bem relacionado com o desfile, esquentando uma Sapucaí que ainda estava na segunda escola do primeiro dia. Muita sinergia com o público. Destaque, óbvio, para o “Se joga na festa…”. E quem tem grande responsabilidade nisso foi mestre Lolo e Pitty de Menezes. Que musicalidade dão para a Imperatriz. Estão de parabéns.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da Imperatriz foi muito fiel à estética do homenageado, que possui marcas muito próprias no vestuário. Com uma musicalidade muito propensa a gerar o imagético, ou seja, a ser reproduzida em imagens, Leandro, que deve ter conversado muito com o homenageado, conseguiu não só reproduzir e carnavalizar essa musicalidade, como, em muitas alas, vestir a comunidade como o homenageado. E, por isso mesmo, muito do que passou pela Sapucaí era formado por figurinos leves, que mostraram, sim, o corpo do componente, como a ousada fantasia dos passistas da Imperatriz em tons brancos e um collant que imitava pele e que deixava o formato do corpo bem à mostra ou, em alguns casos, nem havia esse collant.

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Mas essa nudez, essa sensualidade, fazia parte da proposta do artista. E isso, em nenhum momento, vestiu mal a escola, pois havia um trabalho muito bom de acabamento, uso de materiais de qualidade e paleta de cores bem ornada com o desfile. Aliás, estética bem única, não parecida com nada que Leandro já levou para a Sapucaí. O início do desfile veio em tons de roxo, azul e vermelho, como nas alas “homem-bicho” e “homem-pássaro”. Depois, os tons de palha ao falar do homem das cavernas, mas logo depois o ressignificando no colorido das cores camaleônicas, azul e vermelho, com tons de rosa, finalizando o segundo setor na estética indígena, mantendo o azul, mas colocando o colorido na ala “Um corpo latino e tropical”.

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O terceiro setor apostou em um conjunto estético mais rústico ao citar a musicalidade do cantor, com sucessos e o famoso “homem de Neanderthal”, através da figura de ossos e dentes. Tons de palha seguiram nesse setor, com costeiros em penugem, com estética animal e de savana. Destaque para a ala “O bandido”, que manteve a estética das anteriores, mas trouxe o chapéu de vaqueiro, e, nesse setor, para os guardiões do segundo casal, que vinham com roupa de presidiário, mas carnavalizados. O casal também estava muito bonito.

O quarto setor retomou as cores camaleônicas e apresentou alas mais criativas, como a “Pavão misterioso”, com a cabeça e o bico do animal vindo na frente. Nesse ponto, a paleta de cores buscou o branco e, logo depois, o colorido da ala “Sangue Latino”, já trazendo a influência dos povos originários na musicalidade do canto. Mais à frente, a escola seguiu vestindo Ney e suas músicas. Destaque para a ala “Homem com H”, com o figurino de cowboy em rosa-choque.

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No último setor, a Imperatriz voltou mais para a sua paleta de cores, primeiro trazendo o dourado na ala “Pro dia nascer feliz”, que ainda fazia uma bonita homenagem a Cazuza, com o rosto do cantor no adereço de mão, e, em seguida, as baianas trazendo tons de verde-cítrico com rosa, roxo e laranja. Nesse setor, destaque para a ala “Bota pra ferver”, com figurinos diferenciados, como o indígena, o policial, o homem de Neanderthal e a cigana, personagens que Ney vestiu e encarnou antes do carro em que ele vinha. Por fim, outro ponto a se destacar foi a maquiagem de algumas alas, bem dentro do estilo que Ney Matogrosso levou para suas apresentações.

ALEGORIAS

A Imperatriz levou para a Sapucaí um conjunto alegórico constituído de cinco carros e dois tripés. Neste desfile, Leandro fez a opção por carros mais altos, o que até foge um pouco do que o artista vinha trazendo, mesmo nos dois últimos carnavais. O conjunto alegórico brincou muito com alguns signos que fizeram parte da obra do homenageado. As alegorias estavam com acabamento muito bom, usaram bem as composições e apresentaram qualidade plástica bem alta.

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O abre-alas “Camaleônico” exibiu-se como uma selva noturna e surrealista, revelando, em sua porção frontal, a figura alegórica de Ney Matogrosso como um corpo seminu junto a uma natureza selvagem de caráter fantasioso. Adornado com elementos que lhe emprestavam contorno fantástico e animalesco, o homenageado foi mostrado em harmonia com a natureza selvagem e a vida animal. Nela, houve a presença de materiais diferentes dos já utilizados por Leandro e iluminação diferenciada também, através de pequenas lâmpadas que mudavam o trecho da alegoria iluminado, tipo um pisca-pisca.

A segunda alegoria lançou luz sobre o universo de transgressões incorporadas por Ney Matogrosso durante a construção de sua identidade artística em meio ao conservadorismo e ao cerceamento de liberdades que marcaram a sociedade brasileira durante os anos de ditadura militar. Para abordar esse ambiente, escorpiões e tanques militares compuseram a cenografia da alegoria, e o vermelho e a incandescência das cores a tingiram como chamas.

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A terceira alegoria, “Sangue Latino”, fez alusão à condição dos povos originários latino-americanos diante da violenta invasão sofrida durante o período colonial, tendo o seu visual composto pelo sangue derramado, pela reprodução de signos associados à arte pré-colombiana, pela memória dos templos construídos pelos povos originários que compunham as pioneiras civilizações latinas e pela ornamentação floral de natureza tropical acrescida do imaginário das aves associadas à latinidade.

Na quarta alegoria, a escola mostrou a abordagem dos sucessos de carreira do homenageado, destacando o mais famoso clássico do repertório do artista, a canção “O Vira”. A estética tirou partido da abordagem fantasiosa que direcionou a letra da canção, com a reunião de figuras associadas ao folclore de caráter fantástico e supersticioso, recriando um arvoredo de contorno mágico que reuniu brincantes vestidos de fadas, mencionou o gato preto, a luz da lua e, de forma central e agigantada, a figura alegórica do lobisomem.

A última alegoria, “O arauto do jardim das delícias terrenas”, encerrou o desfile fazendo um convite ao prazer e à liberdade desenfreada, através de um lúdico jardim adornado por figuras humanas em estado de entrega sexual e nudez. Nela veio o homenageado à frente, dançando e interagindo com o público. Destaque também para o tripé “Não vejo pecado ao Sul do Equador”, com serpentes e a coroa da Imperatriz. Excelência no quesito.

OUTROS DESTAQUES

A rainha Iza esbanjou samba no pé, representando a serpente com o clima ardente e erotizado do LP lançado por Ney Matogrosso sob o título de “Pecado”. A bateria “Swing da Leopoldina”, de mestre Lolo, levou para a Sapucaí 250 ritmistas e vestiu a fantasia “O arquétipo do pecado”, homenageando justamente o LP do artista intitulado “Pecado”. A estética emoldurada trouxe a capa tingida pela tinta preta da noite, de bandana, brincos de argola e figurino que lança mão de uma estética erotizada.

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Na bossa do “Canto com alma de mulher”, os ritmistas, a rainha Iza e o mestre Lolo fizeram coreografia, dando uma voltinha e virando para o público. Em outro momento do samba, iam e voltavam: cada lado da bateria dava um passo para frente e o outro para trás, e voltavam de forma sincronizada.

O vice-presidente João Drumond, em seu discurso, fez questão de agradecer a cada funcionário e a cada componente da escola e lembrou do senhor Luizinho Drumond, seu avô, grande presidente da escola e também da Liesa, que faria aniversário no dia anterior ao desfile, se estivesse vivo.

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No esquenta, Pitty de Menezes mostrou que a Imperatriz não precisa colocar música de bloco: o intérprete emendou logo “Cigana Esmeralda” e “Oxalá”, trazendo a arquibancada para junto da escola.

Portela 2026: Galeria de fotos do desfile

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Ala “Homem com H” transforma masculinidade em deboche rosa na Imperatriz

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A ala “Homem com H?” chamou atenção no desfile da Imperatriz. Vestidos de rosa, com muito “fru fru” e partes do corpo à mostra, os componentes levaram para a avenida todo o deboche que Ney Matogrosso, homenageado pelo enredo da escola, usou durante sua carreira para questionar os padrões de masculinidade.

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Jociel Santos de 43 anos
Jociel Santos, de 43 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O técnico de enfermagem Jociel Santos, de 43 anos, conseguiu enxergar exatamente esse deboche na proposta da fantasia e alfinetou quem ainda se prende a padrões opressores.

“É deboche, quebra de paradigmas. O Ney fez isso a vida toda, com as canções, com a postura, com a vestimenta e com as atitudes dele. A fantasia vem toda de rosa, com o corpo de fora, ou seja, provocativa. É isso que ela representa. Carnaval é para isso, se libertar e não se levar a sério. A gente não precisa se levar a sério o ano todos A função do carnaval também é educar a sociedade, quebrar paradigmas, mostrar o verdadeiro lado da história. Tem muita seriedade e muita hipocrisia sem necessidade”, analisou.

O ator Rafael Braga de 39 anos
O ator Rafael Braga, de 39 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O ator Rafael Braga, de 39 anos, fez uma reflexão sobre o conceito de masculinidade ao longo da história da humanidade, e destacou Ney como a escolha perfeita da escola para apresentar essa ideia a um grande público.

“A masculinidade é uma construção, assim como a feminilidade. Nos ensinaram a ser de um jeito. Existe um lado ruim dessa masculinidade instituída, quando se usa a força ou a raiva para fazer mal ao outro. O que importa é construir uma masculinidade saudável. Se a gente olha para a história, os homens já usaram saias, perucas, maquiagem e eram considerados másculos e grandes líderes. Hoje, para ser um grande líder e levado a sério, um homem dificilmente poderia usar uma maquiagem por mais simples que fosse. Isso mostra que tudo é construção. O Ney ajuda a desconstruir essa ideia até hoje. A escola escolheu um ícone da nossa cultura que foi transgressor à sua época, um cara que pensava à frente, desmistificado de preconceitos. É importante estar aqui, não só como gay ou hétero, mas como pessoas unidas numa mesma causa, representando todas essas ideias juntas”, desabafou ele, emocionado.

Matheus Andrade e Eduardo Teixeira
Matheus Andrade e Eduardo Teixeira
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Aos 20 anos, Matheus Andrade vê na ala uma herança direta da postura provocadora do artista durante a ditadura.

“O Ney fazia muito isso do deboche. Em uma época em que os artistas eram censurados, ele se posicionava. A nossa roupa rosa, com elementos tidos como femininos pela sociedade, é mais que um deboche. É um posicionamento, como ele fazia. Acho que essa ala diz muito”, acredita.

O amigo dele, Eduardo Teixeira, de 22 anos, reforçou que a mensagem ultrapassa os rótulos socialmente pré-estabelecidos.

“É uma ala para a desconstruir essa ideia de que homem não pode usar rosa, que tem que ser machão. Nem todos aqui são LGBTs, e isso mostra que não existe um ideal único de homem. A gente tem que se jogar, se divertir. Está todo mundo confortável, e isso casa muito com a ideia do Ney. 2026, né, gente? Tem que desconstruir”.

Comissão de frente impactante e samba clássico marcam desfile da Mancha Verde

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A Mancha Verde foi, no último domingo, a quarta escola a desfilar pelo Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo em 2026. Com o enredo “Pelas mãos do mensageiro do Axé, a lição de Odú Obará: a humildade”, assinado por Rodrigo Meiners, a Mais Querida apresentou um desfile marcado por uma comissão de frente impactante e pelo retorno triunfal ao Anhembi de um samba clássico. Os portões da Passarela do Samba foram fechados após 59 minutos de cortejo.

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A Mancha Verde é uma escola de elite que só está no Acesso I por um desvio proporcionado pelo acaso. No Anhembi, a escola resolveu fazer uma apresentação digna de Grupo Especial, e em boa parte dos quesitos fez um desfile dentro do que se esperava. Mas alguns problemas observados na Avenida podem não tornar o desejado retorno tão fácil assim, considerando o alto nível previsto para a disputa em 2026.

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Marcos Kazan e Wender Luciano, a comissão de frente da Mancha apresentou o “Panteão dos Orixás – Olorum revela os caminhos”. Em meio a um mundo tomado pelo desequilíbrio espiritual, Exu transmite a um babalorixá, por meio do jogo de búzios, os saberes sagrados, assumindo a missão de levar à Terra as lições de Olorum. Outros orixás se fazem presentes na dança do quesito, como Xangô, Oxum e Obaluaê, representando os ensinamentos dos quais o babalorixá deverá transmitir para o mundo.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A coreografia é de uma sensibilidade marcante, e a caracterização dos personagens e do elemento alegórico enriqueceram a apresentação do quesito, que na Avenida foi um dos melhores apresentados pela escola.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

A Mancha Verde trouxe para 2026 uma nova formação para o quesito. A veterana Adriana Gomes, com mais de dez anos de escola, passou definitivamente a formar dupla com Thiago Bispo, com o qual dançou em 2024 após uma substituição de última hora do ex-mestre-sala Marcelo Silva por motivos de saúde. Ambos estavam vestidos com fantasias representando os “Saberes ancestrais iorubá”.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O casal teve uma apresentação inconstante em alguns dos módulos. A fantasia de Adriana, apesar de bela, era volumosa e aparentava ser pesada. Seus movimentos ao cumprir as obrigatoriedades pareciam mais lentos que o esperado, e o vento presente no Anhembi causou ainda mais empecilhos à sua dança. No primeiro e no quarto módulos, Thiago demonstrou dificuldades de adaptação ao ritmo da porta-bandeira, o que pode comprometer a avaliação geral do quesito.

ENREDO

“Pelas mãos do mensageiro do Axé, a lição de Odú Obará: a humildade” é uma reedição do enredo levado ao Anhembi no Carnaval de 2012 pela Mancha Verde, que contou com um samba aclamado como um dos melhores da história da escola. A narrativa de 2026 buscou retornar ao passado para iluminar o presente. A agremiação revisitou a mensagem não como uma repetição, mas como um clamor, voltando à Avenida como mensageira do tempo, revelando que aquilo que não foi aprendido será cobrado, trazendo novamente, através do samba, a lição de Odu-Obará de que a prosperidade provém da humildade.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Com uma nova narrativa, na Avenida vimos a busca de um babalorixá por respostas que expliquem como salvar um mundo a caminho da destruição. É a partir do jogo de búzios que a lenda de Odu-Obará é apresentada: um guerreiro, nomeado senhor do destino por Orunmilá, mas que ao contrário dos demais aceitou com humildade um presente na forma de abóboras dado a ele a aos demais Odús, que esperavam receber tesouros. Ao se alimentar das abóboras, todas deixadas pelos demais para Obará, ele se surpreendeu: elas estavam recheadas das riquezas ansiadas.

Fica o registro do ensinamento cultural, que na Avenida foi perfeitamente representado na nova formatação proposta pela Mancha Verde. Um dos melhores enredos do Carnaval de 2026.

ALEGORIAS

A Mancha Verde levou para o Anhembi um conjunto formado por três carros alegóricos. São eles: o Abre-alas, “Ifá e o jogo de búzios”, que representou o momento em que o babalorixá começa a receber as lições do mundo espiritual. O Carro 2, “Odu-Obará – A riqueza na lição da humildade”, retratou a lenda citada no enredo. O Carro 3, “Mundo utópico do Supremo Criador”, trouxe uma representação do que poderíamos esperar de um mundo onde o babalorixá obtém êxito na missão de transmitir à humanidade os ensinamentos ancestrais.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Um conjunto alegórico com volumetria digna de uma das potências recentes do Grupo Especial, que sofreu um rebaixamento que ainda gera discussões, e que não apenas foi belo como representou muito bem toda a proposta narrativa do enredo. Mas alguns problemas observados no acabamento podem causar prejuízos na avaliação da escola.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da Mancha representou na Avenida uma forma mais aprofundada da leitura do enredo, fazendo das alegorias uma síntese narrativa de cada setor. Na pista, as fantasias retrataram elementos semelhantes aos já citados, mas com mais referências mencionadas. Esteticamente impecável, e conseguiu também ser funcional na forma de leveza para os componentes evoluírem na pista. Um quesito muito seguro do desfile da escola.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

HARMONIA

Não é preciso falar muito do desempenho de uma comunidade na Avenida com um samba que a comunidade não se cansa de cantar na quadra há mais de uma década. A Mancha Verde cantou a plenos pulmões do início ao fim, contribuindo para fazer do desfile um espetáculo performático.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

EVOLUÇÃO

A Mancha começou seu desfile de fato somente após três minutos depois da abertura dos portões. O cortejo foi correto em boa parte do tempo, mas ocorreram duas observações possíveis. O espaço aberto pelo recuo da bateria demorou a ser preenchido, e na parte final da apresentação, a escola começou a acelerar um pouco o passo diante do módulo três, provocando a abertura de um buraco à frente do terceiro carro alegórico.

SAMBA-ENREDO

O samba da Mancha Verde é assinado por Armênio Poesia, Chanel Rigolon e o próprio intérprete Fredy Vianna. Curiosamente, 2012, quando o samba passou na Avenida pela primeira vez, foi o ano de estreia do cantor na escola, emplacando logo na estreia um dos sambas mais queridos da comunidade.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

No retorno ao Anhembi, a obra novamente foi clamada fervorosamente pela comunidade, e Fredy conseguiu provar o porquê fez história há 14 anos. A leitura do samba no conjunto visual ficou bem encaixada, fazendo do quesito mais um porto seguro para a escola na apuração.

OUTROS DESTAQUES

A bateria “Puro Balanço”, comandada pelos mestres Cabral e Viny, honraram o legado do histórico samba da Mancha Verde e conduziram o andamento do desfile de forma primorosa.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Entre homem e bicho, nasce o enredo: abre-alas da Imperatriz Leopoldinense revela a estética camaleônica de Ney Matogrosso

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O abre-alas mergulha a Sapucaí em uma selva fantástica, onde troncos, sombras e camaleões cercam a figura central de Ney Matogrosso como um ser híbrido: homem, bicho e entidade estética ao mesmo tempo.

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Detalhes do abre alas portelense
Detalhes do abre-alas da Imperatriz
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A alegoria sintetiza o coração do enredo “Camaleônico”. Não se trata apenas de contar a trajetória de um artista, mas de assumir sua filosofia: a metamorfose como identidade. O corpo que muda, que provoca, que recusa rótulos fixos e transforma a própria existência em linguagem.

Ali, entre natureza e fantasia, a Imperatriz estabelece o pacto visual do desfile: tradição pode ser transgressão, e o corpo pode ser manifesto.

Lucas Maia de 32 anos
Lucas Maia, de 32 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Lucas Maia, de 32 anos, social media e no segundo ano na escola, enxergou no abre-alas um gesto político e afetivo.

“Eu, como uma pessoa LGBT, acho mais do que significativo desfilar esse tema na minha escola do coração representando o Ney, que foi fruto de liberdade e luta na ditadura. Estar no abre-alas já chegou causando essa imagem de viver a vida sem tabu. Vamos viver do jeito que quisermos, um verdadeiro camaleônico.”

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Hiago Soares, de 25 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Hiago Soares, de 25 anos, estudante de jornalismo e estreante na verde e branco, a homenagem tem dimensão pessoal.

“Foi muito incrível e bonito abrir o desfile com a figura do Ney Matogrosso. Meu nome é com H porque meu pai disse que eu seria um homem com H maiúsculo. E eu sou, um homem gay com H. Quando soube que a Imperatriz viria com essa homenagem, não pensei duas vezes. Eu sou um pássaro mulher, igual à minha ala. A Imperatriz deixou como recado a espontaneidade, a liberdade e a diversão”, pontuou.

Marcos Vinicius Pinheiro 34 anos
Marcos Vinícius Pinheiro, 34 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Marcos Vinícius Pinheiro, de 34 anos, farmacêutico e há dois anos na escola, destaca o impacto narrativo da alegoria.

“Magnífica a abertura da escola na avenida, o sonho virou realidade. O abre-alas levou a mensagem de uma caixinha onde estava tudo preso e agora está explorando o mundo, se libertou, algo bem farofônico. Nosso desfile foi para o mundo enxergar que precisa de paz, diversidade e muito amor. O restante a gente vai batalhar”, comentou.

De ‘Certinha’ à ‘Safadinha’ de Ramos: a Imperatriz Leopoldinense libera corpo na Sapucaí

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Historicamente conhecida pelo rigor estético e técnico que lhe rendeu o apelido de “Certinha de Ramos”, a Imperatriz Leopoldinense vive, em 2026, uma transformação simbólica que ultrapassa a fantasia e alcança o corpo de seus componentes.

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De Certinha para Safadinha de Ramos, Imperatriz muda comportamento. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

No desfile em homenagem a Ney Matogrosso, a escola abraçou a liberdade estética, a fluidez do movimento e a expressão corporal como linguagem de identidade e transgressão.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Fantasias leves, vazadas e sensuais que expõem colo, braços e pernas, alteram a forma de brincar o Carnaval e permitem maior mobilidade na Avenida. O corpo deixa de ser contido e passa a ser território de expressão.

É nesse contexto que surge, entre os próprios componentes, um novo apelido: “Safadinha de Ramos”.

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Jessica Rodrigues. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Jessica Rodrigues, 26 anos, historiadora e há dois anos na escola, enxerga o desfile como um marco de ruptura.

“O desfile de 2026 veio para quebrar o tabu sobre sermos tão certinhos. Agora estamos mais como ‘Aparecidinha de Ramos’, para quebrar tudo na avenida. Esse samba transformou a comunidade, trouxe componentes que se sentem representados pelo enredo e isso nos faz crescer e evoluir, buscando temas que saiam da bolha, mas que estão totalmente presentes no dia a dia da sociedade”.

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Guilherme. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Guilherme Figueiredo, 33 anos, professor de geografia e estreante na verde e branco, a mudança faz parte de um processo natural de reinvenção:

“Acredito que a cara da escola vai mudando com o passar dos anos e com quem passa por ela. Não existem identidades fixas. A proposta da Imperatriz é justamente reforçar essa mudança, aliando isso ao Ney Matogrosso, que é um artista mutável. Camaleônico não é só o Ney — hoje é a Imperatriz também”.

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Vanderlei. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A liberdade proposta pelo enredo também é sentida fisicamente. Vanderlei Gamalho, 49 anos, bancário e há 36 anos na escola, percebeu a diferença na própria experiência de desfile.

“Esse ano fala sobre liberdade de expressão e senti que a fantasia veio mais leve, mais amostrada. Isso permite que a gente se jogue com tudo na avenida. O tema deixa explícito que todo mundo é igual, não existe ninguém diferente. Vamos viver a vida sem preconceito”, disse.

Se antes a disciplina era a marca registrada da Imperatriz, agora a escola mostra que pode ser rigorosa e ousada ao mesmo tempo. A transformação não é abandono de identidade, mas ampliação dela.

Ao homenagear Ney Matogrosso, artista que fez do corpo uma bandeira da liberdade, a Imperatriz Leopoldinense assume que tradição e transgressão podem caminhar juntas.

 

Na Avenida, a “Certinha” revela sua face camaleônica. E quando o samba embala fantasias fluidas e corpos livres, Ramos descobre que liberdade também é método, e acima de tudo, espetáculo.

Sidnei Carriuolo fala sobre desfile do Águia de Ouro e parceria com cervejaria

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O Águia de Ouro entrou no último sábado no Anhembi apresentando o enredo “Mokum Amsterdã: O voo da Águia à cidade libertária”, retratando a liberdade da capital holandesa. O enredo atraiu o interesse da cervejaria Amstel, fundada no século 19 na cidade tema do desfile e batizada com o nome do principal rio de Amsterdã, fechando um patrocínio que ajudou no projeto de carnaval da agremiação.

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O presidente Sidnei Carriuolo falou sobre a parceria.

“O enredo surgiu primeiro, eles se interessaram pela maneira como o Louzada explanou a ideia, a liberdade, as premissas da cidade e nos procuraram para fechar a parceria. Foram várias conversas até finalizarmos. Não tiveram influência no enredo, esse tipo de patrocínio é normal no carnaval, ajuda, não é algo ruim”, declarou Sidnei.

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O presidente não deu detalhes sobre os valores envolvidos nesta parceria, mas ressaltou que foi uma ajuda importante para a escola finalizar o seu carnaval.

“Falar da própria escola sempre faz a gente puxar para a nossa sardinha, mas o trabalho foi bem feito, deixamos a escola pronta, organizada, montada na avenida” , afirmou.

Jesuíta Barbosa se emociona ao dividir alegoria com Ney Matogrosso na Imperatriz Leopoldinense

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Na concentração da Imperatriz, pouco antes de cruzar a Sapucaí com o enredo “Camaleônico”, que homenageia Ney Matogrosso, o ator Jesuíta Barbosa comentou a emoção de viver um dos momentos mais especiais de sua carreira: dividir o mesmo carro alegórico com o artista que interpretou no cinema.

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Jesuita Barbosa no desfile da Imperatriz Leopoldinense
Jesuíta Barbosa no desfile da Imperatriz Leopoldinense
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A imagem dos dois juntos na alegoria representou o encontro entre gerações. De um lado, o artista que revolucionou a música brasileira com estética, ousadia e liberdade. Do outro, o ator que apresentou essa história a um novo público. A cinebiografia Homem com H, lançada no ano passado, trouxe Jesuíta interpretando Ney Matogrosso e foi um sucesso entre o público jovem.

Sobre a responsabilidade de apresentar o artista a toda uma nova geração, Jesuíta confessou que não se vê como responsável por carregar seu legado, mas como alguém que teve a honra de reverenciá-lo nas telonas.

“Mesmo estando aqui ao lado dele nessa homenagem linda, não acho que eu sou merecedor de carregar o seu prestígio, pois não sei tudo o que ele sabe. É tudo dele e para ele. Mas fico muito feliz com o reconhecimento, principalmente porque o filme que a gente fez foi para ele e para o Brasil, porque o Brasil merece ver coisa boa, e o nosso cinema é muito rico. A beleza da estética que ele construiu durante a vida toda dele merece ser vista por muitas gerações ainda”, afirmou ele, emocionado.

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FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Segundo o ator, o desfile representa uma consagração da trajetória artística construída por Ney ao longo de décadas. E ele confia no poder da Imperatriz para contar essa história.

“Agora, na Avenida iremos, consagrar sua grandeza. E eu acho que o Brasil vai ver uma evolução muito bonita da escola”, comentou.

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Ney Matogrosso no desfile da Imperatriz

Se no cinema Jesuíta incorporou a intensidade cênica de Ney com maestria, no Sambódromo ele deixou a emoção falar mais alto ao descrever o nervosismo de estar prestes a desfilar ao lado do próprio homenageado, mesmo apesar da intimidade que ganhou com o cantor nos últimos anos.

“Eu estou nervoso e falei para ele que eu estava. Ele ficou surpreso e disse que não está nervoso, não. Ele está bem, mas eu estou muito ansioso. Isso vai ser gigante!”, revelou, sorrindo e animado.

Quesitos fazem balanço do desfile do Império de Casa Verde

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O Império de Casa Verde foi a primeira escola a desfilar no sábado de carnaval pelo Grupo Especial de São Paulo. Com o enredo “Império dos Balangandãs – Joias Negras Afro-Brasileiras”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barboza, a azul e branca da Zona Norte levou para a Avenida um desfile técnico, marcado por força estética e canto da comunidade.

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À frente da comissão de frente, o coreógrafo Sérgio Cardoso avaliou os desafios enfrentados na Avenida, especialmente com a nova disposição das cabines de jurados.

“Esse ano essas cabines estavam numa posição totalmente diferente do que a gente costuma, bem próximas, além de tudo o campo de visão deles diminuiu bastante, porque é bem mais baixo. Então a gente teve que mudar algumas estratégias. A minha sorte é que meu samba é curto. Então eu tenho duas passagens pra fazer toda a história que a gente vem. É, quatro minutos, então foi tranquilo. Mas, assim, essas duas cabines muito próximas, e a parada do recuo da bateria, calhou bem no meio das duas. Ou seja, a gente estava sendo avaliado de frente e de costas. Mas bora, acho que esse é o jogo e a gente tem que cada vez mais. Se aperfeiçoar diante das regras. Para mim a execução foi tudo ok. Agora vamos ver o olhar do jurado”, disse.

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O mestre-sala Patrick Vicente também destacou o caráter técnico do desfile e o entrosamento com a porta-bandeira Sofia ao longo da apresentação.

“Foi um desfile bem técnico, a gente tem treinado desde maio, um trabalho árduo, mas eu achei muito bom o andamento. Deu para priorizar tanto a comissão, tanto o casal também, que veio logo em seguida. E eu e a Sofia, saímos daqui feliz de ver o nosso rendimento. Executamos todos os movimentos que a gente vem ensaiando. Agora esperar o resultado e, se Deus quiser, a gente será abençoado da melhor forma possível”, concluiu.

Sobre as mudanças na posição das cabines, Patrick ressaltou o desafio físico e emocional para manter a intensidade da apresentação.

“Sobre as cabines próximas, a intensidade tem que manter a mesma, que já é um seguido do outro, para gente é só a questão de prender a respiração por um minuto, recuperar todo o fôlego, todo o ar e já iniciar novamente na outra cabine mas isso foi bem desafiador, eu acho que para todos os casais de São Paulo, é uma coisa muito nova”, falou.

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No carro de som, os intérpretes Tinga e Tiago Nascimento celebraram o desempenho da escola e a resposta positiva da comunidade durante o desfile.

“Foi muito bom, a gente está feliz demais. Viemos e cumprimos, então a gente está esperando o resultado. Fizemos um grande desfile e a gente sempre espera a melhor colocação para levar o nosso Império ao nosso sonho, que é sempre ser campeão do Carnaval”, disse Tinga.

“Acho que foi muito bom. A comunidade cantou e está feliz, está alegre. O público respondeu. Acho que o nosso trabalho alcançou o objetivo. O enredo foi fundamental, enredo e samba bom é meio caminho andado. Então a gente está feliz demais com tudo. E, se Deus quiser, é Império na cabeça”, analisou Tiago.

Carnavalesco da Tom Maior detalha enredo que transforma Uberaba em símbolo do Espiritismo

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A escola de samba Tom Maior levou para a avenida um enredo que reverencia Uberaba a partir de uma carta espiritual psicografada por Chico Xavier. O médium, nascido em Pedro Leopoldo, mas consagrado em Uberaba, se coloca como instrumento para dar voz à cidade que marcou sua trajetória. Essa narrativa é revisitada por meio do olhar do carnavalesco Flávio Campello, 48, que apresentou na avenida cores em fantasias e alegorias vibrantes para simbolizar a ancestralidade, a história e o progresso do município, transformado em símbolo do Espiritismo no Brasil, onde Chico desenvolveu sua mediunidade e encerrou sua jornada.

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Para que o entendimento de todo o enredo na avenida fosse notado por quem estava também nas arquibancadas ou como telespectador na TV, Flávio comenta que todos os pensamentos foram voltados para um desfile didático e que pudesse ter uma homenagem clara, assim tomou como base uma foto territorial

“A inspiração veio de uma foto de satélite que vi da cidade de Uberaba. Vi a quantidade de rios que existiam ali naquela região, era algo surreal, chegava a brilhar nesse mapa”, explicou Flávio.

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O carro abre-alas, intitulado “Das Águas Emana o Perfume! – A Terra das Águas Claras e Berço de Gigantes”, sintetiza o primeiro setor do desfile ao destacar as origens de Uberaba. A alegoria exalta a ancestralidade indígena, os dinossauros que habitaram a região e a força vital das águas que moldaram o território. Esculturas de peixes e figuras híbridas simbolizam a interdependência entre natureza e vida. Elementos trazidos pelo carnavalesco foram calculados para retratar especificidades do enredo.

“Queria abrir com essa inspiração para poder retratar até a etimologia do nome da cidade, porque Uberaba vem da palavra ‘Iberabe’, que significa terra das águas brilhantes, terra das águas cristalinas. E essa abertura que quis, através da ala que veio na frente do carro, mais a ala que vem atrás do carro, que são nossas baianas, também o nosso casal, abrindo alas para essas cores sensacionais. Acho que foi um grande trunfo na manga, foi perfeito”, exaltou o carnavalesco.

Já a terceira alegoria, “O Futuro Chegou! – Nos Caminhos para a Industrialização”, retrata a transformação econômica de Uberaba, usando engrenagens e estruturas metálicas; tons terrosos compõem o cenário que simboliza a chegada das indústrias e a força do trabalho coletivo.

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“Era tentar buscar todo esse misticismo, todo esse sincretismo em torno de Chico Xavier, através da espiritualidade. Por isso que a gente trouxe a Índia, por isso que a gente trouxe essa industrialização com uma cara mais vintage, porque a gente queria retratar aquilo que o Chico colocava nas suas cartas, inclusive contando a história da cidade. Foi mais ou menos essa referência que nós tivemos para construir esse projeto”, comentou Flávio, que quis reafirmar nas alegorias a vocação progressista do município, associando inovação e esforço humano à construção de seu futuro.

Sobre as expectativas para a escola, Flávio diz sair da avenida já com vontade e acreditando que possa voltar no sábado para o desfile das campeãs.

“Foi um desfile marcado pela emoção, porque muitos sentimentos explodiram dentro dos nossos corações ao longo desse ano todo, com a perda do nosso saudoso Gilsinho, que foi o primeiro sentimento que a gente teve, aquele vazio imediato. Mas o Leozinho veio para preencher esse vazio; hoje, ele representou muitíssimo bem a escola e o Gilsinho. Tenho certeza de que faremos história na terça-feira, com um resultado incrível e o possível primeiro título da escola”, finalizou o artista.