O tradicional Encontro dos Tambores, que celebra a ancestralidade e a religiosidade afro-brasileira, realizado no bairro do Laguinho, no Amapá, foi a grande inspiração para a ala das baianas da Mangueira neste ano. Vestidas de branco com detalhes em dourado, as componentes cruzaram a avenida com oferendas na cabeça, como gratidão aos orixás e aos tambores sagrados.
Detalhes da fantasia das baianas da Mangueira FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A proposta da ala era conectar as mães do samba com as mães de santo que participam do evento no Amapá, representando a tradição e a espiritualidade.
Gabriela Pinto, de 51 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A recepcionista e doceira Gabriela Pinto, de 51 anos, comentou a emoção de representar o tema: “A ala das baianas representa muito. Essa coisa dos tambores tem um significado enorme para nós. Hoje viemos agradececendo aos Orixás. É uma alegria muito grande fazer parte disso”.
Elisângela Tomazelli, de 53 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Elisângela Tomazelli, de 53 anos, explicou o significado da oferenda e do branco e dourado dentro do contexto da fantasia: “A oferenda simboliza bênção e devoção. É como se você estivesse agradecenco aos Orixás enquanto está abençoando, dando uma glória a alguém. O branco e dourado representam a riqueza e a prosperidade”.
Reginara Brandão, de 45 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já a promotora Reginara Brandão, de 45 anos, comentou como se identifica com a ala: “Representar o Encontro dos Tambores fala sobre minha identidade como mulher preta, sobre ancestralidade e a força da religião de matriz africana no samba. As oferendas são um agradecimento pelo ano e a entrega do nosso melhor. O branco e dourado simbolizam paz, prosperidade e riqueza. Mesmo sem praticar, tenho fé na matriz africana e acredito nos orixás e na nossa raiz ancestral”.
A Portela promoveu um resgate histórico na primeira noite do Grupo Especial ao levar para a Marquês de Sapucaí a religiosidade negra do Sul do Brasil. O desfile apresentou o Batuque, tradição de matriz africana da região, por meio de figuras como o Príncipe Custódio, o orixá Bará e a lenda do Negrinho do Pastoreio, símbolos que confrontam o apagamento da presença negra na cultura sulista.
Ala Xirê dos Orixás. Foto: Mariana Santos/CARNALESCO
Concebido pelo carnavalesco André Rodrigues, o enredo questiona a ideia de um Sul exclusivamente branco e de costumes europeus. Integrante da ala Xirê dos Orixás, Rosinete de Alencar representou Ogum, divindade do metal, e destacou a importância de ampliar os imaginários sobre a região.
“Todo mundo pensa que no Rio Grande não existe macumba, não existe Batuque, só pessoas brancas. E não. Existem negros, existem várias religiões, como em qualquer lugar”, afirmou.
Rosinete de Alencar. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Nas religiões de matriz africana, o passado é memória viva e espaço de reverência. Umbandista, a componente ressaltou o valor educativo do enredo para as novas gerações.
“Eu acho lindo representar nossa religião, mostrar a cultura, as roupas, os costumes. Quem está nascendo agora precisa ter esse conhecimento”, disse.
Ao narrar o assentamento de Bará no Mercado Público de Porto Alegre, o samba-enredo evoca a divindade com o pedido de licença “Alupó” no refrão, momento que transforma a energia da Avenida e emociona os desfilantes.
“Me arrepio dos pés à cabeça. Vi muita gente chorando no ensaio técnico. É como um fortalecimento da alma”, contou.
Da ala Batuqueiro Mandingueiro, Luciana Monteiro reforçou que conhecer a diversidade religiosa é condição para o respeito.
“A gente precisa aprender a respeitar. Não adianta conhecer só a própria religião; é preciso entender a do outro para respeitar e até admirar”, destacou.
Mesmo diante de críticas recorrentes sobre a repetição de temas afro nas escolas de samba, os componentes defendem a permanência dessas narrativas como afirmação de memória e existência.
“A ancestralidade não pode morrer. Precisamos saber por que estamos aqui e o que ainda temos que evoluir a partir dos nossos ancestrais”, concluiu.
A ala “O rei retoma as batucadas carnavalescas”, da Mangueira, levou para a Sapucaí uma faceta pouco conhecida de Mestre Sacaca: sua intensa relação com o carnaval do Amapá. No desfile da Verde e Rosa, o Xamã Babalaô foi celebrado como Rei Momo, posto que ocupou por mais de duas décadas, significando a alegria no estado, que recebeu o samba como expressão cultural na década de 50. Detalhes da fantasia FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Os componentes vestiram uma fantasia que remetia às vestes tradicionais do Rei Momo, com cores vibrantes e elementos da realeza popular.
Marcelo Bastos, de 44 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Para o engenheiro Marcelo Bastos, de 44 anos, mangueirense apaixonado, desfilar representando essa figura histórica é mais do que especial. Incorporar sua alegria na Avenida é algo que vem com naturalidade.
“O Rei Momo é a história do Carnaval do Rio de Janeiro. Vir nessa ala é poder representar o início da festa e o que ela significa. O Rei Momo é a figura que recebe a chave da cidade, por isso, é bem importante. E expressar sua alegria na Avenida é muito natural para mim. Minha família inteira é de Carnaval. Minha mãe foi a primeira rainha do Cacique de Ramos, meus tios sempre foram passistas. Essa alegria já está no sangue. É fazer por amor, brincar, cantar e representar o nosso pavilhão”, comenta.
Romário Gomes FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O advogado amapaense Romário Gomes contou que fez de tudo para estar no desfile assim que soube da homenagem ao Mestre Sacaca.
“É uma emoção muito grande ver o nosso estado sendo representado na maior festa do planeta. Vivemos o carnaval no Amapá com muita paixão, e estar aqui é gratificante. O Rei Momo é o nosso símbolo maior do Carnaval. O nosso curandeiro representa toda a nossa amazonidade, do Carnaval ao futebol. Ele mais do que ninguém poderia juntar tudo isso para representar a Mangueira. Estamos muito felizes de estar aqui”, revela o componente.
Romário explicou um pouco mais sobre a festa, citando que a Mangueira foi pessoalmente buscar sua inspiração para montar o desfile com fidelidade.
“A festa de São Tiago acontece todo 25 de julho e representa a luta entre mouros e cristãos. Mazagão veio do Marrocos e foi a primeira capital do nosso estado. No último festejo, o pessoal da Mangueira esteve lá, se encantou, e hoje somos uma ala dessa festividade. Estamos representando o marabaixo, o futebol, nossas escolas de samba. É muito lindo ver a nossa história sendo contada na avenida”, detalha.
Ana Clara, de 20 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Para a estudante Ana Clara, de 20 anos, também amapaense, desfilar na ala é um motivo de orgulho pelo reconhecimento da própria cultura.
“Essa ala é muito importante, porque fala da tradição amazonense da festa de São Tiago, no Mazagão, que é muito histórica e importante para nós do Amapá. É algo muito representativo para a gente estar aqui. A ala está lindíssima e a Mangueira arrasou”, afirmou, emocionada.
O agreste pernambucano, cenário da infância de Luiz Inácio Lula da Silva, abriu o desfile da Acadêmicos de Niterói como território simultâneo de aridez e resistência. Primeira escola de domingo no Grupo Especial, a agremiação apresentou a trajetória do presidente desde a infância marcada pela seca até a chegada à Presidência da República.
Abre-alas da Acadêmicos de Niterói. Foto: Mariana Santos
Entre pássaros ressequidos e tons terrosos, uma árvore de mulungu irrompe vibrante. Sobre ela, o menino Lula sorri. A alegoria explicita a tensão que atravessa seus primeiros anos: da escassez brota a esperança. No sertão, o que ameaça também fascina e sustenta o imaginário infantil.
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Representando retirantes aos pés da árvore no terceiro módulo do carro, Leaci Oliveira destacou a força simbólica do elemento central, que transforma a morte em possibilidade de renascimento.
“Ao mesmo tempo em que existia a seca, ele via a vida com certa inocência. A árvore traz essa sensação de brotar, de renascimento, de expectativa de um futuro melhor”, afirmou.
Leaci Oliveira. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Paralelos estéticos reforçam a ambiguidade: carcaças ressecadas, materiais opacos e natureza morta contrastam com iguanas e cobras coloridas que acompanham o caminho do menino até a esperança. A dualidade que marca a origem do presidente estrutura a narrativa visual do abre-alas.
João Hildenberg. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
Na alegoria, João Hildenberg personifica um ser místico do agreste que povoava as lendas da infância em Garanhuns. Para ele, a tensão estética evidencia o cenário desafiador enfrentado por Lula e sua família.
“Ele veio de um lugar com muita pobreza e fome e se tornou quem se tornou. Homenageá-lo representando essas lendas da natureza é muito importante”, disse.
O carro também evidencia a crueldade da seca que forçou Lula e tantos outros retirantes a buscar uma vida digna em outros territórios, como ressalta o samba-enredo.
Arlen Guerra. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO
“Não tem como contar a história do Lula sem falar do sertão e da seca cruel daquele tempo. Foi onde tudo começou”, afirmou Arlen Guerra, integrante da composição alegórica.
Acima da árvore de mulungu, o menino sustenta uma estrela azul, imagem de futuro possível em meio à aridez. A alegoria transforma a trajetória individual de Lula em espelho de muitas outras caminhadas marcadas por luta, deslocamento e resistência.
“Nem todos que se esforçam conseguem chegar tão longe, mas, com luta e oportunidades aproveitadas, isso pode acontecer. A história dele mostra exatamente isso”, concluiu Leaci.
A terceira escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no primeiro dia do Grupo Especial foi a Portela, levando para a avenida o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”.
Dentro do setor “Ecos de Uma Realeza”, o terceiro casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Osanna Baptista e Yuri Pires, assumiu papel central ao representar o Bailado do Maçambique de Osório. O figurino com bastões e fitas coloridas chamou, mais do que estética, havia ali pesquisa e fusão cultural.
Questionada se já conhecia a manifestação cultural negra do Rio Grande do Sul antes de vestir a fantasia, Osanna foi direta ao destacar o caráter educativo do desfile. Segundo ela, o enredo da Portela funciona como “uma verdadeira aula de
história”, sobretudo por apresentar ao grande público tradições pouco difundidas. Para a Porta-Bandeira, viver essa experiência está sendo lindo e diferente, principalmente por poder trazer a cultura do Rio Grande do Sul e mesclar com a carioca. A fala revela o espírito de troca que marcou a preparação do casal.
Adaptar o bailado tradicional do samba ao ritmo próprio do Maçambique exigiu dedicação. Yuri ressaltou a importância de receber “com muito amor e carinho tudo aquilo que é diferente e novo”, reforçando o respeito ao processo.
Já Osanna detalhou que houve “muito estudo, muito treino”, com direito a testes durante as bossas da bateria. Ela contou ainda que buscou apoio de uma amiga Porta-Estandarte do Rio Grande do Sul.
“Tenho uma amiga que é Porta-Estandarte no Rio Grande do Sul, então eu mandava vídeo para ela, e assim ela ia me ajudando, me passando algumas referências e assim fomos evoluindo e chegando até a nossa dança”, afirmou.
Ao levar para a Sapucaí uma manifestação negra do Sul do país, o casal também ajudou a romper percepções limitadas sobre a região.
“Negro é negro, a gente consegue se misturar independente da cultura”, afirmou o Mestre-Sala, defendendo a ideia de unidade na diversidade. A presença do Maçambique de Osório na avenida amplia o olhar sobre o Rio Grande do Sul, muitas vezes associado apenas a matrizes europeias.
Vestindo uma fantasia que simboliza a nobreza negra esquecida de Osório, o casal também destacou o cuidado do ateliê na execução das roupas.
“Temos um ateliê maravilhoso, que entende o figurino e trazer a arte do Rio Grande do Sul e adaptar com a nossa cultura foi perfeito”, concluíram.
A Portela celebrou a adaptação da arte gaúcha à identidade carioca. O brilho das fitas e a imponência dos bastões dialogavam com o conceito de “ecos de uma realeza”.
A ala 15 da Verde e Rosa representou o momento em que o Xamã Babalaô revive e se reconecta com as manifestações culturais da Amazônia Negra. Entre elas, o tambor surge como elo central da ponte entre fé, memória e resistência.
Componentes da Ala 15 FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A ala dedicada ao Sairé resgata os toques tradicionais do Amapá, prática introduzida pelo catolicismo às populações originárias, mas que carrega na própria palavra sua raiz indígena: “Çai Erê”, antiga forma de saudação. Hoje reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Amapá, o Sairé permanece vivo especialmente na comunidade do Carvão e atravessa gerações no compasso da tradição.
Ao transformar o ritual em espetáculo, a Mangueira reafirma que cada batida de tambor é gesto político e espiritual. O tambor que ecoa no Norte dialoga com o tambor que pulsa no morro. No ritmo do Sairé, a ancestralidade amapaense encontra a ancestralidade mangueirense e ambas se reconhecem.
Luísa Ferreira, de 27 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Engenheira e estreante na escola, Luísa Ferreira, de 27 anos, fala do impacto cultural do enredo.
“Conhecer a cultura da Amazônia Negra é muito fascinante. Eu confesso que não sabia e tenho muito interesse na cultura do Amapá e do Norte. O Carnaval é isso: traz representatividade não só de religião, mas das culturas de todos os estados do Brasil. A música e a fé se misturam. A música sempre está ligada à religião, arrepia e move nossos corações. Isso está conectado com a fé que sentimos. A Mangueira deixou esse legado na avenida”, avalia.
Guilherme Carnel, de 46 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Guilherme Carnel, de 46 anos, advogado e há dois anos na escola, o momento é de arrepio e reconhecimento: “É realização sentir a força da Mangueira e do enredo. O samba nasceu da ancestralidade. Ter o povo indígena ouvindo o nosso estilo musical em uma homenagem a eles é de arrepiar. Viver essas misturas é algo muito forte”.
Felipe Navegantes, de 38 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Já Felipe Navegantes, de 38 anos, funcionário público e há dez anos desfilando na verde e rosa, destaca o papel do tambor como herança comum.
“Sempre é uma honra desfilar na Mangueira. Não representa só a comunidade de onde eu sou fruto, mas o legado de um povo inteiro. Este ano, o Amapá e a Amazônia Negra trouxeram ainda mais tradição para o enredo. As populações negras chegaram ao Brasil trazendo o tambor, e é ele que movimenta a gente, que dá sentido à festa. É o som do tambor que nos guia”, afirmou Felipe.
A Estação Primeira de Mangueira encerrou a primeira noite de desfiles do Grupo especial, neste domingo, com uma homenagem à Mestre Sacacá, curandeiro do Amapá, referência na medicina alternativa. O terceiro setor da verde e rosa focou na medicina ancestral, interligando os saberes afrodescendente com os indígenas, na chamada Amazônia Negra, em que diversos elementos levam o poder da cura, o que auxiliou Mestre Sacacá a cuidar de seu povo e divulgar esse meio alternativo de cura.
A assistente social Daniele Garcia, de 44 anos, se sentiu motivada a desfilar pela primeira vez na agremiação por conta do enredo, pois trabalha com os saberes tradicionais no Sistema Unico de Saúde, o SUS. Ela esteve presente na ala 09: “O poder das cascas é sementes”.
“Eu chorei todos os ensaios de rua e sonhei estar aqui vivendo esse momento, porque a sabedoria da Floresta Amazônica é a cura. Poder homenagear uma benzedeira que foi a matriarca da Mangueira e o Mestre Sacaca para mim é um presente, é como se eu estivesse alinhando o meu trabalho de pesquisa, o meu trabalho como profissional do SUS e o Carnaval, é como se eu estivesse no caminho certo”, declarou Daniele.
Bruno Farias, decorador de eventos de 28 anos, oriundo do Amapá e morador de Recife, veio ao Rio de Janeiro somente para participar dessa homenagem. Bruno contou sua experiência com a medicina alternativa.
“Quando criança, sofria muito de asma e minha avó comprava muita garrafada para remédio de asma. Inclusive, hoje já não sofro tanto de asma porque ela começou a me curar desde pequenininho. Eu sou muito ansioso, se tivesse a garrafada para ansiedade, eu seria o primeiro a tomar todos os dias”, completou Bruno.
A nutricionista Ana Paula, de 44 anos, desfila na Mangueira há 37 anos e, nesse ano, veio no terceiro carro alegórico. A homenagem do enredo foi emocionante para ela, porque relembra seus momentos com sua avó, que era indígena e uma das parteiras e benzedeiras de sua tribo.
“A minha avó, ela era indígena e a gente já usou muitas ervas medicinais. Inclusive, ela tinha um caderninho que ela era benzedeira da tribo dela. Meu pai teve uma doença chamada erisipela que também foi tratada com ervas”, contou Ana Paula.
A ancestralidade indígena e afro-brasileira regasta espiritualidade, tradição e cura, que faz parte do dia a dia dos brasileiros e foi bem retratada pela Verde e Rosa.
Homenageado pela Imperatriz Leopoldinense, Ney Matogrosso construiu sua trajetória artística a partir da defesa radical da liberdade de ser. A ala 21, “Não existe pecado ao sul do Equador”, evocou a versão regravada pelo cantor para transformar a Marquês de Sapucaí em um espaço simbólico de vida sem culpa, medo ou julgamento.
Baianas da Imperatriz. Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A fantasia combinou referências ao pecado com cores vibrantes e exuberantes, criando contraste direto com a ideia de culpa. Em um cenário marcado pelo avanço do conservadorismo no país, os giros das matriarcas do samba surgiram como imagem de resistência do corpo feminino e libertação das amarras morais.
Edna Luz, 58 anos, consultora de vendas. Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Consultora de vendas de 58 anos, Edna Luz desfilou pela primeira vez pela escola e destacou a alegria como forma de luta pela liberdade.
“Significa me libertar de tudo aquilo que a sociedade prega contra a mulher num momento tão difícil que nós vivemos. A mulher de 50+ pode não só desfilar, mas estudar, batalhar por algo a mais”, afirmou.
Deise Mendes, de 54 anos, cuidadora. Fotos: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Também estreante na agremiação, a cuidadora Deise Mendes, de 54 anos, relacionou a emoção do desfile à possibilidade de expressão sem julgamentos após meses de opressão cotidiana.
“O carnaval deixa a gente livre pra ser o que a gente quiser e representar isso. Esse enredo traz essa liberdade”, disse.
Maria Regina, de 79 anos, costureira. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Há 35 anos na Imperatriz, a costureira Maria Regina, de 79 anos, resumiu o sentido popular da festa ao falar da relação entre carnaval e alegria coletiva.
“Sem o carnaval o povo não tem uma diversão boa, uma alegria para sair. Não dá pra ficar sem carnaval, ele é a alegria do povo”, declarou.
Na Avenida, as baianas giraram como símbolos vivos de liberdade, fé e permanência, reafirmando o carnaval como território onde o corpo feminino deixa de pedir licença para simplesmente existir.
A Portela adentrou a Marquês de Sapucaí em 2026 com a missão de desfazer a neblina do racismo e revelar a soberania do Príncipe Custódio e do Orixá Bará. O enredo “O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande” prometia um resgate histórico da cultura afro-gaúcha através de uma fábula de libertação. No entanto, a Azul e Branco viveu uma jornada de contrastes: se, por um lado, a espiritualidade do Batuque emocionou o público; por outro, problemas técnicos severos na última alegoria e falhas de acabamento comprometeram a harmonia e a evolução da agremiação na busca pelo título.
A comissão de frente, assinada por Claudia Motta e Edifranc Alves, buscou traduzir o diálogo místico entre o Negrinho do Pastoreio e Bará. A apresentação foi competente e atingiu o seu ápice emocional ao exibir a imagem do saudoso Gilsinho no final, gerando comoção imediata. O uso de um drone foi classificado como “arrebatador”, embora a sua integração com o restante da coreografia tenha parecido, por vezes, avulsa. Apesar da competência dos bailarinos, o recurso de LED foi considerado pouco inovador para a sofisticação que o enredo permitia. Além disso, a leitura da cena não foi de fácil compreensão para o público geral, deixando a sensação de que havia margem para artifícios mais refinados.
Marlon Lamar e Squel Jorgea foram o baluarte da segurança portelense. O casal fez uma exibição impecável nos três módulos de julgamento, apresentando o pavilhão com a autoridade de quem domina o riscado. Com um figurino imponente em tons de azul e cabeças prateadas adornadas por vasta plumagem, a dupla exibiu sincronia milimétrica, conexão no olhar e um bailado que uniu a elegância tradicional à força necessária para sustentar o pavilhão. A segurança de Marlon e a graciosidade de Squel garantiram uma apresentação coesa e técnica.
O samba-enredo teve em Zé Paulo Sierra um condutor vibrante, que manteve a escola pulsando e chamou o público para a celebração. A harmonia de chão começou forte. A bateria de Mestre Vitinho foi o motor rítmico, executando bossas de pura cadência: na primeira, saudou as arquibancadas dividindo-se entre os setores par e ímpar; na segunda, durante o refrão “vai ter xirê no toque do tambor”, os ritmistas agacharam-se e levantaram-se sob a regência de Vitinho, que comandou do meio da ala. O rendimento do canto, contudo, sofreu oscilações naturais nos momentos em que a escola ficou paralisada devido aos problemas técnicos.
A evolução foi o quesito mais castigado da noite. Após um início promissor, a Portela enfrentou uma crise no primeiro módulo com a quinta alegoria, que apresentou dificuldades técnicas extremas para entrar na pista, gerando um buraco imenso no início do desfile, porém não nos módulos de julgamento. A escola permaneceu parada por muito tempo, o que obrigou as alas seguintes a apertarem o passo nos módulos finais para não estourarem o tempo. A bateria, em um esforço de superação, ainda conseguiu se apresentar no último módulo.
O conjunto de fantasias apresentou boa volumetria e uma identidade visual clara, com riqueza de detalhes e materiais diversos. Um destaque para a ala ‘Xirê do Batuque, Assentando a Africanidade’, que contou com mais de 300 componentes vestindo fantasias com 10 cores diferentes; o destaque, porém, foram as luzes que piscavam nas asas e saias da indumentária. Contudo, o conjunto alegórico sofreu com problemas de finalização. O abre-alas desfilou com estrelas mal coladas e pontos de ausência de adereços. Na segunda ala após o carro da água, pedaços de fantasias foram vistos cair na pista.
Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO
A maior decepção visual ocorreu na alegoria “República Batuque Riograndense”. Segundo o livro abre-alas, a cabeça do Bará deveria surgir imponente no topo; na prática, a escultura apareceu afundada no carro, impossibilitando a visão correta da sua estrutura e deixando apenas a turba em evidência. Além disso, registraram-se elementos no meio de alegorias que permaneceram na madeira crua, sem qualquer adereço ou revestimento, expondo uma fragilidade de acabamento inesperada para a Majestade do Samba.
OUTROS DESTAQUES
Apesar das adversidades técnicas, a Portela honrou a sua história ao trazer figuras como a matriarca Tia Surica e o veterano Nil de Iemanjá no último carro. A presença de Vilma Nascimento, o “Cisne da Passarela”, homenageando a lendária porta-estandarte gaúcha Onira Pereira, foi um momento de reverência mútua entre as tradições do Rio e do Sul. A escola terminou o seu desfile dentro do tempo, com a alma lavada pela espiritualidade do enredo, mas com a consciência de que os erros de bastidor podem custar na apuração.
A Dom Bosco de Itaquera foi, no último domingo, a sétima escola a desfilar pelo Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo em 2026. Com o enredo “Mariama: Mãe de todas as raças, de todas as cores. Mãe de todos os cantos da Terra”, assinado por Fábio Gouveia, a Escola do Padre se destacou no Anhembi pela excelente comissão de frente e pelo andamento seguro do samba. Os portões da Passarela do Samba foram fechados após 59 minutos de cortejo.
Em uma noite de desfiles bastante disputada, a Dom Bosco demonstrou valentia e apresentou um conjunto de alto nível. Foi, certamente, a melhor plástica apresentada pela comunidade itaquerense desde sua chegada ao Grupo de Acesso I, aliada à força de quesitos tradicionalmente decisivos na apuração. Alguns problemas pontuais podem dificultar as pretensões da escola, mas é possível afirmar que a agremiação segue viva na busca por uma vaga na elite da folia paulistana.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Luana Poletti, a comissão de frente da Dom Bosco apresentou “Mariama, o Auto da Fé”. O quesito retratou o milagre atribuído à santa, no qual o escravizado Zacarias, ao sentir a presença de Mariama e clamar “Olhei pro céu e vi o teu rosto”, tem suas correntes quebradas.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
O grupo contou com um elemento alegórico simbolizando um altar, no topo do qual surgia a personagem caracterizada como a santa. A coreografia foi comovente, e o ator que interpretou Zacarias demonstrou grande intensidade ao representar a dor e o momento de sua libertação. A escola conseguiu emocionar o Anhembi com uma das comissões de frente mais impactantes do ano.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O primeiro casal da Dom Bosco, formado por Leonardo Henrique e Mariana Barbosa, apresentou-se com fantasias representando a “Profecia da Libertação”. Em todos os módulos observados, a dupla cumpriu as obrigatoriedades com correção e elegância, dentro de uma coreografia bem ajustada ao andamento do samba.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
ENREDO
Mariama: Mãe de todas as raças, de todas as cores. Mãe de todos os cantos da Terra é um desfile que abordou a figura de Nossa Senhora Aparecida sob a ótica dos pretos católicos, a partir do relato do milagre de Zacarias. Na Avenida, a leitura da sinopse foi bem traduzida pela letra do samba e pelo conjunto visual apresentado, conferindo forte impacto cultural à proposta da escola.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
ALEGORIAS
A Dom Bosco apresentou um conjunto formado por três carros alegóricos e dois quadripés. São eles: o primeiro quadripé, “Revoada da anunciação”, que funcionou como portal de abertura do desfile; o Abre-alas, “Prece do Milagre de Zacarias”; o Carro 2, “Missa dos Quilombos, um novo Palmares se levanta”; o segundo quadripé, “Folias da fé”; e, por fim, o Carro 3, “Altar do Samba – Festas, fé e devoção”, que materializou um grande altar popular.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
O conjunto contribuiu positivamente para a narrativa do enredo. No entanto, alguns efeitos não funcionaram corretamente, como a água que deveria jorrar de um jarro erguido por um anjo no Abre-alas, que foi interrompida durante o desfile. Problemas pontuais de acabamento também podem resultar em descontos nas notas do quesito.
FANTASIAS
As fantasias da Dom Bosco traduziram corretamente os três setores da narrativa proposta. As vestimentas eram volumosas e, no geral, permitiram que os componentes brincassem o Carnaval com conforto. Contudo, problemas nos adereços de cabeça da Ala 7 e na parte frontal da Ala 8, por ação justificada, podem ter sido registrados pelos jurados.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
HARMONIA
A comunidade de Itaquera foi feliz na missão de defender seu pavilhão no Anhembi. A qualidade do samba favoreceu o canto dos componentes ao longo de toda a Avenida, mantendo o andamento firme do início ao fim do cortejo.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
EVOLUÇÃO
Apesar de um início mais lento, a Dom Bosco conseguiu manter o andamento controlado durante boa parte do desfile. O recuo da bateria foi bem executado, com o apoio eficiente da corte, evitando a formação de grandes espaços vazios. Na parte final, a escola precisou acelerar o ritmo, mas não foram observadas falhas graves no conjunto do quesito.
SAMBA-ENREDO
O samba da Dom Bosco foi assinado por Gui Cruz, Darlan Alves, Portuga, Imperial, Douglas Chocolate, Marcos Mala, Luciano Rosa, Gabriel, Reinaldo Marques e Willian Tadeu, e defendido na Avenida pelo intérprete Rodrigo Xará. Considerado por parte da comunidade carnavalesca como uma das melhores obras do Grupo de Acesso I em 2026, teve desempenho elevado no desfile.
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
Os versos foram facilmente percebidos no conjunto visual, e o carro de som manteve um bom andamento durante todo o cortejo, enriquecendo o espetáculo apresentado pela Escola do Padre no Sambódromo do Anhembi.
OUTROS DESTAQUES
Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP
A bateria “Gloriosa”, comandada por mestre Bola, foi um dos pontos altos do desfile. Soube explorar bem as bossas sugeridas pelo samba e ainda arriscou apagões pontuais. A corte de bateria — formada pela Rainha Mayra Barbosa, a Madrinha Mariana Mello e o Passista de Ouro Tomaz Claudino — teve atuação importante no processo de recuo, demonstrando entrosamento e comprometimento com a comunidade da Dom Bosco de Itaquera.