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Encontro Ancestral! Beija-Flor conecta duas margens do mesmo rio, celebrando espiritualidade, fé e ancestralidade negra

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Em homenagem ao Bembé do Mercado, maior candomblé de rua do mundo, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou a junção de duas culturas distintas, unidas por um mesmo elo: a ancestralidade negra. A ala 28, “Evoco a Baixada de Todos os Santos que pede e agradece”, desfilou em forma de oferenda, simbolizando gratidão e pedidos coletivos.

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Claudio Files
Cláudio Files, de 63 anos, professor de filosofia. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O professor de filosofia Cláudio Files, de 63 anos, desfila na agremiação há cerca de oito anos e destacou, entre os muitos sentidos do enredo, a ressignificação do 13 de maio, data da abolição da escravidão no Brasil, como o aspecto que mais lhe chamou atenção.

“Trazer Santo Amaro para o carnaval do Rio de Janeiro é a junção de duas forças estrondosas da nossa cultura. É a representação do carnaval como festa negra e da Bahia como potência da negritude. Também deixa claro que a abolição não nasceu da bondade de uma princesa europeia, mas foi fruto de luta, quilombos, morte e sofrimento”, declarou.

Juliana Ferreira
Juliana Ferreira, 36 anos, jornalista. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Juliana Ferreira, jornalista de 36 anos, desfila pela segunda vez na azul e branco da Baixada, embora torça pela escola desde a infância. Ela contou que já se programava para conhecer o Bembé do Mercado antes mesmo do anúncio do enredo e, por coincidência, esteve em Santo Amaro no mesmo período que a comitiva da agremiação. 

A experiência permitiu perceber de perto as conexões entre a Santo Amaro e Nilópolis, como a centralidade da avenida Mirandela para o encontro da comunidade.

“Tem a celebração do carnaval, mas também o agradecimento pela vida e pelos ancestrais que nos trouxeram até aqui. Essa travessia das águas não representa só a passagem pela Avenida, mas o presente, a gratidão e toda a construção da escola”, afirmou.

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Vitor Sampaio, de 24 anos, dentista. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O dentista Vitor Sampaio, de 24 anos, está em seu segundo desfile pela agremiação. Após estudar o enredo, ele identificou paralelos entre o Bembé e o que define como o “quilombo de Nilópolis” representado pela Beija-Flor.

“O povo do Bembé representa muito o quilombo da Beija-Flor, do povo preto, do povo macumbeiro. A gente tem a mesma identidade cultural. Existe um encontro real com essa manifestação e com essa festa maravilhosa”, contou.

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Raísa Schefer, 32 anos, servidora pública. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Servidora pública de 32 anos, Raísa Schefer estreia na escola neste carnaval. Para ela, o desfile também carrega um sentido de agradecimento espiritual, tanto pelo título conquistado em 2025 quanto pela oportunidade de viver a experiência coletiva na avenida.

“Desfilar é a coroação de uma trajetória dentro da comunidade. A gente celebra essa vivência, estar com pessoas que ama e compartilhar esse momento na avenida”, disse.

Nilópolis e Santo Amaro se encontram na Sapucaí como territórios irmãos, que se abraçam para celebrar a liberdade.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Beija-Flor no desfile no Carnaval 2026

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Um ótimo desfile da bateria “Soberana” da Beija-Flor, sob o comando dos mestres Rodney e Plínio. Um ritmo tradicionalmente vinculado ao DNA musical da sonoridade da escola de Nilópolis foi produzido. Uma bateria enxuta, bastante equilibrada e bem equalizada foi apresentada. Tudo junto de bossas bem casadas com o samba, que ajudaram a valorizar a obra nilopolitana com extrema categoria.

Na parte da frente do ritmo da Beija, um naipe de cuícas sólido deu sua contribuição musical. Uma exímia ala de chocalhos tocou interligada a um naipe de tamborins de nítida virtude musical coletiva. O belo entrosamento entre os tamborins e chocalhos nilopolitanos foi o ponto alto da excelente sonoridade das peças leves.

Na cozinha da bateria “Soberana”, uma afinação privilegiada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e de segunda ditaram o andamento com segurança. Surdos de terceira deram um balanço acima da média aos graves. Caixas de guerra ressonantes e sólidas intercalaram toques, com as de maior polegada com batida reta embaixo e as tocadas em cima com levada de partido alto. Uma ala de repiques absurdamente talentosa tocou de modo coeso. A parte de trás do ritmo da Deusa da Passarela ainda contou com atabaques, que também foram fundamentais em bossas. Além da tradicional e potente ala de frigideiras, preenchendo a sonoridade do miolo com um tilintar metálico precioso, valorizando a identidade da batucada nilopolitana.

Bossas intimamente ligadas às nuances melódicas do lindo samba da Beija-Flor foram executadas com precisão. Uma criação musical bastante intuitiva e orgânica foi bem exibida. Tudo absolutamente muito casado com a obra da Deusa. São nuances rítmicas e paradinhas que ajudam a impulsionar o samba e deixar o clima dançante para os componentes. O arranjo envolvendo os atabaques ajudou a atrelar o enredo de vertente africana à bela sonoridade produzida pela “Soberana”. Algumas bossas se aproveitavam da diferença entre os timbres da bateria, para consolidar seu ritmo e evidenciar uma leitura musical baseada em profundo bom gosto.

Uma ótima apresentação da bateria “Soberana” da Beija-Flor de Nilópolis, dirigida pelos mestres Rodney e Plínio. Uma bateria com a batucada nilopolitana típica, com bela diferenciação entre os timbres e bossas bem ligadas a melodia do incontestável samba da Deusa. Um ritmo de uma autêntica escola de samba, sabendo valorizar a canção, impulsionando os desfilantes e vinculando a sonoridade “Soberana” ao enredo de matriz africana da atual campeã do carnaval.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Mocidade no desfile no Carnaval 2026

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Um excelente desfile da bateria “Não Existe Mais Quente” (NEMQ) da Mocidade Independente de Padre Miguel, sob o comando de mestre Dudu. Uma ótima conjunção sonora foi produzida. Um ritmo independente com andamento bem confortável, equilibrada e bem equalizada, o que permitiu uma fluidez absoluta de todos os naipes. Uma sonoridade vinculada à tradição da Mocidade foi exibida, com um valioso trabalho de um conjunto de bossas feito sob medida para o samba-enredo da escola.

Na cabeça da bateria da verde e branca da zona Oeste, uma ala de cuícas sólida tocou junto de um naipe seguro de agogôs de duas campanas (bocas), ajudando no preenchimento da parte da frente do ritmo. Extremamente acima da média, o trabalho do naipe de chocalhos, fazendo aquela subida “Cascavel” tão tradicional nas retomadas das bossas. Uma ala de tamborins de qualidade técnica absoluta apresentou uma coletividade sublime. A convenção rítmica de chocalhos e tamborins, muito bem encaixada com o samba da escola, evidenciou o trabalho de excelência das peças leves.

Na parte de trás do ritmo da Estrela Guia, surdos com uma boa afinação invertida foram percebidos, totalmente inserida no DNA musical da Mocidade. Marcadores de primeira e segunda tocaram com precisão. Surdos de terceira com balanço envolvente deram um molho exemplar à cozinha independente. Repiques de alta técnica musical tocaram juntos de um naipe de caixas de guerra com sua peculiar batida acentuando a “mão fraca”, complementando os médios de maneira requintada.

Bossas bastante vinculadas ao melodioso samba independente foram exibidas com precisão e capricho na execução. Simplesmente sensacional a paradinha do refrão principal, com direito a progressão dinâmica sonora. Impactante demais a sonoridade do arranjo em questão, onde graves, médios e agudos intercalam suas entradas de modo progressivo, tanto com musicalidade crescente, como descrescente. Uma das bossas mais elaboradas e bem pensadas de todo o Carnaval. A intimidade musical das paradinhas da bateria “NEMQ” com o samba da Estrela Guia impressionou demais, por se tratar de uma criação conceitual orgânica, intuitiva e bastante fluída. O belo arranjo do refrão do meio, bem dançante, também se mostrou um recurso sonoro valioso, ajudando a impulsionar a obra e componentes a evoluírem.

Uma apresentação excelente da bateria da Mocidade, dirigida por mestre Dudu. Um ritmo enxuto, com muito equilíbrio e profundamente vinculado à identidade musical da escola, foi exibido. Fabulosa a adequação sonora de um dos leques de paradinhas mais intuitivos e orgânicos de todo o grupo especial, evidenciado uma criação conceitual de alto nível. A apresentação no último módulo de jurados arrancou aplausos do público e de julgadores, deixando claro o grande trabalho realizado pela bateria “NEMQ”.

Pra Cima, Ciça! Viradouro relembra Carnaval de 2007 e leva bateria às alturas em carro alegórico

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A Unidos do Viradouro recriou a icônica cena do Carnaval de 2007 e trouxe a Furacão Vermelho e Branco no alto do último carro alegórico da escola. A agremiação de Niterói transformou a Marquês de Sapucaí em um palco de reverência, na madrugada desta terça-feira, ao apresentar o enredo “Pra cima, Ciça”.

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Ritmistas na alegoria
Ritmistas na alegoria
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Batizado de “Pra Cima, Ciça! – A Bateria nas Alturas”, o carro 6 foi a grande surpresa do desfile. A decisão de colocar a bateria sobre a alegoria não foi apenas uma escolha estética, mas uma forma de honrar e revisitar a trajetória do mestre. Enquanto a Sapucaí acompanhava cada paradinha e retomada do samba, os ritmistas equilibravam emoção e concentração para honrar aquele que mudou a história da batucada.

Caique Reis de 31 anos
Caíque Reis, de 31 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para o segurança patrimonial Caíque Reis, de 31 anos, o maior desafio estava na estabilidade.

“A emoção é muito grande e o maior desafio técnico é a nossa estabilidade. Nós tivemos cinco ensaios na Cidade do Samba em cima do carro, que foi essencial, para sabermos como lidar na hora que ele freia, que ele acelera. O Ciça sempre foi meu professor. Comecei na bateria mirim com 9 anos, hoje tenho 31”, contou ao CARNAVALESCO. Se pudesse sussurrar algo antes da subida, ele não hesitaria: “Muita sorte para gente e que venha o tetra da nossa Viradouro”. E revelou um desejo: entrar na Avenida ao som de “É campeã”.

Alex Martins de 45 anos
Alex Martins, de 45 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Alex Martins, de 45 anos, técnico de informática, também destacou a responsabilidade de tocar fora do chão.

“É tudo novo. Tem a questão da frenagem, prestar atenção, controlar a emoção”, explicou. Para ele, o enredo carrega uma representatividade no carnaval: “A gente costuma homenagear a pessoa só depois que ela morre, então homenagear um amigo pessoal em vida é emocionante”. Antes de subir no carro, a mensagem seria direta: “Eu te amo, você é maravilhoso, um dos melhores que já vi na minha vida”. Com mais de três décadas de desfiles, Alex admite que a experiência nas alturas tem um sabor único.

O piloto de aviao Will Oliveira de 62 anos
O piloto de avião Will Oliveira, de 62 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A sensação de pertencimento também marcou o retorno do piloto de avião Will Oliveira, de 62 anos. Ele estava entre os ritmistas que atravessaram a Passarela do Samba na alegoria, lá em 2007.

“Para mim, é a segunda vez que vou desfilar em cima de um carro alegórico, em 2007 eu estava com o Ciça. Fiquei três anos fora da escola, mas ele me chamou, e eu estou de volta.” Emocionado, ele definiu sua posição na alegoria como a de “um dos súditos do rei”.

Para Will, Ciça representa tradição e alegria, e o convite para participar desse momento especial é carregado de memórias: “Pra cima Ciça, estamos juntos, te amo. Espero que meu coração aguente a emoção”.

Papel, memória e permanência: Ala 13 da Unidos da Tijuca transforma lixo em legado ao homenagear Carolina de Jesus

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A Ala 13 da Unidos da Tijuca foi resultado de uma pesquisa profunda sobre a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus. O setr tentou ir além do estereótipo da “catadora que escrevia” para revelar a dimensão intelectual, política e artística da autora.

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Detalhes da ala
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O ponto de partida foi inevitável: Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960 e organizado por Audálio Dantas. Depois vieram Diário de Bitita, manuscritos inéditos, microfilmes, obras póstumas e o acompanhamento da consultora Fernanda Felisberto, doutora em Literatura Comparada. A pergunta que guiou o processo ecoava: quem é Carolina, afinal?

A resposta levou a escola a reconstruir sua trajetória antes e depois do sucesso editorial, denunciando silenciamentos, cortes e interferências que apagaram críticas contundentes ao racismo estrutural. Mais de mil páginas inéditas revelam uma escritora múltipla, poeta, dramaturga, romancista, pensadora.

Wilson Teodoro da Silva de 47 anos
Wilson Teodoro da Silva, de 47 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Os papéis manuscritos se espalham pela roupa e pendem em varais no costeiro. Objetos reaproveitados surgem como adereços simbólicos. O enfermeiro auditor Wilson Teodoro da Silva, de 47 anos, enxerga potência política na fantasia.

“Hoje, desfilamos com uma fantasia que traz o lixo e, ao mesmo tempo, se transforma em luxo. Isso a torna potente. Fala sobre catar e reciclar, retomando o sentido de que o pobre e o preto também podem ter educação. Isso é a história do Brasil. O Carnaval é feito de contar histórias”, afirmou.

Thiago Leite de 42 anos
Thiago Leite, de 42 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Thiago Leite, de 42 anos, gestor de RH e estreante na Tijuca, a homenagem tem peso simbólico: “Carolina de Jesus é simbólica. Tudo que ela passou é muito emblemático. Foi a minha primeira vez desfilando e é emocionante participar de um desfile com essa figura, que merece ser homenageada há muito tempo. Se for para falar da Tijuca de 2026, eu digo que é mudança e vitória. Espero que volte a ser a Tijuca que sempre foi”.

Ana Beatriz Mesquita de 32 anos
Ana Beatriz Mesquita, de 32 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Ana Beatriz Mesquita, de 32 anos, professora de inglês e também estreante, decidiu entrar na escola por causa do enredo.

“Eu estudei Carolina Maria de Jesus na faculdade e, quando vi o enredo, me apaixonei tanto pela escola quanto pelo samba. Estar carregando um pedacinho dela, das suas palavras, significa muito pra mim. Mesmo eu não sendo uma mulher preta, espero que a gente nunca mais reproduza a cena da mulher preta no Brasil e que possamos mudar a história da Tijuca e de diversas Carolinas que existem pelo país. O samba e a Unidos da Tijuca mudaram a minha vida”, comentou a professora.

Pioneirismo feminino de Rita Lee abre desfile da Mocidade

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A primeira mulher a liderar uma banda de rock no Brasil abriu caminhos no cenário musical. Foi pioneira na música, no estilo e na atitude, inspirando artistas, fãs e o enredo deste ano na Mocidade. A escola canta a vida de Rita Lee, como “padroeira da liberdade” e abre o desfile evocando a alma transgressora e criadora de tendencias da artista.

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Detalhes do abre alas da Tijuca
Detalhes do abre-alas da Mocidade
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A Rainha do Rock revolucionou o gênero no Brasil ao incorporar guitarra elétrica nas composições, sob influência do rock britânico – fato que gerou revolta de outros artistas e passeatas contra o uso da guitarra. Rita trouxe a atmosfera psicodélica que estourava nos Estados Unidos nos anos 1960 influenciados pelo sucesso de Jimi Hendrix e outros artistas, que pode ser ouvido em seus primeiros trabalhos na banda Os Mutantes – ‘Os Mutantes’ (1967), seu primeiro disco solo, Build Up (1969) e permeia por toda sua obra.

Dege Martins
Degê Martins
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Sua influência se estende à atitude e ao poder feminino em uma época de censura e poucas conquistas nos direitos da mulher. Degê Martins, componente do carro que abriu o caminho para celebrar o legado de Rita, vê a artista como revolucionária para a sociedade.

“Rita Lee é uma mulher frente do seu tempo, foi uma mulher que revolucionou a indústria, o mercado musical daquela época, não só o mercado musical como a sociedade em si, numa época em que não se podia ser quem a gente era muitos tabus, machismo, homofobia, e ela botou o dedo na cara do preconceito e falou “eu vou fazer sim, vou mostrar sim”, afirmou.

O caminho visionário que Rita pavimentou desde o início da sua carreira nos anos 1960 e seguido por artistas femininas ate hoje. A própria Rita saúda em sua última Autobiografia Liniker e Luisa Sonza. A componente Degê sugere mais um nome para a lista de Rita: a cantora Ludmilla.

“Ela veio numa época de ditadura, em que as coisas eram muito difíceis, principalmente para as mulheres. E mulheres tinham que obedecer aos homens, tinham que servir. A Rita Lee vir com os seus discos falando sobre amor e sexo, quebrando os tabus. Acaba dando muita influência para as novas cantoras, artistas que vêm depois dela. Ludmilla é uma delas, uma cantora preta, lésbica, mãe, que também está fazendo uma grande revolução e eu acho que eu também é um pouco do legado de Rita”, opinou Dege.

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Maísa Guedes
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A atitude ‘rebelde’ da cantora precede seu nome, e o desfile em sua homenagem não poderia começar de outra forma. Para a componente Maísa Guedes, o carro que traz as estampas fluidas, hipnóticas e tie-dies, e a infame guitarra elétrica que evocam a estética psicodélica, personificam o legado da cantora.

“O carro vem representando a tropicalista do verbo sem freio, que tem tudo a ver com a Rita Lee. Fala sobre liberdade, uma mulher que venceu muitas barreiras, desde muitos anos atrás e deixou esse legado pra gente. Ela inspira todas as mulheres, deixou músicas maravilhosas e muitas dessas músicas estão representadas hoje no enredo da Mocidade. Hoje a gente está aqui praa “ritaleezar”, fazer um “aue” e “bailar comigo”, disse.

O legado de Rita ressoa com a festa que celebra a liberdade, o Carnaval. A ‘Independente’ Degê reafirma a influência da artista ao inspirar a sociedade a ser livre: “A importância dela para o carnaval brasileiro e para todos nós é esse legado de a gente ser livre, ser quem a gente quiser ser, sem se preocupar o que vão achar. Viver com liberdade, é esse o maior legado que ela deixou para a gente”, declarou.

Cintia de Souza
Cíntia de Souza
FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Cíntia de Souza marca presença ao desfilar no mesmo carro desde 2017, ano campeão para a escola. A componente conta que ao crescer na década de 1990, viu as canções e opiniões de Rita serem motor de quebra de tabus e conservadorismo clássico da época. Como mulher, a atitude transgressora da artista lhe afeta profundamente.

“Ela abriu muitas portas. Eu cresci nos anos 1990, então era muito ainda reprimido. Hoje em dia você vê que as pessoas se mostram mais, a gente tem mais liberdade, e é graças a pessoas como a Rita Lee que abriram as portas. Essa homenagem é mais do que merecida”, pontuou.

Degê, que é uma pessoa trans não-binária, acredita que o ‘verbo revolucionário’ de Rita Lee foi essencial para abrir o caminho, para que hoje ela possa viver sua verdade com orgulho e liberdade.

“Dizer que eu sou uma pessoa trans não-binária com tanto orgulho, pessoas como Rita Lee, lá atrás, tiveram que sofrer e comer o pão que o diabo amassou. Tiveram que realmente enfrentar esse estigma, essa sociedade, a questão da religião, que vem muito forte na nossa sociedade. Hoje, para eu dizer, com tanto orgulho, quem eu sou, eu devo também um pouco à Rita Lee”, declarou.

Baianas da Beija-Flor consagram desfile e reafirmam a ancestralidade feminina no Carnaval

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A Beija-Flor de Nilópolis levou à Sapucaí o enredo “Bembé”, em celebração à ancestralidade do povo preto, das tias do samba e conectando a história do maior candomblé de rua do mundo ao legado da agremiação nilopolitana. Em afirmação de sua travessia, a escola pôs a ala das baianas para abrir o desfile, em forma de agradecimento e representando o fundador de Bembé, João de Obá, que foi até as Yabás afim de agradecer por sua liberdade.

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“As Tias do Samba e a Força da Tradição”, espalharam o axé pela avenida com vestes na cor branca, simbolizando purificação, tecido de renda, pomba da paz e elementos dourados.

Luciula Amorim aposentada de 60 anos
Luciula Amorim, aposentada de 60 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Luciula Amorim, aposentada de 60 anos, desfila na agremiação há cinco anos e afirma que esse enredo aponta para uma reconexão com a fé, de pedir por abertura e clareza nos caminhos.

“A gente já entra com o pensamento de que vai dar tudo certo, que vai ser assim mesmo, a energia de todo mundo é muito boa”, afirmou Luciula.

Angela Campos aposentada de 66 anos
Angela Campos, aposentada de 66 anos
FOTO; Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Angela Campos, aposentada de 66 anos, está na Beija-Flor há 20 anos e, para ela, sua fantasia indica a intersecção entre a consagração de um espaço sagrado com a alegria de iniciar o desfile no maior espetáculo da Terra. Angela acredita que esse enredo consegue transformar a Avenida em um território de fé.

“Você se arrepia, o coração bate mais acelerado, é uma coisa que nem dá para descrever totalmente como é. Esse enredo une muito nossa cultura, a nossa raça e a nossa fé, porque sem fé você não vai a lugar nenhum”, declarou Angela.

Jane Aleixo de 37 anos
Jane Aleixo, de 37 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A professora Jane Aleixo, de 37 anos, desfila na agremiação há 4 anos e, para ela, a cor de sua fantasia veio em representação da paz e união que elas tem dentro da comunidade nilopolitana. Jane se sentiu honrada em poder representar as tias do samba.

“É uma honra estar aqui representando essas mães que lá no passado fizeram com que os nossos antepassados pudessem ter lutado para que hoje nós, pessoas pretas, tenhamos tantos direitos”, destacou Jane.

A tecnica em enfermagem Valdea Gomes de 60 anos
A técnica em enfermagem, Valdea Gomes, de 60 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A técnica em enfermagem, Valdea Gomes, de 60 anos, desfila na Beija-Flor há 3 anos e se sente muito linsonjea em participar desse momento da agremiação, sobretudo, pelo respeito e carinho que recebe de toda diretoria da escola.

“É uma festa em que nós comemoramos nossa ancestralidade. E, hoje, nós estamos abrindo espaço para os nossos ancestrais, para o nosso povo, estamos levando essa história para o povo preto”, declarou Valdea.

Viradouro 2026: galeria de fotos do desfile

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‘Voz feminina plural’: Mocidade exalta Rita Lee como aliada da causa LGBTQIAPN+

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Na Marquês de Sapucaí, a homenagem da Mocidade Independente de Padre Miguel a Rita Lee ganhou corpo coletivo na ala LGBTQIAPN+, que levou para a avenida um tributo à artista como símbolo de liberdade, autenticidade e enfrentamento às normas sociais. Em um desfile marcado pela celebração de sua trajetória, a presença da diversidade transformou a memória musical em afirmação política.

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Ala LGBT da Mocidade. Foto: Mariana Santos

Muito antes de debates sobre gênero e sexualidade ocuparem o centro da esfera pública, Rita já tencionava padrões. Em 1997, no clipe de “Obrigado, Não”, exibiu o beijo entre dois homens vestidos de militares. O gesto foi considerado ousado para a época e revelador de sua postura provocadora diante do conservadorismo. Na avenida, esse legado foi reconhecido como caminho aberto para novas existências.

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Gabi Santos, da ala LGBT da Mocidade. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Estreante na Estrela Guia, Gabi Santos, de 32 anos, escolheu desfilar justamente na ala LGBTQIAPN+ por se reconhecer nessa história de coragem. Seguindo os passos da avó, antiga torcedora da escola, ela destacou a importância de artistas que desafiaram limites e tornaram possíveis outras formas de viver.

“Ela trilhou o chão para a gente caminhar. Tem total importância para estarmos aqui hoje fazendo o que estamos fazendo. Me influencia muito, assim como outros artistas da época, como Ney Matogrosso e Cazuza. Não são da minha geração, mas têm um valor enorme para mim”.

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João Gabriel Lemos, da ala LGBT da Mocidade. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Entre os componentes, a imagem de Rita aparece associada à franqueza e à recusa do silêncio. João Gabriel Lemos, que também desfilou na ala, afirmou se reconhecer na personalidade direta da cantora.

“Essa autenticidade dela, esse jeito de falar as coisas sem medo… eu sou genioso e me identifico muito. Quando a Mocidade lançou o enredo, falei que era o meu ano, porque me vejo nessa forma de se expressar sem censura”.

Em um espaço historicamente marcado por disputas de visibilidade, a presença de uma ala dedicada à diversidade reafirma o Carnaval como território de existência coletiva. Para Gabi, mais do que representação, trata-se da continuidade de um legado.

“O Carnaval tem essa licença poética para a gente se libertar das amarras e viver da forma mais livre possível”, afirmou.

Ao transformar a homenagem a Rita Lee em celebração coletiva da diferença, a Mocidade fez da Sapucaí não apenas palco de memória, mas espaço de liberdade que a cantora ajudou a construir. Entre música, coragem e fantasia, sua voz segue ecoando onde sempre fez mais sentido: no corpo de quem insiste em existir sem pedir permissão.

Beija-Flor abre desfile com ‘silêncio’, fé e resistência

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Antes de deixar a explosão dos tambores e do canto tomar conta da Sapucaí com um samba-enredo que caiu na boca do povo, a Beija-Flor abriu o desfile com silêncio. Mas não estamos falando do silêncio sonoro, e sim, do da espiritualidade. O monumental abre-alas, intitulado “No silêncio que antecede o tambor”, representou os 16 dias de recolhimento que antecedem o Bembé, marcando o tempo sagrado destinado a preparação espiritual para a celebração acontecer.

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Detalhes do abre-alas da BeijaFlor
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O carro era predominado pela cor branca, associada a equilíbrio, paz e tranquilidade, significando esse período. A Sapucaí foi transformada em uma extensão do terreiro, se reafirmando como um espaço de manifestação da fé e resistência.

Hercules Cruz de 25 anos
Hércules Cruz, de 25 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O ator Hércules Cruz, de 25 anos, veio como destaque no carro e comentou que, apesar da proposta de introspecção, o sentimento provocado nele ao ver a alegoria é mais de celebração.

“É um enorme sentimento de celebração, de pureza, uma alegria que vem de dentro para fora. Para mim, a cor branca representa a suavidade, as águas limpas, o céu claro, o novo dia que está para raiar, a nova chance de batalhar para o novo dia e tudo de mais incrível desse mundo”, comentou.

Ao falar sobre a importância de transformar a Sapucaí em espaço de rito do Bembé, que ocupa a rua há mais de 136 anos, Hércules ressaltou: “Eu acho muito importante, porque é uma história que tem que ser muito conhecida mesmo. O Bembé é uma força ancestral, e por isso, assim como a Beija-Flor. Só ela poderia contar essa história”.

Isis Cristine de 40 anos
Isis Cristine, de 40 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A assistente de design Isis Cristine, de 40 anos, candomblecista há 26 anos, vê o desfile como uma grande afirmação do sagrado e da ancestralidade.

“É valorizar quem veio antes de nós. Sem a ancestralidade, sem os nossos antepassados, nossos avós, bisavós, pais, nós não estaríamos aqui. Exaltá-los é uma forma de agradecer a luta deles, porque foi mais difícil para eles. Nós chegamos em uma fase mais tranquila da manifetsção da nossa religiosidade, entre aspas. Ainda falta muito para conquistarmos a totalidade e a reparação histórica de uma forma geral. Mas eles passaram muito mais preconceito, muito mais discriminação, muito mais rejeição do que nós. Estar aqui nessa celebração significa resistência”, pontuou.

Juan de Castro de 31 anos
Juan de Castro, de 31 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já o professor Juan de Castro, de 31 anos, professor, morador de Nilópolis e torcedor da escola, afirmou que o carro lhe despertou sentimentos múltiplos:“Me remete tanto à celebração quanto à tranquilidade, leveza, calma, tranquilidade, ao início de tudo. Como abre-alas, estamos abrindo da melhor forma possível. Mesmo representando tranquilidade, vamos levantar a poeira e dar o nosso nome aí na avenida”.

Tchelsea Barbosa de 18 anos
Tchelsea Barbosa, de 18 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A estudante e empresária Tchelsea Barbosa, de 18 anos, estudante e empresária, moradora de Jacarepaguá, desfilou pela primeira vez na Azul e Branca, e resumiu o impacto que o abre-alas lhe causou.

“Eu vejo a celebração junto com a paz. Nem tudo que é animado precisa ser caos. O Carnaval é felicidade, é emoção e tranquilodade também, afinal, nada melhor do que curtir de forma leve”.

Gabriel Souza de 25 anos
Gabriel Souza, de 25 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já o empresário Gabriel Souza, de 25 anos, resumiu o sentimento fazendo um apelo: “Temos que estar sempre celebrando, para que não haja intolerância. É magnífico estar desfilando em um carro tão importante quanto esse”.