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‘Isso aqui vai virar macumba’: grito potente da Beija-Flor faz Sapucaí se unir em uma grande celebração da fé

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Quando a Beija-Flor fez o sambódromo gritar “Isso aqui vai virar macumba”, não foi apenas por uma mera provocação. Foi um gesto de afirmação e resistência. A frase anunciou que a Sapucaí seria tomada pela força da fé, assim como o Largo do Mercado é ocupado durante o Bembé. A Azul e Branca é muito conhecida por abordar temas afro-brasileiros em seus enredos, sempre valorizando a cultura e as religiões de matriz africana. Na comunidade nilopolitana, isso é visto com muito orgulho. 

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A estudante de direito Ana Beatriz, de 20 anos, que desfilou na primeira ala da escola, fez um relato pessoal sobre a importância da escola dar visibilidade a toda uma comunidade que ainda sofre com a estigmatização de suas crenças.

“É muito importante para mim, ainda mais pela oportunidade de ser reconhecida e vista, como uma mulher negra que também já foi uma criança negra. Nós crescemos com uma ideia colonizada sobre o Brasil, que não é sua verdadeira história. A verdade tem muito a ver com os negros e com os indígenas. Dar essa visibilidade para as nossas raízes é fazer parte dessa história. Estamos no berço da Tia Ciata. Antes de aqui ser o Sambódromo, era o terreiro dela. Trazer essa história para ser contada na Apoteose hoje é transformar a avenida em espaço de fé e, sim, resistência. Vai ser lindo ver o povo lutando, gritando, exigindo atenção, ser visto”, afirmou.

O passista nilopolitando Júnior Felipe, de 29 anos, que tem 16 anos de carnaval e é torcedor de coração da passarinha, também enxergou o desfile como ato de resistência religiosa.

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Júnior Felipe, de 29 anos, passista da Beija-Flor. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

“Sempre é um ato de resistência, porque o carnaval é mais uma oportunidade da gente mostrar o quanto a religião pode ser importante na vida de um ser humano. E poder falar da nossa religião, que sofre tanto com preconceito, me faz enxergar a Sapucaí como um lugar de fé e de acolhimento”.

Sobre o verso principal do samba, ele destacou que gritar em nome da “macumba”, é dar voz para que todo um povo responda aos ataques que sofre. 

“Isso aqui vai virar macumba representa que é a nossa voz podendo falar um pouco mais alto e mostrar para todas as pessoas que a intolerância religiosa é apenas uma tolice e uma ignorância dos demais”.

Ele também ressaltou o orgulho de ver a escola do coração levar o Bembé para a avenida: “É uma honra poder mostrar o maior candomblé de rua e trazer um pouco mais da cultura da Bahia, da cidade de Santo Amaro e da nossa religião”. 

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Luanna Barthollo, musa da Beija-Flor. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Luanna Barthollo, musa da escola, se emocionou ao falar do enredo. A fantasia que ela veio vestindo representou as ervas de defumação na avenida.

“Eu sou uma pessoa de axé. Por isso, esse assunto me toca profundamente. É a primeira vez que eu estou desfilando na Beija-Flor desfilando e já chorei muito de emoçãk antes de chegar até aqui. Estar aqui hoje é uma forma amorosa de resistir, levando a nossa cultura de uma forma muito irreverente e alegre, mas forte, para as pessoas entenderem que nenhuma religião está acima da outra”.

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Alexinando Souza Lima, de 46 anos. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Representando Santo Amaro, estava o administrador baiano Alexinando Souza Lima, de 46 anos, que foi atraído para desfilar pela primeira vez no carnaval carioca por conta do enredo falar de sua terra natal. Ele veio na ala que homenageou Maculelê.

“Representa muito a nossa história, a nossa ancestralidade. Começou lá na minha terra. Para mim é uma emoção mostrar isso pro mundo. Imagine mostrar para o mundo que o Bembé existe no carnaval, que é um grande palco. É uma celebração da fé em uma escala gigante”.

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Andréia Oliveira, de 44 anos. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A auxiliar de administrativo financeiro Andréia Oliveira, de 44 anos, que desfilou na ala das baianas, trouxe a visão de fora de uma pessoa que tem outra fé, mas que consegue celebrar todas as crenças, sem preconceitos. Cristã, ela vê o grito como uma liberdade do outro de exercer a fé, e ainda assim, consegue se sentir representada.

“Quando se diz que isso aqui vai virar macumba, para mim, que sou mulher preta e vim dessa ancestralidade, acredito que isso aqui vai virar uma festa, um acontecimento. Mesmo sendo cristã, para mim a macumba é tudo de bom. Não existe preconceito. Isso aqui vai virar macumba porque vai virar uma coisa muito legal, se Deus quiser”, finalizou.

Entre glamour e oportunismo: Passistas da Tijuca representa a fase de fama e reconhecimento da vida de Carolina Maria de Jesus

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A ala de passistas da Unidos da Tijuca, intitulada “Encantos do Pavão – Passistas”, levou para a Avenida o brilho e as contradições do sucesso de Carolina Maria de Jesus após a repercussão de Quarto de Despejo. Sob o tema “Malandros de Ocasião”, a fantasia retrata o período em que a escritora se transforma na personagem “Vedete da Favela” e passa a atrair pretendentes oportunistas, fascinados por sua fama repentina.

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Cristiane Esteves manicure de 26 anos
Cristiane Esteves, manicure de 26 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Cristiane Esteves, manicure de 26 anos, desfila na Tijuca há 5 anos. Ela sentiu a representatividade que a trajetória da escritora apresenta, sobretudo, para mulheres negras e periféricas.

“Esse momento para mim, e creio eu que para elas todas, representa as meninas que moram na favela, que sonham estar aqui, que sonham poder ser escritoras, que sonham poder mostrar que não é por que você é preta, que só viverá na favela, que a pista também é espaço para ocupar”, afirmou Cristiane.

O tecnico em enfermagem Marcos Colbert de 22 anos
O técnico em enfermagem, Marcos Colbert, de 22 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O técnico em enfermagem, Marcos Colbert, de 22 anos, desfila na agremiação há quatro anos e faz sua estreia como passista. Marcos compreendeu as referências da fantasia como o contraste entre a vida difícil que Carolina levou e o seu sucesso.

“É um mesclado de tudo. O contraste da situação dela e o sucesso, a gente tá representando isso. E a gente é isso, ser passista é isso. A gente se lasca o ano todo, mas viemos pra glamourizar isso tudo”, comparou Marcos.

A assistente juridica Cleo de 25 anos
A assistente jurídica, Cléo, de 25 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A assistente jurídica, Cléo, de 25 anos, desfila na escola há 2 anos. Ela admira a obra de Carolina e a interpreta como uma escritora atemporal.

“Eu costumo dizer que ela era muito à frente do tempo dela. Ela retrata muito o que nós vivemos ainda hoje. Só eu sei como mulher negra o que eu tenho que enfrentar para ocupar os espaços que eu ocupo. E Carolina já dizia muito sobre isso naquela época”, enfatizou Cléo.

O engenheiro de producao Joao Pedro Drumond de 29 anos
O engenheiro de produção João Pedro Drumond, de 29 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O engenheiro de produção João Pedro Drumond, de 29 anos, desfila na Tijuca há 9 anos e percebe que a ideia de malandragem, representada em sua fantasia, ainda é presente nos dias atuais.

“No cotidiano, você vê várias pessoas por interesse de outras e traz aquela malandragem que a parte do passista masculino tem. Nós brincamos com essa malandragem. Isso foi um paralelo que o nosso carnavalesco fez para poder dar um ‘se ligue’ na sociedade”, disse João.

Tijuca 2026: galeria de fotos do desfile

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Lucinha Nobre e Matheus Miranda: a assinatura da Unidos da Tijuca que abre caminhos na Avenida

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Em um desfile que mergulha na trajetória de Carolina Maria de Jesus, o primeiro casal da Unidos da Tijuca, Lucinha Nobre e Matheus Miranda, assume um papel simbólico ainda mais forte: ser a assinatura da escola antes que qualquer ala atravesse a Sapucaí. A fantasia foi intitulada de “Unidos da Tijuca apresenta”.

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Primeiro casal tijucano
Primeiro casal tijucano
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Lucinha, estar à frente de um enredo que coloca o protagonismo feminino negro no centro da narrativa é motivo de orgulho e consciência.

“Eu fico orgulhosa e muito consciente da missão. Foi uma trabalheira, muito estudo, muita busca. Recebi muito acolhimento dentro da escola. Hoje, abrir caminho para tantas Carolinas é uma emoção muito grande”, contou a porta-bandeira.

A responsabilidade de iniciar o desfile também ganha contornos emocionais nas palavras de Matheus. Para ele, o primeiro casal é quem começa a contar a história com o corpo.

“A gente puxa o fio da emoção. O primeiro casal carrega a fé da escola. É uma forma de contar o samba com o corpo e com a alma, começar essa trilha de sentimentos que a escola quer despertar”, citou o Mestre-Sala.

A fantasia luxuosa, inspirada no pavão, símbolo máximo da Tijuca, reforça essa identidade. Enquanto Lucinha conduz o pavilhão sagrado, Matheus traz nas mãos uma caneta tinteiro, referência direta ao caráter literário do enredo.

“A gente é a escola, a gente é o pavão, dentro dessa fantasia, levamos um pedacinho de cada componente”, resumiu Lucinha.

A parceria do casal, construída ao longo das temporadas, encontra na Sapucaí seu momento máximo. Matheus compara o desfile a uma cerimônia de casamento de um casal: “A Avenida é o dia do casamento. A gente namora o ano inteiro, ensaia, amadurece. No desfile, vira um só corpo”.

Nos bastidores, o suporte psicológico oferecido pela escola foi essencial para sustentar a intensidade da preparação. Segundo a porta-bandeira, era um desejo antigo.

“Quando a Tijuca confirmou esse apoio, foi uma alegria. A equipe foi fundamental para encarar o desafio com a cabeça mais leve”, e o Matheus complementou “A rotina é pesada. Ter esse acompanhamento ajuda a manter o equilíbrio e entregar o melhor”.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Viradouro no desfile no Carnaval 2026

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Um grande desfile da bateria “Furacão Vermelho e Branco” da Unidos do Viradouro, comandada pelo mestre e enredo, Ciça. Um ritmo bem vinculado à própria história do lendário Moacyr da Silva Pinto foi exibido. Assim mesmo, com nome e sobrenome, dada a sua inenarrável importância no meio das baterias de escolas de samba. Foi um desfile, sobretudo, bastante emocionante. Do alto da última alegoria, a bateria da Viradouro foi simplesmente ovacionada por todos os setores da Avenida.

Na cabeça da “Furacão Vermelho e Branco”, um esplêndido naipe de cuícas exibiu um trabalho de destaque. Uma ala de chocalhos de grande virtude coletiva tocou junto de um naipe de tamborins de imensa qualidade técnica. Ambos os naipes em conjunto deram brilho sonoro, evidenciando a excelência rítmica das peças leves da escola do bairro do Barreto.

Na parte de trás do ritmo da Viradouro, uma poderosa e pesada afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e de segunda foram vigorosos, mas seguros. Surdos de terceira deram um bom balanço, tanto em ritmo, quanto em bossas. Uma sólida ala de repiques tocou junto de um naipe de caixas de guerra bem ressonante, com a tradicional levada de partido alto tocada “no alto pra resistir”, fazendo valer na prática o “legado do mestre Caveira”.

Bossas bem vinculadas à história musical do mestre Ciça foram exibidas de forma precisa. Uma criação de bossas identitária, de tão atrelada a concepção que marcou a carreira do “Mestre dos Mestres”. Arranjos que se pautavam nas variações do melodioso samba da Unidos do Viradouro para consolidar seu ritmo. Tudo com bastante pressão sonora, provocada por uma afinação bem potente de surdos, além de um notável trabalho envolvendo caixas e tamborins. Conversas rítmicas dançantes e poderosas, que foram executadas com precisão.

Uma grande e épica apresentação da bateria da Unidos do Viradouro, dirigida pelo inédito tema da agremiação e mestre, Ciça. O “Caveira”, como é conhecido no meio do ritmo, regeu sua orquestra no topo da última alegoria, mais uma vez fazendo história. Um ritmo bem identificado com a carreira do “Mestre dos Mestres” foi exibido, contando com bossas que davam pressão sonora a uma bateria com seu peso característico. Na última cabine julgadora, uma interação popular absoluta foi alcançada, com público e julgadores vindo ao delírio, comprovando o grandioso trabalho de mestre Ciça, no emblemático Carnaval em que sua trajetória foi contada na Sapucaí.

Encontro Ancestral! Beija-Flor conecta duas margens do mesmo rio, celebrando espiritualidade, fé e ancestralidade negra

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Em homenagem ao Bembé do Mercado, maior candomblé de rua do mundo, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou a junção de duas culturas distintas, unidas por um mesmo elo: a ancestralidade negra. A ala 28, “Evoco a Baixada de Todos os Santos que pede e agradece”, desfilou em forma de oferenda, simbolizando gratidão e pedidos coletivos.

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Claudio Files
Cláudio Files, de 63 anos, professor de filosofia. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O professor de filosofia Cláudio Files, de 63 anos, desfila na agremiação há cerca de oito anos e destacou, entre os muitos sentidos do enredo, a ressignificação do 13 de maio, data da abolição da escravidão no Brasil, como o aspecto que mais lhe chamou atenção.

“Trazer Santo Amaro para o carnaval do Rio de Janeiro é a junção de duas forças estrondosas da nossa cultura. É a representação do carnaval como festa negra e da Bahia como potência da negritude. Também deixa claro que a abolição não nasceu da bondade de uma princesa europeia, mas foi fruto de luta, quilombos, morte e sofrimento”, declarou.

Juliana Ferreira
Juliana Ferreira, 36 anos, jornalista. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Juliana Ferreira, jornalista de 36 anos, desfila pela segunda vez na azul e branco da Baixada, embora torça pela escola desde a infância. Ela contou que já se programava para conhecer o Bembé do Mercado antes mesmo do anúncio do enredo e, por coincidência, esteve em Santo Amaro no mesmo período que a comitiva da agremiação. 

A experiência permitiu perceber de perto as conexões entre a Santo Amaro e Nilópolis, como a centralidade da avenida Mirandela para o encontro da comunidade.

“Tem a celebração do carnaval, mas também o agradecimento pela vida e pelos ancestrais que nos trouxeram até aqui. Essa travessia das águas não representa só a passagem pela Avenida, mas o presente, a gratidão e toda a construção da escola”, afirmou.

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Vitor Sampaio, de 24 anos, dentista. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O dentista Vitor Sampaio, de 24 anos, está em seu segundo desfile pela agremiação. Após estudar o enredo, ele identificou paralelos entre o Bembé e o que define como o “quilombo de Nilópolis” representado pela Beija-Flor.

“O povo do Bembé representa muito o quilombo da Beija-Flor, do povo preto, do povo macumbeiro. A gente tem a mesma identidade cultural. Existe um encontro real com essa manifestação e com essa festa maravilhosa”, contou.

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Raísa Schefer, 32 anos, servidora pública. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Servidora pública de 32 anos, Raísa Schefer estreia na escola neste carnaval. Para ela, o desfile também carrega um sentido de agradecimento espiritual, tanto pelo título conquistado em 2025 quanto pela oportunidade de viver a experiência coletiva na avenida.

“Desfilar é a coroação de uma trajetória dentro da comunidade. A gente celebra essa vivência, estar com pessoas que ama e compartilhar esse momento na avenida”, disse.

Nilópolis e Santo Amaro se encontram na Sapucaí como territórios irmãos, que se abraçam para celebrar a liberdade.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Beija-Flor no desfile no Carnaval 2026

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Um ótimo desfile da bateria “Soberana” da Beija-Flor, sob o comando dos mestres Rodney e Plínio. Um ritmo tradicionalmente vinculado ao DNA musical da sonoridade da escola de Nilópolis foi produzido. Uma bateria enxuta, bastante equilibrada e bem equalizada foi apresentada. Tudo junto de bossas bem casadas com o samba, que ajudaram a valorizar a obra nilopolitana com extrema categoria.

Na parte da frente do ritmo da Beija, um naipe de cuícas sólido deu sua contribuição musical. Uma exímia ala de chocalhos tocou interligada a um naipe de tamborins de nítida virtude musical coletiva. O belo entrosamento entre os tamborins e chocalhos nilopolitanos foi o ponto alto da excelente sonoridade das peças leves.

Na cozinha da bateria “Soberana”, uma afinação privilegiada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e de segunda ditaram o andamento com segurança. Surdos de terceira deram um balanço acima da média aos graves. Caixas de guerra ressonantes e sólidas intercalaram toques, com as de maior polegada com batida reta embaixo e as tocadas em cima com levada de partido alto. Uma ala de repiques absurdamente talentosa tocou de modo coeso. A parte de trás do ritmo da Deusa da Passarela ainda contou com atabaques, que também foram fundamentais em bossas. Além da tradicional e potente ala de frigideiras, preenchendo a sonoridade do miolo com um tilintar metálico precioso, valorizando a identidade da batucada nilopolitana.

Bossas intimamente ligadas às nuances melódicas do lindo samba da Beija-Flor foram executadas com precisão. Uma criação musical bastante intuitiva e orgânica foi bem exibida. Tudo absolutamente muito casado com a obra da Deusa. São nuances rítmicas e paradinhas que ajudam a impulsionar o samba e deixar o clima dançante para os componentes. O arranjo envolvendo os atabaques ajudou a atrelar o enredo de vertente africana à bela sonoridade produzida pela “Soberana”. Algumas bossas se aproveitavam da diferença entre os timbres da bateria, para consolidar seu ritmo e evidenciar uma leitura musical baseada em profundo bom gosto.

Uma ótima apresentação da bateria “Soberana” da Beija-Flor de Nilópolis, dirigida pelos mestres Rodney e Plínio. Uma bateria com a batucada nilopolitana típica, com bela diferenciação entre os timbres e bossas bem ligadas a melodia do incontestável samba da Deusa. Um ritmo de uma autêntica escola de samba, sabendo valorizar a canção, impulsionando os desfilantes e vinculando a sonoridade “Soberana” ao enredo de matriz africana da atual campeã do carnaval.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Mocidade no desfile no Carnaval 2026

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Um excelente desfile da bateria “Não Existe Mais Quente” (NEMQ) da Mocidade Independente de Padre Miguel, sob o comando de mestre Dudu. Uma ótima conjunção sonora foi produzida. Um ritmo independente com andamento bem confortável, equilibrada e bem equalizada, o que permitiu uma fluidez absoluta de todos os naipes. Uma sonoridade vinculada à tradição da Mocidade foi exibida, com um valioso trabalho de um conjunto de bossas feito sob medida para o samba-enredo da escola.

Na cabeça da bateria da verde e branca da zona Oeste, uma ala de cuícas sólida tocou junto de um naipe seguro de agogôs de duas campanas (bocas), ajudando no preenchimento da parte da frente do ritmo. Extremamente acima da média, o trabalho do naipe de chocalhos, fazendo aquela subida “Cascavel” tão tradicional nas retomadas das bossas. Uma ala de tamborins de qualidade técnica absoluta apresentou uma coletividade sublime. A convenção rítmica de chocalhos e tamborins, muito bem encaixada com o samba da escola, evidenciou o trabalho de excelência das peças leves.

Na parte de trás do ritmo da Estrela Guia, surdos com uma boa afinação invertida foram percebidos, totalmente inserida no DNA musical da Mocidade. Marcadores de primeira e segunda tocaram com precisão. Surdos de terceira com balanço envolvente deram um molho exemplar à cozinha independente. Repiques de alta técnica musical tocaram juntos de um naipe de caixas de guerra com sua peculiar batida acentuando a “mão fraca”, complementando os médios de maneira requintada.

Bossas bastante vinculadas ao melodioso samba independente foram exibidas com precisão e capricho na execução. Simplesmente sensacional a paradinha do refrão principal, com direito a progressão dinâmica sonora. Impactante demais a sonoridade do arranjo em questão, onde graves, médios e agudos intercalam suas entradas de modo progressivo, tanto com musicalidade crescente, como descrescente. Uma das bossas mais elaboradas e bem pensadas de todo o Carnaval. A intimidade musical das paradinhas da bateria “NEMQ” com o samba da Estrela Guia impressionou demais, por se tratar de uma criação conceitual orgânica, intuitiva e bastante fluída. O belo arranjo do refrão do meio, bem dançante, também se mostrou um recurso sonoro valioso, ajudando a impulsionar a obra e componentes a evoluírem.

Uma apresentação excelente da bateria da Mocidade, dirigida por mestre Dudu. Um ritmo enxuto, com muito equilíbrio e profundamente vinculado à identidade musical da escola, foi exibido. Fabulosa a adequação sonora de um dos leques de paradinhas mais intuitivos e orgânicos de todo o grupo especial, evidenciado uma criação conceitual de alto nível. A apresentação no último módulo de jurados arrancou aplausos do público e de julgadores, deixando claro o grande trabalho realizado pela bateria “NEMQ”.

Pra Cima, Ciça! Viradouro relembra Carnaval de 2007 e leva bateria às alturas em carro alegórico

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A Unidos do Viradouro recriou a icônica cena do Carnaval de 2007 e trouxe a Furacão Vermelho e Branco no alto do último carro alegórico da escola. A agremiação de Niterói transformou a Marquês de Sapucaí em um palco de reverência, na madrugada desta terça-feira, ao apresentar o enredo “Pra cima, Ciça”.

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Ritmistas na alegoria
Ritmistas na alegoria
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Batizado de “Pra Cima, Ciça! – A Bateria nas Alturas”, o carro 6 foi a grande surpresa do desfile. A decisão de colocar a bateria sobre a alegoria não foi apenas uma escolha estética, mas uma forma de honrar e revisitar a trajetória do mestre. Enquanto a Sapucaí acompanhava cada paradinha e retomada do samba, os ritmistas equilibravam emoção e concentração para honrar aquele que mudou a história da batucada.

Caique Reis de 31 anos
Caíque Reis, de 31 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para o segurança patrimonial Caíque Reis, de 31 anos, o maior desafio estava na estabilidade.

“A emoção é muito grande e o maior desafio técnico é a nossa estabilidade. Nós tivemos cinco ensaios na Cidade do Samba em cima do carro, que foi essencial, para sabermos como lidar na hora que ele freia, que ele acelera. O Ciça sempre foi meu professor. Comecei na bateria mirim com 9 anos, hoje tenho 31”, contou ao CARNAVALESCO. Se pudesse sussurrar algo antes da subida, ele não hesitaria: “Muita sorte para gente e que venha o tetra da nossa Viradouro”. E revelou um desejo: entrar na Avenida ao som de “É campeã”.

Alex Martins de 45 anos
Alex Martins, de 45 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Alex Martins, de 45 anos, técnico de informática, também destacou a responsabilidade de tocar fora do chão.

“É tudo novo. Tem a questão da frenagem, prestar atenção, controlar a emoção”, explicou. Para ele, o enredo carrega uma representatividade no carnaval: “A gente costuma homenagear a pessoa só depois que ela morre, então homenagear um amigo pessoal em vida é emocionante”. Antes de subir no carro, a mensagem seria direta: “Eu te amo, você é maravilhoso, um dos melhores que já vi na minha vida”. Com mais de três décadas de desfiles, Alex admite que a experiência nas alturas tem um sabor único.

O piloto de aviao Will Oliveira de 62 anos
O piloto de avião Will Oliveira, de 62 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A sensação de pertencimento também marcou o retorno do piloto de avião Will Oliveira, de 62 anos. Ele estava entre os ritmistas que atravessaram a Passarela do Samba na alegoria, lá em 2007.

“Para mim, é a segunda vez que vou desfilar em cima de um carro alegórico, em 2007 eu estava com o Ciça. Fiquei três anos fora da escola, mas ele me chamou, e eu estou de volta.” Emocionado, ele definiu sua posição na alegoria como a de “um dos súditos do rei”.

Para Will, Ciça representa tradição e alegria, e o convite para participar desse momento especial é carregado de memórias: “Pra cima Ciça, estamos juntos, te amo. Espero que meu coração aguente a emoção”.

Papel, memória e permanência: Ala 13 da Unidos da Tijuca transforma lixo em legado ao homenagear Carolina de Jesus

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A Ala 13 da Unidos da Tijuca foi resultado de uma pesquisa profunda sobre a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus. O setr tentou ir além do estereótipo da “catadora que escrevia” para revelar a dimensão intelectual, política e artística da autora.

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Detalhes da ala
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O ponto de partida foi inevitável: Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, publicado em 1960 e organizado por Audálio Dantas. Depois vieram Diário de Bitita, manuscritos inéditos, microfilmes, obras póstumas e o acompanhamento da consultora Fernanda Felisberto, doutora em Literatura Comparada. A pergunta que guiou o processo ecoava: quem é Carolina, afinal?

A resposta levou a escola a reconstruir sua trajetória antes e depois do sucesso editorial, denunciando silenciamentos, cortes e interferências que apagaram críticas contundentes ao racismo estrutural. Mais de mil páginas inéditas revelam uma escritora múltipla, poeta, dramaturga, romancista, pensadora.

Wilson Teodoro da Silva de 47 anos
Wilson Teodoro da Silva, de 47 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Os papéis manuscritos se espalham pela roupa e pendem em varais no costeiro. Objetos reaproveitados surgem como adereços simbólicos. O enfermeiro auditor Wilson Teodoro da Silva, de 47 anos, enxerga potência política na fantasia.

“Hoje, desfilamos com uma fantasia que traz o lixo e, ao mesmo tempo, se transforma em luxo. Isso a torna potente. Fala sobre catar e reciclar, retomando o sentido de que o pobre e o preto também podem ter educação. Isso é a história do Brasil. O Carnaval é feito de contar histórias”, afirmou.

Thiago Leite de 42 anos
Thiago Leite, de 42 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Thiago Leite, de 42 anos, gestor de RH e estreante na Tijuca, a homenagem tem peso simbólico: “Carolina de Jesus é simbólica. Tudo que ela passou é muito emblemático. Foi a minha primeira vez desfilando e é emocionante participar de um desfile com essa figura, que merece ser homenageada há muito tempo. Se for para falar da Tijuca de 2026, eu digo que é mudança e vitória. Espero que volte a ser a Tijuca que sempre foi”.

Ana Beatriz Mesquita de 32 anos
Ana Beatriz Mesquita, de 32 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Ana Beatriz Mesquita, de 32 anos, professora de inglês e também estreante, decidiu entrar na escola por causa do enredo.

“Eu estudei Carolina Maria de Jesus na faculdade e, quando vi o enredo, me apaixonei tanto pela escola quanto pelo samba. Estar carregando um pedacinho dela, das suas palavras, significa muito pra mim. Mesmo eu não sendo uma mulher preta, espero que a gente nunca mais reproduza a cena da mulher preta no Brasil e que possamos mudar a história da Tijuca e de diversas Carolinas que existem pelo país. O samba e a Unidos da Tijuca mudaram a minha vida”, comentou a professora.