Embalado pelo verso “Muda essa história, Tijuca”, o samba-enredo da Unidos da Tijuca representa o momento de reconstrução da escola. Fora do Desfile das Campeãs desde 2016, a agremiação do Borel se inspirou na força da trajetória de Carolina Maria de Jesus, homenageada pelo enredo esse ano, para virar a chave da própria história.
Nilson Miranda FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Essa mudança foi percebida pelos torcedores e pelo público. Para o servidor público Nilson Miranda, de 55 anos, a escolha do enredo teve tudo a ver com isso.
“A Tijuca veio com um tema mais consistente. Abordar a Carolina e a obra dela um pouco as abordagens dos anos anteriores. Se manter essa pegada nos próximos anos, melhora bastante. Acho que nos últimos anos a escola andou meio se perdendo na escolha dos temas, que não eram tão impactantes”, comentou.
Hugo Andrade, de 32 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já o ator Hugo Andrade, de 32 anos, que desfilou na ala “Cena Viva”, enxergou sensibilidade na escolha do enredo. Para ele, essa conexão mais humana é o diferencial da escola neste ano.
“Falar de uma escritora como Carolina Maria de Jesus traz muita humanidade. Em um mundo tão plástico, cheio de inteligência artificial, de coisa plástica, a Carolina é real, é humana, é verdadeira. Isso traz humanidade a escola. O samba super emociona e se conecta com esse lugar. Com certeza ajudou nessa virada de chave”, disse.
O presidente da Velha Guarda, Ricardo Luiz da Silva FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O presidente da Velha Guarda, Ricardo Luiz da Silva, reconheceu que as mudanças foram profundas: “A Tijuca teve praticamente 100% de mudança. Em estrutura, em evolução, no canto e em tudo na escola. E o samba embalou isso”.
O abre-alas da Unidos da Tijuca, intitulado “Aprendendo os Mistérios da Vida – A Crença, o Afeto e o Encontro com as Palavras”, trouxe uma enorme escultura de Carolina Maria de Jesus ainda criança. A impactante e ao mesmo tempo doce imagem buscou mergulhar na infância da escritora para mostrar que, antes de ser um símbolo de denúncia e resistência, ela já foi uma menina cheia de sonhos.
O carro trouxe elementos que remetem à religiosidade da homenageada e ao ambiente rural em que ela vivia no interior para falar de sua origem. Essa estética também dialogou com o momento em que se encontra a própria escola, que está no processo de retomada da sua identidade.
A passista Ale Jansen FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A passista Ale Jansen desfilou como destaque na alegoria e definiu a experiência de vir a frente dessa imagem como a representação da luta feminina.
“É um presente muito grande fazer parte não só desse enredo, mas abrir o desfile com uma mensagem de empoderamento feminino, de força, de raça e de luta. Estou vivendo um sonho de infância, pois assim como Carolina, também sonhei primeiro até chegar aqui”, afirmou, emocionada.
Júlio Brito, de 45 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Para o advogado Júlio Brito, de 45 anos, há 15 anos desfilando na Tijuca, abrir o desfile contando o início da trajetória de Carolina condiz com o momento atual vivido pela escola.
“Esse carro representa a infância da Carolina, o começo dos sonhos e das crenças dela, e abrir o desfile com essa imagem é um grande desafio. Hoje, falar de uma mulher preta e periférica em um Carnaval que cada vez mais clama somente por luxo exige coragem, mas o nosso carnavalesco desenvolveu isso brilhantemente, passando a emoção necessária para sustentar o enredo. Quando o samba fala ‘muda essa história’, tem muito a ver com esse momento: o desfile já começa com a Tijuca clamando por essa mudança, por um resgate dos tempos em que estava sempre entre as campeãs, bem colocada. Ao mesmo tempo, essa memória da infância da Carolina se associa à própria escola na relação que ela constrói com sua comunidade, principalmente com as crianças, plantando o amor pelo samba desde cedo. É aqui que essa história começa a ser contada”, detalhou.
A analista de RH Jaqueline Portela, de 31 anos FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A analista de RH Jaqueline Portela, de 31 anos, que também veio como destaque bem a frente do carro, vestindo uma fantasia de criança, concordou com a afirmação que a alegoria conversa com o momento da Tijuca: “Acho que traduz exatamente esse momento da escola, que traz essa retomada mesmo. E acho que a infância tem tudo a ver com isso. Representa a força de sonhar e ir atrás de voltar para o lugar que ela pertence”.
Homenagear mestre Ciça é homenagear a todos os sambistas representados por uma pessoa só. Com sua passagem por escolas como Grande Rio, Unidos da Tijuca e União da Ilha, o diretor de bateria deixa legado e alunos – outros ritmistas e novos mestres. O desfile em homenagem ao ‘professor’ teve lugar especial reservado aos Mestres de todas as escolas do grupo Especial e convidados de Ciça.
Rodrigo Totti está há 18 anos na escola FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO
O jeito afetuoso de Ciça e a presença constante na Viradouro, no barracão e ao prestigiar o trabalho de outras escolas o faz popular e querido por todos. Para o destaque Rodrigo Totti, há 18 anos na escola niteroiense, o carro alegórico é uma expressão de gratidão ao trabalho do mestre.
“É uma honra representar esse carro onde vêm todos os mestres de bateria, todos os convidados do mestre Ciça. Para mim ele é uma figura viva do Carnaval. Estar aqui no bonde do Caveira é uma gratidão ao mestre Ciça por ele ser essa figura presente na escola, por representar tanto para o nosso Carnaval”, afirmou.
Detalhes da alegoria da Viradouro FOTO: Mariana Santos/CARNAVALESCO
A alegoria era toda em aço e prata e remetia ao material dos instrumentos que compõem uma bateria de escola de samba. Nas laterais, caveiras fazem os movimentos que o Ciça faz ao comandar as bossas, e as peças carregavam as cores das agremiações que ele passou. Os esqueletos têm os olhos flamejando a sonhada nota 10, que Ciça já conquistou diversas vezes. Ao centro, uma caveira ergue uma caixa de guerra, instrumento que é marca do Mestre.
Junior Gabriel veio do interior do Rio de Janeiro para prestigiar o mestre Caveira e acredita que a qualidade das alegorias e a emoção dos componentes mexeram com o público.
“Os carros da Viradouro são feitos com muito critério. Eu acredito que as pesquisas realmente superam qualquer expectativa. Eu tenho visto os detalhes, tenho visto o capricho. Espero que os jurados compreendam a mensagem que a escola está passando neste ano. A gente tem a certeza de que a comunidade vai se emocionar com toda essa plenitude, com toda essa beleza das composições, das alegorias da Viradouro”, declarou.
Cada mestre tem sua metodologia, e Rodrigo opina que o mestre ideal tem um pouco de ‘general’ e também de ‘paizão’, como Ciça é.
“O mestre Ciça é um general, porque ele consegue comandar muito bem todos os componentes da bateria. Não só a bateria, ele é um cara muito presente no barracão. Toda semana ele está lá, sempre acompanhando os carros. Independente dele ser um enredo ou não, ele sempre foi assim. Eu já estou há 18 anos na escola e eu sei que os anos que ele representou, esteve a frente da nossa bateria, ele esteve muito presente. Mas eu, particularmente, acho que tem que ser uma mistura, tem que ter um equilíbrio”, contou.
A Unidos do Viradouro foi a terceira escola a desfilar nesta segunda-feira e levou para a Marquês de Sapucaí o enredo “Para cima, Ciça!”, uma homenagem ao mestre de bateria da escola. Com assinatura do carnavalesco Tarcísio Zanon, a agremiação de Niterói transformou a avenida em um grande tributo à trajetória, à ousadia e ao legado de Mestre Ciça.
Carro abre-alas da Viradouro. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
No carro abre-alas, intitulado “Forjado nas Garras do Velho Leão: O Rugir de um Sonho”, a escola apresentou o Morro de São Carlos e a Estácio de Sá como berço do menino Moacyr, em uma alegoria marcada por um leão imponente e barracos que remetiam a tambores, simbolizando a origem do samba e da batida que consagrou o mestre.
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
No alto da alegoria estavam Wagner Bento, 43 anos, cabeleireiro; Raquel Porasi, 36 anos, arquiteta urbanista; e Pablo Reinert, 28 anos, arquiteto. Eles compartilharam suas impressões sobre a importância do momento e o significado de representar o início da história de Ciça.
A importância de reverenciar o berço do samba
Para Wagner Bento, que retorna à escola após seis anos afastado, a homenagem é mais do que justa. “Primeiramente falar que o Ciça é um cara incrível, acho que ele merece tudo que está acontecendo aqui com ele. Traz o início do samba, o início do Ciça na Estácio, o carro”, afirmou.
Wagner Bento. Foto: Júnior Azevedo
Ele reforçou que revisitar o começo da trajetória do mestre é um reconhecimento necessário. “Eu acho que é super válido tudo que está acontecendo com ele, e ele merece todos os momentos da vida dele”, disse.
Raquel Porasi, que desfila pela primeira vez na Viradouro, destacou o valor histórico da proposta. “Super importante porque com certeza está trazendo toda a história desde o início da carreira, da profissão dele. Por mais que tenha sido em outra escola, a Viradouro acertou na homenagem”, afirmou.
Raquel Porasi. Fato: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Já Pablo Reinert ressaltou o simbolismo de celebrar Ciça ainda em vida. “Eu acho que ele foi uma peça muito importante para a escola, então trazer isso com ele em vida ainda foi muito bacana. A história do Ciça transcende qualquer agremiação”, concluiu.
A emoção de representar o início de uma trajetória
Convidado para estar no abre-alas após anos desfilando em ala, Wagner não escondeu a emoção. “Nossa senhora, eu estou super lisonjeado aqui porque depois de seis anos eu ser convidado para estar nesse carro homenageando o Ciça… eu acho incrível. Uma emoção que eu não consigo explicar”, afirmou.
Raquel também destacou o sentimento ao representar um capítulo tão marcante da vida do mestre. “Eu me sinto super emocionada. O Ciça tem uma história imensa e fazer parte disso, é uma honra para mim”, disse.
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Pablo definiu a experiência de forma direta e sincera. “Me sinto contente, bem feliz. É um privilégio gigantesco”, explicou.
O sonho de menino e o carnaval como realização
O enredo da Viradouro fala sobre a realização de sonhos de menino, e para Wagner, estar naquele carro já era a concretização de um desejo antigo. “Estar desfilando nesse carro hoje é um sonho, porque eu sempre venho em ala e estar nesse momento aqui homenageando o Ciça nesse carro já é um grande sonho para mim. Estou completamente realizado”, afirmou.
Raquel enxergou no carnaval um espaço de celebração e pausa na rotina. “O carnaval é alegria, felicidade, acho que é onde as pessoas deixam um pouco o dia a dia, a correria do dia a dia e focam em se divertir. Participar dessa festa já é uma realização de um sonho”, disse.
Para Pablo, a realização foi ainda mais pessoal. “É um sonho de infância, na verdade. Sempre foi desfilar na Sapucaí”, concluiu.
A terceira escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no segundo dia de desfiles do Grupo Especial foi a Unidos do Viradouro, que levou para a Avenida o enredo “Pra Cima, Ciça!” e trouxe uma verdadeira viagem no tempo.
Alegoria da Viradouro FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
No carro 3, “Lá Vem o Trem do Caipira”, a agremiação recriou o icônico desfile da Estácio de 1992, eternizado pela paradinha que imitava o som de um trem. Componentes da alegoria conversaram com o CARNAVALESCO e falaram sobre a emoção de reviver um dos momentos mais marcantes da história das baterias.
Luiz Meira, de 29 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Para Luiz Meira, de 29 anos, figurinista, a experiência é nova: “Eu não era nascido ainda, mas já ouvi falar. Não vivi o momento, mas estou tendo a oportunidade de viver isso agora. A escola me abraçou e eu abracei a escola, então vestir qualquer fantasia na Avenida com a minha escola é emocionante demais”, afirmou. Ele contou que sua evolução no carro privilegia o contato com o público, especialmente quando está mais próximo da frisa e dos camarotes. Sobre a expectativa em torno das paradinhas, garantiu: “Estamos seguros, sabemos que estamos com o melhor mestre, a gente sabe que vem coisa nova”.
Luiz também destacou o contraste estético da composição. Segundo ele, “a forma que os materiais foram trabalhados, é um carro que tem uma composição muito densa, metálica, mas a fantasia tem uma pegada leve, os tecidos são leves, mas trazem uma ideia de metais, uma pegada mais densa”. A dualidade entre peso visual e leveza no corpo ajudou a reforçar a ideia de movimento e modernidade que marcou o desfile histórico de 1992.
Roberto Silva, de 64 anos FOTO: Ana Júilia Agra/CARNAVALESCO
A emoção também tomou conta de Roberto Silva, de 64 anos, empresário, que viveu o desfile original na Sapucaí: “Lembro perfeitamente do desfile de 1992, ninguém acreditava, foi um show. A Estácio fazendo história na Avenida com um trenzinho da Paulicéia Desvairada”, recordou.
Ele contou que pretendia passar pela Avenida com a mesma intensidade daquele ano: “O conjunto me chamou atenção, traz toda uma modernidade, um diferencial que não vi até hoje. É uma honra e uma emoção muito grande estar nesse carro”.
Nariman Duarte, de 41 anos FOTO: Ana Júlia Agra
Nariman Duarte, de 41 anos, médica, não esteve presente no desfile de 1992, mas contou que já ouviu falar sobre ele.
“O desfile de hoje é emocionante. Falar de Ciça é falar de amor, de generosidade, humildade. Este ano completo 30 anos de Avenida, então tem uma emoção a mais. Pretendo passar com muito samba, muita alegria”.
Nathalia Fernandes, de 40 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Também médica, Nathalia Fernandes, de 40 anos, reforçou o sentimento coletivo de reverência: “Esse desfile pela Estácio foi muito emocionante, assim como hoje pela Viradouro. Vamos desvairados e animados na Avenida. As fantasias estão belíssimas, tem muitos detalhes, medalhinhas, brilho, tudo muito especial para o Ciça. Me sinto muito honrada em participar desse momento”.
Quando a Beija-Flor fez o sambódromo gritar “Isso aqui vai virar macumba”, não foi apenas por uma mera provocação. Foi um gesto de afirmação e resistência. A frase anunciou que a Sapucaí seria tomada pela força da fé, assim como o Largo do Mercado é ocupado durante o Bembé. A Azul e Branca é muito conhecida por abordar temas afro-brasileiros em seus enredos, sempre valorizando a cultura e as religiões de matriz africana. Na comunidade nilopolitana, isso é visto com muito orgulho.
A estudante de direito Ana Beatriz, de 20 anos, que desfilou na primeira ala da escola, fez um relato pessoal sobre a importância da escola dar visibilidade a toda uma comunidade que ainda sofre com a estigmatização de suas crenças.
“É muito importante para mim, ainda mais pela oportunidade de ser reconhecida e vista, como uma mulher negra que também já foi uma criança negra. Nós crescemos com uma ideia colonizada sobre o Brasil, que não é sua verdadeira história. A verdade tem muito a ver com os negros e com os indígenas. Dar essa visibilidade para as nossas raízes é fazer parte dessa história. Estamos no berço da Tia Ciata. Antes de aqui ser o Sambódromo, era o terreiro dela. Trazer essa história para ser contada na Apoteose hoje é transformar a avenida em espaço de fé e, sim, resistência. Vai ser lindo ver o povo lutando, gritando, exigindo atenção, ser visto”, afirmou.
O passista nilopolitando Júnior Felipe, de 29 anos, que tem 16 anos de carnaval e é torcedor de coração da passarinha, também enxergou o desfile como ato de resistência religiosa.
Júnior Felipe, de 29 anos, passista da Beija-Flor. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
“Sempre é um ato de resistência, porque o carnaval é mais uma oportunidade da gente mostrar o quanto a religião pode ser importante na vida de um ser humano. E poder falar da nossa religião, que sofre tanto com preconceito, me faz enxergar a Sapucaí como um lugar de fé e de acolhimento”.
Sobre o verso principal do samba, ele destacou que gritar em nome da “macumba”, é dar voz para que todo um povo responda aos ataques que sofre.
“Isso aqui vai virar macumba representa que é a nossa voz podendo falar um pouco mais alto e mostrar para todas as pessoas que a intolerância religiosa é apenas uma tolice e uma ignorância dos demais”.
Ele também ressaltou o orgulho de ver a escola do coração levar o Bembé para a avenida: “É uma honra poder mostrar o maior candomblé de rua e trazer um pouco mais da cultura da Bahia, da cidade de Santo Amaro e da nossa religião”.
Luanna Barthollo, musa da Beija-Flor. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Luanna Barthollo, musa da escola, se emocionou ao falar do enredo. A fantasia que ela veio vestindo representou as ervas de defumação na avenida.
“Eu sou uma pessoa de axé. Por isso, esse assunto me toca profundamente. É a primeira vez que eu estou desfilando na Beija-Flor desfilando e já chorei muito de emoçãk antes de chegar até aqui. Estar aqui hoje é uma forma amorosa de resistir, levando a nossa cultura de uma forma muito irreverente e alegre, mas forte, para as pessoas entenderem que nenhuma religião está acima da outra”.
Alexinando Souza Lima, de 46 anos. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Representando Santo Amaro, estava o administrador baiano Alexinando Souza Lima, de 46 anos, que foi atraído para desfilar pela primeira vez no carnaval carioca por conta do enredo falar de sua terra natal. Ele veio na ala que homenageou Maculelê.
“Representa muito a nossa história, a nossa ancestralidade. Começou lá na minha terra. Para mim é uma emoção mostrar isso pro mundo. Imagine mostrar para o mundo que o Bembé existe no carnaval, que é um grande palco. É uma celebração da fé em uma escala gigante”.
Andréia Oliveira, de 44 anos. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A auxiliar de administrativo financeiro Andréia Oliveira, de 44 anos, que desfilou na ala das baianas, trouxe a visão de fora de uma pessoa que tem outra fé, mas que consegue celebrar todas as crenças, sem preconceitos. Cristã, ela vê o grito como uma liberdade do outro de exercer a fé, e ainda assim, consegue se sentir representada.
“Quando se diz que isso aqui vai virar macumba, para mim, que sou mulher preta e vim dessa ancestralidade, acredito que isso aqui vai virar uma festa, um acontecimento. Mesmo sendo cristã, para mim a macumba é tudo de bom. Não existe preconceito. Isso aqui vai virar macumba porque vai virar uma coisa muito legal, se Deus quiser”, finalizou.
A ala de passistas da Unidos da Tijuca, intitulada “Encantos do Pavão – Passistas”, levou para a Avenida o brilho e as contradições do sucesso de Carolina Maria de Jesus após a repercussão de Quarto de Despejo. Sob o tema “Malandros de Ocasião”, a fantasia retrata o período em que a escritora se transforma na personagem “Vedete da Favela” e passa a atrair pretendentes oportunistas, fascinados por sua fama repentina.
Cristiane Esteves, manicure de 26 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Cristiane Esteves, manicure de 26 anos, desfila na Tijuca há 5 anos. Ela sentiu a representatividade que a trajetória da escritora apresenta, sobretudo, para mulheres negras e periféricas.
“Esse momento para mim, e creio eu que para elas todas, representa as meninas que moram na favela, que sonham estar aqui, que sonham poder ser escritoras, que sonham poder mostrar que não é por que você é preta, que só viverá na favela, que a pista também é espaço para ocupar”, afirmou Cristiane.
O técnico em enfermagem, Marcos Colbert, de 22 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O técnico em enfermagem, Marcos Colbert, de 22 anos, desfila na agremiação há quatro anos e faz sua estreia como passista. Marcos compreendeu as referências da fantasia como o contraste entre a vida difícil que Carolina levou e o seu sucesso.
“É um mesclado de tudo. O contraste da situação dela e o sucesso, a gente tá representando isso. E a gente é isso, ser passista é isso. A gente se lasca o ano todo, mas viemos pra glamourizar isso tudo”, comparou Marcos.
A assistente jurídica, Cléo, de 25 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A assistente jurídica, Cléo, de 25 anos, desfila na escola há 2 anos. Ela admira a obra de Carolina e a interpreta como uma escritora atemporal.
“Eu costumo dizer que ela era muito à frente do tempo dela. Ela retrata muito o que nós vivemos ainda hoje. Só eu sei como mulher negra o que eu tenho que enfrentar para ocupar os espaços que eu ocupo. E Carolina já dizia muito sobre isso naquela época”, enfatizou Cléo.
O engenheiro de produção João Pedro Drumond, de 29 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O engenheiro de produção João Pedro Drumond, de 29 anos, desfila na Tijuca há 9 anos e percebe que a ideia de malandragem, representada em sua fantasia, ainda é presente nos dias atuais.
“No cotidiano, você vê várias pessoas por interesse de outras e traz aquela malandragem que a parte do passista masculino tem. Nós brincamos com essa malandragem. Isso foi um paralelo que o nosso carnavalesco fez para poder dar um ‘se ligue’ na sociedade”, disse João.
Em um desfile que mergulha na trajetória de Carolina Maria de Jesus, o primeiro casal da Unidos da Tijuca, Lucinha Nobre e Matheus Miranda, assume um papel simbólico ainda mais forte: ser a assinatura da escola antes que qualquer ala atravesse a Sapucaí. A fantasia foi intitulada de “Unidos da Tijuca apresenta”.
Primeiro casal tijucano FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Lucinha, estar à frente de um enredo que coloca o protagonismo feminino negro no centro da narrativa é motivo de orgulho e consciência.
“Eu fico orgulhosa e muito consciente da missão. Foi uma trabalheira, muito estudo, muita busca. Recebi muito acolhimento dentro da escola. Hoje, abrir caminho para tantas Carolinas é uma emoção muito grande”, contou a porta-bandeira.
A responsabilidade de iniciar o desfile também ganha contornos emocionais nas palavras de Matheus. Para ele, o primeiro casal é quem começa a contar a história com o corpo.
“A gente puxa o fio da emoção. O primeiro casal carrega a fé da escola. É uma forma de contar o samba com o corpo e com a alma, começar essa trilha de sentimentos que a escola quer despertar”, citou o Mestre-Sala.
A fantasia luxuosa, inspirada no pavão, símbolo máximo da Tijuca, reforça essa identidade. Enquanto Lucinha conduz o pavilhão sagrado, Matheus traz nas mãos uma caneta tinteiro, referência direta ao caráter literário do enredo.
“A gente é a escola, a gente é o pavão, dentro dessa fantasia, levamos um pedacinho de cada componente”, resumiu Lucinha.
A parceria do casal, construída ao longo das temporadas, encontra na Sapucaí seu momento máximo. Matheus compara o desfile a uma cerimônia de casamento de um casal: “A Avenida é o dia do casamento. A gente namora o ano inteiro, ensaia, amadurece. No desfile, vira um só corpo”.
Nos bastidores, o suporte psicológico oferecido pela escola foi essencial para sustentar a intensidade da preparação. Segundo a porta-bandeira, era um desejo antigo.
“Quando a Tijuca confirmou esse apoio, foi uma alegria. A equipe foi fundamental para encarar o desafio com a cabeça mais leve”, e o Matheus complementou “A rotina é pesada. Ter esse acompanhamento ajuda a manter o equilíbrio e entregar o melhor”.
Um grande desfile da bateria “Furacão Vermelho e Branco” da Unidos do Viradouro, comandada pelo mestre e enredo, Ciça. Um ritmo bem vinculado à própria história do lendário Moacyr da Silva Pinto foi exibido. Assim mesmo, com nome e sobrenome, dada a sua inenarrável importância no meio das baterias de escolas de samba. Foi um desfile, sobretudo, bastante emocionante. Do alto da última alegoria, a bateria da Viradouro foi simplesmente ovacionada por todos os setores da Avenida.
Na cabeça da “Furacão Vermelho e Branco”, um esplêndido naipe de cuícas exibiu um trabalho de destaque. Uma ala de chocalhos de grande virtude coletiva tocou junto de um naipe de tamborins de imensa qualidade técnica. Ambos os naipes em conjunto deram brilho sonoro, evidenciando a excelência rítmica das peças leves da escola do bairro do Barreto.
Na parte de trás do ritmo da Viradouro, uma poderosa e pesada afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e de segunda foram vigorosos, mas seguros. Surdos de terceira deram um bom balanço, tanto em ritmo, quanto em bossas. Uma sólida ala de repiques tocou junto de um naipe de caixas de guerra bem ressonante, com a tradicional levada de partido alto tocada “no alto pra resistir”, fazendo valer na prática o “legado do mestre Caveira”.
Bossas bem vinculadas à história musical do mestre Ciça foram exibidas de forma precisa. Uma criação de bossas identitária, de tão atrelada a concepção que marcou a carreira do “Mestre dos Mestres”. Arranjos que se pautavam nas variações do melodioso samba da Unidos do Viradouro para consolidar seu ritmo. Tudo com bastante pressão sonora, provocada por uma afinação bem potente de surdos, além de um notável trabalho envolvendo caixas e tamborins. Conversas rítmicas dançantes e poderosas, que foram executadas com precisão.
Uma grande e épica apresentação da bateria da Unidos do Viradouro, dirigida pelo inédito tema da agremiação e mestre, Ciça. O “Caveira”, como é conhecido no meio do ritmo, regeu sua orquestra no topo da última alegoria, mais uma vez fazendo história. Um ritmo bem identificado com a carreira do “Mestre dos Mestres” foi exibido, contando com bossas que davam pressão sonora a uma bateria com seu peso característico. Na última cabine julgadora, uma interação popular absoluta foi alcançada, com público e julgadores vindo ao delírio, comprovando o grandioso trabalho de mestre Ciça, no emblemático Carnaval em que sua trajetória foi contada na Sapucaí.