À frente do carro que evocava as margens do Rio Beberibe, a Ala das Baianas da Acadêmicos do Grande Rio transformou a Sapucaí em extensão simbólica de Peixinhos. Representando “As lavadeiras do Beberibe”, as componentes deram corpo e voz às matriarcas que sustentam comunidades inteiras à beira d’água. Com trouxas de roupa, bacias, redes de pescador, folhas e flor de bananeira compondo a fantasia, elas entoaram o samba-enredo “A Nação do Mangue” como quem canta à beira do rio, misturando devoção, memória e resistência. Baianas da Grande Rio FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Fabiana de Paula, 44, diarista. FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Ao CARNAVALESCO, componentes da ala destacaram que a conexão entre as lavadeiras e as baianas vai além da fantasia utilizada por elas durante o desfile. “Vejo muita semelhança, ambas são guerreiras e conseguem ludibriar o dia a dia”, afirmou Elizabeth Avellar, de 66 anos. Ela completou ainda dizendo que: “A sabedoria e o conhecimento que podemos passar para as novas gerações são enormes”.
Rosaria Linhares, manicure, de 67 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Já Rosaria Linhares, manicure, de 67 anos, falou sobre o jeitinho de dar conta de tudo e contou sua experiência na Avenida: “Baiana sempre tem seu jeito de lavar uma roupinha, criar os filhos, cuidar da casa, somos um pouquinho de tudo. A nossa experiência é grande, tenho 17 anos como Baiana e aprendi com muitas outras que vieram antes de mim e tem muitos anos de casa”.
Fabiana de Paula, 44, diarista FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
O acolhimento com a nova geração e a similaridade entre Baianas e Lavadeiras foi unanimidade entre as componentes, a emoção tomou conta de algumas ao relembrarem suas trajetórias e expressar como o samba é também um lugar de escape e calmaria em meio aos problemas cotidianos.
“Esse é um lugar onde muitas usam como escape em meio aos problemas que tem em suas casas, mas não deixam o seu lado mulher de lado, mesmo com a correria, assim como em toda profissão. Eu sempre procuro me cercar das mais experientes como, elas têm muita sabedoria para passar para gente”, concluiu Fabiana de Paula, 44 anos, diarista.
O último carro da Vila Isabel encerrou o desfile transformando a Sapucaí em um encontro entre Brasil e África, entre memória e presente. A alegoria partiu da afirmação que marcou a trajetória do homenageado, “Eu sou Heitor dos Prazeres”, para construir uma imagem monumental do artista que atravessou o samba, as artes visuais e a história cultural do país. No centro desse momento esteve Heitor dos Prazeres Filho, emocionado ao representar a família no encerramento do cortejo.
Detalhes da alegoria da Vila Isabel FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A proposta do carro celebrou a ida de Heitor ao Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, em 1966. Elementos inspirados nas artes africanas se misturaram a referências da favela e do quilombo, criando uma fusão simbólica entre territórios de resistência e criação cultural. Uma grande escultura com lanças transformadas em pincéis destacou a altivez do artista. Casas de madeira crua dialogaram com tramas artesanais, enquanto, na parte traseira, a pintura inacabada “Feira de Dakar” apareceu ao lado da assinatura do homenageado.
Heitor dos Prazeres Filho FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A presença de Heitor dos Prazeres Filho no último carro deu ao encerramento um peso ainda mais simbólico. Emocionado, ele falou sobre o convite e o que significou atravessar a Avenida representando o pai.
“Foi gratificante, foi uma honra ser lembrado e estar aqui representando o mestre junto com a minha família, meus filhos e minha esposa. É muito especial. Quando recebi o convite senti uma alegria imensa, uma emoção muito grande, só coisa boa. Eu convivi com ele desde criança, tocando e sambando ao lado dele desde os cinco anos de idade. É mais do que um pai, é uma referência de vida. Esse momento é emoção. E na Avenida a gente segura cantando, sorrindo, chorando, vivendo tudo o que a emoção provoca”, afirmou.
Isaac Dahora FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
No alto da alegoria, o ator e pesquisador Isaac Dahora deu vida ao homenageado e destacou o encontro entre arte, pesquisa e carnaval: “Foi uma honra muito grande. Como pesquisador, eu sei quem foi Heitor dos Prazeres e ele está presente inclusive na minha pesquisa de doutorado. Não foi coincidência, foi uma confluência. Já trabalhei com os carnavalescos em outro momento e agora represento esse homem tão importante. Eu me senti interpretando um artista múltiplo, que expôs na Bienal de São Paulo, que esteve à frente do seu tempo e que não foi reconhecido como deveria em vida. Para mim, isso é missão e vocação. Eu sou apaixonado por Carnaval e quero sempre contribuir com ele de alguma forma”.
curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, Raquel Barreto FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
A curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, Raquel Barreto, também integrou o carro e ressaltou a importância de reafirmar o lugar de Heitor na história da arte brasileira.
“É uma alegria muito grande. Eu venho das artes visuais e já participei de uma exposição dedicada ao Heitor. Sempre trabalhei para redimensionar esse artista gigante, que muitas vezes foi colocado em um lugar menos importante. Hoje ele recebe o destaque que merece. Estar nessa alegoria, que mistura favela e quilombo, é fazer parte de um legado de luta e de afirmação cultural. É um projeto coletivo que fala de democracia e de reconhecimento. Ver o nome de Heitor sendo celebrado dessa forma é emocionante”, afirmou.
Leni Ferreira FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Entre os componentes, Leni Ferreira resumiu o sentimento coletivo de quem atravessou a Avenida no último carro. “Representa tudo. É mostrar a nossa garra, a nossa cor, a nossa história. Quando o samba fala da Vila negra, eu me sinto parte disso. Eu não sou só componente, eu faço parte dessa história”.
O samba, em seus primeiros anos, enfrentou repressão do Estado e de uma sociedade marcada pelo preconceito. Em 2026, a Vila Isabel homenageia Heitor dos Prazeres, personagem central desse período de resistência até a organização e reconhecimento do samba como expressão cultural. O segundo tripé, “Quando o Samba fez Escola”, representou esse momento da vida de Heitor e da cultura brasileira, com as presenças dos eternos mestre-sala Manoel Dionísio e da porta-bandeira Vilma Nascimento.
Vilma Nascimento e Mestre Dionísio desfilaram no tripé “Quando o samba fez escola”. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
“Eu comecei cedo no samba e conheci certas pessoas famosas. Isso para mim hoje está sendo importante porque eu estou aqui representando a Portela. O convite do presidente do Vila junto com o presidente da Portela foi muito importante para mim e eu aceitei de cara”, disse Vilma.
“É muito satisfatório estar aqui hoje, até porque já estava fora do carnaval há algum tempo. Eu me desliguei um tanto quanto da Sapucaí, porque eu acho que a minha colaboração já foi dada. E apesar de saberem que eu sou salgueirense, a Vila me convidou para ser o Heitor dos Prazeres. Isso, para mim, é uma felicidade muito grande. Essa é a oportunidade para fazer uma despedida Vip”, declarou Mestre Dionísio.
Vilma Nascimento, a eterna Cisne da Passarela, no desfile da Vila Isabel. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Para Vilma, homenagear Heitor dos Prazeres é motivo de gratidão, por ele integrar as raízes do samba e permitir que esse legado chegue às novas gerações, sem que se perca o fundamento que sustenta o carnaval. A porta-bandeira também comentou as transformações recentes do quesito.
“Eu acho que tem que criar mesmo, senão fica uma coisa chata, sempre igual. Tem que criar, mas dentro das tradições. Só que está fugindo. Agora o casal tem que cantar; antigamente não cantava: era rindo, brincando com o público e inventando na avenida. Hoje tem que cantar para marcar os passos para os jurados. Às vezes o casal nem dança para o público, só para o jurado. E o público merece atenção”, disse.
Mestre Dionísio, grande mestre-sala da mangueira, criador da primeira escola técnica para formar casais. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Ainda sobre a responsabilidade de manter o legado de um quesito, o criador da primeira escola técnica para formar mestre-sala e porta-bandeira, Mestre Manoel Dionísio, afirmou que as mudanças sempre vão estar presentes.
“Eu vou sair para ficar olhando de fora a oportunidade que eu tive de em 1990 criar esse projeto, que deu certo porque eu fui perguntar a quem já estava antes de mim. Eu não fiz nada sozinho, porque uma andorinha só não faz verão. Onde quer que esteja o Mestre Delegado, o senhor Marcelino Bicho Novo do Estácio, Tidinha da Mangueira, Soninha da Mocidade… quer dizer, eu fui buscar os ancestrais que já estavam e que entendiam e que me disseram o que fazer. Eu fiz do jeito que eles fizeram graças a Deus deu tudo certo”, declarou Mestre Manoel Dionísio.
Nos estandartes que acompanham o tripé, dezenas de nomes de baluartes eternos das escolas de samba como Dona Regina, Cartola, Paulo da Portela, Ismael Silva, Hermínia Monteiro, David da SIlva, Tia Fé, Zé Espinguela, Carlos Cachaça e Tia Esther, além do próprio Heitor dos Prazeres.
Um tripé que carrega história, fundamento e legado. Vilma Nascimento e Manoel Dionísio materializam, em corpo e presença, a longevidade dessa tradição que segue reinventando o carnaval.
A Vila Isabel começou o desfile olhando para trás para seguir em frente. O abre-alas levou a Sapucaí a uma versão imaginada da antiga Praça Onze, território onde Heitor dos Prazeres cresceu e descobriu a arte.
Rodrigo da Costa Magalhães, de 36 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Antes de ganhar os nomes que marcaram a história, a região era chamada de “Pedaço Baiano”, espaço moldado por famílias que vieram da Bahia no pós-abolição e ajudaram a construir as bases do Carnaval carioca. Foi ali que ranchos ganharam forma, que festas populares se consolidaram e que um menino chamado Lino passou a transformar o cotidiano em expressão artística.
A alegoria não apresentou a praça de maneira literal. O que se viu foi uma releitura grandiosa, inspirada nas joias afro-brasileiras, nos balangandãs e na estética dos ranchos. Ouro e prata dominaram a cena. Animais simbólicos, coroas, espelhos, machados sagrados e referências às águas foram incorporados à estrutura.
Pássaros gigantes abriram asas como peças de joalheria, enquanto um coreto transformado em carruagem flutuou sobre a Avenida. Entre os chassis, um grupo teatralizado representou personagens que conviviam na Praça Onze: baianas, ciganos, judeus, muçulmanos, todos integrados à narrativa visual. A proposta foi apresentar o ambiente que formou Heitor e que ajudou a moldar a cultura popular do Rio.
Lúcia Frigor, 65 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Para Lúcia Frigor, de 65 anos, professora e há mais de uma década desfilando na escola, o carro não apenas abriu o desfile, mas despertou a identificação.
“A fantasia estava linda. Com esse samba, eu me senti livre. Como mulher negra, falar de Heitor dos Prazeres me tocou muito. Eu me identifiquei com o enredo, o samba já emociona, então a abertura tinha que fazer o coração bater mais forte”, comentou a professora.
Letícia Ferreira de Souza, de 30 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Estreando na Vila, a enfermeira Letícia Ferreira de Souza, de 30 anos, destacou o efeito visual da alegoria logo na entrada.
“Eu achei que causou surpresa. É uma fantasia muito elaborada, cheia de detalhes. As pessoas precisaram olhar com calma para entender tudo. Estava muito bonita. É um pouco pesada, mas a gente ensaiou muito. Quando entra na Avenida, a animação supera qualquer dificuldade”, afirmou.
Rodrigo da Costa Magalhães, de 36 anos FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Rodrigo da Costa Magalhães, de 36 anos, repositor de estoque e também estreante, viveu o momento com intensidade.
“É muita emoção. A gente ensaiou pensando em fazer o melhor. O desejo de ser campeão passa por essa abertura forte.” Para ele, o abre-alas recriou o nascimento artístico de um mestre. “A Vila trouxe uma história que muita gente não conhecia. Mostrou de onde veio esse homem e como tudo começou”, destacou emocionado.
O giro de uma baiana vai além do movimento corporal: carrega o resgate da tradição do samba e a memória daquelas que abriram suas casas para que ele nascesse nos fundos do quintal. Segunda escola a desfilar nesta terça-feira, a agremiação prestou homenagem a Heitor dos Prazeres e evocou, na ala das baianas, uma figura central dessa história: Tia Ciata, matriarca do samba. Foi ela quem consolidou a tradição do “fundo de quintal”, transformando sua casa em espaço seguro de fé, encontro e celebração da cultura negra.
Vera Lúcia Belandi, 78 anos, diretora da ala de baianas. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
E foi lá, no terreiro de Tia Ciata, que Heitor dos Prazeres a reconheceu como mãe de santo. Na avenida, a ala das baianas, “Mães de Santo, Mães do Samba, Mães Baianas”, surgiu como guardiã desse legado. A fantasia destacou o amarelo intenso em referência a Oxum, orixá de cabeça tanto de Tia Ciata quanto de Heitor.
A diretora Vera Lúcia Belandi, 78 anos, está no comando da ala há 25 anos. Ela acredita que as baianas estão nesse papel de manter o legado não só da escola, mas da ancestralidade que Heitor retratava em suas obras.
“A imagem da Tia Ciata pra mim é ancestralidade, porque eu acho que o giro da baiana é a limpeza da avenida. Quando elas giram pra direita, elas vão limpando. Então é uma ala que não pode faltar no carnaval porque elas abrem e limpam os caminhos”, afirmou Vera Lúcia.
Tânia Machado, 66 anos, integrante da ala de baianas. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Tânia Machado, aposentada de 66 anos, estava emocionada com sua fantasia, que representava Oxum. Para ela, as baianas têm o compromisso em preservar e proteger o legado das matriarcas do samba, sobretudo, por ser o aprendizado que sua ancestral, Tia Ciata, deixou.
“Ela foi uma grande mulher, uma negra com personalidade fortíssima. Eu estou me sentindo muito feliz em estar representando o orixá dela que é Oxum”, disse Tânia.
Cátia Antunes, 48 anos, integrante da Vila Isabel há 11 anos. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Cátia Antunes, 48 anos, desfila na Vila há 11 anos e se sentiu arrepiada de tanta emoção por homenagear a pioneira das rodas de samba. Ela reverenciou a mulher que abriu portas para que todas as outras pudessem ocupar espaços no samba.
“Tem toda a história de ser uma mulher negra. A gente sabe que tinha esse preconceito na época… uma mulher negra, pobre. Ela é tudo para gente. Acho que para qualquer sambista Tia Ciata é o máximo”, declarou.
O depoimento de Cátia ecoa a proposta do enredo, centrado nos sonhos e em sua concretização. Professora, ela recordou que vestir a saia de baiana era um desejo cultivado desde a infância.
“É o sonho daquela menina pequenininha que, quando via as baianas ensaiando na rua e a saia delas esbarrava, eu olhava pra minha mãezinha com o olho brilhando e falava: “Mãe, eu quero, eu quero!”. Ela falava: “Um dia você vai ser”. E hoje eu tô aqui, graças a Deus”, contou Cátia.
Ana Conegundes, 61 anos, costureira da ala das baianas. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Ana Conegundes, costureira da ala das baianas, de 61 anos, desfila pela Vila há 18 anos e sentiu a responsabilidade e emoção em estar representando a Oxum de Tia Ciata.
“É uma ancestral nossa, aquela que veio primeiro. É por ela que nós estamos aqui, por ela essa festa é a maior do mundo. Foi ela que defendeu o samba, que colocou nos quintais dela as pessoas que estavam iniciando no samba. Foi ela que colocou na rua os primeiros cortejos de carnaval. É uma responsabilidade e um prazer muito grande poder representá-la”, declarou Ana.
Mais do que uma representação, a ala atravessou a Sapucaí mostrando que o legado de tia Ciata se mantém vivo nos giros de suas saias.
A Ala 4 do Paraíso do Tuiuti trouxe uma aula de ancestralidade Lukumi para a Avenida. Intitulada “O Ifá em Kush”, ela apresentou ao público a trajetória do oráculo de Orunmilá a partir das rotas transaarianas, conectando a cidade sagrada de Ifé ao Reino de Kush e, séculos depois, à cultura Lukumi, fruto da fusão afro-cubana. Componentes ouvidos pelo CARNAVALESCO explicaram como o conhecimento atravessou desertos, oceanos e gerações até chegar à Marquês de Sapucaí.
As antigas rotas caravaneiras que cortavam o Saara não transportavam apenas ouro, sal ou tecidos. Eram caminhos de troca de saberes. De Ifé, berço do sistema divinatório do Ifá, comerciantes e viajantes levaram fundamentos religiosos que encontraram eco em outras civilizações africanas. No Reino de Kush, na antiga Núbia, território que hoje corresponde ao Sudão, sacerdotes conheceram o oráculo de Orunmilá e absorveram ensinamentos transmitidos por babalawos vindos da cidade iorubá.
Matheus Pereira, 25, cuidador de animais FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
A fantasia da ala materializou esse encontro. Referências às pirâmides kushitas, aos recursos minerais e à imponência dos faraós negros dialogavam com elementos simbólicos do Ifá, traduzindo visualmente a ideia de intercâmbio cultural. Matheus Pereira, 25 anos, cuidador de animais, ressaltou como o Carnaval, hoje, cumpre seu papel social ao perpetuar cultura e conhecimento através da arte.
“Eu sou de Santa Catarina e posso dizer que é um estado que desconhece essa cultura, eles apenas conhecem o Carnaval através do que veem na televisão, mas desconhecem toda a cultura por trás”, contou. Para ele, o desfile tem também um papel educativo. “Quem estuda um pouco da história do nosso país sabe que a história contada é a europeia e não a ancestral, dos negros. O carnaval, esse palco gigantesco, é uma das principais formas de mostrar essa história para a população”.
Maria da Graça, de 59 anos FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Para Maria da Graça, de 59 anos, dentista, que desfilava pela primeira vez, a transmissão desse saber passa necessariamente pela explicação e pelo diálogo com as novas gerações.
“Acredito que passando para novas gerações e explicando a cultura e a história do Ifá, porque muitas pessoas nunca nem ouviram falar dessa cultura cubana, que fala sobre o destino de cada pessoa, é muito importante cada um saber do seu destino”, afirmou. Ela destacou ainda o alcance da festa: “O carnaval é uma cultura de todos os povos, raças, culturas. O carnaval é uma cultura”.
Milena Blanc, 32, médica FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Iniciada na tradição, a médica Milena Blanc, de 32 anos, desfila pela escola há três anos e vê na apresentação um movimento de afirmação: “Acho que o que o Tuiuti está fazendo hoje é uma excelente forma de levar o conhecimento para o povo. Eu sou iniciada em Ifá, foi uma herança de família, minha mãe iniciou, depois eu iniciei, meu filho também”, relatou. Para ela, a oralidade é ferramenta essencial: “O carnaval é literalmente uma escola”. Milena acredita que propor enredos que contem a história preta já se tornou uma identidade da agremiação e torce para que o desfile amplie a visibilidade da cultura negra.
Primeira agremiação a desfilar na noite desta terça-feira, o Paraíso do Tuiuti apresentou no carro abre-alas “Ilé Ifé” a origem do conhecimento sagrado de Ifá, conduzido por Orunmila aos primeiros homens na cidade primordial de Ifé. Com cinco elefantes e dois carros acoplados formando um conjunto monumental em branco e prata, a alegoria abriu o desfile do Carnaval 2026, que tem como samba-enredo “Lonã Ifá Lukumi” como um manifesto visual sobre ancestralidade, sabedoria e destino.
Detalhes do abre-alas do Tuiuti FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
As cores vibracionais remetem à família Funfun, ligada aos orixás primordiais criados por Olodumare, e destacam Orunmila como aquele que testemunhou a Criação. No elefante central, a representação do orixá surge como mestre do conhecimento, ensinando Akodá e Ashedá, sacerdotes que simbolizam a transmissão e a compreensão do saber. Sentados sobre a até, diante do Oponifá, eles recebem os fundamentos que dariam origem aos babalawos, os “pais do segredo”, responsáveis por interpretar os desígnios do oráculo.
À frente, a escultura de Orunmila-Ifá, como um babalawo diante de seu Oponifá, segura o Opelê e o Irukerê, instrumentos sagrados da consulta oracular. O grande Oponifá girando no centro da alegoria remete ao universo e ao tempo, irradiando a luz do conhecimento. Já na segunda parte do conjunto, a “barca” dos primeiros iniciados deixa Ifé para espalhar o Ifá pelo mundo, enquanto a água, elemento essencial nos rituais, surge como metáfora da fluidez da vida e da sabedoria que contorna obstáculos.
Wesley Gomes, administrador FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Para Wesley Gomes, administrador, também com uma década de Tuiuti, o impacto vem desde a concepção: “O carro me impressionou, ele é composto por algumas composições que formam toda a estrutura. Pelo trabalho que eu tenho acompanhado desde o ensaio técnico, toda proposta, essa inovação do nosso intérprete Pixulé, cantando o samba a capela para que todo mundo possa aprender o samba, isso é um diferencial e tenho certeza que vamos arrasar”, disse. Ele ainda ressaltou que o impacto visual se consolidou como marca da escola nos últimos carnavais.
Leonardo Tojeiro, técnico de enfermagem FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Leonardo Tojeiro, técnico de enfermagem que desfila há três anos, contou que a dimensão do abre-alas surpreendeu até quem acompanhou os preparativos. “O carro está lindo, a cor, os espelhos, a nossa ala vem coreografada, chama bastante atenção. Não imaginava que o carro seria tão grande e iluminado. Tuiuti está investindo bastante, em um momento de crescimento. Ela se tornou uma das grandes e a gente vem para brigar por esse título”, avaliou.
Vinicius Silva FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Também integrante da ala, Vinicius Silva reforçou a percepção de grandiosidade e cuidado nos detalhes: “A riqueza de detalhes do carro, a grandeza dele me impactaram muito. Estamos vindo com garra, com muita vontade de ganhar, vai ser impactante para o público. O Tuiuti vem crescendo, querendo conquistar. Estamos atrás dessa tão sonhada vitória, a cada ano o cuidado, os detalhes aumentam, para que a gente tenha mais empenho na Avenida”, concluiu.
A Paraíso do Tuiuti abriu os desfiles desta terça-feira de Carnaval na Marquês de Sapucaí em busca de seu primeiro título no Grupo Especial. Com o enredo “Lonã Ifá Lukumí”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, a escola propôs um mergulho na espiritualidade afro-brasileira e afro-cubana. No quinto carro alegórico, a agremiação apresentou a expansão da rama caribenha que fez do Brasil uma grande Egbé.
Detalhes alegoria FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Ele simbolizou a presença do Ifá Lucumí em solo brasileiro e sua missão de levar a palavra de Orunmila ao mundo. No alto da alegoria, um globo terrestre formado por esculturas de pessoas de diferentes partes do planeta, concebidas sob estética iorubana, reforçava a ideia de conexão. Acima de todos, a escultura de Orunmila, inspirada na obra de Carybé no Mural dos Orixás, surgia como guia do destino sagrado da paz.
Para falar sobre a importância do enredo, participaram Diogo Andrade, 40 anos, analista de sistemas, estreante na Sapucaí pela Tuiuti; O criador de conteúdo Juninho Silva, também em sua estreia no desfile da escola; e Diego Moreira, 45 anos, professor, com mais de 30 anos de Carnaval — e cinco deles dedicados à agremiação.
A importância de levar a religiosidade cubana para a Avenida
Para Diogo Andrade, a escolha do tema mantém a tradição da escola em abordar questões profundas e atuais. “A Tuiuti tem tradição de trazer enredos políticos. E acho que mais uma vez ela traz isso e é muito importante a gente mostrar isso na avenida. Eu acho que enaltece a cultura”
O criador de conteúdo Juninho Silva FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Juninho destacou que as diferenças entre Brasil e Cuba diminuem quando se trata de religiões de matriz africana: “Eu não sei se é exatamente tão diferente, inclusive quando se está falando da religião de matriz africana. Então eu acho que a importância é mostrar essas similaridades de perspectiva do religioso que o brasileiro tem em comum com outros povos que também são povos da matriz africana. Então acho interessantíssima essa união”.
Diego Moreira ampliou o debate ao relacionar o enredo com a diáspora africana e sua herança cultural global.
“Eu acho super importante, porque quando a Tuiuti faz essa empreitada de trazer uma outra religiosidade é para poder buscar um entendimento de que a presença africana de todas as pessoas que saíram de diferentes lugares da África contribuíram para a religiosidade não somente brasileira, mas que a gente pudesse ter, pela diáspora e pela luta de todas as pessoas negras envolvidas nesse processo, uma representatividade, um patrimônio cultural que não é só brasileiro, mas acaba sendo mundial”, afirmou.
“Quando você liga Cuba, Brasil, você liga Nova Orleans, você liga lugares diferentes do mundo, você vê como essas pessoas, apesar de terem tido vidas extremamente sofridas, terem tido que lidar com a violência, tiveram que sobreviver do jeito que conseguiam. Elas deixaram um legado que grande parte da música, da dança, das artes de modo geral no mundo bebe dessa fonte até hoje”, concluiu.
A conexão entre povos por meio das religiões de matriz africana
A conexão entre povos por meio das religiões de matriz africana
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Diogo Andrade ressaltou a necessidade de respeito diante da repetição histórica de perseguições. “A gente percebe que a história se repete ao longo dos países. E é isso que a Tuiuti vai contar um pouco do Ifá em Cuba. Eu acho que a gente deveria prezar mais pelo respeito, pela igualdade. Não importa qual é a religião, a cor, o gênero, o que importa é que são pessoas. A gente deveria respeitar as pessoas, mas não é o que a gente viu no passado e, infelizmente, a gente está vivendo um momento muito triste com relação a isso, tanto no nosso país como em outros países, onde, por diversas situações, as minorias vêm sendo perseguidas. Eu espero que a gente possa ter um futuro melhor”.
Juninho Silva enxergou na religião um caminho de reconhecimento e reencontro. “Eu acho que é a forma como nós, pessoas pretas, nos reconhecemos, apesar de toda a diferenciação social por conta do que a gente absorve como sistema. Então quando a gente está falando da religião, eu acho que é uma forma de que todos nós nos encontramos num caminho de volta para casa. Eu acho que é um pouco disso”.
Carnaval como espaço de união e troca
Ao refletir sobre o papel do Carnaval, Diogo Andrade ponderou sobre as contradições da festa: “O Carnaval é um pouco disso, eu acho que o Carnaval traz isso para a gente, mas ao mesmo tempo eu também acho que tem um lado comercial no Carnaval que também dá uma separada. Quando você vê, por exemplo, camarotes, essa união não é tão grande como você vê no desfile. E eu gosto muito do desfile, gosto muito da arquibancada, porque eu acho que traz essa união de povos e uma igualdade. Todo mundo é igual naquele momento e pode ser feliz, cantar e aproveitar”.
Juninho acredita que a essência da festa está sendo retomada: “A perspectiva do Carnaval sempre foi essa, de união de povos. Eu aprendi a gostar do Carnaval através desse ponto de vista. Infelizmente ele andou por algum tempo se perdendo, mas eu acho que ele está tentando voltar para casa. Então eu acho bacana isso”.
Diego Andrade FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Diego Moreira reforçou o papel histórico da festa como espaço de resistência e representatividade: “Com certeza. Toda a nossa musicalidade vem de uma matriz africana, de matriz indígena, nesse lugar de sobrevivência, de muitas mulheres que estavam envolvidas no passado e homens também que resistiram dentro desses projetos no nosso país que não incluíram essas pessoas”, afirmou.
“Foi através do Carnaval que ergueram a representatividade, mesclando culturas e dando um dos maiores patrimônios mundiais que é o Carnaval carioca”, concluiu.