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Acadêmicos do Salgueiro abre desfile com navio-biblioteca e transforma legado de Rosa Magalhães em espetáculo visual

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Um navio feito de livros, memórias e personagens conduziu a homenagem à carnavalesca Rosa Magalhães e transformou o abre-alas em uma poesia à imaginação

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O Salgueiro iniciou seu desfile com impacto imediato. O abre-alas surgiu na Avenida como um grande navio-biblioteca, reunindo livros monumentais, esculturas exuberantes, personagens fantásticos e símbolos náuticos em uma composição que sintetizou o universo criativo de Rosa Magalhães. Antes mesmo de qualquer explicação, o carro já comunicava ao público que aquela viagem começava na leitura, na pesquisa e na imaginação, as marcas centrais da trajetória da carnavalesca homenageada.

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A alegoria se impôs pela grandiosidade. No primeiro chassi, estantes e volumes gigantes dividiam espaço com bússolas, âncoras, esferas e criaturas marinhas. A imagem da embarcação construída a partir de livros traduziu a ideia de que cada enredo criado por Rosa partia de mergulhos profundos em referências históricas, literárias e culturais. O segundo chassi ampliou essa narrativa ao fazer personagens “saltarem” das páginas: figuras híbridas, seres fantásticos, elementos barrocos e ícones populares surgiram como se ganhassem vida diante do público.

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O excesso era proposital. Candelabros, douramentos, texturas e sobreposições criaram um labirinto visual que remetia ao estilo marcante da artista. Nada parecia aleatório. Cada detalhe dialogava com desfiles passados, com imagens que marcaram época e com o traço inconfundível da professora que transformou pesquisa em espetáculo. A ideia central estava clara: a biblioteca não era apenas cenário, mas o cérebro criativo que conduziu décadas de Carnaval.

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Advogada de 27 anos e componente do Salgueiro há mais de uma década, Juliane Paes desfilou no abre-alas e se emocionou ao falar sobre a potência simbólica do carro. Para ela, o impacto não estava em um elemento isolado, mas na construção como um todo.

“Eu acho que é o conjunto que mais impressiona. A riqueza de detalhes da biblioteca, dos livros, do navio… tudo isso resume de forma muito bonita a história da Rosa Magalhães, que é a grande homenageada da escola. O Salgueiro mostrou que preza pela cultura, porque cada carro está muito rico, muito pensado. Você olha e percebe a mistura de referências, os elementos simbólicos, tudo dialogando. O carro fala por si. Antes mesmo de qualquer explicação, você entende que está ali o universo criativo dela. A imagem consegue contar essa história sozinha. É emocionante fazer parte disso”, contou a advogada enquanto se emocionava.

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Quem também viveu uma noite especial foi o ator e diretor Gilberto Gawronski, que desfilou pela primeira vez na escola motivado pela homenagem à antiga professora e amiga. Integrando o abre-alas, ele destacou o peso afetivo daquele momento.

“Eu vim para o Salgueiro por causa dessa homenagem. A Rosa foi minha professora, foi minha colega de trabalho e se tornou uma grande amiga. Estar nesse cortejo é uma alegria imensa. É uma forma de agradecer tudo o que ela representou para tantos alunos.”

Ao representar simbolicamente o pensamento e a imaginação da carnavalesca na abertura do desfile, ele ampliou o significado da homenagem.

“Estar nesse carro é também celebrar o legado que ela deixou na formação de tantas pessoas. A Rosa foi uma grande mestre. A gente fala muito de Carnaval, mas fala também de educação, de generosidade, de partilha de conhecimento. Eu me sinto privilegiado por ter sido aluno dela e espero estar à altura dessa homenagem”, revelou o ator.

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A criadora de conteúdo Manuela William, de 31 anos, estreou na escola a convite do Salgueiro e destacou a força visual da alegoria logo na concentração.

“Eu me senti muito honrada por começar minha trajetória aqui em uma escola desse tamanho, que me acolheu tão bem. E o abre-alas é impressionante. O que mais me marcou foi ver o livro se abrindo e os personagens surgindo dali: o navio, as sereias, os candelabros. É como se a gente estivesse vendo as ideias dela ganhando vida na nossa frente”, citou a convidada.

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Ao transformar livros em embarcação e memória em espetáculo, o Salgueiro apresentou mais do que uma alegoria de abertura. Apresentou a origem de um método criativo que ajudou a moldar o Carnaval moderno. E fez isso da forma mais salgueirense possível: com grandiosidade, emoção e respeito à professora que ensinou que toda grande viagem começa na imaginação.

 

Paraíso do Tuiuti mostra potência cênica e musical, mas perde rendimento após falha em alegoria

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Com o enredo “Lonã Ifá Lucumí”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, o Paraíso do Tuiuti apresentou um desfile de forte densidade simbólica na Marquês de Sapucaí. Apostando na tradição iorubá que perseverou em Cuba, na cosmogonia iorubá, na diáspora e na permanência da nação Lucumí nas Américas, a escola combinou teatralidade na comissão de frente, africanidade marcante nas fantasias e potência musical conduzida pelo intérprete Pixulé e pela bateria de mestre Marcão. A rainha Mayara Lima foi um dos pontos altos da noite. Ainda assim, falhas mecânicas em alegorias e um buraco expressivo na evolução interferiram diretamente no rendimento da apresentação.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

* LEIA AQUI: Ala 4 do Paraíso do Tuiuti transforma intercâmbio cultural em espetáculo popular

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por David Lima, a comissão investiu em teatralidade e impacto visual. Um tripé de grandes proporções abriu espaço para um corpo de bailarinos numeroso, com figurino escuro, compondo uma cena ritualística marcada pela presença simbólica dos Orixás e por efeitos de fumaça que reforçaram a atmosfera mística do enredo. A proposta foi grandiosa e coerente com a narrativa espiritual, mas a iluminação mais escura prejudicou a leitura em alguns momentos. A concepção cênica ficou confusa em trechos específicos, diluindo parte da força dramática que a coreografia propunha.

* LEIA AQUI: Paraíso do Tuiuti apresenta abre-alas com ‘Ilé Ifé’ e transforma a Sapucaí em manifesto de ancestralidade e sabedoria

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MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Vestidos em trajes brancos, Vinícius Antunes e Rebeca Tito iniciaram a apresentação com elegância e forte sincronia. O bailado foi clássico, seguro e bem marcado, demonstrando entrosamento e serenidade na condução do pavilhão. No módulo 1 de julgamento, Rebeca acabou enrolando a bandeira. Após o contratempo, o casal manteve firmeza, postura altiva e domínio técnico, concluindo a estreia com desempenho consistente e promissor nos módulos seguintes.

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HARMONIA E SAMBA

O desfile começou pulsante, com os primeiros setores cantando com vigor, porém houve momentos de queda no canto da comunidade no decorrer da apresentação. A potência vocal emocionante de Pixulé conduziu o samba com firmeza e entrega, chamando a comunidade para ir junto e sustentando a narrativa musical com intensidade e controle. A bateria de mestre Marcão apresentou cadência precisa, com bossa bem executada e efeito de luz cênica, criando um momento de impacto visual e sonoro. A caracterização dialogou com o enredo e reforçou a identidade do conjunto rítmico. As alas desfilaram bem espaçadas, favorecendo a leitura estética. No entanto, houve desalinhamento de alas no setor 3 e momentos de queda no canto, o que comprometeu a uniformidade da harmonia.

* LEIA AQUI: Sob as cores de Eleguá, Tuiuti pede caminhos abertos na Sapucaí

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EVOLUÇÃO

O Tuiuti iniciou o desfile com andamento fluido e ocupação equilibrada da pista. A escola parecia segura no ritmo e na organização dos setores até a metade do percurso. O principal problema ocorreu na altura da cabine espelhada, antes do carro da pirâmide, quando uma falha no mecanismo gerou um buraco grande e duradouro. A interrupção quebrou o fluxo da apresentação e impactou diretamente a leitura da evolução.

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ALEGORIAS E FANTASIAS

A escola apresentou diversidade de desenhos, colorido vibrante e forte presença de elementos ligados à africanidade e à latino-americanidade. As alegorias eram imponentes e apostaram em volumetrias distintas, com bonecos e tripés, especialmente no setor 5, reforçando a narrativa visual. Entretanto, falhas técnicas ficaram evidentes. No abre-alas, um refletor apagado no lado direito do terceiro chassi comprometeu a iluminação. No quarto carro, o primeiro coqueiro de palha apareceu parcialmente desencaixado. Já no carro 2, a pirâmide giratória apresentou problema: o pano enrolou durante o movimento, deixando um buraco visível na estrutura. Esses incidentes afetaram a continuidade estética do conjunto.

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OUTROS DESTAQUES

A rainha de bateria Mayara Lima foi um dos grandes momentos do desfile. Representando os ikins de Orunmilá, ela desfilou com imponência e energia à frente de uma bateria caracterizada como babalaôs, acompanhada por ogãs. Sua performance uniu simbologia e samba no pé, conquistando forte reação do público. A ala de passistas também se destacou pelo carisma e pela técnica, mantendo o samba firme e ajudando a sustentar a vibração da escola.

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Vila Isabel transforma bateria em ateliê de Heitor dos Prazeres

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Para entrar na Sapucaí, a bateria “Swingueira de Noel” da Vila Isabel incorporou o homenageado do enredo e afinou os instrumentos como quem prepara os pincéis antes de pintar um quadro. Pintor, compositor e sambista, Heitor dos Prazeres teve sua multifacetada trajetória traduzida nos figurinos de “sambistas pintores”. 

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Mestre Macaco Branco. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Em entrevista ao CARNAVALESCO, ritmistas da Vila Isabel falaram sobre a relação entre música e cor, a diversidade que sustenta a formação das baterias, o legado ancestral dos tambores ligados aos terreiros e o sonho coletivo de emocionar o público na Marquês de Sapucaí.

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Renan Gohan, ritmista da Swingueira de Noel. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O motorista Renan Gohan, 37 anos, tocador de tarol, explicou como funciona essa relação entre som e cores na “Swingueira de Noel”. 

“As cores se completam, e quando se combinam, formam imagens muito bonitas. Na bateria é a mesma coisa. Os instrumentos se completam, um faz uma coisa, o outro faz outra, e depois vem o impacto de tudo junto. Daí saem as bossas, os arranjos, e uma coisa combina com a outra de um jeito bem interessante”, comparou ele. 

Não são apenas cores, no sentido figurado, que se misturam quando se fala das baterias de escolas de samba. A ala também reúne pessoas de origens, histórias e identidades diversas, além de carregar o legado dos tambores dos terreiros que originaram o samba. Renan explicou como essa diversidade apareceu dentro do ritmo.

“A essência da bateria é justamente a diversidade e a união dos povos. Lá nos primórdios, na Pequena África, as pessoas se reuniam como forma de diversão, e daí nasceu a nossa cultura. É muito importante manter essa diversidade, não só com o nosso povo, mas também com estrangeiros que vêm, amam e respeitam a nossa cultura. Sustentar esse legado é fundamental. Eu me sinto feliz e honrado em fazer parte dessa ancestralidade do samba. Por isso é tão importante o trabalho das escolinhas de bateria, para passar isso de geração em geração”, afirmou.

Feijão Bombeiro, ritmista da Vila Isabel. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O ritmista Feijão Bombeiro, 50 anos, tocador de tarol, falou sobre o sentimento que mais buscou transmitir na avenida. 

“Pintamos leveza e felicidade. É um trabalho árduo o ano inteiro, por isso, é essencial chegar aqui, se divertir e passar essa alegria para a arquibancada. Pintamos a emoção de muita gente. As pessoas saem da realidade para viver esse mundo do faz de conta no carnaval. Nós estamos pintando alegria”, afirmou ele, empolgado para entrar na Marquês de Sapucaí. 

Se Heitor sonhava ao pintar, os ritmistas da Vila sonham ao tocar seus instrumentos. Para o ritmista Feijão Bombeiro, tocador de tarol, de 50 anos, o maior sonho de um sambista é alegrar o público. 

No enredo marcado pela dimensão dos sonhos, frequentemente representados por cores e sons, Feijão afirmou que o maior desejo do ritmista é simples: emocionar o público.

“O sonho do ritmista é levar alegria para o nosso povo, que sofre tanto no dia a dia. Pintamos leveza, felicidade e a emoção de muita gente. É um trabalho árduo o ano inteiro, por isso, é essencial chegar aqui, se divertir e passar essa alegria para a arquibancada. As pessoas saem da sua realidade para viver esse mundo do faz de conta no carnaval. Nós estamos pintando alegria”, afirmou ele, empolgado para cruzar a passarela. 

Responsável por comandar esse grande ateliê sonoro da Vila, Mestre Macaco Branco comentou sobre como sua bateria irá a sinestesia da trajetória de Heitor dos Prazeres para a Sapucaí. 

“A bateria vai fazer uma aquarela na avenida, trazer essa emoção que o Heitor tinha quando pintava seus quadros, escrevia suas músicas e tocava seu atabaque. Para a gente, é um prazer imenso poder falar de Heitor dos Prazeres e transformar sua história em ritmo”, destacou o líder, confiante na missão que lhe foi dada.

Matriarcas do Mangue: Baianas da Grande Rio reverenciam lavadeiras do Beberibe na Sapucaí

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À frente do carro que evocava as margens do Rio Beberibe, a Ala das Baianas da Acadêmicos do Grande Rio transformou a Sapucaí em extensão simbólica de Peixinhos. Representando “As lavadeiras do Beberibe”, as componentes deram corpo e voz às matriarcas que sustentam comunidades inteiras à beira d’água. Com trouxas de roupa, bacias, redes de pescador, folhas e flor de bananeira compondo a fantasia, elas entoaram o samba-enredo “A Nação do Mangue” como quem canta à beira do rio, misturando devoção, memória e resistência.

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Baianas da Grande Rio
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

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Elizabeth Avellar 66 advogada
Fabiana de Paula, 44, diarista.
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Ao CARNAVALESCO, componentes da ala destacaram que a conexão entre as lavadeiras e as baianas vai além da fantasia utilizada por elas durante o desfile. “Vejo muita semelhança, ambas são guerreiras e conseguem ludibriar o dia a dia”, afirmou Elizabeth Avellar, de 66 anos. Ela completou ainda dizendo que: “A sabedoria e o conhecimento que podemos passar para as novas gerações são enormes”.

Rosaria Linhares 67 manicure
Rosaria Linhares, manicure, de 67 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Já Rosaria Linhares, manicure, de 67 anos, falou sobre o jeitinho de dar conta de tudo e contou sua experiência na Avenida: “Baiana sempre tem seu jeito de lavar uma roupinha, criar os filhos, cuidar da casa, somos um pouquinho de tudo. A nossa experiência é grande, tenho 17 anos como Baiana e aprendi com muitas outras que vieram antes de mim e tem muitos anos de casa”.

Fabiana de Paula 44 diarista
Fabiana de Paula, 44, diarista
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

O acolhimento com a nova geração e a similaridade entre Baianas e Lavadeiras foi unanimidade entre as componentes, a emoção tomou conta de algumas ao relembrarem suas trajetórias e expressar como o samba é também um lugar de escape e calmaria em meio aos problemas cotidianos.

“Esse é um lugar onde muitas usam como escape em meio aos problemas que tem em suas casas, mas não deixam o seu lado mulher de lado, mesmo com a correria, assim como em toda profissão. Eu sempre procuro me cercar das mais experientes como, elas têm muita sabedoria para passar para gente”, concluiu Fabiana de Paula, 44 anos, diarista.

Filho de Heitor dos Prazeres vive emoção no último carro alegórico da Vila Isabel e celebra o legado do pai na Avenida

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O último carro da Vila Isabel encerrou o desfile transformando a Sapucaí em um encontro entre Brasil e África, entre memória e presente. A alegoria partiu da afirmação que marcou a trajetória do homenageado, “Eu sou Heitor dos Prazeres”, para construir uma imagem monumental do artista que atravessou o samba, as artes visuais e a história cultural do país. No centro desse momento esteve Heitor dos Prazeres Filho, emocionado ao representar a família no encerramento do cortejo.

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Detalhes da alegoria da Vila Isabel
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A proposta do carro celebrou a ida de Heitor ao Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, em 1966. Elementos inspirados nas artes africanas se misturaram a referências da favela e do quilombo, criando uma fusão simbólica entre territórios de resistência e criação cultural. Uma grande escultura com lanças transformadas em pincéis destacou a altivez do artista. Casas de madeira crua dialogaram com tramas artesanais, enquanto, na parte traseira, a pintura inacabada “Feira de Dakar” apareceu ao lado da assinatura do homenageado.

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Heitor dos Prazeres Filho
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A presença de Heitor dos Prazeres Filho no último carro deu ao encerramento um peso ainda mais simbólico. Emocionado, ele falou sobre o convite e o que significou atravessar a Avenida representando o pai.

“Foi gratificante, foi uma honra ser lembrado e estar aqui representando o mestre junto com a minha família, meus filhos e minha esposa. É muito especial. Quando recebi o convite senti uma alegria imensa, uma emoção muito grande, só coisa boa. Eu convivi com ele desde criança, tocando e sambando ao lado dele desde os cinco anos de idade. É mais do que um pai, é uma referência de vida. Esse momento é emoção. E na Avenida a gente segura cantando, sorrindo, chorando, vivendo tudo o que a emoção provoca”, afirmou.

Isaac
Isaac Dahora
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

No alto da alegoria, o ator e pesquisador Isaac Dahora deu vida ao homenageado e destacou o encontro entre arte, pesquisa e carnaval: “Foi uma honra muito grande. Como pesquisador, eu sei quem foi Heitor dos Prazeres e ele está presente inclusive na minha pesquisa de doutorado. Não foi coincidência, foi uma confluência. Já trabalhei com os carnavalescos em outro momento e agora represento esse homem tão importante. Eu me senti interpretando um artista múltiplo, que expôs na Bienal de São Paulo, que esteve à frente do seu tempo e que não foi reconhecido como deveria em vida. Para mim, isso é missão e vocação. Eu sou apaixonado por Carnaval e quero sempre contribuir com ele de alguma forma”.

curadora chefe do Museu de Arte Moderna do Rio Raquel Barreto
curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, Raquel Barreto
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A curadora-chefe do Museu de Arte Moderna do Rio, Raquel Barreto, também integrou o carro e ressaltou a importância de reafirmar o lugar de Heitor na história da arte brasileira.

“É uma alegria muito grande. Eu venho das artes visuais e já participei de uma exposição dedicada ao Heitor. Sempre trabalhei para redimensionar esse artista gigante, que muitas vezes foi colocado em um lugar menos importante. Hoje ele recebe o destaque que merece. Estar nessa alegoria, que mistura favela e quilombo, é fazer parte de um legado de luta e de afirmação cultural. É um projeto coletivo que fala de democracia e de reconhecimento. Ver o nome de Heitor sendo celebrado dessa forma é emocionante”, afirmou.

Leni Ferreira
Leni Ferreira
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Entre os componentes, Leni Ferreira resumiu o sentimento coletivo de quem atravessou a Avenida no último carro. “Representa tudo. É mostrar a nossa garra, a nossa cor, a nossa história. Quando o samba fala da Vila negra, eu me sinto parte disso. Eu não sou só componente, eu faço parte dessa história”.

Tripé da Vila Isabel celebra a fundação das escolas de samba com Vilma Nascimento e Mestre Manoel Dionísio

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O samba, em seus primeiros anos, enfrentou repressão do Estado e de uma sociedade marcada pelo preconceito. Em 2026, a Vila Isabel homenageia Heitor dos Prazeres, personagem central desse período de resistência até a organização e reconhecimento do samba como expressão cultural. O segundo tripé, Quando o Samba fez Escola”, representou esse momento da vida de Heitor e da cultura brasileira, com as presenças dos eternos mestre-sala Manoel Dionísio e da porta-bandeira Vilma Nascimento.

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Dionisio e Vilma Vila
Vilma Nascimento e Mestre Dionísio desfilaram no tripé “Quando o samba fez escola”. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

“Eu comecei cedo no samba e conheci certas pessoas famosas. Isso para mim hoje está sendo importante porque eu estou aqui representando a Portela. O convite do presidente do Vila junto com o presidente da Portela foi muito importante para mim e eu aceitei de cara”, disse Vilma. 

“É muito satisfatório estar aqui hoje, até porque já estava fora do carnaval há algum tempo. Eu me desliguei um tanto quanto da Sapucaí, porque eu acho que a minha colaboração já foi dada. E apesar de saberem que eu sou salgueirense, a Vila me convidou para ser o Heitor dos Prazeres. Isso, para mim, é uma felicidade muito grande. Essa é a oportunidade para fazer uma despedida Vip”, declarou Mestre Dionísio.

Vilma Nascimento Vila
Vilma Nascimento, a eterna Cisne da Passarela, no desfile da Vila Isabel. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Para Vilma, homenagear Heitor dos Prazeres é motivo de gratidão, por ele integrar as raízes do samba e permitir que esse legado chegue às novas gerações, sem que se perca o fundamento que sustenta o carnaval. A porta-bandeira também comentou as transformações recentes do quesito.

“Eu acho que tem que criar mesmo, senão fica uma coisa chata, sempre igual. Tem que criar, mas dentro das tradições. Só que está fugindo. Agora o casal tem que cantar; antigamente não cantava: era rindo, brincando com o público e inventando na avenida. Hoje tem que cantar para marcar os passos para os jurados. Às vezes o casal nem dança para o público, só para o jurado. E o público merece atenção”, disse.

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Mestre Dionísio, grande mestre-sala da mangueira, criador da primeira escola técnica para formar casais. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Ainda sobre a responsabilidade de manter o legado de um quesito, o criador da primeira escola técnica para formar mestre-sala e porta-bandeira, Mestre Manoel Dionísio, afirmou que as mudanças sempre vão estar presentes.

“Eu vou sair para ficar olhando de fora a oportunidade que eu tive de em 1990 criar esse projeto, que deu certo porque eu fui perguntar a quem já estava antes de mim. Eu não fiz nada sozinho, porque uma andorinha só não faz verão. Onde quer que esteja o Mestre Delegado, o senhor Marcelino Bicho Novo do Estácio, Tidinha da Mangueira, Soninha da Mocidade… quer dizer, eu fui buscar os ancestrais que já estavam e que entendiam e que me disseram o que fazer. Eu fiz do jeito que eles fizeram graças a Deus deu tudo certo”, declarou Mestre Manoel Dionísio.

Nos estandartes que acompanham o tripé, dezenas de nomes de baluartes eternos das escolas de samba como Dona Regina, Cartola, Paulo da Portela, Ismael Silva, Hermínia Monteiro, David da SIlva, Tia Fé, Zé Espinguela, Carlos Cachaça e Tia Esther, além do próprio Heitor dos Prazeres.

Um tripé que carrega história, fundamento e legado. Vilma Nascimento e Manoel Dionísio materializam, em corpo e presença, a longevidade dessa tradição que segue reinventando o carnaval.

Abre-alas da Unidos de Vila Isabel recria Praça Onze e abre desfile com sonho, ouro e memória

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A Vila Isabel começou o desfile olhando para trás para seguir em frente. O abre-alas levou a Sapucaí a uma versão imaginada da antiga Praça Onze, território onde Heitor dos Prazeres cresceu e descobriu a arte.

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Rodrigo da Costa Magalhães, de 36 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Antes de ganhar os nomes que marcaram a história, a região era chamada de “Pedaço Baiano”, espaço moldado por famílias que vieram da Bahia no pós-abolição e ajudaram a construir as bases do Carnaval carioca. Foi ali que ranchos ganharam forma, que festas populares se consolidaram e que um menino chamado Lino passou a transformar o cotidiano em expressão artística.

A alegoria não apresentou a praça de maneira literal. O que se viu foi uma releitura grandiosa, inspirada nas joias afro-brasileiras, nos balangandãs e na estética dos ranchos. Ouro e prata dominaram a cena. Animais simbólicos, coroas, espelhos, machados sagrados e referências às águas foram incorporados à estrutura.

Pássaros gigantes abriram asas como peças de joalheria, enquanto um coreto transformado em carruagem flutuou sobre a Avenida. Entre os chassis, um grupo teatralizado representou personagens que conviviam na Praça Onze: baianas, ciganos, judeus, muçulmanos, todos integrados à narrativa visual. A proposta foi apresentar o ambiente que formou Heitor e que ajudou a moldar a cultura popular do Rio.

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Lúcia Frigor, 65 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Lúcia Frigor, de 65 anos, professora e há mais de uma década desfilando na escola, o carro não apenas abriu o desfile, mas despertou a identificação.

“A fantasia estava linda. Com esse samba, eu me senti livre. Como mulher negra, falar de Heitor dos Prazeres me tocou muito. Eu me identifiquei com o enredo, o samba já emociona, então a abertura tinha que fazer o coração bater mais forte”, comentou a professora.

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Letícia Ferreira de Souza, de 30 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Estreando na Vila, a enfermeira Letícia Ferreira de Souza, de 30 anos, destacou o efeito visual da alegoria logo na entrada.

“Eu achei que causou surpresa. É uma fantasia muito elaborada, cheia de detalhes. As pessoas precisaram olhar com calma para entender tudo. Estava muito bonita. É um pouco pesada, mas a gente ensaiou muito. Quando entra na Avenida, a animação supera qualquer dificuldade”, afirmou.

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Rodrigo da Costa Magalhães, de 36 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Rodrigo da Costa Magalhães, de 36 anos, repositor de estoque e também estreante, viveu o momento com intensidade.

“É muita emoção. A gente ensaiou pensando em fazer o melhor. O desejo de ser campeão passa por essa abertura forte.” Para ele, o abre-alas recriou o nascimento artístico de um mestre. “A Vila trouxe uma história que muita gente não conhecia. Mostrou de onde veio esse homem e como tudo começou”, destacou emocionado.

No giro das baianas, Vila Isabel reverencia o legado de Tia Ciata

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O giro de uma baiana vai além do movimento corporal: carrega o resgate da tradição do samba e a memória daquelas que abriram suas casas para que ele nascesse nos fundos do quintal. Segunda escola a desfilar nesta terça-feira, a agremiação prestou homenagem a Heitor dos Prazeres e evocou, na ala das baianas, uma figura central dessa história: Tia Ciata, matriarca do samba. Foi ela quem consolidou a tradição do “fundo de quintal”, transformando sua casa em espaço seguro de fé, encontro e celebração da cultura negra.

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Vera Lúcia Belandi, 78 anos, diretora da ala de baianas. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

E foi lá, no terreiro de Tia Ciata, que Heitor dos Prazeres a reconheceu como mãe de santo. Na avenida, a ala das baianas, “Mães de Santo, Mães do Samba, Mães Baianas”, surgiu como guardiã desse legado. A fantasia destacou o amarelo intenso em referência a Oxum, orixá de cabeça tanto de Tia Ciata quanto de Heitor.

A diretora Vera Lúcia Belandi, 78 anos, está no comando da ala há 25 anos. Ela acredita que as baianas estão nesse papel de manter o legado não só da escola, mas da ancestralidade que Heitor retratava em suas obras. 

“A imagem da Tia Ciata pra mim é ancestralidade, porque eu acho que o giro da baiana é a limpeza da avenida. Quando elas giram pra direita, elas vão limpando. Então é uma ala que não pode faltar no carnaval porque elas abrem e limpam os caminhos”, afirmou Vera Lúcia.

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Tânia Machado, 66 anos, integrante da ala de baianas. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Tânia Machado, aposentada de 66 anos, estava emocionada com sua fantasia, que representava Oxum. Para ela, as baianas têm o compromisso em preservar e proteger o legado das matriarcas do samba, sobretudo, por ser o aprendizado que sua ancestral, Tia Ciata, deixou. 

“Ela foi uma grande mulher, uma negra com personalidade fortíssima. Eu estou me sentindo muito feliz em estar representando o orixá dela que é Oxum”, disse Tânia. 

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Cátia Antunes, 48 anos, integrante da Vila Isabel há 11 anos. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Cátia Antunes, 48 anos, desfila na Vila há 11 anos e se sentiu arrepiada de tanta emoção por homenagear a pioneira das rodas de samba. Ela reverenciou a mulher que abriu portas para que todas as outras pudessem ocupar espaços no samba.

“Tem toda a história de ser uma mulher negra. A gente sabe que tinha esse preconceito na época… uma mulher negra, pobre. Ela é tudo para gente. Acho que para qualquer sambista Tia Ciata é o máximo”, declarou. 

O depoimento de Cátia ecoa a proposta do enredo, centrado nos sonhos e em sua concretização. Professora, ela recordou que vestir a saia de baiana era um desejo cultivado desde a infância. 

“É o sonho daquela menina pequenininha que, quando via as baianas ensaiando na rua e a saia delas esbarrava, eu olhava pra minha mãezinha com o olho brilhando e falava: “Mãe, eu quero, eu quero!”. Ela falava: “Um dia você vai ser”. E hoje eu tô aqui, graças a Deus”, contou Cátia. 

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Ana Conegundes, 61 anos, costureira da ala das baianas. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Ana Conegundes, costureira da ala das baianas, de 61 anos, desfila pela Vila há 18 anos e sentiu a responsabilidade e emoção em estar representando a Oxum de Tia Ciata. 

“É uma ancestral nossa, aquela que veio primeiro. É por ela que nós estamos aqui, por ela essa festa é a maior do mundo. Foi ela que defendeu o samba, que colocou nos quintais dela as pessoas que estavam iniciando no samba. Foi ela que colocou na rua os primeiros cortejos de carnaval. É uma responsabilidade e um prazer muito grande poder representá-la”, declarou Ana. 

Mais do que uma representação, a ala atravessou a Sapucaí mostrando que o legado de tia Ciata se mantém vivo nos giros de suas saias.

Vila Isabel 2026: galeria de fotos do desfile

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Ala 4 do Paraíso do Tuiuti transforma intercâmbio cultural em espetáculo popular

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A Ala 4 do Paraíso do Tuiuti trouxe uma aula de ancestralidade Lukumi para a Avenida. Intitulada “O Ifá em Kush”, ela apresentou ao público a trajetória do oráculo de Orunmilá a partir das rotas transaarianas, conectando a cidade sagrada de Ifé ao Reino de Kush e, séculos depois, à cultura Lukumi, fruto da fusão afro-cubana. Componentes ouvidos pelo CARNAVALESCO explicaram como o conhecimento atravessou desertos, oceanos e gerações até chegar à Marquês de Sapucaí.

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As antigas rotas caravaneiras que cortavam o Saara não transportavam apenas ouro, sal ou tecidos. Eram caminhos de troca de saberes. De Ifé, berço do sistema divinatório do Ifá, comerciantes e viajantes levaram fundamentos religiosos que encontraram eco em outras civilizações africanas. No Reino de Kush, na antiga Núbia, território que hoje corresponde ao Sudão, sacerdotes conheceram o oráculo de Orunmilá e absorveram ensinamentos transmitidos por babalawos vindos da cidade iorubá.

Matheus Pereira 25 cuidador de animais
Matheus Pereira, 25, cuidador de animais
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A fantasia da ala materializou esse encontro. Referências às pirâmides kushitas, aos recursos minerais e à imponência dos faraós negros dialogavam com elementos simbólicos do Ifá, traduzindo visualmente a ideia de intercâmbio cultural. Matheus Pereira, 25 anos, cuidador de animais, ressaltou como o Carnaval, hoje, cumpre seu papel social ao perpetuar cultura e conhecimento através da arte.

“Eu sou de Santa Catarina e posso dizer que é um estado que desconhece essa cultura, eles apenas conhecem o Carnaval através do que veem na televisão, mas desconhecem toda a cultura por trás”, contou. Para ele, o desfile tem também um papel educativo. “Quem estuda um pouco da história do nosso país sabe que a história contada é a europeia e não a ancestral, dos negros. O carnaval, esse palco gigantesco, é uma das principais formas de mostrar essa história para a população”.

Maria da Graca 59 dentista
Maria da Graça, de 59 anos
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para Maria da Graça, de 59 anos, dentista, que desfilava pela primeira vez, a transmissão desse saber passa necessariamente pela explicação e pelo diálogo com as novas gerações.

“Acredito que passando para novas gerações e explicando a cultura e a história do Ifá, porque muitas pessoas nunca nem ouviram falar dessa cultura cubana, que fala sobre o destino de cada pessoa, é muito importante cada um saber do seu destino”, afirmou. Ela destacou ainda o alcance da festa: “O carnaval é uma cultura de todos os povos, raças, culturas. O carnaval é uma cultura”.

Milena Blanc 32 medica
Milena Blanc, 32, médica
FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Iniciada na tradição, a médica Milena Blanc, de 32 anos, desfila pela escola há três anos e vê na apresentação um movimento de afirmação: “Acho que o que o Tuiuti está fazendo hoje é uma excelente forma de levar o conhecimento para o povo. Eu sou iniciada em Ifá, foi uma herança de família, minha mãe iniciou, depois eu iniciei, meu filho também”, relatou. Para ela, a oralidade é ferramenta essencial: “O carnaval é literalmente uma escola”. Milena acredita que propor enredos que contem a história preta já se tornou uma identidade da agremiação e torce para que o desfile amplie a visibilidade da cultura negra.