Unidos de Vila Isabel reafirma sua raiz negra em homenagem a Heitor dos Prezeres
A Vila Isabel entrou na Avenida falando de sonho. Neste ano, com “Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, em homenagem a Heitor dos Prazeres, a Azul e Branca volta a valorizar da cultura negra como parte da sua história e da sua comunidade.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Esse reconhecimento é sentido de forma profunda por quem ele representa. Para o enfermeiro Luiz Fernando Pereira Teles, de 60 anos, o desfile deste ano tocou em um lado pessoal.
“É um prazer tremendo, até porque sou negro e o nosso país é um país negro. Temos que defender essa pluralidade e o negro precisa saber quem ele é e de onde veio”, potuou.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A trancista e baiana da escola, Eloá Oliveira Santos, de 38 anos, falou da importância de ser vista enquanto mulher preta e dividiu um emocionante relato pessoal.
“Eu me sinto tendo visibilidade, porque nós negros somos desqualificados. Eu falo para o meu filho: leva identidade até na padaria. Você pode ter doutorado, mas a sua pele vai te desclassificar. Estar aqui exaltando a minha cor é motivo de muita felicidade. Minha mãe já desfilou por nós, a minha avó, passou essa legado pars ela e agora estou aqui. Meu sonho é que nós negros não precisemos ser mortos para seremos vistos, e nem assim somos, pois viramos só mais uma estatística. Que não exista mais desigualdade”, desabafou.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Já a terapeuta capilar Cátia de Jesus, de 45 anos, levou a oportinidade de desfilar no ano em que a Vila traz esse tema como honra e aprendizado.
“A história é tão rica, que não tem como não me sentir representada. A Vila sempre aborda temas muito importantes para comunidade negra, e isso é maravilhoso. Esse samba é um aprendizado, ele conta uma história interessante, fala de literatura, música, pintura, e a arte é o futuro. Quando eu entro para desfilar, meus sonhos já são realizados”, comentou.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A consultora Laura Espinosa, de 25 anos, que desfilou pela primeira vez na escola, falou sobre a responsabilidade de representar um povo discriminado, mesmo sem fazer parte dele, enquanto aliada.
“Eu sei que não sou uma pessoa negra, mas sinto responsabilidade de participar e contar essa história. Quando você está falando de histórias que normalmente não são contadas, você se sente parte de algo maior. Eu sonho que possamos criar momentos de união e paz. Ver um evento que celebra diferenças me faz acreditar em um mundo melhor”, disse.
A força do samba
Um dos pontos mais altos do desfile deste ano é o samba que embala a homenagem a Heitor. A obra caiu no gosto popular ainda na disputa de samba, em meados do ano passado. Os componentes e torcedores estavam ansiosos para cantá-lo a plenos pulmões na Avenida.

O presidente da escola, Luizinho Guimarães, associou a catarse coletiva provocada pelo samba com a vontade da comunidade em voltar a consquistar o tão sonhado título.
“Era um desejo nosso ter um grande enredo e um grande samba. Esse ano fomos muito felizes. Agora é acreditar na nossa comunidade e no nosso segmento para fazer um grande desfile. Se Deus quiser, vai ser um dia maravilhoso para a gente”, comentou o presidente.

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
O inspetor de pintura industrial Felipe Lacerda, de 38 anos, destacou a identificação da comunidade com a história contada como o principal fator para essa explosão.
“Foi feito para a gente do Morro dos Macacos. Amamos desde a disputa, já foi aclamado ali. Independentemente de ser o melhor do carnaval ou não, cativou o povo do samba de Noel. Isso é suficiente. Vamos entrar para brincar e curtir, o resto deixa para os jurados”, afirmou.
Tuiuti celebra sincretismo religioso do Ifá
O carnaval se faz de muitas culturas, e o Tuiuti vive as diferenças em plenitude neste ano. Com o enredo “Lonã Ifá Lukumi”, do carnavalesco Jack Vasconcelos, a escola apresentou, na última noite de desfiles do Grupo Especial, a formação da religião afrocubana Ifá.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Com cores e símbolos que evocam a estética afro, a ala celebrou o sincretismo religioso próprio das tradições nascidas da diáspora africana sob a experiência da colonização. Os componentes empunhavam machados de dupla lâmina, os oxês, insígnia de Xangô, orixá da justiça que, na Santeria e no Lukumi, é associado a Santa Bárbara, protetora católica contra as tempestades, representada por estandartes no centro da formação.
Herança da afrodiáspora, esses cruzamentos também ecoaram no Brasil, onde Iansã é celebrada em 4 de dezembro, mesma data dedicada à santa católica.

Em um contexto marcado pela intolerância religiosa, o enredo joga luz sobre uma religião de matriz africana ainda pouco conhecida, afirmando-se como instrumento de combate ao preconceito. O componente Moacir Estaric acredita que a força popular do samba pode impulsionar o conhecimento sobre a cultura afro-cubana.
“É um samba que está sendo muito elogiado. Acho que isso vai ajudar o brasileiro a entender um pouquinho e a se permitir, pelo menos, conhecer”, declarou.

Na ala, um paralelo revela uma diversidade que ultrapassa os limites do próprio enredo: há componentes vindos de várias partes do Brasil e do mundo, ressaltando a abertura do Paraíso do Tuiuti a novas culturas. A mistura de origens e a exaltação do sincretismo reforçam o carnaval como espaço de encontro entre diferenças. A italiana Cintia Ojeda destaca não apenas o Tuiuti, mas o Brasil, como território de acolhimento cultural.
“Aqui todo mundo pode desfilar, todo mundo pode estar junto. O lindo do Brasil é isso: você tem várias culturas, várias religiões, e todo mundo pode viver feliz e junto, sobretudo no carnaval”, afirmou.

Também italiano, Federico Bernardi ressalta a diversidade religiosa brasileira e reconhece a importância do enredo para ampliar o conhecimento sobre o Ifá.
“Quando chegamos ao Brasil, encontramos uma diversidade incrível em tudo, da religião à cultura. Gostamos dessa escola por essa razão: aprender e conhecer mais sobre essa religiosidade, não só africana, mas também cubana e brasileira”, finalizou.
Grande Rio exalta o Manguebeat e reforça o Carnaval como palco de todos os ritmos
A Acadêmicos do Grande Rio foi a segunda escola a desfilar nesta terça-feira e levou para a avenida o enredo “A Nação do Mangue”, celebrando a resistência cultural, a ecologia e o Manguebeat. Desenvolvido pelo carnavalesco Antonio Gonzaga, o tema destacou a força das comunidades periféricas, evocando a figura de Zumbi, a potência criativa de Chico Science e a síntese musical da Nação Zumbi, principal expoente do movimento que uniu guitarras e tambores ancestrais para reinventar a cena cultural brasileira. Na ala 17, dedicada à Nação Zumbi, componentes ressaltaram o valor de o samba dialogar com outros gêneros musicais.
Para saber mais sobre isso, o CARNAVALESCO conversou com integrantes da ala: Ana Claudia Imelk, 45 anos, gerente de dados e analytics, estreante na escola; Luiz Leone, 61 anos, supervisor de vendas, desfilando há cinco anos, mas ligado à agremiação desde 1989; e Amanda Cortez, 31 anos, gerente de projetos, também estreante na Grande Rio.
Qual a importância de o samba reverenciar outros ritmos e contar a história deles?

“Eu acho super importante para poder expandir e trazer esse conhecimento para outros povos que curtem outros ritmos, conhecer também outras culturas, outros gostos e expandir isso culturalmente dentro do Brasil”, afirmou Ana Claudia.
Luiz Leone destacou o caráter agregador da festa. “Eu acredito que todo ritmo de músicas, todo ritmo que venha trazer para nós do Carnaval, é válido, porque são vários gêneros que nós temos. O Carnaval é isso: é uma mistura de gêneros, de músicas, de pessoas, de raça, de todo tipo. Então isso é que é o bom do Carnaval”, disse.
Para Amanda, a valorização é essencial. “Muita importância, porque é uma questão cultural. Eu acho que referenciar toda a cultura que a gente tem no Brasil de um modo geral sempre é importante. O Carnaval está aí para isso”, afirmou.
Você gostaria que essa via fosse de mão dupla, que o samba também fosse representado por outros gêneros?
“Com certeza, eu acho que é uma via de mão dupla, acho super importante essa troca e para a gente de fato expandir a cultura do Brasil, que o samba está presente desde sempre. Faz parte da nossa raiz”, afirmou Ana Claudia.
Luiz também defendeu essa reciprocidade. “Seria muito bom. Claro. Porque o samba, o Carnaval, o samba é o Brasil. Hoje em dia a gente leva o samba para o mundo. Então é necessário que os outros ritmos também possam levar o nosso samba para os outros ritmos. Eu vejo muito grupo de pagode cantando ritmos de rock, diversas diversidades de ritmos. Então eu acho necessário”, disse.

Amanda concordou com a proposta de intercâmbio cultural. “Com certeza. Essa mistura é sempre muito agregadora. Todo mundo ganha”, afirmou.
Qual a importância de o Carnaval trazer nomes como Nação Zumbi, Rita Lee e Ney Matogrosso para a avenida?
“São pessoas ícones da nossa cultura, da cultura brasileira, e acho que vale trazer isso como representatividade, expandir o conhecimento para um povo mais novo que não conhece essas pessoas que fizeram história no nosso país e na nossa cultura. Acho super importante expandir isso, trazer isso para a atualidade”, afirmou Ana Claudia.
Luiz relembrou memórias afetivas ao falar dos homenageados. “Eu acho muito importante porque são pessoas históricas, pessoas que fizeram o nome delas na música popular e em outras diversidades de projetos que eles vinham ter. Então eu acho que foi necessário isso, e o Carnaval é isso, ele é agregador, agrega essas pessoas, vem trazer Ney Matogrosso. Quem não se lembra de Ney Matogrosso no Secos e Molhados? Na minha época dancei muito Secos e Molhados, década de 70. Rita Lee, na época de Rita Lee, o conjunto Tutti Frutti. Então são pessoas que escreveram o nome na história da música. Então é necessário que venham e que venham outros ritmos também e outros homenageados. Seria muito bom”, concluiu.

Amanda reforçou o caráter plural da escolha. “Faz parte da nossa cultura. Tem toda a história da escola e do enredo desse ano. Então acho que agrega muito e, para mim, é tudo uma questão cultural que faz todo sentido trazer a multiculturalidade. A pluralidade é sempre bem-vinda”, concluiu.
Grande Rio ergue a Nação do Mangue como ideal de igualdade no último carro
A Acadêmicos do Grande Rio encerrou seu desfile com a imagem de uma nova civilização em construção. No último carro, a escola apresentou a “Nação do Mangue” como um ideal de sociedade pautada pela igualdade, pela comunhão e pela superação da pobreza e do sofrimento. Com a “cobre cor da lama” como signo, a alegoria final conectou as periferias de Duque de Caxias e Recife, territórios que inspiram o enredo, para afirmar um novo mundo possível, erguido com as faces, os sonhos e os sons do povo.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
Desenvolvido pelo carnavalesco Antonio Gonzaga, o enredo celebrou a resistência cultural, a ecologia e o Manguebeat, exaltando figuras como Zumbi e Chico Science. No desfecho, a escola transformou a lama do mangue em símbolo de fertilidade social e política: dali nasce uma nação onde todos vivem em igualdade. Para entender como esse ideal ecoa entre os componentes, componentes da escola refletiram sobre o tema.
Participaram da conversa Fernanda Medeiros, advogada de formação que atua com tecnologia e inovação e estreou neste ano na escola; Carolina Isse, 32 anos, nutricionista, também em seu primeiro desfile pela Grande Rio; e Sandra Rocha, 51 anos, previdenciária, que desfila na escola há quatro anos.
Como você projeta um mundo mais igualitário como propõe a Nação do Mangue?
“A Nação do Mangue fala sobre educação e consciência social. Eu acho que a consciência e a busca através da mudança da educação são boas diretrizes que a própria escola já está falando esse ano”, afirmou Fernanda.

Carolina também destacou a base educacional como pilar central: “O primeiro ponto para a gente ter um mundo mais igualitário é a educação, desde a base, o enredo fala sobre isso, sobre as crianças, então eu acho que o principal para um mundo mais igualitário é a educação para todas as crianças”, disse.

Sandra ampliou a reflexão para o campo da inclusão e do conhecimento: “Um mundo com menos desigualdade, mais inclusão e mais conhecimento, as pessoas estão precisando de mais conhecimento, porque a gente com conhecimento, a gente consegue entender melhor e projetar esse mundo de desigualdade”, afirmou.
Estamos no caminho certo para alcançar esse mundo ideal?
Para Fernanda, ainda há distância entre o presente e o ideal proposto no último carro: “Acho que a gente está distante, mas acho que as mudanças vão vir e vão ser mais drásticas, até pela velocidade da tecnologia, mas as pessoas, acredito que as mudanças são mais externas e elas têm que acontecer de forma mais interna do que externa”, disse.

Carolina também avalia que o país ainda está longe de uma igualdade educacional plena: “Acho que a gente está bastante distante de ter uma educação igualitária para todas as crianças no Brasil, mas a gente entende hoje que talvez seja um interesse do governo atual, então eu acho que a gente está caminhando para isso, mas a gente ainda está muito distante”, afirmou.

Sandra atribuiu parte desse distanciamento às tensões políticas e à falta de consciência coletiva: “Eu acho que ainda está um pouco distante, por conta das guerras, guerras entre aspas políticas, por exemplo, e faltando um pouco mais de consciência mesmo do povo em geral”, disse.
O que cada cidadão pode fazer para tornar esse ideal mais próximo?
Retomando a importância da transformação individual, Fernanda defendeu uma mudança de postura interna: “É se abrir para essas transformações que acontecem através de uma consciência social melhor e sua identificação entre o que você é realmente e aquilo que a sociedade lhe impõe. Então a busca do seu ideal tem a ver com a sua identificação através de uma coletividade e uma consciência social”, concluiu.

Carolina apontou para a responsabilidade nas escolhas políticas: “Eu acho que individualmente, pensando numa coisa mais eficaz, é a gente escolher governos que tenham como política pública a educação, enfim, acho que é a forma mais eficaz da gente fazer esse papel”, afirmou.
Sandra voltou a enfatizar o conhecimento como ferramenta de mudança: “Conhecimento é tudo. A pessoa entender o que está acontecendo, como as mudanças do mundo em geral. Eu acho que a pessoa entendendo, conhecendo, a gente consegue chegar aí e projetar esse mundo de desigualdade”, concluiu.
Colorido de Heitor pinta estética primorosa e excelência em outros quesitos colocam Vila Isabel na briga pelo título
Estreando na Vila Isabel em 2026, a dupla Leonardo Bora e Gabriel Haddad conseguiu imprimir suas características únicas de desfile, combinando com a plástica do artista e com a ancestralidade resgatada da Vila Isabel. Kizomba era invocada imageticamente em diversos pontos do desfile. O samba, joia da safra, mas que chegou a gerar dúvidas no pré-carnaval, passou de forma muito potente. Casal e comissão também fizeram apresentações corretas e com pontos muito altos. A escola cantou, e o enredo passou de forma muito clara. O único ponto foi um problema de buraco no último setor, que deve gerar despontuação, mas sendo uma nota de descarte.

Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, a Vila Isabel foi a segunda escola a pisar na Sapucaí na última noite de desfiles do Grupo Especial, com o tempo de 78 minutos.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão traduziu poeticamente o argumento central do enredo, que é a mistura entre samba e macumba, sob os olhos encantados de Heitor dos Prazeres. De início, os componentes vestidos com as roupas de carnaval dos antigos ranchos, as mulheres com vestidos brancos e os homens com batas e capas. E Heitor, de chapéu de malandro, no meio. Heitor subia no elemento alegórico, cujo conceito estético evocava os fazeres do artista, com peças de marcenaria, objetos afetivos e estruturas de ferro aparente, mas, dentro da proposta, tudo pintado à mão. Deu-se a transformação de um ateliê, o íntimo e infinito universo do artista sonhador, em um terreiro.

Os componentes também tinham as cores de suas roupas transformadas, começando a pintar o colorido de Heitor. Depois, uma enorme paleta surge com toda a iluminação, enquanto os componentes trocam de roupa mais uma vez, constituindo-se em ogãs. Nos buracos da paleta surgem tambores, e os ogãs tocam, com cada couro mudando de cor através da iluminação. No final, surge a coroa da Vila Isabel. Comissão bem conceituada e bem executada. Ótimo uso do elemento cenográfico, que se transformava diversas vezes. Bailado no chão excelente e proposta do enredo bem contada.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Em seu retorno à escola, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane representavam Oxum e Xangô, santos de cabeça de Heitor dos Prazeres e forças que guiaram a sua trajetória, conforme narrado por seus familiares. Simbolizavam, também, o encontro entre a Vila Isabel, pelo pavilhão desfraldado, e o homenageado, já que ambos os orixás têm fortes vínculos com a escola: Oxum, representada pela porta-bandeira Dandara, com saia adornada por espelhos (abebês) e pincéis; e Xangô, representado por Raphael, com elementos associados às divindades representadas, ressignificando-os a partir do diálogo com referências específicas ao universo temático de Heitor, daí o porquê da presença dos pincéis, que simbolicamente coloriram de ouro as penas e as estampas que compõem as vestes.

Em sua coreografia, a dupla começou desfraldando o pavilhão e fazendo mesuras e o cortejo do mestre-sala. Em seguida, Dandara começou a fazer os giros em um pequeno espaço de tempo, realizando quase 20 rodopios, finalizando com uma bandeirada. Enquanto isso, o mestre-sala fazia seus riscados, utilizando muito bem o espaço de apresentação. Depois, Raphael fez seu riscado virado para o júri. Em seguida, uma sequência de giros sincronizados dos dois e mais uma bandeirada de Dandara. E o plus: no refrão final, o passo afro de Raphael, dançando para os orixás. Apresentações irretocáveis nas cabines e sem intercorrências.
ENREDO
Leonardo Bora e Gabriel Haddad trouxeram para a Sapucaí a obra do multiartista Heitor dos Prazeres a partir do sonho. A proposta não foi trazer o sonho referindo-se a uma experiência do dormir, mas a um modo de fabular o mundo a partir da vida cotidiana, da festa, da fé e das experiências coletivas. Essa compreensão aproximou a obra de Heitor dos Prazeres da própria lógica das escolas de samba, entendidas como espaço de imaginação compartilhada, celebração da ancestralidade e afirmação da identidade negra. O desfile foi aberto com a infância de Heitor dos Prazeres entre os ranchos carnavalescos ligados às casas de Tia Ciata e Tio Hilário.

O brilho desses cortejos, observado ainda menino, antecipou o artista, o brincante e o sujeito do samba que ele se tornaria. O segundo setor mostrou Heitor sendo iniciado nos terreiros e passando a frequentar especialmente a casa de Tia Ciata, onde se torna ogã, responsável pelos tambores e pelo canto. Nesse espaço, diferentes manifestações culturais, cirandas, jongos, maracatus, cateretês, se encontraram, formando o caldo que daria origem ao samba. Em seguida, a escola mostrou a troca do piano pelo cavaquinho, que marca a afirmação de Heitor como sambista nos anos 1920. Entre a Festa da Penha, disputas de autoria e circulação pela cidade, ele foi se consolidando como compositor, músico e personagem central do universo do samba.

O setor apresentou também o modo de vida boêmio, a confecção e pintura dos próprios instrumentos, a noite carioca, os cabarés e as paixões que atravessam sua trajetória artística. Depois, a Vila colocou o homenageado se afirmando como compositor de carnaval, vencendo o concurso de Zé Espinguela em 1928 e convivendo com figuras como Paulo da Portela, Cartola e outros fundadores das primeiras escolas de samba. O último quadro do desfile apresentou Heitor como artista reconhecido além do samba: cenógrafo, figurinista, radialista, compositor de trilhas, participante da primeira Bienal de São Paulo e representante brasileiro no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. Nesse ponto, sua trajetória se cruzou com a da própria Vila Isabel. Em 1966, ambos chegaram ao Senegal levando seus filmes — Heitor dos Prazeres e Nossa Escola de Samba, registro do carnaval que levou a escola ao Grupo Especial. Enredo bem estruturado, com boa leitura, criativo e que conseguiu trazer para a Avenida, com justiça, a vida e a obra de um multiartista.
EVOLUÇÃO

A evolução da Vila foi quase perfeita. Com muita desenvoltura pela pista, a escola empreendeu um ritmo muito forte desde os primeiros minutos de animação, com muitos componentes pulando, mesmo com as fantasias com volumetria característica de Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Sem optar muito por alas coreografadas, mas fazendo um trabalho muito organizado na pista, a Vila só teve um senão neste desfile. Abriu buraco na pista no último setor, bem na frente do módulo, quando o quarto carro demorou a se movimentar e a ala bem à frente foi embora. Deve ser despontuada, mas foi o único módulo e a única questão encontrada neste quesito pela equipe do CARNAVALESCO, o que significa que, sendo em um módulo só, deve ser descartada. Nos outros módulos, nenhum problema foi encontrado.
HARMONIA

O carro de som comandado por Tinga, depois de estar um pouco mais abaixo nos últimos carnavais, aproveitou muito bem o samba tão festejado no pré-carnaval e teve uma atuação digna dos melhores tempos, mostrando que o intérprete e suas vozes de apoio são patrimônio do carnaval carioca. De forma bem clássica, o trabalho foi pautado na potência e na correção, sem muitas figuras; as vozes apenas aproveitaram para colocar o samba bem assentado. Tinga, a todo momento, convocava o componente e também o público a cantar a obra. Fizeram isso de forma excelente, dando protagonismo ao samba e aos componentes. E a comunidade cantou muito, o tempo todo. Excelência e potência no quesito.
SAMBA-ENREDO
A Vila Isabel trouxe para a Avenida o celebrado samba dos compositores André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho Cruz. A cabeça do samba é diferente, com notas mais retas, o que dá todo charme, lembrando as obras de Martinho da Vila e também sambas de roda, como no trecho “Macumba é samba e o samba é macumba / pode até fazer macumba / só não pode separar” e depois novamente no trecho posterior até “florescer”. Esse recurso deu charme à obra e lhe conferiu caráter único na safra.

No refrão principal, mestre Macaco Branco colocou toque para os orixás, com o ijexá para Oxum e o alá para Xangô, além de uma bossa de pegada afro na cabeça do samba. Também houve a bossa de tambor no refrão principal, que estimulava mostrar o canto do componente. Alto rendimento de um samba que foi festejado quando escolhido; depois, duvidaram no pré-carnaval, mas que fez uma apresentação de alto nível na Sapucaí. O andamento mais à frente não estragou a personalidade do samba; ao contrário, conferiu-lhe a energia que uma obra como o samba-enredo precisa ter para inflamar a Sapucaí.
FANTASIAS
O conjunto estético da Vila Isabel mostrou muito da característica de Bora e Haddad, sendo muito fiel imageticamente à característica intrínseca da Vila Isabel e também trazendo o colorido de Heitor. Todas as fantasias tinham muito da paleta de cores do artista, sem se tornar chato, monótono ou monocromático. Trabalho de alto nível da dupla, com marcas que já são deles, como criatividade nos figurinos e utilização de alas com dois tipos de vestimentas. A escola abriu o desfile com suas cores em azul e branco, com uma pitada de dourado nas alas “Pedaço Baiano” e “Novos Ranchos”. O segundo setor começou a trazer o colorido de Heitor, mas ainda abordando uma estética mais do início do século, passando por alas como “Cirandas” e “Cateretês”, e afro, com o uso de palha ao falar da iniciação do homenageado nos terreiros.

Fechando o setor em dourado, com velas nos chapéus, as baianas. O terceiro setor trouxe uma escola ainda mais colorida, colocando muito do azul e referências à música, como notas, claves e imagens de instrumentos. A ala “Samba que nem passarinho” trazia balões coloridos. O quarto setor trouxe estética clássica carnavalesca ao citar os sambas que Heitor ganhou, como a ala “Invenção de Bandeira”, que trazia pavilhões de escolas de samba, e a ala “Me Vesti de Baiana”, que trazia os antigos estandartes. Outra vez, um setor muito colorido. No último setor, as fantasias traziam algumas referências aos outros talentos, como vitrolas. E, mais para o final, referências mais afro ao retratar sua relação com a África. Daí voltam os tons de palha, como na ala “Sambas, Sambas, Macumbas”. O único ponto a ser citado foi a dificuldade de algumas baianas com chapéus que pareciam que iam sair, mas foram consertados pelos apoios de harmonia.
ALEGORIAS
O conjunto alegórico levado à Sapucaí por Gabriel Haddad e Leonardo Bora constituiu-se de cinco carros e três tripés. Muito característico da dupla, com muito volume de composições, mas também com estética que conseguia trazer Heitor, sua arte e a ancestralidade da Vila. Alguns pontos a serem citados foram um balaústre não muito bem encaixado no abre-alas, que não chegou a comprometer a alegoria. O abre-alas, aliás, representou um rancho, com a tradição carnavalesca, apresentando-se como o cenário que Heitor via quando criança, desfilando nos ranchos.

A alegoria tinha todo um trabalho artesanal que envolvia diferentes frentes de criação, como escultura, carpintaria, pintura e produção de joias cenográficas. Com efeitos de água e esculturas de muito apuro estético, nos tons da escola, mas bem assentado no dourado e no estilo barroco, foi um dos carros mais bonitos que passou pela Sapucaí nesta noite. O segundo carro constituiu-se em um terreiro que se expandia como metáfora da própria cidade: a cidade como grande terreiro, onde música, religiosidade e convivência se misturam. A alegoria, a partir dessa ideia, assumiu teor onírico, com a figura-síntese de um casal de pretos-velhos. A festa da macumba continuou no segundo andar do carro e se espalhava pelas laterais, onde se viam os orixás paramentados, além de macumbeiros cujas roupas, cores e formas eram inspiradas nos traços de Heitor. Composições vinham tocando tambores.
Na terceira alegoria, “A Festa da Penha”, local em que o homenageado se tornou um sambista reconhecido e aclamado, o carro ganhou contornos amenos e românticos, quase circenses, evocando o colorido das pinturas de Heitor que retratavam serenatas, feiras, saraus e rodas de samba. Na parte traseira, havia um botequim. Em cima, o retrato da Igreja da Penha e balões coloridos.

O quarto carro trouxe o perfume dos antigos carnavais por meio de um sonho nostálgico. A alegoria apresentou uma auto-homenagem, uma vez que se tratava da quadra da escola do bairro de Noel, no Boulevard 28 de Setembro, localizada em uma antiga estação de bondes. Na frente, o pulsante bonde da Vila e, na parte de trás, a presença do gigantesco pierrô, menção à mais conhecida das marchinhas de Heitor.
A última alegoria do desfile da Unidos de Vila Isabel celebrou o encontro de Heitor dos Prazeres, e da própria Vila, com as muitas Áfricas que coexistem no imenso território africano, algo possibilitado graças à ida de Heitor ao Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, realizado em Dakar, no Senegal. No carro, que fundiu a estética do quilombo e da favela, havia uma escultura que segura lanças-pincéis, representando a altivez de Heitor, artista e ativista à frente de seu tempo, uma adaptação carnavalesca dos bustos de bronze e terracota iorubanos, originários de Ifé, na Nigéria. Tapeçarias bakuba e referências a diferentes nações africanas vieram na parte frontal do carro, compondo uma visão majestosa. Na parte superior, o símbolo do festival se fundiu aos pensadores angolanos, imagem utilizada no antológico Kizomba. Referências à Kizomba.
OUTROS DESTAQUES
A “Swingueira de Noel”, de mestre Macaco Branco, veio de “Pintores”, com pintura artesanal na fantasia e com os chapéus de cores diferentes, e a rainha Sabrina Sato representou as tintas que dão cores aos sonhos pintados por Heitor dos Prazeres. A ala de passistas veio com a fantasia “Jogo e Sedução”, representando de forma boêmia o bairro de Noel Rosa e da própria escola, no universo frequentado e retratado por Heitor dos Prazeres.

No esquenta da Vila, Tinga cantou “Zé do Caroço” e o samba de exaltação “Sou da Vila Não Tem Jeito”. As baianas representavam, por um lado, a fusão de referências culturais que transformaram os pandeiros em símbolo de brasilidade; e, por outro, a relação de Heitor dos Prazeres, o ogã Alabê-Nilu, com o matriarcado dos terreiros. Martinho da Vila veio mais uma vez no início da escola, no Pede Passagem, “Assentando o Fundamento”.
Acadêmicos do Salgueiro abre desfile com navio-biblioteca e transforma legado de Rosa Magalhães em espetáculo visual
Um navio feito de livros, memórias e personagens conduziu a homenagem à carnavalesca Rosa Magalhães e transformou o abre-alas em uma poesia à imaginação
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
O Salgueiro iniciou seu desfile com impacto imediato. O abre-alas surgiu na Avenida como um grande navio-biblioteca, reunindo livros monumentais, esculturas exuberantes, personagens fantásticos e símbolos náuticos em uma composição que sintetizou o universo criativo de Rosa Magalhães. Antes mesmo de qualquer explicação, o carro já comunicava ao público que aquela viagem começava na leitura, na pesquisa e na imaginação, as marcas centrais da trajetória da carnavalesca homenageada.

A alegoria se impôs pela grandiosidade. No primeiro chassi, estantes e volumes gigantes dividiam espaço com bússolas, âncoras, esferas e criaturas marinhas. A imagem da embarcação construída a partir de livros traduziu a ideia de que cada enredo criado por Rosa partia de mergulhos profundos em referências históricas, literárias e culturais. O segundo chassi ampliou essa narrativa ao fazer personagens “saltarem” das páginas: figuras híbridas, seres fantásticos, elementos barrocos e ícones populares surgiram como se ganhassem vida diante do público.

O excesso era proposital. Candelabros, douramentos, texturas e sobreposições criaram um labirinto visual que remetia ao estilo marcante da artista. Nada parecia aleatório. Cada detalhe dialogava com desfiles passados, com imagens que marcaram época e com o traço inconfundível da professora que transformou pesquisa em espetáculo. A ideia central estava clara: a biblioteca não era apenas cenário, mas o cérebro criativo que conduziu décadas de Carnaval.

Advogada de 27 anos e componente do Salgueiro há mais de uma década, Juliane Paes desfilou no abre-alas e se emocionou ao falar sobre a potência simbólica do carro. Para ela, o impacto não estava em um elemento isolado, mas na construção como um todo.
“Eu acho que é o conjunto que mais impressiona. A riqueza de detalhes da biblioteca, dos livros, do navio… tudo isso resume de forma muito bonita a história da Rosa Magalhães, que é a grande homenageada da escola. O Salgueiro mostrou que preza pela cultura, porque cada carro está muito rico, muito pensado. Você olha e percebe a mistura de referências, os elementos simbólicos, tudo dialogando. O carro fala por si. Antes mesmo de qualquer explicação, você entende que está ali o universo criativo dela. A imagem consegue contar essa história sozinha. É emocionante fazer parte disso”, contou a advogada enquanto se emocionava.

Quem também viveu uma noite especial foi o ator e diretor Gilberto Gawronski, que desfilou pela primeira vez na escola motivado pela homenagem à antiga professora e amiga. Integrando o abre-alas, ele destacou o peso afetivo daquele momento.
“Eu vim para o Salgueiro por causa dessa homenagem. A Rosa foi minha professora, foi minha colega de trabalho e se tornou uma grande amiga. Estar nesse cortejo é uma alegria imensa. É uma forma de agradecer tudo o que ela representou para tantos alunos.”
Ao representar simbolicamente o pensamento e a imaginação da carnavalesca na abertura do desfile, ele ampliou o significado da homenagem.
“Estar nesse carro é também celebrar o legado que ela deixou na formação de tantas pessoas. A Rosa foi uma grande mestre. A gente fala muito de Carnaval, mas fala também de educação, de generosidade, de partilha de conhecimento. Eu me sinto privilegiado por ter sido aluno dela e espero estar à altura dessa homenagem”, revelou o ator.

A criadora de conteúdo Manuela William, de 31 anos, estreou na escola a convite do Salgueiro e destacou a força visual da alegoria logo na concentração.
“Eu me senti muito honrada por começar minha trajetória aqui em uma escola desse tamanho, que me acolheu tão bem. E o abre-alas é impressionante. O que mais me marcou foi ver o livro se abrindo e os personagens surgindo dali: o navio, as sereias, os candelabros. É como se a gente estivesse vendo as ideias dela ganhando vida na nossa frente”, citou a convidada.

Ao transformar livros em embarcação e memória em espetáculo, o Salgueiro apresentou mais do que uma alegoria de abertura. Apresentou a origem de um método criativo que ajudou a moldar o Carnaval moderno. E fez isso da forma mais salgueirense possível: com grandiosidade, emoção e respeito à professora que ensinou que toda grande viagem começa na imaginação.
Paraíso do Tuiuti mostra potência cênica e musical, mas perde rendimento após falha em alegoria
Com o enredo “Lonã Ifá Lucumí”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, o Paraíso do Tuiuti apresentou um desfile de forte densidade simbólica na Marquês de Sapucaí. Apostando na tradição iorubá que perseverou em Cuba, na cosmogonia iorubá, na diáspora e na permanência da nação Lucumí nas Américas, a escola combinou teatralidade na comissão de frente, africanidade marcante nas fantasias e potência musical conduzida pelo intérprete Pixulé e pela bateria de mestre Marcão. A rainha Mayara Lima foi um dos pontos altos da noite. Ainda assim, falhas mecânicas em alegorias e um buraco expressivo na evolução interferiram diretamente no rendimento da apresentação.

* LEIA AQUI: Ala 4 do Paraíso do Tuiuti transforma intercâmbio cultural em espetáculo popular
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por David Lima, a comissão investiu em teatralidade e impacto visual. Um tripé de grandes proporções abriu espaço para um corpo de bailarinos numeroso, com figurino escuro, compondo uma cena ritualística marcada pela presença simbólica dos Orixás e por efeitos de fumaça que reforçaram a atmosfera mística do enredo. A proposta foi grandiosa e coerente com a narrativa espiritual, mas a iluminação mais escura prejudicou a leitura em alguns momentos. A concepção cênica ficou confusa em trechos específicos, diluindo parte da força dramática que a coreografia propunha.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Vestidos em trajes brancos, Vinícius Antunes e Rebeca Tito iniciaram a apresentação com elegância e forte sincronia. O bailado foi clássico, seguro e bem marcado, demonstrando entrosamento e serenidade na condução do pavilhão. No módulo 1 de julgamento, Rebeca acabou enrolando a bandeira. Após o contratempo, o casal manteve firmeza, postura altiva e domínio técnico, concluindo a estreia com desempenho consistente e promissor nos módulos seguintes.

HARMONIA E SAMBA
O desfile começou pulsante, com os primeiros setores cantando com vigor, porém houve momentos de queda no canto da comunidade no decorrer da apresentação. A potência vocal emocionante de Pixulé conduziu o samba com firmeza e entrega, chamando a comunidade para ir junto e sustentando a narrativa musical com intensidade e controle. A bateria de mestre Marcão apresentou cadência precisa, com bossa bem executada e efeito de luz cênica, criando um momento de impacto visual e sonoro. A caracterização dialogou com o enredo e reforçou a identidade do conjunto rítmico. As alas desfilaram bem espaçadas, favorecendo a leitura estética. No entanto, houve desalinhamento de alas no setor 3 e momentos de queda no canto, o que comprometeu a uniformidade da harmonia.
* LEIA AQUI: Sob as cores de Eleguá, Tuiuti pede caminhos abertos na Sapucaí

EVOLUÇÃO
O Tuiuti iniciou o desfile com andamento fluido e ocupação equilibrada da pista. A escola parecia segura no ritmo e na organização dos setores até a metade do percurso. O principal problema ocorreu na altura da cabine espelhada, antes do carro da pirâmide, quando uma falha no mecanismo gerou um buraco grande e duradouro. A interrupção quebrou o fluxo da apresentação e impactou diretamente a leitura da evolução.

ALEGORIAS E FANTASIAS
A escola apresentou diversidade de desenhos, colorido vibrante e forte presença de elementos ligados à africanidade e à latino-americanidade. As alegorias eram imponentes e apostaram em volumetrias distintas, com bonecos e tripés, especialmente no setor 5, reforçando a narrativa visual. Entretanto, falhas técnicas ficaram evidentes. No abre-alas, um refletor apagado no lado direito do terceiro chassi comprometeu a iluminação. No quarto carro, o primeiro coqueiro de palha apareceu parcialmente desencaixado. Já no carro 2, a pirâmide giratória apresentou problema: o pano enrolou durante o movimento, deixando um buraco visível na estrutura. Esses incidentes afetaram a continuidade estética do conjunto.

OUTROS DESTAQUES
A rainha de bateria Mayara Lima foi um dos grandes momentos do desfile. Representando os ikins de Orunmilá, ela desfilou com imponência e energia à frente de uma bateria caracterizada como babalaôs, acompanhada por ogãs. Sua performance uniu simbologia e samba no pé, conquistando forte reação do público. A ala de passistas também se destacou pelo carisma e pela técnica, mantendo o samba firme e ajudando a sustentar a vibração da escola.

Vila Isabel transforma bateria em ateliê de Heitor dos Prazeres
Para entrar na Sapucaí, a bateria “Swingueira de Noel” da Vila Isabel incorporou o homenageado do enredo e afinou os instrumentos como quem prepara os pincéis antes de pintar um quadro. Pintor, compositor e sambista, Heitor dos Prazeres teve sua multifacetada trajetória traduzida nos figurinos de “sambistas pintores”.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Em entrevista ao CARNAVALESCO, ritmistas da Vila Isabel falaram sobre a relação entre música e cor, a diversidade que sustenta a formação das baterias, o legado ancestral dos tambores ligados aos terreiros e o sonho coletivo de emocionar o público na Marquês de Sapucaí.

O motorista Renan Gohan, 37 anos, tocador de tarol, explicou como funciona essa relação entre som e cores na “Swingueira de Noel”.
“As cores se completam, e quando se combinam, formam imagens muito bonitas. Na bateria é a mesma coisa. Os instrumentos se completam, um faz uma coisa, o outro faz outra, e depois vem o impacto de tudo junto. Daí saem as bossas, os arranjos, e uma coisa combina com a outra de um jeito bem interessante”, comparou ele.
Não são apenas cores, no sentido figurado, que se misturam quando se fala das baterias de escolas de samba. A ala também reúne pessoas de origens, histórias e identidades diversas, além de carregar o legado dos tambores dos terreiros que originaram o samba. Renan explicou como essa diversidade apareceu dentro do ritmo.
“A essência da bateria é justamente a diversidade e a união dos povos. Lá nos primórdios, na Pequena África, as pessoas se reuniam como forma de diversão, e daí nasceu a nossa cultura. É muito importante manter essa diversidade, não só com o nosso povo, mas também com estrangeiros que vêm, amam e respeitam a nossa cultura. Sustentar esse legado é fundamental. Eu me sinto feliz e honrado em fazer parte dessa ancestralidade do samba. Por isso é tão importante o trabalho das escolinhas de bateria, para passar isso de geração em geração”, afirmou.

O ritmista Feijão Bombeiro, 50 anos, tocador de tarol, falou sobre o sentimento que mais buscou transmitir na avenida.
“Pintamos leveza e felicidade. É um trabalho árduo o ano inteiro, por isso, é essencial chegar aqui, se divertir e passar essa alegria para a arquibancada. Pintamos a emoção de muita gente. As pessoas saem da realidade para viver esse mundo do faz de conta no carnaval. Nós estamos pintando alegria”, afirmou ele, empolgado para entrar na Marquês de Sapucaí.
Se Heitor sonhava ao pintar, os ritmistas da Vila sonham ao tocar seus instrumentos. Para o ritmista Feijão Bombeiro, tocador de tarol, de 50 anos, o maior sonho de um sambista é alegrar o público.
No enredo marcado pela dimensão dos sonhos, frequentemente representados por cores e sons, Feijão afirmou que o maior desejo do ritmista é simples: emocionar o público.
“O sonho do ritmista é levar alegria para o nosso povo, que sofre tanto no dia a dia. Pintamos leveza, felicidade e a emoção de muita gente. É um trabalho árduo o ano inteiro, por isso, é essencial chegar aqui, se divertir e passar essa alegria para a arquibancada. As pessoas saem da sua realidade para viver esse mundo do faz de conta no carnaval. Nós estamos pintando alegria”, afirmou ele, empolgado para cruzar a passarela.
Responsável por comandar esse grande ateliê sonoro da Vila, Mestre Macaco Branco comentou sobre como sua bateria irá a sinestesia da trajetória de Heitor dos Prazeres para a Sapucaí.
“A bateria vai fazer uma aquarela na avenida, trazer essa emoção que o Heitor tinha quando pintava seus quadros, escrevia suas músicas e tocava seu atabaque. Para a gente, é um prazer imenso poder falar de Heitor dos Prazeres e transformar sua história em ritmo”, destacou o líder, confiante na missão que lhe foi dada.
Matriarcas do Mangue: Baianas da Grande Rio reverenciam lavadeiras do Beberibe na Sapucaí
À frente do carro que evocava as margens do Rio Beberibe, a Ala das Baianas da Acadêmicos do Grande Rio transformou a Sapucaí em extensão simbólica de Peixinhos. Representando “As lavadeiras do Beberibe”, as componentes deram corpo e voz às matriarcas que sustentam comunidades inteiras à beira d’água. Com trouxas de roupa, bacias, redes de pescador, folhas e flor de bananeira compondo a fantasia, elas entoaram o samba-enredo “A Nação do Mangue” como quem canta à beira do rio, misturando devoção, memória e resistência.

FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Ao CARNAVALESCO, componentes da ala destacaram que a conexão entre as lavadeiras e as baianas vai além da fantasia utilizada por elas durante o desfile. “Vejo muita semelhança, ambas são guerreiras e conseguem ludibriar o dia a dia”, afirmou Elizabeth Avellar, de 66 anos. Ela completou ainda dizendo que: “A sabedoria e o conhecimento que podemos passar para as novas gerações são enormes”.

FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
Já Rosaria Linhares, manicure, de 67 anos, falou sobre o jeitinho de dar conta de tudo e contou sua experiência na Avenida: “Baiana sempre tem seu jeito de lavar uma roupinha, criar os filhos, cuidar da casa, somos um pouquinho de tudo. A nossa experiência é grande, tenho 17 anos como Baiana e aprendi com muitas outras que vieram antes de mim e tem muitos anos de casa”.

FOTO: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO
O acolhimento com a nova geração e a similaridade entre Baianas e Lavadeiras foi unanimidade entre as componentes, a emoção tomou conta de algumas ao relembrarem suas trajetórias e expressar como o samba é também um lugar de escape e calmaria em meio aos problemas cotidianos.
“Esse é um lugar onde muitas usam como escape em meio aos problemas que tem em suas casas, mas não deixam o seu lado mulher de lado, mesmo com a correria, assim como em toda profissão. Eu sempre procuro me cercar das mais experientes como, elas têm muita sabedoria para passar para gente”, concluiu Fabiana de Paula, 44 anos, diarista.

