Com uma belíssima homenagem para Rosa Magalhães, o Salgueiro encerrou a última noote de desfiles do Grupo Especial. O carnavalesco Jorge Silveira trouxe para avenida Jorge Silveira trouxe para Sapucaí um conjunto estético de muito bom gosto e de muita qualidade de acabamento e de luxuosidade nos materiais. Tudo do jeito que a ‘Mestra’ merece.
Sidclei e Marcella mais uma vez darem uma aula no quesito de mestre-sala e porta-bandeira. Eles trouxeram à cena lembranças da marcante passagem solo de Rosa Magalhães pela Academia do Samba, entre 1990 e 1991, representando a própria corte da agremiação, evocando os contornos medievais do enredo.
“É uma satisfação imensa por todas as noites sem dormir, das coisas que tive que abdicar com a minha família. É gratificante quando você consegue colocar em prática tudo o que trabalhou. Eu me cobro muito e ano que vem vou treinar o dobro”, disse Sidclei em entrevista ao CARNAVALESCO.
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
Ao fim do desfile, o presidente André Vaz fez questão de falar do belíssimo desfile plástico do Salgueiro e comentou sobre a nota oficial lançada pela escola para a Liesa.
“Foi emocionante. Falar de Rosa Magalhães, fechar o carnaval e tudo deu certo. A escola veio com carros lindos, fantasias luxuosas, segmentos com sangue nos olhos, comunidade cantando e colocando o Salgueiro na briga pelo título. Sobre a nota oficial, foi de agradecimento. Confiamos totalmente na diretoria da Liesa, estamos com o Gabriel. Quando eu assumi o Salgueiro, o repasse financeiro era de R$5,8 milhões, hoje é R$14 milhões. Dessa forma, temos que dar parabéns para o Gabriel todo dia por trazer tantos recursos para as escolas brincarem o carnaval”, declarou.
A Acadêmicos do Grande Rio levou à Marquês de Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”, do carnavalesco Antônio Gonzaga, de densidade política e potência simbólica, ao transformar o mangue em metáfora de origem, resistência e revolução cultural.
A evolução transcorreu sem grandes atropelos ou buracos visíveis e agradou o diretor Thiago Monteiro.
“Estou muito feliz e satisfeito. De dentro nós não temos a real noção, mas acredito que a nação do mangue veio para avenida com tudo. Na minha ótica, fizemos um desfile tranquilo, técnico e sabendo tudo o que queríamos. Carnaval é matemática, planejamento, organização e a Grande Rio, mais uma vez, se consolida como uma padrão de desfile”, declarou em entrevista ao CARNAVALESCO.
O samba foi sustentado com força pelo intérprete Evandro Malandro, que conduziu a obra com potência vocal e segurança, características que já marcam sua trajetória.
“Foi emocionante. O amor a camisa, o amor a Grande Rio e a Caxias tomou conta da Sapucaí. Acho que todo mundo abraçou a escola”, disse.
A bateria de Mestre Fafá executou um trabalho consistente, com bossas bem distribuídas que evitaram a monotonia rítmica. O andamento se manteve firme.
“Acho que duvidaram muito da Grande Rio, do samba, do Antônio que é um gênio e a escola fez um desfile incrível. Espero que a apresentação da bateria venha nos coroar com nota máxima”, declara.
Com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, a Vila Isabel entrou na avenida com uma das favoritas ao título e confirmou o status.
Coreografada por Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão traduziu poeticamente o argumento central do enredo, que é a mistura entre samba e macumba, sob os olhos encantados de Heitor dos Prazeres.
“O dia do desfile é sempre muito imprevisível, mas é muito bom quando tudo dá certo como deu. Estava todo mundo torcendo e jogando junto. Uma homenagem linda e justíssima para Heitor dos Prazeres”, disse a dupla em entrevista ao CARNAVALESCO.
Em seu retorno à escola, Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane representavam Oxum e Xangô, santos de cabeça de Heitor dos Prazeres e forças que guiaram a sua trajetória, conforme narrado por seus familiares.
“Foi um desfile mágico. Tudo o que a gente sonhou e planejou conseguimos colocar em prática”, disse Raphael.
“Foi um desfile do coração, da preparação, da maturidade. Nos nossos sonhos a gente queria chegar em momentos como esse e podemos vivê-lo”, complementou Dandara.
A Vila Isabel trouxe para a Avenida o celebrado samba dos compositores André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho Cruz.
No refrão principal, mestre Macaco Branco colocou toque para os orixás, com o ijexá para Oxum e o alá para Xangô, além de uma bossa de pegada afro na cabeça do samba. Também houve a bossa de tambor no refrão principal, que estimulava mostrar o canto do componente.
“Foi a entrega da nossa monografia. A gente apresentou esse projeto em homenagem a Heitor dos Prazeres e tenho certeza que os jurados vão aprovar esse trabalho”, disse Macaco Branco.
Com o enredo “Lonã Ifá Lucumí”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, o Paraíso do Tuiuti abriu a última noite de desfiles do Grupo Especial. Com um dos melhores sambas do ano e Pixulé dando um show no microfone, a escola conseguiu trazer o público e ter seu samba cantado durante todo o tempo.
“A sensação é de dever cumprido. Tudo o que eu queria fazer, eu fiz. Queria emocionar toda a Sapucaí e consegui. Para minha surpresa, todo o público cantou com a gente. Fiquei surpreso e emocionado. Não sendo prepotente, mas acho que o público estava esperando o Pixulé e eu acho que não decepcionei”, declarou Pixulé em entrevista ao CARNAVALESCO.
Coreografada por David Lima, a comissão investiu em teatralidade e impacto visual. Após o desfile, o coreógrafo se mostrou satisfeito com o trabalho.
“O Paraíso do Tuiuti é incrível. Eu não consigo apontar uma coisa que ensaiamos e deixamos de fazer. Ver essa avenida cantando e interagindo com a gente a cada movimento foi lindo”, disse.
Juntamente com Pixulé, a bateria era um dos segmentos mais aguardados e que fizeram o público vibrar. A rainha de bateria Mayara Lima foi um dos grandes momentos do desfile. Representando os ikins de Orunmilá, ela desfilou com imponência e energia à frente de uma bateria caracterizada como babalaôs, acompanhada por ogãs. Sua performance uniu simbologia e samba no pé, conquistando forte reação do público. A sintonia com a bateria comandada por Mestre Marcão é algo de ser tirar o chapéu.
“Foi um trabalho árduo, de muito ensaio e conseguimos o nosso objetivo. Só tenho que agradecer a confiança da diretoria e dos ritmistas”, declarou.
A segunda noite de desfiles do Grupo Especial reuniu rock, ancestralidade, celebração ao samba e literatura na Marquês de Sapucaí, com apresentações de Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Viradouro e Unidos da Tijuca. Em enredos que homenagearam Rita Lee, o Bembé do Mercado, o mestre de bateria Ciça e a escritora Carolina Maria de Jesus, as escolas transformaram a avenida em um mosaico de memória, resistência e emoção, mantendo aberta a disputa pelo título.
Entre arquibancadas cheias e reação intensa do público, o CARNAVALESCO ouviu torcedores, que destacaram a força das homenagens, o impacto visual dos desfiles e o equilíbrio técnico da noite, indicando um julgamento ainda imprevisível.
Mocidade Independente de Padre Miguel
A primeira escola a passar pela Marquês de Sapucaí apostou em um enredo homenageando a cantora Rita Lee, seu desfile misturou rock com samba, mostrou a essência da Vila Vintém e o legado da homenageada, abordando suas canções famosas, as lutas que defendeu e sua estética rock-star.
Samuel dos Santos assistiu aos desfiles na Marquês de Sapucaí pela primeira vez. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O concurseiro, Samuel dos Santos, esteve pela primeira vez no Sambódromo e se surpreendeu com o desfile da Mocidade. Segundo ele, a agremiação superou suas expectativas, pois imaginava que seria bom, mas na verdade, na sua percepção, foi magnífico.
“A comunidade chamou muita atenção, mas nos carros alegóricos deste ano, eles tiraram muita onda”, declarou Samuel.
Juliane Ribeiro, 28 anos, fico emocionada com o desfile da Mocidade. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Juliane Ribeiro, recepcionista de 28 anos, assistiu ao desfile no primeiro setor e se sentiu muito emocionada com a homenagem, sobretudo, por ter um amor pela agremiação.
“Eu achei lindo o carro dos cachorrinhos, porque ela era uma defensora dos animais e isso é uma causa muito importante, achei fantástico”, disse Juliane.
Beija-Flor de Nilópolis
Segunda escola a se apresentar, a Beija-Flor levou para a Avenida o enredo “Bembé”, que exaltou o Bembé do Mercado, maior celebração pública de candomblé do mundo, realizada em Santo Amaro, na Bahia. O desfile destacou a ancestralidade, a resistência cultural e a ocupação do espaço público pelo povo preto, em uma apresentação marcada pela força simbólica e pelo apuro técnico característico da azul e branca de Nilópolis.
João Pedro da Silva, 17 anos, torcedor da Mocidade. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
João Pedro da Silva, 17 anos, torcedor da Mocidade, acompanhou atentamente a passagem da atual campeã e fez elogios à apresentação. Segundo ele, a Beija-Flor manteve o alto nível que o público já espera da escola. “Muito lindo, excelente. A Beija-Flor é sempre muito forte, muito correta. Não à toa é a atual campeã. Fez um desfile muito correto e muito técnico, como já era de se esperar”, afirmou.
Sobre o samba-enredo, o jovem destacou a popularidade e a força da obra. “Não é por acaso que esse samba é o mais executado das plataformas digitais. O samba é potente e empolga. Além de tudo é fácil de cantar, e eu acho que passou muito bem aqui hoje”, declarou. Para ele, a escola está na briga. “É claro que ainda tem as outras, e no carnaval tudo pode acontecer. Mas a Beija-Flor, sem dúvidas, fez um desfile para brigar pelo título”, concluiu.
Lenusa Almeida, 42 anos, mergulhadora. Foto Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A mergulhadora Lenusa Almeida Couto, 42 anos, que tem a Unidos do Viradouro como escola de coração, fez questão de chegar cedo ao Sambódromo para assistir à apresentação da azul e branca de Nilópolis. Ela se encantou com o conjunto visual da escola. “Eu achei um desfile maravilhoso, visualmente foi um espetáculo muito bonito de se ver”, disse.
Apesar dos elogios, Lenusa apontou uma pequena ressalva no desempenho musical. “Eu achei que a bateria estava um pouco fraca hoje, mas, tirando esse detalhe, todo o restante do desfile estava maravilhoso”, avaliou. Ainda assim, acredita no potencial da agremiação. “Sim, com certeza. A escola tem muita chance de vencer, o conjunto da obra permite que eles sonhem com esse título”, afirmou.
Acadêmicos do Viradouro
Viradouro homenageou seu ilustre componente, Mestre Ciça, personagem que há anos vivencia a trajetória da agremiação. O desfile foi uma celebração aos 70 anos de vida do mestre e de sua trajetória dentro do carnaval, destacando sua relevância no samba e trabalho na bateria “Furacão Vermelho e Branco”.
Michele Jacinto. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Michele Jacinto, pedagoga de 48 anos, veio de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, para prestigiar o maior espetáculo da Terra. Michele se encantou com o desfile, sobretudo, com a bateria da Viradouro.
“Eu amei o desfile da Viradouro, embora eu torça para uma coirmã, até a data de hoje, eu daria o título para a Viradouro, porque foi um show à parte. A batera foi a cereja do bolo, um diferencial, muita ousadia. O mestre Ciça e toda a escola estão de parabéns”, destacou Michele.
Alcione Rosa. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Alcione Rosa, atendente de telemarketing, de 43 anos, assistiu ao desfile da agremiação e também se encantou com a bateria de Mestre Ciça, porém, percebeu um obstáculo que a agremiação enfrentou.
“Eles foram muito bons, porém, eu acho que foram prejudicados pelo último carro, que tava quebrando um pouco do lado. Mas estava tudo maravilhoso, eles arrasaram muito na avenida”, declarou Alcione.
Unidos da Tijuca
A Unidos da Tijuca fechou a noite com o enredo em homenagem à escritora Maria Carolina de Jesus, trazendo temas como desigualdade, resistência e potência feminina. A escola apostou em uma narrativa sensível e impactante para contar a trajetória da autora que deu voz às periferias do Brasil.
Jessica Borja. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Jessica Borja, 26 anos, cabeleireira e torcedora da Mangueira, acompanhou o desfile da azul e amarela do Borel e se emocionou com a proposta apresentada.
Sobre a apresentação, Jessica avaliou de forma positiva.
“Eu achei um desfile muito emocionante. A Unidos da Tijuca conseguiu contar a história da Maria Carolina de Jesus com muita delicadeza, mas também com muita força. Foi um desfile que fez a gente pensar e sentir ao mesmo tempo”, afirmou.
Em relação ao samba-enredo, ela destacou a conexão com o público.
“O samba era forte, tinha uma letra muito bonita e consciente. Não era só um samba para cantar, mas um samba para prestar atenção na mensagem. E mesmo assim era envolvente, a arquibancada cantou junto”, disse.
Questionada se a escola pode brigar pelo título, Jessica ponderou.
“O carnaval é sempre imprevisível, mas a Tijuca fez um desfile muito consistente. Se os jurados valorizarem o enredo e a emoção que eles passaram, tem, sim, chance de estar entre as primeiras”, concluiu.
Carolina Alves. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Já Carolina Alves, 44 anos, socióloga e torcedora da Portela, analisou o desfile com um olhar mais técnico e social. Para ela, a escolha do enredo foi potente e necessária.
“A homenagem à Maria Carolina de Jesus foi extremamente relevante. Ela é uma das maiores vozes da literatura no Brasil, e trazer essa história para a avenida é um ato político e cultural muito importante”, afirmou.
Sobre o desempenho musical da escola, Carolina elogiou a coerência entre samba e narrativa.
“O samba estava muito alinhado com a proposta do enredo. A letra dialogava com a trajetória da escritora, e a bateria sustentou bem a emoção que o desfile pedia. Foi uma apresentação coesa”, declarou.
Quanto às chances de título, a socióloga acredita que a escola entra na disputa.
“É um desfile que une conteúdo e estética. Se o julgamento reconhecer essa construção e a relevância do tema, a Unidos da Tijuca pode até sonhar com o campeonato”, concluiu.
Título em aberto
Com propostas distintas e identidades bem marcadas, Mocidade, Viradouro, Beija-Flor e Unidos da Tijuca encerraram a noite mostrando que o Grupo Especial segue equilibrado e competitivo. Entre homenagens emocionantes, exaltação à ancestralidade e desfiles tecnicamente consistentes, as quatro escolas apresentaram boas credenciais para figurar nas primeiras colocações, deixando a disputa pelo título completamente em aberto.
Encerrando a noite dos desfiles, o Salgueiro apresentou um conjunto estético de muita qualidade. Pode-se dizer que o aluno aprendeu com a professora. Jorge Silveira trouxe para Sapucaí um conjunto estético de muito bom gosto e de muita qualidade de acabamento e de luxuosidade nos materiais. Visual de Rosa mesmo. Com canto potente, escola conseguiu bom rendimento do samba e viu Sidclei e Marcella mais uma vez darem uma aula no quesito de mestre-sala e porta-bandeira . Com evolução quase perfeita, buraco no primeiro setor deve virar nota descartada. Já a comissão foi criativa e trouxe diversos temas que Rosa levou para a Sapucaí. Homenagem justíssima a professora!
Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO
Com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau“ , o Salgueiro encerrou os desfiles do Grupo Especial com o tempo de 76 minutos.
COMISSÃO DE FRENTE
Concebida e coreografada por Paulo Pinna, a comissão do Salgueiro buscou reencontrar aquele mesmo sentimento inaugural de encantamento que Rosa imprimiu em suas aberturas. A comissão partiu de um gesto essencial, ligado ao método criativo da artista: o ato de ler e toda sua inspiração que vieram dos livros. Na apresentação, anjinhos com estética barroca vinham à frente de cinco elementos perfilados como grandes livros em uma biblioteca que formavam a palavra rosa. Desses elementos saiam diversas referências dos enredos e comissões que Rosa levou para a Sapucaí com o coreógrafo Fábio de Mello. Os anjinhos puxavam esses livros e de lá saíram a cabeça do cisne, e os livros perfilados formavam o corpo do bicho.
Depois subia uma bandeira de pirata e os livros formavam um navio com um personagem vestido de pirata em cima. Depois os livros são movimentados e começam a se abrir revelando em imagens com relevo de elementos bem brasileiros presentes nos enredos da Rosa como onça, tucano e arara. No final os anjinhos voltam e relembram a comissão dos leques de 1994, no enredo de Catarina de Médices. Bom trabalho de Paulo Pinna, leve, engraçado, mesmo sem um clímax, a comissão apresentou bem o enredo e trouxe vários pequenos artifícios que divertiam. O único ponto a se colocar foi alguma dificuldade nos módulos para a cabeça do cisne sair. Havia uma pequena demora.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Um dos casais mais tradicionais do carnaval carioca, Sidclei Santos e Marcella Alves, trouxeram à cena lembranças da marcante passagem solo de Rosa Magalhães pela Academia do Samba, entre 1990 e 1991, representando a própria corte da agremiação, evocando os contornos medievais do enredo. O casal fez mais uma apresentação arrebatadora na Sapucaí.
Já na entrada da apresentação do módulo, Marcella simplesmente deu 18 giros de bandeira sem parar, inclusive, se deslocando pela pista e usando bem o espaço. Em seguida, a dupla girou junta e desfraldou o pavilhão para o júri. Na sequência, a dupla mostrou muita intensidade, inclusive no momento em que a porta-bandeira muda de sentido. E o pavilhão sempre totalmente desfraldado. Coreografia de alta dificuldade, executada com muita perfeição. Bailado clássico pautado na defesa do pavilhão com muita sincronia o tempo todo.
ENREDO
“A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau” saudou o legado da professora trazendo além do saudosismo para os salgueirenses e sambistas em geral, o reverencionamento da memória pública, através do acervo de desenhos que Rosa doou para a Universo do Estado do Rio de Janeiro que foram base para o trabalho de pesquisa do desfile. O Salgueiro abriu o desfile entrando na biblioteca da Rosa, convidando o público a reencontrar a memória afetiva dos seus carnavais.
Em seguida, veio o universo literário, com enfoque especial na literatura infantil, que ela muito bem representou. O terceiro setor apresentou uma Rosa viajante, mostrando como viajamos pelo mundo sem sair do lugar com seus enredos. Em seguida, a escola trouxe Rosa nos ensinando a amar o Brasil por meio da natureza. O penúltimo setor mostrou o amor de Rosa pelos movimentos estéticos que pensaram a brasilidade. O Salgueiro encerrou convidando Rosa a retornar ao Acadêmicos do Salgueiro, numa grande festa em vermelho e branco, sendo recebida de volta à academia do samba onde nasceu artisticamente para o mundo. O enredo foi um passeio pela obra de Rosa, como proposto por Jorge desde o início. Com boa leitura, teve um desempenho satisfatório com um final criativo ao relacionar Rosa e a corte carnavalesca elevando a condição dela de professora para monarca do carnaval.
EVOLUÇÃO
O Salgueiro passou pela Sapucaí com muita fluidez em quase todo o seu desfile. Apenas na parte final do desfile, o último carro demorou a entrar e gerou um buraco que era visível apenas na primeira cabine de jurados o que deve fazer com que a escola não tome o 10 do jurado, mas sendo descartado. Mesmo com fantasias mais volumétricas a escola passou bem, pulando carnaval e não deixando ficar um desfile arrastado. Sem muita propensão para alas coreografadas, a comunidade do Andaraí mostrou muita espontaneidade e alegria. Desfile bem clássico.
HARMONIA
O carro de som da Academia comandado por Igor Sorriso trouxe uma novidade que já havia sido testada nos ensaios, a utilização de um violino a fim de produzir o clima mais clássico que fascinava a carnavalesca como nos bailes de Veneza. Com bom uso das vozes de apoio que imprimiram energia e volume no canto, Igor Sorriso ficou bastante a vontade para convocar a comunidade ao canto e para fazer algumas vocalizações, terças, tudo bem dentro da obra. Com uma voz mais propensa para atingir os agudos, Igor contou com a equipe para trabalhar com potência o canto mais reto. E o Salgueiro que enfrentou problemas com o som no segundo ensaio técnico na Sapucaí e mostrou força no canto da comunidade, repetiu o alto rendimento do treino. Em uma bossa, a bateria parava e ficava só o violino cantando com os componentes. A escola veio junto.
SAMBA-ENREDO
A obra que o Salgueiro escolheu para este carnaval tem como compositores Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Clairton Fonseca, Fabrício Sena, Deiny Leite, Felipe Sena, Ricardo Castanheira, JP Figueira, Deco, Marcelo Motta, Dudu Nobre, Julio Alves, Manolo, Daniel Paixão, Jonathan Tenório, Kadu Gomes, Zé Moraes, Jorge Arthur e Fadico. A obra teve um andamento mais para frente colocado pela “Furiosa” e pelo carro de som, o que permitiu alcançar um rendimento satisfatório na Sapucaí. Cresceu. E mesmo sem ser uma joia rara do grupo achou rendimento principalmente em dois momentos de muita força se constituindo dos dois refrãos, que pegaram a Sapucaí de forma despretensiosa. E o pré-refrão “Mestra , você me fez amar a festa” era um dos trechos mais cantados. Passou bem.
ALEGORIAS
O conjunto alegórico do Salgueiro era formado por 5 carros e 2 tripés. Formado por alegoria bem grandes, o apuro estético e a plástica foram dignos da professora. Todos com excelente acabamento, bom uso de cores e materiais, trazendo um ar nostálgico mas com soluções bem atuais. Jorge finalmente conseguiu mostrar muito da sua personalidade artística e de uma forma diferente do que ele apresenta em São Paulo. Trabalho muito bom. Com 70 metros de comprimento, ocupando todo o setor 1 da Sapucaí , o abre-alas do Salgueiro trouxe símbolos reconhecíveis como querubins, ornamentos rococós, misturas de estilos, personagens de carnavais, assinados por Rosa, realezas, com referências às escolas em que trabalhou (Vila Isabel, Imperatriz e Império Serrano), o universo lúdico infantil e a natureza brasileira.
A segunda alegoria trouxe o mundo do faz de conta se erguendo das páginas de autores do imaginário e da força das histórias que nunca cansam de ser contadas. Na alegoria, em formato de castelo de brinquedo, a parte da frente com um cisne e em cima bruxas estilizadas na estética infantil. O terceiro carro representou o percurso das viagens. O “Porto da Utopia” denominado pelo carnavalesco Jorge, se erguendo como síntese do imaginário, viajante de Rosa Magalhães. Na alegoria botes infláveis, gôndolas, canoas e embarcações de muitas nacionalidades . E até mesmo o jegue (1995), A quarta alegoria do Salgueiro trouxe o imperativo antropofágico que a mestra nos ensinou a pensar o Brasil, sempre recorrendo a artistas que enfrentaram a questão nacional de forma crítica e inventiva. São esses pensamentos que floresceram no carro nas formas selvagens, nos frutos tropicais e nas imagens da terra abundante. A presença indígena ocupou um lugar estruturante. Na frente, um grande bicho-papão, imagem-signo já presente na comissão de frente de 2002.A última alegoria representou a primeira casa carnavalesca da mestra, nos ventos da Revolução Salgueirense. Na alegoria, Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, mestres e enredos, surgiam fantasiados para coroar a homenageada como autêntica Rainha Momo, figura recorrente em sua obra e símbolo maior da folia que Rosa tanta vezes celebrou em seus carros e enredos. A alegoria se completou com as decorações de rua que marcaram diferentes momentos da história da festa, ornamentos criados por Arlindo, Pamplona e pela própria Rosa, com um Pierrot na parte de trás.
FANTASIAS
O ponto alto do desfile, as fantasias tiveram muito do padrão Rosa, mas muito mais do perfil Jorge. Volumetria, excelente acabamento, uso de materiais de alta qualidade e luxuoso. Estética primorosa e atualizada. Melhor trabalho de Jorge no Rio. O primeiro setor trouxe uma estética mais clássica, com fantasias criativa, figurinos em formato de livros de onde saíam os enredos de Rosa com a ala “ sou fidalgo, sou leitor”. O segundo setor iniciou com tons mais quentes, mantendo o dourado e uma estética mais medieval,visual que sempre mexeu muito com o coração da carnavalesca. Destaque para a ala “O bolo irreverente “ e as baianas de “ dama da corte’. O terceiro setor apresentou uma concepção de fantasias mais baseadas no universo infantil, fascinação de Rosa, com a paleta de cores encontrando tons mais claros. Destaque para a ala “ nobres no gelo” que trazia barba inclusive. O quarto setor do Salgueiro retomou o dourado e mostrou fantasias criativas como “ chegam Mouros e camelos” que traziam o animalzinho na parte da frente. Esse setor conseguiu manter uma unidade de cor mesmo retratando estéticas diferentes de culturas diversas, pois era o setor das culturas, viagens que Rosa contou na Avenida. E o quinto setor apostou nas cores mais tropicais ao tratar da propensão de Rosa a sempre trazer enredos bem brasileiros. Neste setor, maior preferência pelo verde a fim de retratar as matas em contraste com algumas cores cítricas reproduzindo o tropical. O encerramento do desfile trouxe o universo carnavalesco e a estética acompanhou com o uso de estampas de bolinhas e costeiros com pompons como na ala “Arlequins de Arlindo”. O vermelho e branco do Salgueiro também não faltou no conjunto estético das alas que compunham esse final de desfile. Primoroso o trabalho.
OUTROS DESTAQUES
Com 70 metros de comprimento, o carro abre-alas ocupou todo o setor 1 da Sapucaí. A “ Furiosa“ dos mestres Guilherme e Gustavo homenageou na fantasia o desfile de Rosa em 2003 na Imperatriz , vindo de “Piratas”, em referência quando a artista transformou esses aventureiros em personagens de sonho e delírio. Toda dourada, a rainha Viviane Araújo trouxe a fantasia “Cobiça de Ouro” lembrando os ambiciosos piratas e sua gana por ouro e pedras preciosas, com figurino também inspirado no desfile de 2003 da Rainha de Ramos. A beldade veio suspensa em uma proa de navio pirata à frente dps ritmistas. Já os passistas desfilaram com figurino fazendo referência ao desfile da União da Ilha de 2010, principalmente ao trecho “Quem é que não tem uma louca ilusão e um Quixote no seu coração?”, se tratando do casal literário na tradicional e elogiadíssima ala do Salgueiro. A ala das baianas “ Amiga do Rei” representou as damas da corte, personagem que com constância era retratada nos trabalhos da carnavalesca. No esquenta, Igor Sorriso cantou o refrão de alguns sambas históricos como “ Pega no Ganzá”, “ Água de cheiro” , “ Candaces”, “ Gaia”, “ Xangô “ , “ Malandro Batuqueiro” e, claro o “ Peguei um Ita no Norte”. O mascote Djalma Sabiá mexeu com as pessoas vindo antes da escola naquela “ ala” grande de camisa que não faz parte do desfile. No final, o arrastão do Salgueiro trouxe uma “ ala” gigante de foliões apaixonados cantando para a professora.
A Acadêmicos do Grande Rio levou à Marquês de Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”, do carnavalesco Antônio Gonzaga, de densidade política e potência simbólica, ao transformar o mangue em metáfora de origem, resistência e revolução cultural. Inspirada no movimento manguebeat e atravessada pelo pensamento de Chico Science e Josué de Castro, a escola construiu um espetáculo visualmente marcante, mas que apresentou oscilações importantes nos quesitos técnicos. A execução, no entanto, alternou momentos de impacto e trechos de rendimento morno.
Concebida por Beth Bejani e Hélio Bejani, a comissão de frente apostou em forte teatralidade. O grupo, numeroso, ocupou quase uma passada e meia do samba. A coreografia começou com os bailarinos no chão, vestidos em tons alaranjados, executando movimentos marcados que remetiam ao trabalho no manguezal. Quatro grandes tripés cenográficos em forma de caranguejos cercaram o corpo central de baile, que realizou giros e movimentos circulares, simbolizando o pulsar do ecossistema.
A transformação do figurino sob luz cênica, que ganhou efeito neon, revelando detalhes orgânicos inspirados nas raízes e texturas do mangue, foi um dos pontos altos da apresentação. Um tripé de grandes proporções, com iluminação e painel de LED ao centro, trouxe a representação de Nanã acima da estrutura, reforçando a dimensão ancestral do enredo. Porém, no momento da ativação da luz cênica, a imagem acabou mergulhada na escuridão, prejudicando o impacto visual planejado.
No “Bailado Nupcial dos Mangues”, inspirado na obra “Homens e Caranguejos”, Taciana Couto e Daniel Werneck apresentaram uma dança conectada à proposta do enredo. Em figurinos roxos, associados a Nanã, o casal trouxe movimentos que dialogam com a ideia de entrelaçamento das raízes e fecundação simbólica.
A apresentação, contudo, começou sob tensão. Nos primeiros 15 segundos, Taciana pareceu enfrentar dificuldades com a bandeira: houve erro no primeiro movimento e demora para desdobrar o pavilhão no segundo, com a bandeira entrando desalinhada. O momento gerou apreensão, mas o casal recuperou a concentração e concluiu a exibição com sincronia e conexão, cumprindo bem o restante da performance.
HARMONIA
A escola apresentou boa resposta de canto nos primeiros setores. O samba foi sustentado com força pelo intérprete Evandro Malandro, que conduziu a obra com potência vocal e segurança, características que já marcam sua trajetória. A bateria de Mestre Fafá executou um trabalho consistente, com bossas bem distribuídas que evitaram a monotonia rítmica. O andamento se manteve firme.
Por outro lado, a harmonia não foi uniforme. Em determinados trechos, os componentes demonstraram menor intensidade no canto. A ala de passistas sambou pouco, aparentemente limitada pela estrutura da fantasia, especialmente na região do busto, que exigia sustentação manual e comprometia a fluidez do samba no pé. Curiosamente, no último setor, a escola apareceu menos engessada e mais empolgada, mas a sensação geral foi de um desfile que não atingiu o ápice de energia esperado.
A evolução transcorreu sem grandes atropelos ou buracos visíveis, mas também sem explosão. Em alguns momentos, componentes caminharam em vez de desfilar, o que impactou a leitura estética da escola. A partir do segundo setor, o rendimento caiu e a apresentação perdeu pulsação, reforçando a percepção de queda de temperatura.
ALEGORIAS E FANTASIAS
Visualmente, a Grande Rio manteve sua assinatura plástica. Alegorias e fantasias exploraram detalhes vazados, palhas, texturas orgânicas e uso expressivo de iluminação, especialmente LEDs integrados aos figurinos. O efeito dialogou diretamente com a proposta de mangue ancestral e cidade conectada por parabólicas simbólicas.
As fantasias eram imponentes, mas algumas aparentavam peso excessivo, o que pode ter influenciado tanto na evolução quanto no desempenho de alas específicas. No quesito acabamento, houve falhas perceptíveis. A segunda alegoria apresentou exposição de ferragens e avarias na estrutura na parte superior, comprometendo a leitura estética em determinados ângulos.
OUTROS DESTAQUES
A velha guarda desfilou no chão, vestindo as cores tradicionais da escola, trazendo elegância e pertencimento ao cortejo. Já a rainha de bateria, Virgínia Fonseca, em sua estreia, chamou atenção, mas pareceu enfrentar dificuldades com a fantasia e quase não sambou durante a passagem.
Unidos de Vila Isabel, comandada pelo mestre Macaco Branco. Uma conjunção sonora valiosa foi produzida, propiciada por uma afinação diferenciada de surdos (mais pesada), que gerou um Groove de destaque, além de auxiliar na pressão sonora das bossas, dando impacto aos arranjos.
Na parte da frente do ritmo da escola do bairro de Noel, um trabalho de destaque conjunto esplêndido foi realizado. Um naipe de tamborins altamente técnico tocou muito integrado a uma ala de chocalhos absolutamente fabulosa. Tanto as convenções de ambos os naipes, assim como seus carreteiros, executados em conjunto, exibiram um balanço impressionante, preenchendo a sonoridade das peças leves com requinte musical.
Na parte de trás do ritmo da Vila, um afinação muito boa e tradicionalmente pesada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram vigorosos, mas precisos. Surdos de terceira ficaram responsáveis pelo envolvente balanço entre os graves. Repiques coesos e sólidos tocaram junto de um naipe de caixas com levada reta, tocadas embaixo. Impressionante o brilho sonoro de um excepcional naipe de taróis, com sua rufada típica. Em meio ao ritmo, organizadas em fila indiana, veio uma ala de cuícas com boa ressonância por toda a “Swingueira de Noel”.
Bossas bem vinculadas ao que pedia a melodia do samba foram exibidas de modo cirúrgico. Se tratam de arranjos dançantes, que impulsionaram o lindíssimo samba-enredo da Vila Isabel, além de auxiliarem componentes na evolução. Destaque para a conversa rítmica muito apurada do refrão do meio, num arranjo encantador, que ainda termina realizando a retomada clássica da Vila, subindo o ritmo igual aos esquentas, com taróis, caixas e repiques indo direto, enquanto o surdo de terceira começa a efetuar o balanço como se chamasse a primeira e a segunda para entrarem. Uma construção musical, sobretudo, que foi exibida de forma refinada.
Uma ótima apresentação da bateria da Vila Isabel, dirigida por mestre Macaco Branco. Um ritmo equilibrado, bem equalizado e com uma fluência impecável entre todos os naipes foi exibido. Junto com o Groove puxado para o timbre mais grave, o trabalho encantador envolvendo os taróis ganhou destaque dentro da sonoridade da “Swingueira”. Bossas bem encaixadas com um dos melhores sambas do ano foram apresentadas corretamente. Na última cabine de jurados, uma apresentação segura tem tudo para garantir uma boa pontuação, evidenciando o ótimo desfile da bateria da Vila.
Um desfile muito bom da bateria “Super Som” do Paraíso do Tuiuti, comandada por mestre Marcão. Um ritmo equilibrado, enxuto e bem equalizado foi exibido. A grande integração musical das paradinhas merece exaltação musical, por estarem bem atreladas ao tema afro da escola e a levadas cubanas, nesse grande enredo sobre o Lonã Ifá Lukumi.
Na cabeça da bateria do Tuiuti, um naipe de cuícas ressonante deu brilho sonoro às peças leves. Uma ala de chocalhos fabulosa e de elevada técnica musical tocou juntos de um naipe de tamborins de virtude sonora coletiva. O trabalho interligado entre ambos os naipes foi um dos destaques do preenchimento da sonoridade da parte da frente do ritmo.
Na parte de trás do ritmo da “Super Som”, uma afinação de surdos acima da média foi notada. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com firmeza e precisão. Surdos de terceira com balanço bem envolvente deram sua contribuição no ritmo e fazendo bossas. Repiques sólidos e coesos se exibiram juntos de um naipe de caixas ressonante, dividido entre as batidas reta para as peças de maior polegada e a com levada de partido alto, tocada em cima. Congas vieram no fundo da bateria do Tuiuti, sendo fundamentais em bossas, onde se apresentavam vindo para frente.
Bossas bem ligadas ao melodioso samba da escola de São Cristóvão foram exibidas, de modo preciso. Uma musicalidade intimamente vinculada ao enredo de vertente africana do Tuiuti. O toque solo das congas, junto de Cowbell e virtuosos chocalhos mostraram um arranjo solo bem desafiador, sempre bem apresentado e recebendo ovação popular quando executado. Impressionante o apuro técnico dos arranjos, além de sua exuberante musicalidade, com direito até a um clima rítmico caribenho. É possível dizer, inclusive, que a sonoridade bem dançante das paradinhas ajudou a impulsionar o belíssimo samba da agremiação do bairro imperial, além de auxiliar na evolução dos desfilantes.
Uma apresentação muito boa da bateria do Paraíso do Tuiuti, dirigida por mestre Marcão. Uma conjunção sonora valiosa foi produzida, bem identificada musicalmente com o enredo da escola. Um conjunto de bossas dançantes ajudou no aspecto energético do desfile da “Super Som”. Na última cabine julgadora, uma grande exibição foi realizada, recebendo aclamação do público e dos jurados, fechando o grande desfile da “Super Som” do Tuiuti com chave de ouro.
Com fantasias coloridas e irreverentes, que destoavam do restante da escola, a ala 17 do Salgueiro, intitulada “Tutti-multinacional”, levou ao desfile um olhar pop e bem-humorado sobre a globalização e o consumo cultural que marcam o tempo presente. Misturando a Estátua da Liberdade, a águia norte-americana e a bandeira dos Estados Unidos a cores vibrantes que remetem ao chiclete, a proposta foi construir uma crítica leve, porém provocadora, à americanização dos costumes brasileiros.
Hércules e Ângelo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Rosa Magalhães tornou-se conhecida por articular sátira e comentário social em seus enredos. Em referência a essa marca autoral, a ala embarcou na “bagunça” simbólica de sua bagagem cultural.
Para Marcelo Fonseca, de 47 anos, a diversidade é a chave de leitura do setor.
“Eu poderia dizer que a Rosa era uma camaleoa, que gostava de diversidade. Aqui tem figuras orientais, tem a águia norte-americana levando bandeiras dos Estados Unidos, mas também tem nordestino, tem de tudo. Essa ala fala sobre a globalização em sua forma mais pura”, afirmou.
Ele reconhece a crítica presente na fantasia, embora admita que a identificação não seja automática para todos.
“A gente vive em um mundo capitalista, não tem como escapar. Eu me sinto representado, sim, mas não sei se todos vão se sentir. Depende do ponto de vista de cada um”, disse.
Já o companheiro de ala, o pedagogo Hécules Ângelo, acredita que o visual não será imediatamente compreendido pelo público em geral. Para ele, a leitura depende do conhecimento prévio da trajetória da carnavalesca.
“Quem conhece a obra da Rosa entende que isso é referência a um samba muito conhecido, mas que pouca gente lembra. Pode causar impacto por esse lado irônico, mas é diferente de lugares que deixam a mensagem mais explícita. Só vai entender quem já estudou a história dela”, declarou.
Cássia Novelle, diretora da ala. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A diretora da ala, Cássia Novelle, confirmou essa chave de interpretação ao explicar o conceito da fantasia.
“Representamos uma síntese das viagens que ela fez pelo mundo, das culturas que trouxe para o carnaval do Rio. Por isso a fantasia tem um avião. Essa ala resume bem essa mistura. Para quem conhece a obra da Rosa, é uma referência importante a um samba muito conhecido. O que marca sua criação é justamente a antropofagia: chegar, pegar outras culturas e ressignificar a partir da nossa brasilidade”, explicou Cássia.
O casal formado pelo porto-riquenho Melvin Pagam, 45 anos, funcionário de aeroporto, e por Wellington Lousada, 47, morador de Boston e trabalhador de um sindicato nos Estados Unidos, vive na prática a globalização retratada na fantasia. Desfilando há oito anos, eles enxergam no setor um reflexo da própria trajetória.
“Tem cores diferentes, pessoas diferentes. Eu sou porto-riquenho. Essa mistura ajuda a fazer a ala e a escola brilharem”, afirmou Melvin, mesmo sem se deter na ironia proposta.
Wellington destacou que o visual pop deve chamar atenção pela grandiosidade.
“Primeiro pelo brilho e pelo tamanho da fantasia. A Rosa sempre gostou de glamour, de coisas grandes. E isso combina com a identidade da escola, que vem para arrasar na avenida”, comentou.
Para eles, representar o “tititi” e o consumo contemporâneo não é apenas crítica, mas também celebração da mistura cultural que atravessa a ala.
“Acho interessante porque marca essa antropofagia: pegar outras culturas e ressignificar de acordo com a nossa brasilidade. Essa ala mostra exatamente isso”, finalizou Wellington.