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Mangue ancestral em cena: Grande Rio impressiona no visual, mas oscila na evolução

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A Acadêmicos do Grande Rio levou à Marquês de Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”, do carnavalesco Antônio Gonzaga, de densidade política e potência simbólica, ao transformar o mangue em metáfora de origem, resistência e revolução cultural. Inspirada no movimento manguebeat e atravessada pelo pensamento de Chico Science e Josué de Castro, a escola construiu um espetáculo visualmente marcante, mas que apresentou oscilações importantes nos quesitos técnicos. A execução, no entanto, alternou momentos de impacto e trechos de rendimento morno.

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

COMISSÃO DE FRENTE

Concebida por Beth Bejani e Hélio Bejani, a comissão de frente apostou em forte teatralidade. O grupo, numeroso, ocupou quase uma passada e meia do samba. A coreografia começou com os bailarinos no chão, vestidos em tons alaranjados, executando movimentos marcados que remetiam ao trabalho no manguezal. Quatro grandes tripés cenográficos em forma de caranguejos cercaram o corpo central de baile, que realizou giros e movimentos circulares, simbolizando o pulsar do ecossistema.

* LEIA AQUI: Gramacho encontra Capibaribe em ala que reflete os ‘mangues’ de Caxias no desfile da Grande Rio

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A transformação do figurino sob luz cênica, que ganhou efeito neon, revelando detalhes orgânicos inspirados nas raízes e texturas do mangue, foi um dos pontos altos da apresentação. Um tripé de grandes proporções, com iluminação e painel de LED ao centro, trouxe a representação de Nanã acima da estrutura, reforçando a dimensão ancestral do enredo. Porém, no momento da ativação da luz cênica, a imagem acabou mergulhada na escuridão, prejudicando o impacto visual planejado.

* LEIA AQUI: Grande Rio representa o maior bloco de carnaval do mundo na Sapucaí

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

No “Bailado Nupcial dos Mangues”, inspirado na obra “Homens e Caranguejos”, Taciana Couto e Daniel Werneck apresentaram uma dança conectada à proposta do enredo. Em figurinos roxos, associados a Nanã, o casal trouxe movimentos que dialogam com a ideia de entrelaçamento das raízes e fecundação simbólica.

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A apresentação, contudo, começou sob tensão. Nos primeiros 15 segundos, Taciana pareceu enfrentar dificuldades com a bandeira: houve erro no primeiro movimento e demora para desdobrar o pavilhão no segundo, com a bandeira entrando desalinhada. O momento gerou apreensão, mas o casal recuperou a concentração e concluiu a exibição com sincronia e conexão, cumprindo bem o restante da performance.

HARMONIA

A escola apresentou boa resposta de canto nos primeiros setores. O samba foi sustentado com força pelo intérprete Evandro Malandro, que conduziu a obra com potência vocal e segurança, características que já marcam sua trajetória. A bateria de Mestre Fafá executou um trabalho consistente, com bossas bem distribuídas que evitaram a monotonia rítmica. O andamento se manteve firme.

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* LEIA AQUI: Grande Rio exalta o Manguebeat e reforça o Carnaval como palco de todos os ritmos

Por outro lado, a harmonia não foi uniforme. Em determinados trechos, os componentes demonstraram menor intensidade no canto. A ala de passistas sambou pouco, aparentemente limitada pela estrutura da fantasia, especialmente na região do busto, que exigia sustentação manual e comprometia a fluidez do samba no pé. Curiosamente, no último setor, a escola apareceu menos engessada e mais empolgada, mas a sensação geral foi de um desfile que não atingiu o ápice de energia esperado.

EVOLUÇÃO

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A evolução transcorreu sem grandes atropelos ou buracos visíveis, mas também sem explosão. Em alguns momentos, componentes caminharam em vez de desfilar, o que impactou a leitura estética da escola. A partir do segundo setor, o rendimento caiu e a apresentação perdeu pulsação, reforçando a percepção de queda de temperatura.

ALEGORIAS E FANTASIAS

Visualmente, a Grande Rio manteve sua assinatura plástica. Alegorias e fantasias exploraram detalhes vazados, palhas, texturas orgânicas e uso expressivo de iluminação, especialmente LEDs integrados aos figurinos. O efeito dialogou diretamente com a proposta de mangue ancestral e cidade conectada por parabólicas simbólicas.

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As fantasias eram imponentes, mas algumas aparentavam peso excessivo, o que pode ter influenciado tanto na evolução quanto no desempenho de alas específicas. No quesito acabamento, houve falhas perceptíveis. A segunda alegoria apresentou exposição de ferragens e avarias na estrutura na parte superior, comprometendo a leitura estética em determinados ângulos.

OUTROS DESTAQUES

A velha guarda desfilou no chão, vestindo as cores tradicionais da escola, trazendo elegância e pertencimento ao cortejo. Já a rainha de bateria, Virgínia Fonseca, em sua estreia, chamou atenção, mas pareceu enfrentar dificuldades com a fantasia e quase não sambou durante a passagem.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Vila Isabel no desfile oficial

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Unidos de Vila Isabel, comandada pelo mestre Macaco Branco. Uma conjunção sonora valiosa foi produzida, propiciada por uma afinação diferenciada de surdos (mais pesada), que gerou um Groove de destaque, além de auxiliar na pressão sonora das bossas, dando impacto aos arranjos.

Na parte da frente do ritmo da escola do bairro de Noel, um trabalho de destaque conjunto esplêndido foi realizado. Um naipe de tamborins altamente técnico tocou muito integrado a uma ala de chocalhos absolutamente fabulosa. Tanto as convenções de ambos os naipes, assim como seus carreteiros, executados em conjunto, exibiram um balanço impressionante, preenchendo a sonoridade das peças leves com requinte musical.

Na parte de trás do ritmo da Vila, um afinação muito boa e tradicionalmente pesada de surdos foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram vigorosos, mas precisos. Surdos de terceira ficaram responsáveis pelo envolvente balanço entre os graves. Repiques coesos e sólidos tocaram junto de um naipe de caixas com levada reta, tocadas embaixo. Impressionante o brilho sonoro de um excepcional naipe de taróis, com sua rufada típica. Em meio ao ritmo, organizadas em fila indiana, veio uma ala de cuícas com boa ressonância por toda a “Swingueira de Noel”.

Bossas bem vinculadas ao que pedia a melodia do samba foram exibidas de modo cirúrgico. Se tratam de arranjos dançantes, que impulsionaram o lindíssimo samba-enredo da Vila Isabel, além de auxiliarem componentes na evolução. Destaque para a conversa rítmica muito apurada do refrão do meio, num arranjo encantador, que ainda termina realizando a retomada clássica da Vila, subindo o ritmo igual aos esquentas, com taróis, caixas e repiques indo direto, enquanto o surdo de terceira começa a efetuar o balanço como se chamasse a primeira e a segunda para entrarem. Uma construção musical, sobretudo, que foi exibida de forma refinada.

Uma ótima apresentação da bateria da Vila Isabel, dirigida por mestre Macaco Branco. Um ritmo equilibrado, bem equalizado e com uma fluência impecável entre todos os naipes foi exibido. Junto com o Groove puxado para o timbre mais grave, o trabalho encantador envolvendo os taróis ganhou destaque dentro da sonoridade da “Swingueira”. Bossas bem encaixadas com um dos melhores sambas do ano foram apresentadas corretamente. Na última cabine de jurados, uma apresentação segura tem tudo para garantir uma boa pontuação, evidenciando o ótimo desfile da bateria da Vila.

Freddy Ferreira analisa a bateria do Tuiuti no desfile oficial

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Um desfile muito bom da bateria “Super Som” do Paraíso do Tuiuti, comandada por mestre Marcão. Um ritmo equilibrado, enxuto e bem equalizado foi exibido. A grande integração musical das paradinhas merece exaltação musical, por estarem bem atreladas ao tema afro da escola e a levadas cubanas, nesse grande enredo sobre o Lonã Ifá Lukumi.

Na cabeça da bateria do Tuiuti, um naipe de cuícas ressonante deu brilho sonoro às peças leves. Uma ala de chocalhos fabulosa e de elevada técnica musical tocou juntos de um naipe de tamborins de virtude sonora coletiva. O trabalho interligado entre ambos os naipes foi um dos destaques do preenchimento da sonoridade da parte da frente do ritmo.

Na parte de trás do ritmo da “Super Som”, uma afinação de surdos acima da média foi notada. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com firmeza e precisão. Surdos de terceira com balanço bem envolvente deram sua contribuição no ritmo e fazendo bossas. Repiques sólidos e coesos se exibiram juntos de um naipe de caixas ressonante, dividido entre as batidas reta para as peças de maior polegada e a com levada de partido alto, tocada em cima. Congas vieram no fundo da bateria do Tuiuti, sendo fundamentais em bossas, onde se apresentavam vindo para frente.

Bossas bem ligadas ao melodioso samba da escola de São Cristóvão foram exibidas, de modo preciso. Uma musicalidade intimamente vinculada ao enredo de vertente africana do Tuiuti. O toque solo das congas, junto de Cowbell e virtuosos chocalhos mostraram um arranjo solo bem desafiador, sempre bem apresentado e recebendo ovação popular quando executado. Impressionante o apuro técnico dos arranjos, além de sua exuberante musicalidade, com direito até a um clima rítmico caribenho. É possível dizer, inclusive, que a sonoridade bem dançante das paradinhas ajudou a impulsionar o belíssimo samba da agremiação do bairro imperial, além de auxiliar na evolução dos desfilantes.

Uma apresentação muito boa da bateria do Paraíso do Tuiuti, dirigida por mestre Marcão. Uma conjunção sonora valiosa foi produzida, bem identificada musicalmente com o enredo da escola. Um conjunto de bossas dançantes ajudou no aspecto energético do desfile da “Super Som”. Na última cabine julgadora, uma grande exibição foi realizada, recebendo aclamação do público e dos jurados, fechando o grande desfile da “Super Som” do Tuiuti com chave de ouro.

Com ironia de Rosa Magalhães, ala do Salgueiro critica globalização e consumo desenfreado

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Com fantasias coloridas e irreverentes, que destoavam do restante da escola, a ala 17 do Salgueiro, intitulada “Tutti-multinacional”, levou ao desfile um olhar pop e bem-humorado sobre a globalização e o consumo cultural que marcam o tempo presente. Misturando a Estátua da Liberdade, a águia norte-americana e a bandeira dos Estados Unidos a cores vibrantes que remetem ao chiclete, a proposta foi construir uma crítica leve, porém provocadora, à americanização dos costumes brasileiros.

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Hercules e Angelo
Hércules e Ângelo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Rosa Magalhães tornou-se conhecida por articular sátira e comentário social em seus enredos. Em referência a essa marca autoral, a ala embarcou na “bagunça” simbólica de sua bagagem cultural.

Marcelo Fonseca
Marcelo Fonseca. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Para Marcelo Fonseca, de 47 anos, a diversidade é a chave de leitura do setor.

“Eu poderia dizer que a Rosa era uma camaleoa, que gostava de diversidade. Aqui tem figuras orientais, tem a águia norte-americana levando bandeiras dos Estados Unidos, mas também tem nordestino, tem de tudo. Essa ala fala sobre a globalização em sua forma mais pura”, afirmou.

Ele reconhece a crítica presente na fantasia, embora admita que a identificação não seja automática para todos.

“A gente vive em um mundo capitalista, não tem como escapar. Eu me sinto representado, sim, mas não sei se todos vão se sentir. Depende do ponto de vista de cada um”, disse.

Hercules Angelo
Hércules Ângelo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já o companheiro de ala, o pedagogo Hécules Ângelo, acredita que o visual não será imediatamente compreendido pelo público em geral. Para ele, a leitura depende do conhecimento prévio da trajetória da carnavalesca.

“Quem conhece a obra da Rosa entende que isso é referência a um samba muito conhecido, mas que pouca gente lembra. Pode causar impacto por esse lado irônico, mas é diferente de lugares que deixam a mensagem mais explícita. Só vai entender quem já estudou a história dela”, declarou.

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Cássia Novelle, diretora da ala. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A diretora da ala, Cássia Novelle, confirmou essa chave de interpretação ao explicar o conceito da fantasia.

“Representamos uma síntese das viagens que ela fez pelo mundo, das culturas que trouxe para o carnaval do Rio. Por isso a fantasia tem um avião. Essa ala resume bem essa mistura. Para quem conhece a obra da Rosa, é uma referência importante a um samba muito conhecido. O que marca sua criação é justamente a antropofagia: chegar, pegar outras culturas e ressignificar a partir da nossa brasilidade”, explicou Cássia.

Melvin e Wellington. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O casal formado pelo porto-riquenho Melvin Pagam, 45 anos, funcionário de aeroporto, e por Wellington Lousada, 47, morador de Boston e trabalhador de um sindicato nos Estados Unidos, vive na prática a globalização retratada na fantasia. Desfilando há oito anos, eles enxergam no setor um reflexo da própria trajetória.

“Tem cores diferentes, pessoas diferentes. Eu sou porto-riquenho. Essa mistura ajuda a fazer a ala e a escola brilharem”, afirmou Melvin, mesmo sem se deter na ironia proposta.

Wellington destacou que o visual pop deve chamar atenção pela grandiosidade.

“Primeiro pelo brilho e pelo tamanho da fantasia. A Rosa sempre gostou de glamour, de coisas grandes. E isso combina com a identidade da escola, que vem para arrasar na avenida”, comentou.

Para eles, representar o “tititi” e o consumo contemporâneo não é apenas crítica, mas também celebração da mistura cultural que atravessa a ala.

“Acho interessante porque marca essa antropofagia: pegar outras culturas e ressignificar de acordo com a nossa brasilidade. Essa ala mostra exatamente isso”, finalizou Wellington.

Gramacho encontra Capibaribe em ala que reflete os ‘mangues’ de Caxias no desfile da Grande Rio

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Mesmo em territórios distintos, as questões dos caxienses e povos do mangue de Pernambuco se perpassam. O desfile da Grande Rio construiu um paralelo entre os povos do mangue, e na terceira ala, as semelhanças sociais se escancaram.

Os pescadores do Mangue se encontram aos de Caxias, onde a profissão é significativa para a economia da cidade. A fantasia trazia elementos da vida dos pescadores, como o uso de cores claras, chapéus de palha, e estandarte com os frutos de um dia de trabalho. A escola também trazia relação com o conceito sociológico “sociedade do mangue”, de Josué de Castro, que afirma que a população do mangue está entre a estrutura agraria feudal e a capitalista, mas sempre a margem do desenvolvimento econômico.

O fato ressoa com a comunidade de Caxias, ao refletir sobre a situação social de muitos bairros da cidade.

Maria de Fátima Sousa, conhecida como Fafá, está em seu segundo ano na agremiação e destaca a situação das enchentes e a pobreza que afeta alguns bairros de Caxias.

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“Essa enchente do mangue vem tudo a ver com relação a Caxias. A cidade tenta melhorar, produzir coisas melhores, mas a enchente, a chuva sempre acontece, de um lado ou do outro”, afirmou.

Entretanto, o carnaval se torna um meio de resistir à medida em que se denuncia as mazelas da sociedade.

“Eu acho lindo o carnaval fazer a pessoas se unirem, sair do sofrimento, porque viver assim é muito sofrimento. A Grande Rio leva as pessoas a saírem da pobreza, que é uma parte de Caxias, e se alegrar”, disse.

A componente Alicia Martins opina que a temática abordada pelo enredo, e alas que retratam o tema tão próximos da realidade do caxiense, podem trazer reconhecimento e tocar em lugares profundos na mente do público.

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“A gente mostra aqui na ala, a sociedade do Mangue e podem ter ‘mangues’ no Rio de Janeiro, no caso, e as pessoas podem nem reconhecer isso, aí olhar e falar, “nossa, eu também sou do Mangue, também sou filho da periferia”, isso é muito importante”, declarou.

Ao trazer enredos que levam a reflexão, o carnaval assume seu viés pedagógico. A componente, reforça que o poder de ensino da festa amplia olhares e promove pertencimento.

“Essa junção das cidades parte de pertencimento e de reconhecimento também. E ser trazida dessa forma pedagógica para as pessoas é muito importante porque o Carnaval é ensino, é trazer visibilidade às pessoas que estão à margem, é entender que não romantizando, mas que tem uma outra visão por trás disso tudo”, refletiu.

No trono do Rei: criação de Cahê Rodrigues que virou símbolo do Camarote King na Sapucaí

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Durante os dias de desfile na Marquês de Sapucaí, alguns espaços ultrapassam o entretenimento e se transformam em símbolos afetivos do Carnaval. É o caso do icônico trono do Camarote King, criado pelo artista Cahê Rodrigues, responsável por uma das experiências mais disputadas e fotografadas do sambódromo.

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Cahê Rodrigues assina o trono do Camarote King. Foto: Juliana Henrik/CARNAVALESCO

Em entrevista ao CARNAVALESCO, Cahê contou que a ideia do trono nasceu da observação do espaço e da identidade do camarote.

“Quando cheguei aqui, senti falta de uma coisa. Pensei: o camarote do King precisa de um trono. É o camarote do rei, então tem que ter um lugar para a galera sentar e tirar foto”, disse Cahê.

O projeto foi apresentado e executado, e logo no primeiro ano conquistou o público, tornando-se marca registrada do espaço.

“No primeiro ano já foi um sucesso. Todo mundo chegava querendo sentar, registrar a foto. Aquilo virou uma marca do camarote”, disse o artista.

Conceito e identidade

Com o passar dos anos, o trono passou por mudanças estéticas, acompanhando o tempo e o espírito do Carnaval. Algumas edições apostaram em uma linguagem futurista, com iluminação em LED. Neste ano, a escolha foi por um trono branco, carregado de simbolismo.

“A gente já teve um trono mais futurista, com LED, mas este ano eu quis trazer um trono branco para passar uma sensação de paz e respeito entre os foliões”, contou.

Posicionado logo na entrada do camarote, o trono se transformou em uma atração imediata para quem chega.

“A pessoa entra aqui e já procura o trono. Virou uma atração do camarote, um registro que fica, uma foto muito marcante”, afirmou o artista.

Respeito ao samba e à Passarela do Samba

Outro ponto destacado por Cahê é o cuidado do Camarote King com o espetáculo da avenida. Durante a passagem das escolas de samba, o som interno é interrompido para que o desfile seja vivido em sua totalidade.

“Quando a escola está desfilando, aqui é silêncio total. Vamos respeitar o sambista. Esse respeito com as escolas de samba é um diferencial do camarote”, afirmou Cahê.

Memória, pertencimento e experiência

Mais do que um elemento cenográfico, o trono se tornou um símbolo de pertencimento e memória afetiva para quem vive o Carnaval no espaço.

“Aqui todo mundo pode ser rei ou rainha, sentar no trono, fazer sua foto e levar esse momento com você”, disse.

Sobre o clima do Camarote King, Cahê afirmou que se sente muito bem com a recepção.

“Eu me sinto parte de uma família aqui. Vejo as pessoas felizes, se sentindo bem, vivendo o Carnaval com intensidade”, disse o artista.

Mais do que um cenário para fotos, o trono do Camarote King se tornou uma identidade visual de respeito ao samba, que fica na memória de quem vive o carnaval de perto.

Nostalgia e encantamento tomam conta do desfile do Salgueiro em ala do Sítio do Pica-Pau Amarelo

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A nostalgia tomou conta da Sapucaí com o desfile do Salgueiro. Dentre as muitas referências nostálgicas que rechearam a homenagem à trajetória de Rosa Magalhães, a que provavelmente aqueceu o coração da plateia de todas as idades foi a feita pela ala “A Turma do Sítio apronta”, que trouxe jovens fantasiados de Emília e Visconde de Sabugosa, do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

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Jessica Bonfim com as criancas
Jessica Bonfim com as crianças da ala. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A ala se inspirou no jeito encantado de criar de Rosa, que já misturou o Sítio com os contos de Hans Christian Andersen, para convidar o público lembrar da própria infância, ou, para os pequenos, se identificarem com os personagens queridos, como se estivessem abrindo um livro de história pela vez.

Mesmo tendo deixado a infância há pouco tempo, a componente Aisha Foz, de 15 anos, já lembra dessa fase com saudosismo. Empolgada, ela falou sobre a alegria de vir representando o tema.

“Eu desfilo no Aprendizes do Salgueiro desde os meus dois anos e meio de idade, e quando abriu a ala jovem com essa temática, eu fiquei muito feliz, porque fez parte da infância de muitas crianças, inclusive a minha, que cheguei a ver o Sítio do Picapau Amarelo”.

Eduarda Marrie e Aisha
Eduarda, Marrie e Aisha. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já a amiga de ala Marrie Vitória, de 11 anos, contou que a emoção veio já nos ensaio, por um motivo muito especial.

“Eu assisto Sítio até hoje. Quando eu vi essa roupa, pensei ‘gente, eu estou me lembrando de quando desfilei em 2015, com uma fantasia de Emília também. Eu cheguei a chorar muito, porque remete à nossa infância e a dos nossos familiares que já desfilaram”.

A “Emília” Eduarda Ibrahim, de 11 anos, percebeu a reação do público ao reconhecer os personagens tão marcantes.

“Os mais velhos e as crianças se identificam muito com essa nostalgia. O Salgueiro é uma escola muito grande, de honra, que traz muitas histórias e tradições. Eu estou muito feliz de estar aqui. É uma emoção muito grande. A gente consegue lembrar que está brincando, representando a Emília, que é personagem da infância não só das crianças, mas também de pessoas muito mais velhas”.

Tarso Teles
Tarso Teles. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A identificação geracional também foi citada pelo jovem Tarso Teles, que acha que vai ser o principal motivo de emoção para os mais velhos que assistirem a apresentação.

“Acho que os mais velhos ficarão orgulhosos pela informação, a educação e os bons livros estarem sendo passados de geração em geração”.

Segundo Tarso, a história chega nas pessoas até hoje de de diversas formas, afinal, ele nunca assistiu a um desenho animado ou seriado do Sítio, e sim, conheceu os personagens pelo livro, quando leu pela primeira vez aos seis anos de idade.

Diretora de ala Jessica Bonfim
Jessica BoNfim, diretora da ala das crianças. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A diretora da ala, Jéssica Bonfim, de 40 anos, explicou a proposta e a mensagem principal que ela quer passar com toda a nostaLgia.

“É uma ala que traz muita emoção, porque todo mundo faz uma viagem na própria infância. Os personagens são muito queridos por todos nós. Minha filha tem 7 anos e estuda sobre eles na escola, e assim a gente conseguiu conectar uma infância distante com a da atualidade. Hoje existe uma dificuldade de preservar essa fase da vida como algo puro, e a Emília e o Visconde trazem essa coisa bem genuína. Quando estamos aqui com eles, voltamos a ser crianças também. Pulamos, cantamos, gritamos, choramos e sorrimos. E essa mistura de contos europeus com o que a gente tem no Brasil mostra como o carnaval é para todos. Um evento que une povos e culturas de uma forma muito bonita”.

Uma grande preocupação que se tem ao trabalhar com crianças e adolescentes é o bem-estar deles. Para isso, as fantasias foram confeccionadas de modo que os trouxesse conforto, e eles mesmo confirmaram isso.

“A fantasia não pesa, é como se você estivesse brincando normal, nem sente o corpo pesado. Quando nós entramos na avenida vestindo ela, nos distraímos, brincamos, nos divertimos e entramos totalmente na história”, afirmou Aisha.

“A fantasia acaba virando uma roupa normal. Estou andando com ela e nem sinto nada, só um pouco de calor por causa do calor do Rio de Janeiro mesmo”, pontuou Marrie.

‘Carregamos o legado de Tia Ciata’, afirmam baianas do Paraíso do Tuiuti

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Vestidas de ‘Axé’, as baianas do Paraíso do Tuiuti encantaram a avenida ao ajudar a contar a historia do Ifá cubano, representando a energia e forca vital. A escola de São Cristóvão abriu a terça de desfiles do Grupo Especial.

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O simbolismo da ala ‘Ashé’ representa o papel das baianas para uma escola de samba. As matriarcas representam aquelas que, no passado, foram fundamentais para a criação das agremiações. Nos dias de hoje, são responsáveis pela tradição das Feijoadas e Cozidos nas escolas de samba, sempre receptivas e acolhedoras.

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Baiana do Império Serrano há 26 anos, Ana Valéria Oliveira remonta o início histórico das ancestrais, e afirma: Ser baiana e carregar o legado de Tia Ciata.

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“Nossa história vem desde lá, e a gente continua. O samba começou no quintal dela. Ela fazia as comidas, ela escondia instrumentos. Porque ela tinha o tabuleiro de quitute, escondia às vezes as coisas embaixo das saias. E as baianas são isso. Tem as feijoadas nas escolas que a gente participa, e geralmente são as baianas que servem”, contou.

Presente também em outras escolas da Série Ouro, Intendente e Carnaval de Niterói, Fabrícia Antunes também destaca o acolhimento que as baianas oferecem as escolas de samba.

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“O papel da baiana é fundamental porque temos papel de acolher, de abraçar. Antes, no período da perseguição, e que havia muitos problemas, não só com os ritmistas, mas com os componentes, as baianas tinham esse papel de ajudar, de acolher, de proteger. É um papel de suma importância, é vital para uma escola, porque sem as baianas falta alguma coisa”, adicionou Fabrícia.

Seguir esse legado é honrar sua ancestralidade, a que também faz ao sair no cortejo em homenagem a Tia Ciata e as baianas, em todo 20 de novembro. Ana ValériA faz parte do grupo ‘Baianas do Samba’, a quem ela atribui a luta pela permanência de um legado com acolhimento, ajuda e incentivo uma as outras.

“Hoje em dia, a baiana está em extinção, por causa do peso [da fantasia]. A maioria delas são hipertensas, diabéticas. Eu sou hipertensa, então fica difícil. É um grupo que a gente se ajuda, principalmente no Carnaval da Intendente Magalhães. A gente faz os grupos, e avisamos “ó, a escola tal tá precisando de tantas baianas, quem é que pode ajudar?” A gente forma aquele grupo para lá e desfilar naquela escola”, afirmou.

O acolhimento não é oferecido apenas ao grupo. Ele se estende a todos que precisam na escola de samba.

“Baiana é um acolhimento. Tudo na escola, tem samba, eles vão no cantinho das baianas. É ritmista, é a passista, “Tia, tem alguma coisa pra comer?” Porque sabem que a mesa da baiana sempre tem, a gente sempre faz alguma coisa. A gente vem representando as mãezonas das escolas de samba”, declarou.

O acolhimento é tão essencial, que Ana conta que sua trajetória como baiana de samba iniciou porque um dia foi acolhida.

“Nunca pensei em ser baiana. Eu tive um relacionamento com um compositor do Império Serrano, falei que queria desfilar, ele me levou a uma ala. Ele foi nascido e criado com a presidente da ala, a tia Eli. E como eu disse, baiana é acolhimento – elas me abraçaram, me acolheram, e eu gostei. Comecei a rodar e nunca mais parei”, compartilhou.

As matriarcas têm papel importante no dia a dia das escolas. Além do ‘coração aberto’, os principais eventos que ocorrem ao longo do ano, vem pelas mãos que amparam a história do samba, e zelam pelo axé das agremiações.

“A gente tenta participar o máximo possível das atividades, fora até do calendário mesmo normal, de ensaios de rua, ensaios técnicos, que também tem outros calendários que acontecem nesse decorrer. Em maio tem o próximo evento, em que se lê o enredo, lê a sinopse do próximo carnaval, e tem o feijão em homenagem aos Pretos Velhos. Tem algumas saídas com a escola, tem convites para um festa de baianas em outras agremiações com irmãs, algumas apresentações extras também, shows que às vezes aparecem também”, disse.

Bateria Pirata-Furiosa: Bateria do Salgueiro representa piratas em busca de um tesouro

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A bateria “Furiosa” do Salgueiro homenageou o enredo “Nem todo pirata tem perna de pau, olho de vidro e a cara de mau”, idealizado por Rosa Magalhães para a Imperatriz Leopoldinense. Os integrantes vieram fantasiados de piratas e na apresentação havia a presença de um tripé representado um barco-pirata, que se movia à frente, levando a rainha Viviane Araujo. Conectados com o nome da bateria, furiosa, e o imaginário dos piratas, os ritmistas estiveram com muito fervor e ansiedade em adentrar à avenida. 

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Bateria Furiosa do Salgueiro. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Vitor Hugo Baluardo, auxiliar de RH de 22 anos, afirma que sua fantasia se casa perfeitamente com a ideia que o nome “Bateria Furiosa” representa.

“Eu acho que essa fantasia pode dar um pouco de medo na galera, uma forma da gente se impor para quem está assistindo. Vai ser o casamento perfeito a fantasia de pirata com o nome da bateria”, afirmou Vitor. 

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Vitor Hugo Baluardo. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

“É um momento que a gente para para fazer o arranjo, a paradinha da bateria, e é o momento que o navio, que é o tripé que vai passar por dentro da bateria, com a Viviane Araújo em cima, na bossa que fala no refrão do meio sobre ‘navegar'”, diz Vitor sobre a presença do tripé na apresentação. 

A advogada Natália Duarta, de 42 anos, esta em seu segundo ano pela agremiação e acredita que a fantasia de pirata dará mais animo para a furiosa ser potente, sobretudo, devido ao calor de sua fantasia. 

“A fantasia tá tão quente que a gente já vai chegar aqui na agressividade real, porque ou a gente vai na agressividade ou a gente vai morrer”, declarou Natália. 

Para ela, a presença de um tripé “Barco-Pirata” na evolução da bateria dará empolgação aos espectadores. 

“Fica mais empolgado porque o público vai gritar, a gente vai sentir a energia da Sapucaí e aí a gente vai tocar com mais vontade”, afirmou a advogada. 

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Marcos Vinicius. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O coordenador de recepção, Marcos Vinicius,  de 25 anos, desfila no Salgueiro há 6 anos e afirma que o tripé não muda a animação da bateria, mas sim a recepção do público. Marcos desabafou sobre as condições desagradáveis de sua fantasia: 

“Eu acho que os carnavalescos precisam ter um olhar mais cuidadoso pros ritmistas, porque essa fantasia além de estar quente, está pesada. A gente pintou a cara e ainda vai ter que botar uma máscara. A gente tem que olhar os mestres, tem que olhar os diretores, tem que estar atento a tudo. Porém, com essa fantasia pesada, quente, não dá. Muitas pessoas estão reclamando de calor e muitas pessoas não vão conseguir desfilar na avenida por conta dessa fantasia quente”. 

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Ana Clara. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Ana Clara Ramos, técnica em administração de 22 anos, está em seu segundo ano desfilando no Salgueiro e apesar de estar sonhando com o título e com a nota 40 para o quesito que defende, acredita que sua fantasia dificultará o desempenho da bateria, sobretudo, devido ao peso e aos tecidos quentes, que estava machucando. 

“A fantasia está linda, só que ela está muito quente e isso está acabando com a gente. Gostei, mas está muito quente e isso daí possa ser um problema. Eu queria também sinalizar aos profissionais carnavalescos para respeitarem e terem mais atenção a gente. A gente é da bateria, é mais esforço que a gente faz com os instrumentos e aí a gente precisa ter roupas leves para poder ter um desfile mais confortável, se sentir mais à vontade com a roupa. Por exemplo, essa calça aqui na minha perna está cortando bastante”, declarou Ana Clara. 

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Wallace. Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Wallace Santos, barbeiro profissional de 24 anos, desfila na agremiação desde sua infância, na escola Mirim. Para ele, a agressividade positiva que a bateria tem ao tocar não é uma exclusividade da fantasia de pirata, por ser algo que já estar no sangue dos integrantes da bateria. 

“Independente da fantasia já é raiz. Pode ser uma fantasia em qualquer sentido, mas a Furiosa está na raiz e na veia. A gente sempre bota tudo que a gente trabalhou, mas em questão de ser pirata, eu acho que não vem muito ao caso não, porque é o amor, é paixão, é tudo que a gente deixa ali, tudo que a gente já trabalhou, que a gente deixa de corpo e alma na avenida e é por isso que a gente é mais conhecido aí como Furiosa”, afirmou Wallace. 

Nesta noite, a bateria mostrou que, independente de fantasia e representações, sua potência resiste e deve ser respeitada, aclamada e reverenciada por todos os que veem.

Grande Rio representa o maior bloco de carnaval do mundo na Sapucaí

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Trazendo o carnaval de Recife para a Sapucaí, a ala ‘Festejos Populares’ representou as manifestações culturais pernambucanas no desfile da Grande Rio. A escola celebrou o movimento Manguebeat, encabeçado por Chico Science na última noite de desfiles do Grupo Especial.

Criando um espelhamento de Recife com Caxias, a ala homenageou o galo da madrugada com estandartes em punho e nas cores da fantasia clássica de palhaço. Mesclando o espírito festivo característico do brasileiro a cultura regional, a ala expõe a natureza festiva dos brasileiros.

stephaniegranderio

“O principal povo que sabe festejar é o brasileiro. Essa ala representa muito bem, pois o Brasil é isso!”, declarou Stephanie Calado, componente da ala.

O galo da madrugada é a celebração carnavalesca mais conhecida do estado, e detém o Recorde Mundial de maior bloco carnavalesco do mundo desde 2010. A festa evoca carnavais antigos e enche as ruas do centro histórico de Recife com programação de blocos e o tradicional frevo. E o carnaval, como o maior palco de manifestações culturais do país, dá lugar a narrativas que complementam a folia.

“Eu acho que o Carnaval consegue trazer qualquer tipo de cultura, ele consegue representar, ele consegue trazer história, então eu acho que consegue representar qualquer tipo de manifestação que tem, e da melhor forma, que é festejando”, afirmou.

Em adição, Stephanie ressalta o valor da multipilicidade cultural do Brasil, e que deve ser inserido e valorizado no carnaval do Rio de Janeiro

“O Brasil é multi cultura, tem todo tipo de cultura, então tem que ser trazido para qualquer tipo de festa. E o Carnaval é o maior espetáculo do mundo, não tem como não trazer essa representação para a Sapucaí”, afirmou.

Com a temática inovadora do carnaval da Grande Rio, o folião Alexandre Ferreira, componente da ala, destacou a importância de dar protagonismo a narrativas fora do eixo Sudeste.

“Acho porque a gente não pode só ver só o nosso espaço, como só a Grande Rio, só o Rio de Janeiro. Também tem que falar também das outras, e eu acho interessante isso”, declarou.