A azul e branca de Cavalcanti está em festa! A Em Cima da Hora anunciou, nesta quinta-feira, pelas redes sociais, que Maryanne Hipólito é sua nova rainha de bateria para o Carnaval 2026. Reconhecida por sua presença marcante nos desfiles, Maryanne assume o posto à frente da bateria “Sintonia de Cavalcanti”, prometendo reforçar a força e a elegância da agremiação na Marquês de Sapucaí.
Figura querida no mundo do samba, Maryanne já brilhou em outras agremiações e chega à Em Cima da Hora com a missão de energizar ainda mais a bateria. A coroação deve ser celebrada em evento oficial nas próximas semanas.
A chegada da nova rainha marca também um novo momento para a escola, que vem se reestruturando e fortalecendo seus segmentos em busca de um grande desfile na Série Ouro em 2026. Com o enredo ainda a ser divulgado, a Em Cima da Hora aposta na representatividade e no carisma de Maryanne para conquistar o público.
Na publicação oficial, a escola exaltou a trajetória da nova majestade: “ELA É RAINHA! 👑 Maryanne Hipólito é a nova rainha de bateria da Em Cima da Hora! Com paixão, talento e representatividade, Maryanne Hipólito se consagrou como um dos grandes nomes do Carnaval carioca. Sua presença na avenida é sinônimo de força, elegância e profunda conexão com as raízes do samba, e por isso é a mais nova Rainha de Bateria da Sintonia de Cavalcanti. Seja Bem-vinda, Rainha! Cavalcanti está em festa”.
Na noite da última terça-feira, a Casa Savana, no Centro do Rio, se tornou espaço de memória, afeto e celebração. A escritora Conceição Evaristo e a cantora e compositora Leci Brandão participaram da roda de conversa “As coisas que mamãe me ensinou”, parte do programa formativo “Mora na Filosofia”, da Festa Literária das Periferias (FLUP), com mediação da jornalista Flávia Oliveira. O encontro terminou em clima de festa, com a chegada do casal de Mestre-sala e Porta-bandeira do Império Serrano, além de passistas, bateria e cantores do Reizinho de Madureira e também da Unidos de Bangu, transformando a noite em um verdadeiro esquenta para a Sapucaí. Com as duas escolas preparando homenagens às artistas no Carnaval 2026, o diálogo celebrou a força do matriarcado do samba e da escrevivência como práticas vivas de construção da memória coletiva.
Homenageada pelo Império Serrano com o enredo “Ponciá Evaristo: Flor do Mulungu”, Conceição refletiu sobre o entrelaçamento entre literatura e samba. “Pensar que o enredo de uma escola parte da minha escrita é um caminho duplo. É perceber que a literatura tá na vida. É da vida das pessoas que marcam esse espaço de resistência onde um povo se faz”, declarou a escritora.
Essa não é a primeira vez que a escrevivência da autora mineira chega ao mundo do samba. Em 2019, a Acadêmicos da Abolição levou à Intendente Magalhães o enredo “Conceição Evaristo — a escrevivência abolicionista em versos, poemas e contos”. Em tom bem-humorado, Conceição também compartilhou sua alegria com a homenagem na Sapucaí. “Hoje eu paro em frente ao espelho e pergunto: Espelho, espelho meu, existe alguém mais besta do que eu?”, disse, arrancando risos e aplausos da plateia.
“Pé quente” na avenida
Leci Brandão também será homenageada pela segunda vez na avenida. Em 2012, teve sua trajetória contada pela Acadêmicos do Tatuapé, em São Paulo, ano em que a escola ascendeu ao Grupo Especial. “Tive a oportunidade de ver a minha história contada na avenida. A Tatuapé já vinha desfilando em São Paulo, mas só chegou ao Especial quando nós fomos enredo. De lá pra cá, nunca mais saiu do Especial”, lembrou, sob os gritos de “pé quente” do público.
Agora, prestes a completar 81 anos, Leci será tema da Unidos de Bangu, com o enredo “As coisas que mamãe me ensinou”. A escola da Zona Oeste homenageia não apenas a cantora e compositora, mas também a deputada estadual que se tornou ícone da luta por igualdade e justiça social.
“Saber que a Unidos de Bangu vai fazer um enredo para mim é muito forte. No Rio de Janeiro, participei, de forma indireta, do enredo que falava sobre Marielle Franco e que fala de Lecis e Jamelões. Foi o ano que, pela primeira vez, eu saí num tripé e estava vestida de branco representando Luísa Mahin. Devo isso à Mangueira”, contou, antes de cantar um trecho de “História pra ninar gente grande”, samba-enredo campeão do Grupo Especial carioca de 2019.
Celebração em ritmo de samba
A conversa terminou em clima de festa com um momento especial: a entrada do casal de mestre-sala e porta-bandeira do Império Serrano, Matheus Machado e Maura Luiza, que apresentaram o pavilhão da escola. Em seguida, integrantes das duas agremiações que homenagearão as artistas em 2026, Império Serrano e Unidos de Bangu, invadiram a Casa Savana com o brilho de suas baterias, passistas e cantores, transformando o encontro em um verdadeiro esquenta para a Sapucaí.
Da roda de conversa à festa literária
Mais do que antecipar as homenagens do próximo Carnaval, o encontro na Casa Savana esquentou os tamborins para a 15ª edição da FLUP, que será realizada entre 17 e 23 e entre 27 e 30 de novembro de 2025, na sede da Central Única das Favelas (CUFA), em Madureira.
Com o tema “Ideias para Reencantar o Mundo: Escrevivências, Sonhos e Batidões”, a próxima edição da FLUP propõe uma celebração do legado político, musical e poético do Caribe e sua influência sobre a diáspora africana no Brasil. Conceição Evaristo será a autora homenageada.
Os moradores da Mangueira tiveram ainda uma boa notícia: vão ganhar o Boulevard Mangueira, uma nova área de convivência, incluindo a revitalização do Polo Gastronômico Mestre Delegado. O Boulevard terá, entre outros, banheiros públicos, estacionamento para mototaxistas e pátio coberto, inclusive, para apresentação da própria escola de samba. O Polo Mestre Delegado, contará com 66 quiosques de alimentos e bebidas e será reformado em cerca de seis meses.
“Essa obra tem um aspecto turístico que é muito importante, já que a Mangueira é um ícone da cultura carioca. Por isso, é importante que se requalifique esse espaço”, ressaltou o prefeito Eduardo Paes.
Os comerciantes receberão ambientes mais modernos, seguros e com instalações adequadas para o preparo das comidas e petiscos, venda de bebidas e atendimento ao público. Normalmente, o atendimento é durante a parte da tarde e à noite, horário de funcionamento dos quiosques, em frente à quadra da Mangueira.
“Além do Boulevard, na fachada, vamos fazer um painel, da quadra até o Minha Casa Minha Vida, com as celebridades da escola, em memória das pessoas que fazem parte da Mangueira e da história dessa comunidade”, disse o vice-prefeito Eduardo Cavaliere.
A reforma vai contemplar a pintura e a recuperação da fachada de Visconde Niterói, promovendo pertencimento e valorização cultural, mantendo as cores tradicionais da escola na identidade visual. O investimento será de R$ 14 milhões. O Polo Gastronômico Mestre Delegado foi inaugurado em 2013 pelo prefeito Eduardo Paes.
Compositores: Moisés Santiago, Pedrinho da Flor, Gilmar L. Silva, Leonardo Gallo, Orlando Ambrosio, Zeca do Cavaco, Alexandre Cabeça, Bruno Dallari, Marquinho Bombeiro e D’Miranda
TRAÇOS NO PAPEL, DOM DA CRIAÇÃO
DÁDIVAS DO CÉU, LEVA MAGIA PRO MUNDO INTEIRO
VERMELHO E BRANCO DEU ROSA NO MEU SALGUEIRO
FOLHA SOB FOLHA UMA IMENSIDÃO
PÉTALA POR PÉTALA A FLOR SE ABRIU
ANJOS EM BARROCO ANUNCIAM:
A PROFESSORA DO MEU BRASIL
AS LETRAS DESPERTAM, OS LIVROS SE ABREM
A BIBLIOTECA É FEITO OCEANO
NOS VENTOS A ARTE INVADE
À REALEZA NA MESA BRINDAMOS
BUMBUMPATICUMBUM NO REIZINHO GLORIOSO
DANÇANDO NO ARRAIÁ DA PRINCESA DE NOEL
EM LINDOS RAMOS DESABROCHA ESSE PAÍS
NA LEOPOLDINA…IMPERATRIZ
GIRA NO MEU FAZ DE CONTA
A MENTE APRONTA O QUE O POVO INVENTAR
BONECAS DE PANO FALANDO
A BRUXA SAMBANDO NUM SONHO SEM FIM
NA VIDA É SÓ DIZER: PIRLIMPIMPLIM!
DE LÁ PRA CÁ, DAQUI PRA LÁ EU NAVEGUEI
AVENTURAS AQUARELAS, SUAS FLORES FEITO TELA
GANHAM A SAPUCAÍ…FOI NO TITITI!
BRASIL QUE DEVORA ONDE A PISTA TEM DONA
DESFILA A HERDEIRA DE ARLINDO E PAMPLONA
NO RIO VIROU CASO DE AMOR
UM ROSA SEM ESPINHOS PRO MEU PAI XANGÔ
BALANÇA A ROSEIRA! FERVE O CALDEIRÃO!
AVENIDA INTEIRA MAREJADA DE EMOÇÃO
LÁ VEM SALGUEIRO NO PERFUME DAS MANHÃS
RAIZ DE ROSA MAGALHÃES!
Compositores: Paulo Cesar Feital, Ian Ruas, Benjamin Figueiredo, Luiz Fernando, Márcio Pessi, Zé Carlos, Bruno Papão, Vagner Alegria, Dredi, Ygor Leall
SÓ AQUI NO RIO DE JANEIRO
NASCERIA UMA ROSA
DAS RAIZES DE UM SALGUEIRO
A IMORTALIDADE DAS PALAVRAS E DA CRIAÇÃO
MENINA DOS LIVROS, FLOR EM BOTÃO
CADA ESTANTE ABRIA PORTAIS
TEMPLOS DE SABEDORIA
VIRANDO AS FOLHAS PARA TE DESENHAR
VENTOS DA ACADEMIA
E A VIDA FEITO GIRASSOL SE FEZ FANTASIA
NO REINO DO FAZ DE CONTAS, IMPERIOS A DESCOBRIR
O NOSSO SAMBA MINHA GENTE É ISSO AÍ (BUM BUM)
BAILAM PRINCESAS EM MELODIAS NO AR
GIRAM LOUÇAS E BAILARINAS
UM LEQUE DE CORES TÃO GENIAL, DA PROFESSRA DO CARNAVAL.
NOBRES DE LÁ PRA CÁ, NATIVOS DAQUI PRA LÁ
PELA RUA DO OUVIRDOR UM JEGUE APARECEU
A COR DE BREASAIL, PIRATAS E ARLEQUINS
A NATUREZA DE UM PAÍS QUE SE RECONHECEU
ATE QUE EMILIA E OS ANJOS TE ENCATARAM
FEITO PIRLIMPIMPIM
SAUDADE…
PALAVRA QUE NASCE NO FUNDO DO PEITO, NÃO TEM TRADUÇÃO
QUEM DERA SÓ MAIS UM DESFILE, MAS UM FIGURINO, MAIS UMA LIÇÃO
UM PAPO TOMANDO CAFÉ
DAQUELE JEITINHO QUE NOS FEZ TE AMAR
SALGUEIRO
VAI SER IMPOSSIVEL NÃO SE EMOCIONAR
SALGUEIRO… IMPOSSIVEL NÃO SE EMOCIONAR!
VERMELHO E BRANCO JUNTEI DEU ROSA
NO SASSARICO DA MARQUES DEU ROSA
PLANTEI NO MEU CORAÇÃO
O SONHO VAI FLORESCER
FELICIDADE NO AMANHECER
Compositores: Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Clairton Fonseca, Fabrício Sena, Deiny Leite, Felipe Sena, Ricardo Castanheira, JP Figueira e Deco
Eu viajei nos rococós da ilusão
Arte que me inspirou
Reencontrei, no mundo de imaginação
Memórias que você criou
Dos livros revi personagens
Barrocas imagens de tantas lembranças
Na mesa, o alto luxo da nobreza
Rei, princesa e a imperatriz
Ao visitar meus sonhos de faz de conta
Me desenhei criança, voltei a ser feliz
Que ti-ti-ti é esse pelo mundo a me levar?
Naveguei sem sair do meu lugar
Aportei no dia 22 de abril
À sombra de um pau-brasil
Assim descobri meu país
Fauna e flora, pelo seu olhar
Os donos da terra brasilis…
Um jegue me fez balançar…
Nas prateleiras do lado de cá do Equador
Devorei a nação
Andar na Ouvidor virou caso de amor
Pro meu coração
Mestra, você me fez amar a festa
E eu virei carnavalesco
Sonhei ser Rosa, te faço enredo
Mestra, você me fez amar a festa
Tantos alunos por aqui
Segue o legado na Sapucaí!
Professora volta pra Academia
Traz Pamplona e Arlindo pra celebrar
Não esquece João, é desse terreiro
Revoluciona outra vez, Salgueiro!
Compositores: Xande de Pilares, Fred Camacho, Betinho de Pilares,
Renato Galante, Miguel Dibo, Jorginho Via 13, Jefferson Oliveira,
Jassa, João Diniz e W. Corrêa
Rosa dos bons ventos, teus ensinamentos
Sopram o perfume das manhãs
Na biblioteca popular
Vamos navegar com nossa Rosa Magalhães
Rainha do era uma vez, Princesas e Reis
E toda corte segue à sua sorte
Autora que pensa e fala por nós
Dá vida aos heróis, reencontra Dom Quixote
O mar em revolta, soldados na escolta
Avisto piratas e fecho as comportas
Meu passado infantil pede passagem
Eu vou com a turma do sítio por essa viagem
Em além-mar fiquei ao léu
Só via o céu e o porto da utopia
Achei o jegue que estava escondido na história
Na trajetória dessa nostalgia
Sob os encantos, cheio de brasilidade
Me fiz amante, pra contar toda beleza
Da natureza qual desabrocha rosa
Coletânea honrosa de vitória e sutileza
O modernismo chegou…carnavália
A passarela abraçou a tropicália
Paticumbum prugurundum e aquela festa no arraiá
Mil traços de amor e a rosa no altar
As referências no jardim da excelência
É docência pra eternizar
À Rosa imortal, a poesia
É teu o carnaval da academia
Não há argumento que negue o fato
EU SOU SALGUEIRO E FIM DE PAPO!
COMPOSITORES: MARCELO MOTTA, DUDU NOBRE, JULIO ALVES, MANOLO, DANIEL PAIXÃO, JONATHAN TENORIO, KADU GOMES, ZÉ MORAES, JORGE ARTHUR e FADICO
PLANTEI
NO VELHO SALGUEIRO, AOS PÉS DA LADERIA
NO VENTRE DA ARTE, UMA LINDA ROSEIRA
ONDE A CADA ANO COLHI UM BUQUÊ
PORQUE NO MEU SOLO FÉRTIL GERMINA CULTURA
QUE BROTA DOS LIVROS E GANHA A RUA
TRANSBORDA EM SONHO, REVELA EM VOCE
UM OCEANO DE SABER
SÃO CORTES EM RECORTES PRA CONTAR
TODO REQUINTE PRA NARRAR
A OUSADIA DO PINCEL
VERMELHO QUE PINTA O BRANCO DO PAPEL
TEU PERFUME DE AMOR VIRA INSPIRAÇÃO
E FAZ DO ERUDITO CANÇÃO POPULAR
VIAJA EM CONTOS, FAZ REVOLUÇÃO
TE ENSINEI A COLHER PRA TE VER SEMEAR
FINCA O BARROCO A RAIZ
CANTA OS MÍSTICOS BRASIS
PARA O NOSSO PRIVILÉGIO
MOSTRA FEITO MÁRCIAS E MARIAS
SAMBA É MAIS QUE TEORIA
NÃO SE APRENDE NO COLÉGIO
ENFIM, DESABROCHA EM VIEIRA, TARCISIO, JOÃO
EM LÉO, GABRIEL, O LEGADO A MISSÃO
OS RISCOS DE JORGE TE ELEVAM A GLÓRIA DOS IMORTAIS
O CÉU SE TORNA UM JARDIM INFINDO
BEM AO LADO DE ARLINDO
PRA REVIVER SEUS GRANDES CARNAVAIS
O LELÊ! EIS A FLOR DOS AMANHÃS
A DÉCIMA ESTRELA BRILHA EM ROSA MAGALHÃES
ONDE O SAMBA É PRIMAVERA, QUE FLORESCE EM FEVEREIRO
NEM MELHOR, NEM PIOR… SALGUEIRO!
As justificativas dos julgadores do quesito Samba-Enredo no Grupo Especial do Rio, referentes ao Carnaval 2025, jogaram luz sobre um debate necessário: afinal, o que se espera de um samba-enredo? A resposta, a julgar pelos apontamentos de Alfredo Del Penho, Ana Paula Fernandes, Alessandro Ventura e Igor Fagundes, parece ainda confusa, e, em alguns casos, preocupantemente contaminada por visões diferentes do que acharam sambistas e imprensa especializada.
O Manual do Julgador do Carnaval 2025 é claro em seus critérios: a letra deve interpretar o enredo de maneira artística, com liberdade poética, sem a necessidade de seguir ordem cronológica ou listar elementos do desfile. A melodia, por sua vez, deve se harmonizar com os versos, facilitar o canto dos componentes e manter o equilíbrio entre emoção e clareza. No entanto, o que se vê em algumas justificativas é uma cobrança que ultrapassa os limites da razoabilidade, e, pior, que por vezes desconsidera o papel do samba como manifestação popular, afro-brasileira e simbólica.
Entre os trechos mais graves está a crítica de Ana Paula Fernandes ao uso “excessivo de palavras em iorubá” no samba da Unidos de Padre Miguel, que, segundo ela, teria prejudicado o entendimento do samba. A declaração é, no mínimo, desrespeitosa. Tratar a presença de palavras sagradas de uma matriz religiosa afro como um “excesso” revela não apenas desconhecimento da proposta estética da obra, mas ecoa preconceitos históricos que marginalizam culturas negras no Brasil. Se a proposta era valorizar uma narrativa ligada às religiões de matriz africana, como negar sua linguagem própria? Criticar o uso do iorubá com base na “dificuldade de entendimento” é uma forma disfarçada de racismo religioso, ainda mais vindo de um espaço que deveria compreender a complexidade cultural do samba e da avenida.
Outro ponto que causa perplexidade está na justificativa dada para descontar décimos do samba da Viradouro. O jurado Igor Fagundes, mesmo elogiando o verso “acenda tudo que for de acender” como belo em letra e melodia, penaliza a escola com base em uma suposta “comprometida dicção”. A incoerência é evidente: se letra e melodia são bons isoladamente, mas juntos causam impacto negativo, o problema, caso houvesse (o que não considero) estaria na execução, o que deveria ser julgado no quesito Harmonia, não no Samba-Enredo. Essa confusão de fronteiras entre critérios é sintomática e abre margem para distorções perigosas no julgamento.
A Imperatriz, por sua vez, foi acusada de conter “trechos pouco compreensíveis pelo andamento do samba”. A crítica, no entanto, se desmonta diante da realidade do desfile. O samba foi amplamente compreendido, cantado com potência pelo desfile inteiro e abraçado pelo público da Sapucaí. As atuações de Pitty de Menezes, intérprete oficial da escola, e da bateria, de mestre Lolo, foram amplamente elogiadas justamente pela clareza, ritmo e pela emoção com que conduziram a obra. Penalizar um samba que funcionou plenamente na avenida é um equívoco que fere a essência do julgamento.
Também não passa despercebido o tratamento desigual dado a escolas diferentes. Samba extenso, fragmentado, com repetições melódicas, versos pouco inspirados, obras “marcheadas”, excesso de clichês e falta de inovação: os julgadores listaram problemas variados, alguns reais, outros subjetivos, mas a régua da cobrança parece ter variado conforme o nome na ficha de avaliação. A subjetividade do julgamento é inevitável, mas precisa ser minimamente ancorada em coerência e conhecimento técnico.
Causa também estranheza a nota máxima atribuída ao samba da Portela. A obra foi amplamente questionada ao longo da temporada por sambistas e especialistas, que apontaram falhas na fluidez melódica, repetições estruturais e uma certa frieza poética diante de um enredo tão promissor. Ainda assim, o samba passou perfeito pelo julgamento, sem qualquer crítica nas justificativas e com pontuação máxima. Fica a pergunta: por que sambas potentes e aclamados pelo público foram punidos, enquanto uma obra visivelmente contestada recebeu nota 40? A sensação de dois pesos e duas medidas salta aos olhos e isso fragiliza a credibilidade do julgamento, além de desencorajar quem busca inovação e excelência no samba-enredo.
As disputas de samba para o Carnaval 2026, que já estão em curso, pedem reflexão sobre as avaliações dadas nos desfiles de 2025. Se a régua da avaliação continuar punindo a criatividade, o experimentalismo e a identidade cultural das obras, corremos o risco de formar sambas burocráticos, feitos apenas para passar pela comissão julgadora, e não para emocionar a Marquês de Sapucaí. Isso é perigoso.
O samba-enredo é mais do que uma partitura com letra e melodia. Ele é crônica, poesia, narrativa, resistência. É expressão de um povo que canta sua história e seu presente com liberdade. Cabe aos jurados entender isso, respeitar os códigos culturais de cada obra e julgar com mais responsabilidade.