O intérprete Gilsinho, uma das grandes vozes do carnaval, faleceu após complicações de saúde. Diabético, ele havia sido submetido recentemente a uma cirurgia e estava hospitalizado. Sua trajetória no Rio começou na Portela, em 2006, onde ficou até 2014, antes de passar pela Vila Isabel. Retornou à Portela em 2016, permanecendo até os dias atuais. No Carnaval de São Paulo, desfilou pela Vai-Vai, onde estreou, e também pela Tom Maior. Atuou ainda no Carnaval de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul.
Filho do músico Jorge do Violão, integrante da Velha Guarda Show da Portela ao lado de Monarco e outros baluartes, Gilsinho deixa sua marca como um dos intérpretes mais importantes da história recente do samba-enredo.
Veja a publicação da Portela sobre o falecimento do cantor
“O G.R.E.S. Portela está de luto.
Perdemos hoje um dos maiores nomes da nossa história: Gilsinho! O nosso grande intérprete! Ele que tanto nos encheu de orgulho desde 2006, com sua voz marcante, seu amor pelo samba e sua entrega total à nossa escola.
Gilsinho é alma portelense. Sua voz embalou momentos inesquecíveis, emocionou gerações e marcou profundamente o Carnaval do Brasil. Ele representou com maestria a nossa tradição, levando o nome da Portela com respeito, talento e paixão.
Em respeito à sua memória e à sua importância para a nossa escola e para o samba, a Portela decreta luto oficial de 3 dias.
Nossos sentimentos à família, amigos e admiradores.
Obrigada, Gilsinho! Por tudo! Por tanto! A Portela JAMAIS te esquecerá!”
No lançamento oficial do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói para o Carnaval 2026, que terá como enredo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fabiano Leitão, o trompetista (militante do PT, ele já tocou ‘marcha fúnebre’ em entrevista do ex-presidente Bolsonaro), conversou com o CARNAVALESCO. O músico exaltou a escolha da agremiação e classificou a homenagem como histórica para o mundo do samba. Segundo ele, o reconhecimento ao líder político já deveria ter acontecido há muito tempo.
O presidente da Niterói, Wallace Palhares, com Fabiano Leitão, o trompetista. Foto: Gabriel Gomes/CARNAVALESCO
“Ele já merecia essa homenagem há muito tempo. O presidente Lula fez justiça com a própria história do samba e com a história do povo brasileiro. O que mais ele precisa fazer para ser homenageado? Ele colocou o nosso povo pobre nas universidades, criou o Luz para Todos, o Minha Casa Minha Vida, tirou o Brasil do mapa da fome duas vezes”, destacou.
O trompetista também rebateu críticas de que política e carnaval não deveriam se misturar. “O samba é cultura popular brasileira, e a cultura tem que falar dos seus heróis. O Brasil precisa valorizar os seus heróis, e Lula é um herói do povo brasileiro. Tenho família no Piauí. Quando eu era jovem, cerca de 300 crianças morriam de fome por dia neste país, que é um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Por isso é tão importante reverenciar a história de luta de um retirante nordestino que viajou treze dias em um pau de arara e virou Presidente da República. Isso é um milagre do Brasil”, afirmou.
‘Acadêmicos de Niterói marcou seu nome na história’
O músico ressaltou a coragem da escola ao assumir a homenagem a Lula. “Eu gostaria de ter visto escolas como Mangueira, Portela, Beija-Flor, Imperatriz e Salgueiro fazendo isso. Mas foi a corajosa Acadêmicos de Niterói quem tomou a frente. E, por isso, o nome da escola já está marcado na história do samba e da cultura popular brasileira. Fico muito feliz e honrado com o convite do presidente Wallace Palhares”.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de o presidente estar no desfile, o trompetista não escondeu a emoção. “Eu espero muito. Ser homenageado na Marquês de Sapucaí é maior do que ganhar um Prêmio Nobel da Paz. É estar no palco da maior potência da cultura popular brasileira, junto de compositores, coreógrafos, costureiras, todo um conjunto de gente dedicada a contar a história do maior brasileiro de todos os tempos”, disse.
Noite de festa e repercussão
Sobre o evento de lançamento, ele relatou ter sentido uma recepção calorosa dentro e fora do universo do samba.
“A repercussão foi muito boa, inclusive, fora do mundo do samba. Eu digo que sou um soldado do presidente Lula e, agora, também um soldado da Acadêmicos de Niterói. Já fui presidente, já estive em Brasília, e também sou sambista. É uma honra imensa estar aqui. Nunca desfilei na Sapucaí, será emocionante. Estou encantado com o povo carioca, com a cultura e com o samba. Vou comemorar muito e lutar ainda mais para que meu partido e nossos militantes participem desse processo histórico. Porque homenagear o Lula é mais do que justo. Lula merece!”.
A pesquisadora do Bembé, Ana Rita Machado, em entrevista ao CARNAVALESCO, frisou que o Bembé não é apenas uma festa ou uma religião: é um projeto civilizatório.
“O candomblé é uma referência civilizatória africana”, explicou. “Ali existem princípios muito mais profundos do que a gente possa imaginar. É um lugar da diáspora, uma perspectiva de mundo afrocentrada, diferente de uma experiência de classe média branca”, completou a pesquisadora.
Essa dimensão conecta Bahia e Rio: Tia Ciata, que levou o samba ao Rio, saiu de Santo Amaro; Mãe Agripina, liderança do Afonjá, importante terreiro da Baixada Fluminense, também era santamarense. O fio é o mesmo.
Para ela, o Bembé precisa ser entendido em sua grandeza. “Não é uma simples festa ou celebração do 13 de Maio. É uma coisa muito maior”, destacou.
Ao levar o Bembé para a Sapucaí, a Beija-Flor atualiza no corpo nilopolitano essa memória. A avenida se torna extensão do Barracão do Mercado: lugar de canto, dança e afirmação de que a liberdade não veio de cima, mas foi fincada no chão, em um mastro, pelo povo negro. Um encontro ancestral que, mais de um século depois, continua a ser celebrado.
O carnavalesco Jack Vasconcelos definiu em entrevista ao CARNAVALESCO a dimensão do enredo que o Paraíso do Tuiuti levará para a Sapucaí em 2026. Para ele, a proposta vai além da estética e da disputa: trata-se de um projeto de reflexão e conexão espiritual.
“Trazer a palavra de Orumilá para a humanidade, eu acho que é a grande missão do Tuiuti esse ano”, destacou o artista.
Segundo Jack, o enredo pretende provocar a plateia e os jurados a pensar sobre a noção de unidade no mundo contemporâneo.
“A gente tem que aprender de uma vez por todas que nós somos uma coisa só. O que acontece com um vai reverberar no outro ou em outro lugar, nada está desconectado. Quando a gente entender que nossas ações causam reflexos, acho que já vai ser meio caminho andado para a gente resolver muita coisa”, explicou.
O discurso sintetiza a linha que o carnavalesco costuma adotar: unir uma narrativa de forte impacto simbólico com uma leitura clara para a avenida.
Novo barracão e ganhos na produção
Jack também comemorou a mudança para um barracão mais amplo, que, segundo ele, trará ganhos diretos na execução do projeto plástico.
“É um barracão mais espaçoso. Temos um espaço maior para trabalhar. Estamos com uma disposição melhor nesse, porque o nosso antigo dava um pouquinho mais de dificuldade, principalmente com as alegorias. Vamos ter um ganho em montagem de alegoria”, analisou.
A infraestrutura reforçada é vista como diferencial para otimizar processos e garantir acabamento técnico nas alegorias, quesito sempre determinante na avaliação dos jurados.
Andamento da produção
O carnavalesco revelou que o cronograma está adiantado e dentro do esperado. “O protótipo já acabou. A gente está entrando agora em reprodução e alegoria a gente tá indo para a terceira já, então a gente tá indo bem. Está tranquilo”, afirmou.
Esse ritmo garante ao Tuiuti a possibilidade de ajustes e refinamentos até a reta final de preparação.
Conexão no processo do samba
Outro ponto destacado por Jack foi a construção do samba-enredo, em parceria com Claudio Russo, Gusttaco Clarão e com a entrada de Luiz Antônio Simas.
“A gente se entende muito bem, ele (Claudio Russo) já saca das coisas que eu quero dizer, ele já pega de longe. É uma parada que parece que a gente se conectou em sonho. A gente não chegou a verbalizar, mas a gente se conectou no sentimento, na ideia. Quando o tema é entendido, quando ele é absorvido pelo artista, todo mundo ganha e não tem erro, porque não tem erro em arte”, disse.
Compositores: Silas Augusto, Claudio Russo, Rafa do cavaco, Turko, Zé Paulo Sierra, Fábio Souza, Luis Jorge, Dr. Elio, Charles Silva e Bruno Giannelli
Bará! Mojubá, Agoyê!
Fez da Calunga Grande, Oceano de dendê
Bará ! Mojubá, Agoyê!
É boca que tudo come
É olho que tudo vê
Arreda que Exu abre caminhos
Arreda pra Exu movimentar
Quem duvidar do meu Camisa
Sem Patente ou divisa
Não se mete com Eleguá
Eh Laroyê, eh laroyê
Nos mercados e nas festas escutei a gargalhada
Eh Laroyé, eh laroyê
E no chão da minha escola
Assentei tua morada
Ontem caiu uma pedra lá fora
Que Exu só vai jogar agora
Bota farinha e marafo no padê
Bate paô quero ouvir alupandê
Eu sou da rua macumbeiro sim sinhô
Quem me guarda é Capa Preta Tranca Rua e Marabô
Gira saia pombogira, soberana ela é
Quem carrega uma Padilha sabe a força da mulher
Cemitério é praça linda
Mas ninguém quer passear
Contra todo preconceito
Deixa Nganga trabalhar
E a Barra Funda berço da malandragem
Se espelha na coragem
Do seu Zé e da Navalha
Quem bota fé nesse trevo campeão
Tem “amor ao pavilhão“
E a certeza que a macumba nunca falha
Mojirê Lodê Elegbará
Mojirê Lodê Elegbará
O teu feitiço não me pega nem no tranco
Eu sou mais o Exu catiço
Do Camisa Verde e Branco
A Mocidade Alegre conquistou uma das maiores vitórias de sua história. O evento 24 Horas de Samba, iniciado pelo fundador da agremiação, Juarez da Cruz, nos anos 1970, agora faz parte do Calendário Oficial de Eventos da Cidade de São Paulo (Lei 18.924, de 10 de setembro de 2025). Mais do que um triunfo da Morada do Samba, trata-se de uma conquista para todas as agremiações do carnaval paulistano. Desde 1972, diversas escolas participam da festa, levando grandes shows ao público. Sendo assim, qualquer reconhecimento do poder público deve ser celebrado pelos sambistas da capital. O CARNAVALESCO conversou com dois integrantes da direção de carnaval, que relembraram histórias e comemoraram o feito.
Membro da direção de carnaval, Dudu Teixeira falou sobre o esforço da Mocidade Alegre para manter a festa viva e acolher o público com qualidade.
“Não é apenas para a escola, mas para o samba e para a nossa cultura. É a valorização de quão importante é um evento como esse para a cidade e, principalmente, para a nossa escola, que realiza essa festa. Ela não é fácil de organizar, dá muito trabalho. As pessoas pensam que são apenas 24 horas de samba, como se fosse um dia simples. Mas não é assim: são 24 horas intensas de dedicação. Nada mais justo do que valorizar e coroar o trabalho que a Mocidade consegue manter durante todo esse tempo. Se pensarmos friamente, é quase impossível manter uma festa como essa. Já deixou de ser apenas uma tradição. Agora é oficial”, celebrou.
Dudu destacou ainda a parceria da vereadora Sandra Santana, responsável por apresentar o projeto na Câmara Municipal.
“A escola tem uma grande amiga, a vereadora Sandra Santana, que encaminhou o projeto para que virasse lei. Primeiro, o trâmite seguiu o processo normal, mas acredito que, por acompanhar de perto a nossa escola, ela percebeu o quanto era importante transformar essa data em algo oficial e marcante para a cidade de São Paulo”, declarou.
Ao recordar suas memórias na festa, ele relembrou sua estreia na Mocidade e destacou sua principal lembrança do evento.
“Foi a minha primeira experiência nas 24 Horas em 2016, porque eu vinha de outra escola de samba. Já estava no carnaval há algum tempo, mas nunca tinha vivido isso. Aquela edição me marcou, porque eu não acreditava que fosse possível realizar algo assim. Quando terminou, foram 26 ou 27 horas de festa. Eu dizia para os meus pares: ‘Vocês são malucos!’. É algo impressionante. Pouquíssimas pessoas ficam realmente as 24 horas. Já quem organiza, vive um mês inteiro de preparação. Hoje, quase 10 anos depois, estou aqui, vivendo isso, e é muito bacana”, comentou.
Vitória do carnaval de São Paulo
Outro diretor de carnaval, Ricardo Sonzin, destacou que a oficialização não é apenas uma conquista da Mocidade Alegre, mas de todo o carnaval paulistano.
“Não é uma conquista apenas da Mocidade Alegre, é do carnaval de São Paulo como um todo. É muito gratificante saber que a nossa escola tem esse reconhecimento, importância e valorização dentro da cultura popular da cidade. Sem dúvidas, é fundamental para o nosso samba”, declarou.
Talvez a maior característica do evento seja receber várias coirmãs para apresentações. Só nesta edição, serão oito escolas abrilhantando a festa, sendo duas do Rio de Janeiro – as mais tradicionais da cidade: Portela e Mangueira. O diretor comentou sobre essa troca de amizades que a Mocidade Alegre coleciona.
“É extremamente enriquecedor para o nosso carnaval e para a nossa escola, que se sente cada vez mais vaidosa e respeitada, valorizando as nossas conquistas. Estar aqui, 24 horas falando de samba, homenageando sambistas, abrindo as portas para outras escolas dançarem no nosso terreiro, no nosso palco, e fazerem parte da nossa festa é algo muito especial”, afirmou.
Com 21 anos de Mocidade, Ricardo guarda muitas lembranças, mas aponta como inesquecível a homenagem que será feita em 2025 ao carnavalesco Sidnei França.
“Vou antecipar qual será a minha melhor memória. Nós vamos homenagear e entregar o título de ‘Sambista Imortal’ para o Sidnei França, uma pessoa por quem tenho um carinho imenso. Trabalhamos juntos por muito tempo aqui na Mocidade, construímos muita coisa e acredito que esse será um dos momentos mais marcantes da minha trajetória”, concluiu.
A manhã do último sábado foi de fé, festa e solidariedade em Nilópolis. A Beija-Flor realizou uma carreata em celebração a Cosme e Damião, passando por comunidades como Novo Horizonte, Morro da Mina e Nova Cidade, onde foram distribuídas 3.500 cestas básicas e doces para crianças e famílias. A ação, que já faz parte do calendário social da agremiação, mobilizou integrantes da escola e moradores. Além dos tradicionais saquinhos de doces oferecidos às crianças, as famílias também receberam alimentos.
Foto: Eduardo Hollanda/Beija-Flor de Nilópolis
O presidente da Beija-Flor, Almir Reis, ressaltou a importância da iniciativa. “Essa é uma tradição da nossa escola e um compromisso permanente junto da comunidade. Além dos tradicionais doces de Cosme e Damião, pensamos também nas famílias e, por isso, entregamos cestas básicas. É a forma da Beija-Flor reafirmar seus laços de fé, solidariedade e cuidado com o povo de Nilópolis”, afirmou.
A celebração contou ainda com a presença de Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), de Caio David, presidente do Instituto Beija-Flor, de Mestre Rodney, comandante da bateria da escola, Marco Antônio Marino, diretor de Carnaval, além de outros componentes que acompanharam o cortejo solidário.
Reconhecida como uma das principais referências culturais do Carnaval carioca, a Beija-Flor mantém, ao longo dos anos, o vínculo com sua cidade de origem por meio de ações sociais, reforçando o papel da escola não apenas na avenida, mas também no dia a dia da comunidade.
A manhã do último foi doce para as crianças do Complexo do Alemão e de todas as comunidades que fazem parte da Zona da Leopoldina. No tradicional dia de São Cosme e São Damião, a Imperatriz Leopoldinense e o Instituto Imperatriz fizeram a festa da criançada com a distribuição de 3 mil saquinhos de doces. E além das famosas guloseimas, a Rainha de Ramos também realizou a doação de iogurtes para os presentes.
Foto: Nelson Malfacini/Divulgação Imperatriz
Por volta das 10h30, a quadra da Imperatriz, em Ramos, Zona da Leopoldina do Rio, já estava lotada e com fila dando volta no quarteirão. O presidente do Instituto Imperatriz, João Drumond, ressaltou a importância da data e de cada vez mais ações voltadas às famílias da região.
“É uma tradição do carioca, e a Imperatriz já realiza a atividade há muitos anos. É maravilhoso ver a alegria de cada um que chega aqui cedo, aguarda e sai sorrindo com o seu saquinho de doce. A gente adoça a vida de uma criança e também das famílias que vivem em situações difíceis, e isso é muito especial. Não importa a ocasião: seja Natal, Páscoa ou neste dia, o Instituto Imperatriz tem como objetivo fazer o próximo sorrir e colaborar para a qualidade de vida de todos. Salve a Ibejada”, afirmou João.
A presidente da Imperatriz, Catia Drumond, também participou da ação e destacou o prazer em proporcionar a clássica comemoração:
“É sempre um prazer. Todo ato transforma a vida de muitas famílias. E estamos falando do futuro dessas crianças. Então, a gente espera que todas elas tenham um futuro muito doce. Se cada um fizer sua parte, a lembrança desse momento será pra sempre”.
O Instituto Imperatriz Leopoldinense é uma entidade sem fins lucrativos, que tem como finalidade única promover cidadania, empatia, oportunidade e amor ao próximo.
Segunda escola a se apresentar na segunda noite do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, o Águia de Ouro apresentou de maneira oficial o samba-enredo que embalará o desfile de “Mokum Amesterdã: o voo da Águia à cidade libertária”, assinado pelo carnavalesco Alexandre Louzada, neste sábado (27 de setembro), na quadra da agremiação. A canção é composta por Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Salgado Luz, Lucas Donato, Marcos Vinícius, PH do Cavaco, Duda Juarez, Leandro Flecha, Fábio Gonçalves, Wagner Forte, Cabide e Chico Maia. Presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou personagens importantes para a produção do desfile da azul e branca da Zona Oeste paulistana e traz opiniões e o panorama do evento em geral.
Toda escola tem um processo próprio para escolher o samba-enredo que será cantado pela comunidade. O do Águia de Ouro é ainda mais particular: toda a eliminatória é feita internamente, com a escola apenas anunciando a parceria campeã por meio das redes sociais.
Um dos compositores da obra, Aquiles da Vila, detalhou como aconteceu em 2026: “O Águia de Ouro é sempre um processo diferente, a gente sabe que é diferente. E a gente entendeu que precisava fazer um samba muito específico para o enredo sobre Amsterdam. A escola deixou muito claro que era para falar de uma terra libertária, que falava de diversidade, arte, liberdade de orientação sexual, liberdade com relação à rua da prostituição, uma série de coisas”, destacou.
Para Aquiles, se livrar de um estigma que muitos tiveram quando o enredo foi anunciado foi uma das chaves para que a obra pudesse ser bem recebida pela comunidade e pelo universo do samba paulistano: “Mais do que se apegar ao fato de ser um chamado enredo CEP [ou seja, que fala de uma cidade, um estado ou um país], a gente fez questão de entender as características do que está sendo falado. A gente está falando de um lugar que tem muita liberdade de expressão. Não existe um lugar que combina e conversa mais com o carnaval, um lugar mais democrático do que o nosso carnaval de escola de samba. A gente entendeu dessa forma. Tanto que fazemos um paralelo, no verso do ‘o rei daqui e o rei de lá’. O samba conta essa história: o homem que tem a chave de Amsterdam na mão se abraça com quem é rei na folia. Eles estão de mãos dadas e fazem uma grande festa. O grande pretexto, o grande mote desse enredo é esse”, frisou.
Ar noventista
Muitos dos que tiveram a oportunidade de conhecer a obra antes do anúncio oficial elogiaram a obra por alguns motivos em específico. A canção, bastante animada, tem letra simples e um verso que extravasa a irreverência da maior festa popular do planeta logo no refrão: “Eu vou ficar bem louco nesse carnaval”. A obra inteira, entretanto, lembra sambas-enredo antigos.
Aquiles destacou que, nas reuniões com integrantes da própria escola durante o processo interno para escolha da canção, o objetivo da agremiação era bastante claro: “A gente se reuniu e pensou que o que cabe para esse tipo de tema é uma melodia extremamente leve, gostosa e popular para ser cantada. Era assim que a escola queria e foi assim que a gente levou para as finais. A escola fez um corte, eliminou praticamente metade das peças e, a partir dali, o Águia pediu que fizesse um polimento do samba. A gente fez esse polimento, fizemos uma devolutiva muito rápida e eu acho que a gente acabou sendo muito feliz em relação a isso, atendendo de fato todos os pontos que a escola pediu e que Amsterdam merece”, comentou.
Salgado Luz, outro compositor entrevistado, complementou: “Era exatamente isso que a escola queria. Era isso mesmo: resgatar esse carnaval de antigamente. O enredo pedia isso e a comunidade estava precisando de um samba como esse, daquele tempo do Águia de Ouro quando ensaiava embaixo do Viaduto Pompeia. Foi essa a intenção do nosso time”, relembrou.
Antes de inaugurar a atual e suntuosa quadra, na avenida Avenida Presidente Castelo Branco (uma das pistas laterais da Marginal Tietê), o Águia ensaiava onde hoje está a rua José Benedito Boneli, a cerca de quatrocentos metros de onde atualmente está localizado o Allianz Parque.
Unanimidade
Quando perguntados sobre a parte favorita do samba, todos eles destacaram o refrão de cabeça. Para explicar o motivo pelo qual citou tal trecho, Aquiles relembrou uma das faixas que fizeram a história do gênero samba-enredo – “Festa Profana”, canção eternizada pela União da Ilha do Governador em 1989: “É difícil arriscar, mas eu acho que o refrão de cabeça conta toda a história. É assumir, de fato, o lance do ‘ficar bem louco’, é assumir de fato uma postura da folia. A gente já teve um samba clássico dos anos 1980 no Rio de Janeiro que ‘eu vou tomar um porre de felicidade’, que toca em tudo que festividade hoje. O Águia aposta nisso e não é aleatório: é com o enredo de um lugar que de fato é libertário e aposta na individualidade, na liberdade humana, nas próprias escolhas. A gente vai trazer um ótimo resultado com esse tipo de solução de linguagem de música. É isso que o Amsterdam pede e que o Águia de Ouro vai vestir de fato”, afirmou.
Além de concordar com o parceiro de composição, Wagner Forte revelou um sentimento maior que a gratidão pelo Águia ter escolhido a obra também composta por ele: “São os dois primeiros versos do refrão, mesmo. É o que o Aquiles falou: eu acho que a gente, pensando no samba como um todo, partiu dos dois primeiros versos, que são fundamentais e que resumem o enredo todo. Nós vamos ficar bem louco de carnaval, mesmo. A gente já está louco de felicidade de ter ganho esse samba. Essa escola, para mim, significa muito. A primeira vez que eu desfilei numa escola de samba foi numa comissão de frente do Águia de Ouro, há dez anos. Ganhei a disputa de samba-enredo de 2019 e, agora, ganhei mais um com essa parceria maravilhosa. É fantástico! Eu já estou louco, não sei o que falar, mais. Nem precisa de carnaval, já estou louco desde hoje”, brincou.
Diversão aprovada
Todos os ouvidos pela reportagem tiveram sensações semelhantes em relação ao samba – e isso vai muito além da aprovação da obra. Sidnei Carrioulo Antonio, presidente do Águia de Ouro, abriu a série de impressões: “Eu, particularmente, gostei. Eu não sou de achar que sempre o que é meu é melhor, não. São casos e casos de samba. Eu acho que esse samba é um samba gostoso, é um samba que resgata um pouco a coisa do samba enredo divertido. Para a gente falar desse assunto, o foco não é só Amsterdã: o foco também é liberdade e felicidade. A música nos transporta a esses dois assuntos: liberdade e felicidade. Das pessoas que já ouviram o coro que nós montamos, todo mundo está feliz. Agora, vamos tirar a prova dos nove, na hora que a gente apresentar para toda a comunidade”, destacou.
Carnavalesco da agremiação, Alexandre Louzada deu a entender que a canção pode ganhar todo o carnaval paulistano: “Eu participei de cada pedacinho da escola. Quando eu ouvi pela primeira vez, depois de gravado e depois do samba todo ajeitado, eu fiquei muito encantado. Me fez lembrar os sambas de antigamente, os sambas mais empolgados. A gente vai trazer uma alegria muito grande não só para o Águia de Ouro, mas para o Carnaval de São Paulo”, prometeu.
A tradicionalíssima dupla de intérpretes da escola foi pelo mesmo caminho. Douglinhas Aguiar falou pelos dois: “A gente gostou demais. Eu acho que esse samba resgata a brincadeira do carnaval. É um samba que vai tratar de um assunto que é Amsterdã, uma cidade libertária, uma cidade livre, onde os pensamentos são livres, as pessoas são felizes. Para representar essa cidade, a gente não podia vir com o samba sisudo, para baixo. É um samba muito explosivo e muito alegre”, comentou.
Serginho do Porto complementou com uma analogia repleta de recordações: “É um samba que tem a cara daqueles sambas dos anos 1990, em que você botava o LP ou o CD para tocar, ia embora para a rua, ia para os outros lugares e o samba ficava na sua memória. Esse é o samba do Águia de Ouro para o Carnaval 2026”, finalizou.
Além do samba-enredo
Se o lançamento da obra que embalará o desfile de 2026 era a cereja do bolo, o evento inteiro teve uma série de atrações pertinentes para o mundo do samba. A apresentação das fantasias também era muito aguardada – e trouxe elogios proferidos na quadra, sobretudo quando as alas em específico eram citadas. Também houve apresentações com segmentos da agremiação e, para encerrar a noite, um show com a banda Casa Nossa.