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Casa da Tia Ciata abre programação cultural gratuita de junho

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Foto: Divulgação

A programação de junho da Casa da Tia Ciata movimenta a Pequena África com experiências gratuitas que celebram a memória e as raízes da cultura afro-brasileira. No dia 14, a instituição preparou um roteiro na Região Portuária que une história e celebração. As atividades começam às 11h com o Caminhos de Ciata, percurso guiado pelo Circuito de Herança Africana, que tem como eixo a trajetória da matriarca, importante liderança negra e referência fundamental para a construção cultural, política e social da população negra na cidade. Durante o trajeto, o público conhece de perto os marcos históricos do território e a atuação de personagens essenciais para a preservação das heranças africanas presentes na formação da cultura brasileira.

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A imersão cultural continua com o Samba da Cabaça, que ganha uma edição especial em celebração ao Dia dos Namorados, a partir das 14h, na Rua Tia Ciata, 235. O encontro é uma homenagem à cultura afro-brasileira e celebra tradições que Tia Ciata ajudou a preservar e difundir. Sua casa na Cidade Nova foi palco de encontros culturais que reuniam músicos como Pixinguinha, Donga e João da Baiana, e é reconhecida como berço do primeiro samba gravado, Pelo Telefone (1916/1917).

Ao longo do mês de junho, a instituição oferece uma agenda cultural diversificada com oficinas de capoeira, jongo, gastronomia e a oficina Leitura e Vivências. Ainda em junho, ocorre a estreia da Oficina de Empoderamento da Mulher Negra, voltada à discussão sobre ancestralidade e redes de apoio. As oficinas de empoderamento e de gastronomia tradicional contarão com tradução em Libras.

SERVIÇO

Programação Cultural e Formativa da Casa da Tia Ciata – Junho

14/06 (Domingo)
11h00 – Caminhos de Ciata (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
14h00 – Samba da Cabaça (Endereço: Rua Tia Ciata, 235)

11/06, 18/06 e 25/06 (Quintas-feiras)
14h00 – Passeio Aula (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
15h30 – Oficina de Empoderamento da Mulher Negra com Libras (Endereço: Rua Camerino, 32)

20/06 (Sábado)
08h30 – Caminhos de Ciata (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
10h00 – Oficina de Jongo (Endereço: Rua Camerino, 32)
11h00 – Oficina de Capoeira (Endereço: Rua Camerino, 32)

23/06 (Terça-feira)
14h00 – Caminhos de Ciata (Ponto de encontro: Rua Camerino, 5)
15h00 – Oficina Leitura e Vivências (Endereço: Rua Camerino, 32)
15h40 – Oficina de Gastronomia Tradicional com Libras (Endereço: Rua Camerino, 32)

Velha-Guarda do carnaval carioca é celebrada em solenidade na Câmara Municipal

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Foto: Divulgação

O samba pede passagem para celebrar aqueles que mantêm viva a tradição e a essência do carnaval carioca. Os integrantes da Velha Guarda da Botafogo Samba Clube e da Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (AVGESRJ) foram homenageados na Câmara de Vereadores com moções de reconhecimento na noite da última quarta.

Estiveram presentes na solenidade Sandro Lima, presidente da Botafogo Samba Clube; Almir Frank Teixeira, presidente da ala da Velha Guarda da escola; Jorge Ferreira, vice-presidente da Associação; e o locutor carnavalesco Marcelo Pacífico. A iniciativa da homenagem foi do vereador Leonel de Esquerda (PT).

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A velha guarda é formada pelos membros mais antigos das escolas de samba, carregando consigo a memória e um sentimento que resiste ao tempo. Em geral, reúne sambistas que dedicaram grande parte de suas vidas à agremiação, frequentando ensaios, desfiles, rodas de samba e atividades da comunidade.

Para o vereador Leonel de Esquerda (PT), a homenagem é uma forma de reconhecer a importância do Carnaval como fenômeno popular. “Estamos homenageando quem vem se dedicando à cultura brasileira há décadas. São pessoas que construíram uma história de amor ao samba e irão deixar um legado para as futuras gerações. O Rio tem o melhor Carnaval do mundo graças a essa paixão”, destacou.

Confira a sinopse do enredo 2027 da Lins Imperial

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lins27

LALÚ DE OURO – um Rei Coroado na Folia
Autor: Kitalesi (Arnaldo Roque)
Revisão: Mateus Pranto
Pesquisa, Desenvolvimento, Enredo: Kitalesi (Arnaldo Roque) e Mateus Pranto

Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.

Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.

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Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.

Fui me refazendo em outros ritmos.

Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.

Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.

Atravessei mais uma vez o mar.

Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus… Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.

Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som — sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha… Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.

No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros… Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:

“Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do ‘Paraíso’, na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de “Rei de Ouro”! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia ‘um chá… dançante’ em minha casa. (…) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (…) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores.”

E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava — se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.

Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.

Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.

E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.

Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!

REFERÊNCIAS
ACERVO SOCIOAMBIENTAL. Povos indígenas no Brasil: documentação histórica e socioambiental. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/03L00030.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP). Uma história do samba: as tias e o avô do samba. Disponível em: https://namidia.fapesp.br/uma-historia-do-samba-as-tias-e-o-avo-do-samba/241298. Acesso em: 4 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Como um valentão criou uma nova forma de pular o carnaval. Disponível em: https://temas.folha.uol.com.br/100-anos-de-samba/a-historia-que-a-rua-escreveu/como-um-valentao-criou-uma-nova-forma-de-pular-o-carnaval.shtml. Acesso em: 4 maio 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê: Matrizes do samba no Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.
LOPES, Nei. Dicionário social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
LIRA NETO. Uma história do samba. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PAULA, Célia Regina Silva de. Práticas discursivas e identidade cultural no samba. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://www.pplinuerj.com.br/sipos/administracao/tesesedissertacoes/documentos/DissertacaoCELIAREGINASILVADEPAULA2.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PEÇANHA, João Carlos de Souza. O samba como expressão de identidade nacional: cultura, política e memória. 2013. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/15715/1/2013_JoaoCarlosdeSouzaPecanha.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PERRAUT DA SILVA, Natan. Entre tradição e espetáculo: transformações nas escolas de samba contemporâneas. 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/bitstream/1/23273/2/Dissertação%20-%20Natan%20Perrout%20da%20Silva%20-%202024%20-%20Completa.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PORTAL TERRA. A origem do casal que representa uma escola de samba: mestre-sala e porta-bandeira. Disponível em: https://www.terra.com.br/amp/story/diversao/a-origem-do-casal-que-representa-uma-escola-de-samba-mestre-sala-e-porta-bandeira,0f412a364434a1c62cd6fa4c56fca7795muhvcmr.html. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PARANÁ (UNESPAR). O samba e suas dinâmicas musicais contemporâneas. Revista Vórtex, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/vortex/article/download/9676/7204/41499. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA). “Me chamo Elizeth Cardoso. Sou uma cantora brasileira.”: notas sobre a trajetória da Divina (1936–1965). Salvador: UFBA, [s.d.]. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/35002/1/“Me%20chamo%20Elizeth%20Cardoso.%20Sou%20uma%20cantora%20brasileira.”%20Notas%20sobre%20a%20trajetória%20da%20Divina%20%281936-1965%29.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). O samba e a construção da cultura popular no Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/906.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF). Carnaval, identidade e cultura urbana no Brasil. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, [s.d.]. Disponível em: https://www.historia.uff.br/stricto/td/1806.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
LALÚ DE OURO – um Rei Coroado na Folia

Autor: Kitalesi (Arnaldo Roque)
Revisão: Mateus Pranto
Pesquisa, Desenvolvimento, Enredo: Kitalesi (Arnaldo Roque) e Mateus Pranto

Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.

Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.

Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes Iás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.

Fui me refazendo em outros ritmos.

Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia.

Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.

Atravessei mais uma vez o mar.

Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de Iemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus… Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade, fizeram-me ogã. Lalú de Ouro.

Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som — sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha… Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.

No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros… Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:

“Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do ‘Paraíso’, na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de “Rei de Ouro”! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia ‘um chá… dançante’ em minha casa. (…) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (…) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores.”

E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava — se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.

Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.

Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.

E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.

Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!

REFERÊNCIAS
ACERVO SOCIOAMBIENTAL. Povos indígenas no Brasil: documentação histórica e socioambiental. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/03L00030.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP). Uma história do samba: as tias e o avô do samba. Disponível em: https://namidia.fapesp.br/uma-historia-do-samba-as-tias-e-o-avo-do-samba/241298. Acesso em: 4 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Como um valentão criou uma nova forma de pular o carnaval. Disponível em: https://temas.folha.uol.com.br/100-anos-de-samba/a-historia-que-a-rua-escreveu/como-um-valentao-criou-uma-nova-forma-de-pular-o-carnaval.shtml. Acesso em: 4 maio 2026.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Dossiê: Matrizes do samba no Brasil. Brasília: IPHAN, 2007.
LOPES, Nei. Dicionário social do samba. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
LIRA NETO. Uma história do samba. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PAULA, Célia Regina Silva de. Práticas discursivas e identidade cultural no samba. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, [s.d.]. Disponível em: https://www.pplinuerj.com.br/sipos/administracao/tesesedissertacoes/documentos/DissertacaoCELIAREGINASILVADEPAULA2.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PEÇANHA, João Carlos de Souza. O samba como expressão de identidade nacional: cultura, política e memória. 2013. Tese (Doutorado em História) – Universidade de Brasília (UnB), Brasília, 2013. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/15715/1/2013_JoaoCarlosdeSouzaPecanha.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
PERRAUT DA SILVA, Natan. Entre tradição e espetáculo: transformações nas escolas de samba contemporâneas. 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/bitstream/1/23273/2/Dissertação%20-%20Natan%20Perrout%20da%20Silva%20-%202024%20-%20Completa.pdf. Acesso em: 4 maio 2026.
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Socorro Acioli conhece de perto o projeto da Tijuca e se encanta com releitura de sua obra

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Vestindo a camisa do enredo da Unidos da Tijuca, a escritora cearense Socorro Acioli participou do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no fim da tarde desta quarta-feira. O evento, mediado por Ramón Nunes Mello e Suzana Vargas, reuniu grande público e contou com a presença de integrantes da agremiação no Salão de Leitura da Biblioteca do CCBB. A escola marcou presença em peso: o diretor de carnaval, Gabriel Mello; o carnavalesco, Lucas Melato; o primeiro casal, Marcinho Siqueira e Cris Caldas; os enredistas, Thayssa Menezes e Leandro Thomaz; e as coreógrafas da comissão de frente, Bruna Lopes e Ariadne Lax, acompanharam o encontro dedicado à escritora de “A Cabeça do Santo”, obra que inspira o desfile do Carnaval 2027.

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No evento, a autora contou a trajetória do romance: a história nasceu de um recorte de jornal que vasculhava em busca de uma ideia para enviar ao escritor Gabriel García Márquez, cuja oficina, “Como Contar um Conto”, em Cuba, ela havia conseguido integrar em 2006.

Entre os recortes, encontrou uma matéria sobre uma estátua de Santo Antônio inacabada na cidade de Caridade, no Ceará. A cabeça da escultura havia ficado no chão por décadas, e o detalhe de que um homem, identificado como “vagabundo”, chegara a morar dentro dela foi o que lhe deu o personagem central do livro.

Acioli falou também sobre o contato com o universo do samba. “Hoje passei uma tarde vendo todos os recursos que a Tijuca está compondo e criando para contar a mesma história de uma maneira muito maior e muito melhor do que o que eu fiz”, disse. “O samba sabe contar história muito melhor do que a literatura. Na verdade, somos nós que temos que aprender com o samba e com a escola a contar história direito”.

O carnavalesco Lucas Melato se emocionou ao dirigir-se à autora. “Hoje, aqui na frente da Socorro, eu tenho a certeza da boa escolha e da excelente autora que a gente vai homenagear. É um privilégio levar a sua história para o maior espetáculo da Terra”, afirmou.

O encerramento contou com uma homenagem surpresa: o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos da Tijuca, Marcinho Siqueira e Cris Caldas, apresentou-se para que Socorro Acioli pudesse reverenciar o pavilhão da agremiação. A noite foi encerrada com uma sessão de autógrafos, na qual o público recebeu dedicatórias em “A Cabeça do Santo” e em “Oração para Desaparecer”.

Salgueiro 2027: leia a sinopse do enredo

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RITUAL DE EVOCAÇÃO

LAROYE, MOJUBÁ! ARREDA QUE AI VEM MULHER!

CHEGO NA FRENTE, ABRO OS CAMINHOS, ABENCOADA PELA FORÇA DA TRANSFORMAÇÃO. SOU A GARGALHADA INSUBMISSA QUE ECOA NUM CORPO EM TRANSE. GIRO A SAIA VERMELHA E O VENTO ARRASTA AS FALSIDADES DO PASSADO. QUE PRAZER BAIXAR DE NOVO NESTE TERREIRO SAGRADO, O CHAO NO QUAL MEU NOME FICOU CONHECIDO MUNDIALMENTE.

PEÇO LICENÇA PARA ME APRESENTAR NESTA GIRA, ONDE SAÚDO A ANCESTRALIDADE QUE ME SUSTENTA E TRAGO COMIGO A POTÊNCIA TRANSGRESSORA DO FEMININO.

SALVEM TODAS AS MARIAS! CONVOQUEM TODAS AS MULHERES DA ACADEMIA, BAIANAS E PASSISTAS. DESPERTEM A ENERGIA DE PAMBUNJILA, A SENHORA DAS ENCRUZILHADAS, QUE HABITA O ÍNTIMO DE CADA UMA DE NÓS. E ENERGIA DINÂMICA E VITAL, QUE DESAFIA A NORMA E ESCREVE NA MARRA SEU NOME NA HISTÓRIA, EXATAMENTE COMO EU FIZ.

NÃO ME DEIXARAM DESCANSAR NO SILENCIO DO APAGAMENTO E TAMBEM JAMAIS SABERIA ME CONTER. ME ENCANTEI COM UM CORPO À MARGEM, COMO SEMPRE FUI, VÍTIMA DE ESTIGMAS E DE FALÁCIAS COMO TODA A FALANGE DA RUA. ME FAÇO PRESENTE NO CORPO EM TRANSE, FORÇA LIBERTÁRIA CONTRA O SISTEMA PATRIARCAL.

COM QUAL ROSTO VOCÊ SE LEMBRA DE MIM? PROVAVELMENTE NO CORPO DAS MINHAS MENINAS QUE ME DERAM VIDA. A CADA ENCRUZILHADA DO TEMPO, FIZ DA PASSARELA E DOS ESTÚDIOS A MINHA PRÓPRIA GIRA, BAIXEI NAS FOLIAS CARNAVALESCAS, NOS PALCOS E NAS TELAS, ELEGI “CAVALAS” DE EBANO E GRAÇA, A QUEM DEI FAMA E PODER, MANIFESTANDO A POTENCIA TRANSFORMADORA QUE CADA POMBA-GIRA CARREGA EM SI.

APÓS TANTO TEMPO SOB O JULGAMENTO DOS OUTROS, ENCARNO NOVAMENTE NOS HOLOFOTES. É HORA DE COLOCAR UM PONTO FINAL NAS MENTIRAS MORALISTAS SOBRE OS MEUS PASSOS. CHEGA DE DETURPAR A MINHA IMAGEM E ME REDUZIR A UM MERO FETICHE. AGORA, TODOS VÃO OUVIR QUEM EU REALMENTE FUI.

SALGUEIRO, É NOITE DE GIRA! EM TRANSE, DE PÉ NO CHÃO BATIDO, EU MESMA FALO POR MIM! A FORÇA DE UMA EXU-MULHER ME GARANTIU, ENFIM, O DIREITO PLENO AO VERBO NESTES NOVOS TEMPOS. ME TRAGAM BOM FUMO, ROSAS PARA ME ENFEITAR, UM PADE FARTAMENTE PREPARADO, FRUTAS VERMELHAS E UM MARAFO DE EXCELENTE PROCEDÊNCIA. QUERO MUITAS SAIAS RODANDO NO TERREIRO, O FOGO QUEIMANDO TODA A MALDADE!

DOBREM OS ATABAQUES, DEIXEM A GIRA COMER SOLTA, PORQUE EU VOU ME DEMORAR POR AQUI E SO VOLTO PARA O SILENCIO DO ORUM QUANDO A ÚLTIMA-LINHA DA MINHA HISTÓRIA ESTIVER ESCLARECIDA. GARGALHO NA CARA DE QUEM TENTOU ME APAGAR, POIS SOU O MITO QUE NÃO ACEITA O ESQUECIMENTO. MEU NOME, NEM A PRÓPRIA MORTE, TEVE A AUDACIA DE ESQUECER.

ATO 1 – A LENDA DA XICA QUE MANDA

NUNCA FUI DE ACEITAR QUE AS VONTADES DOS OUTROS ME FOSSEM IMPOSTAS, MUITOS ACHAVAM QUE EU ERA ABUSADA E ARROGANTE, TANTO QUE ME DERAM UM APELIDO IRONICO DE “XICA QUE MANDA”. FOI ASSIM QUE SURGIRAM AS PRIMEIRAS FALÁCIAS SOBRE MIM. QUANDO COMEÇARAM A CONTAR QUEM EU TINHA SIDO, DISSERAM OS DOUTORES DO PRECONCEITO QUE EU “NÃO POSSUÍA GRANDE BELEZA”. GARGALHEI. PARA IMPEDIR QUE A MENTIRA SE ESPALHASSE, SOPREI MEUS SEGREDOS NO OUVIDO DE ARLINDO RODRIGUES, TRANSFORMANDO-O EM UM DOS MEUS CAMBONOS MAIS FIÉIS, INCORPOREI DIANTE DAS ARQUIBANCADAS LOTADAS NA PRINCIPAL ENCRUZILHADA DA CIDADE, ENTRE A AVENIDA PRESIDENTE VARGAS E A RIO BRANCO. FIZ DO ASFALTO O MEU TERREIRO PARA RETORNAR EM GLÓRIA. EXIGI O REQUINTE ABSOLUTO: ADEREÇOS MONUMENTAIS E A NOBREZA PRETA EM MOVIMENTO. TODOS SE FASCINARAM COM O LUXO E O BOM GOSTO QUE ARLINDO PREPAROU. ME SENTI NOVAMENTE PODEROSA COMO OSTENTEI NO MEU VELHO TIJUCO.

AO ALVORECER, “O SOL IA ALARANJADO O CEU, RECORTANDO A IGREJA DA CANDELÁRIA NUMA SILHUETA BELÍSSIMA”. UMA MULTIDÃO EM TRANSE ME APLAUDIU E CANTOU AQUELE “OOOOO” EM UNÍSSONO PARA ME EVOCAR, NA LINDA MELODIA DO PONTO ESCRITO POR ANESCARZINHO E NOEL ROSA DE OLIVEIRA. NOS PASSOS MARCADOS POR MERCEDES BAPTISTA, MUITOS NEGROS DO MORRO TAMBÉM VIRARAM NOBRES AO SOM DE UM HISTORICO MINUETO. OCUPEI O CENTRO DAS ATENÇÕES, NO CORPO DA MINHA ESCOLHIDA: ISABEL VALENÇA: SENTIMOS UMA FORTE TRANSFORMAÇÃO AO ESTAMPARMOS AS MANCHETES DE JORNAIS E AS CAPAS DE REVISTAS. ME TORNEI A XICA QUE MANDA, DO POVO, DESLUMBRANDO A SOCIEDADE, UMA MULTIDÃO QUE CANTAVA POR NÓS, SEJA NA RUA, NAS FESTAS, NOS PALÁCIOS E ATÉ NOS ESTÁDIOS, FOMOS ATE AO ESPLENDOR DO TEATRO MUNICIPAL. LA, NO PALCO DA ELITE, MINHA MÉDIUM SALGUEIRENSE TEVE QUE SER ACEITA COMO EU. ENFRENTOU OS PRECONCEITOS DE QUE “NEGRA DE ESCOLA DE SAMBA” NÃO PODIA ESTAR NO MUNICIPAL. FOMOS ELEITAS O DESTAQUE PRINCIPAL. IMPONENTES, MAJESTOSAS E INVEJADAS.
FASCINANDO A TODOS COM PEDRARIAS E BORDADOS, COM O GLAMOUR QUE EU IMAGINAVA NOS MEUS SONHOS COLONIAIS.

NO ESPLENDOR EFUSIVO DAQUELA MANHÃ DE CARNAVAL, PLANTEI A SEMENTE NO MEU PRÓXIMO CAMBONO: UM JOVEM CINEASTA PROMISSOR. PARA ME INCORPORAR, ELEGI UMA TIGRESA DE UNHAS NEGRAS E IRIS COR DE MEL. EU ME CHAMO XICA, MAS NAS TELAS DO CINEMA, VOCE PODE CHAMAR DE ZEZE, MUITO PRAZER! AO ME VER RENASCIDA NAQUELE CORPO RETINTO, RASGUEI AS ROUPAS DA SERVIDÃO MAIS UMA VEZ. CORRI RISONHA COMEMORANDO A LIBERDADE, NUMA CORTE CERCADA DE BELAS MUCAMAS. ERA UMA SÚDITA LIVRE DA CORDA PORTUGUESA E ESCANDALIZEI DE NOVO A SOCIEDADE. SERVI UM BANQUETE ESPECIALMENTE PREPARADO PARA OS PORCARIAS QUE NÃO GOSTAVAM DE MIM. OSTENTEI BELAS PERUCAS, CADA UMA DE UMA COR, E DEIXEI O CONTRATADOR DE DIAMANTES DE QUATRO, DE CALÇAS CURTAS, RENDIDO AOS MEUS CAPRICHOS. COM AQUELE SUCESSO DE BILHETERIA, FIZ COM QUE O MUNDO ME CONHECESSE.

O MEU NOVO PONTO DE EVOCAÇÃO ERA PROVOCATIVO COMO A MINHA VERSÃO CINEMATOGRÁFICA, NAS BATIDAS ALQUÍMICAS DE BENJOR. XICA DÁ, XICA DÁ… EU DEI, MAS ACABEI MAIS DESPIDA DO QUE QUERIA, EMBALADA PELA LIBERDADE SEXUAL DAQUELES TEMPOS. PARA OS OLHOS MORALISTAS, NOS, POMBAS-GIRAS, SEMPRE SOMOS MAL-INTERPRETADAS. ALGUM TEMPO DEPOIS, PRECISEI GARGALHAR DE NOVO! DECIDI INVADIR O PRINCIPAL PRODUTO AUDIOVISUAL BRASILEIRO PARA ALCANÇAR OS LARES DO PAIS. MINHA VIDA EM FORMA DE FOLHETIM SE ENCHEU DE CLICHES SEM SUTILEZAS. ABUSARAM DO MANIQUEISMO BARATO, ME TORNANDO SÁDICA E PERVERSA, CAUSANDO UM REBULIÇO QUE SE TORNOU UM DOS MAIORES SUCESSOS DE AUDIÊNCIA.

EXIGI QUE ME CHAMASSEM DE SINHA, COLOQUEI OS ESTRUPÍCIOS DE JOELHOS. PARA SEDUZIR, FIZ MANDINGAS, SAUDEI OS ORIXÁS, BUSQUEI RESGUARDO NOS QUILOMBOS E SERVI FEIJOADAS MUITO SABOROSAS. MAIS UMA VEZ, O MORALISMO BRANCO E A INQUISIÇÃO ME PERSEGUIRAM IMPLACAVELMENTE. BRILHEI COM A JUVENTUDE DE TAÍS, ME TRANSFORMEI EM ANJO, DIABO E MULHER. PORÉM, TUDO ACABOU SE REDUZINDO AO SEU ENTÃO JOVEM CORPO. SENTI-ME VIOLADA E ME AFASTEI DOS HOLOFOTES. RECOLHI MINHA ENERGIA E PROMETI QUE SÓ RETORNARIA QUANDO FOSSE EU PARA DITAR A MINHA PROPRIA VERSÃO.

ATO II – PRAZER, FRANCISCA DA SILVA

CANSADA DAS FALÁCIAS, COMECEI A ABRIR OS BAUS DO TEMPO E REVELEI MEUS DOCUMENTOS A JÚNIA FURTADO, HISTORIADORA PRESTIGIADA. ASSIM NASCEU O OUTRO LADO DO MITO. CHEGOU A HORA DE ESCLARECER ALGUNS FATOS, MOSTRAR QUE MINHA PERSONALIDADE IA PARA ALÉM DE SUPOSTOS CAPRICHOS E PARAR DE SER REDUZIDA AOS MEUS ATRIBUTOS FÍSICOS. REVELEI SOBRE MINHA ORIGEM E A MINHA DESCENDENCIA. DO LADO MATERNO, HERDEI A FORÇA E CORAGEM DAS MULHERES DA COSTA DA MINA, REGIÃO EXUBERANTE EM ÁFRICA. JÁ MEU PAI ERA UM CAPITÃO DA COLÔNIA, TRAZENDO EM MIM A MARCA DE UMA MISCIGENAÇÃO COMPULSÓRIA. VIM AO MUNDO NA SIMPLICIDADE DO ARRAIAL DO MILHO VERDE, TERRA ONDE A EXTRAÇÃO DE DIAMANTES PROSPERAVA SOBRE AS DORES E CONHECIMENTOS DOS POVOS NEGROS.

LOGO CEDO, PERCEBI AS REGRAS DO JOGO COLONIAL. AS RELAÇÕES NÃO ERAM SÓ SOBRE AFETO, MAS UMA FORMA DE NEGOCIAR ALGUMA DIGNIDADE EM MEIO A DUREZA DOS TRÓPICOS. NÃO FUI A ÚNICA, QUANDO FUI “COMPRADA” PELO MÉDICO MANUEL SARDINHA, ME SENTI MAIS UMA EM MEIO AQUELE MUNDO DE HOMENS QUE USAVAM SEU PODER À FORÇA. DESCRITA SEM SOBRENOME, REDUZIDA A UM OBJETO: FRANCISCA PARDA. MINHA VIDA FINALMENTE MUDOU QUANDO EU CONHECI O CONTRATADOR, NÃO DEMOROU PARA QUE ELE ME PRESENTEASSE COM A ALFORRIA, MUITO PODE SE ESPECULAR, MAS O QUE VIVEMOS NOS QUINZE ANOS QUE PASSAMOS JUNTOS SÓ SABEMOS NA INTIMIDADE DO NOSSO QUARTO. NÃO HÁ O QUE LEVANTAR SOBRE NOSSO RELACIONAMENTO, AFINAL, FORAM TREZE FILHOS EM NOSSO PERÍODO JUNTOS, TODOS RECONHECIDOS LEGALMENTE POR-ELE. SE EU PASSEI TANTO TEMPO GRÁVIDA, COMO PODERIA SER TÃO INSACIÁVEL COMO DISSERAM?

A PARTIR DA RIQUEZA DE JOÃO FERNANDES, IMAGINEI UMA OUTRA VIDA POSSÍVEL PARA ALÉM DAS IMPOSIÇÕES QUE FAZIAM SOBRE MIM. NO CONVÍVIO COTIDIANO, FUI MÃE DEDICADA E DEVOTA DA IGREJA. ME TORNEI SENHORA. DONA FRANCISCA DA SILVA DE OLIVEIRA. NA VIDA SOCIAL DO TIJUCO, TORNEI-ME UMA MECENA DAS ARTES, PATROCINEI APRESENTAÇÕES TEATRAIS, FINANCIEI MÚSICOS E BANQUEI OS FESTEJOS SAGRADOS POPULARES, OS CATOPES. COMPREI MINHA INFLUENCIA COBRINDO AS IRMANDADES RELIGIOSAS COM PROVENTOS E ESMOLAS. NUNCA FUI COADJUVANTE, MAS SIM A DONA DA FESTA. AFINAL, HAVIAM LIMITES PARA JOGAR COM OS PODEROSOS E SER ACEITA? LIMITES QUE VALIAM A MINHA SOBREVIVÊNCIA? MESMO COM A PARTIDA DO CONTRATADOR PARA PORTUGAL, MANTIVE O PODER FIRME NAS MINHAS MÃOS. PREOCUPADA COM O FUTURO DE MEUS FILHOS, FIZ QUESTÃO DE DEIXAR MEU TESTAMENTO ASSINADO PARA ETERNIZAR MINHAS VONTADES. NELE, AFIRMEI MINHA FÉ INABALÁVEL, USANDO AS FERRAMENTAS DA IGREJA CATÓLICA COMO INSTRUMENTOS POLÍTICOS DE PROTECÃO PARA OS MEUS.

DOS QUATORZE FILHOS QUE PARI, DEIXEI MINHAS JÓIAS AS MINHAS MENINAS, PARA QUE ARRANJASSEM BONS CASAMENTOS. MAIS DO QUE ISSO, GARANTI QUE TODAS APRENDESSEM O SABER DA ESCRITA, UMA AUDÁCIA PARA AS MULHERES DAQUELA ÉPOCA. AOS FILHOS HOMENS, O MEU CONTRATADOR GARANTIU UMA BOA EDUCAÇÃO, TENDO TODOS FREQUENTADO AS UNIVERSIDADES DE LISBOA E ASSUMIDO CARGOS MILITARES. SEMPRE ACREDITEI NA EDUCAÇÃO COMO RECURSO DE TRANSFORMAÇÃO. ACOMPANHEI, ORGULHOSA, OS PASSOS DO MEU PRIMOGÊNITO COM O SENHOR SARDINHA. SIMÃO SE FORMOU EM ARTES E ESTUDOS NATURAIS NAS PRESTIGIADAS ACADEMIAS LUSITANAS, FOI UM DOS PIONEIROS NO ESTUDO DA PALEONTOLOGIA NO PAÍS E TAMBÉM FOI IMBUÍDO DOS IDEAIS DA INCONFIDENCIA MINEIRA, COM UMA CORAGEM QUE EU LHE DEI DE HERANÇA.

NO FINAL DOS MEUS DIAS, RECOLHI-ME NO CONVENTO DE CONCEIÇÃO DAS MACAUBAS. ADMIRANDO AS ESCULTURAS BARROCAS E SACRAS, ROGUEI AO ROSÁRIO. ME VIA DIANTE DA IMAGEM DE SANT’ANA TRANSMITINDO O SABER À JOVEM MARIA, RECONHECENDO O MEU COMPROMISSO COM AS MINHAS FILHAS. TAMBÉM ME ESPELHEI NA FORÇA DA MÁRTIR SANTA QUITERIA, POR QUEM EU TINHA DEVOCÃO ESPECIAL. POR QUE EU NÃO HAVERIA DE SER TAMBÉM UMA DIVINDADE? POR QUE NÃO PODERIA ME VESTIR COM ORNAMENTOS DE OURO E RECEBER OS PEDIDOS DOS AFLITOS? EM VIDA, SEGUI OS RITOS DA IGREJA POR DEVOÇÃO E ASTÚCIA, APÓS DESENCANTAR, ENCONTREI O ORUM GRAÇA AO TOQUES DOS ATABAQUES. NAS RELIGIDES QUE CULTUAM SEUS ANCESTRAIS, SÓ O MISTÉRIO DAS ENCRUZILHADAS SERIA CAPAZ DE ABRIGAR A IMENSIDÃO DA MINHA LIBERDADE. A CADA GIRA, EU RENASÇO.

RECONHECI NA FALANGE DAS POMBAS-GIRAS A FORÇA E CORAGEM QUE SEMPRE TIVE COMIGO. MAS, SOBRETUDO, ENCONTREI AQUI, NA FORÇA DAS ESCOLAS DE SAMBA, O LUGAR PARA CONTAR A MINHA VERDADE E REVELA-LA PARA O MUNDO. VOLTO A ESTE CHÃO QUE ME CONSAGRA. SINTO QUE CHEGOU O TEMPO DEFINITIVO DE SER VISTA, REINTERPRETADA POR NOVOS OLHARES E CELEBRADA COMO INSPIRAÇÃO PARA AS MULHERES QUE CONTINUAM NA LUTA.

SIGO SEM RETRATOS PINTADOS PELA BRANQUITUDE, PORQUE MEU ROSTO SE RENOVA A CADA INCORPORAÇÃO. SAIBAM QUE NUNCA FUI UMA SO: FUI MUITAS, SEMPRE REESCRITA, REVIVIDA, CELEBRADA, MAS NUNCA ESQUECIDA. NEM MESMO ACREDITO QUE ESSA SEJA UMA VERSÃO DEFINITIVA SOBRE A MINHA HISTÓRIA, POIS SIGO EM CONSTANTE MUDANÇA. AGRADEÇO AOS QUE AGORA CUMPREM A.MISSÃO DE ME FAZER NOVAMENTE PRESENTE. NO TOQUE FURIOSO DOS TAMBORES E NO CANTO DA NOSSA GENTE, MINHA HISTÓRIA NOVAMENTE SE TRANSFORMA. SIGO ZOMBANDO, GIRANDO NO MEIO DA RUA, COMPLETAMENTE EM EXTASE.

NESTA GIRA, QUERO TODOS FORMOSOS, DANCANDO E GOLEANDO COMIGO. FESTEJEM, POIS É UMA ALEGRIA REENCARNAR EM UM DIA DE FOLIA!

CHEGOU A HORA DE TOMAR MAIS ESSA ENCRUZILHADA. GARGALHANDO, ME DESPEÇO.
ARREDA QUE AÍ VEM SALGUEIRO. LAROYE!

PSICOGRAFADO PELO CAMBONO LEONARDO ANTAN.
UM ENREDO DE LEONARDO ANTAN E JORGE SILVEIRA.
COM COLABORAÇÃO DE ALLAN BARBOSA E RICARDO HESSEZ.
CONSULTORIA DE SAMARA MIRANDA.

AGRADECEMOS AQUELES QUE ANTES DE NÓS AJUDARAM A MANIFESTAR ESSA ENTIDADE NA CULTURA BRASILEIRA: ARLINDO RODRIGUES, NELSON DE ANDRADE, FERNANDO PAMPLONA, LAILA, NOEL ROSA DE OLIVEIRA, ANESCARZINHO, MERCEDES BAPTISTA, PAULA DO SALGUEIRO, HAROLDO COSTA, CACA DIEGUES, WALCYR CARRASCO, WALTER AVANCINI, JOAQUIM FELÍCIO DOS SANTOS, CARLOS RIPPER. A OUTRAS QUE OUVIRAM O CANTO DE XICA: CECILIA MEIRELES, JUNIA FURTADO, ANA MIRANDA, ZEZE MOTTA, ISABEL VALENÇA E TAIS ARAUJO.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Street Music celebra parcerias e força do samba em participação no Conasamba 2026

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streetmusic

A Street Music foi um dos destaques do Conasamba 2026, encontro nacional que reuniu representantes de escolas de samba, ligas carnavalescas, artistas, compositores, dirigentes e profissionais da indústria do entretenimento neste final de semana, na Fábrica do Samba, em São Paulo.

Com estande próprio durante o evento, a empresa recebeu importantes personalidades do universo do samba e do Carnaval, apresentando seus projetos, ampliando sua rede de relacionamentos e fortalecendo parcerias estratégicas para os próximos anos. Reconhecida por seu trabalho na produção, distribuição e comercialização de conteúdo musical nas principais plataformas digitais, a Street Music vem consolidando sua atuação como uma das principais editoras especializadas no segmento carnavalesco do país.

Entre os grandes cases de sucesso da empresa estão os álbuns oficiais dos sambas de enredo da Série Ouro, do Rio de Janeiro, e da UESP (União das Escolas de Samba Paulistanas), em São Paulo. Projetos que alcançam milhares de ouvintes anualmente e desempenham papel fundamental na valorização e preservação da cultura do samba. Durante o Conasamba, a Street Music também confirmou a continuidade dessas importantes parcerias para o Carnaval 2027.

Para Wallace Palhares, presidente e fundador da Street Music, a participação no evento representa mais um passo importante na expansão da marca e no fortalecimento das conexões dentro do setor.

“Participar do Conasamba foi uma experiência extremamente positiva. Tivemos a oportunidade de apresentar nosso trabalho para profissionais de diversas regiões do país, trocar experiências e fortalecer relacionamentos que são fundamentais para o crescimento do mercado do samba. A Street Music acredita na união de todos os segmentos que fazem o Carnaval acontecer, e eventos como esse são essenciais para aproximar pessoas, ideias e oportunidades”, destaca Wallace.

O executivo também ressaltou a importância das parcerias construídas e renovadas durante o encontro.

“Saímos do Conasamba com a certeza de que estamos no caminho certo. Além de reencontrar grandes parceiros, tivemos conversas muito produtivas que resultarão em novos projetos para os próximos carnavais. A renovação das parcerias com a Série Ouro e a UESP para 2027 reforça a confiança no trabalho que desenvolvemos e amplia nossa responsabilidade de continuar entregando produtos de qualidade para o público e para as agremiações”, completa.

Sobre a Street Music
A Street Music é uma produtora e editora musical especializada em produção, distribuição e gestão de conteúdo artístico para plataformas digitais. Com forte atuação no universo do samba e do Carnaval, a empresa é responsável por impo

ABAC levou arte e formação profissional ao maior congresso do samba

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Foto: Laura de Souza/Divulgação

O oitavo Congresso Nacional do Samba (CONASAMBA) foi realizado na Fábrica do Samba, em São Paulo, reunindo cerca de 3 mil participantes ao longo de quatro dias de programação. Considerado o maior encontro voltado ao desenvolvimento do samba e do Carnaval brasileiro, o evento promoveu debates, apresentações e intercâmbios de experiências entre gestores, pesquisadores, dirigentes, artistas, instituições e profissionais da economia criativa de diversas regiões do país.

Com o tema “Por uma escola de samba de todos e todas, construindo pontes com o mundo”, o congresso discutiu temas relacionados à gestão, inovação, sustentabilidade, formação profissional e políticas públicas para o setor, reforçando o papel das escolas de samba como importantes agentes culturais, sociais e econômicos.

Entre os destaques da edição esteve a participação da Academia Brasileira de Artes Carnavalescas (ABAC), que apresentou ao público uma exposição de peças produzidas por artesãos do Carnaval carioca. Presidida por Milton Cunha, a instituição destacou seu trabalho voltado à preservação da memória carnavalesca e à qualificação profissional do setor, por meio de cursos, oficinas e ações formativas coordenadas pela vice-presidente Célia Domingues.

Segundo Célia, a presença da entidade no congresso representou uma oportunidade de apresentar as iniciativas desenvolvidas pela ABAC desde sua criação e reafirmar seu compromisso com o fortalecimento do Carnaval. Para a exposição, a instituição levou uma coleção de souvenires inspirados no universo carnavalesco.

Realizado na Fábrica do Samba, espaço que abriga os barracões das escolas do Grupo Especial paulistano, o CONASAMBA transformou o maior complexo de produção carnavalesca da América Latina em um centro de debates, formação, negócios e troca de experiências ligadas ao universo do samba, consolidando-se como um dos principais fóruns de discussão e desenvolvimento do Carnaval brasileiro.

CARNAVALESCO lança bolão da Copa do Mundo 2026 com representantes das escolas do Grupo Especial do Rio

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Além da rivalidade saudável que marca o carnaval carioca, os representantes das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro terão um novo desafio nos próximos meses. O CARNAVALESCO promoverá um bolão especial da Copa do Mundo de 2026, reunindo dirigentes e personalidades das agremiações em uma disputa que promete movimentar os bastidores do samba durante a principal competição do futebol mundial. O campeão receberá uma taça exclusiva, além de um almoço ou jantar no restaurante Patota, tradicional ponto de encontro do samba na Vila Isabel. O segundo e o terceiro colocados também serão premiados. Novos brindes serão anunciados ao longo da competição.

Participam do campeonato Marcelinho Calil, presidente da Viradouro; Marquinho Marino, diretor de carnaval da Beija-Flor; mestre Macaco Branco, da Vila Isabel; Wilsinho Alves, diretor de carnaval do Salgueiro; Thiago Santos, diretor de carnaval e harmonia da Imperatriz Leopoldinense; Dudu Azevedo, diretor de carnaval da Mangueira; mestre Casagrande, da Unidos da Tijuca; mestre Fafá, da Grande Rio; Bruno Valle, diretor executivo do Paraíso do Tuiuti; Junior Escafura, presidente da Portela; Bryam Clem, diretor executivo da Mocidade Independente de Padre Miguel; e Alexandre Chueri, diretor de alegorias da União de Maricá.

A competição acontecerá por meio de um site, onde cada participante deverá registrar seus palpites para os jogos da Copa do Mundo antes do início de cada partida. Os resultados poderão ser alterados até o apito inicial dos confrontos. A responsabilidade pelo preenchimento dos palpites será de cada participante. Após cada rodada ou dia de competição, o CARNAVALESCO divulgará em suas redes sociais o ranking atualizado da disputa, permitindo que o público acompanhe a evolução da classificação.

Como funciona a pontuação

O sistema de pontuação do bolão é composto por seis níveis de acerto. Quem cravar o placar exato recebe 25 pontos. Quanto mais próximo do resultado final da partida, maior será a pontuação obtida.

Durante a fase mata-mata da Copa do Mundo de 2026, a pontuação será dobrada. Assim, um placar exato passará a valer 50 pontos. As partidas com pontuação especial serão identificadas com o selo “x2” na plataforma.

Nos jogos que forem para a prorrogação, será considerado o resultado ao final dos 120 minutos de jogo. As disputas por pênaltis não entram na contagem do placar válido para o bolão.

A classificação geral será definida pela soma dos pontos conquistados ao longo de toda a competição. Ao término da Copa, será declarado vencedor o participante que acumular a maior pontuação.

Em caso de empate, os critérios de desempate seguirão a seguinte ordem: maior número de placares exatos, maior quantidade de acertos de vencedor com gols do vencedor, saldo de gols, gols do perdedor, vencedor correto e, por fim, a ordem de entrada no bolão.

Com representantes de todas as escolas do Grupo Especial do Rio envolvidos na brincadeira, a disputa promete ser tão acirrada quanto os desfiles na Marquês de Sapucaí. Afinal, se no Carnaval cada décimo faz a diferença, na Copa cada gol também pode valer uma posição no ranking.

Águia da Portela ganha chapéu Panamá em homenagem a Monarco

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Foto: Divulgação/Portela

A Portela apresentou uma atualização especial em sua marca para o Carnaval 2027. A tradicional águia da escola ganhou um chapéu Panamá em homenagem a Monarco, tema do enredo “Ao mestre, com carinho”, do carnavalesco Paulo Barros. A atualização foi desenvolvida pela equipe de comunicação da Portela a partir de uma ideia de Gabi Carneiro e Gil Lira. A versão final foi construída em diálogo com a Direção de Carnaval e incorpora elementos da identidade visual do enredo de Paulo Barros.

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Coordenador de Comunicação e Imprensa da Portela, Pedro Henrique Leite, destacou que o processo reflete a valorização da equipe e a integração entre os setores da escola.

“Esse processo mostra a importância de abrir espaço para que todos possam criar, propor e contribuir com seus talentos. A comunicação da Portela é construída de forma coletiva, com uma gestão de carnaval e presidência que valorizam nosso departamento. Nosso objetivo comum é fazer a marca dialogar com este novo momento da Portela, sem perder a força, a história e o protagonismo que ela carrega”, afirma.

Portela 2027: leia a sinopse do enredo

Em 2027, a azul e branca será a primeira escola a desfilar na terça-feira de Carnaval, na Marquês de Sapucaí, com o enredo “Ao mestre, com carinho”, em homenagem ao baluarte Monarco.

Encontro na Conasamba promove reflexão sobre imprensa e os caminhos do carnaval brasileiro

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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

No último sábado, terceiro dia da CONASAMBA, foi realizado o encontro “Ouvindo quem nos ouve: a imprensa, os ativistas e os pesquisadores”, reunindo profissionais da comunicação, pesquisadores e personalidades influentes na cultura e na economia do Carnaval. Entre os participantes da mesa esteve o editor-chefe do CARNAVALESCO, Alberto João, que apresentou um panorama da trajetória do portal e compartilhou sua visão sobre os rumos do Carnaval na atualidade. Também participaram do debate a jornalista do Grupo Bandeirantes, Thaís Dantas; a tesoureira da ESA (Escolas de Samba Associadas), Aline Vieira; e o babalorixá Rodney William, que abordaram temas relacionados à comunicação, cultura, ancestralidade e desenvolvimento do setor carnavalesco. O encontro foi marcado por reflexões relevantes e pela participação do público, que fez perguntas aos convidados e contribuiu para um debate tão produtivo que ultrapassou o tempo previsto pela organização da Fenasamba. A equipe do CARNAVALESCO acompanhou a atividade e reúne, a seguir, os principais destaques das falas dos participantes.

Portal referência no carnaval

Alberto João destacou sua trajetória e a importância do CARNAVALESCO, além do crescimento do carnaval carioca. O jornalista enfatizou sua preferência pelo modelo de jornalismo baseado em texto, apesar do enfraquecimento desse formato nos últimos anos.

“De 2018 para cá, é impressionante o que o CARNAVALESCO se tornou. Estamos em tudo, principalmente no Instagram. Só que, para mim, isso não é uma cobertura essencialmente jornalística, mas de entretenimento. Apesar de muita gente não gostar, eu sou do modelo de texto. Acredito que ele deixa marcas. Uma grande entrevista em formato de ‘pingue-pongue’ fica registrada. Claro que um vídeo com a Selminha Sorriso, por exemplo, será muito legal, mas acaba sumindo no feed. A busca nas redes sociais é muito ruim. Temos uma equipe de cerca de 30 pessoas no Rio de Janeiro, mas já chegamos a ter 150. Nosso objetivo é formar profissionais com o olhar do CARNAVALESCO, pensando nos nove quesitos. Ninguém é dono da verdade. Erramos e acertamos, mas essa é a nossa essência”, disse.

Ao exaltar a CONASAMBA, o editor-chefe ressaltou a importância da troca de conhecimentos sobre o Carnaval entre diferentes cidades, mas foi firme ao comentar a ausência da Liesa nos quatro dias de evento promovidos pela FENASAMBA.

“Quero parabenizar a FENASAMBA por realizar um evento como este. Não é fácil. Minha mensagem hoje é que nós, sambistas, somos muito pessimistas. A galera que lutou lá no início sofreu por nós. O Carnaval chegou à classe média e à classe alta, mas não podemos esquecer de onde ele veio. Essas pessoas precisam ser enaltecidas. Eu lamento que a Liesa não esteja aqui. Ela tem que participar. É a mãe de todas as escolas de samba. Não estar aqui é soberba, é achar que está acima de todos. Ela precisa ser querida por todos os sambistas. Também temos que parabenizar o carnaval do Sul do país. Estou impressionado com a quantidade de desfiles na região. Podem contar sempre com o CARNAVALESCO”, declarou.

Questionado sobre as verbas destinadas ao Carnaval pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, Alberto João foi enfático ao afirmar que é fundamental que o Carnaval carioca esteja vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, e não à Riotur.

“O Carnaval deveria estar na Secretaria de Cultura, e não na Riotur. Na questão dos blocos, São Paulo tomou de assalto o Rio de Janeiro; até Belo Horizonte parece que ficou maior. Tem que ter ambulância, só pode aquela cerveja… Aquele carnaval de rua que era livre acabou”, completou.

História dentro do audiovisual

Thaís Dantas contou sua trajetória como jornalista, especialmente no Carnaval. Ela afirmou ter participado de iniciativas importantes, como a transmissão dos desfiles do Grupo de Acesso e do Desfile das Campeãs pela TV Cultura, em parceria com a TV Globo, em 2004. Além disso, revelou ter contribuído para o recente acordo entre a Band e a Liga-SP para a transmissão do Grupo de Acesso.

“A minha história com o Carnaval começou ainda na infância. Meu pai foi diretor de produção da TV Globo por 32 anos e também atuou em projetos especiais no estado de São Paulo, entre eles o Carnaval. Admirando o trabalho dele, formei-me em Jornalismo em 2001 e passei a acompanhar de perto diversas personalidades do Carnaval paulistano. Seu Basílio, Zulu e tantos outros frequentavam a minha casa. Lembro da construção do Sambódromo do Anhembi e de grandes acontecimentos que a mídia tradicional não acompanhava. Nós começamos a participar desse processo e a levar grandes marcas para o Carnaval. A partir daí, passei a enxergá-lo com profissionalismo, e não apenas como um evento social”, explicou.

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Atuante na televisão, a jornalista revelou ter coordenado a transmissão da TV Cultura dos desfiles do Grupo de Acesso e do Desfile das Campeãs, fruto de um acordo firmado com a TV Globo.

“Foi feito um acordo entre a TV Cultura e a Globo para a transmissão do Carnaval de 2004. A Globo ficou com o Grupo Especial, enquanto a Cultura transmitiu o Grupo de Acesso e o Desfile das Campeãs. Como eu já trabalhava na Cultura e conhecia o Carnaval, prontifiquei-me a coordenar a transmissão. Naquele ano, São Paulo comemorava seus 450 anos, o que tornava ainda mais simbólica a exibição pela TV Cultura. Foi uma parceria muito bacana e que se repetiu por alguns anos. Quando a TV Globo percebeu que a iniciativa poderia gerar concorrência, a parceria foi encerrada e eu voltei aos bastidores”, contou.

Thaís revelou que, apesar de morar longe atualmente, nunca deixou de pensar no Carnaval paulistano. Segundo ela, teve papel importante na aproximação entre a Band e a Liga-SP para a transmissão do Grupo de Acesso neste último Carnaval.

“Hoje estou na TV Bandeirantes, em São José dos Campos, mas, mesmo distante, queria ajudar o Carnaval de alguma forma. Sempre incentivei as pessoas a valorizarem o Carnaval de São Paulo. Insisti para que houvesse uma conversa e reuni representantes da Liga-SP e da Band para discutir a transmissão do Grupo de Acesso I. Eu imaginava um contrato inicial de apenas um ano, mas o Seu Johnny sugeriu um acordo de três anos. Depois disso, surgiu o desafio de desfilar em todas as escolas e nasceu o projeto ‘No Ritmo Delas’, que foi abraçado pela Bandeirantes”, concluiu.

Respeito aos idosos

Rodney William, babalorixá e integrante da mesa de debates, ressaltou a importância das velhas guardas e dos idosos dentro do Carnaval. Segundo ele, os componentes dessa ala precisam ser mais valorizados e melhor tratados dentro do espetáculo.

“Tenho trabalhado com idosos em territórios ligados ao candomblé e encontrei a possibilidade de mostrar que a velha guarda não representa apenas a resistência de uma escola de samba, mas também o núcleo de preservação da ancestralidade. A partir daí, iniciamos uma pesquisa para entender se o samba promove o respeito a essas pessoas e de que maneira isso acontece. Talvez as escolas de samba ainda não tenham dimensão de que possuem a responsabilidade de transformar a sociedade. Esses corpos que estão ali, sambando e resistindo, precisam de bem-estar. Pensando especialmente nos idosos, nas velhas guardas e nas baianas, reunimos profissionais de diferentes áreas, incluindo a comunicação, para produzir reflexões e dados sobre o tema”, disse.

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O babalorixá também afirmou sentir falta da valorização que as velhas guardas recebiam antigamente, quando tinham papel de destaque na abertura dos desfiles.

“A velha guarda apresentava as escolas de samba como guardiã da ancestralidade. Com o tempo, e muito por conta da lógica financeira, que acaba destruindo coisas belas, passamos a ter um Carnaval em que tudo precisa obedecer a cronogramas e critérios que descaracterizam parte da tradição. Hoje parece natural que a velha guarda desfile no último carro alegórico, porque tudo é muito acelerado. Se estivéssemos no ritmo dos anos 1970, isso não seria um problema”, afirmou.

Suporte à cultura

Entre os participantes da mesa, Aline Vieira foi uma das mais críticas. Ela questionou a forma como as escolas de samba são vistas pela sociedade, muitas vezes apenas como entretenimento.

“O que fazemos dentro das comunidades muitas vezes não é reconhecido pelo poder público. O Carnaval não pode ser visto apenas como entretenimento. Ele não começa em janeiro, mas logo após o término do desfile anterior. Pensar o Carnaval é muito mais do que pensar no desfile. Às vezes, os mais novos têm dificuldade para ouvir os mais velhos, e vice-versa. Acho que parte do problema está aí. Há um samba de Paulo César Pinheiro que fala da saudade do samba de antigamente, aquele que deixava uma vaga tristeza no peito. Será que o samba é apenas uma cerveja no fim de semana? Não. A escola de samba não é apenas aquele barracão efervescente que vemos próximo ao desfile.”

Tesoureira da ESA (Escolas de Samba Associadas), de Belém, Aline explicou sua função dentro do Carnaval.

“Qual é o meu papel no Carnaval e na minha cidade? Trabalho há mais de dez anos com política cultural. Atuo com leis de incentivo, artesãos, compositores e pessoas que muitas vezes não enxergam seu talento artístico como profissão, embora ele seja. Quem produz adereços, artesanato ou composições para o Carnaval é um artista. Minha principal habilidade é oferecer suporte a essas pessoas por meio da cultura”, declarou.

Aline também criticou a comunicação do Carnaval, especialmente os efeitos dos algoritmos das redes sociais. Segundo ela, há muitas iniciativas acontecendo pelo Brasil que permanecem desconhecidas do grande público. A dirigente revelou ainda que está desenvolvendo um trabalho inovador em Belém.

“Percebi que existe muita coisa acontecendo no Carnaval brasileiro, mas nós não nos conhecemos e não dialogamos o suficiente. Temos as redes sociais, mas há um algoritmo que limita esse alcance. Em Belém, estamos construindo uma virada de chave. Nosso presidente, Guga, vem do audiovisual e também do meio empresarial. A comunicação de hoje é muito intuitiva. Nós decidimos parar de falar sobre Carnaval apenas para quem faz samba e passamos a dialogar também com recepcionistas de hotéis, motoristas de aplicativo e outros profissionais. Precisamos aprender a levar essas informações de forma correta para toda a população”, finalizou.