Por Diogo Cesar Sampaio
A Acadêmicos do Sossego surpreendeu a muitos em sua chegada a Série A em 2017. Ao apresentar um desfile em homenagem à atriz Zezé Motta, a escola do Largo da Batalha, em Niterói, conseguiu assegurar sua permanência no grupo, além de ter deixado um belo cartão de visitas. Porém, no carnaval seguinte, após enfrentar graves problemas nos bastidores para 2018, a agremiação fez um desfile muito aquém do apresentado no ano anterior, e teve como consequência, o último lugar na apuração. No entanto, a escola acabou escapando do descenso após decisão da Lierj em cancelar o rebaixamento, devido à virada de mesa no Grupo Especial.
Com uma segunda chance em mãos, o Sossego buscou reforços, mexeu em sua equipe, e apostou em jovens promessas para não repetir os erros de 2018. Entre os nomes está o do carnavalesco Leandro Valente, que estreou na função no Porto da Pedra em 2013, mas que chamou atenção nos últimos anos pelos seus mais recentes trabalhos na Tradição. Em entrevista a reportagem do CARNAVALESCO, o presidente da agremiação, Wallace Palhares, comentou a chegada do artista e de outros nomes a azul e branca de Niterói.
“O Leandro Valente é um carnavalesco maravilhoso. Ajudou demais a escola. Ideias incríveis. Um carnavalesco que trabalha em qualquer tipo de situação, a gente é muito grato por tudo que ele está fazendo. Ele está em casa, e sabe disso. O Sossego hoje, não só a presidência, acredita muito que tanto ele, como também o Guto, nosso intérprete, vão decolar. É isso que desejo para eles, que sejam reconhecidos merecidamente, até porque estão fazendo um belíssimo carnaval”, declarou Wallace.
Sobre o enredo de 2019 “Não se meta com a minha fé, acredito em quem quiser”, o presidente da Sossego afirma ter sido concebido em conjunto, pela presidência, direção e carnavalesco. Wallace ainda resalta a importância da temática e diz o que mais chama sua atenção nela.
“O enredo foi uma proposta em grupo. A gente já estava com essa ideia mesmo. Sempre temos a ideia de o Sossego mexer também um pouco com as questões sociais, com as questões individuais, a fé de cada um… A gente vive em um país laico e queremos cada vez mais dar um grito de liberdade religiosa. Queremos acreditar em quem a gente quiser, e sem sofrer interferência por isso. E o que mais me impressiona nesse enredo é que, mesmo sendo um tema já bem batido falar sobre as religiões de matriz africana no carnaval, você sempre tem gente para poder tacar pedra. Um país formado em sua maioria por negros, com uma cultura rica, e a gente sofre esse tipo de preconceito. Sempre tem uma gracinha ou alguma indireta sobre alguma coisa contra as religiões de matriz africana. Falam que é macumba, tratam de uma maneira pejorativa. Então temos de lidar ainda com essa dor de cabeça, por incrível que pareça”, afirmou.
O presidente da agremiação contou como a escola lidou com os erros do desfile de 2018, e a posição ingrata que terminou a última apuração. Ele falou também sobre como a criatividade é fundamental, ainda mais em um momento de forte crise que o carnaval carioca enfrenta, com atrasos e cortes de verba, além da total falta de apoio dos órgãos públicos da cidade do Rio à festa.
“O grande trunfo da Sossego é a comunidade que está mordida. Todo mundo da comunidade sabe o quanto foi difícil colocar o carnaval passado na rua. Nós tivemos também um corte de verba no meio do jogo, tivemos problemas com ateliê, com fantasia, com fornecedor, com o carnavalesco… E esse ano mexemos em tudo, reparamos todos os erros do carnaval anterior, trabalhamos em cima disso, para não repetir as mesmas falhas. Nós encontramos força em tudo que a gente sofreu no ano que passou, para poder dar a volta por cima. Desde março estamos trabalhando, buscando materiais alternativos. Nosso abre-alas é todo feito em copinhos reciclados de café, usamos a pintura por cima. Então a gente está respirando o carnaval, de fato, em sua essência”, garantiu.
Entretanto, apesar da crise, o Sossego promete fazer seu maior carnaval na Série A até agora. Com carros maiores e mais volumosos, a escola pretende causar um impacto visual. Para isso, recorrerá também a efeitos de Parintins em suas esculturas. Quanto aos números, o abre-alas, apesar de não ser acoplado, chegará a mais de 25 metros de comprimento. Já no quesito altura, chama atenção a escultura principal do segundo carro, que representa o santo católico não canonizado Jesús Malverde, que chega a medir mais de 11 metros e contará com movimentações.
“O Sossego vem se estruturando. É complicado você chegar da Intendente de Magalhães. Até você ganhar uma estrutura leva tempo. Diferente das escolas que estão há mais tempo na Série A e já conseguiram chassis, a gente ainda está procurando se estruturar. Mais uma vez conseguimos chassis novos, estruturamos e colocamos o carnaval mais para cima (se referindo à altura dos carros e das esculturas para o próximo desfile). O que mais dificulta é isso, ainda mais em um ano de corte. Mas nós nos programamos cedo, começamos o carnaval em março e penamos. Trabalhamos muito para poder colocar na rua um carnaval com maior grandiosidade. Todas as alegorias tem movimento. A gente até brinca que no carnaval do Sossego é o Festival de Parintins, tudo tem que se mexer. Embora o terceiro carro ainda não tenha um movimento, eu já estou atiçando a equipe de Parintins para colocar movimento nele”, disse Wallace.
E esse maior investimento em estrutura, em plena crise do carnaval, só pode ser possível também graças ao apoio recebido pela escola da prefeitura de Niterói. A administração do município, através da Neltur, foi responsável por dar um aporte financeiro de 4 milhões de reais para as agremiações da cidade, sendo desse total R$ 500 mil destinados para o Sossego.
“A verba que a Sossego recebeu da Prefeitura de Niterói faz uma diferença. A situação poderia estar melhor se a Prefeitura do Rio não fizesse esse corte covarde, e sempre no meio do jogo. A gente começa a fazer carnaval e é surpreendido já quase no fim dos preparativos de que ia ter corte. A ajuda da Prefeitura de Niterói é muito bem vinda, o governo da cidade está visando fortalecer cada vez mais as escolas que vem de lá para o Rio, para poder honrar o nome de Niterói, e eu só tenho a agradecer”, assegurou.
Polêmica com escultura
Na semana passada, a Acadêmicos do Sossego se viu envolvida em uma polêmica, após o vazamento de uma foto de uma das esculturas que a agremiação levará para o desfile de 2019. Na escultura é representada a figura de um demônio com a cara do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB). Após a rápida repercussão nas redes sociais, a escola emitiu uma nota negando qualquer intenção de retratar o prefeito, apesar da semelhança.
Durante a visita ao barracão da agremiação pela reportagem do CARNAVALESCO, novamente, o presidente Wallace Palhares rechaçou a ideia de que a escola tinha a pretensão de retratar Crivella como um diabo.
“Peço perdão pela maneira de falar, o tom meio jocoso, mas eu até costumo falar para o pessoal do barracão, quem tem medo de cagar não come. Carnaval é liberdade poética. É para botar a cara mesmo, falar das mazelas da sociedade, do descaso dos governantes… Eu não mandei fazer Crivella. As pessoas estão associando… Se ficou parecido lamento muito, tenho muito pesar”, disse o presidente.
Wallace ainda garantiu que a Sossego já está preparada caso seja judicialmente impedida de desfilar com a escultura de Crivella como demônio. Apesar de não revelá-lo, o presidente garante que há um “plano B”:
“A escola tem um plano B sim. A gente pensa em tudo. Se a escola for proibida de levar a escultura para a avenida, mesmo que a ela não seja uma representação do prefeito propriamente, a escola está preparada para isso”, falou.
Entenda o desfile
A Sossego levará para Sapucaí em 2019 cerca de 1800 componentes, divididos em 22 alas e 4 carros alegóricos. O presidente da escola destrinchou um pouco do que será apresentado em cada setor do desfile.
Setor 1: “O primeiro setor a gente vem falando da razão e da emoção, ambas no âmbito da fé. A primeira alegoria é um barco da humanidade, numa menção de que todos nós estamos no mesmo barco, seguindo a mesma direção, não importa a sua religião”.
Setor 2: “No segundo carro, e no segundo setor como um todo, a gente faz uma alusão ao narrador do enredo. É um enredo que é até bem diferente, que não traz um protagonista, mas sim um narrador que é o Jesús Malverde. Um personagem um pouco polêmico, um santo não reconhecido pela Igreja Católica, que é saudado pelos narcotraficantes do México. Sendo assim, a gente traz o seguinte questionamento: Jesus Cristo é também saudado por vários traficantes, como São Jorge também é, e as pessoas tem fé mesmo assim. A gente quer isso: a liberdade religiosa”.
Setor 3: “Logo na terceira alegoria trazemos o templo do “Budalorixá”. A gente faz uma brincadeira do que seria a religião do brasileiro. Um país onde a maioria se diz católico, mas tem um Buda ou uma Shiva dentro de casa, ascende um incenso, e quando aperta a situação vai a um terreiro de Umbanda ou de Candomblé”.
Setor 4: “No último setor a gente traz na última alegoria o que seria um terreiro quebrado e um anjo. Um anjo que seria do mal, que aponta para os outros, que critica a religião do próximo, que alega que só a dele que está certa, que a verdade dele é absoluta… A gente traz essa reflexão no último setor. Carrascos da fé, colonizadores com embarcações chegando para catequizar o índio, forçando a esses nativos a adotarem uma fé que não é dele. A gente retrata tudo isso nesse último setor, fechando o desfile”.


A ala de compositores da Beija-Flor de Nilópolis realiza uma grande festa nesta sexta-feira, dia 8 de fevereiro, a partir das 22h. A agremiação da Baixada Fluminense receberá todos intérpretes do Grupo Especial na ‘’Noite dos Campeões de Samba-Enredo’’. Além da apresentação de cada cantor da elite do carnaval carioca acompanhado pela bateria da azul e branca, o evento ainda conta com um show do Cordão da Bola Preta. A quadra da escola fica na rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025, em Nilópolis. O ingresso custa R$ 15.
O Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, abrigará, neste sábado, um dia inteiro de atividades com a Portela. A programação, que começa às 9h30, inclui debate, sessão de autógrafos, oficina de percussão, exibição de filmes e roda de samba. A entrada é gratuita.
Os tamborins da Rede Windsor começam a esquentar o carnaval 2019 a partir do próximo dia 09 de fevereiro, quando acontece a já tradicional feijoada pré-carnavalesca do Windsor Barra. Neste ano, o evento traz pela primeira vez a participação especial da Escola de Samba Beija-Flor. Atual campeã do carnaval carioca e detentora de 14 títulos na Sapucaí, a escola também já está confirmada para a feijoada carnavalesca do hotel, no dia 02 de março.
Vice-campeã do carnaval de 2017 e uma das favoritas para 2019, a Dragões da Real
“A gente está tão envolvido com o tempo que não percebemos o quanto ele pode ser
“Eu gosto muito porque é o setor mais popular, que nisso aí o meu amigo Paulo Barros é mestre. Ele entende que o telespectador precisa ter uma leitura imediata da coisa,
“Nós estamos em Janeiro né, das cinco alegorias eu tenho três já embaladas. Estou terminando a forração do abre-alas e estou construindo o carro dois. O nosso tripé da comissão de frente também está pronto, tem detalhes que só vou fazer lá na frente. Em questão das fantasias, 70% já estão fechadas, tenho uma equipe que cuida exclusivamente disso, que é o Ronny Potolski e o Danilo Dantas, eles tem essa responsabilidade de visitar ateliê, vê as necessidades de material, etc. Então estamos muito tranquilos em relação a isso. Posso afirmar que mais de 75% do carnaval já está pronto”.
“A expectativa sempre atrapalha. Quando você gera uma grande expectativa e ela está um décimo abaixo do esperado, você já decepciona. Eu não me preocupo com isso, a direção da escola também não se preocupa com isso. O presidente Tomate deixa claro que classificação não é o mais importante, importante é você construir um bom trabalho, gerar tranquilidade, gerar economia pra escola e dar o retorno que o público e o componente estão esperando”.
“Eu acho que o resultado positivo no carnaval de São Paulo depende de uma série de
“A gente abre com um convite ao espectador a entrar na mecânica do tempo, o nosso abre-alas é a mecânica de um relógio. É como se tivéssemos trazendo o folião pra dentro dessa máquina com a presença da figura do Deus Cronos. Em cada setor do desfile da Dragões eu to trabalhando com uma estética diferenciada. Trabalho com steampunk na abertura”.
“No carro três eu falo do grande anseio da comunidade em querer manipular o tempo, passado, presente e futuro, a máquina do tempo pra ser mais objetivo. Aqui eu trago uma leitura mais POP, trago uma máquina do tempo mais popular e trago esse
“Eu fecho com tempo mais importante pra nós que trabalhamos com carnaval, que são os nossos 65 minutos. Tudo aquilo que é visto antes, tudo que se passa anteriormente vai se resumir no mais importante tempo que a gente ta levando. Então a síntese de todo esse trabalho de um ano ta ali nesse pequeno espaço de tempo pra ser
“Eu entrei no carnaval pelas mãos do Max Lopes, que era amigo pessoal do meu
Foi protocolado na última segunda-feira, na Câmara dos Deputados, Projeto de Lei que faz com que o Estado brasileiro reconheça as escolas de samba como “manifestação da cultura nacional”, exigindo que o Poder Público garanta a livre atividade das entidades e a realização de seus desfiles carnavalescos. É o Projeto de Lei 256/19, de autoria da deputada federal Maria do Rosário (PT-RS). A autora ressalta a importância artística, cultural e social das escolas de samba.
O projeto multi-plataforma Carnavalize inaugura dia 8 de fevereiro, a partir das 17 horas, a exposição “Uma delirante celebração carnavalesca: o legado de Rosa Magalhães” que homenageia uma das mais importantes carnavalescas da história das escolas de samba. Reunindo um time diverso de artistas das mais diferentes áreas, entre o carnaval e as artes institucionalizadas, que pensam a importância e a personalidade do universo artístico construindo pela carnavalesca em seus desfiles ao longo de mais de trinta anos de carreira.
A semana será especial na Unidos de Vila Isabel! Neste sábado, dia 09 de fevereiro, a partir das 22h, a azul e branca retoma os seus ensaios comerciais rumo ao Carnaval 2019. O evento conta com uma roda de samba como abertura e a apresentação de todos os segmentos da agremiação na sequência. O intérprete Tinga comanda o time de canto da Vila e entoa os grandes sambas da história da escola. A entrada custa R$ 10. Camarotes podem ser adquiridos através do telefone: (21) 2578-0077. A quadra da Vila fica no Boulevard 28 de setembro, 382.
O ditado popular a primeira impressão é a que fica define a sensação de entrar no apartamento de Kennedy Meirelles, fã e colecionador de itens da cantora Clara Nunes, que é enredo da Portela no Carnaval 2019. No chão são mais de 100 itens espalhados, entre eles, revistas, discos de vinil e CD’s, que formam um verdadeiro tapete na sala de estar. Em uma das paredes há uma televisão de 70 polegadas exibindo clipes, entrevistas e programas especiais falando da vida profissional e pessoal de Clara Nunes. E na outra parede, em frente à televisão, estão pendurados dois quadros. Uma pintura de J. Vieira feita em 2000, trazendo a imagem de Clara como na capa de seu último LP, Nação, de 1982, vestida de branco com um arranjo de flores na cabeça. Ao lado deste está emoldurado um dos discos de ouro da cantora que, segundo Kennedy, ela não chegou a receber.
As notícias da internação e da morte estão plastificadas e fazem parte do acervo do colecionador, que continuou conhecendo a vida de Clara Nunes por meio de algumas coincidências. No dia em que a “Guerreira” faleceu, Kennedy tinha apenas 11 anos e estava brincando no Aterro do Flamengo. Quando se deu conta, estava de frente com o cortejo que levava o corpo da cantora para o cemitério São João Batista, após ter sido velado na quadra da Portela. Kennedy não chegou a ir ao enterro, mas a família do colecionador tem um jazigo no mesmo cemitério, onde estão enterrados os pais e a irmã, inclusive, foi a partir do cemitério que a coleção começou a ganhar força.
Como não existiam muitas peças nas lojas, Kennedy formou a maior parte da sua coleção com artigos encontrados em sebos, brechós, vendedores ambulantes que trabalham nas calçadas do Rio, principalmente, nos bairros da Gloria, Praça XV, Copacabana e Centro. A coleção dele tem aproximadamente 2 mil itens, entre revistas, CD’s, discos, fitas cassetes, recortes de jornais, fotografias, quadros e cerca de 8h de conteúdo audiovisual. Em 2016, a caminho do trabalho em Copacabana, Kennedy passou pela galeria dos antiquários, na Rua Siqueira Campos, e decidiu entrar. Subindo a escada rolante, viu de relance dois discos de ouro pendurados na parede de uma loja que alugava e consertava equipamentos. Ao se aproximar, carregava consigo o pensamento: ‘imagina se fosse um disco da Clara?’. E na frente da loja viu o selo da gravadora Odeon, única gravadora que assinou contrato com a cantora. Entrou no estabelecimento e confirmou suas expectativas, aquele disco era mesmo de Clara. O disco ao lado era em homenagem a Raul Seixas. Não pensou duas vezes ao adicioná-lo a sua coleção e, como bom colecionador, Kennedy não revelou o valor que pagou pelo disco que, para ele, é incalculável.
A música que mais marcou Kennedy Meirelles foi “Tristeza pé no chão”, do compositor Armando Fernandes e interpretada por Clara com tamanha maestria, que lhe rendeu o título de campeã do 5º Festival de Música Popular Brasileira de Juiz de Fora, em 1972. Ele explica que essa música ao ser lançada não tinha grandes expectativas, mas acabou surpreendendo a crítica. Clara Nunes tinha influência e contato com nomes consagrados da era do rádio. Ela dizia gostar de ouvir as cantoras Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Ângela Maria e Carmen Costa. “Elizeth é meu espelho, minha referência. Em dias chuvosos, ponho para tocar discos com Elizeth. É uma grande honra ser amiga dela”, falou a cantora em entrevista à Rádio Jornal do Brasil AM, em 1973.
O colecionador relata que ouvir Clara Nunes é uma espécie de meditação, é o momento que destina a pensar na vida. Além da voz, Clara também tinha na família um pai violeiro e era a caçula de 7 irmãos, todos já falecidos. Kennedy acabou conhecendo Maria, irmã de Clara, apelidada de Dindinha. Foi ela que passou a tomar conta da, então pequena cantora, órfã aos 6 anos de idade. Kennedy teve dois encontros com Dindinha. O primeiro deles, em 2001, quando foi até Acari para a inauguração da Vila Olímpica Clara Nunes, onde a conheceu. O outro encontro foi uma surpresa que aconteceu no antigo apartamento dele, em 2004, no bairro de Copacabana, na Rua Belfort Roxo. Um amigo em comum levou Dindinha até a casa de Kennedy, junto dela estava Márcio Guima, sobrinho de Clara e também cantor. Kennedy descobriu algum tempo depois que este prédio havia abrigado a residência da cantora assim que ela veio morar no Rio de Janeiro nos anos 60.
Clara Nunes chegou a se apresentar com Vinicius de Moraes e Toquinho em um espetáculo chamado “Poeta Moça e Violão”, no ano de 1972, registrado em disco. Neste show, Clara foi elogiada por Vinicius e apontada como um dos maiores nomes da música popular brasileira. “O timbre, a qualidade do tecido da voz dela me encantava de saída e eu senti que um dia nós deveríamos trabalhar juntos. Realmente é a primeira vez que isso acontece, para grande contentamento meu. É com prazer enorme que eu trago para vocês Clara Nunes. Eu gostaria que vocês tivessem o sentimento que eu tenho quando eu ouço ela cantar. Acho uma das maiores cantoras brasileiras do momento e uma das que tem mais possibilidade de fazer uma grande carreira, um grande caminho na canção popular do Brasil”, disse Vinicius na época.
Com tamanho sucesso, o que mais incomodou Kennedy e outros fãs foi a falta de menções da imprensa sobre a cantora após a morte, ainda mais na época que não havia internet que permitisse o acesso às imagens e músicas de Clara Nunes, de acordo com demanda de cada fã. “Chorei várias vezes ao ver que a ela não era lembrada por programas como o Vídeo Show, por exemplo. Era certo que no dia do aniversário e de falecimento eu assistia televisão na esperança de ver um pouco mais da história dela, assistir umas imagens, vê-la cantar, matar um pouco da saudade, mas muitas vezes não tinha nem um comentário”, lembrou.
A inspiração veio da sala de estar do casal. Havia uma Nossa Senhora Aparecida com um manto azul e branco, junto dela a pomba do Espirito Santo. Com a criatividade o manto tomou lugar da bandeira da agremiação, a pomba virou águia e as procissões foram comparadas aos desfiles na Avenida.
Ele também tem as filmagens dos ensaios do show Sabiá Sabiou que não chegou a acontecer. Clara recebeu uma série de homenagens póstumas. De programas especiais na TV Globo e coletâneas reeditadas, a inúmeros CD’s como Clara com vida (1995), que trazia uma série de duetos póstumos da “Sabiá” com nomes da música como Chico Buarque, Elba Ramalho, Gilberto Gil, João Bosco, João Nogueira, Marisa Gata Mansa, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Paulinho da Viola, Roberto Ribeiro, Ângela Maria e Alcione, que além dessa participação, lançou em 1999 um álbum chamado Claridade (homônimo do lançado por Clara em 1975) em que interpretava as músicas de Clara Nunes.