Por Matheus Mattos
Diante de um cenário onde escolas de samba comercializam enredos, a Águia de Ouro vem na contramão, aborda em seu desfile um tema que crítica as situações de abuso de poder e se posiciona sobre as corrupções presentes no Brasil. A agremiação conta com nomes influentes para o desenvolvimento do enredo: “Brasil, Eu Quero Falar de Você!”. São eles: Laíla, Fran Sérgio, Sérgio Caputto Gall e Beth Trindade. Dando sequência ao especial que visita os barracões das escolas do Grupo Especial de São Paulo, a reportagem do CARNAVALESCO conversou com o Fran Sérgio, que explicou detalhes sobre o carnaval de 2019.
“Quando eu e o Laíla viemos pra decidir o enredo, junto com o presidente Sidnei, a gente queria uma história atual que tocasse as pessoas, que trouxesse uma mensagem. Resolvemos falar da exploração do país desde o início, nós somos um povo explorado desde quando os portugueses chegaram aqui. Eles não descobriram, eles invadiram e começaram a explorar. Isso vem até hoje. Tem a exploração do negro, escravidão, você teve uma nobreza luxuosa e o povo sempre passando fome. Hoje você tem as mazelas políticas, o roubo, a Lava-Jato está ai pra provar isso. O povo passa fome, não tem educação, saúde, segurança e se rouba bilhões nesse país, está um caos. O Águia da um grito de basta, a gente pode mudar alguma coisa mudando nós mesmos, fazendo algo pelo próximo, votando certo e tendo fé. É um absurdo um país como esse ter gente que passa fome. O Águia quer que todos gritem e façam o país mudar”, defende.
O carnavalesco afirma que o enredo não tem uma crítica direcionada, ele se baseia em tocar o consciente do cidadão e, a partir disso, fazê-lo refletir sobre sua atitude.
“É uma crítica política não direcionada, é uma política no geral, até pra nós mesmos. A população vende o voto desde o voto do cabresto, isso é muito comum. É uma situação que o povo se acostumou com isso e tem que mudar. Então, se cada um fizer a sua parte a gente começa a mudar isso tudo. O Águia com alegria vai jogar essa mensagem de mudar, de ter consciência de mudar”.
Estreante na Águia de Ouro, Fran Sérgio revela que enredo surgiu com ideias em comum entre a direção da agremiação e destaca curiosidade durante elaboração da sinopse.
“O Sidnei já tinha essa ideia de fazer algo social, uma crítica e eu e o Laíla também queríamos uma mensagem que tocasse o coração de cada um. Com muita emoção e muita alegria, mas que a gente pare pra pensar um pouco e que consiga mudar um pouco. Se conseguirmos mudar 1% de cada já vira vários porcentos. Realmente, o que me chamou atenção é você constatar que o povo é explorado desde o início. O índio já estava aqui quando os portugueses chegaram, e ai eles foram mortos, tentaram catequizar, roubaram as terras, e até hoje é assim, te roubam, vendem o que é seu pra fora. É uma realidade triste mas que a gente tem a consciência disso”.
Sobre o cronograma do barracão ele demonstra segurança e garante um grande desfile.
“A gente tem muito detalhe pra fazer, mas a estrutura está pronta. O Águia está se preparando muito para esse carnaval. O presidente está fazendo tudo que ele pode, a comunidade está ensaiando muito e o samba é bom. Pode esperar uma Águia de Ouro bonita, mas valorizando o humano, fantasias leves, alegorias teatralizadas, mostrando a essência”.
Cauteloso sobre possíveis surpresas, Fran Sérgio brinca e diz que intuito é mostrar a verdadeira essência do assunto trabalhado.
“Não posso adiantar, surpresa é surpresa (risos). Mas cada ponto desses cinco setores vai chamar a atenção pelo teatro que a gente está fazendo. A realidade que se quer mostrar mesmo com alegria do carnaval, mas mostrando a essência do nosso carnaval”.
Conheça o desfile
1° SETOR
“A gente começa com uma grande revoada de águias de ouro, trazendo com seu voo a história que a escola está contando.
2° SETOR
“Começamos lá do inicio quando chegaram as caravelas da ganância, descobriram a nossa terra mas exploraram o índio, trocaram mercadorias com os índios, exploraram o pau-brasil, café, cana de açúcar, as pedras preciosas, enfim, até hoje”.
3° SETOR
“A gente fala da monarquia, da ostentação, o banquete para os poderosos e a população passando fome nas ruas”.
4° SETOR
“Falamos da escravidão, das senzalas, da vinda do negro pra cá, com muito sofrimento mas nunca perderam a fé. Os negros mostraram isso, eles passaram o que passaram e construíram o nosso Brasil”.
5° SETOR
“Falamos das mazelas políticas, o que está acontecendo, a lava-jato, a roubalheira, essa coisa de não se importar. A gente elege as pessoas e eles roubam bilhões e a população fica passando fome e o social, o povo na rua procurando comida, os necessitados. O Águia vem com esse final falando da necessidade e mostrando que a gente pode com fé ter realmente um mundo melhor”.
História do Fran Sérgio
“Eu sou nilopolitano, nasci e moro até hoje em Nilópolis e comecei desfilando na Beija-Flor aos sete, já são 40 anos na escola. Comecei como estagiário, fui crescendo e aprendendo com a escola, me tronei carnavalesco. Foram grandes carnavais, oito títulos. Em 2007 já achava que estava na hora alçar novos voos e aí vim pra São Paulo. Fiz Vila Maria e agora estou na Unidos da Tijuca no Rio de Janeiro e na Águia de Ouro em São Paulo, jornada dupla Rio e São Paulo”.


Durante 1992 a 2001 o carnaval capixaba passou por um momento de reestruturação e não houve competição, apenas apresentação das escolas. Quando a competição voltou a valer a partir de 2002, uma escola despontou por quase toda a década: a Unidos de Jucutuquara. Campeã em 2002, 2004, vice em 2005 e campeã novamente em 2006, 2007, 2008 e 2009, com o espetacular desfile sobre o Convento da Penha. Que para muitos, foi o divisor de águas da maneira de pensar carnaval em Vitória.. Com esculturas gigantescas e fantasias luxuosas a Jucutuquara sobrou no Sambão do Povo e sagrou-se tetracampeã. Apesar de ainda ser uma gigante entre as escolas, seu protagonismo foi sendo substituído por desfiles que apenas passavam pela avenida e não brigavam por campeonato. Os motivos foram os de sempre. Dívidas se acumulando de administração para administração e com isso os carnavais eram os principais prejudicados.
Porém, em abril de 2018 uma diretoria já conhecida dos torcedores voltou a dar as ordens na coruja. Presidida por Rogério Sarmento e com o lema #TodosPorUmaNação os novos gestores prometem fazer novamente a Jucutuquara brigar por posições mais altas. E para isso, algumas movimentações foram feitas no quadro de profissionais. Orlando Júnior, três vezes campeão na própria agremiação foi contratado. O intérprete Kléber Simpatia que estava na Unidos da Piedade retornou. E Rafael Brito e Nay Nascimento assumiram o cargo de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira.
“A Jucutuquara sempre teve uma tradição de fazer concursos de enredo. Nós abrimos para comunidade que escreve e apresenta as propostas. Dentre as diversas que tivemos uma delas era a do Bispo do Rosário que foi sugerida pelo próprio Orlando. Essa foi uma das mais interessantes e percebemos que daria para fazer um carnaval com materiais reciclados, diminuindo os custos e vislumbrando um desfile diferente. Vamos contar a história do bispo a partir do momento da anunciação, quando ele recebe a sua missão. Invertemos um pouco para não ficar um enredo cronológico, afinal o próprio personagem que é fio condutor afirmava ter simplesmente aparecido. E só se tornou bispo a partir dessa missão de criar o inventário e propagar pelo mundo. Começamos a partir daí e vamos contando de forma lúdica, principalmente para apresentar o bispo ao povo capixaba. A história dele é muito conhecida no Rio mas muitas pessoas em Vitória não conheciam suas obras, essa é nossa missão”.
“Nosso grande desafio é resgatar a Jucutuquara. Queremos novamente mudar a cara do carnaval capixaba assim como foi em 2009. Passamos pela fase difícil e esse retorno vem com a reestruturação. A volta do Rogério que era presidente do tetra e a volta do Orlando faz parte de um movimento de união das pessoas que estavam afastadas. Estamos todos por uma nação e queremos colocar novamente nossa escola na briga por títulos. Nosso presidente ficou 10 anos a frente da Liga, hoje possui uma bagagem gigantesca, um amplo conhecimento de carnaval e se tornou um grande gestor. A organização financeira está fazendo dois carnavais. O para pagar as dívidas e outro para organizar a casa. A ideia é que o público sinta a diferença a longo prazo, mas 2019 já será diferente. Com outra cara. Não sei se já vamos conseguir dar o salto para o campeonato logo no primeiro ano mas estamos trabalhando para que a escola cresça novamente”.
Com uma proposta pré-estabelecida de utilizar materiais alternativos e que ainda assim mantivessem o efeito desejado na avenida, Armando afirmou ver no Bispo do Rosário o enredo certo na hora certa.
Setor 1: É quando o Bispo recebe a missão divina em meio a sete anjos com sua anunciação. Sua missão é criar o seu próprio universo. Vai mostrar todos lugares que ele passou, incluindo as igrejas, e termina na sua prisão.
Enredo: O Rosário do Bispo e o seu delirante inventário do universo.
Qual o limite entre o que pode virar tema de carnaval e o que não deve passar pela avenida? A vice-campeã em 2018, Independente de Boa Vista, tenta conquistar o pentacampeonato mostrando que um enredo pode ser bem resolvido na passarela desde que possua início, meio e fim. Intitulado de “Entre rodovias e fronteiras… Honras e glórias. PRF 90 anos dos Anjos do Asfalto”, o tema desenvolvido pelo carnavalesco Robson Goulart é uma homenagem aos noventa anos de história da Polícia Rodoviária Federal.
“Eu tinha alguns enredos guardados, mas em conversa com o presidente ele me trouxe essa proposta. Em primeiro momento todos podem achar que é um tema que não dá samba, comigo também foi assim. Muita pesquisa foi feita e a história foi construída até surgir a sinopse. Confesso que até eu ter esse enredo em minhas mãos não acreditava que tudo poderia virar desfile. Hoje acredito que sim. Fiquei com muito pé atrás, pedi ajuda, li muito e no final deu um samba belíssimo”.
“Iremos com um enredo diferenciado. Está sendo muito esperado e muitas críticas chegaram até nós, positivas e negativas. Muitos disseram que falar da PRF não tem nada a ver com carnaval, pois eu digo a esses que esperem um carnaval alegre e descontraído contando a história da corporação. São diversos projetos sociais desenvolvidos por eles, será um outro lado da PRF. A escola está colorida, alegre, com um samba empolgante e vamos fazer o máximo para abrilhantar ainda mais o carnaval capixaba”, explicou.
“Já trabalhei no Rio de Janeiro e sinto um pouco a diferença financeira. É complicado e difícil por carnaval na rua aqui. Quando idealizamos um projeto queremos extrair dele o que tem de melhor. Devido a pouca verba muita coisa acaba ficando pra trás. Criamos e recriamos em cima durante todo o processo de construção do desfile. Tem materiais que custam caro e infelizmente não conseguimos usar e optamos pelo material mais em conta que reproduz um efeito similar. Tento adaptar meu projeto o máximo possível as condições da escola. Não podemos deixar a desejar porque é um desfile, tem uma comunidade em volta que acredita no trabalho. Posso não usar material luxuoso mas a maneira de fazer e o carinho fazem toda a diferença”, completou o carnavalesco.
Setor 1: A história da corporação. Como surgiu, quais foram os primeiros policiais, os baluartes que fizeram história entre as rodovias.
Setor 3: Reeducação no trânsito. A importância do pedestre atravessar na faixa, os perigos que motoristas e pedestres correm quando alguém tenta dirigir e falar no celular ao mesmo tempo, o não uso do cinto de segurança, álcool e bebida.
“Nós tínhamos uma outra proposta de enredo que foi engavetada a pedido do patrocinador. A escola queria trabalhar novamente com uma linha irreverente e eu tinha três linhas de pesquisa nesse aspecto. O sorriso era uma delas e agradou a todos da diretoria. Fui descobrindo a partir da pesquisa que era realmente a cara da escola, principalmente porque em 84 no primeiro ano em que a MUG começou a disputar carnaval, o enredo era “No Reino Onde Chorar é Proibido”. Com esse gancho viemos fazendo a história da humanidade através dos sorrisos de forma lúdica. Passamos pela diabolização do sorriso, o riso como forma de comunicação e o sorriso irreverente com relação ao grande circo brasil trazendo o trabalhador que segue rindo meio em tantas adversidades”.
“O público que gosta de ver a MUG passando pela avenida está acostumado e sempre espera pelas cores do pavilhão estarem em foco durante todo o desfile. Esse ano optamos por uma forma diferente de construção de carnaval. Trazemos mais colorido e só desvendamos as cores da agremiação no último carro homenageando o ano de 1984”.
“Em meus 20 anos de avenida tive dificuldade por todas as escolas por onde passei. Não tinha estrutura nem condições financeiras. Mas desde 2018 quando cheguei na MUG a diretoria me deu o maior respaldo. A pressão para trazer o bicampeonato existe mas eu senti ainda mais forte quando cheguei. Pelo passado recente da escola com outro carnavalesco que saiu muito vitorioso. Esse ano estou bem confiante no bicampeonato, as dificuldades existem sempre, mas conseguimos manter 100% do projeto inicial que foi criado”, finalizou.
Setor 1: O mergulho no universo do sorriso lúdico. Com abordagem a alguns personagens do Tim Burton como Alice no país das maravilhas.
Com o carnaval praticamente pronto desde o fim do ano passado, Paulo Barros não perde aquela tensão tradicional às vésperas do desfile. De volta à Viradouro, o artista com mais conquistas nos últimos anos, recebeu a reportagem do CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’. Firme convicto nas respostas, reconhece falhas nas últimas comissões de frente que criou, acha os enredos com cunho político e social oportunistas e declara que não pretende deixar a Viradouro.
“Eu não considero que eu tenha mudado absolutamente nada. Tenho convicção de que eu adquiri novos ensinamentos, tendo conhecimento. A vida nos traz exatamente isso, ir agregando ano após ano, coisas que deram errado e você vai acertando. Traduzo minha trajetória como um eterno aprendizado. Infeliz daquele que acha que sabe tudo. O carnaval é um processo realizado por uma equipe, que é esmiuçado durante o ano e se concretiza ali no dia”.
“Eu estou ficando velho. Tive a oportunidade de usar esse espaço, que é morto para construção de carro alegórico. Essa sala já existia e construir carros aqui ficaria inviável. Aproveitei pois isso facilita a solução. No terceiro andar é um sobe e desce o tempo todo. A coisa fica mais tranquila”.
“Eu não considero uma tendência. Foi algo que deu certo ano passado. Algumas escolas estão decidindo enredos dentro de um mesmo conceito, mas cada um é dono de seu nariz. Chegamos à conclusão aqui na Viradouro que precisávamos de uma estratégia de enredo. Fizemos um estudo de possibilidades e a que mais se adequou foi a que escolhemos. Por conta da minha plástica, das características da bateria. O modismo de enredo crítico e social eu vejo como um oportunismo. O povo gosta da lamúria e do sensacionalismo. Cada um tem um direito de fazer a sua escolha. Escolhemos outro caminho”.
“A minha linha de frente será a comissão de frente. Tenho uma dedicação enorme com esse segmento. Minhas últimas comissões não deram certo? Não estou aqui para concordar ou discordar. Cada um tem direito a emitir sua opinião. Tive problemas sérios de entrosamento com os coreógrafos nos meus dois últimos trabalhos. Precisei substituir há poucos dias do desfile e isso obviamente tem um impacto. No ano passado, por exemplo, na Vila Isabel eu tive um problema técnico, o equipamento que fomos buscar não funcionou, no que diz respeito ao que ele deveria fazer e não fez. Precisei fazer adaptações e isso impactou o resultado final. Tive a felicidade de contar com o Alex Neoral, ele foi bastante guerreiro. Esse ano pela primeira vez eu tive praticamente um ano de trabalho. A comissão tem um trabalho totalmente seguro. Se ela vai surpreender é outra coisa. Essas coisas acontecem na hora. Minha ideia e meu olhar é de que promete grandes momentos em nosso desfile”.
“Estou querendo ficar quieto em um lugar. Para você fazer um trabalho sólido você necessita no mínimo de três anos. Isso de ficar trocando de escola não é bom. Se eu pudesse ficaria um tempo maior nas agremiações. Quantos frutos a minha permanência na Unidos da Tijuca me trouxeram? Quando há a troca você tem que começar do zero e é muito ruim. Se eu pudesse escolher, escolheria ficar aqui. Minha última lembrança aqui não foi boa. Mas eu tenho inteligência suficiente para entender que o momento da escola é outro. A essência da Viradouro é que não mudou”.
A Liesa coloca à venda, nesta quarta-feira, 20 de fevereiro, a R$ 10 (meia entrada a R$ 5), os ingressos das arquibancadas populares dos setores 12 e 13 para os desfiles do Grupo Especial de 2019, domingo (3 de março) e segunda-feira (4 de março).
Boa notícia para quem acompanha de perto os desfiles da Intendente Magalhães. A Liesb (Liga das Escolas de Samba do Brasil) fechou acordo com a emissora MAX TV RIO, que vai transmitir os desfiles da escolas de samba do Grupo B este ano.