Ordem dos músicos terá workshop sobre samba-enredo ministrado por Rafael Prattes
O músico e arranjador do CD do Grupo Especial, Rafael Prattes, vai ministrar na sede da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) um workshop cujo tema será o gênero samba-enredo. É a primeira vez que um projeto relacionado à cultura do carnaval e do gênero que embala os desfiles das escolas de samba é ministrado na OMB do Rio de Janeiro.
Rafael Prattes falou à reportagem do CARNAVALESCO sobre a proposta e a ideia de ministrar o work-shop voltado exclusivamente ao gênero samba-enredo.
“Estarei dando início a esse projeto maravilhoso e de tanta importância na vida de todos músicos amantes do samba. Mostrando como se comportam os instrumentos de cordas e percussão e um pouco de toda nossa história e trajetória no samba-enredo”, conta.
Prattes explica como se dará a ementa do curso aos interessados em fazer a sua inscrição.
“Teremos aulas sobre técnicas e desenvolvimento do instrumento no samba, entrevistas e debates com todos os convidados, material didático do curso, sorteios do CD das escolas de samba e interação no final da aula em grupo”, explica.
Os interessados em fazer o workshop devem procurar o próprio Rafael Prattes, através do número +55 21 98016-6194. A OMB fica na Avenida Almirante Barroso, 72, 7º andar. As primeiras turmas serão formadas para os dias 27 e 28/02, com o máximo de 30 alunos. Os horários serão às 14h, 16h, 17h e 18h.
Barracões: Leandro Vieira prepara Mangueira com seu ‘carnaval mais difícil e na plenitude artística’
Em ‘História para ninar gente grande’ o carnavalesco da Mangueira, Leandro Vieira, vai trazer para o maior espetáculo da terra heróis que não constam nos livros de história. A proposta do desfile da verde e rosa é despertar senso crítico em uma população ‘ninada’ por aspectos da história que coloca o povo à margem das lutas e decisões.
O artista recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão da Mangueira e adianta que em seu desfile dois setores inteiros (de cinco) serão dedicados à história do índio no Brasil. (Fotos: Oscar Liberal)
“Esse é o meu carnaval mais difícil, mas ele também é artisticamente onde estou mais bem colocado. Estou na plenitude no sentido de fazer algo que acho preciso ser falado. Eu sou estudioso da cultura indígena. A história do índio no Brasil é uma das maiores perversidades da sociedade brasileira. O brasileiro não se reconhece indígena, com uma das maiores populações da América Latina. Aqui todo mundo é índio. Existe a construção de uma narrativa proposital, de associar o índio ao opositor do progresso. O cristianismo o associou a um ser sem alma. Propositalmente eu dedico dois setores inteiros à cultura e à resistência indígena. O mangueirense vai conhecer a história do negro herói e não escravo. A escola de samba precisa fazer as pessoas conhecerem Luiza Mahin, Danara, Luiza Garcia, Francisco José”, conta Leandro.
Leandro Vieira, como se diz na gíria moderna, ‘chegou chegando’. O impacto gerado pelo seu desfile de estreia pela Caprichosos de Pilares o levou à Mangueira. Na verde e rosa foi campeão em seu ano de estreia. Colhendo os frutos de um artista politizado e com aguçado senso crítico, Leandro Vieira revela à nossa reportagem que a escolha do enredo da Mangueira é uma reação ao projeto Escola Sem Partido, que segundo ele busca gerar cidadãos ‘sonolentos’.
“Eu sou uma pessoa com senso crítico. Em 2018 fiz uma coisa que achei importante, ter o estalo do enredo a partir de uma antena ligada com o cenário moderno. Fiz um carnaval através da defesa do meu ponto de vista. O enredo de 2019 surge da discussão do aspecto da Escola Sem Partido. Quais os interesses de se produzir uma sociedade sem senso crítico, que não pensa, que não questiona a história? Pra mim é negar a representatividade e negar com uma população ninada. A partir daí passei a buscar a construção de uma narrativa da história crítica do Brasil, com um viés de representatividade popular. A Mangueira é formada por descendentes dessas minorias. O enredo é para ‘acordar’ gente grande. O Escola Sem Partido quer ninar gente grande. A história que quer dizer que quem concebeu a abolição foi um representante do estado e não a luta negra. Ora, quando a princesa assina a lei os escravos já viviam em uma condição diferente. Por que os heróis são os bandeirantes e não os índios? O monumento às bandeiras é um tributo ao genocídio indígena. Erguem-se essas bandeiras através de uma lógica elitista. Colocam o povo em uma condição de espera. Parece que precisam sempre de alguém para fazer história no seu lugar”, questiona Leandro.
‘Não veio do céu, nem das mãos de Isabel’. O verso do samba mangueirense para muitos indica que o enredo da Mangueira visa a desconstrução da Princesa Isabel, responsável por assinar a Lei Áurea, que tornou livres os escravos no Brasil em 1888. Mas não se trata disso. Leandro explica que a questão envolvendo a abolição que ninguém conta nos colégios é que quatro antes, no Ceará, já haviam negros libertos.
“Minhas pesquisas começam antes da formatação de um enredo. Gosto bastante de ler. Isso vai acumulando uma determinada bagagem. Há muitos anos tomei conhecimento da história de Luiza Mahin. A partir disso passei a perceber que existiam personagens que precisavam ser contados. O mais surpreendente de tudo para mim foi o fato de a abolição no Ceará ter vindo antes do Brasil, quatro anos. Quem desencadeou esse processo foi um um mulato pobre. Isso é muito representativo. Alguém estudou isso no colégio? Através de uma revolta iniciada no porto do Ceará, despertou a consciência do povo negro. A quem interessa esconder isso?”.
‘Se não fosse carnavalesco seria professor de história’, diz Leandro Vieira
Ao se propor a contar a história que a própria história não conta, Leandro Vieira pisa em terreno arenoso. Como reagirá o meio acadêmico, de professores e historiadores, a uma temática que se propõe a desconstruir os livros de história? Leandro Vieira garante que recebe diariamente elogios de professores de história e que se não tivesse seguido a carreira artística enveredaria para as salas de aula.
“Eu tenho uma relação maravilhosa com meus professores de história. Aos 17 anos minha única opção era passar para uma universidade pública. Eu queria fazer Belas Artes e me inscrevi na UFRJ. Mas nas demais eu fiz história. Se eu não fosse artista seria professor de história. O Luiz Antônio Simas foi a primeira pessoa fora do meu convívio particular a tomar conhecimento do meu enredo. Recebo diariamente elogios da classe dos professores, repercussão boa. Já usaram o enredo em aulas e provas. Isso prova que minha narrativa é aceita pelo pensamento acadêmico. Eu não estou inventando uma história”, destaca.
Nos bastidores da Mangueira, Leandro Vieira deixou clara sua preferência pela obra que a verde e rosa vai levar para a Marquês de Sapucaí em 2019. Ele considera o samba 100% do sucesso de um desfile e admite que já teve composições de sua preferência derrotados na disputa.
“O samba de qualidade pode representar 100% de um título, no sentido de contribuir para a conquista. Eu busco hiper valorizar o samba. Os outros quesitos são perfumaria. O meu trabalho é estar à altura da obra da escola. Aqui na Mangueira eu sempre tive liberdade para pensar e demonstrar. Nas reuniões declarei meu posicionamento, mas já perdi samba em 2016 e ganhei em 2017. Eu elegi desde o princípio esse samba mas não foi esse fato que o fez ganhar. A Mangueira possui um grupo de pessoas que decide”, explica.
Ausência de Chiquinho não afeta construção do carnaval, segundo carnavalesco
A Mangueira sofreu um duro golpe neste pré-carnaval. Além da crise que assola boa parte dos barracões da Cidade do Samba, o seu presidente foi preso em novembro do ano passado. Sem o mandatário, Leandro garante que o carnaval não sofreu qualquer abalo no aspecto do segmento do cronograma.
“No meu trabalho o impacto foi de zero. Não houve nenhum impacto. A Mangueira possui uma estrutura muito bem definida. Chiquinho delegava funções em cada setor e essas pessoas tocavam cada departamento. As duas pessoas de confiança dele para tocar o carnaval somos eu e Alvinho. Nesse sentido nada mudou. A crise não me afeta. Ela só atrapalha o cara que fez carnaval com grana. Eu desconheço o que é bom nesse aspecto. Fiz Caprichosos de Pilares em 2015, a Mangueira nunca nadou em dinheiro. Enfrentei ano passado um corte de verba de R$ 1 milhão. Talvez isso preocupe quem estava acomodado com uma condição de fartura”, afirma.
Com cinco alegorias e 26 alas, Leandro Vieira é um carnavalesco que gosta de preservar o segredo do desfile e opta por não explicar os setores do desenvolvimento do enredo. Apurando com pessoas da escola e observando a sinopse fica entende-se que os setores abordarão aspectos históricos através de segmentações, como a história indígena (que estará em dois setores), a negra e a política. Sempre abordando como narradores da narrativa personagens que a história não conta.
Liesa registra o crescimento de 10% nas vendas dos ingressos para os desfiles do Grupo Especial em 2019
O Sambódromo da Marquês de Sapucaí deve estar quase todo lotado nos desfiles do Grupo Especial no domingo e segunda-feira de carnaval. A Liesa teve um crescimento de 10% nas vendas de ingressos em todos os setores de arquibancada, além de frisas e camarotes. Em entrevista concedida ao site CARNAVALESCO a informação foi confirmada pelo diretor geral da Central de Vendas da Liesa, Heron Schneider.
“Crescemos em torno de 10% no geral. Ano passado atingimos 87% da avenida e estou com a expectativa de 95%. Isso é claro é uma estimativa, pode até atingir mais. Tem aquela quebra de 10% na venda do camarote individual”, disse.
Heron explica que o maior crescimento nas vendas se deu justamente no ativo mais caro da avenida, os camarotes. Ele explica que, mesmo não atingindo a carga total, as vendas devem superar bastante aqueles espaços que foram comercializados no carnaval passado.
“Vendemos 30% a mais em relação ao ano anterior. Apesar da crise a resposta foi boa e isso nos deixou bem animados. Não devemos atingir 100%, mas atingiremos 90%. No ano passado ficamos em 70%. A realidade é que hoje a passarela tem se caracterizado pela abertura de espaços embaixo dos super camarotes, com lounges. Se pensarmos em público físico, temos mais que nos anos anteriores. Deixamos de vender 30 camarotes. São 450 pessoas. Mas eu supero isso com os super camarotes. Em público vamos ter mais de 50% da capacidade se eu vendesse um a um. Fomos muito procurados por empresas e algumas já pediram reserva para o ano que vem”, explicou. (Fotos: Leo Queiroz)
Outro aspecto positivo na vendagem de ingressos é com relação às frisas. A Liesa deve conseguir comercializar 100% dos espaços situados à margem da avenida, conforme afirma Heron.
“As frisas na segunda-feira de carnaval só temos vagas nos setores 8 e 9. Sendo que o 9 é de responsabilidade da Associação Brasileira de Agências de Viagem (ABAV) e eles nos repassaram as sobras. Em ambos setores só temos fila D. No domingo temos 51 frisas apenas. Isso deve acabar até semana que vem. Em 2018 sobraram 190 frisas, algo em torno de 10% do total. Esse ano acredito que comercializemos 100% da capacidade”, afirma.
Vendas de arquibancadas impulsionadas por ensaios técnicos
Com relação às arquibancadas especiais, a expectativa de Heron é também a comercialização de 100% dos cerca de 75 mil lugares disponíveis em todos os setores, incluindo os populares.
“No tocante a arquibancadas, ano passado tivemos uma demanda retraída, pois precisamos lembrar que a cidade estava em uma crise muito grande. Funcionalismo sem receber salários. Esse ano, com a reação do Estado foi bem melhor. Estamos com expectativa de vender os 100%. Mas um detalhe a ser registrado é que em 2011 tínhamos 52 mil espectadores como capacidade e hoje 75 mil. É um aumento de 50%, indo na contramão de redução da maioria dos espetáculos. A oferta passou da demanda reprimida que tínhamos. Arquibancada, 90% a gente vende próximo ao desfile. A influência dos ensaios técnicos faz toda a diferença. Muita gente realiza a compra após estar na avenida nos ensaios. É um ativo importante”, destaca.
Outro fator explicado por Heron é um antigo pleito de muita gente com relação ao parcelamento no pagamento das arquibancadas. Pela internet é possível pagar em até seis vezes, mas segundo o diretor o número de pessoas que opta por este formato de pagamento é irrisório.
“Muitas vezes as pessoas não compreendem que o perfil do consumidor de carnaval é diferente. As vendas só aquecem após a virada do ano, é uma questão de cultura. Atendemos 7.800 pessoas com 14.000 ingressos até dezembro, e só 24 quiseram comprar em 5 parcelas. 85% compram em uma ou duas. O problema não é de parcelamento. O público do carnaval tem essa característica, que muita gente não sabe”, alerta.
Super camarotes terão fiscalização para som não vazar para pista
Heron Schneider também falou ao CARNAVALESCO sobre a venda de ingressos para os desfiles da Série A, na sexta e sábado de carnaval. As arquibancadas começaram a ser comercializadas esta semana e as frisas para a segunda noite de apresentações já estão esgotadas.
“Na Série A as frisas são um sucesso absoluto. Conversamos com o presidente Thor e decidimos manter esses valores. Sábado está esgotado há mais de dez dias e a sexta vai acabar esgotando também, o que jamais havia acontecido. Arquibancada ainda não temos como ter uma noção, pois começou essa semana”, afirmou.
Heron explicou também que o som dos super camarotes será fiscalizado para não haver vazamento para a pista e desta forma incomodar o público das frisas e arquibancadas.
“Existe a recomendação nossa deles fazerem um correto isolamento acústico. Quando nos é reclamado de ruído por parte do público nós mesmos vamos até lá e pedimos para baixar o som. E não há qualquer tipo de resistência aos donos dos camarotes. Geralmente,os próprios DJs se empolgam com o público curtindo e acabam subindo o volume. Mas estamos atentos e fiscalizando. A nossa intenção é atender o cliente da frisa da mesma forma que os camarotes”, finaliza.
Donos do Ritmo: Dupla de mestres alia experiência e juventude no comando da bateria do Vai-Vai
Com muita honra apresentamos a história da dupla responsável pela bateria da escola de samba Vai – Vai. O primeiro é um dos grandes nomes do carnaval paulistano, Mestre Tadeu tem quase meio século como comandante da bateria, exatos 47 anos completados após o carnaval de 2019. Sua primeira agremiação foi a Lavapés, como ritmista ainda na década de 70, mas pouco tempo depois ingressou no Vai-Vai.
Roberto Lopes, conhecido como Mestre Beto, começou na Flor de Liz em 1986, passou pelo Unidos do Peruche em 1992 e, através do convite do próprio Tadeu, começou o seu vínculo com a agremiação do Bexiga. Realizando a função de mestre, Beto realiza o seu quinto desfile em 2019. Além de exercer a função dentro do carnaval, ele também trabalha como percussionista de samba e pagode.
É visível que a junção entre experiência e juventude vem gerando bons frutos. Indispensável falar da história do Tadeu pra alguém que se considera sambista, são exatos 47 anos como responsável pela bateria da maior campeã do carnaval de São Paulo, não importa onde esteja, Tadeu sempre será visto como inspiração para muitos ritmistas.
“A renovação de mestres é muito importante. Ninguém é eterno. O que está faltando são alguns mestres respeitarem os antigos. Nós sofremos no tempo da ditadura pra conseguir manter o samba. Para o mestre ficar tanto tempo numa bateria ele tem que ter responsabilidades em tudo”, finaliza mestre Tadeu.
A Bateria Pegada de Macaco tem todas as suas caixas tocadas embaixo, com rufada na batida. Os surdos de terceira são livres, porém seguem uma base definida. As marcações são afinadas no tom grave. O Beto é encarregado pela criação das bossas e desenhos da batucada. Um dos destaques é a ala de timbal, instrumento pouco usado em São Paulo, e recebe um grande destaque no Vai-Vai.
“A ala de timbal é dirigida pelo Wilson Fumaça, junto com Badé. Juntos damos as idéias, eles desenvolvem e vemos o que é melhor pro trabalho. Introduzimos o timbal em 2017,
no ano de mãe menininha, e mantemos pra esse carnaval. Apesar de todos os ritmistas da
ala serem músicos, eles ensaiam uma vez na semana. Teremos uma surpresa no desfile junto à nossa rainha Camila Silva”, promete mestre Beto.
Com o enredo: “Vai-Vai, O Quilombo do Futuro”, que exalta a luta e resistência do povo negro, a escola de samba Vai-Vai será a quarta agremiação a desfilar na noite de sábado, 02/03, às 01h45.
Donos do Ritmo: Mestre Sombra garante que ainda não pensa em deixar cargo na Mocidade Alegre
Marcos Rezende, talvez, poucas pessoas saberiam identificar quem é só pelo nome, mas com certeza ao revelar o apelido muitos sambistas reconhecem. Quando era pequeno, acompanhava seu tio pra todo canto, e, através disso surgiu o famoso apelido: “Sombra”. Naquela época ninguém poderia imaginar, mas hoje o mestre Sombra é uma das grandes personalidades do carnaval paulistano.
Antes de firmar sua história na Morada do Samba, Sombra também desfilou pela Tom Maior, Pérola Negra, Águia de Ouro e a tradicional escola de samba Camisa Verde Branco. Além de principal responsável pelo som da batucada, ele também assume o cargo de vice-presidente da agremiação, ao lado de sua esposa Solange Cruz, atual presidente. São 25 anos de envolvimento com a Mocidade Alegre. Mestre Sombra é respeitado por muitos sambistas consagrados, não estranhe quando ouvir: “Eu aprendi tudo com esse cara aqui”, essa é uma das frases mais repetidas quando citam o nome dele.
“É muito bom saber que o trabalho é reconhecido e que as informações que a gente passa estão sendo úteis, isso é gratificante. Acho que a nossa função de diretor de bateria é essa, passar informação, corrigir, cobrar e fazer as pessoas entenderem o trabalho proposto, e acho que temos que fazer valer o nome ‘escola de samba’. Sou um diretor com perfil disciplinador, sou rígido na cobrança de resultados, mas procuro momentos de descontração, porque eu sou chato no trabalho, entendo que o carnaval é sério, mas precisamos de um ambiente agradável para todos”, afirma Sombra.
A Bateria Ritmo Puro carrega características fortes, a começar pela formação de início do desfile, a primeira linha de naipes é formada só por cuícas, e logo atrás vem a famosa cozinha (Surdos, Repiques e Caixas). Os instrumentos leves, tamborim, chocalho e agogô, vem no final da formação. Após o recuo a proposta se inverte, fazendo com que os leves formem a frente da bateria. A batida de caixa da morada é igual desde a formação da escola, que segue as características do partido alto, acentuando no tempo. As terceiras seguem o desenho proposto seguindo a melodia do samba-enredo. Os tamborins da Ritmo Puro são uns dos destaques, qualidade nos desenhos e execução são notórios.
A expectativa sobre quem será o sucessor do cargo de mestre Sombra é um assunto de muita indecisão, sobre isso ele defende: “Não pensei nisso, por enquanto estamos caminhando. Acho que dá pra ir um pouco mais ainda, sucessores é o que não faltam, Graças a Deus. Vamos ver o que o Sombrinha vai amadurecer ainda”.
Atual vice-campeã do carnaval de São Paulo e detentora de 10 títulos do Grupo Especial, a escola de samba Mocidade Alegre será a terceira escola a desfilar na noite de sábado, 02/03, às 00h40, com o enredo indígena: “Ayakamaé – As Águas Sagradas do Sol e da Lua”.
Especial Barracão: Águia de Ouro traz enredo sobre exploração do Brasil e promete críticas no desfile
Por Matheus Mattos
Diante de um cenário onde escolas de samba comercializam enredos, a Águia de Ouro vem na contramão, aborda em seu desfile um tema que crítica as situações de abuso de poder e se posiciona sobre as corrupções presentes no Brasil. A agremiação conta com nomes influentes para o desenvolvimento do enredo: “Brasil, Eu Quero Falar de Você!”. São eles: Laíla, Fran Sérgio, Sérgio Caputto Gall e Beth Trindade. Dando sequência ao especial que visita os barracões das escolas do Grupo Especial de São Paulo, a reportagem do CARNAVALESCO conversou com o Fran Sérgio, que explicou detalhes sobre o carnaval de 2019.
“Quando eu e o Laíla viemos pra decidir o enredo, junto com o presidente Sidnei, a gente queria uma história atual que tocasse as pessoas, que trouxesse uma mensagem. Resolvemos falar da exploração do país desde o início, nós somos um povo explorado desde quando os portugueses chegaram aqui. Eles não descobriram, eles invadiram e começaram a explorar. Isso vem até hoje. Tem a exploração do negro, escravidão, você teve uma nobreza luxuosa e o povo sempre passando fome. Hoje você tem as mazelas políticas, o roubo, a Lava-Jato está ai pra provar isso. O povo passa fome, não tem educação, saúde, segurança e se rouba bilhões nesse país, está um caos. O Águia da um grito de basta, a gente pode mudar alguma coisa mudando nós mesmos, fazendo algo pelo próximo, votando certo e tendo fé. É um absurdo um país como esse ter gente que passa fome. O Águia quer que todos gritem e façam o país mudar”, defende.
O carnavalesco afirma que o enredo não tem uma crítica direcionada, ele se baseia em tocar o consciente do cidadão e, a partir disso, fazê-lo refletir sobre sua atitude.
“É uma crítica política não direcionada, é uma política no geral, até pra nós mesmos. A população vende o voto desde o voto do cabresto, isso é muito comum. É uma situação que o povo se acostumou com isso e tem que mudar. Então, se cada um fizer a sua parte a gente começa a mudar isso tudo. O Águia com alegria vai jogar essa mensagem de mudar, de ter consciência de mudar”.
Estreante na Águia de Ouro, Fran Sérgio revela que enredo surgiu com ideias em comum entre a direção da agremiação e destaca curiosidade durante elaboração da sinopse.
“O Sidnei já tinha essa ideia de fazer algo social, uma crítica e eu e o Laíla também queríamos uma mensagem que tocasse o coração de cada um. Com muita emoção e muita alegria, mas que a gente pare pra pensar um pouco e que consiga mudar um pouco. Se conseguirmos mudar 1% de cada já vira vários porcentos. Realmente, o que me chamou atenção é você constatar que o povo é explorado desde o início. O índio já estava aqui quando os portugueses chegaram, e ai eles foram mortos, tentaram catequizar, roubaram as terras, e até hoje é assim, te roubam, vendem o que é seu pra fora. É uma realidade triste mas que a gente tem a consciência disso”.
Sobre o cronograma do barracão ele demonstra segurança e garante um grande desfile.
“A gente tem muito detalhe pra fazer, mas a estrutura está pronta. O Águia está se preparando muito para esse carnaval. O presidente está fazendo tudo que ele pode, a comunidade está ensaiando muito e o samba é bom. Pode esperar uma Águia de Ouro bonita, mas valorizando o humano, fantasias leves, alegorias teatralizadas, mostrando a essência”.
Cauteloso sobre possíveis surpresas, Fran Sérgio brinca e diz que intuito é mostrar a verdadeira essência do assunto trabalhado.
“Não posso adiantar, surpresa é surpresa (risos). Mas cada ponto desses cinco setores vai chamar a atenção pelo teatro que a gente está fazendo. A realidade que se quer mostrar mesmo com alegria do carnaval, mas mostrando a essência do nosso carnaval”.
Conheça o desfile
1° SETOR
“A gente começa com uma grande revoada de águias de ouro, trazendo com seu voo a história que a escola está contando.
2° SETOR
“Começamos lá do inicio quando chegaram as caravelas da ganância, descobriram a nossa terra mas exploraram o índio, trocaram mercadorias com os índios, exploraram o pau-brasil, café, cana de açúcar, as pedras preciosas, enfim, até hoje”.
3° SETOR
“A gente fala da monarquia, da ostentação, o banquete para os poderosos e a população passando fome nas ruas”.
4° SETOR
“Falamos da escravidão, das senzalas, da vinda do negro pra cá, com muito sofrimento mas nunca perderam a fé. Os negros mostraram isso, eles passaram o que passaram e construíram o nosso Brasil”.
5° SETOR
“Falamos das mazelas políticas, o que está acontecendo, a lava-jato, a roubalheira, essa coisa de não se importar. A gente elege as pessoas e eles roubam bilhões e a população fica passando fome e o social, o povo na rua procurando comida, os necessitados. O Águia vem com esse final falando da necessidade e mostrando que a gente pode com fé ter realmente um mundo melhor”.
História do Fran Sérgio
“Eu sou nilopolitano, nasci e moro até hoje em Nilópolis e comecei desfilando na Beija-Flor aos sete, já são 40 anos na escola. Comecei como estagiário, fui crescendo e aprendendo com a escola, me tronei carnavalesco. Foram grandes carnavais, oito títulos. Em 2007 já achava que estava na hora alçar novos voos e aí vim pra São Paulo. Fiz Vila Maria e agora estou na Unidos da Tijuca no Rio de Janeiro e na Águia de Ouro em São Paulo, jornada dupla Rio e São Paulo”.
Carnaval Capixaba: Jucutuquara quer voltar a ser protagonista com enredo sobre Bispo do Rosário
Por Vinicius Vasconcelos. Fotos: Toninho Ribeiro
Durante 1992 a 2001 o carnaval capixaba passou por um momento de reestruturação e não houve competição, apenas apresentação das escolas. Quando a competição voltou a valer a partir de 2002, uma escola despontou por quase toda a década: a Unidos de Jucutuquara. Campeã em 2002, 2004, vice em 2005 e campeã novamente em 2006, 2007, 2008 e 2009, com o espetacular desfile sobre o Convento da Penha. Que para muitos, foi o divisor de águas da maneira de pensar carnaval em Vitória.. Com esculturas gigantescas e fantasias luxuosas a Jucutuquara sobrou no Sambão do Povo e sagrou-se tetracampeã. Apesar de ainda ser uma gigante entre as escolas, seu protagonismo foi sendo substituído por desfiles que apenas passavam pela avenida e não brigavam por campeonato. Os motivos foram os de sempre. Dívidas se acumulando de administração para administração e com isso os carnavais eram os principais prejudicados.
Porém, em abril de 2018 uma diretoria já conhecida dos torcedores voltou a dar as ordens na coruja. Presidida por Rogério Sarmento e com o lema #TodosPorUmaNação os novos gestores prometem fazer novamente a Jucutuquara brigar por posições mais altas. E para isso, algumas movimentações foram feitas no quadro de profissionais. Orlando Júnior, três vezes campeão na própria agremiação foi contratado. O intérprete Kléber Simpatia que estava na Unidos da Piedade retornou. E Rafael Brito e Nay Nascimento assumiram o cargo de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira.
O site CARNAVALESCO conversou com um dos integrantes da comissão de carnaval da escola, Armando Chafik, que explicou sobre o enredo e qual a forma de abordagem para contar a história do Bispo do Rosário.
“A Jucutuquara sempre teve uma tradição de fazer concursos de enredo. Nós abrimos para comunidade que escreve e apresenta as propostas. Dentre as diversas que tivemos uma delas era a do Bispo do Rosário que foi sugerida pelo próprio Orlando. Essa foi uma das mais interessantes e percebemos que daria para fazer um carnaval com materiais reciclados, diminuindo os custos e vislumbrando um desfile diferente. Vamos contar a história do bispo a partir do momento da anunciação, quando ele recebe a sua missão. Invertemos um pouco para não ficar um enredo cronológico, afinal o próprio personagem que é fio condutor afirmava ter simplesmente aparecido. E só se tornou bispo a partir dessa missão de criar o inventário e propagar pelo mundo. Começamos a partir daí e vamos contando de forma lúdica, principalmente para apresentar o bispo ao povo capixaba. A história dele é muito conhecida no Rio mas muitas pessoas em Vitória não conheciam suas obras, essa é nossa missão”.
Armando confidenciou que está sendo preciso arrecadar dinheiro para dois carnavais. Um para ser mostrado na avenida e outro para pagar dívidas deixadas por administrações passadas. Mas mesmo assim, as pretensões da Jucutuquara são grandes e o público já perceberá a diferença da nova gestão.
“Nosso grande desafio é resgatar a Jucutuquara. Queremos novamente mudar a cara do carnaval capixaba assim como foi em 2009. Passamos pela fase difícil e esse retorno vem com a reestruturação. A volta do Rogério que era presidente do tetra e a volta do Orlando faz parte de um movimento de união das pessoas que estavam afastadas. Estamos todos por uma nação e queremos colocar novamente nossa escola na briga por títulos. Nosso presidente ficou 10 anos a frente da Liga, hoje possui uma bagagem gigantesca, um amplo conhecimento de carnaval e se tornou um grande gestor. A organização financeira está fazendo dois carnavais. O para pagar as dívidas e outro para organizar a casa. A ideia é que o público sinta a diferença a longo prazo, mas 2019 já será diferente. Com outra cara. Não sei se já vamos conseguir dar o salto para o campeonato logo no primeiro ano mas estamos trabalhando para que a escola cresça novamente”.
Com uma proposta pré-estabelecida de utilizar materiais alternativos e que ainda assim mantivessem o efeito desejado na avenida, Armando afirmou ver no Bispo do Rosário o enredo certo na hora certa.
“O desfile do Bispo acabou não saindo muito caro por conta dos materiais alternativos. As alegorias tem um custo não muito alto por conta disso. Dependemos de patrocínios e estamos conseguindo construir o carnaval com a ajuda dessas verbas. Quem estiver nas arquibancadas e camarotes pode esperar uma nova Jucutuquara. Grandiosa e voltando a fazer grandes carros e vindo para brigar”, garantiu o diretor.
Entenda o desfile
Setor 1: É quando o Bispo recebe a missão divina em meio a sete anjos com sua anunciação. Sua missão é criar o seu próprio universo. Vai mostrar todos lugares que ele passou, incluindo as igrejas, e termina na sua prisão.
Setor 2: Momento em que ele está na colônia e fazemos um retorno. Traz toda a obra criada por ele durante a internação com diversas referências a infância dele e ao nordeste. Festas religiosas como catumbi e tudo que foi visto por ele que refletiu em suas obras.
Setor 3: Momento de criação. Uma homenagem as obras como tabuleiro de xadrez e manto da anunciação.
Setor 4: Subida do Bispo aos céus. Morte e a ida ao reino como ele imaginava com ouro e prata. Última alegoria é ele levando as pessoas que conviviam ao seu redor como loucos, marginais, mulheres e que mesmo assim mereciam subir para o lado dele.
Ficha técnica
Enredo: O Rosário do Bispo e o seu delirante inventário do universo.
Presidente: Rogério Sarmento
Vice-presidente: Maurinho Carnaval
Carnavalesco: Orlando Júnior
Diretor de carnaval: Armando Chafik, Anderson Ferreira e Bernadete Ladislau
Diretor de harmonia: Marinilce Pereira
Intérprete: Kléber Simpatia
Compositores do samba-enredo: Luiz Felipe, Kátia Maués, Leonardo Reis e Igor De Boni
Mestre de bateria: Junior Caprichosos
Rainha de bateria: Schyrley Moura
Coreógrafo comissão de frente: Mauro Marques
Alas: 20
Alegorias: 3
Tripés: –
Componentes: 1200
Baianas: Momento religioso da mensagem que o bispo recebeu dos céus para criar o inventário
Bateria: Marinheiros, uma das profissões do bispo

