Apelidada carinhosamente como a caçula do samba, o Império de Casa Verde já demonstra muita maturidade no Grupo Especial do carnaval de São Paulo. Em apenas 16 anos na elite, a escola soma três títulos, o último conquistado em 2016. Para esse ano, a história do cinema será contada através do enredo: “O Império contra-ataca”. Responsável pelo desenvolvimento do tema, Flávio Campello explica detalhes e revela o carnaval com fácil interpretação.
“O Império em 2018 fez um enredo que homenageava o povo e gostei muito da sacada que o Jorge Freitas teve, nada melhor do que falar sobre quem está assistindo, quem vivencia o carnaval. A gente precisava manter uma linha parecida, carnaval voltado ao povo. Eu já assisti carnavais na arquibancada nos quais as escolas passam e você não sabe o que elas representam. A ideia de fazer um enredo sobre o cinema partiu desse princípio, de fazer um enredo em que as pessoas possam bater o olho em uma ala e já saber o que ela representa. A ideia partiu de popularizar o desfile, fazer com que qualquer um possa mergulhar de cabeça naqueles 65 minutos”, explica.
Carnavalescos conceituados, tanto na folia carioca quanto na paulista, acreditam que o desfile de uma escola de samba precisa conter elementos de fácil interpretação. Flávio Campello concorda com opinião e acrescenta que desfile com fácil interpretação é um ato de respeito com o público.
“Não tem nada mais satisfatório do que você entrar num Sambódromo e conseguir identificar todas as fantasias que passaram ali, sem ter dúvida de nenhuma, alegorias a mesma coisa. Eu acho que o carnaval precisa ter um pouco mais desse carinho com o público, o meu sonho seria um dia as 14 escolas com enredos onde o púbico não precise de uma pasta para entender, ele precisa simplesmente estar ali, se identificando e entendendo. É esse o respeito que a gente tem que dar ao público, o ingresso não é barato, o público já sofre pra entender o que está acontecendo”.
Flávio Campello revela ser apaixonado por cinema e acredita que enredo agrada a comunidade.
“Eu sempre tive vontade de falar sobre cinema, eu adoro, até as minhas camisetas tem uma temática de algum filme, eu sou um cinéfilo de carteirinha. Eu falei que ainda iria fazer a minha história do cinema, fazer o carnaval contando a minha visão sobre isso. Aqui em São Paulo surgiu a oportunidade, nós tínhamos oito propostas de enredo, dessas a escola optou por três e a gente foi lapidando. Até que numa reunião eu apresentei a quarta ideia e eles curtiram logo de cara, o presidente comprou , querendo ou não, não existe ninguém que não goste de cinema. Você pode ver que o público comprou a ideia, as pessoas estão curtindo, cada uma com sua personalidade”.
Diante de uma gigantesca variedade de filmes, o carnavalesco nos conta que deixou muitos filmes de fora e revela teatralização nas alegorias.
“Seguimos as listas que elegeram os 100 maiores filmes da história e consegui levar 52, infelizmente 48 filmes não entraram. Consegui ainda enfatizar três ou quatro filmes em cada alegoria. Tenho 102 pessoas em carros que vão estar fazendo um musical, então é bem legal. Eu sempre gostei de distribuir nas alegorias algo que pudesse ser popular”.
Agremiação aposta em teatralização para desfile de 2019
Antigamente limitado apenas na comissão de frente, as coreografias nas alas ganham cada vez mais notoriedade e importância dentro das escolas. É comum vermos nos desfiles de hoje em dia e até estranhamos a ausência de coreografias espalhadas nos setores. Componentes coreografados virou sinônimo de organização, ensaios e bom planejamento.
Buscando o quarto título, o Império de Casa Verde traz essa proposta com ênfase, tanto nos carros alegóricos quanto nas alas de chão.
“Nós escolhemos o samba em Agosto e em 15 dias começamos a distribuir as funções de cada ala, na segunda quinzena do mês estávamos ensaiando. Todos os dias da semana tem ensaios de alas teatralizadas, até porque falar do cinema exige um pouco disso, as pessoas tem que entender que elas estão ali representando um personagem. Eu tenho certeza que todos vão se deparar com algo diferente de tudo que São Paulo já viu, isso eu posso garantir”, conclui Flávio Campello.
Abre-alas terá 80 metros de comprimento e 16,5 metros de largura
A grandiosidade das alegorias virou item básico para as entidades que almejam o título. O Império de Casa Verde já trouxe para o sambódromo do Anhembi uma das maiores alegorias do carnaval paulistano. O último carro do desfile de 2009 continha 14 metros de altura por 110 metros de comprimento. O estreante carnavalesco diz que abre-alas de 2019 será a maior alegoria que já fez e esclarece significado.
“Quando você faz um carro desse comprimento, parece que o componente entra em delírio. O Império tem isso na sua raiz, na sua essência. O abre-alas vem com dois tigres, e ele representa o templo maior da sétima arte, que é o cinema. As pessoas vão se deparar com um cenário saudosista, nos inspiramos nas salas de cinemas da década de 50/60, quando teve o ‘boom’ do cinema mundial, a gente pegou de referência na cinelândia, nas salas antigas de São Paulo, na Broadway, nas formas do letreiro. Vai ser uma alegoria que a gente vai impressionar pelo gigantismo, só nesse carro nós temos 60 pessoas totalmente coreografadas, dando vida a essa alegoria”.
Muitos críticos e sambistas em geral se surpreenderam com a colocação da escola da Zona Norte de São Paulo após a apuração. Considerada como um desfile luxuoso e de alto nível, a escola alcançou o 6° lugar. Flávio Campello expõe opinião e informa motivo do nome do enredo.
“Era o carnavalesco da Tucuruvi e estava num ano em que não seria julgado, estava mesmo com uma visão totalmente neutra. Estava assistindo o desfile de sábado no sambódromo e quando terminou o Império eu, Flávio Campello, já contava como a campeã do carnaval, como a maneira que foi conduzida o carnaval, a gente via o desfile com a essência que a gente está trabalhando aqui, com cara de espetáculo. Acho que as pessoas do Império ficaram mais fascinadas foi com o título do enredo, eles disseram que o título tinha uma resposta ao resultado do carnaval passado, que é ‘O Império Contra-ataca’. O Carlos Júnior acha que é a maior sacada do carnaval foi no título do enredo”, finaliza.
Conheça o desfile
1° SETOR
“A ideia não foi buscar na cronologia do cinema pra contar a trajetória dele, até como historiador eu tenho esse vicio de buscar o inicio. Mas não, desde o começo buscamos um enredo não-linear, contar uma história sem se preocupar com uma cronologia e a gente dividiu esse enredo em cinco partes. A gente abre o desfile com início do cinema, com a realização do sonho dos irmão Lumière, que são os inventores que praticamente projetaram o primeiro filme em movimentos. Isso fez com que a gente buscasse inspiração nesse fato e abrisse o desfile. A invenção dos Lumière estará na comissão de frente. A primeira alegoria retrata o ponto de partida de qualquer pessoa que vai assistir um filme, que é o cinema. A gente tem no abre-alas o que a gente denomina o templo da sétima arte, a gente vai brincar um pouco com o público nessa alegoria. Nós teremos algumas meninas que vão estar assistindo o filme como espectadoras, vai ter telão, vai ter poltronas, os filmes vão passando e num tapete vermelho terá os personagens dos filmes passando. A gente tem cerca de 20/25 personagens que vão interagir com esses espectadores como se esses personagens ganhassem vida”.
2° SETOR
“É uma homenagem aos filmes com temáticas mais infantis, Mágico de Oz, Mary Poppins, Noviça Rebelde. Aqueles com temáticas mais infantis.
3° SETOR
“Vamos falar dos filmes que marcaram época, como: Senhor do Anéis, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia.
4° SETOR
“A gente tem no 4° setor já a parte mais romântica do nosso enredo, onde a gente fala das trilhas sonoras que se tornaram imortais pela sua história de amor”.
5° SETOR
“E a gente fecha o carnaval levantando a bandeira que o cinema terá mais 5 mil anos de vida, que se perpetua através do espaço cideral. A gente brinca no último setor falando dos filmes com temáticas de ficção científica, a nossa última ala é da Odisséia no Espaço e a alegoria que fala sobre a saga Star Wars, que teve a maior arrecadação de bilheterias na história do cinema”.
Ficha Técnica
5 alegorias
8 bases
24 alas
2.500 componentes
História do carnavalesco Flávio Campello
“Em 2019 faço dez anos no carnaval de São Paulo. Cheguei aqui em 2009 na Mocidade Alegre, a gente saiu da avenida campeão com aquele enredo do coração, foi muito bom fazer parte daquele projeto, conhecer as pessoas das quais eu trabalhei, Presidente Solange, Sidney França, Márcio Gonçalves, Fábio Lima, foi um time muito legal, eu curti demais, e isso conta bastante para que a gente se firme no carnaval de São Paulo. Eu largei toda a minha vida no Rio de Janeiro e me mudei totalmente pra São Paulo, porque eu acreditei que aqui poderia fazer o que eu goste de fazer e de uma forma que a gente almeja, que é o respeito, o carnaval daqui valoriza muito o profissional, eu sou muito feliz aqui. Depois do Mocidade Alegre eu fui para a X-9 Paulistana onde fiquei quatro anos, depois fiquei dois anos na Dragões da Real, um ano na Tatuapé, ano passado fiz Tucuruvi e esse ano estou aqui no Império de Casa Verde”.


“O carnaval começou a afetar a minha vida desde muito cedo. Eu fui criado na maior Cohab (Companhia de Habitação Popular) da América Latina, na Cohab Cidade Tiradentes. E sempre foi muito perigoso, sempre foi muito difícil de se viver ali. Porque a gente tinha toque de recolher, tinha ‘biqueira’ (uso de crack), venda de drogas. E no mesmo lugar, tinha uma escola de samba, foi ali que nasceu o grande amor da minha vida. Ali tinha a escola de samba Príncipe Negro. Na verdade, foi essa escola de samba que acabou tirando a gente da rua. A gente ia pra essa escola de samba e na verdade sempre foi muito regrado porque a presidente cobrava isso. Ela pedia boletim escolar, presença de pais, tudo isso pra não deixar a gente na rua”, conta Marlon.
“Desde sempre o carnaval teve um direcionamento na minha vida pessoal e profissional. Porque foi pelo carnaval que eu comecei a conhecer outras pessoas fora daquele âmbito onde eu fui criado inicialmente e, aí, onde cresceu o meu amor por estudar mais, e acabei me formando em biomedicina sendo também intermediado financeiramente pelo carnaval. Financeiramente eu acabei tendo muito ajuda do carnaval para me formar. Comprei o meu primeiro carro com a ajuda financeira do carnaval que eu recebia .
“Eu tive várias outras oportunidades pelo carnaval. Saí do Brasil, conheci o Japão, conheci a África, conheci Portugal, conheci Dubai tudo com intermédio do Carnaval. Me levou não só a uma vida financeira estável, mas profissional e pessoal também. O samba é a cultura e ele acaba nos trazendo conhecimento muito, mas muito, importante, principalmente quando a gente se abre para entender o significado desta verdadeira cultura popular brasileira” explica Lamar.
“Eu espero dos próximo carnavais que sejam, assim, cada vez mais grandiosos, que a gente supere essa crise que a gente está passando. Que a gente seja de fato, toda aquela grandiosidade que o samba sempre foi, respeitando o próximo, lutando contra o racismo, contra o preconceito, contra a homofobia. Gosto muito quando o carnaval aborda estes assuntos pois ele deve ser assim sempre plural. Um carnaval que esteja sempre tentando ajudar o próximo, como me salvou, e me deu direcionamento para viver, para sempre seguir o certo, eu tenho certeza, que as escolas serão verdadeiras escolas de vida para ajudar as pessoas” encerra Marlon.
Depois de quase 30 anos em que emitiu o primeiro alerta de que o samba havia sambado, a São Clemente traz em 2019 uma nova crítica sobre os rumos do carnaval com a reedição do clássico ‘E o samba sambou’ de 1990, até hoje a melhor colocação da história da São Clemente. O presidente Renato Almeida Gomes, o Renatinho, concedeu entrevista ao CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’. O dirigente se diz confiante com o desfile, jura que não vetou qualquer ideia de crítica do carnavalesco Jorge Silveira e revela que a chegada de Bruno Ribas, Giovana e Junior Scapin eleva o padrão da escola.
“A Rosa ajudou a São Clemente a se manter no Especial, nos deu um patamar legal. O Jorge está se encaixando. Ele me apresentou três enredos mas eu em um primeiro momento não fui favorável, pois confesso que não sou muito fã de reedições. Mas pelo momento vivido pelo carnaval achei muito pertinente. O Jorge Silveira é um cara muito inteligente”.
“Eu sou apaixonado por nossa bateria. O trabalho do Caliquinho é um dos melhores do carnaval. Estamos no nível das melhores, como Tijuca, Beija-Flor. Recebemos notas baixas em outros anos pois é mais fácil derrubar quem sobe. As baterias hoje no máximo tomam um 9,8, o nível está muito elevado”.
“O carnaval tem que ser mais engraçado. Estamos indo para um caminho de muita seriedade. A brincadeira é bacana demais. O Paulo Barros disse que os enredos críticos são apelativos. Nosso enredo não está apelando, está brincando com o que acontece”.
“A gente fechou com chave de ouro. Não tivemos problema, não tivemos parte técnica para consertar. A gente ficou até alguns minutos sem conversar no rádio, fiquei até me perguntando se estava tudo bem, mas se ninguém está falando nada é porque está tudo certo. Fizemos um ensaio perfeito e só falta agora o desfile. Se Deus quiser, a escola está preparada para ir para Sapucaí, apresentar seu enredo, samba, alegorias, as fantasias. Uma comunidade fantástica, com um trabalho fantástico que foi feito no barracão. O Salgueiro está pronto para disputar o título”, afirmou o diretor de carnaval Alexandre Couto.
A harmonia do Salgueiro foi praticamente perfeita, sendo o grande destaque da noite de ensaio. A comunidade berrou o samba a plenos pulmões, do início ao fim. Com destaque para as alas 18 e 22, ambas coreografadas, mas que não deixaram de cantar o samba um só instante. Outras alas que merecem menção pelo canto são as dos compositores, baianas e velha-guarda, segmentos que tradicionalmente não cantam tanto.
Quesito problemático da Academia em anos anteriores, nesse carnaval é seu grande trunfo. A obra, que já era aclamada desde a escolha, ganhou ainda mais força e popularidade durante o pré-carnaval. Hoje, não está somente na boca do desfilante, mas também do público em geral, como pode ser visto durante esse último ensaio de rua.
“Dentro das circunstâncias, o ensaio foi muito bom. Tirando um pouco que a rua estava muito cheia, e ela é bem estreita. A galera fica querendo invadir a bateria por causa da Viviane (Araújo, rainha de bateria), querendo entrar no meio da pista. Tirando isso, foi excelente. Graças a Deus a galera está feliz, tanto a bateria, quanto a escola inteira. E vamos trazer a vitória para o nosso Salgueiro. A bateria já está pronta e vamos à busca dos 40 pontos”, declarou Gustavo, um dos novos mestres da bateria Furiosa.