Por Lucas Santos
Criado na Zona Leste de São Paulo, convivendo diariamente com cenas de violência e de conflitos na porta de casa, o atual primeiro mestre-sala da Portela, Marlon Lamar, que divide o pavilhão da escola com a porta-bandeira Lucinha Nobre, conta que através de uma pequena escola de samba na capital paulista e sua presidente, conseguiu dar seus primeiros passos para fugir daquele ambiente que se mostrava tão desanimador.
“O carnaval começou a afetar a minha vida desde muito cedo. Eu fui criado na maior Cohab (Companhia de Habitação Popular) da América Latina, na Cohab Cidade Tiradentes. E sempre foi muito perigoso, sempre foi muito difícil de se viver ali. Porque a gente tinha toque de recolher, tinha ‘biqueira’ (uso de crack), venda de drogas. E no mesmo lugar, tinha uma escola de samba, foi ali que nasceu o grande amor da minha vida. Ali tinha a escola de samba Príncipe Negro. Na verdade, foi essa escola de samba que acabou tirando a gente da rua. A gente ia pra essa escola de samba e na verdade sempre foi muito regrado porque a presidente cobrava isso. Ela pedia boletim escolar, presença de pais, tudo isso pra não deixar a gente na rua”, conta Marlon.
Naquela época, Marlon relata que perdeu muitos amigos para o crime, mas sempre foi muito exigente na escola e no respeito a família pois tinha medo de ser penalizado e não desfilar pela agremiação.
“Desde sempre o carnaval teve um direcionamento na minha vida pessoal e profissional. Porque foi pelo carnaval que eu comecei a conhecer outras pessoas fora daquele âmbito onde eu fui criado inicialmente e, aí, onde cresceu o meu amor por estudar mais, e acabei me formando em biomedicina sendo também intermediado financeiramente pelo carnaval. Financeiramente eu acabei tendo muito ajuda do carnaval para me formar. Comprei o meu primeiro carro com a ajuda financeira do carnaval que eu recebia .
Formado como biomédico na Faculdade Metodista, Marlon sempre conciliou a dança com esse período de estudo e logo depois de trabalho na área da biomedicina. E foi justamente a dança que lhe fez conhecer lugares que ele em sua infância pobre na Zona Leste de São Paulo nunca poderia imaginar pisar.
“Eu tive várias outras oportunidades pelo carnaval. Saí do Brasil, conheci o Japão, conheci a África, conheci Portugal, conheci Dubai tudo com intermédio do Carnaval. Me levou não só a uma vida financeira estável, mas profissional e pessoal também. O samba é a cultura e ele acaba nos trazendo conhecimento muito, mas muito, importante, principalmente quando a gente se abre para entender o significado desta verdadeira cultura popular brasileira” explica Lamar.
Em 2018, junto com sua parceira na Portela, Lucinha Nobre, Marlon fez parte da comitiva da escola que realizou uma turnê organizada pela Coordenadora da Ala de Passistas da Azul e Branca de Madureira e Diretora de Harmonia, Nilce Fran, ao Japão. Apenas um dos exemplos de viagens que o carnaval proporcionou a Lamar. Muito agradecido pelo o que recebeu durante todo este tempo em que desfila e convive com o ambiente do carnaval, Marlon Lamar deixou à reportagem do CARNAVALESCO uma mensagem de esperança e carinho.
“Eu espero dos próximo carnavais que sejam, assim, cada vez mais grandiosos, que a gente supere essa crise que a gente está passando. Que a gente seja de fato, toda aquela grandiosidade que o samba sempre foi, respeitando o próximo, lutando contra o racismo, contra o preconceito, contra a homofobia. Gosto muito quando o carnaval aborda estes assuntos pois ele deve ser assim sempre plural. Um carnaval que esteja sempre tentando ajudar o próximo, como me salvou, e me deu direcionamento para viver, para sempre seguir o certo, eu tenho certeza, que as escolas serão verdadeiras escolas de vida para ajudar as pessoas” encerra Marlon.


Depois de quase 30 anos em que emitiu o primeiro alerta de que o samba havia sambado, a São Clemente traz em 2019 uma nova crítica sobre os rumos do carnaval com a reedição do clássico ‘E o samba sambou’ de 1990, até hoje a melhor colocação da história da São Clemente. O presidente Renato Almeida Gomes, o Renatinho, concedeu entrevista ao CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’. O dirigente se diz confiante com o desfile, jura que não vetou qualquer ideia de crítica do carnavalesco Jorge Silveira e revela que a chegada de Bruno Ribas, Giovana e Junior Scapin eleva o padrão da escola.
“A Rosa ajudou a São Clemente a se manter no Especial, nos deu um patamar legal. O Jorge está se encaixando. Ele me apresentou três enredos mas eu em um primeiro momento não fui favorável, pois confesso que não sou muito fã de reedições. Mas pelo momento vivido pelo carnaval achei muito pertinente. O Jorge Silveira é um cara muito inteligente”.
“Eu sou apaixonado por nossa bateria. O trabalho do Caliquinho é um dos melhores do carnaval. Estamos no nível das melhores, como Tijuca, Beija-Flor. Recebemos notas baixas em outros anos pois é mais fácil derrubar quem sobe. As baterias hoje no máximo tomam um 9,8, o nível está muito elevado”.
“O carnaval tem que ser mais engraçado. Estamos indo para um caminho de muita seriedade. A brincadeira é bacana demais. O Paulo Barros disse que os enredos críticos são apelativos. Nosso enredo não está apelando, está brincando com o que acontece”.
“A gente fechou com chave de ouro. Não tivemos problema, não tivemos parte técnica para consertar. A gente ficou até alguns minutos sem conversar no rádio, fiquei até me perguntando se estava tudo bem, mas se ninguém está falando nada é porque está tudo certo. Fizemos um ensaio perfeito e só falta agora o desfile. Se Deus quiser, a escola está preparada para ir para Sapucaí, apresentar seu enredo, samba, alegorias, as fantasias. Uma comunidade fantástica, com um trabalho fantástico que foi feito no barracão. O Salgueiro está pronto para disputar o título”, afirmou o diretor de carnaval Alexandre Couto.
A harmonia do Salgueiro foi praticamente perfeita, sendo o grande destaque da noite de ensaio. A comunidade berrou o samba a plenos pulmões, do início ao fim. Com destaque para as alas 18 e 22, ambas coreografadas, mas que não deixaram de cantar o samba um só instante. Outras alas que merecem menção pelo canto são as dos compositores, baianas e velha-guarda, segmentos que tradicionalmente não cantam tanto.
Quesito problemático da Academia em anos anteriores, nesse carnaval é seu grande trunfo. A obra, que já era aclamada desde a escolha, ganhou ainda mais força e popularidade durante o pré-carnaval. Hoje, não está somente na boca do desfilante, mas também do público em geral, como pode ser visto durante esse último ensaio de rua.
“Dentro das circunstâncias, o ensaio foi muito bom. Tirando um pouco que a rua estava muito cheia, e ela é bem estreita. A galera fica querendo invadir a bateria por causa da Viviane (Araújo, rainha de bateria), querendo entrar no meio da pista. Tirando isso, foi excelente. Graças a Deus a galera está feliz, tanto a bateria, quanto a escola inteira. E vamos trazer a vitória para o nosso Salgueiro. A bateria já está pronta e vamos à busca dos 40 pontos”, declarou Gustavo, um dos novos mestres da bateria Furiosa.
Tradição iniciada em 2011, a cerimônia da Lavagem da Marquês de Sapucaí abriu os caminhos para os desfiles do Carnaval 2019. O evento foi marcado pela mistura de religiões e contou com a participação de baianas, casais de mestre-sala e porta-bandeira, velha guarda, destaques e representantes das escolas de samba mirins.
A cerimônia teve início por volta das 20h, quando foi tocada a música “Nossa Senhora”, de Roberto Carlos. Padroeiro do Rio de Janeiro, a imagem de São Sebastião foi conduzida em um carro abrindo o cortejo por toda a Sapucaí. O padre Antônio, da Paróquia de São Jorge, foi o responsável por rezar um “Pai Nosso”, que antes, na mistura das religiões, teve o toque dos tambores para os Orixás, feito Centro Espírita Vovó Carolina, seguido da Fanfarra de Clarins.
Como em todos anos, o ator Milton Gonçalves apresentou a leitura com emoção de um texto preparado que reflete a importância da lavagem da passarela. O ator leu “Águas de Oxalá” e fez um discurso de exaltação ao carnaval carioca. Em seguida, o cantor Elymar Santos contemplou os presentes cantando a música ‘A Voz do Morro’.
A bateria formada por 120 ritmistas da Unidos da Tijuca acompanharam o cantor e compositor Dudu Nobre, que interpreta desde a primeira edição da Lavagem da Sapucaí, sambas antológicos que emocionaram a Passarela do Samba em anos marcantes.
O governador Wilson Witzel prestigiou a lavagem da Sapucaí. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, ele falou sobre a importância do evento para a Cidade.