O carnavalesco Jack Vasconcelos definiu em entrevista ao CARNAVALESCO a dimensão do enredo que o Paraíso do Tuiuti levará para a Sapucaí em 2026. Para ele, a proposta vai além da estética e da disputa: trata-se de um projeto de reflexão e conexão espiritual.
“Trazer a palavra de Orumilá para a humanidade, eu acho que é a grande missão do Tuiuti esse ano”, destacou o artista.
Segundo Jack, o enredo pretende provocar a plateia e os jurados a pensar sobre a noção de unidade no mundo contemporâneo.
“A gente tem que aprender de uma vez por todas que nós somos uma coisa só. O que acontece com um vai reverberar no outro ou em outro lugar, nada está desconectado. Quando a gente entender que nossas ações causam reflexos, acho que já vai ser meio caminho andado para a gente resolver muita coisa”, explicou.
O discurso sintetiza a linha que o carnavalesco costuma adotar: unir uma narrativa de forte impacto simbólico com uma leitura clara para a avenida.
Novo barracão e ganhos na produção
Jack também comemorou a mudança para um barracão mais amplo, que, segundo ele, trará ganhos diretos na execução do projeto plástico.
“É um barracão mais espaçoso. Temos um espaço maior para trabalhar. Estamos com uma disposição melhor nesse, porque o nosso antigo dava um pouquinho mais de dificuldade, principalmente com as alegorias. Vamos ter um ganho em montagem de alegoria”, analisou.
A infraestrutura reforçada é vista como diferencial para otimizar processos e garantir acabamento técnico nas alegorias, quesito sempre determinante na avaliação dos jurados.
Andamento da produção
O carnavalesco revelou que o cronograma está adiantado e dentro do esperado. “O protótipo já acabou. A gente está entrando agora em reprodução e alegoria a gente tá indo para a terceira já, então a gente tá indo bem. Está tranquilo”, afirmou.
Esse ritmo garante ao Tuiuti a possibilidade de ajustes e refinamentos até a reta final de preparação.
Conexão no processo do samba
Outro ponto destacado por Jack foi a construção do samba-enredo, em parceria com Claudio Russo, Gusttaco Clarão e com a entrada de Luiz Antônio Simas.
“A gente se entende muito bem, ele (Claudio Russo) já saca das coisas que eu quero dizer, ele já pega de longe. É uma parada que parece que a gente se conectou em sonho. A gente não chegou a verbalizar, mas a gente se conectou no sentimento, na ideia. Quando o tema é entendido, quando ele é absorvido pelo artista, todo mundo ganha e não tem erro, porque não tem erro em arte”, disse.
Compositores: Silas Augusto, Claudio Russo, Rafa do cavaco, Turko, Zé Paulo Sierra, Fábio Souza, Luis Jorge, Dr. Elio, Charles Silva e Bruno Giannelli
Bará! Mojubá, Agoyê!
Fez da Calunga Grande, Oceano de dendê
Bará ! Mojubá, Agoyê!
É boca que tudo come
É olho que tudo vê
Arreda que Exu abre caminhos
Arreda pra Exu movimentar
Quem duvidar do meu Camisa
Sem Patente ou divisa
Não se mete com Eleguá
Eh Laroyê, eh laroyê
Nos mercados e nas festas escutei a gargalhada
Eh Laroyé, eh laroyê
E no chão da minha escola
Assentei tua morada
Ontem caiu uma pedra lá fora
Que Exu só vai jogar agora
Bota farinha e marafo no padê
Bate paô quero ouvir alupandê
Eu sou da rua macumbeiro sim sinhô
Quem me guarda é Capa Preta Tranca Rua e Marabô
Gira saia pombogira, soberana ela é
Quem carrega uma Padilha sabe a força da mulher
Cemitério é praça linda
Mas ninguém quer passear
Contra todo preconceito
Deixa Nganga trabalhar
E a Barra Funda berço da malandragem
Se espelha na coragem
Do seu Zé e da Navalha
Quem bota fé nesse trevo campeão
Tem “amor ao pavilhão“
E a certeza que a macumba nunca falha
Mojirê Lodê Elegbará
Mojirê Lodê Elegbará
O teu feitiço não me pega nem no tranco
Eu sou mais o Exu catiço
Do Camisa Verde e Branco
A Mocidade Alegre conquistou uma das maiores vitórias de sua história. O evento 24 Horas de Samba, iniciado pelo fundador da agremiação, Juarez da Cruz, nos anos 1970, agora faz parte do Calendário Oficial de Eventos da Cidade de São Paulo (Lei 18.924, de 10 de setembro de 2025). Mais do que um triunfo da Morada do Samba, trata-se de uma conquista para todas as agremiações do carnaval paulistano. Desde 1972, diversas escolas participam da festa, levando grandes shows ao público. Sendo assim, qualquer reconhecimento do poder público deve ser celebrado pelos sambistas da capital. O CARNAVALESCO conversou com dois integrantes da direção de carnaval, que relembraram histórias e comemoraram o feito.
Membro da direção de carnaval, Dudu Teixeira falou sobre o esforço da Mocidade Alegre para manter a festa viva e acolher o público com qualidade.
“Não é apenas para a escola, mas para o samba e para a nossa cultura. É a valorização de quão importante é um evento como esse para a cidade e, principalmente, para a nossa escola, que realiza essa festa. Ela não é fácil de organizar, dá muito trabalho. As pessoas pensam que são apenas 24 horas de samba, como se fosse um dia simples. Mas não é assim: são 24 horas intensas de dedicação. Nada mais justo do que valorizar e coroar o trabalho que a Mocidade consegue manter durante todo esse tempo. Se pensarmos friamente, é quase impossível manter uma festa como essa. Já deixou de ser apenas uma tradição. Agora é oficial”, celebrou.
Dudu destacou ainda a parceria da vereadora Sandra Santana, responsável por apresentar o projeto na Câmara Municipal.
“A escola tem uma grande amiga, a vereadora Sandra Santana, que encaminhou o projeto para que virasse lei. Primeiro, o trâmite seguiu o processo normal, mas acredito que, por acompanhar de perto a nossa escola, ela percebeu o quanto era importante transformar essa data em algo oficial e marcante para a cidade de São Paulo”, declarou.
Ao recordar suas memórias na festa, ele relembrou sua estreia na Mocidade e destacou sua principal lembrança do evento.
“Foi a minha primeira experiência nas 24 Horas em 2016, porque eu vinha de outra escola de samba. Já estava no carnaval há algum tempo, mas nunca tinha vivido isso. Aquela edição me marcou, porque eu não acreditava que fosse possível realizar algo assim. Quando terminou, foram 26 ou 27 horas de festa. Eu dizia para os meus pares: ‘Vocês são malucos!’. É algo impressionante. Pouquíssimas pessoas ficam realmente as 24 horas. Já quem organiza, vive um mês inteiro de preparação. Hoje, quase 10 anos depois, estou aqui, vivendo isso, e é muito bacana”, comentou.
Vitória do carnaval de São Paulo
Outro diretor de carnaval, Ricardo Sonzin, destacou que a oficialização não é apenas uma conquista da Mocidade Alegre, mas de todo o carnaval paulistano.
“Não é uma conquista apenas da Mocidade Alegre, é do carnaval de São Paulo como um todo. É muito gratificante saber que a nossa escola tem esse reconhecimento, importância e valorização dentro da cultura popular da cidade. Sem dúvidas, é fundamental para o nosso samba”, declarou.
Talvez a maior característica do evento seja receber várias coirmãs para apresentações. Só nesta edição, serão oito escolas abrilhantando a festa, sendo duas do Rio de Janeiro – as mais tradicionais da cidade: Portela e Mangueira. O diretor comentou sobre essa troca de amizades que a Mocidade Alegre coleciona.
“É extremamente enriquecedor para o nosso carnaval e para a nossa escola, que se sente cada vez mais vaidosa e respeitada, valorizando as nossas conquistas. Estar aqui, 24 horas falando de samba, homenageando sambistas, abrindo as portas para outras escolas dançarem no nosso terreiro, no nosso palco, e fazerem parte da nossa festa é algo muito especial”, afirmou.
Com 21 anos de Mocidade, Ricardo guarda muitas lembranças, mas aponta como inesquecível a homenagem que será feita em 2025 ao carnavalesco Sidnei França.
“Vou antecipar qual será a minha melhor memória. Nós vamos homenagear e entregar o título de ‘Sambista Imortal’ para o Sidnei França, uma pessoa por quem tenho um carinho imenso. Trabalhamos juntos por muito tempo aqui na Mocidade, construímos muita coisa e acredito que esse será um dos momentos mais marcantes da minha trajetória”, concluiu.
A manhã do último sábado foi de fé, festa e solidariedade em Nilópolis. A Beija-Flor realizou uma carreata em celebração a Cosme e Damião, passando por comunidades como Novo Horizonte, Morro da Mina e Nova Cidade, onde foram distribuídas 3.500 cestas básicas e doces para crianças e famílias. A ação, que já faz parte do calendário social da agremiação, mobilizou integrantes da escola e moradores. Além dos tradicionais saquinhos de doces oferecidos às crianças, as famílias também receberam alimentos.
Foto: Eduardo Hollanda/Beija-Flor de Nilópolis
O presidente da Beija-Flor, Almir Reis, ressaltou a importância da iniciativa. “Essa é uma tradição da nossa escola e um compromisso permanente junto da comunidade. Além dos tradicionais doces de Cosme e Damião, pensamos também nas famílias e, por isso, entregamos cestas básicas. É a forma da Beija-Flor reafirmar seus laços de fé, solidariedade e cuidado com o povo de Nilópolis”, afirmou.
A celebração contou ainda com a presença de Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), de Caio David, presidente do Instituto Beija-Flor, de Mestre Rodney, comandante da bateria da escola, Marco Antônio Marino, diretor de Carnaval, além de outros componentes que acompanharam o cortejo solidário.
Reconhecida como uma das principais referências culturais do Carnaval carioca, a Beija-Flor mantém, ao longo dos anos, o vínculo com sua cidade de origem por meio de ações sociais, reforçando o papel da escola não apenas na avenida, mas também no dia a dia da comunidade.
A manhã do último foi doce para as crianças do Complexo do Alemão e de todas as comunidades que fazem parte da Zona da Leopoldina. No tradicional dia de São Cosme e São Damião, a Imperatriz Leopoldinense e o Instituto Imperatriz fizeram a festa da criançada com a distribuição de 3 mil saquinhos de doces. E além das famosas guloseimas, a Rainha de Ramos também realizou a doação de iogurtes para os presentes.
Foto: Nelson Malfacini/Divulgação Imperatriz
Por volta das 10h30, a quadra da Imperatriz, em Ramos, Zona da Leopoldina do Rio, já estava lotada e com fila dando volta no quarteirão. O presidente do Instituto Imperatriz, João Drumond, ressaltou a importância da data e de cada vez mais ações voltadas às famílias da região.
“É uma tradição do carioca, e a Imperatriz já realiza a atividade há muitos anos. É maravilhoso ver a alegria de cada um que chega aqui cedo, aguarda e sai sorrindo com o seu saquinho de doce. A gente adoça a vida de uma criança e também das famílias que vivem em situações difíceis, e isso é muito especial. Não importa a ocasião: seja Natal, Páscoa ou neste dia, o Instituto Imperatriz tem como objetivo fazer o próximo sorrir e colaborar para a qualidade de vida de todos. Salve a Ibejada”, afirmou João.
A presidente da Imperatriz, Catia Drumond, também participou da ação e destacou o prazer em proporcionar a clássica comemoração:
“É sempre um prazer. Todo ato transforma a vida de muitas famílias. E estamos falando do futuro dessas crianças. Então, a gente espera que todas elas tenham um futuro muito doce. Se cada um fizer sua parte, a lembrança desse momento será pra sempre”.
O Instituto Imperatriz Leopoldinense é uma entidade sem fins lucrativos, que tem como finalidade única promover cidadania, empatia, oportunidade e amor ao próximo.
Segunda escola a se apresentar na segunda noite do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo, o Águia de Ouro apresentou de maneira oficial o samba-enredo que embalará o desfile de “Mokum Amesterdã: o voo da Águia à cidade libertária”, assinado pelo carnavalesco Alexandre Louzada, neste sábado (27 de setembro), na quadra da agremiação. A canção é composta por Aquiles da Vila, Fabiano Sorriso, Salgado Luz, Lucas Donato, Marcos Vinícius, PH do Cavaco, Duda Juarez, Leandro Flecha, Fábio Gonçalves, Wagner Forte, Cabide e Chico Maia. Presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou personagens importantes para a produção do desfile da azul e branca da Zona Oeste paulistana e traz opiniões e o panorama do evento em geral.
Toda escola tem um processo próprio para escolher o samba-enredo que será cantado pela comunidade. O do Águia de Ouro é ainda mais particular: toda a eliminatória é feita internamente, com a escola apenas anunciando a parceria campeã por meio das redes sociais.
Um dos compositores da obra, Aquiles da Vila, detalhou como aconteceu em 2026: “O Águia de Ouro é sempre um processo diferente, a gente sabe que é diferente. E a gente entendeu que precisava fazer um samba muito específico para o enredo sobre Amsterdam. A escola deixou muito claro que era para falar de uma terra libertária, que falava de diversidade, arte, liberdade de orientação sexual, liberdade com relação à rua da prostituição, uma série de coisas”, destacou.
Para Aquiles, se livrar de um estigma que muitos tiveram quando o enredo foi anunciado foi uma das chaves para que a obra pudesse ser bem recebida pela comunidade e pelo universo do samba paulistano: “Mais do que se apegar ao fato de ser um chamado enredo CEP [ou seja, que fala de uma cidade, um estado ou um país], a gente fez questão de entender as características do que está sendo falado. A gente está falando de um lugar que tem muita liberdade de expressão. Não existe um lugar que combina e conversa mais com o carnaval, um lugar mais democrático do que o nosso carnaval de escola de samba. A gente entendeu dessa forma. Tanto que fazemos um paralelo, no verso do ‘o rei daqui e o rei de lá’. O samba conta essa história: o homem que tem a chave de Amsterdam na mão se abraça com quem é rei na folia. Eles estão de mãos dadas e fazem uma grande festa. O grande pretexto, o grande mote desse enredo é esse”, frisou.
Ar noventista
Muitos dos que tiveram a oportunidade de conhecer a obra antes do anúncio oficial elogiaram a obra por alguns motivos em específico. A canção, bastante animada, tem letra simples e um verso que extravasa a irreverência da maior festa popular do planeta logo no refrão: “Eu vou ficar bem louco nesse carnaval”. A obra inteira, entretanto, lembra sambas-enredo antigos.
Aquiles destacou que, nas reuniões com integrantes da própria escola durante o processo interno para escolha da canção, o objetivo da agremiação era bastante claro: “A gente se reuniu e pensou que o que cabe para esse tipo de tema é uma melodia extremamente leve, gostosa e popular para ser cantada. Era assim que a escola queria e foi assim que a gente levou para as finais. A escola fez um corte, eliminou praticamente metade das peças e, a partir dali, o Águia pediu que fizesse um polimento do samba. A gente fez esse polimento, fizemos uma devolutiva muito rápida e eu acho que a gente acabou sendo muito feliz em relação a isso, atendendo de fato todos os pontos que a escola pediu e que Amsterdam merece”, comentou.
Salgado Luz, outro compositor entrevistado, complementou: “Era exatamente isso que a escola queria. Era isso mesmo: resgatar esse carnaval de antigamente. O enredo pedia isso e a comunidade estava precisando de um samba como esse, daquele tempo do Águia de Ouro quando ensaiava embaixo do Viaduto Pompeia. Foi essa a intenção do nosso time”, relembrou.
Antes de inaugurar a atual e suntuosa quadra, na avenida Avenida Presidente Castelo Branco (uma das pistas laterais da Marginal Tietê), o Águia ensaiava onde hoje está a rua José Benedito Boneli, a cerca de quatrocentos metros de onde atualmente está localizado o Allianz Parque.
Unanimidade
Quando perguntados sobre a parte favorita do samba, todos eles destacaram o refrão de cabeça. Para explicar o motivo pelo qual citou tal trecho, Aquiles relembrou uma das faixas que fizeram a história do gênero samba-enredo – “Festa Profana”, canção eternizada pela União da Ilha do Governador em 1989: “É difícil arriscar, mas eu acho que o refrão de cabeça conta toda a história. É assumir, de fato, o lance do ‘ficar bem louco’, é assumir de fato uma postura da folia. A gente já teve um samba clássico dos anos 1980 no Rio de Janeiro que ‘eu vou tomar um porre de felicidade’, que toca em tudo que festividade hoje. O Águia aposta nisso e não é aleatório: é com o enredo de um lugar que de fato é libertário e aposta na individualidade, na liberdade humana, nas próprias escolhas. A gente vai trazer um ótimo resultado com esse tipo de solução de linguagem de música. É isso que o Amsterdam pede e que o Águia de Ouro vai vestir de fato”, afirmou.
Além de concordar com o parceiro de composição, Wagner Forte revelou um sentimento maior que a gratidão pelo Águia ter escolhido a obra também composta por ele: “São os dois primeiros versos do refrão, mesmo. É o que o Aquiles falou: eu acho que a gente, pensando no samba como um todo, partiu dos dois primeiros versos, que são fundamentais e que resumem o enredo todo. Nós vamos ficar bem louco de carnaval, mesmo. A gente já está louco de felicidade de ter ganho esse samba. Essa escola, para mim, significa muito. A primeira vez que eu desfilei numa escola de samba foi numa comissão de frente do Águia de Ouro, há dez anos. Ganhei a disputa de samba-enredo de 2019 e, agora, ganhei mais um com essa parceria maravilhosa. É fantástico! Eu já estou louco, não sei o que falar, mais. Nem precisa de carnaval, já estou louco desde hoje”, brincou.
Diversão aprovada
Todos os ouvidos pela reportagem tiveram sensações semelhantes em relação ao samba – e isso vai muito além da aprovação da obra. Sidnei Carrioulo Antonio, presidente do Águia de Ouro, abriu a série de impressões: “Eu, particularmente, gostei. Eu não sou de achar que sempre o que é meu é melhor, não. São casos e casos de samba. Eu acho que esse samba é um samba gostoso, é um samba que resgata um pouco a coisa do samba enredo divertido. Para a gente falar desse assunto, o foco não é só Amsterdã: o foco também é liberdade e felicidade. A música nos transporta a esses dois assuntos: liberdade e felicidade. Das pessoas que já ouviram o coro que nós montamos, todo mundo está feliz. Agora, vamos tirar a prova dos nove, na hora que a gente apresentar para toda a comunidade”, destacou.
Carnavalesco da agremiação, Alexandre Louzada deu a entender que a canção pode ganhar todo o carnaval paulistano: “Eu participei de cada pedacinho da escola. Quando eu ouvi pela primeira vez, depois de gravado e depois do samba todo ajeitado, eu fiquei muito encantado. Me fez lembrar os sambas de antigamente, os sambas mais empolgados. A gente vai trazer uma alegria muito grande não só para o Águia de Ouro, mas para o Carnaval de São Paulo”, prometeu.
A tradicionalíssima dupla de intérpretes da escola foi pelo mesmo caminho. Douglinhas Aguiar falou pelos dois: “A gente gostou demais. Eu acho que esse samba resgata a brincadeira do carnaval. É um samba que vai tratar de um assunto que é Amsterdã, uma cidade libertária, uma cidade livre, onde os pensamentos são livres, as pessoas são felizes. Para representar essa cidade, a gente não podia vir com o samba sisudo, para baixo. É um samba muito explosivo e muito alegre”, comentou.
Serginho do Porto complementou com uma analogia repleta de recordações: “É um samba que tem a cara daqueles sambas dos anos 1990, em que você botava o LP ou o CD para tocar, ia embora para a rua, ia para os outros lugares e o samba ficava na sua memória. Esse é o samba do Águia de Ouro para o Carnaval 2026”, finalizou.
Além do samba-enredo
Se o lançamento da obra que embalará o desfile de 2026 era a cereja do bolo, o evento inteiro teve uma série de atrações pertinentes para o mundo do samba. A apresentação das fantasias também era muito aguardada – e trouxe elogios proferidos na quadra, sobretudo quando as alas em específico eram citadas. Também houve apresentações com segmentos da agremiação e, para encerrar a noite, um show com a banda Casa Nossa.
Por Guibsom Romão, Matheus Vinícius, Carolina Freitas e Marcos Marinho
O Salgueiro definiu o samba-enredo que vai embalar seu desfile no encerramento da terça-feira de carnaval em 2026. Com o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que ao tinha medo de bruxa, de bacalhau e nеm do pirata da perna-de-pau”, assinado pelo carnavalesco Jorge Silveira e pelo enredista Leonardo Antan, a escola optou pela junção das parcerias de Rafa Hecht e Marcelo Motta. O samba campeão reúne uma verdadeira constelação de compositores: Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Clairton Fonseca, Fabrício Sena, Deiny Leite, Felipe Sena, Ricardo Castanheira, JP Figueira, Deco, Marcelo Motta, Dudu Nobre, Julio Alves, Manolo, Daniel Paixão, Jonathan Tenório, Kadu Gomes, Zé Moraes, Jorge Arthur e Fadico, prometendo emocionar a Marquês de Sapucaí.
Fotos de Guibsom Romão, Carolina Freitas, Matheus Vinícius e Marcos Marinho/CARNAVALESCO
O compositor Rafa Hecht mal conseguia conter a emoção ao falar sobre a vitória. Para ele, estar na Sapucaí com um samba da própria autoria era um sonho se tornando realidade:
“Eu estou anestesiado. Eu realizei o sonho da minha vida. É o dia mais feliz. Eu não imagino alguém que seja mais feliz do que eu hoje. Ver o Salgueiro desfilando com um samba que eu e minha parceria escrevemos é inexplicável. Eu não tenho nem palavras para te explicar o que eu estou sentindo. Eu acho que, apesar de ser o meu sonho, nenhum sonho nunca vai ser maior do que é melhor para o Salgueiro. Se a escola entende que com a junção o Salgueiro vai ter um grande samba, é junção. Eu já estou gritando ali no palco: ‘O lê lê lê, Ô lá lá’”.
O compositor Marcelo Motta, veterano da escola, descreveu a emoção de conquistar a décima vitória no Salgueiro, um marco histórico em sua trajetória.
“É o décimo título, a décima estrela. A décima estrela que, se Deus quiser, vem para o nosso Salgueiro. A décima estrela que brilha em Rosa Magalhães. É sempre a mesma emoção da primeira vez. É sempre a maior emoção da minha vida. E dessa vez com amigos. É uma junção feliz e que vai levar o Salgueiro ao título. Com esse são 10 sambas no Salgueiro, felizmente, a décima estrela, uma coincidência feliz. A minha é a décima estrela, meu é o décimo título. E a décima estrela que brilha em Rosa Magalhães é a décima estrela que vai trazer o título do Salgueiro, eu tenho certeza disso”.
Samir Trindade celebrou a vitória destacando a essência tradicional do samba presente na parceria e a importância de homenagear Rosa Magalhães.
“A emoção é sempre nova. Ganhar em uma escola do tamanho do Salgueiro, com um samba que sou apaixonado, é indescritível. Há anos venho tentando emplacar um samba que resgate a essência antiga, aquela melodia bonita que aprendemos a amar no carnaval. Tenho certeza que o Salgueiro fará um grande desfile com esse samba, cantando Rosa Magalhães, e será uma homenagem àquela geração que viveu o carnaval dos anos 1990”.
Sobre a junção: “Fiquei feliz porque reconhecemos a força do outro refrão. Nosso samba tinha algumas críticas quanto ao refrão, mas o Salgueiro tomou a decisão certa. A junção trouxe o melhor do nosso samba com o refrão arrebatador da parceria do Marcelo Motta. Vai ser, na minha opinião, um dos top 3 sambas do carnaval”.
O compositor Deco destacou a importância da junção e a força do samba para o desfile: “A emoção de vencer é indescritível, ainda mais ganhando em uma escola grande como o Salgueiro. A junção foi muito bem feita e o samba está bonito. A escola tem tudo para arrebentar com esse enredo, e o samba vai representar muito bem o que a escola precisa para alcançar a décima estrela. O samba já caiu na boca do povo e na Sapucaí será ainda mais potente. Com certeza, será entoado alto e com energia pela torcida”.
Jonathan Tenório viveu uma estreia memorável como compositor, exaltando a importância de Rosa Magalhães e a emoção da junção: “A sensação é indescritível! Meu primeiro ano como compositor e já ganhar na escola do tamanho do Salgueiro é incrível. Falar sobre Rosa Magalhães é uma emoção imensa. A junção foi maravilhosa, o todo agradou a todos, e vamos bombar na avenida”.
Presidente André Vaz: ‘O Salgueiro vai vir mais luxuoso’
O presidente do Salgueiro, André Vaz, destacou a qualidade da safra de sambas deste ano e a disputa acirrada até a final. “Desde que recebemos os sambas inscritos, sabíamos que, dos 18, oito estariam disputando tete a tete. Depois ficaram cinco, que eram os favoritos. Então, com certeza, a gente sabia que essa final ia ser aberta, bem disputada”, comentou.
Vaz também adiantou que o desfile de 2026 será marcado pelo luxo. “De todos os anos que estive à frente do Salgueiro, o Salgueiro vai vir mais luxuoso, em termos de fantasias e de carros alegóricos. Será um Carnaval grandioso que o Jorge Silveira desenhou para gente”.
O dirigente elogiou a parceria com o carnavalesco Jorge Silveira: “É um cara capacitado, que desenha tudo e tem uma equipe muito competente. Confio muito nele e tenho certeza que vai ajudar o Salgueiro a levar esse título tão sonhado”.
Além disso, André confirmou a volta da temporada de ensaios do “Salgueiro Convida”, que estreia em 11 de outubro, recebendo a Portela. Depois, Acadêmicos de Niterói e Império Serrano também participam.
Jorge Silveira: ‘É o maior conjunto de fantasias que já desenhei’
Responsável pelo desenvolvimento do enredo em homenagem à obra de Rosa Magalhães, o carnavalesco Jorge Silveira ressaltou a emoção e a responsabilidade de traduzir a trajetória da artista.
“É o carnaval de maior emoção e de maior compromisso coletivo. O Salgueiro este ano é uma grande plataforma para abraçar o sentimento coletivo sobre a obra da Rosa Magalhães. Estamos lidando com uma memória de grande responsabilidade e tratando isso com muito carinho, pesquisa e compromisso”, afirmou.
O carnavalesco revelou a grandiosidade do projeto visual: “São 42 figurinos no chão, é roupa para caramba. É o maior conjunto de fantasias que já desenhei na minha vida. Também teremos um conjunto de alegorias imenso, interativas e dinâmicas, com texturas diferentes. A professora vai ficar orgulhosa”.
Leonardo Antan: ‘Um enredo muito rico’
O enredista Leonardo Antan ressaltou a dimensão da pesquisa que fundamenta o desfile, mencionando o novo site da UERJ que disponibiliza mais de 4 mil imagens de acervo da carnavalesca.
“Qualquer pessoa pode acessar mais de 30 anos de desenhos da Rosa. É um material riquíssimo que nos ajudou a pensar o enredo”, explicou.
Leonardo também valorizou a parceria com Jorge Silveira: “Trabalhamos juntos há quatro carnavais, com uma afinidade muito grande. Nosso processo criativo é coletivo e colaborativo, mas tudo ganha a cara do Jorge, que tem um traço muito forte”.
Sobre a concepção do enredo, resumiu: “Somos apaixonados por Carnaval e nos formamos vendo Rosa Magalhães. Esse é um enredo muito afetivo, com mais de 50 carnavais da Rosa que vamos tentar referenciar e traduzir da melhor forma”.
Wilsinho Alves, diretor de carnaval, comentou as mudanças propostas pela Liesa na dinâmica dos desfiles, com a retirada de uma cabine de julgamento. “A ideia da cabine espelhada surge porque o desfile de 2025 parou demais. Com uma cabine a menos, a dinâmica melhora e a evolução tende a ficar mais fluida”.
O diretor também confirmou o crescimento da escola em 2026: “São 3.000 componentes no chão, além de alegorias muito maiores. O Salgueiro cresceu em todos os aspectos”.
Sobre o desfile de 2025, Wilsinho foi enfático: “Foi o mais organizado que eu fiz. Todo mundo saiu da avenida com o sentimento de um grande carnaval, mas os jurados não viram dessa forma. O Salgueiro foi injustiçado”.
Intérprete Igor Sorriso: ‘Hoje é um novo ciclo’
O cantor oficial Igor Sorriso celebrou a escolha do samba como marco de um novo momento. “2025 foi um ano produtivo e importante pra minha trajetória. Infelizmente, não voltamos nas Campeãs, mas fizemos um trabalho legal. Hoje é o novo ciclo, escolher o nosso hino pra retomar os trabalhos do carnaval de 2026. Pode ter certeza que vai ser um ano ainda mais incrível para o Salgueiro”.
Ele exaltou a parceria musical dentro da escola: “O Alemão é meu irmão, ensina demais e agrega muito. Temos que aproveitar a convivência com pessoas renomadas. Além disso, tenho uma relação de amizade antiga com os mestres da ‘Furiosa’, o que torna tudo mais fácil”.
Alemão do Cavaco: ‘Nosso time só tem craques’
Diretor musical do Salgueiro, Alemão do Cavaco destacou a excelência da equipe. “Desde que cheguei, nosso time de carro de som sempre tirou nota máxima. Eu sou apenas o maestro, mas nosso time só tem craques. A gente se respeita muito, e por isso entregamos não só a nota na avenida, mas também grandes eventos”.
Ele explicou o processo de trabalho: “Pegamos o samba, criamos a harmonia e valorizamos os arranjos, efeitos e respirações para trazer um canto bonito e garantir a nota. Esse ano tivemos três grandes sambas na disputa, qualquer um deles daria tranquilidade para levar”.
Laboratório para a cabine 360º
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei e Marcella, fez um balanço positivo de 2025 e projetou expectativas para o próximo carnaval. Ele ressaltou: “Foi maravilhoso! A escola cumpriu tudo o que estava previsto e fez um grande desfile. Infelizmente, ficamos de fora em alguns quesitos, mas 2026 vai ser um ano maravilhoso”.
Marcella complementou: “Toda a proposta coreográfica que ensaiamos foi executada com maestria. Nossa fantasia trouxe materiais diferentes e efeitos inéditos. Mas como somos exigentes, já começamos o trabalho para 2026, focando nas novidades, cabine 360° e tudo mais”.
Ambos elogiaram o trabalho de Jorge Silveira: “Ele acertou em cheio nosso perfil de fantasia, não precisávamos alterar nada. Foi um presente novamente”, disse Marcella. Sidclei acrescentou: “Jorge conseguiu entrar na nossa essência, no que queremos e gostamos, e está de parabéns não só pelo casal, mas por todos os carros alegóricos e quesitos que ele carrega”.
Sobre a cabine espelhada, o casal explicou: “Estamos fazendo um laboratório, estudando movimentos e coreografias para que a proposta do 360° aconteça de forma tradicional, respeitando a essência do do quesito, atendendo a todos os cantos da Sapucaí”, comentou Marcella.
Mestres da ‘Furiosa’, Guilherme e Gustavo: ‘Sequência de notas máximas’
Mestre Guilherme celebrou os resultados de 2025: “Graças a Deus conseguimos mais um ano de 40 pontos. Cada ano é sempre uma novidade, um novo samba, novo enredo, novos ritmistas, mas mantemos 90% da bateria do último carnaval. Vamos para mais um ano de nota máxima”.
Mestre Gustavo complementou sobre o desafio do ano: “Trouxemos instrumentação externa, amigos músicos e percussionistas que vieram desfilar conosco. Foi um ano de desafio, mas deu tudo certo”.
Diretor de Harmonia: ‘Trabalho em sintonia com o carro de som’
Paulo Dimitri, um dos membros da direção de harmonia, elogiou a parceria entre a equipe. “São três cabeças pensando, mas sempre chegamos a um consenso rápido. Parece que um já sabe o pensamento do outro. Vamos para o terceiro ano assim, com muito entrosamento”.
Ele reforçou a preparação antes dos ensaios de rua: “Trabalhamos primeiro dentro da quadra, forçando o canto com a comunidade. Só depois levamos para a rua”.
Sobre a relação com Alemão do Cavaco, concluiu: “É um grande profissional, muito detalhista. No olhar já nos entendemos. Temos certeza que vamos nos dar bem”.
Como passaram os sambas na final
Parceria de Rafa Hecht: A obra de Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Clairton Fonseca, Fabrício Sena, Deiny Leite, Felipe Sena, Ricardo Castanheira, JP Figueira e Deco foi a primeira a se apresentar na final. Marquinhos Art’ Samba e Leonardo Bessa comandaram os microfones principais. O público começou a cantar o samba ainda na passagem de som. O refrão: “Professora volta pra Academia / Traz Pamplona e Arlindo pra celebrar / Não esquece João, é desse terreiro / Revoluciona outra vez, Salgueiro!” levantou o público todas as vezes que foi cantado, mostrando uma potência notável. Quando o samba ficou a cargo da torcida, sem bateria nem cantores, o canto se manteve sólido e de alto nível. O trecho: “Que ti-ti-ti é esse pelo mundo a me levar? / Naveguei sem sair do meu lugar / Aportei no dia 22 de abril / À sombra de um pau-brasil” sacudiu o público a cada passagem. Foi uma belíssima apresentação, que não se mostrou tímida por ser a primeira da noite. O samba se mostrou pronto e forte candidato a se tornar o hino salgueirense de 2026. Ao fim, a obra recebeu gritos de “É campeão”.
Parceria de Marcelo Motta: O samba de Marcelo Motta, Dudu Nobre, Julio Alves, Manolo, Daniel Paixão, Jonathan Tenório, Kadu Gomes, Zé Moraes, Jorge Arthur e Fadico foi conduzido pelos intérpretes Tinga e Pitty de Menezes. A apresentação foi boa, e o refrão:
“O LELÊ! EIS A FLOR DOS AMANHÃS / A DÉCIMA ESTRELA BRILHA EM ROSA MAGALHÃES / ONDE O SAMBA É PRIMAVERA, QUE FLORESCE EM FEVEREIRO / NEM MELHOR, NEM PIOR… SALGUEIRO!” funcionou muito bem, com as bossas da Furiosa, fazendo a quadra inteira levantar. Quando o canto ficou apenas com a torcida, o samba foi bem executado. No entanto, após isso, a recepção da quadra se mostrou mais regular. O desempenho no palco foi excelente, mas, longe do refrão, a quadra, em algumas passadas, não correspondia à altura. A torcida ainda cantou o refrão duas vezes após o encerramento da apresentação. Em suma, foi uma boa apresentação, mas levemente contida.
Parceria de Marcelo Adnet: A lenda Wander Pires foi o intérprete da obra dos compositores Marcelo Adnet, Gustavo Albuquerque, Babby do Cavaco, André Capá, Bruno Zullo, Marcelinho Simon, Rafael Castilho, Luizinho do Méier, Igor Marinho e Fabiano Paiva, que se apresentou por último na noite. Com uma letra rica em referências a Rosa Magalhães, a apresentação foi boa. O refrão: “Deixa meu povo festejar / Lembra, sou eu… O seu carnaval / No meu jardim quem te viu primeiro / Ó linda Rosa, foi o Morro do Salgueiro” funcionou com o público, mas ficou atrás em comparação com os dois anteriores. Quando só a torcida cantou, o desempenho foi excelente, assim como o dos concorrentes. Em suma, foi uma boa apresentação, mas não apresentou a consistência de uma obra campeã.