Por Diogo Cesar Sampaio
Quarta colocada no carnaval de 2018, a Inocentes de Belford Roxo quer alcançar uma posição ainda melhor em 2019. Para isso, trouxe o carnavalesco campeão da Série A em 2017, Marcus Ferreira. Com o enredo “O frasco do bandoleiro – Baseado num causo com a boca na botija”, Marcus aposta novamente na temática nordestina, presente em outros trabalhos seus. O artista promete trazer um novo olhar sobre a trajetória de Lampião e seu bando. Uma visão mais humana, que mistura o folclore com fatos históricos, toda contada através de objetos característicos dos cangaceiros, como os frascos.
“Quando eu fui contratado, o presidente me pediu uma temática que tivesse ligação com o nordeste. Mas um nordeste enraizado, que olhasse e visse de imediato a região. Eu queria algo que fugisse do aspecto plástico. Comecei a pesquisar sobre vários assuntos e levei para a direção três temas. Os três temas foram pensados para desenvolver o carnaval diante das dificuldades na Série A. Queria algo que fosse de fácil leitura. Durante as pesquisas sobre vários aspectos do nordeste, eu escolhi falar sobre os objetos que os cangaceiros usavam, no contexto de Lampião e Maria Bonita. Depois disso, passei a ver vários filmes célebres sobre o cangaço brasileiro pra poder entender até as vestimentas deles, além de todas as dificuldades de se viver no sertão. Esse enredo é um olhar meu. O enredo não vem de uma pesquisa ou de um livro. É um olhar fotográfico, sobre tudo que o bando viveu”.
A construção do enredo, baseada em um olhar próprio do artista, é o grande trunfo da Inocentes para Marcus Ferreira. Através de curiosidades sobre a vida dos cangaceiros, o carnavalesco pretende abordar questões sociais do nordeste, principalmente do sertão e de seu povo.
“Minha grande aposta é a maneira como o carnaval está sendo construído. A minha ideia é falar do objeto que não tão somente é usado pelo cangaço, mas o objeto usado pelo sertanista nordestino. O presidente me pediu que o enredo tivesse uma pitada social. Toda vez que eles paravam numa cidade, eles colocavam sobre a natureza seca e quase morta do sertão, os objetos que eles carregavam. Expunham a condição de vida deles. Também observei que o fato de eles andarem com as mãos cheias de anéis, é porque eles não tinham como carregar fisicamente. E é por isso também, que eles costuravam as moedas de ouro e prata na roupa. As mulheres tinham muitos broches que eram frutos dos roubos, principalmente dos coronéis. Em cima disto, eu criei o frasco do bandoleiro. É o frasco que conceitua tudo que guarda. Eu descobri várias curiosidades sobre isso”.
A proposta diferenciada de enredo também pode ser observada na plástica da escola. Característico do carnavalesco, o uso de materiais alternativos e incomuns é ainda mais preponderante em 2019, se comparado aos trabalhos anteriores de Marcus. Objetos corriqueiros do dia-a-dia estão sendo utilizados em larga escala na confecção do carnaval da Inocentes. Desde garrafas pets no abre-alas, até panelas e baldes na última alegoria.
“Um ponto diferente da Inocentes em 2019 é a plástica. Usamos os frascos, que estão no enredo, em sua totalidade. Revestir um carro todo de garrafas pet e caixotes de feira eu nunca tinha feito, e fiz esse ano. É até difícil escolher algo para destacar, que chama mais a minha atenção. Eu gosto muito da fantasia da ala das baianas, por exemplo, pela concepção, por ser uma fantasia diferente. Cada carro tem uma materialidade diferente. O abre-alas eu aproveito a parte do circo e uso muitos tipos de garrafas, não só as pets. No último carro eu uso frascos nossos, do cotidiano, que jogamos fora como panelas, bacias, baldes”.
A proposta plástica da Inocentes em 2019 representa também uma ruptura ao que vinha sendo apresentado pela escola nos últimos carnavais. As saídas do carnavalesco Wagner Gonçalves depois de anos de casa, aliada a chegada de Marcus Ferreira, corroboraram para uma nova ‘cara’ para escola.
“Todo artista tem a sua marca, cada um tem sua personalidade. O Wagner é muito meu amigo. A Inocentes ficou durante anos convivendo com a arte do Wagner. E agora eu trago um pouco da minha marca. Eu sempre procuro ouvir o que a escola deseja. Nos últimos anos, a Inocentes veio sempre com temática africana e negra, ou com algo relacionado. Quando eu cheguei, o presidente pediu por algo novo. Justamente para dar uma mudada na cara da escola. Resolvi vir com o que tenho de mais característico no meu trabalho: figurinos leves, com alta costura e muito colorido”.
Durante a entrevista, Marcus Ferreira comentou sobre como lida com a pressão por resultados. Ele falou também sobre como é chegar a Inocentes em um momento de ascensão da escola, que após a rápida a passagem pelo Grupo Especial em 2013, acumulou uma série de resultados intermediários até o carnaval passado, quando ficou em quarto lugar, e voltou a disputar pelo título.
“Eu sou um cara que trabalho muito. Eu já passei por dificuldades em alguns trabalhos, até dificuldades extremas. Até o título do Império (Serrano) foi muito difícil. Devido a todo o peso do Império Serrano, e por ele estar a nove anos no Acesso na época, eu era muito cobrado. Porém, já no meu primeiro ano alcançamos o campeonato. Aqui na Inocentes, nós estamos tendo muita dificuldade, assim como todas as escolas este ano, e estamos fazendo um trabalho muito pé no chão. E posso dizer que aqui eu tenho contado com o apoio de todos, do presidente ao diretor de carnaval. Aqui eu sou apenas uma parcela de um todo, para fazer a Inocentes chegar mais a frente ainda. Eu quero trazer uma escola competitiva”.
A crise no carnaval
O carnavalesco da tricolor de Belford Roxo ainda falou sobre o atual momento do carnaval. Ele contou um pouco do esforço que há para por uma agremiação na rua, independente das dificuldades enfrentadas no atual estado de crise da festa.
“Eu costumo dizer que o carnaval da Série A é o carnaval da possibilidade, da dificuldade. Esse ano é o carnaval da impossibilidade. Não é só o que o carnavalesco pode usar, mas o que as diretorias podem entregar. O esforço é pensar o carnaval no coletivo. Eu tive o manejo de olhar o carnaval como um todo, para justamente poder finalizar o que está na parede da minha sala”.
Marcus também relembrou outros momentos difíceis que passou em sua carreira, quando devido a problemas nos bastidores, viu o seu projeto idealizado não ir de maneira completa para a avenida. Ele comparou esses momentos de dificuldade com o atual, onde todas as escolas tiveram que se adaptar a um corte de 50% da verba, anunciado pela prefeitura, às vésperas do carnaval.
“As pessoas precisam entender que o carnavalesco é só uma parcela do projeto. Geralmente, se o projeto não vai para Sapucaí, o carnavalesco não é o culpado. Eu já sofri em alguns momentos em que os projetos que fiz não foram completos para a avenida. Já cheguei a praticamente morar em barracão para entregar projeto. Aqui na Inocentes, estamos fazendo o carnaval na medida do possível. Todas as escolas estão com atraso. Digo por conversar com outros colegas. Contudo, dentro do possível estamos fazendo um carnaval grande e detalhado. Acredito que do jeito que estamos caminhando, chegaremos completos na avenida”.
Encomenda de samba
Bastante criticada anteriormente no mundo do carnaval, a encomenda de samba vem ganhando cada vez mais espaço entre as escolas, principalmente as da Série A. É uma alternativa que gera certa polêmica, mas que reduz custos para agremiação, algo fundamental em tempos de crise. Pelo segundo ano consecutivo, a Inocentes recorreu à prática, embalada pelo bom resultado da encomenda em 2018. E durante a conversa com a reportagem do site CARNAVALESCO, Marcus Ferreira falou sobre como é trabalhar com esse tipo de obra, além de dar sua opinião sobre os sambas encomendados.
“Pessoalmente, eu prefiro trabalhar com sambas encomendados. Até porque as escolhas, hoje, de samba são um pouco cansativas para diretoria e para o carnavalesco. Quando temos a possibilidade de encomendar, nós vamos lapidando até chegar ao ponto ideal que queremos. Olhando como sambista, a questão das escolhas é melhor porque aproxima a comunidade, tem a questão de movimentação na quadra. Mas, no momento atual do carnaval e de segurança da cidade em relação à locomoção, eu vejo hoje a encomenda como algo positivo”.
Entenda o desfile
A Inocentes de Belford Roxo será a sexta escola a desfilar na sexta-feira de carnaval. Ao todo, a agremiação da Baixada Fluminense levará para Marquês de Sapucaí um total de 2 mil componentes, divididos em 19 alas e 4 alegorias, sendo o abre-alas da escola acoplado.
Setor 1: A alma de artista bandoleiro de Lampião
“Lampião não era só um bandoleiro, um fugitivo social. Ele tinha um apelo pelas artes, pelas primeiras manifestações culturais no Nordeste. Lampião financiou circos, daí sempre meu olhar sobre o frasco. Os malabaristas eram malabaristas de garrafas, lá nos primeiros circos do Nordeste. Lampião também financiou folias de reis, ele era uma espécie de miliciano da década de 20. As vestimentas das folias de reis eram de frascos da natureza, como cabaças, porungas. Isso conceitua a alma de artista bandoleiro do Lampião, que inicia o carnaval da Inocentes”.
Setor 2: A lida dos frascos acompanhando a vida bandida
“A colheita dos alimentos, frutas e cereais, de cumbucas de farinhas. Nesse segundo setor, sãos mostrados os objetos que a lida na natureza deu ao bando. As gaiolas de cipó para guardar as galinhas, os bodes, os caprinos, as cestarias. O segundo carro tem toda uma construção que deixa evidente o frasco. Ele será feito todo de caixote de feira. Esse carro irá demonstrar as leguminosas, frutas, os animais e tudo aquilo que eles roubavam dos pequenos comerciantes pra poder fugir para grutas e lugares mais improváveis.”
Setor 3: A questão festiva do bando
“Ao contrário do que se imagina, o bando de Lampião não bebia somente cachaça. Eles também bebiam muito vinho para espantar o frio do sertão. No terceiro setor, a Inocentes mostra que Lampião pressentia que, a qualquer momento, ele poderia morrer. Ele sentiu isso, cerca de 2 a 4 meses antes de sua partida. Ele estava no Raso da Catarina na Bahia, uma região montanhosa, que não é muito auspiciosa a vida. Ali ele enterrou garrafas de bebida e parte do tesouro em botijas do bando. As rendeiras que margeiam o Rio São Francisco, lá na Bahia, dizem que ouvem até hoje o cavalgar dele com o trote das garrafas. Isso talvez tenha originado o hino ao cangaço brasileiro que é uma composição do Lampião: “Mulher rendeira”. Outra curiosidade é que o lugar é um vale que foi habitado por uma cacique chamada Catarina. Ali ele enterrou esses tesouro também em botijas”.
Setor 4: Os frascos do bando e “a bacia das almas”
“O último momento da Inocentes é quando o bando atravessa o Rio São Francisco e chega ao Sergipe. Lá todos os filmes mais conhecidos do cangaço brasileiro, mostra que eles chegaram Grota de Angicos, que era o lugar em que Lampião acreditava que o bando ficaria 6 meses, por ser um lugar baixo. Eles acamparam, colocaram todos os frascos, todos os pertences, após o desbravamento pelo sertão. Lá tiveram uma noite regrada de vinhos. Contudo, a “volante” já estava no encalço deles. Dormiram e ao amanhecer, no dia 28 de julho, acordaram sob os tiros de metralhadora. Os frascos foram as testemunhas da barbárie de Angico, em que se exterminou todo o cangaço brasileiro. O último carro “A bacia das almas” mostra os 14 mortos. Eles tiveram as cabeças cortadas e salgadas nos frascos que estavam na grota de Angico. Encerramos o desfile mostrando que hoje os brasileiros são outros. Hoje temos outras vítimas sociais. Eu não encaro o cangaço como bandidos. Claro, que tinham toda a perversidade deles, mas foram justiceiros sociais”.


“Muitas pessoas confundem, elas acham que a gente vai fazer uma cópia do Rei Leão, na verdade o Hakuna Matata vem muito antes do filme da Disney. A Hakuna Matata é uma música queniana, eles criaram essa canção depois da quebra das correntes pra chamar os turistas pro país. O nosso enredo começa nessa questão de mostrar o país para o mundo, a gente abre esses olhos para a África e mostramos todo o continente dentro desse olhar do queniano. Ano passado eu fiz um enredo que era afro, subimos com uma temática de camdomblé, e esse eu ano eu não quis um tema pesado, esse enredo tem leveza. É uma África leve, sem palhas, buzios e nem com dentes, fiz uma coisa lúdica. É uma África infantil, esse é o carnaval da Colorado em 2019”, afirma.
Leonardo conta que a proposta não é dele e diz que está honrado com desenvolvimento pelas diversas opções que o tema proporciona..
“A gente acha que um país da África só tem savana, mas o Quênia é banhado por oceanos. A maior concentração de cavalos marinhos é no Quênia, então isso também abriu meus olhos. Eu gostei da pesquisa porque a África tem de tudo um pouco, eu começo na savana mas tem a parte tropical das matas, do mar. Eu pude misturar as cores, fiquei encantando tanto na pesquisa quanto na elaboração do trabalho”.
“A aranha é um dos pontos altos, mas eu também tenho uma responsabilidade com a ala das baianas, eu crio uma coisa específica pra elas e nesse ano vai ser um ponto forte. Peguei referências das roupas do Quênia e as minhas baianas tem uma variedade de cor bem extensas, são oito ou noves cores diferentes, uma coisa que São Paulo nunca presenciou. Cada baiana vem com uma roupa própria, são peças únicas e isso também acho que vai ser um diferencial”, revela.
A agremiação do Brás se mantém numa crescente histórica. Em 2011 a Colorado desfilou no grupo três da UESP, e precisou de apenas sete anos para chegar ao grupo especial. Acredita-se que a força da comunidade elevou o patamar da escola.
“A nossa comissão de frente mostra a questão do queniano como escravo dele mesmo durante a Guerra Civil. Depois eu venho com a grande savana vermelha, que o primeiro clipe da música não tinha cor, era tudo vermelho. Isso bateu com as cores da escola, então o nosso abre-alas é essa grande savana brilhante.
“No meu terceiro setor eu conto todas essas lendas africanas, não só no Quênia mas de todo o continente. Nesse setor tem uma parte que eu gosto muito que é a Anansi, uma aranha africana, que pra mim essa alegoria vai ser a surpresa do carnaval. Uma grande aranha na avenida.
5° SETOR – COROAÇÃO
“Eu meu trabalho começou na Império de Casa Verde, eu vim como assistente do Alexandre Louzada. Foram três anos, sendo que no último eu assinei como carnavalesco, fiz o carnaval dos sonhos A minha base foi toda feita nessa agremiação, escola que eu respeito muito. Depois tive uma passagem pela X-9 Paulistana, fui assistente do André Machado de criar a proposta do enredo sobre o Açai. Nesses três último anos estou na Colorado, na verdade a Colorado virou a minha família, voltamos para o especial juntos, depois de três anos eu também estou voltando para o especial. A escola está numa gana em abrir o carnaval de São Paulo, que também é um desafio pra mim e pra escola. A gente está preparando um carnaval lúdico, realmente fazer coisas diferentes, a gente que uma coisa de impacto no carnaval. Trabalhamos em cima da proposta de abertura”.
“O Império em 2018 fez um enredo que homenageava o povo e gostei muito da sacada que o Jorge Freitas teve, nada melhor do que falar sobre quem está assistindo, quem vivencia o carnaval. A gente precisava manter uma linha parecida, carnaval voltado ao povo. Eu já assisti carnavais na arquibancada nos quais as escolas passam e você não sabe o que elas representam. A ideia de fazer um enredo sobre o cinema partiu desse princípio, de fazer um enredo em que as pessoas possam bater o olho em uma ala e já saber o que ela representa. A ideia partiu de popularizar o desfile, fazer com que qualquer um possa mergulhar de cabeça naqueles 65 minutos”, explica.
“Eu sempre tive vontade de falar sobre cinema, eu adoro, até as minhas camisetas tem uma temática de algum filme, eu sou um cinéfilo de carteirinha. Eu falei que ainda iria fazer a minha história do cinema, fazer o carnaval contando a minha visão sobre isso. Aqui em São Paulo surgiu a oportunidade, nós tínhamos oito propostas de enredo, dessas a escola optou por três e a gente foi lapidando. Até que numa reunião eu apresentei a quarta ideia e eles curtiram logo de cara, o presidente comprou , querendo ou não, não existe ninguém que não goste de cinema. Você pode ver que o público comprou a ideia, as pessoas estão curtindo, cada uma com sua personalidade”.
Buscando o quarto título, o Império de Casa Verde traz essa proposta com ênfase, tanto nos carros alegóricos quanto nas alas de chão.
“Quando você faz um carro desse comprimento, parece que o componente entra em delírio. O Império tem isso na sua raiz, na sua essência. O abre-alas vem com dois tigres, e ele representa o templo maior da sétima arte, que é o cinema. As pessoas vão se deparar com um cenário saudosista, nos inspiramos nas salas de cinemas da década de 50/60, quando teve o ‘boom’ do cinema mundial, a gente pegou de referência na cinelândia, nas salas antigas de São Paulo, na Broadway, nas formas do letreiro. Vai ser uma alegoria que a gente vai impressionar pelo gigantismo, só nesse carro nós temos 60 pessoas totalmente coreografadas, dando vida a essa alegoria”.
“Era o carnavalesco da Tucuruvi e estava num ano em que não seria julgado, estava mesmo com uma visão totalmente neutra. Estava assistindo o desfile de sábado no sambódromo e quando terminou o Império eu, Flávio Campello, já contava como a campeã do carnaval, como a maneira que foi conduzida o carnaval, a gente via o desfile com a essência que a gente está trabalhando aqui, com cara de espetáculo. Acho que as pessoas do Império ficaram mais fascinadas foi com o título do enredo, eles disseram que o título tinha uma resposta ao resultado do carnaval passado, que é ‘O Império Contra-ataca’. O Carlos Júnior acha que é a maior sacada do carnaval foi no título do enredo”, finaliza.
“A ideia não foi buscar na cronologia do cinema pra contar a trajetória dele, até como historiador eu tenho esse vicio de buscar o inicio. Mas não, desde o começo buscamos um enredo não-linear, contar uma história sem se preocupar com uma cronologia e a gente dividiu esse enredo em cinco partes. A gente abre o desfile com início do cinema, com a realização do sonho dos irmão Lumière, que são os inventores que praticamente projetaram o primeiro filme em movimentos. Isso fez com que a gente buscasse inspiração nesse fato e abrisse o desfile. A invenção dos Lumière estará na comissão de frente. A primeira alegoria retrata o ponto de partida de qualquer pessoa que vai assistir um filme, que é o cinema. A gente tem no abre-alas o que a gente denomina o templo da sétima arte, a gente vai brincar um pouco com o público nessa alegoria. Nós teremos algumas meninas que vão estar assistindo o filme como espectadoras, vai ter telão, vai ter poltronas, os filmes vão passando e num tapete vermelho terá os personagens dos filmes passando. A gente tem cerca de 20/25 personagens que vão interagir com esses espectadores como se esses personagens ganhassem vida”.
“Vamos falar dos filmes que marcaram época, como: Senhor do Anéis, Harry Potter, As Crônicas de Nárnia.
“Em 2019 faço dez anos no carnaval de São Paulo. Cheguei aqui em 2009 na Mocidade Alegre, a gente saiu da avenida campeão com aquele enredo do coração, foi muito bom fazer parte daquele projeto, conhecer as pessoas das quais eu trabalhei, Presidente Solange, Sidney França, Márcio Gonçalves, Fábio Lima, foi um time muito legal, eu curti demais, e isso conta bastante para que a gente se firme no carnaval de São Paulo. Eu largei toda a minha vida no Rio de Janeiro e me mudei totalmente pra São Paulo, porque eu acreditei que aqui poderia fazer o que eu goste de fazer e de uma forma que a gente almeja, que é o respeito, o carnaval daqui valoriza muito o profissional, eu sou muito feliz aqui. Depois do Mocidade Alegre eu fui para a X-9 Paulistana onde fiquei quatro anos, depois fiquei dois anos na Dragões da Real, um ano na Tatuapé, ano passado fiz Tucuruvi e esse ano estou aqui no Império de Casa Verde”.
“O carnaval começou a afetar a minha vida desde muito cedo. Eu fui criado na maior Cohab (Companhia de Habitação Popular) da América Latina, na Cohab Cidade Tiradentes. E sempre foi muito perigoso, sempre foi muito difícil de se viver ali. Porque a gente tinha toque de recolher, tinha ‘biqueira’ (uso de crack), venda de drogas. E no mesmo lugar, tinha uma escola de samba, foi ali que nasceu o grande amor da minha vida. Ali tinha a escola de samba Príncipe Negro. Na verdade, foi essa escola de samba que acabou tirando a gente da rua. A gente ia pra essa escola de samba e na verdade sempre foi muito regrado porque a presidente cobrava isso. Ela pedia boletim escolar, presença de pais, tudo isso pra não deixar a gente na rua”, conta Marlon.
“Desde sempre o carnaval teve um direcionamento na minha vida pessoal e profissional. Porque foi pelo carnaval que eu comecei a conhecer outras pessoas fora daquele âmbito onde eu fui criado inicialmente e, aí, onde cresceu o meu amor por estudar mais, e acabei me formando em biomedicina sendo também intermediado financeiramente pelo carnaval. Financeiramente eu acabei tendo muito ajuda do carnaval para me formar. Comprei o meu primeiro carro com a ajuda financeira do carnaval que eu recebia .
“Eu tive várias outras oportunidades pelo carnaval. Saí do Brasil, conheci o Japão, conheci a África, conheci Portugal, conheci Dubai tudo com intermédio do Carnaval. Me levou não só a uma vida financeira estável, mas profissional e pessoal também. O samba é a cultura e ele acaba nos trazendo conhecimento muito, mas muito, importante, principalmente quando a gente se abre para entender o significado desta verdadeira cultura popular brasileira” explica Lamar.
“Eu espero dos próximo carnavais que sejam, assim, cada vez mais grandiosos, que a gente supere essa crise que a gente está passando. Que a gente seja de fato, toda aquela grandiosidade que o samba sempre foi, respeitando o próximo, lutando contra o racismo, contra o preconceito, contra a homofobia. Gosto muito quando o carnaval aborda estes assuntos pois ele deve ser assim sempre plural. Um carnaval que esteja sempre tentando ajudar o próximo, como me salvou, e me deu direcionamento para viver, para sempre seguir o certo, eu tenho certeza, que as escolas serão verdadeiras escolas de vida para ajudar as pessoas” encerra Marlon.
Depois de quase 30 anos em que emitiu o primeiro alerta de que o samba havia sambado, a São Clemente traz em 2019 uma nova crítica sobre os rumos do carnaval com a reedição do clássico ‘E o samba sambou’ de 1990, até hoje a melhor colocação da história da São Clemente. O presidente Renato Almeida Gomes, o Renatinho, concedeu entrevista ao CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’. O dirigente se diz confiante com o desfile, jura que não vetou qualquer ideia de crítica do carnavalesco Jorge Silveira e revela que a chegada de Bruno Ribas, Giovana e Junior Scapin eleva o padrão da escola.
“A Rosa ajudou a São Clemente a se manter no Especial, nos deu um patamar legal. O Jorge está se encaixando. Ele me apresentou três enredos mas eu em um primeiro momento não fui favorável, pois confesso que não sou muito fã de reedições. Mas pelo momento vivido pelo carnaval achei muito pertinente. O Jorge Silveira é um cara muito inteligente”.
“Eu sou apaixonado por nossa bateria. O trabalho do Caliquinho é um dos melhores do carnaval. Estamos no nível das melhores, como Tijuca, Beija-Flor. Recebemos notas baixas em outros anos pois é mais fácil derrubar quem sobe. As baterias hoje no máximo tomam um 9,8, o nível está muito elevado”.
“O carnaval tem que ser mais engraçado. Estamos indo para um caminho de muita seriedade. A brincadeira é bacana demais. O Paulo Barros disse que os enredos críticos são apelativos. Nosso enredo não está apelando, está brincando com o que acontece”.
“A gente fechou com chave de ouro. Não tivemos problema, não tivemos parte técnica para consertar. A gente ficou até alguns minutos sem conversar no rádio, fiquei até me perguntando se estava tudo bem, mas se ninguém está falando nada é porque está tudo certo. Fizemos um ensaio perfeito e só falta agora o desfile. Se Deus quiser, a escola está preparada para ir para Sapucaí, apresentar seu enredo, samba, alegorias, as fantasias. Uma comunidade fantástica, com um trabalho fantástico que foi feito no barracão. O Salgueiro está pronto para disputar o título”, afirmou o diretor de carnaval Alexandre Couto.
A harmonia do Salgueiro foi praticamente perfeita, sendo o grande destaque da noite de ensaio. A comunidade berrou o samba a plenos pulmões, do início ao fim. Com destaque para as alas 18 e 22, ambas coreografadas, mas que não deixaram de cantar o samba um só instante. Outras alas que merecem menção pelo canto são as dos compositores, baianas e velha-guarda, segmentos que tradicionalmente não cantam tanto.
Quesito problemático da Academia em anos anteriores, nesse carnaval é seu grande trunfo. A obra, que já era aclamada desde a escolha, ganhou ainda mais força e popularidade durante o pré-carnaval. Hoje, não está somente na boca do desfilante, mas também do público em geral, como pode ser visto durante esse último ensaio de rua.
“Dentro das circunstâncias, o ensaio foi muito bom. Tirando um pouco que a rua estava muito cheia, e ela é bem estreita. A galera fica querendo invadir a bateria por causa da Viviane (Araújo, rainha de bateria), querendo entrar no meio da pista. Tirando isso, foi excelente. Graças a Deus a galera está feliz, tanto a bateria, quanto a escola inteira. E vamos trazer a vitória para o nosso Salgueiro. A bateria já está pronta e vamos à busca dos 40 pontos”, declarou Gustavo, um dos novos mestres da bateria Furiosa.