Não parece, mas a Unidos do Viradouro foi a campeã da Série A em 2018. O título foi o portal para o regresso da vermelha e branca de Niterói ao Grupo Especial. A campeã do Carnaval 1997 pode quebrar três tabus de uma só vez no desfile deste ano, cada um com um grau de dificuldade. O primeiro seria permanecer no grupo, algo que uma escola oriunda do acesso não conquista (sem a necessidade de artimanhas de bastidor) desde 2010, com a União da Ilha. O segundo é voltar ao Sábado das Campeãs, vinda do acesso. Isso não acontece desde 2000, com a Unidos da Tijuca. O terceiro e mais ousado seria conquistar o campeonato, o que jamais aconteceu na história com uma escola vinda da segunda divisão no ano anterior.
Para chegar no objetivo a direção da Viradouro apostou alto. Trouxe para Niterói o carnavalesco mais vitorioso deste século, em considerando-se apenas trabalhos solos. Completando 15 anos no Grupo especial em 2019, Paulo Barros retorna para a escola do Barreto, agora com quatro campeonatos na bagagem. Em sua primeira passagem (em 2007 e 2008) ainda perseguia seu primeiro campeonato.
Paulo Barros é um artista excêntrico, não apenas na sua forma de fazer carnaval. Ele é o único em toda a Cidade do Samba que mantém uma sala no primeiro andar dos barracão. Os demais ocupam todos o terceiro andar. Paulo, ao receber a reportagem do CARNAVALESCO no barracão, brinca com a localização de sua sala.
“Estou ficando velho. Não aguento mais subir e descer três andares todo dia. Aqui estou na cara do gol (risos)”.
Mas o tom de brincadeira dá lugar ao semblante mais sério quando ele é confrontado com o fato de outras escolas serem apontadas como candidatas ao rebaixamento no lugar da Viradouro. Paulo Barros reitera que o carnaval é resolvido na avenida.
“Já elegeram as candidatas ao rebaixamento? Eu acho isso perigoso. Vocês tem de esperar o desfile. Vejam o que ocorreu comigo no ano passado na Vila Isabel. Eu vinha de um título na Portela e fui parar em 9º lugar. Esses prognósticos sempre são uma enorme furada”, disparou.
Embora não goste de prognósticos antecipados, Paulo admite que a Viradouro vive um contexto diferente à escolas oriundas do acesso, e revela sua ‘dívida’ com a escola, embora afirme que foi a agremiação quem o dispensou após o Carnaval 2008.
“Falando o português claro? Eu tomei foi um pé na bunda. Mas eu tenho discernimento e inteligência suficiente para compreender que o momento era outro, as pessoas são outra. Eu quero deixar uma imagem diferente agora, um grande carnaval. Meu momento de maior sucesso foi na Unidos da Tijuca, onde fiquei na segunda passagem cinco carnavais. Não acho salutar ficar trocando de escola. A tendência é que eu permaneça”, adianta o carnavalesco.
Viradouro e Paulo Barros não tiveram dificuldade para chegar a um lugar comum com relação ao enredo. O tema possui a assinatura e o DNA de Paulo Barros e quem vai ao barracão se impressiona com a qualidade do trabalho que está sendo preparado. Alegorias com a marca do carnavalesco, que prometem uma grande interatividade com o público no desfile.
“A escolha deste enredo se deu de maneira estratégica. A escola e eu entendemos que o ideal para esse momento deveria ser a escolha de um tema com as minhas características. Quando apresentei a eles (Marcelo Calil e Marcelinho Calil) eles nem quiseram saber de outro enredo. Fomos com esse e estamos trabalhando há quase um ano, já que eu vim para a escola logo depois do desfile de 2018”, explica Paulo.
Entenda o Desfile
Paulo Barros não dá qualquer detalhe sobre o que a Viradouro irá apresentar na avenida em 2019. “Não adiante nem me fazer essa pergunta (risos)”. Mas a reportagem do CARNAVALESCO apura como se dará o desenvolvimento da temática que a vermelha e branca do Barreto irá desenvolver em seu desfile.
Primeiro Setor: Encantadores podem realizar desejos impossíveis ou lançar terríveis maldições. O pouco que se sabe sobre eles está oculto em livros muito antigos; habitam um universo enigmático e mágico.
Segundo Setor: O desfile entrará nos contos de fadas, que permeiam a imaginação de tantas crianças. Quanta magia nos encanta desde que somos bem pequeno. A linda moça dançando com seu amado, na noite do Baile Real. Parece uma princesa. Mas logo se quebrará o encanto e ela voltará a ser a pobre órfã entregue aos maus-tratos de sua madrasta. A próxima é a curiosa menina que se aventura no País das Maravilhas: experimentando de tudo, ela se transforma ao longo do caminho e até enfrenta uma rainha má. Quantas mudanças, não?
Terceiro Setor: Muitos são os seres mitológicos condenados a viver o destino escolhido pela ira ou por capricho divino. Mais antigos do que a própria história, nobres ou pobres mortais, monstros ou heróis ousaram desafiar os deuses ou desejar mais do que deveriam, assim como o ambicioso rei que conquistou o poder de transformar tudo o que tocasse em ouro e seu maior desejo virou sua maldição.
Quarto Setor: São os filhos da escuridão que vagam pela terra ou se escondem debaixo dela, criaturas que espreitam as sombras ou caminham famintas sob a luz da Lua; por ambição, vingança ou pacto com o demônio, perderam a paz e seguem penando para todo o sempre.
Quinto Setor: O pássaro mitológico, símbolo da renovação, que sempre ressurge das cinzas, de onde nada mais parece existir. Gnomos, fadas, elfos surgem para reinventar a vida, renovar as forças e os sonhos.


“Só quando eu cheguei em casa. Vim no final da escola pela primeira vez. Depois que entrou tudo, vi uma grande comoção, as pessoas só faltavam se jogar de onde estavam. Naquele momento senti que tinha sido bom. Mas não passou pela minha cabeça a repercussão que estava tendo. Eu pensei no momento que não cairíamos. Queríamos um julgamento justo. Fui para casa e os vizinhos só falavam da repercussão nas redes sociais. Na hora não dá pra saber”.
“Acho que pela primeira vez tenho conseguido fazer o que acredito. Ao voltar pro Tuiuti em 2015, o Thor me perguntou o que eu pensava de enredo. Eu nunca havia ouvido isso de um dirigente antes. Os enredos não partiam de mim. A primeira escola que me deu essa liberdade antes do Tuiuti foi o Império da Tijuca em 2004 e 2010. Eu tinha sempre que adaptar ideias que não partiam de mim. O enredo que fiz em 2015 aqui foi recusado em três escolas antes do Tuiuti. É uma escola que se interessa pelo que eu penso”.
A segunda noite de desfiles da Série A promete um grande duelo de escolas candidatas ao acesso neste sábado no Sambódromo. Depois de uma sexta muito conturbada, com a chuva atrasando o início do desfile e escolas cometendo erros decisivos, as escolas deste sábado tem a chance de terminar o carnaval deste ano em vantagem no duelo pelo caneco da Série A.
BANGU: Pode ser doce, baroa ou inglesa, não importa o tipo ou a forma, ela é uma unanimidade. Um dos alimentos mais consumidos no mundo, mas nem sempre foi assim. Antes renegada, a batata reúne inúmeras histórias e curiosidades. E é justamente isso que a Unidos de Bangu irá levar para Marquês de Sapucaí em 2019. Dando continuidade à série de visitas aos barracões da Série A, a reportagem do site CARNAVALESCO entrevistou o carnavalesco da agremiação, Alex de Oliveira, sobre o enredo da vermelha e branca para 2019. *
RENASCER: Após viver momentos dramáticos para conseguir por o carnaval de 2018 na rua, o ano de 2019 tem tudo para representar uma virada de página na história da escola. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no atual pré-carnaval, a Renascer de Jacarepaguá investiu em seu barracão, e irá apostar em um desfile grandioso e volumoso plasticamente. Com outros dois trabalhos assinados na agremiação em 2017 e 2018, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres acreditam que o atual trabalho será o com resultado mais impactante e surpreendente deles. *
ESTÁCIO: O chapéu panamá é um acessório quase obrigatório a todo sambista. O que poucos sabem, entretanto, é que o acessório nunca foi fabricado no Panamá, mas na Colômbia. A alcunha ganhou notoriedade mundial quando o presidente americano, Franklin Roosevelt, ao visitar o Canal do Panamá posou com o chapéu e ele foi assim chamado. Essa é uma das história que a Estácio de Sá abordará em seu desfile ‘A fé que emerge das águas’. A curiosa passagem estará retratada na fantasia da bateria Medalha de Ouro no segundo setor do desfile. Tarcísio Zanon, carnavalesco da agremiação, em entrevista concedida no barracão conta um pouco de como surgiu a ideia de desenvolver um enredo internacional com forte característica latina. *
PORTO DA PEDRA: Para buscar o sonho de voltar ao Grupo Especial, a Unidos do Porto da Pedra segue uma fórmula que vem dando certo desde 2016: a exaltação à cultura nacional. No carnaval deste ano o ator Antônio Pitanga será homenageado pelo Tigre de São Gonçalo. Porém engana-se quem pensa que a agremiação irá na contramão das temáticas de cunho social que permeiam a safra da Série A em 2019. Ao receber o CARNAVALESCO no barracão, o carnavalesco Jaime Cezário exalta a figura de Antônio Pitanga e diz que ele abriu portas para os atores negros no cinema nacional. *
IMPÉRIO DA TIJUCA: Localizado na região Sul Fluminense do estado do Rio de Janeiro, o Vale do Café corresponde a um conjunto de 15 municípios que, durante o século XIX, foram responsáveis por 75% da produção de café consumido no mundo. E até os dias de hoje, as fazendas e lavouras do grão, mesmo que de forma indireta, são grandes fontes de renda para região, através do turismo. Mas engana-se quem pensa que o Vale do Café vive apenas das glórias de seu passado. Atualmente, a região tem no agronegócio a sua válvula propulsora. É esse Vale do Café, antigo e atual, que o Império da Tijuca promete trazer para Sapucaí em 2019. *
CUBANGO: Depois de encantar a Sapucaí no desfile de 2018 e ser apontada como uma das mais fortes postulantes ao título da Série A neste ano, o Cubango tem no talento dos carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad um de seus grandes trunfos para realizar o sonho de desfilar no Grupo Especial do carnaval carioca pela primeira vez na história. *
O Sambódromo do Anhembi recebe neste sábado de carnaval a segunda noite de apresentações das escolas de samba do Grupo Especial de São Paulo. Depois de uma noite em que escolas apontadas como favoritas ao caneco deslizaram, as sete agremiações que passarão pela pista hoje têm a oportunidade de largar na frente nos quesitos e tentar interromper a hegemonia do Acadêmicos do Tatuapé, que sonha com o tricampeonato na apuração da terça de carnaval.
ÁGUIA DE OURO: Diante de um cenário onde escolas de samba comercializam enredos, a Águia de Ouro vem na contramão, aborda em seu desfile um tema que crítica as situações de abuso de poder e se posiciona sobre as corrupções presentes no Brasil. A agremiação conta com nomes influentes para o desenvolvimento do enredo: “Brasil, Eu Quero Falar de Você!”. São eles: Laíla, Fran Sérgio, Sérgio Caputto Gall e Beth Trindade. Dando sequência ao especial que visita os barracões das escolas do Grupo Especial de São Paulo, a reportagem do CARNAVALESCO conversou com o Fran Sérgio, que explicou detalhes sobre o carnaval de 2019. *
DRAGÕES DA REAL: Vice-campeã do carnaval de 2017 e uma das favoritas para 2019, a Dragões da Real recebeu a reportagem do CARNAVALESCO no barracão para contar mais detalhes sobre o enredo: “A Invenção do Tempo. Uma Odisseia em 65 Minutos”. O experiente carnavalesco Mauro Quintaes afirma que o tema trabalhado proporciona uma estética nova para agremiação. *
MOCIDADE ALEGRE: Vice-campeã do carnaval de 2018, a Mocidade Alegre entra pra avenida em busca do 11° título. A carnavalesca Neide Lopes, que integra a comissão de carnaval, é uma das responsáveis pelo enredo: “Ayakamaé – As Águas Sagradas do Sol e da Lua”, uma homenagem ao Rio Amazonas. *
VAI-VAI: A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da maior detentora de títulos do carnaval paulistano. Almejando o 16° campeonato, a escola de samba Vai-Vai traz para o Sambódromo do Anhembi o enredo: “O Quilombo do Futuro”, um tema que busca contar a história do povo negro através de uma narrativa ficcional. O carnavalesco responsável por desenvolver a parte teórica do carnaval, Roberto Monteiro, explica detalhes. *
ROSAS DE OURO: Dando continuidade ao especial que visita os barracões das escolas de samba para o carnaval de 2019, o site CARNAVALESCO entrevistou o profissional da escola de samba Sociedade Rosas de Ouro. Responsável por todo o desenvolvimento do enredo, o carnavalesco André Machado segue para o seu terceiro carnaval na agremiação com o enredo autoral: “Viva Hayastan”, uma grande homenagem ao país europeu Armênia. *
VILA MARIA: Sonhando com o título inédito da elite do carnaval paulistano, a Unidos de Vila Maria caminha para realizar uma grande homenagem à nação Peruana. A reportagem do CARNAVALESCO inicia a série de visitas aos 14 barracões das escolas do Grupo Especial de São Paulo com a agremiação do bairro do Japão. O desfile da entidade é montado todo na própria Fábrica do Samba. Criação das alegorias, confecções das fantasias e até a própria roupa do casal de mestre sala e porta-bandeira são produzidas no barracão. *
GAVIÕES: A Gaviões da Fiel traz um enredo reeditado de 1994. Sidnei França é o responsável pelo desenvolvimento do tema: “A saliva do santo e o Veneno da serpente”. O carnavalesco diz que poucos elementos do desfile original será usado e revela nova linguagem, principalmente no último setor. *
A Marquês de Sapucaí é o local onde o Brasil se enxerga de forma mais nítida, e a primeira noite de desfiles da Série A, na sexta-feira de carnaval, foi uma espécie de reencontro do povo com sua brasilidade – no que ela tem de melhor e de pior. A festa começou e terminou com duas porta-bandeiras que simbolizam bem o que está representado naquela Avenida colorida. A abertura da Unidos da Ponte trouxe Camylinha Nascimento defendendo o pavilhão azul e branco. Camyla é neta de Vilma Nascimento, a maior de todas as porta-bandeiras, e representa uma característica muito cara ao carnaval: a ancestralidade, a transmissão de conhecimento pelas gerações, a herança da arte através do sangue. Quando ela pisou na Passarela, representando o Oráculo de Ifá, os deuses do carnaval se agitaram ao reconhecer décadas de sabedoria dedicada à festa – e, claro, abençoaram a estreia da menina. Se a abertura da noite foi assim, o encerramento também foi simbólico. No último setor da última escola, a Acadêmicos do Sossego, outra porta-bandeira chamou a atenção: Anderson Morango, que com o mestre-sala Wladimir Bulhões formou pela primeira vez um casal de dois homens na Sapucaí. Com a fantasia “Filhos de Deus perseguidos pela intolerância”, os rodopios de Anderson nos lembravam a todo momento quem somos: ao mesmo tempo, o país que mais mata LGBTs e o país que produz a festa mais tolerante do planeta, o carnaval. Incoerente? Pois o Sambódromo nos deu repetidas lições do paraíso e do inferno que é ser brasileiro.
O melhor do Brasil passou na abertura da Santa Cruz, trazendo a grande homenageada do enredo, Ruth de Souza, uma das glórias de nossa cultura, primeira atriz negra a pisar no Municipal, a ganhar o Kikito em Gramado, a ser indicada a um prêmio internacional. A emoção de ver dona Ruth, aos 97 anos, receber os aplausos de seu povo, sentadinha em seu trono de rainha, fez os pingos de chuva ganharem toques salgados em nossos rostos, misturados às lágrimas que rolavam para a Grande Dama, num encontro das águas que lavava corpo e espírito.
O tom religioso foi fortíssimo nos enredos da primeira noite, que teve ainda a umbanda da Alegria e o Jesus Malverde da Sossego – metade dos desfiles da Série A fala de devoção. Seria difícil imaginar isso no carnaval há 30 anos, quando temas desse tipo eram episódicos. Agora, festejamos a entrada da fé com força na Avenida, mas olhamos fora dela e vemos os casos de intolerância religiosa proliferarem por todo o país. Quem te pediu coerência, meu Brasil?
A Sapucaí é o Brasil inteiro porque as escolas passaram sem destaques nos queijos, com alegorias pobres e fantasias despencando não só por causa da chuva, mas porque não receberam o minguado dinheiro que a Prefeitura prometeu, depois de sucessivos cortes. Pior do que reduzir à míngua a subvenção para as agremiações é não marcar uma data de pagamento, é adiar a assinatura de contrato indefinidamente, é tratar as escolas de samba como assunto secundário numa cidade que deve seu protagonismo internacional a esta festa. Ter no comando da cidade do carnaval alguém que despreza o carnaval: existe algo mais brasileiro do que isso?