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Pavão da São Clemente é uma crítica à vaidade que cerca os bastidores do Carnaval Carioca

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Por Juliana Cardoso

São Clemente 4Primeira escola a pisar na Marquês de Sapucaí nesta segunda, a São Clemente reeditou seu enredo de 1990. Alfinetando o grande mercado em que o Carnaval Carioca se tornou, a agremiação passou pela Avenida com alegorias e fantasias irreverentes. O quarto carro, chamado “Carnavalescos e Destaques”, retratou a grande vaidade que permeia os integrantes da festa popular.

A alegoria tinha como figura central um enorme pavão multicolorido, rodeado por componentes em cima de uma escadaria, que usavam fantasias nas cores do arco-íris e seguravam grandes leques. Nas laterais, um camarim foi retratado, com penteadeiras iluminadas e integrantes da escola vestidos e maquiados exageradamente. Na parte superior, um ringue de luta representou a disputa de egos de personalidades ligadas ao evento, como musas e rainhas de bateria.

“Esse carro representa a pura verdade dos bastidores do carnaval, onde um quer ser melhor que o outro. Virou um verdadeiro pavão, quanto mais enfeites e exagero, melhor! A crítica foi bem-feita pela São Clemente. Jorge e Thiago, responsáveis pelo carro, elaboraram belos adereços. Eu também participei da decoração”, disse Lucas Alves, que estava no carro.

São Clemente 5Para André Lucas, que também desfilou na alegoria, a ideia foi diferente, e o tema foi acertado pela São Clemente. “A proximidade do tema com a realidade é perfeita”, concluiu.

A escola abriu o segundo dia de desfiles do Grupo Especial e levou para a Avenida a reedição do enredo “E o Samba Sambou”.

Eugênio Leal analisa o desfile da Vila Isabel

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Vila Isabel 2019: arrancada do samba no desfile

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Vila Isabel 2019: bateria ao vivo no desfile

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São Clemente 2019: arrancada do samba no desfile

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São Clemente 2019: bateria ao vivo no desfile

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Em repúdio ao racismo, desfilantes da Tijuca interpretam na Avenida a dor das vítimas do tráfico negreiro

Por Nathália Marsal

Tijuca desfile2019 141Um carro da Unidos da Tijuca não festejou nem esbanjou alegria durante o desfile do enredo “Cada Macaco no seu Galho. Ó, Meu Pai, me dê o Pão que eu não Morro de Fome!” na Avenida, na madrugada de domingo. E não foi por falta de entusiasmo ou paixão pela escola. A terceira alegoria a entrar no Sambódromo, “O Pão que o Diabo Amassou”, trouxe 80 negros interpretando a viagem forçada de muitos de seus antepassados em um navio negreiro.

O carro, considerado forte e impactante, mostra cenas de agressão e privação da liberdade vividas por negros escravizados. Apesar de feliz por seu primeiro desfile na Unidos da Tijuca, Mariane Rodrigues, de 23 anos, não festejou em cima da estrutura.

“Não temos festejo porque somos escravizados durante todo o desfile. É um navio negreiro, e sofremos o tempo todo. Me toca por ser negra e carregar essa dor que hoje chega por meio do preconceito na escola e no trabalho. Me dói saber que estamos representando algo que não acontece só de forma teatralizada, mas também na vida real”.

Tijuca desfile2019 136Na apresentação, os integrantes do carro se juntaram aos que estavam no chão, na ala “João de Mattos, O Padeiro Alforriado”, que contou a história do escravo alforriado que ensinava a arte de fazer pão a negros escravizados. Ele ainda lutava pela liberdade dos negros, imprimindo cartas de alforria falsas – chegar a formar um grupo de 160 pessoas. Foram três meses de ensaio. Entre as cenas chocantes, a de europeus mutilando negros retirados a força de suas casas na África.

Para Patrícia Valéria, de 42 anos, a apresentação é importante para manter viva a história e não cair no esquecimento para que não se repita novamente.

“É um enredo que fala do alimento do espírito não só do corpo e da fé de um modo geral. Estamos representando o sofrimento dos escravos no navio negreiro. Muitas pessoas morreram nessa travessia. É um lamento por essas pessoas”, afirmou.

Eugênio Leal analisa o desfile da São Clemente

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Ao vivo da Sapucaí: arrancada e bateria das escolas que desfilaram no domingo pelo Grupo Especial

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    Tijuca desfile2019 059UNIDOS DA TIJUCA

    IMPERATRIZ

    BEIJA-FLOR

    Salgueiro desfile2019 049SALGUEIRO

    GRANDE RIO

    VIRADOURO

    IMPÉRIO SERRANO

     

    Aydano André Motta: ‘Noite desenxabida prova que nada vence o fundamento carnavalesco’

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      Por Aydano André Motta

      aydanoAqueles 800 metros (ou quase isso) entre a Presidente Vargas e a praça redonda onde se dispersa em direção à vida real – contribuição maluca dos últimos que cuidaram dessa festa – são, na verdade, um terreiro. Lugar de fundamento. Respeitou, valorizou, considerou? Sucesso garantido. Virou as costas, negou, dispensou? Como se diz hoje em dia, vai dar ruim.

      Fundamento – a chave.

      No certo zero a zero da primeira metade da odisseia dos bambas na Sapucaí, quem desafiou os preceitos do babado se estragou. Nos momentos em que se fez Carnaval, no
      conceito criado e aperfeiçoado por tanto artista incrível – Paulo, Cartola, Pamplona, Silas, André, João… –, tudo se encaixou à perfeição. Nos outros…

      O Salgueiro serve de exemplo emblemático. O sonhado enredo sobre Xangô deu no melhor samba do ano, que conduziu a escola de maneira magistral na primeira metade da apresentação. Sidclei e Marcella, mestre-sala e porta-bandeira, flutuaram tradicionais, leves, vigorosos, espetaculares.

      (A dança do casal é fundamento perfeito, dispensa invencionices como a que vitimou Diogo  e Veronica, guardiões do pavilhão essencial do Império Serrano. Os dois, coitados, tinham de subir num platô para evoluir. Desrespeito com o público da frisa, que, encoberto pela estrutura, teve de acompanhar dos telões da avenida; e o vento mais forte enrolou a bandeira em dois módulos de julgamento. Uma lástima que resume o trágico desfile imperial, e deveria ser proibida pelo regulamento.)

      De volta ao Salgueiro: a plateia se deixou enfeitiçar, ensaiando aquela conexão que materializa a mágica toda. O Carnaval também esteve na referência ao Papa – sucessor
      do trono de São Pedro, sincretizado com o orixá na umbanda –, num excelente Ailton Graça de pontífice negro no Papamóvel. Humor está no fundamento.

      Mas a vermelho e branco foi murchando e cometeu erros consideráveis. Esqueceu, por exemplo, um dos mitos essenciais de Xangô, o da disputa entre suas mulheres – Iansã, Obá, que corta a orelha por ele, e Oxum –, ficou quase clandestino no desfile. (Havia apenas componentes de um carro fantasiadas como as Yabás.) E olha que, pecado ainda maior, estava mencionado no samba – “No vento, a sedução (Oyá)/ O verdadeiro amor (Oraiêiêô)/ E no sacrifício de Obà (Obà Xi Obà)”. Alex de Souza preferiu a crítica social, com referências até ao STF, por Xangô ser o orixá da Justiça.

      Outro bom momento da noite veio com a Viradouro – sim, de Paulo Barros, que, como na passagem pela Portela, respeitou mais o fundamento carnavalesco, sem abrir mão das suas amadas pirotecnias hollywoodianas. Alegorias bem-acabadas, conjugando o visual à evolução dos componentes, emolduraram as ideias circenses, como a das bruxas. Faltou um enredo bem amarrado – tente explicar o da Viradouro; está longe de ser simples –, mas tudo indica que a turma de Niterói viajará da Série A ao Sábado de Campeãs em apenas um ano.

      Terá, provavelmente, a companhia da Tijuca, que cometeu pecado inverso, o da pouca ousadia. O Cristo europeu, renascentista, merecia a atualização que até a ciência reconheceu – nem por milagre alguém nascido no Oriente Médio pode ter aquela pele branca, aquele cabelo. Bênção mesmo é a bateria, sob a regência sempre impecável de
      Mestre Casagrande, papa (literalmente!) do ritmo e da pura cadência. Fundamento!

      E se chega à Beija-Flor. A luta pelo bi, com o necessário enredo dos 70 anos da escola, tinha como adversário o pior samba dos últimos três carnavais – cantado burocraticamente até pela mítica comunidade. E se esvaneceu na mistura dos históricos desfiles nilopolitanos
      com fábulas infantis (Por quê? Pra quê?) encenadas nas alegorias, novo conceito adotado na azul e branco multicampeã.

      A tese, por lá, prega que o público enjoou de carros tradicionais, destaques e composições. A contemporaneidade pediria, então, teatralizações que pavimentariam a sonhada interação. Só que a arte ali é o Carnaval, não o teatro. As minipeças viram, na verdade, pessoas fantasiadas correndo a esmo, de olhos arregalados e cantando o samba, que não casa com a “trama” (na letra do hino nilopolitano, não havia a galinha dos ovos de ouro,
      tampouco a raposa e as uvas, muito menos a cigarra e a formiga). Na plateia, produz somente enfado.

      Porque os bambas, que conseguem muito, não podem tudo. Basta ver o motoqueiro fantasma de Paulo Barros na Viradouro – no filme, é um bólido flamejante que cair o
      queixo e arregalar os olhos. Na avenida vira… um motoqueiro que desce a rampa devagar para não causar nenhum acidente.

      Na Passarela, a arte é outra – e dispensa apêndices alienígenas. Bora fazer Carnaval que é muito, muito melhor!