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Metacarnaval clementiano de 2019: a glória identitária de Jorge Silveira

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Por Tiago José Freitas Batista*

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Fizeram-se os fogos na Sapucaí. Abriram espaço para a São Clemente pisar. Em 2019, mais do que a volta da irreverência da Escola, ficou firmada a glória identitária da narrativa de Jorge Silveira. Bruner (1991, p. 04) compreende que a narrativa é o meio pelo qual organizamos nossas experiências e nossas memórias. Silveira, então, se vale deste aspecto bruneriano e retoma um carnaval outro, o memorizado por sua experiência e o revelado na intensa pesquisa em vídeos e em entrevistas com membros da agremiação.

Bruner afirma que “a sequencialidade da narrativa é uma de suas propriedades mais importantes, pois toda narrativa é composta por uma sequência singular de eventos, estados mentais e seres humanos como personagens ou atores envolvidos nos eventos”, por esta razão compreendemos uma feliz e bem sucedida “amarração” carnavalesca do que fora narrado por Jorge na São Clemente. Com muita astúcia, inventividade e originalidade ele criou atos de fácil leitura com uma sequência arrebatadora das situações que os sambistas mais ávidos vivenciam: a disputa pelo poder.

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O poder, na São Clemente 2019, é carnavalizado nas mais diferenciadas vertentes: a) os artistas que aparecem apenas para os desfiles, b) a vaidade de carnavalescos e sambistas contratados, c) a disputa pelo cargo de rainha de bateria, d) a inserção de músicas não carnavalescas no território do samba, e) as viradas de mesas dos dirigentes das Escolas de Samba, entre outros.

Também em Bruner compreendemos que as narrativas são consideradas poderosas quanto a sua historicidade, não importando se é constituída de imaginário ou de elementos reais. Afirma Bruner (1997, p. 47) que “a sequência das suas sentenças, e não a verdade ou falsidade de quaisquer dessas sentenças, é o que determina sua configuração geral. É essa sequencialidade singular que é indispensável para a significância de uma história e para o modo de organização mental em cujos termos ela será captada”. Jorge Silveira brincou com as sentenças de seu desfile, tudo era real, tudo era mentira, tudo era imaginado, tudo era arquitetado com a missão única de ”metacarnavalizar”, sim, o Carnaval falando de desfile de Carnaval.

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Um elemento do desfile, que muito impactou este pesquisador (Batista), foi a comissão de frente: na estética, no discurso e na narrativa – explosão! Destaco que este elemento violou os padrões convencionais de narrativas, não considerando a possibilidade de um evento final, desta forma, a comissão foi mais para confundir (game over) do que para dar certo (apresentar uma solução exata).

A São Clemente de Jorge Silveira e de Botafogo também “violou as regras dos enredos convencionais, levando as pessoas a verem acontecimentos humanos de um novo ponto-de-vista, de uma maneira que elas nunca haviam notado” (BATISTA, 2017, p. 63). Esse acontecimento complementa Pêcheux, é “é um ponto de encontro entre uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, 1997, p. 17), ou seja, a história carnavalizada é constituída por uma correlação entre o fato histórico em si e o meio como ele foi concebido e reproduzido. Nessa senda, o que compreendemos é que o desfile de 1990 faz parte de um memória e que ao retornar para o sambódromo mesmo (re)significado, atualizado estará sempre nas condições de produção dos desfiles no começo da década de 90 que, discursivamente, continua nos mesmos moldes.

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Esse local, de rememoração, é sem dúvida a melhor reedição já efetivada na avenida na minha tríade de análise (discurso, imagem e narrativa) que representa o amadurecimento do projeto e execução do texto de Jorge Silveira na Marquês de Sapucaí. Glórias, Jorge, Glórias, São Clemente.

 

  • Tiago José Freitas Batista – Coordenador geral Observatório de Carnaval/UFRJ. Doutorando em Linguística/UFRJ

Referências:

BATISTA, Tiago José Freitas. Narrativas poético-musicais-amazônidas na dromologia do carnaval carioca e paulistano: indigenismo, folclorismo e africanidades religiosas. Dissertação. Mestrado Acadêmico em Letras, Núcleo de Ciências Humanas, Universidade Federal de Rondônia, 2017.

BATISTA, Tiago José Freitas. O político e o burlesco na Mangueira 2018: arquitetura e sentidos. Entremeios [Revista de Estudos do Discurso, ISSN 2179-3514, on-line, www.entremeios.inf.br], Seção Temática [Discurso, arte e literatura – Parte I], Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem (PPGCL), Universidade do Vale do Sapucaí (UNIVÁS), Pouso Alegre (MG), vol. 16, p. 307-326, jan. – jun. 2018

BRUNER, Jerome. Atos de significação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

BRUNER, Jerome.. A construção narrativa da realidade. Critical Inquiry. Trad. Waldemar Ferreira Netto, 1991.

PÊCHEUX, Michel. Análise Automática do Discurso (AAD-69). Em: GADET, F.; HAK, T. (Org.). Por Uma Análise Automática do Discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 3ª ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.

Presidente da Liesb discute melhorias para o carnaval com coordenador da Prefeitura do Rio

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LiesbNa tarde desta sexta-feira, 17, o presidente da Liesb (Liga Independente das Escolas de Samba do Brasil), Gustavo Barros, esteve reunido com o coordenador da captação de recursos da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, o senhor Victor Travancas, tratando de projetos para melhorias e fortalecimento do carnaval da Intendente Magalhães.

O presidente Gustavo Barros foi recebido pelo coordenador Victor Travancas na Prefeitura do Rio de Janeiro, na Cidade Nova, onde debateram diversas ações que aproximam a Liesb da Prefeitura e fortalecem as agremiações que fazem o carnaval da Intendente.

“Foi o primeiro de uma série de encontros que vão intensificar a relação da prefeitura, não só com a liga, bem como com as escolas. Um encontro muito positivo, pois vamos ter condições de implementar grandes projetos para engrandecimento do nosso carnaval popular”, ressaltou Gustavo Barros.

A Liesb vem buscando, a cada ano, melhorar as condições para que as agremiações possam colocar seus carnavais na rua. A entidade está programando o sorteio da ordem dos desfiles do Carnaval 2020, que deve acontecer já no mês de junho.

Podcast Papo de Redação: primeira edição aborda novidades no carnaval

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    Cubango realiza eleições abertas neste domingo com três chapas. Conheça os candidatos

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    A Acadêmicos do Cubango, vice-campeã da Série A em 2019, decide neste domingo, 19, quem será o seu novo presidente nos próximos dois anos. Três chapas estão inscritas para o pleito, que possui uma peculiaridade. Qualquer pessoa física pode votar, mediante a apresentação de um documento oficial com foto. O pleito acontece entre as 08h e as 17h.

    Cubango03Rogério Belisário, atual presidente, se candidata à reeleição para mais um biênio à frente da verde e branca. O candidato concedeu entrevista ao site CARNAVALESCO onde elencou as principais realizações de sua gestão. Candidato pela chapa ‘Pra seguir em frente’ afirma que já tem carnavalesco e coreógrafo para 2020 apalavrados e que o restante da equipe permanecerá.

    “Fizemos uma reestruturação da escola e obtivemos excelentes resultados. No primeiro ano, mais inexperientes acabamos no 5º lugar. Em 2019 melhoramos e fomos vice-campeões. Pegamos a Cubango totalmente falida, quase sem presença da comunidade na quadra. Fomos abraçados e em cima disso realizamos dois carnavais de muito sucesso segundo a mídia especializada. O primeiro ato caso eleitos é contratar um carnavalesco e um coreógrafo. Assim que soubermos do resultado e se formos vitoriosos divulgaremos os nomes. O restante da equipe permanece conosco. Apesar de integrantes de nosso grupo terem se separado, acredito que a equipe que formamos é boa, são pessoas que gostam da Cubango e os resultados que obtivemos a escola nunca obteve”, pontuou.

    Cubango01Gustavo Soares é o representante da chapa ‘Família Verde e Branca’. Figura conhecida na escola, é compositor de vários sambas de sucesso pela agremiação. O jovem afirma ao CARNAVALESCO que sua principal intenção com a candidatura é unir a escola.

    “Eu resolvi lançar minha candidatura pois infelizmente a equipe se desfez depois de um bom carnaval. Não acho isso positivo. O que dá certo é uma equipe e não individualidades. Eu tinha a intenção de me lançar desde a última eleição. Temos um bom relacionamento com a escola no geral. Houve um racha no grupo que controla a escola e a comunidade está dividida. Me lanço como um candidato novo, uma opção diferente. É preciso cuidar mais da comunidade, com projetos sociais, dando continuidade ao que foi bem feito e melhorar aquilo que precisa. Já temos uma equipe definida para 2019. A eleição acabando começamos a trabalhar no dia seguinte. Já temos enredo e o carnavalesco que acertou comigo já está trabalhando. Divulgarei se formos vencedores”, destacou.

    Cubango02Daniel Moisés era até o fim de 2018 integrante do grupo vencedor nas eleições passadas e vice de finanças da Cubango. Entretanto se desentendeu com o atual presidente Rogério Belisário e encabeça a chapa ‘Resgata Cubango’. Segundo ele, 20 dos 25 conselheiros eleitos em 2017 estão com a sua candidatura.

    “Em 2017 criamos um grupo chamado ‘Resgata Cubango’ para recuperar a escola. Elegemos 25 conselheiros para o conselho soberano. Desses, escolhemos duas pessoas, os atuais presidente e vice para gerir a agremiação. No fim do ano passado o presidente disse que não reconhecia o grupo. Desse jeito seguimos com o meu nome como escolhido. Daqueles 25, 20 estão com a minha candidatura. Buscamos levantar a autoestima da comunidade através da quadra a partir de 2017 e hoje lá existem várias atividades. É o local referência da comunidade. Estou na escola há 51 anos e tenho um projeto de resgatar a memória da Cubango. Aliado a isso dar continuidade ao bom trabalho no departamento de carnaval. Ganhamos 51 prêmios em dois anos”, destacou.

    Carnavalesco estreante na Sapucaí desenvolverá o carnaval do Império da Tijuca

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    9C8DE2A9 18D7 4C06 AD27 AE234ADA8FA6Em 2020 o Império da Tijuca apostará na inovação. O arquiteto, desenhista e projetista Guilherme Estevão é o novo carnavalesco do Império da Tijuca, substituindo Marcus Ferreira. A contratação foi anunciada na tarde desta quarta-feira (15), após reunião com o presidente Antônio Marcos Teles, o Tê.

    O novo carnavalesco tem apenas 24 anos, atua como assistente do carnavalesco Severo Luzardo e é carnavalesco da Independentes de Olaria, no Grupo C, conquistando o acesso da escola no último carnaval. Teve passagens como desenhista e projetista pela Porto da Pedra, Renascer de Jacarepaguá e Sossego. Atuou no carnaval de São Paulo como membro da comissão de carnaval da Leandro de Itaquera, e realizou trabalhos na Morro da Casa Verde e Dom Bosco. Desenhou para agremiações do carnaval de Três Rios, Uruguaiana, Florianópolis e Belo Horizonte.

    “É uma oportunidade de ouro e uma felicidade enorme chegar na Série A em uma escola com a tradição e o peso do Império da Tijuca. Agradeço ao presidente Tê, ao Luã e toda a direção por apostarem no meu trabalho. Agradeço muito também ao Marcus Ferreira que me passou com carinho o bastão para conduzir esse projeto, que ainda está bem no início, o que permite maiores possibilidades, mas respeitando e revalorizando tudo que foi apostado nesse tema”, declara o novo profissional.

    Em 2020 a Império da Tijuca levará educação para a Sapucaí através do enredo “Quimeras de um eterno aprendiz” quando buscará o campeonato na Série A. 

    Podcast do Alexandre Araujo: Houve uma época que os enredos só podiam abordar temas nacionais

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      Samba da Mangueira vai parar em manifestação do movimento negro em Brasília e carnavalesco celebra: ‘Isso que me estimula’

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      Mangueira Campeas2019 107No dia 13 de maio se celebram os 131 anos da Abolição da Escravatura, a lei assinada pela Princesa Isabel que livrou o Brasil do trabalho escravo. No plenário da Câmara Federal em Brasília foi preparada uma homenagem à monarca. Movimentos sociais de cultura negra protestaram contra o tributo e entoaram no plenário do parlamento nacional o samba-enredo que embalou a Mangueira ao título no carnaval deste ano. Além disso reproduções da bandeira do Brasil em verde e rosa com os dizeres ‘Índios, negros e pobres’ foram levadas por estes movimentos.

      O carnavalesco da escola, Leandro Vieira, comemorou o fato em um post na sua rede social. Leandro disse que atos como esse o encorajam a fazer carnaval e a levar educação e cultura às pessoas através de sua arte.

      “Isso que me alimenta e me estimula a fazer carnaval. Produzir arte de alcance popular, arte para o povo usar. A bandeira do Brasil em verde e rosa não é mais minha nem da Mangueira, ela é nossa”, postou o carnavalesco campeão de 2019.

      Em seu desfile a Mangueira questionou figuras ditas como heróis na história do Brasil, entre elas a Princesa Isabel. Com um desfile impactante, reduziu essas figuras históricas a anões na comissão de frente e encerrou o seu carnaval com a princesa toda ensaguentada em cima de pretos mortos na última alegoria.

      Laíla toca o coração insulano, mas alerta que União da Ilha se afastou de sua maneira de fazer sambas

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      O novo diretor de carnaval da União da Ilha Laíla foi apresentado na noite desta segunda-feira na quadra da agremiação para a comunidade. O experiente Laíla já chegou fazendo diferente. O evento foi na parte externa da quadra, onde funciona o estacionamento. Com a presença maciça dos componentes e segmentos ele usou sua capacidade aglutinadora em sua fala, mas não deixou de alertar que segundo ele a escola perdeu suas características históricas de fazer sambas-enredos nos últimos anos.

      “Vou convidar muitos compositores como sempre faço. Com todo respeito às parcerias que já venceram aqui recentemente, mas a métrica dos sambas não correspondem às características históricas da União da Ilha. Quero fazer uma arena insulina aqui no estacionamento. Estruturar tudo aqui fora. Não gosto de ensaio de rua. Isso é oba oba. Vamos ensaiar núcleo por núcleo. Conhecer os caminhos”, alertou.

      O presidente Djalma Falcão era um dos mais entusiasmados na quadra. Com motivo, afinal, foi ele o articulador da chegada de Laíla na escola após diversas reuniões e tratativas, que só se confirmaram no fim da última semana.

      “Foi um esforço muito grande. Pretendemos mudar a escola. Nossas qualidades precisam ser ressaltadas mas profissionais dessa estirpe somam para que nossa escola dispute realmente títulos. Vamos formar uma comissão. É um formato de muito sucesso no carnaval. Hoje é um marco histórico para a União”, destacou.

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      Quem também foi apresentado na noite de festa foi o novo carnavalesco Fran Sérgio. O artista falou da longa parceria que tem com Laíla, que a Ilha vai aguardar até o fim do prazo uma proposta de enredo patrocinada e que o público pode esperar uma Ilha de acordo com o seu DNA histórico.

      “Eu tenho um casamento de 25 anos com o Laíla. O conheci em 1995 na Beija-Flor, quando ele me viu desenhando uma escultura no chão do barracão. Eu acho que a Ilha é o maior desafio de toda a minha carreira. É muito peculiar para o artista de carnaval poder trabalhar em uma escola com uma marca estética tão forte. Além disso é uma escola muito querida por todos os sambistas. Eu estou profundamente honrado”, destacou.

      A apresentação de Laíla mexeu com o coração de uma das mais apaixonadas escolas de samba do carnaval. A comunidade celebrou a chegada de seu novo integrante. O intérprete Ito Melodia levou à capela diversos sambas antigos da escola à pedido de Laíla, que chegou a cantar vários. Ao final do evento elogiou as vozes femininas da escola e foi solícito com muitos pedidos de fotos dos componentes da União da Ilha.

      Confira a sinopse do Tuiuti para o Carnaval 2020

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      IMG 20190513 WA0065Em honra e glória a São Sebastião, valoroso padroeiro e defensor da cidade do Rio de Janeiro e da nossa escola, o G.R.E.S. PARAÍSO DO TUIUTI tem a honra de apresentar:

      O SANTO E O REI: ENCANTARIAS DE SEBASTIÃO

      “Oh, meu rei de fantástica memória
      Passo a vida a rezar tua história.
      Tão verdadeira e sobrenatural…
      Eu rezo a tua infância aventureira
      Tua morte num trágico areal.
      Rezo a tua existência transcendente
      Numa ilha de névoa, ao Sol nascente,
      Encantada nos longes da Natura…
      E rezo tua vinda anunciada,
      Dentre as brumas daquela madrugada
      Que virá dissipar a noite escura”

      Oração Sebastianista (Teixeira de Pascoaes)

      I – O SANTO VENERÁVEL E O REI DESEJADO

      Que venha Sebastião, O DESEJADO, assim nomeado por ser a esperança de sucessão da dinastia que guiou o reino lusitano ao apogeu.
      Que venha o divino rei-menino de Portugal, futuro regente do Império Mundial Cristão!
      MAJESTOSO, GUERREIRO, PUJANTE!
      Que venha Sebastião, ornado de FESTAS DO POVO e de JÚBILO DOS DEUSES. Cumpram-se todas as profecias, abram-se os livros da boa aventurança.
      O REI NASCEU! O REI NASCEU!
      Na data mística de 20 de janeiro, Sebastião foi ENCANTADO pelo espírito de coragem e fé do venerável Santo que lhe deu o nome.
      Assim traçaram-se as flechas de bom e mau auguro sobre DOM SEBASTIÃO.
      O jovem Rei cresceu ouvindo as histórias de bravura e martírio em nome da reconquista da Península Ibérica.
      Um dia, conduziu seu exército rumo à última cruzada.
      Marrocos era o destino. Vencer os mouros, uma obsessão.

      II – O REI ENCOBERTO

      Em súplicas, Sebastião, o Rei, rogou proteção ao padroeiro.
      Sebastião, o Santo, concedeu-lhe coragem para prosseguir: “Tua glória correrá muito além da própria vida. Irá se espalhar por mundos e eras que nunca sonhaste”.
      Fez-se então ungido com os paramentos banhados pelas glórias dos antepassados.
      E assim foi mapeada a incerta campanha. Era hora de partir com a sua esquadra rumo a ALCÁCER QUIBIR.
      Deu-se a sangrenta batalha no deserto do Norte africano contra o exército do Sultão.
      Destemidos, Santo e Rei empunharam a cruz contra a cimitarra.
      Postas frente a frente, tropas ergueram o pavilhão da ordem de Cristo contra a bandeira da crescente lua e brilhante estrela.
      Cavalarias avançaram-se em mortal conflito. Armas ao céu, o rei se lançou à glória derradeira.
      Nas areias do Marrocos, Dom Sebastião desapareceu…
      E veio o nevoeiro. Com ele, a esperança de que um dia o Rei iria regressar para reviver o apogeu do seu povo.
      “Ele há de voltar! Ele há de voltar…”

      III – O REI SUBMERSO

      E o Rei fez morada no mar…
      Navegou em triunfo a bordo da nau mística com a tropa que, com seu líder, sumiu no areal marroquino.
      Aportou nas águas do Maranhão, em imponente cortejo arrebatado.
      Ergueu seus domínios na costa do Atlântico, indo tomar lugar na corte dos encantados.
      Com barbatanas bordadas de escamas cintilantes, ascendeu ao régio trono marinho.
      No suntuoso PALÁCIO DE CRISTAL, suas joias reais eram cravejadas de pérolas, conchas e búzios.
      Seu paraíso marinho era cercado de majestosos seres encantados que habitavam o fundo do oceano.
      A lenda do Rei submerso inundou o imaginário do povo que vivia na beira do mar.
      Na busca pelo Encoberto, foi o povo que se encantou em névoa de maré…

      IV – O REI ENCANTADO

      Nas torrentes das águas sagradas, a lenda sobre o Rei se espalhou.
      Entre batuques vindos dos terreiros de mina se dizia que, em noite de lua cheia, andava pela praia um TOURO NEGRO. E esse touro era Dom Sebastião.
      O bravo que se atrevesse a fincar uma espada reluzente na testa do animal desfaria o encanto, cumprindo a profecia:
      “REI / É REI DOM SEBASTIÃO / QUEM DESENCANTAR LENÇÓIS / BOTA ABAIXO O MARANHÃO”
      Mas o desfazimento do encanto era em si outro encanto.
      Assim, na crença, na magia e nos cânticos, o Rei foi coroado no couro do tambor.
      Dançou com os deuses, macerou as ervas e bebeu dos segredos das matas. Incorporou-se aos cultos afro-ameríndios.
      Entranhou-se, em alumbramento, na alma dos cantadores e poetas populares.
      Da sua capa real, ornada de brilho e sonho, veio a inspiração para tecerem as vestes do bumba-meu-boi.
      Encantado, Dom Sebastião se fez o espírito que o povo desejava para conduzi-lo por novas cruzadas…

      V – O REI DOS FLAGELADOS

      Nos areais do sertão nordestino, o Rei Encoberto regressou com o encanto de um monarca restaurador.
      O povo, roto nas batalhas de existir, nada esperava dos homens. Confiava tudo a um milagre de Deus.
      Na busca pelo paraíso terreal, a crença dos sertanejos esculpiu o espírito do Rei em alma de santo.
      Na Serra do Rodeador, em Pernambuco, a insurreição se deu. Mas foi esmagada pelo poder implacável da Coroa.
      Anos mais tarde, na localidade da Pedra Bonita, em São José do Belmonte, o beato João Antônio ocultou-se no alto da montanha com seu séquito de flagelados.
      Acreditavam que Dom Sebastião iria ressurgir das fendas das pedras para restaurar a justiça social sempre prometida e nunca alcançada.
      Mas para isso era preciso lavar as rochas com sangue para desencantar o Rei.
      Houve nova batalha. O terror se espalhou no lajedo. Morreu-se para não matar.
      O Rei não veio. Ressurgiu n’outro arraial.
      Em Canudos, Antônio Conselheiro liderou seu povo que o seguia no limite entre a fé e o delírio messiânico, evocando a volta do monarca.
      “O SERTÃO VAI VIRAR MAR E HAVERÁ UMA GRANDE CHUVA DE ESTRELAS”
      Canudos, Pedra Bonita, Rodeador… tudo sucumbiu. Mas não a glória do Santo-Rei Sebastião, que renasce ao poder do encanto de quem nele acreditar.

      VI – O SANTO PADROEIRO E O POVO-REI LIBERTADOR

      A cada episódio de luta e dor, eis a certeza de que o espírito sebastianista continua a guiar o povo na eterna busca pelo seu próprio rumo.
      Dizem que o Rei vive adormecido nos domínios encantados de São Sebastião, terra emergida a flecha e fogo.
      A muy-heroica cidade fundada durante o reinado de Sebastião, o Desejado.
      Na data mística de 20 de janeiro, o nobre Estácio de Sá foi flechado em batalha com os índios.
      Conta a lenda que São Sebastião lutava ao seu lado.
      O bravo guerreiro lusitano se encantou junto com sua cidade, que um dia se partiu. E hoje se retalhou…
      Recanto ferido, que precisa se regenerar.
      Mas um dia há de vir o verdadeiro Rei.
      Que das brumas da memória se levanta e se ergue
      MAJESTOSO, GUERREIRO, PUJANTE!
      É o POVO, senhor de si, enfim desencantado
      Que na bravura do Rei por ele mesmo despertado,
      Arrancará as flechas do peito do padroeiro
      E Sebastião, enfim, há de restaurar o que lhe é devido:
      O trono do Rei e o altar do Santo.
      E a paz enfim triunfará
      Na cidade cansada de tantas batalhas…
      Mas nunca da luta!
      (Ele há de vir. Ele há de vir…)

      Carnavalesco: João Vitor Araújo
      Texto: João Gustavo Melo

      Inspirado no poema “O Rei que Mora no Mar”, de Ferreira Gullar e nas encantarias e brasilidades de Luiz Antônio Simas.

      REFERÊNCIAS:

      FERRETI, Sérgio F. Encantaria maranhense de Dom Sebastião. Lisboa: Revista Lusófona de Estudos Culturais. Vol. 1, n.1, pp. 108-125, 2013.
      GULLAR, Ferreira. O Rei que mora no mar. São Paulo: Global Editora, 2002.
      MARINHO, Luisa. Desencanto. Rio de Janeiro: Funarte, 2015.
      RORIZ, Aydano. O Desejado: a fascinante história de Dom Sebastião. São Paulo: Editora Europa, 2015.
      SIMAS, Luiz Antônio. Almanaque brasilidades: um inventário do Brasil popular. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.

      Viradouro contrata dupla de carnavalescos que já faturou o título da Série A

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      carnavalescos viradouro

      Uma semana após a inesperada saída do carnavalesco Paulo Barros, a direção da Viradouro anunciou os novos comandantes do cargo. A escola vice-campeã do Grupo Especial em 2019 vai apostar na jovem dupla Marcus Ferreira e Tarcisio Zanon.

      Os dois nunca trabalharam juntos, mas estão na safra dos novos carnavalescos que despontam com muito conceito artístico. Marcus foi o responsável pelo título do Império Serrano em 2017 na Série A. Será a estreia dele no Grupo Especial.

      Tarcisio venceu com a Estácio de Sá a Série A em 2019. Não será sua estreia. Ele já trabalhou no Especial, na própria Estácio, quando a agremiação homenageou São Jorge.