A Liga RJ divulgou nesta segunda-feira o calendário oficial dos ensaios técnicos das escolas de samba da Série Ouro para o Carnaval 2026. As apresentações acontecerão no Sambódromo, no Centro do Rio, entre os dias 23 e 25 de janeiro, reunindo as 15 agremiações que desfilam no grupo em três dias de programação. O primeiro dia de ensaios começará às 21h, enquanto as atividades de sábado e domingo terão início às 18h.
Na sexta-feira (23/01), vão atravessar a Sapucaí as seguintes escolas: Unidos do Jacarezinho, Em Cima da Hora, Unidos da Ponte, Acadêmicos de Vigário Geral e Unidos de Padre Miguel. No dia seguinte, sábado (24/01), será a vez de Botafogo Samba Clube, União do Parque Acari, Unidos de Bangu, União de Maricá e União da Ilha realizarem seus ensaios. Inocentes de Belford Roxo, Arranco, Império Serrano, Unidos do Porto da Pedra e Estácio de Sá encerram o final de semana no domingo (25/01).
Presidente da Liga RJ, Hugo Junior afirmou que a divulgação antecipada do cronograma foi pensada para favorecer o planejamento das escolas e o envolvimento de suas comunidades.
“A ideia de antecipar o calendário é permitir que cada agremiação se organize com tranquilidade, mobilizando seus segmentos e componentes para que possam aproveitar ao máximo os ensaios na Sapucaí. Será um novo formato em 2026, com todas num final de semana, agitando a cidade que já vai estar respirando o Carnaval desde cedo”, afirmou.
Os ensaios técnicos são uma etapa fundamental da preparação das escolas para os desfiles oficiais. Assim como nos demais anos, eles terão entrada franca. Em 2026, as escolas da Série Ouro vão desfilar nos dias 13 e 14 de fevereiro.
Compositores: Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romal e Marco Aurélio
Sou eu, a Flor do Mulungu
Brilham os olhos d’Água! Orayeyê! É de Mamãe Oxum!
Sou Ponciá Consagrada
Entregue às palavras
E ao axé das ancestrais
Se tempos atrás
Ecoavam vozes do porão
Hoje reescrevo a história
poesia a despertar nas pretas mãos
Nos becos da minha memória
Meu verbo é ouro de aluvião
Meu verso é barro de artesão
Pra Folia de Reis, chamo vô e chamo tio
Na Folia de Reis, vou vivendo por um “fio”
Ô lê lê, lá vem batuque, pra congada começar
Angorô, vira menino! Angorô, não vou virar!
Não é fácil emergir nesse contraste
Benevuto, a maldade, não quer me ver sorrir
No refúgio desses becos e vielas
De mãos dadas com Sabela
Eu só quero ser feliz
O Rio que me acolheu me ensinou também a florir
Vi muita gente de lá no rosto negro do povo daqui
Sou eu quem dá voz à caneta que silencia o fuzil
Me torno imortal no Livro Brasil
Malungo! Que Negro- Estrela possa ser reconhecido
Sem o choro de um futuro interrompido
Por todo preto, escreviver!
“A gente combinamos de não morrer!” (Combinamos de não morrer!)
Chamei Maria, preta velha jongueira…
Vovó Joana, pra benzer Madureira
Busquei Ivone pra matar essa saudade
O negro é raiz da liberdade!
É Kizomba de preta literatura!
É escrita sem censura no Império a florescer!
Casa de Preto também é Academia
Serrinha… Ponciá Yalodê!
O Império Serrano definiu, na manhã deste domingo, o hino que vai embalar a comunidade da Serrinha na busca pelo título da Série Ouro no Carnaval 2026. Após uma noite de grande festa, o resultado foi anunciado às 6h, consagrando a parceria formada por Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romal e Marco Aurélio como vencedora da disputa. O samba dará voz ao enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, homenagem à escritora mineira Conceição Evaristo, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A obra promete unir a força da literatura negra à tradição imperiana, celebrando a escrevivência e o poder transformador da palavra que nasce da favela e floresce no mundo.
Fotos: Marcos Marinho e Matheus Vinícius/CARNAVALESCO
Conceição Evaristo celebra o poder da literatura no samba
Emocionada com a homenagem, a escritora Conceição Evaristo destacou a importância simbólica de ver sua trajetória literária se transformar em samba-enredo.
“É uma alegria muito grande pensar que eu chego aqui por causa de um texto literário. Pensar que a literatura tem esse poder de convocação, para mim, vale mais do que qualquer prêmio. Eu tenho certeza que vou encontrar o aplauso do povo. Antes, quando eu entrava na avenida, as pessoas já gritavam meu nome, e agora será ainda mais emocionante. Vai ser um momento de encontro muito grande entre o público, a literatura e o samba”, afirmou.
Conceição também ressaltou a relevância da representatividade no desfile: “O que não pode ficar de fora é o fato de eu ser uma mulher negra. Isso tem uma importância muito grande pra gente. O enredo não pode esconder a nossa identidade”.
Samba vencedor emociona compositores e comunidade
Para os compositores da parceria campeã, a vitória coroou uma noite de celebração e pertencimento. Lico Monteiro falou com gratidão pela conquista: “Não tenho palavras para agradecer à parceria pelo convite. Ganhar no Império Serrano é um sentimento inesquecível, porque aqui é uma escola diferente. Tenho certeza de que a comunidade vai cantar muito esse samba”.
Já Hamilton Fofão, cria da Serrinha e sobrinho-neto do lendário Silas de Oliveira, não conteve a emoção.
“É um sonho. Sou nascido e criado no Morro da Serrinha. Comecei no Império do Futuro, fiz tudo como um imperiano apaixonado faria. Estou dando continuidade a essa corrente maravilhosa que é o Império Serrano. Esse é o meu primeiro samba-enredo campeão na escola, e a emoção é indescritível”.
Ele ainda destacou seu trecho preferido da obra: “A parte que mais me toca é ‘É Kizomba de preta literatura! É escrita sem censura no Império a florecer! Casa de preto também é academia! Serrinha! Ponciá Yalodê!’. É uma linda homenagem à nossa grande escritora Conceição Evaristo”.
Renato Esteves exalta sinergia e confiança na comunidade
O carnavalesco Renato Esteves, responsável pelo enredo e pela parte plástica, destacou a maturidade artística conquistada nos últimos anos e o envolvimento profundo com a comunidade imperiana.
“O Carnaval de 2025 foi um grande aprendizado. Foi o que reafirmou meu amor pelo Império Serrano, por essa festa e pelo ato de fazer carnaval. Aqui é quintal de casa. Fico super à vontade. A comunidade e a diretoria me abraçam. É um casamento perfeito”, refletiu.
Renato revelou que o enredo nasceu de um desejo antigo e que a escolha de Conceição Evaristo aconteceu de forma natural: “Eu já tinha esse enredo guardado e calhou que Dona Conceição nos escolheu também. Foi sinergia, foi o que tinha que acontecer e está acontecendo de maneira muito bonita”.
Sobre os preparativos no barracão, garantiu: “Os protótipos já estão finalizados, e estamos iniciando a reprodução. O ritmo é muito bom”.
Presidente Flávio França: ‘Império está focado em fazer um carnaval grandioso’
O presidente Flávio França comemorou a escolha do samba e reforçou o propósito coletivo que move a comunidade imperiana:
“A comunidade está unida e focada em fazer esse grandioso carnaval. Dona Conceição é uma mulher preta que representa a nossa comunidade. A literatura e a cultura têm um diálogo importante que pode impactar a juventude. Estamos consolidados, com um planejamento que tem foco e qualidade”.
França também explicou a escolha do tema: “Eu já pensava em levar um tema literário que dialogasse com a cultura. A história da Dona Conceição é perfeita. Sou amante da literatura e faço parte do movimento negro, do Jongo da Serrinha. A escrevivência dela conversa diretamente com a minha vivência”.
Sobre o desenvolvimento visual, ele mostrou confiança: “O Renato (Esteves, carnavalesco) acertou a mão. Já começamos a fase de reprodução no barracão. Agora é colocar o carnaval na avenida sem medo de errar”.
Intérprete Vitor Cunha: 35 anos de história e emoção renovada
O intérprete Vitor Cunha falou sobre o orgulho de representar o canto imperiano: “Cheguei aqui em 1992, com 12 anos. Meu pai, Carlinhos da Paz, foi intérprete da escola, e desde então o Império Serrano faz parte da minha vida. É uma história de amor e resistência. Estamos montando o carro de som, e agora teremos um formato mais minimalista, com menos cantores e fones de ouvido. É uma nova fase, um novo estilo, mas com a mesma emoção”.
Sobre a parceria com a bateria, destacou a tradição e o talento do novo mestre: “A bateria sempre foi um xodó. O mestre Sopinha é cria da casa, herdeiro de grandes nomes. O Império sempre teve a melhor bateria do Rio, e isso continua”.
Mestre Sopinha mantém essência e promete surpresas
O jovem Felipe Santos (Sopinha) elogiou o trabalho herdado e garantiu que a bateria manterá sua identidade: “A bateria está muito boa. Era o trabalho do mestre Vitinho, que dispensa comentários. Não mudei muita coisa, porque o time é o mesmo”.
Ele confirmou que o agogô seguirá como instrumento símbolo da escola e adiantou que algumas bossas já estão desenhadas, mas fez mistério: “Já temos algumas bossas prontas, mas é segredo. O agogô é a identidade do Império Serrano”.
Diretor de carnaval: ‘Estamos resgatando o brilho dos imperianos’
O diretor de carnaval Jeferson Carlos lembrou os desafios enfrentados pela escola e a recuperação da autoestima da comunidade após o difícil ano de 2025: “Viemos de um momento doloroso, mas estamos reconstruindo e resgatando o brilho dos imperianos. Hoje, com a quadra lotada, mostramos que seguimos fortes. O Renato (Esteves, carnavalesco) conseguiu interligar a história da Conceição Evaristo com a história do imperiano. Plasticamente, o desfile está belíssimo”.
Jeferson também revelou planos para os ensaios e números de componentes: “Devemos ter entre 2.500 e 3.000 componentes. Os ensaios de rua começam na primeira semana de dezembro, sempre às terças. A ideia é fortalecer o canto e o chão da escola”.
Casal celebra nova fase
A porta-bandeira Maura vibrou ter o mestre-sala Matheus como parceiro de dança: “Foi uma felicidade imensa. Já dançamos juntos e ele é um parceirão. Ele tem uma dança tradicional, malandra e muito dele. É maravilhoso dançar com ele”.
Ela elogiou o carnavalesco: “O Renato superou as expectativas. A fantasia está linda, exatamente como eu sonhava. Ele conseguiu traduzir tudo o que imaginei”.
O mestre-sala Matheus retribuiu o carinho e destacou a harmonia da dupla: “A Maura é uma porta-bandeira clássica, delicada e forte ao mesmo tempo. É difícil encontrar essa mescla. Estamos ensaiando muito para garantir nota máxima”.
A Mancha Verde completou 30 anos no último sábado e comemorou com sua comunidade em um evento que se tornou histórico não apenas pela data simbólica, mas também por conta de uma importantíssima mudança nos quadros da agremiação. Desde 2014 como mestre-sala da escola, Marcelo Silva despediu-se da comunidade e, literalmente, passou o bastão para Thiago Bispo, que estará à frente do quesito ao lado de Adriana Gomes. Presente em todos os eventos de alta magnitude do samba paulistano, o CARNAVALESCO acompanhou a celebração, que também marcou o primeiro ensaio da Mancha Verde para o Carnaval 2026, quando a agremiação reeditará o enredo “Pelas mãos do mensageiro do axé, a lição de Odu Obará: a humildade”, apresentado originalmente em 2012.
Perguntado sobre quando decidiu deixar de ser mestre-sala, Marcelo abriu o coração: “Eu costumo falar que não foi quando eu tomei a decisão de parar, eu falo que foi quando eu tive coragem. Eu já venho amadurecendo essa ideia desde o pós-Carnaval de 2023, e, em 2024, aconteceu tudo o que aconteceu. Acho que não foi por acaso, foi providencial e eu só não tinha coragem. Quando comecei a pensar em me despedir, senti que era o fechamento de um ciclo, graças a novos ciclos que se abriram na minha vida: em relação ao trabalho, à continuidade dos meus estudos, a novas responsabilidades. Eu teria que aceitar as novas oportunidades da minha vida ou deixar algumas coisas”, comentou.
Antes da decisão, muita reflexão aconteceu: “Pensei em várias situações e na minha história no Carnaval de São Paulo, que eu considero muito bonita. Por tudo isso, eu venho amadurecendo a ideia. Em 2025, voltei a desfilar e desfilei com muito orgulho. Após o Carnaval, conversando com o presidente e com a Adriana, tive coragem de tomar essa decisão. Não foi nada ligado a chateação, cobrança ou pressão, muito pelo contrário. Já são 32 anos de Carnaval, eu não poderia ir para o meu 33º ano sem me dedicar como me dediquei nos 32 anteriores”, disse.
Lembranças
A noite da sexta-feira de Carnaval de 2024 foi marcante por uma série de motivos. Um deles foi a notícia de que Marcelo estava vetado do desfile por ter contraído dengue. Para substituí-lo, Thiago foi destacado e conseguiu a nota máxima no quesito.
É claro que tal situação foi lembrada por Marcelo ao ser perguntado se a escolha da Mancha Verde por Thiago, então segundo mestre-sala, foi óbvia: “A escolha pelo Thiago foi óbvia não apenas pelo Carnaval de 2024: ela foi óbvia pelo gabarito do Thiago, pelo mestre-sala que ele é. Ele vem crescendo desde lá de trás, quando começou com a gente. Mesmo se não tivesse acontecido o que aconteceu em 2024, se ele não tivesse assumido e trazido as notas, com certeza o óbvio também seria o Thiago. Não tinha por que ser outra pessoa, sendo que a gente tem alguém na casa com condição de assumir o primeiro cargo. Não seria justo da minha parte nem da escola trazer alguém de fora se há uma pessoa preparada”, afirmou.
Marcelo seguiu desenvolvendo o raciocínio: “Eu estou aqui para passar o bastão para o Thiago, e o fato de a escolha ser óbvia tem a ver com eu não saber se aceitaria passar o pavilhão para alguém de fora. Não como desrespeito a quem vem de fora, não é isso. É porque eu sou um mestre-sala de tradição. Em todas as escolas pelas quais passei, recebi um bastão para assumir aquele posto. Uma das histórias mais lindas da minha vida é ter recebido o bastão das mãos do Gabi e da Vivi, o Casal do Milênio do Carnaval de São Paulo. Se fosse alguém de fora, eu daria meu apoio, mas não me sentiria tão bem quanto estou me sentindo hoje, passando o pavilhão para alguém da escola e que, agora, ficou óbvio que tinha que ser ele”, frisou.
Thiago relembrou como foi ser o primeiro mestre-sala naquele desfile: “Em 2024, a gente foi pego de surpresa. A gente não tinha a mínima ideia de que isso ia acontecer, e não gostaria que acontecesse. Primeiro ponto: a gente sabe que o Marcelo e a Adriana têm uma garantia de nota, uma segurança muito maior. Segundo ponto: a gente teve um dia e meio (e olhe lá) para fazer um trabalho. Eu e a Adriana dançávamos em eventos aqui e ali, mas nunca com essa responsabilidade. Tivemos dificuldades naquele desfile, mas, graças a Deus, conseguimos superar”, relembrou.
“Se a gente pegar aquele mini trabalho de menos de 48 horas para cá, é outra dança. Estamos fazendo um preparo diferenciado, colocando mais energia, trabalhando bastante sincronismo. Demanda mais tempo, até porque a Adriana e o Marcelo tinham um estilo de dança e uma forma própria de pensar. Quando troca a parceria, é uma nova linha de raciocínio. A gente está criando a nossa dança, e espero que seja agradável para todo mundo. Eu, particularmente, estou gostando. É um trabalho novo, muito diferente. Como o Marcelo falou, é uma nova mentalidade. Quando você é segundo mestre-sala, tudo é mais rápido; como primeiro, já é diferente: você tem tempo para elaborar, precisa ter mais qualidade nos movimentos para que tudo saia perfeitamente. Estou adorando e espero que vocês gostem quando verem”, completou.
Concordâncias
Agora com novo mestre-sala, Adriana Gomes, porta-bandeira da Mancha Verde, concordou com o antigo companheiro: “A gente fala muito que está numa escola de samba. E, quando a gente está numa escola de samba, tem aquela comunidade, o ensinamento. Eu acho que sim, era óbvia a escolha pelo Thiago. E faz parte da história de uma escola de samba um passar para o outro e é isso o que está acontecendo. A história que o Thiago construiu dentro da Mancha Verde foi de crescimento e de construção, para chegar até onde ele chegou. Em um Grêmio Recreativo e Cultural, você aprende e ensina; a gente passa e aprende também. Essa troca é o que faz chegar ao resultado final”, destacou.
O presidente da instituição, Paulo Serdan, foi pelo mesmo caminho: “Foi uma decisão óbvia, sim. Até porque seria desleal, por parte da entidade, se não fosse. O tempo todo que ele se dedicou à escola, quando a gente teve o Marcelo com dengue e ele pulou, se entregou, ensaiou e se dedicou demais. O Thiago tem o mesmo perfil de caráter do Marcelo. Na minha cabeça, sempre foi um pensamento reto de que o Thiago ia ter a vez dele”, comemorou.
Data especial
Além do aniversário da própria escola, Thiago lembrou que o 18 de outubro é especial por outro motivo que também tem a ver com a “Mancha Guerreira”: “Antes de vir para cá, em casa, eu estava pensando sobre toda a minha trajetória. Exatamente hoje eu completo 11 anos de escola: nessa data, fui apresentado como terceiro mestre-sala. E eu sou uma pessoa privilegiada por ter um primeiro casal como o Marcelo e a Adriana, prestando todo o apoio, suporte, carinho e dicas que a gente vem recebendo durante anos. Você vai aprendendo um pouco a cada dia. Receber esse bastão do Marcelo, para mim, é muito gratificante. É uma forma de coroar tudo que a gente vem trabalhando desde os quatro anos de idade. Saber que uma pessoa tão gabaritada e multicampeã tem esse carinho, esse gesto, é essencial. Fico extremamente feliz”, declarou.
Mentalidade
Outro tema recorrente nas entrevistas realizadas pela reportagem foi o quanto assumir o posto de primeiro mestre-sala exige psicologicamente de um componente. Marcelo explicou:
“Quando a gente passa de segundo para primeiro casal, muita coisa muda. Tenho certeza de que ele já deve ter percebido isso. Até o psicológico muda! E ele é uma pessoa que tem condição para essa mudança. A condição de mestre-sala ele tem, sempre teve, independente de 2024. O óbvio está aí: é o Thiago. E não foi apenas uma decisão, foi também uma conversa com o presidente e com a Adriana e todos achavam isso óbvio”, disse.
Em outro momento, o antigo mestre-sala voltou a citar a parte mental como importante: “Ele tem a história bonita dele como mestre-sala e vai continuar com uma nova responsabilidade. Como eu disse, a cabeça fica completamente diferente, mas tenho certeza de que ele será e já é um grande mestre-sala. Agora, ele vai se consolidar como o grande mestre-sala que já é”, afirmou.
Adriana também destacou que, para ela, o novo companheiro exige adaptações: “Não é porque eu tenho mais experiência que vai ser do meu jeito. Um casal é uma construção, que tem que ser feliz para todo mundo. Se dançar sem estar feliz, não adianta, não tem dança bonita. Eu não sou automática, eu sou emoção. A dança tem todos os balizamentos, mas eu preciso ter emoção. Tenho que prestar atenção nisso: trazer essa mentalidade para ele, fazer com que entenda que, agora, ele é o centro das atenções. Eu assumi o primeiro pavilhão na minha vida há 23 anos, em 2003. Nesse processo, a gente tem que entender qual é o nosso lugar, o nosso caminho e a nossa posição. Eu tenho que ser a que abraça, que acolhe, que dá o caminho. Mas esse caminho eu tenho que construir junto com ele, senão, não faz sentido”, frisou.
Aos mestres, com carinho
Thiago fez questão de exaltar as qualidades do, agora, antigo primeiro casal da Mancha Verde, a começar por Marcelo: “Em 2024, antes de a gente entrar na pista, eu conversei com o Marcelo e peguei todas as dicas possíveis, todas as informações. A gente precisa entender nossa necessidade e aprender com quem tem conhecimento. Eu faço questão de estar com o Marcelo: mesmo ele não desfilando como mestre-sala, queremos ele próximo, é importante isso”, destacou.
Depois, foi a vez de Adriana: “A Adriana é uma porta-bandeira que eu conheço desde que me conheço como mestre-sala. E eu vou falar: ela me pegou no colo! Eu fico muito contente porque, além de ser uma das maiores porta-bandeiras do Carnaval de São Paulo e a história dela é inacreditável, ela também é uma amiga, uma pessoa que sempre esteve comigo. Mesmo em outras entidades, antes de chegar à Mancha, ela sempre esteve próxima, sempre frequentou minha casa, sempre teve muito carinho comigo e com a minha família. Fica difícil falar sobre a Adriana”, disse.
E, para encerrar, palavras que valem para ambos: “A única coisa que quero é agradecer a eles. O pessoal fala da elegância do Marcelo e ele é assim 24 horas. É uma pessoa sensacional, sempre teve um carinho incrível comigo. A gente sempre teve um quadro muito unido e conectado. E a Adriana é uma guerreira, aquela pessoa que a gente sabe: ela entra na pista e o mundo para para vê-la. Eu só tenho a agradecer”, comentou.
Outras questões
Adriana refletiu sobre a experiência e sobre tantos nomes históricos que passaram pelo segmento no carnaval paulistano: “Tem que ensaiar sempre! Mas, como ele falou, é uma diferença de estilos. São 28 anos que eu estou dançando e vi várias gerações. Peguei Dona Gilsa, Vivi, Gabi, Nenê, Sônia, Simone, Maria Inês… a cada hora eu vou construindo uma nova história que se alinha muito bem com a anterior. A gente está com quase quatro meses de ensaio e quatro quilos a menos. Está um processo muito coeso, com uma troca muito boa”, disse.
Por fim, Paulo Serdan revelou que, embora contasse com toda a confiança da presidência, a sucessão no cargo de mestre-sala nunca foi uma questão na Mancha Verde: “Até o anúncio do Marcelo, a gente nunca tinha conversado sobre o Thiago ser o primeiro mestre-sala. Nunca. E eu também nunca prometi nada para ele, até porque a gente tinha o Marcelo e a Adriana. Ele é muito correto. Estamos muito bem servidos, porque, além da dança, temos que preservar o que há de mais importante aqui: os seres humanos. Eu tinha certeza de que um dia seria ele e o dia dele chegou”, finalizou.
Noite estrelada
Intitulada internamente como “Bailar das Estrelas”, a noite teve direito a Parabéns a Você cantado em plena quadra por Fredy Vianna, intérprete da Mancha Verde, e bolo oferecido às crianças da comunidade. Antes das homenagens a Marcelo, a escola realizou o primeiro ensaio rumo ao desfile de 2026, com excelente resposta do público a um samba-enredo eternizado na história não apenas da agremiação, como também do carnaval paulistano, considerado por muitos o melhor da história da escola.
A homenagem a Marcelo também teve espaço para lembrar Mirian Acedo, antiga segunda porta-bandeira da agremiação e companheira de Thiago, vítima de um câncer no cérebro em 2024. Antes da roda de pavilhões com representantes de várias agremiações do Carnaval paulistano, o mestre-sala que se despediu da função bailou com porta-bandeiras de Unidos de São Lucas, Pérola Negra, Camisa Verde e Branco e Barroca Zona Sul, pavilhões que defendeu ao longo da carreira. Tudo isso sob o olhar de grandes nomes da história do samba paulistano, como o Casal Soberano (Gabi e Vivi), Raimundo Mercadoria e Ednei Mariano.
Após a passagem do bastão, evento tradicionalíssimo resgatado pela Mancha Verde para marcar a mudança de casal de mestre-sala e porta-bandeira, Paulo Serdan presenteou Marcelo com um pavilhão da escola e chamou Marcos Aurélio e Wender Luciano, coreógrafos da comissão de frente, para anunciar uma surpresa: a partir daquela data, Marcelo passaria a integrar o grupo responsável pelo segmento algo que ele já havia manifestado disposição para assumir.
Novo pavilhão
Para encerrar os marcantes 30 anos da Mancha Verde, Paulo Serdan anunciou oficialmente a mudança no pavilhão da escola: agora, a agremiação terá também duas estrelas alusivas aos títulos do antigo Grupo de Escolas de Samba Desportivas. Elas serão prateadas e ficarão centralizadas entre as vermelhas — que representam os dois títulos do Grupo Especial.
Está chegando a hora das grandes finais! Na última sexta-feira foi realizado o segundo dia das semifinais, dedicado à disputa dos reis e rainhas, em um dia marcado por muita agitação, casa cheia e celebração. Com uma disputa de 20 candidatas a Rainha e 10 a Rei, apenas metade de cada foi selecionado para a final do dia 24. Entre os postulantes do dia, classificaram-se os candidatos a Rei Anderson Matheus (7), Danilo Vieira (2), Djeferson Mendes (6), Jonata dos Santos (12) e Pablo Jales (3). As candidatas a Rainha foram Ana Carolina Antunes (28), Ana Luiza Carneiro (8), Caroline Xavier (29), Gabriela Carvalho (42), Ingrid Ferreira (34), Jéssica Almeida (9), Luana Fernandes (2), Rhunda Monteiro (23), Samara Trindade (13) e Thays Busson (22).
Wilson Neto, o Rei Momo de 2022, e Bianca Monteiro, rainha de bateria da Portela, realizaram a apresentação da noite com muita energia e emoção. O evento teve início às 19h, na Cidade do Samba, com entrada gratuita, e quem esteve lá, presenciou uma verdadeira noite de dedicações de amor ao samba.
A banca de jurados, formada a cada edição por representantes, amantes e estudiosos do nosso samba e da nossa cultura, contou com presenças ilustres, como Tia Surica, figura lendária e matriarca da Portela; Lucinha Nobre, Porta-Bandeira multi-campeã e Estandarte de Ouro; Mari Mola, embaixadora e Rainha do Carnaval em 2023; Bárbara Ferreira, jornalista e escritora; Nilce Fran, vice-presidente da Portela e Célia Fernandes, presidente da Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil. Também fizeram parte da mesa o presidente da Riotur, Bernardo Fellows, o vice-presidente Luís Monsores e o diretor de operações Flávio Teixeira.
“Ver tantos candidatos dedicados à Corte Real é uma prova de quanto o Carnaval move corações e desperta sonhos. Cada um tem sua história, seu brilho e seu jeito único de representar o Rio. Que todos possam aproveitar esse momento com alegria e orgulho. Boa sorte aos finalistas, o importante é celebrar juntos a força da nossa festa!”, disse Bernardo Fellows.
Como não podia faltar em um dia de celebração do carnaval, o samba foi forte no palco. O grupo Moça Prosa, formado por mulheres que participavam de uma oficina de percussão feminina na Pedra do Sal, abriu os trabalhos com excelência, recebendo todos que chegavam com muita animação. Após o tempo dedicado à homenagem para Rosa Magalhães, o Salgueiro, sua ex-escola, entrou no palco para fazer jus à sua memória. Com cores fortes e sambas mais ainda, a vermelho e branco encantou o público ao apresentar seu samba-enredo de 2026, que é dedicado à grande carnavalesca.
Com a condução do Rio Samba Show, a disputa foi tomada por diversos candidatos fortíssimos, que deixaram suas histórias de vida, posicionamentos e dedicação no palco. O espetáculo foi encerrado com a apresentação do Terreiro de Crioulo, roda de samba que viaja diversas cidades do Brasil, mas que tem sua raiz fincada na Zona Oeste do Rio, e é um sucesso absoluto entre os eventos da cidade.
O dia foi dedicado à lendária Rosa Magalhães, um dos maiores nomes da história do carnaval. Formada na “Revolução Salgueirense” dos anos 60, Rosa detém o recorde de mais títulos conquistados no Sambódromo, sendo cinco pela Imperatriz (1994, 95, 99, 2000 e 2001), um pela Vila Isabel (2013) e, antes da avenida, conquistou o último título do Império Serrano em 1982. Magalhães faleceu em 2024 e será o enredo do Salgueiro no desfile de 2026.
“Eu tô muito emocionada de estar aqui, porque isso registra que, de alguma maneira, passar por esse palco, além de coroar a gente no ano que ganhamos, nos transforma em um marco na história do nosso Carnaval, e isso é muito importante. É cada vez mais importante que meninas que são crias de comunidade e de escola de samba, fiquem marcadas na história do carnaval.”, disse Maria Mola, Rainha do carnaval de 2023.
A Secretaria de Conservação do Rio iniciou esta semana o recapeamento da Marquês de Sapucaí para o Carnaval de 2026. O serviço será realizado em etapas para respeitar o cronograma de eventos do Sambódromo. Da Praça da Apoteose até a Avenida Salvador de Sá, o processo foi iniciado na quarta-feira com a fresagem da pista, que consiste na retirada do asfalto antigo. Na noite da última quinta-feira, o asfalto novo começou a ser aplicado.
“Depois das obras que prepararam a Marquês de Sapucaí para modernização do sistema de som, agora, a Conservação realiza o recapeamento completo da Avenida. Na noite desta quinta-feira, foram aplicados dez caminhões de asfalto no Sambódromo. O serviço é alinhado com a Riotur para não comprometer a agenda de eventos no Sambódromo. Nosso compromisso é deixar a Avenida nova para os ensaios e o Carnaval 2026”, explicou o secretário Diego Vaz.
O presidente da Riotur, Bernardo Fellows destaca a relevância da Sapucaí para o Carnaval. “O Carnaval é o maior evento cultural e turístico do Rio, e a Sapucaí é o seu principal palco. O recapeamento é mais uma demonstração do compromisso da Prefeitura em garantir uma infraestrutura à altura da importância da festa. Esse cuidado com o Sambódromo beneficia não só o espetáculo, mas toda a cadeia produtiva do Carnaval, que movimenta a economia e projeta o Rio para o mundo”, diz Bernardo Fellows, presidente da Riotur.
O último recapeamento completo da Sapucaí foi realizado pela Prefeitura do Rio em 2022.
Reformulação do sistema de som
A Prefeitura do Rio prepara a Marquês de Sapucaí para o processo de reformulação no sistema de som do Carnaval. A Secretaria de Conservação construiu dez dutos transversais na Passarela do Samba em toda a sua extensão. As estruturas, além de abrigar os cabos de som, também vão contemplar os condutores de elétrica e iluminação cênica, acabando com os cabos expostos na pista. Os novos dutos foram construídos em valas rasas para conectar o novo sistema de som do Sambódromo. As valas são fechadas com concreto armado e, em seguida, asfaltadas. As dez canaletas têm 14 metros de extensão, e cada uma delas contém três dutos de 100 mm.
COMPOSITORES: PAULINHO BANDOLIM, TOMATE SHOW, RODRIGO JACOPETTI, BRUNO DALLARI, GODOI, GUTO CACHAÇA, DODÔ ANANIAS E RAFA CRIA
O VENTO QUE SOPROU NO TURANO ANUNCIA
LÁ NO MORRO NASCEU OUTRO CRIA
DE REPENTE, MAIS UMA POESIA
POR “ANDAR AÍ”, VIU GERALDO E MAGALHA
FEZ DOS VERSOS SUA ARMA DE BATALHA
COM CAVACO E REPIQUE…
HERANÇA DE ARLINDO, GUINETO E DO CACIQUE
CANTANDO A VIDA… SAMBISTA IMORTAL!
NO JACAREZINHO DEU NÓ NA TRISTEZA
E FEZ DA VIDA CARNAVAL!
A VOZ DO MORRO É QUEM DIZ
UM BAMBA SABE DE COR
“PILARES” DESSA RAIZ
O TEU ORGULHO MAIOR
TORRÃO AMADO, TE FEZ GENTE COMO A GENTE
NEM MELHOR, NEM PIOR, APENAS DIFERENTE
PINTOU DE ROSA E BRANCO A INSPIRAÇÃO,
DO VENTRE QUE DESPERTA A CRIAÇÃO
BATIZADO PELOS MENESTRÉIS…
E SALGUEIRENSE DA CABEÇA AOS PÉS!
REVELA PARA OS PALCOS BRASILEIROS
O TALENTO VERDADEIRO…
DE QUEM DEIXOU ACONTECER NATURALMENTE
SÃO NOVOS TEMPOS E A TRILHA É O AMOR
LEGADO QUE DOZINHA GUIOU
PATENTE ALTA DO SAMBA!
PLANTOU A SEMENTE DE BAMBA
TEU CORAÇÃO RADIANTE NÃO DEIXA NEGAR
É DEUS QUEM APONTA A ESTRELA QUE TEM QUE BRILHAR!
SAPUCAÍ VAI TREMER QUANDO A SIRENE TOCAR…
JACAREZINHO, TACA FOGO NO CONGA!
VAI TER PAGODE E SAMBA-ENREDO NESSA FESTA
CHAMA XANDE DE PILARES PRA SER COROADO NA FAVELA!
A noite da última sexta-feira foi de festa e emoção na quadra da Unidos do Jacarezinho. Em uma final marcada por alto nível e forte participação da comunidade, a escola da Zona Norte do Rio escolheu, já com o dia amanhecendo, o samba-enredo que defenderá no Carnaval 2026, quando retorna à Marquês de Sapucaí após 12 anos. O resultado foi anunciado por volta das 6h da manhã, consagrando a parceria formada por Paulinho Bandolim, Tomate Show, Rodrigo Jacopetti, Bruno Dallari, Godoi, Guto Cachaça, Dodô Ananias e Rafa Cria. O samba embalará o enredo “O ar que se respira agora inspira novos tempos”, que contará a trajetória do cantor, compositor e ator Xande de Pilares, um dos maiores nomes da música popular brasileira e filho da comunidade.
Profundamente ligado às origens do Jacarezinho, Xande de Pilares falou com emoção sobre o convite para se tornar o enredo da escola que o viu crescer.
Fotos: Juliana Henrik/CARNAVALESCO
“Por ter residido na comunidade, compreendo as diversas dificuldades inerentes à experiência humana, e por elas também transitei, nos âmbitos musical, social e psicológico. A possibilidade de ser homenageado pela escola de samba da minha própria comunidade gerou em mim uma certa hesitação inicial em aceitar, pois considero que ainda há um longo percurso a ser trilhado”, revelou o cantor.
O artista explicou que o vínculo afetivo com a agremiação foi o que o levou a aceitar o convite: “O fato de ter morado aqui foi decisivo. Figuras como meu tio Nonô, pai do Guará, Monarco, Seu Dedão, Macambeira, Gilson Bernini e Jorge Jacarezinho foram determinantes na minha formação. São essas memórias que consolidaram minha determinação”.
Sobre a expectativa para o desfile, Xande afirmou que o principal desejo é que o samba funcione na avenida. “O essencial é que o samba impulsione a escola a um desempenho notável na Sapucaí. O que importa é ver o Jacarezinho brilhar. E podem ter certeza: meu coração vai se emocionar como poucas vezes antes”.
Compositores comemoram a vitória
A parceria vencedora celebrou intensamente o resultado e exaltou o significado de compor um samba que homenageia um ícone do samba nacional.
“É com imensa alegria, pois, acima de tudo, nutrimos um profundo respeito por esta comunidade. O Jacarezinho é um grande celeiro cultural e um berço de talentos. Xande é um dos mais proeminentes sambistas da atualidade. Nosso refrão tem grande apelo popular e reflete a verdadeira essência do Jacarezinho”, afirmou Paulinho Bandolim
Tomate Show, também da parceria campeã, ressaltou o orgulho em participar do projeto. “Sinto-me profundamente emocionado, pois tenho raízes nesta comunidade. Trabalhei na bateria do Jacarezinho e sempre fui muito bem recebido. O desfecho desta competição foi notório. A concorrência precisará reconhecer a força do Jacarezinho”, disse.
Já o compositor Bruno Dallari, de São Paulo, destacou a alegria de conquistar o primeiro título no Rio. “Nós, que somos de São Paulo, há muito tempo almejávamos ter um samba aqui. É uma grande honra homenagear uma figura que é símbolo do samba e do carnaval. O refrão ‘Sapucaí vai tremer’ é impactante e mobiliza o público. Esse é o diferencial do nosso samba”.
Olhar do carnavalesco Bruno Oliveira
Responsável por desenvolver o enredo sobre Xande de Pilares, o carnavalesco Bruno Oliveira explicou que a ideia nasceu de uma proposta do presidente da escola e que o projeto carrega uma continuidade conceitual com o desfile anterior.
“A ideia originou-se a partir do presidente, que concebeu essa abordagem como uma sequência do trabalho feito no ano passado. Desta vez, a jornada do Xande se faz presente, e ele tem ressonância em muitas partes do mundo. De Jacarezinho, ele seguiu sua trajetória de sucesso e conquistas. Há um forte sentimento de pertencimento e reconhecimento em relação a ele aqui”, contou o artista.
Bruno revelou ainda que o cantor participou das conversas sobre o desfile, mas lhe deu liberdade criativa. “Xande apontou alguns momentos relevantes de sua vida, que prefiro manter em sigilo, mas me deu total liberdade para decidir o que incluir. Já incorporei essas situações, pois este desfile é um presente para ele”.
Sobre o visual da escola, o carnavalesco adiantou que o público pode esperar um carnaval vibrante e de forte identidade popular. “Estou desfrutando imensamente da criação. Será um desfile impactante, com formas diversificadas e alto nível de qualidade, dando continuidade ao padrão de excelência que o Jacarezinho apresentou no último carnaval”.
Retorno à Sapucaí, segundo o presidente Matheus Gonçalves
De volta ao Sambódromo após mais de uma década, o Jacarezinho promete um desfile histórico. O presidente Matheus Gonçalves ressaltou o peso simbólico desse retorno.
“Uma escola que retorna à Sapucaí após mais de uma década possui sua inegável importância. O Jacarezinho é uma instituição tradicional da Zona Norte, com mais de sessenta anos de história. Há uma grande responsabilidade e um sentimento de orgulho coletivo. Posso assegurar que será um desfile marcado por alegria e entusiasmo”, afirmou.
Matheus também comentou o processo de convite a Xande e as mudanças para o Carnaval 2026. “Quando o convite surgiu, ele demonstrou certa apreensão, talvez sem perceber a dimensão de sua grandeza. Mas, enquanto eu estiver à frente da presidência, nossas homenagens serão em vida. Xande morou mais de quinze anos em nossa comunidade, e sua história merece ser contada agora”.
Sobre os desafios financeiros, o dirigente foi realista. “Manter um barracão na Série Ouro é desafiador, mas o trabalho não pode parar. Contamos com o apoio integral da Liga RJ, que tem sido fundamental para as escolas. Seguimos com planejamento rigoroso e busca constante de recursos”.
Direção de carnaval aposta na força da comunidade
Para o diretor de carnaval, Aridio de Oliveira, o trabalho de mobilização da comunidade será essencial para o sucesso do desfile.
“É uma responsabilidade considerável. Estamos preparados, embora mobilizar a comunidade seja desafiador. As dificuldades serão superadas com dedicação”. O dirigente confirmou ainda que o primeiro ensaio de rua está marcado para novembro e que o desfile contará com cerca de dois mil componentes distribuídos em 28 alas.
“O Jacarezinho está vibrante. Temos grande confiança na revitalização do grupo, e o ambiente da escola é prova disso. O retorno será triunfal”, completou.
Casal de mestre-sala e porta-bandeira estreia na Sapucaí
O primeiro casal da escola, Maycon Ferreira e Lorenna Brito, fará sua estreia na Marquês de Sapucaí como titulares e demonstrou emoção com o desafio.
“É uma grande honra para nós. Este é o nosso primeiro ano como casal principal na Sapucaí, e a emoção é ímpar. A comunidade espera um desempenho exemplar, e isso nos inspira ainda mais”, contou Lorena.
Maycon ressaltou a parceria e a sintonia com sua porta-bandeira. “Dançar com Lorena é uma imensa honra. Ela é um presente da vida e dos orixás. É uma parceria que ultrapassa o Carnaval. Trabalhar com alguém que admiro tanto é uma bênção”.
O casal revelou que iniciou os ensaios em maio e que agora, com o samba escolhido, intensificará o preparo. “Com o samba definido, podemos moldar a coreografia e aprimorar nossa performance para entregar o melhor na avenida”, completou Lorena.
Batida de mestre Pelezinho
Estreando como mestre de bateria na Série Ouro, mestre Pelezinho destacou a responsabilidade e o simbolismo de comandar os ritmistas da escola.
“É uma grande responsabilidade representar a escola. Meu primeiro ano como diretor de bateria foi no Jacarezinho, e agora retorno para essa missão. A expectativa é imensa”, afirmou.
O mestre adiantou que o ritmo de Xande de Pilares influenciará diretamente o trabalho percussivo. “É impossível falar de Xande sem incluir o pagode na bateria do Jacarezinho. Aguardamos a escolha do samba para criar os arranjos de acordo com sua melodia”.
Força da voz: Ailton e Thiago, os intérpretes da emoção
O retorno à Sapucaí também marca a união de duas gerações de intérpretes: Ailton Santos e Thiago Acácio. Para Ailton, o momento é de celebração e reconhecimento.
“É um sentimento indescritível. São treze anos de persistência e dedicação. Retornar com o Jacarezinho é imensamente gratificante. Xande é um ícone da música brasileira, e tê-lo como enredo é uma honra imensa”, declarou.
Thiago destacou o privilégio de dividir o microfone com o veterano. “Cantar ao lado do Ailton é uma oportunidade de aprendizado e crescimento. Ele é generoso e acolhedor. Essa troca é valiosa e representa o espírito do Jacarezinho”.
Sobre o enredo, Thiago completou: “Falar de Xande é falar de um dos nossos. Ele representa o sonho de todos nós, sambistas. É um artista completo e merece ser celebrado em vida.”
A Festa dos Protótipos dos Gaviões da Fiel para 2026 teve uma presença ilustre: Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, estava presente na sede da Torcida Que Samba, no Bom Retiro, no Centro de São Paulo, para conferir como estavam as fantasias da agremiação. O motivo é pertinente à pasta chefiada por ela: no próximo Carnaval, a escola terá como enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, que trata de temáticas ligadas aos primeiros habitantes do país. Presente na apresentação das fantasias da escola para o carnaval do próximo ano, o CARNAVALESCO entrevistou com Sônia Guajajara para falar não apenas sobre o evento, o enredo e o samba-enredo dos Gaviões da Fiel para a 2026: também foi perguntado como a ministra enxerga a profusão de temas indígenas realizados por escolas de samba.
Ilustre visitante, a ministra Sônia Guajajara fez questão de elogiar o enredo da agremiação do Bom Retiro: “É uma forma de trazer o debate sobre a pauta indígena para o centro do debate público. E é, também, uma forma de mostrar para a sociedade como nós somos e como nós vivemos. Infelizmente, ainda somos muito desconhecidos pela sociedade em geral. E, por meio do samba e do carnaval, de forma alegre e descontraída, a sociedade nos conhece – e, assim, passa a nos respeitar mais”, afirmou.
Outro ponto valorizado pela ministra é o fato do desfile dos Gaviões destacar que o universo dos povos indígenas é muito mais plural do que a grande maioria das pessoas acredita: “É uma forma de valorizar a presença e a identidade indígena no Brasil enquanto povos originários desse país. Esse enredo fala da diversidade de povos, já que muita gente ainda acha que ‘é tudo índio’, mas nós somos povos indígenas que têm culturas e tradições diferentes. Esse enredo demonstra isso: essa diversidade de povos, cada um deles com a respectiva cultura”, comentou.
Valorização dos povos indígenas
Alguns dos grandes desfiles de escolas de samba da história do carnaval tinha a temática indígena como pano de fundo. “Lendas e Mistério das Amazônia” (Portela, 1970) e “Pará – O mundo místico dos caruanas nas águas do Patu-Anu” (Beija-Flor de Nilópolis, 1998), mais do que conquistarem o título nos respectivos concursos (no segundo caso, empatado com a Estação Primeira de Mangueira), entraram para o imaginário popular. “Tupinicópolis” (Mocidade Independente de Padre Miguel, 1987) é lembrado não apenas pelo desfile e pelo samba-enredo marcantes, mas pelo delírio de imaginar um mundo em que a cultura dos povos indígenas era majoritária.
Sônia Guajajara destacou que valorizar um grupo étnico que, durante tanto tempo, esteve distante das principais pautas levantadas pela sociedade é uma grande vitória: “Para nós, é muito importante, é muito significativo, é muito mais que simbólico. É muito significativo porque, por muito tempo, nós ficamos à margem do processo, sempre fomos marginalizados pelo sistema. E, agora, você vê que muitas dessas escolas referenciam, valorizam os povos indígenas”, comentou.
Logo depois, a ministra destacou um pouco do quanto colocar questões indígenas nas escolas de samba e em outros tantos locais de fala faz com que mais políticas públicas surjam: “Esse reconhecimento crescente por parte da sociedade (algo que as escolas de samba fazem parte) faz com que aumente essa necessidade de se construir políticas públicas de Estado para atender essas distintas realidades. Muita gente ainda pensa que só tem indígenas na Amazônia – e nós temos indígenas no Brasil inteiro, em todos os estados. Por meio do carnaval, a gente vai conseguindo trazer o conhecimento para a sociedade como um todo. Essa valorização e esse reconhecimento facilitam, também, essa aceitação em todos os espaços”, pormenorizou.
Defesa do governo
Para encerrar, a ministra Sônia Guajajara destacou o trabalho que o governo federal faz em prol das causas indígenas: “A gente tem avançado bastante já na ocupação de espaços. Hoje, temos um ministério, nunca existente antes na história. Embora tardio pensando na história do país, o presidente Lula teve a coragem de criar esse ministério de povos indígenas. Em 57 anos de FUNAI, é a primeira vez que temos uma presidenta indígena. É o momento em que, realmente, marca essa mudança de povos indígenas enquanto ocupação de espaço no Estado brasileiro”, destacou.
Além da própria criação do Ministério dos Povos Indígenas, em 2023, também foi citada a mudança na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), presidida por Joênia Wapichana.