Galeria de fotos: Imagens do desfile da Mocidade Unida da Glória no Carnaval 2020
Fotos: Toninho Ribeiro
Viradouro alia técnica e emoção em seu último ensaio de rua e mostra porque é uma das favoritas ao título
Por Eduardo Fróis e Gustavo Maia. Fotos: Carlos Papacena/Divulgação
A Unidos do Viradouro realizou seu último ensaio na avenida Amaral Peixoto, no centro de Niterói, neste sábado, numa noite banhada por muitas emoções. A começar, a escola recebeu a visita de dona Maria de Xindó, matriarca das Ganhadeiras de Itapuã, o grupo cultural que será cantado pela vermelho e branca na Sapucaí.

Impulsionada pelo belo entrosamento entre o carro de som e a bateria Furacão Vermelho e Branco, a escola cantou o samba-enredo com vigor e emoção do começo ao fim. Destaque especial para o bis do “Ensaboa, mãe”, que levou o público da Av. Amaral Peixoto a cantar junto com a escola.
Depois de sagrar-se vice-campeã do carnaval de 2019 no retorno da Série A, o brilho no olhar da comunidade da Viradouro está cada vez mais forte. O décimo quinto ensaio de rua da escola, marca dificilmente batida por outras agremiações, deixou os componentes confiantes no segundo campeonato da no Grupo Especial.

Marcelinho Calil, presidente da vermelho e branca de Niterói, reforçou a confiança no projeto desenvolvido pelos carnavalescos e por toda a direção da escola e sua comunidade.
“O que acontece na avenida é resultado do que nós treinamos ao longo dos últimos meses. Viemos trabalhando muito para fazer um grande carnaval. A escola hoje está praticamente pronta para entrar na avenida, faltam pequenos detalhes plásticos e, musicalmente, em termos de quadra e de comunidade, podemos dizer que estamos 99,9% preparados. Faltam apenas os detalhes inerentes à semana que antecede o desfile. A escola está com sede de fazer uma grande apresentação e, consequentemente, disputar o título, respeitando, claro, todas as coirmãs que, assim como nós, buscam seu lugar ao sol”, avaliou o presidente.
Visita Especial
A matriarca das Ganhadeiras de Itapuã, que nasceu no ano de fundação da escola, em 1946, encantou a Amaral Peixoto com sua presença. Com sua risada apaixonante, a cantora, que já tinha participado de outros eventos em Niterói, como a festa de aniversário na quadra do Barreto, esteve pela primeira vez em um ensaio de rua da escola que lhe renderá homenagem.

“Estou me lembrando dos meus carnavais em Salvador, quando eu pegava na carroceria do trio. Eu fico me beliscando pra saber se tudo o que estou vivendo com a Viradouro é realidade”, contou dona Maria.
No dia do desfile, dona Maria de Xindó estará acompanhada pelas 28 mulheres que compõem com ela o grupo musical da Lagoa do Abaeté, em Salvador.
Harmonia
A voz da emoção tem nome e sobrenome: Zé Paulo Sierra. Comunidade, diretoria, torcida, público… ninguém resiste ao timbre marcante e ao carisma contagiante do intérprete. Zé Paulo é um verdadeiro atleta do carnaval. Mais uma vez, provou ter fôlego suficiente pra fazer tremer o chão da escola, sem comprometer a harmonia. Pelo contrário, o componente, muitas vezes literalmente, abraça o puxador ao longo do desfile. Ao se deparar com o cantor principal de sua escola no meio de sua ala ou presenciar mais um ato de carinho de Zé Paulo diante do público, o desfilante, irmanado, solta a voz ciente de sua responsabilidade na disputa pelo título.

A comunidade abraçou de fato o samba da escola, cantando com a mesma intensidade do começo ao fim do ensaio. O canto ecoou por todas as alas, o que significa que a escola soube corrigir uma deficiência notada há alguns ensaios, uma leve queda na harmonia em alguns grupos coreografados.
Evolução
O componente foi pra rua com garra e forte emoção, mas sem se deixar levar pelo favoritismo. Não se notaram tropeços, correrias ou paradas da escola ao longo de todo o cortejo, mesmo nas manobras mais delicadas.

A Viradouro mais uma vez passou compacta pela Amaral Peixoto, evoluindo conforme o andamento ditado pela escola. Algumas alas são coreografadas, dando um efeito diferenciado no conjunto do ensaio.
A organização, por sinal, estava evidente não apenas nas maiores movimentações da escola, mas também nos pequenos detalhes, desde a maquiagem em muitas alas até o figurino caprichado das baianas. Destaques de luxo abrilhantaram a passagem da Viradouro, assim como as musas da escola. Nesse cargo, a que faz jus, a escultural Luana Bandeira triunfou mais uma vez.
Samba-enredo
Está na boca do povo, não tem jeito. O samba do “Oh, mãe, Ensaboa, mãe! Ensaboa, Pra depois quarar” é leve e animado, tem uma melodia fácil de cantar, ou seja, é a cara da escola. O mérito se deve em grande parte ao trabalho de Zé Paulo e seu time, que firmam a letra como uma poesia, aos ritmistas de mestre Ciça e, claro, à direção de harmonia com os componentes da vermelho e branca. Mas, posto à prova na rua pela décima quinta vez, a reação do público comprovou que não dá mais pra virar a cara para o “Ensaboa”. O verso pegou e se candidata a ser um dos destaques desse carnaval.

“Estou muito feliz, acho que a gente fez grandes ensaios aqui. Talvez, nesse a gente estava mais solto, mais descontraído… Essa escola é fantástica. Não tem escola que ensaiou mais do que a gente. Desde que se escolheu o samba foram ensaios ininterruptos, com chuva, com sol. Com a gente bem fisicamente, mal fisicamente. A gente se doou o máximo pra chegar domingo e colher bons frutos. Se vamos ganhar, é uma outra coisa, depende de tudo, de merecimento… Tenho certeza que Deus está abençoando demais a gente nesse momento. Acho que a Viradouro hoje criou uma energia, uma atmosfera de uma escola campeã de fato”, confessou Zé Paulo.
Para o presidente da escola, Marcelinho Calil, o samba-enredo da Viradouro para 2020 atende a todas as expectativas da escola.

“O samba na nossa concepção é impecável para a competição, canta exatamente o que vai ser visto no enredo, além de ser de uma obra de muita emoção. O ‘ensaboa’ se tornou muito popular. No carnaval essa alegria e espontaneidade são muito importantes, e o verso reflete essa energia que nós buscamos todos os anos. O sucesso do samba é resultado de muito ensaio e de todo o planejamento que vem sendo feito pela escola há vários meses. Não tenho dúvidas de que o samba vai render na avenida e vamos fazer um grande carnaval”, garantiu Marcelinho.
Mestre-sala e Porta-bandeira

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Julinho e Rute, executou alguns passos em pontos específicos da avenida. Um grupo de sete jovens negras, majestosamente vestidas, acompanhou a dupla em alguns passos. Elas serão as guardiãs do primeiro casal da escola. Entrosamento é o que não falta entre os dois, que esbanjaram elegância e alegria ao apresentar o pavilhão da escola ao público.

Bateria
Os ritmistas do consagrado mestre Ciça mostraram mais uma vez por que são referência entre as baterias do Rio de Janeiro. Eles executaram com perfeição as bossas, paradinhas e paradonas que dão molho ao hino da escola, sempre entrosados com o carro de som. No ensaio, Ciça reforçou o treino para as apresentações nas cabines de julgamento, quando todos os ritmistas se viram para os avaliadores. O destaque vai para os agogôs e para os timbaleiros, estes concentrados no miolo da bateria, na bossa do refrão principal.
“Na terça-feira acontece o último ensaio de quadra e até lá teremos a oportunidade de melhorar o que não estiver perfeito. Hoje fizemos todas as bossas que levaremos pra avenida, mas tem uma surpresa que estamos guardando para a Sapucaí”, contou Ciça.

O mestre acabou adiantando o que a bateria guarda para o dia do desfile: as mulheres que serão elevadas em um pedestal para executar a bossa com timbales. Se haverá outras surpresas, vai ser preciso aguardar o domingo para conferir.

Quem não fez surpresa e mostrou mais uma vez toda a sua simpatia e samba no pé foi a rainha Raissa Machado, que está pronta para brilhar à frente dos ritmistas. A beldade cumpriu seu papel de recepcionar a corte do carnaval de Niterói, além dos convidados especiais da noite.
Série Barracões: Sem medo de experimentar, Grande Rio prepara novas propostas estéticas
Por Gabriella Souza
João Alves de Torres Filho ou popularmente ‘Joãozinho da Gomeia’ é reconhecido como o ‘rei do Candomblé’ e sua marcante trajetória de vida será representada pela Acadêmicos do Grande Rio em 2020. O enredo ‘Tata Londirá: o Canto do Caboclo no Quilombo de Caxias’ é assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, estreantes no Grupo Especial. Personalidade viva na memória dos caxienses, o babalorixá Joãozinho nasceu em 1914 na Bahia, lá iniciou a sua longa e predestinada vida no Candomblé, chegando ao Rio de Janeiro através dos ‘terreiros migrantes’ que percorriam cidades do país, onde se fixou e traçou a sua trajetória de vida, de personalidade, deixando seu legado vivo através de seus inúmeros ‘filhos de santo’ do famoso Terreiro da Gomeia que recebia famosos, políticos, personalidades da época e pessoas de todas as classes sociais.

A relação desta figura com o carnaval também é singular, visto sua energia como agitador social em diversos projetos nas artes e eventos, assim como sempre participava dos desfiles da escolas de samba e nos bailes de carnaval, tornando-se mesmo uma celebridade dos anos 50 e 60. Leonardo Bora conta que a contemporaneidade de Joãozinho foi o que mais os surpreendeu o tempo todo, mesmo que tenha deixado a vida terrena a quase cinquenta anos, falece em 1971, ele expressa uma série de questões que são comuns ainda hoje e estão na ordem do dia, estampando qualquer jornal impresso e site de notícias da internet.
“Falar de Joãozinho da Gomeia em 2020 é falar da luta contra a intolerância religiosa, de racismo epistêmico, de racismo religioso e o quanto eles precisam ser combatidos nas menores coisas, é falar de homofobia porque ele foi uma figura pioneira que se vestia de vedete nos bailes carnavalescos, o que chocava, inclusive, o povo de axé, visto que ele quase foi expulso da Federação Espírita Brasileira por conta disso. É falar de temas urgentes, o que torna o enredo extremamente atual. E nos proporciona também a possibilidade de pensar o Brasil e de continuar pensando as ideia de brasilidade, que é algo que a gente vem desenvolvendo desde os enredos da Intendente Magalhães, quando éramos carnavalescos de escolas dos outros grupos. Joãozinho é uma figura que expressa esses múltiplos brasis, ele nasce no interior da Bahia, se fixa em Salvador, depois migra por inúmeros ditos ‘terreiros migrantes’ para o Rio de Janeiro, enquanto era a capital federal, mais especificamente na Baixada Fluminense, no município de Duque de Caxias ainda recém emancipado, e lá ele replanta o seu axé, fundando a nova Gomeia” declarou.

Bora fala ainda do legado deixado por Joãzinho tanto para a comunidade de Caxias, a cidade do Rio como para toda a cultura popular brasileira.
“No trânsito permanente desse personagem, que tem hoje inúmeros filhos de santo espalhados pelo país inteiro e até fora do Brasil, a gente consegue pensar diversas facetas da cena política, artística, cultural, por exemplo, ele foi padrinho do teatro folclórico brasileiro. A Gomeia de Caxias recebia comitivas dos maracatus do Recife, dos bumbás do Maranhão, albergava as fadas de copeira e até sediava uma importantíssima festa junina. Falar dele é falar de Mercedes Baptista, do teatro experimental do negro, de Jorge Amado, é um enredo em sentido extremamente rico e inesgotável e tudo isso foi dando para nós um volume de informação, de modo que a nossa grande dificuldade foi fazer uma triagem, uma curadoria mesmo em pensar quais os elementos eram os mais importantes, até porque é um personagem cercado de narrativas míticas, de matriz oral e muitas contraditórias. Ficamos, claro, com a arte, a poesia que mais do que estabelecer uma única verdade, está interessada com o mito, a criação e a invenção, nessas múltiplas versões para uma mesma história”, explicou.

Gabriel Haddad conta como surgiu a concepção do enredo, assim como se deu o convite para ambos assumirem o enredo de 2020 da verde e vermelho.
“Quando nós fomos chamados para a Grande Rio e convidados pelos presidentes e a diretoria para realizar o carnaval da escola eles já tinham observado nosso trabalho na Cubango e foi solicitado que fosse realizado um enredo ligado a comunidade de Caxias, o que já era algo característico dos trabalhos que nós já vínhamos produzindo anteriormente, de buscar uma ligação forte com a comunidade da escola. Acho que até mesmo pela identidade que a Grande Rio precisava nesse momento, de conseguir fazer com que a comunidade se religasse com a escola de samba. E Joãozinho da Gomeia é uma figura que escolhe Caxias para morar e é quase que um mito para os caxienses. E essa já era uma ideia que estava rondando alguns diretores da escola para ser enredo, o que nos incentivou ainda mais a pesquisar a história dele e decidir levar para a Avenida”, comentou.
Dificuldades na disponibilização de verbas
Leonardo Bora conta quais as alternativas a Grande Rio tem utilizado para driblar as dificuldades dos incentivos financeiros para a feitura deste carnaval de 2020, destacando a experimentação como a principal saída.

“Acredito que a principal solução é a experimentação, algo que a gente vem desenvolvendo desde os carnavais da Intendente. Nós começamos participando de um coletivo de carnavalescos na Mocidade Unida de Santa Marta no último grupo, desenvolvendo o carnaval de 2013 daquela escola, na época éramos sete autores do projeto e a regra para essas escolas que são historicamente abandonadas, e que não possuem verba alguma é experimentar, é a mão na massa, é ‘dar nó em pingo d’água’. Essa bagagem, experiência do modo de fazer, é mais do que conceber, mas entender cada etapa do processo, mediar as relações entre as diversas etapas é uma característica muito forte do nosso trabalho, de quem não tem medo de experimentar”.
Gabriel Haddad afirma que a dupla possui plena experiência com esse cenário de escassez de recursos, destaca ainda que o planejamento foi o principal foco deles nesse processo.

“A forma em que temos trabalhado aqui é uma forma muito parecida de quando nós trabalhamos na Cubango, nós não somos carnavalescos de ficarmos sentados na sala, esperando o carnaval acontecer, a gente circula muito pelo barracão e essa experiência que adquirimos no Grupo de Acesso acabou fazendo com que pudéssemos entender mais como funciona o processo de fazer um carnaval sem grana. Claro que aqui é outra estrutura, é Grupo Especial, aqui já temos uma verba boa da televisão, da venda dos ingressos que também entra, mas a nossa busca é fazer o carnaval com a subvenção mesmo já pensada, temos um limite de gastos e planejamos tudo pensando nisso e por isso também que a gente buscou preservar as estruturas de alegorias, porque o gasto para construir uma alegoria do zero é muito alto, buscar materiais alternativos também foi a saída, aqueles que não estão no circuito ‘oficial’ do carnaval, buscando baratear a produção de fato”, contou.
Conciliar os gostos diferentes para um mesmo enredo
Leonardo Bora destaca que no trabalho deles jamais haverá espaço para o medo de provocar, inovar e experimentar e que na verdade são marcas das carreiras de ambos.

“Há quem diga que a arte é provocação. A gente também gosta de provocar, de propor e dialogar com diferentes artistas e linguagens, dentro de uma mesma obra. A gente não tem medo desses diálogos, que às vezes parecem conflitantes para misturar essas linguagens dentro de uma mesma cenografia, por exemplo, de um mesmo carro alegórico, ou de uma mesma fantasia, bom, são experimentos. Às vezes dão certo, outras não, mas espero que sempre deem, mas é um movimento que parte desse nosso incômodo, dessa nossa postura de não se curvar a receitas prontas. Mais do que apresentar uma obra que seja simplesmente elogiada por todos porque é padronizada, presa a determinados padrões preestabelecidos na história do carnaval, a gente tenta ir além e propor outras discussões, soluções estéticas, formas de se pensar uma narrativa de enredo, e claro, isso demanda tempo, às vezes gera infinitas discussões e justificativas, mas é algo que a gente vem conseguindo realizar nesse nosso ainda curto histórico de trabalhos como carnavalescos”.
Ressalta ainda que essa postura não está sendo diferente na Grande Rio, que irá pisar na Avenida como uma nova estética.
“Aqui na Grande Rio não está sendo diferente, a gente está experimentando muito e todas as nossas alegorias dialogam e levam a nossa assinatura, mas propõe diálogos e apresentam técnicas de confecção bastante diferentes. Então é difícil mesmo mediar todas essas frentes de trabalho, mas é isso que dá um resultado bastante complexo. A gente não tem medo ‘daquela pedrinha que se mistura no feijão e pode quebrar um dente’ como dizia o poeta João Cabral Melo Neto, porque às vezes é essa pedrinha que desperta e que gera um encantamento que foge do comum. Então seguramente o nosso carnaval vai ter algumas soluções visuais que podem causar em um primeiro momento estranhamento, mas que são outras formas de se pensar os festejos carnavalescos, de se traduzir isso visualmente. E a gente espera que todos os diferentes públicos se deixem envolver por essa narrativa e compreendam esses diferentes momentos de um mesmo desfile”.

Gabriel Haddad completa pontuando que esta postura deles é marca de seus trabalhos e que essa evolução vem desde vários enredos realizados por todas as escolas em que passaram.
“Essa é a principal característica do nosso trabalho, de fazer um enredo que possa ser reconhecido na Avenida. Fizemos dois enredos na Acadêmicos do Cubango, no primeiro ano sobre o artista contemporâneo Arthur Bispo do Rosário e ali a gente questionava o como fazer com que as pessoas entendam a história dele e foi bem complicado. Buscamos primeiro não apresentar a obra dele de fato na Avenida, era então uma interpretação nossa, uma história que a gente estava contando sobre ele. E creio que isso facilita um pouco, a forma que nós buscamos criar as fantasias e alegorias, uma maneira que tanto o componente da escola quanto quem esteja vendo se envolva com aquele trabalho artístico, mas também se envolva emocionalmente, e essa é a forma em que conseguimos atingir todos os públicos presentes na Sapucaí. Temos que conversar com os jurados, com o público presente, com a comunidade que está desfilando, com a diretoria, onde a avaliação é constante, todo dia tem alguém avaliando o nosso trabalho, mas a avaliação final é só na Avenida, e é aquela magia do carnaval que envolve o desfile. Então esse acontecimento, essa emoção para o desfile, essa narrativa que a gente preparou está traduzida em fantasias e alegorias, que são o ponto principal que gera essa conexão”, afirmou.
Entenda o desfile:
A Grande Rio pisará na Avenida com cinco alegorias e três tripé. O que se viu foi um barracão bem ligado com a ancestralidade e a cultura do Candomblé. É uma nova estética para a escola, mas as alegorias, fantasias e adereços se interligam e traduzem a cara do enredo, raiz, sem o luxo mas com muita qualidade e cultura, de boas pinturas, detalhes e referências, o que é marca do trabalho dos carnavalescos. Leonardo Bora explica, setor por setor, a concepção e realização do desfile da escola.
Setor 1: “O nosso desfile começa com as raízes ancestrais de João da Gomeia, que nasce no interior da Bahia na cidade Inhambupe e que tinha visões que ele não compreendia, ao longo de toda a sua primeira infância, visões essas que se ‘materializavam’ durante a noite quando ele deitava uma rede, naquele balanço da rede e com a luz do lampiões ele via espectros dos vultos que não compreendia, se era um homem, um bicho ou um pássaro. Isso o próprio samba canta, o ‘era homem, era bicho-flor, bicho-homem, pena de pavão’ e era um chamado espiritual do caboclo da Pedra Preta que seria o guia dele até o final da vida, um chamado para a vida no candomblé, ele que estava predestinado a ser essa grande liderança que receberia o título de ‘rei do candomblé’. Então a abertura do desfile é essa noite mágica que traz toda a carga ancestral, todos esses mistérios que rodeavam a vida de um menino no interior da Bahia”.
Setor 2: “Teremos aqui o terreiro, João que migra para Salvador e lá é feito no santo, ou seja, é iniciado no candomblé do pai Jubiabá e que dá início a essa trajetória de grande líder religioso na Gomeia de São Caetano nos arredores da cidade de Salvador”.
Setor 3: “Do terreiro de Salvador a gente parte para Caxias onde ele traz toda essa bagagem para a baixada fluminense e replanta o seu axé ali, terreiro esse que se transformava em aldeia durante as grandes festas de caboclo. O candomblé de Joãozinho era bem polêmico pois era híbrido, já que reunia o culto aos orixás e as ‘inquices’ do candomblé de Angola com o culto aos caboclos. E as festas dedicadas aos caboclos eram extremamente fartas e exuberantes, que atraíam a intelectualidade, os artistas, a cena cultural da cidade do Rio de Janeiro que ia para Duque de Caxias participar desses festejos, que são descritos com bastante riqueza de detalhes tanto pela mãe GiselLe Cossard que foi iniciada por ele, como por escritores como José Cândido de Carvalho. Então a gente vai mostrar essa grande aldeia em que a Gomeia caxiense se transformava durante as festas de caboclo”.
Setor 4: “Do terreiro que se transforma em aldeia a gente parte para a rua. E mostra João da Gomeia enquanto grande agente carnavalesco, corpo indócil que participava das múltiplas manifestações carnavalescas da cidade do Rio de Janeiro, como os bailes de travestis, os concursos de fantasias e os desfiles de escolas de samba. Das ruas para os palcos, o João enquanto grande artista que cria um grupo de ballet afro com suas filhas de santo, que se apresenta em palcos importantes como o teatro João Caetano, Copacabana Palace, Cassino da Urca e que faz turnês por todo Brasil. E também como agente múltiplo, que recebia no seu terreiro, as personalidades mais importantes da cena artística, cultural e política brasileira. E as mais variadas histórias que envolvem esse personagem”.
Setor 5: “E por fim, o quilombo. A Gomeia enquanto espaço de resistência, intenso lugar de sociabilidade que a gente espera que reexista nesses tempos de recrudescimento dos preconceitos, da intolerância religiosa. Então a gente entende que a Gomeia foi um espaço dos mais plurais, que albergava as múltiplas manifestações culturais de Caxias, da capoeira, folia de reis e festa junina. Esperamos que toda essa energia rebrote nos tempos contemporâneos e que novamente o espírito de Joãozinho da Gomeia, esse espírito profundamente livre, com a ideia do revoar da liberdade, que a gente apresenta no último setor do desfile, que isso semeie tempos tolerantes, respeitosos, plurais e que diversidade seja uma pedra angular e não algo acessório”.
Eterna porta-bandeira Vilma Nascimento sofre acidente em São Paulo
O eterno cisne da passarela, a ex-porta-bandeira Vilma Nascimento, de 81 anos, sofreu um acidente em uma estação de metrô, em São Paulo, na tarde de sábado, e, terá que passar por uma cirurgia. A sambista, mãe da porta-bandeira do Paraíso do Tuiuti, Danielle Nascimento, está internada no Hospital das Clínicas.

Vilma e o neto, Bernard Nascimento, estavam na estação Butantã do metrô, quando um outro passageiro passou de forma abrupta com uma mala grande em cima dos pés da eterna porta-bandeira. Ela, então, perdeu o equilíbrio e caiu para frente, batendo com o rosto numa barra de ferro e sofrendo escoriações.
Após receber os primeiros cuidados no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), a sambista foi transferida para o Hospital das Clínicas, onde aguarda o resultado de novos exames para saber se precisará passar por uma cirurgia. Ela se encontra na enfermaria da unidade, lúcida, e na companhia de diversos familiares. A sambista havia ido à cidade para receber uma homenagem do bloco Doentes da Sapucaí, na Vila Mariana.
Entrevistão com Marquinho Marino: ‘Afirmo que tecnicamente a Mocidade disputa o título do Especial em 2020’
Imagine realizar o sonho de trabalhar na escola que você cresceu e da qual é torcedor? Essa é a rotina de Marquinho Marino, um sambista que passou por todos os estágios dentro da Mocidade Independente de Padre Miguel. Hoje com a responsabilidade de ser o comandante do projeto da escola, Marino recebeu o CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’.

Sincero, Marino confirma que estava fora da Mocidade após o desfile de 2019, mas garante que as coisas de fato mudaram. O dirigente, que já foi compositor de samba campeão na escola, revela o segredo das safras recentes na escola: “Não escolhemos samba por política”. Confira o papo com Marquinho Marino.
– Esses resultados da Mocidade passam diretamente pela sua chegada. Você concorda?
“Não concordo 100%. Fui uma peça que se encaixou na equipe. De 2016 para 2017 era praticamente o mesmo pessoal. Mas concordo que dei liga. Eu tive minha contribuição? Tive. Mas todos que estavam e ainda estão por aqui também tiveram”.
– Ser um independente te ajuda quanto no trabalho?
“Já trabalhei em outras agremiações e procurei entender a essência de cada uma. Cada escola tem uma cultura. O segredo é identificar isso. Não existe receita de bolo. Ser um torcedor da Mocidade, ter crescido aqui dentro, me ajuda 100% no meu trabalho”.
– E como é se relacionar com uma torcida tão participativa como é a da Mocidade?
“Para mim é natural, eu já conheço, sei de onde vêm as críticas construtivas e as negativas. Se você buscar agradar a todos, alguém você vi desagradar. Muitos gostam de mim, me viram desde criança. Outros nem tanto. Eu trabalho para a Mocidade, e é por ela que tenho que buscar objetivos. Alguém sempre vai ficar contrariado em algum momento, mas eu procuro abstrair e fazer o que acho que deve ser feito”.

– Que lição você tirou da crise que culminou com a saída do antigo casal e do ex-vice-presidente Rodrigo Pacheco?
“Toda empresa passa por mudanças. Daqui a pouco pode chegar a minha vez. É igual a um clube de futebol, que contrata e dispensa jogadores. As pessoas vão passar e a instituição fica. Natural”.
– Como está o Diogo depois de tanta rejeição na chegada dele?
“O Diogo quando veio eu tinha certeza de seu potencial. A Mocidade tem uma estrutura para os dois casais. Tem acompanhamento técnico, psicológico, físico. Sinto o Diogo bem tranquilo, todos merecem uma segunda chance. Com isso e talento a pessoa consegue. A forma com que ele saiu era natural a rejeição. Mas só quem estava aqui dentro conhece os reais motivos pelos quais o Diogo saiu da escola”.

– O que o Marino diretor de carnaval diria para o Marino compositor?
“Que hoje a Mocidade escolhe o melhor samba e tem consciência total da importância de um samba para o desfile. Escola que escolhe samba errado está fora da disputa. O compositor tem que buscar um diferencial pra vencer. O nível é alto. Política não pode escolher samba. 90% das mudanças na Mocidade nos últimos anos são graças aos sambas-enredo”.
– Qual o segredo do sucesso da ala de compositores da Mocidade?
“Quando cheguei em 2017 muita gente na escola me via ainda como um compositor. Na minha época eu era muito competitivo. Surgiu uma desconfiança inicial. Mas eu falei com cada um, mostrei que ganharia o melhor. Isso só se mostra fazendo. Após a escolha naquele ano todos passaram a ter respeito por mim. Cada ano ganhou uma parceria. Os compositores passaram a confiar no processo. De 2017 para cá, a cada ano a gente tinha mais opção de escolha. E tem que ser assim. Ganha o melhor para o carnaval”.
– O enredo ser a Elza traz um peso a mais de ser obrigado a ter um grande desfile?
“Ninguém me pressionou até hoje por conta disso. Tem que ser melhor por que é a Mocidade. Evidente que no torcedor tem um peso emocional. A Elza é uma personagem que mexe com o coração do componente, do independente. Tenho absoluta certeza que vai dar tudo certo. Afirmo que tecnicamente a Mocidade disputa o título”.

– Por que a Mocidade aceitou trocar com a Beija-Flor no sorteio?
“Primeiro que a Beija-Flor ganha quando fecha pois fez um trabalho para isso. Não é porque simplesmente fecha. Isso aí é balela. Historicamente para a Mocidade os Correios são uma opção melhor. Logisticamente interfere no projeto o lado de concentração. Assim como a Mangueira prefere o Balança. Nós nos sentimos à vontade daquele lado. Tenho o maior respeito pela Beija-Flor, mas será uma briga boa. A Mocidade não teme ninguém. Entramos na avenida para ganhar. Quem propôs a troca fomos nós. Podem até dizer que a culpa é minha”.
– Você quase saiu da Mocidade, o que te fez ficar?
“No sábado das campeãs de 2019 informei que não continuaria e cheguei a esvaziar a minha sala. Na semana seguinte o alto escalão da escola me chamou, chegamos a um acordo e eu segui. Sou um profissional e o lado torcedor precisa ficar de fora. Coloquei os pontos que me atrapalhavam e eles me garantiram que não se repetiria. Esse ano está tudo caminhando bem”.

