Fantasiadas de mães de santo, baianas abençoam desfile da Rocinha

Selma Geminiano, que fez sua estreia como baiana da escola, contou ao site CARNAVALESCO a emoção de homenagear a preta velha.
“Nosso enredo é uma homenagem a minha preta velha preferida, vovó Maria Conga. A fantasia leve, linda e gostosa é ótimo pra gente dançar muito”, explicou.
A saia era toda rendada, com filetes de palha envernizada no meio da barra. Sobre o ombro esquerdo, uma faixa branca e prata com um laço e búzios davam um toque diferencial no figurino. As senhoras da Rocinha ainda carregavam colares e pulseiras prateadas, dando um efeito semelhante a pérolas.
Em seu terceiro ano pela escola, Silvinha Poderosa contou a importância de Maria Conga.
“Maria Conga é uma grande preta velha da umbanda de Magé. Tem uma linda história que é importante e precisa ser contada. Então está sendo muito bem representada na Rocinha”.

“A baiana, ela é a mãe do samba, são as quituteiras dos barracões das escolas de samba, é uma ala muito importante. É muito gratificante desfilar numa escola como baiana”, acrescentou.
Maria Conga, alem de ter sido ‘a vó benzedeira, Preta Velha de Aruanda’, também é o nome de um Quilombo, que fica no município de Magé. O local foi reconhecido em 2007 pela Fundação Palmares como comunidade remanescente de quilombo.
Ziriguidum de Fernando Pinto nos “Elos da eternidade” da Ponte
Desfilando pela segunda vez na Unidos da Ponte, o casal Daniele Nascimento, 40 anos, e Heitor Nascimento, 41, vestia a fantasia “Fernando Pinto e o Ziriguidum pra lá do Século XXI”. Representando uma capacidade de pensar o futuro através do carnaval.
A fantasia era leve, permitindo que o componente brincasse carnaval com facilidade. A leitura clara, remetendo ao estilo desenvolvido por Fernando Pinto no desfile campeão na Mocidade Independente de Padre Miguel, em 1985. Os detalhes futuristas prateados eram homenagem aos artistas que, assim como o consagrado carnavalesco, trataram em suas obras as transformações. O capacete e a saia em forma de nave espacial eram feitos com material simples mas com bom acabamento. Cores cítricas reforçavam as referências ao desfile da escola da Zona Oeste.

Emocionado, Heitor declarou que seu amor pela ponte vem desde a adolescência.
“Estreei na escola no ano passado e agora não deixo mais de desfilar. O amor pela Ponte eu não consigo explicar, é como time de futebol”, explicou o morador da comunidade de São João de Meriti. Sua esposa Daniele ressaltou a leveza e beleza da fantasia.
“Deu pra evoluir muito bem pois a fantasia é bem leve. Nós desfilamos com muita garra”, contou.
Com muitos problemas no módulo visual, Barroca Zona Sul abre Grupo Especial de São Paulo sem brilho
Por Guilherme Ayupp. Fotos: Magaiver Fernandes
A Barroca Zona Sul foi a primeira agremiação desfilar na noite desta sexta-feira de carnaval no Sambódromo do Anhembi, abrindo os caminhos para as duas noites de apresentações do Grupo Especial de São Paulo. Vice-campeã do Acesso 1 em 2019, o Barroca apresentou-se com o enredo ‘Benguela… a Barroca clama a ti Tereza!’. A escola enfrentou problemas em seu módulo visual e encerrou seu desfile em cima do tempo máximo permitido, mas teve de lidar com uma caótica dispersão.
Retornando para o Grupo Especial 14 anos depois de sua passagem, a escola demonstrou ter uma estrutura distante das grandes escolas acostumadas à elite. Muito simples, esteve com um conjunto visual que não é característico de Grupo Especial. De positivo garra da comunidade que esteve muito bem no canto, impulsionados por um bom desempenho da bateria e do carro de som.
Comissão de Frente
Coreografada pelos profissionais Alê Batista e Thais Seixas, a comissão de frente da Barroca Zona Sul se apresentou intitulada ‘Do ventre das yabás, o nascimento de Tereza de Benguela’. O conceito da apresentação trazia um plano espiritual, habitado por orixás.Em dado momento, Obatalá convoca cinco yabás, onde cada uma delas entregava um pedaço de si para que fosse gerado o clamor na terra. No fim da apresentação cada orixá feminino entregou um sentimento que juntos formaram a figura de Tereza.
A comissão foi um dos pontos de maior interação com o público de todo o desfile. A defesa da apresentação disponível na pasta enviada pela escola à liga esteve condizente com o que foi mostrado nas torres de julgamento. O destaque ficou a cargo da finalização, com Tereza de Benguela flutuando no tripé, causando aplausos da plateia. Uma apresentação singela e emocionante.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal, Igor Sena e Lenita Magrini desfilou representando o orixá Oxossi, no caso do mestre-sala e a homenageada do enredo, Tereza de Benguela, no caso da porta-bandeira. A apresentação da dupla teve a intenção de mostrar o padroeiro da agremiação, que é Oxossi, enredo campeão em 2019. Ele conduziu Tereza em sua caminhada pelas matas de Mato Grosso, por conhecer os caminhos e mistérios da floresta.
Bela indumentária da dupla, que se apresentou com movimentos firmes e finalizações corretas. Também demonstraram grande entrosamento e o importante romance na troca de gestuais que confere toda a elegância ao quesito. AA exibição do pavilhão também se deu de forma correta.
Enredo
Para homenagear Tereza de Benguela, a Barroca Zona Sul iniciou seu enredo no plano espiritual, onde Obatalá convoca orixás femininas (Yabás) para que cada uma delas, através de um pedaço de si, gerasse Tereza. Com a ala de baianas representando pretas velhas e o primeiro casal personificando Oxóssi e a própria Tereza, a verde e rosa iniciou o desenvolvimento de seu tema. O sequenciamento do enredo se dá com a vinda de Tereza para o Brasil, onde hoje se encontra o estado do Mato Grosso. A rica natureza da região foi exibida através da segunda alegoria do desfile. Em seguida o desfile trouxe o Vale do Guaporé, onde Tereza conheceu indígenas, também escravizados. O Quilombo do Quariterê, fundado por Tereza e seu marido José Piolho, esteve representado no desfile. A homenageada se tornaria líder do Quilombo. A destruição do local pela Coroa Portuguesa pode ser vista representada no quarto carro da Barroca. A morte de Tereza, que se mata por não suportar a opressão, encerra a explanação do enredo. Através de outras figuras femininas negras, como Marielle Franco, a escola deixou a mensagem de que a heroína homenageada vive através do dia internacional da mulher negra, comemorado sempre em 25 de julho, data de sua morte.
A apresentação do enredo, de acordo com a pasta do quesito se deu de maneira coerente com a setorização de alas e alegorias defendidas. Os figurinos e carros estavam de fácil leitura, o que tornou os setores compreensíveis.
Alegorias e adereços
A Barroca Zona Sul passou pelo Sambódromo do Anhembi com cinco alegorias. O abre-alas, ‘Benguela. Nação de Angola. Mão África’ trazia o local de origem da homenageada, encerrando parte introdutória do enredo. O segundo carro, ‘Mato Grosso, um eldorado no coração do Brasil’ representou a região do Brasil para onde Tereza veio trazida, escravizada. O terceiro carro da Barroca representava o Quilombo do Quariterê, fundado por Tereza. ‘A destruição de um sonho’ foi a quarta alegoria do desfile, que trazia a destruição do Quilombo. Através do carro ‘Dia internacional da mulher negra’, a verde e rosa fechou seu desfile. O carro representou o legado de Tereza.
O primeiro carro tinha soluções estéticas com pouco apuro e uso de materiais excessivamente simples, tirando o brilho esperado de um abre-alas. Na terceira alegoria havia uma única escultura que estava desproporcional ao restante do carro, causando um desconforto no conjunto visual do carro em questão.
Fantasias
Através de cinco setores, a Barroca distribuiu suas 20 alas no afã de contar a história de uma das mulheres negras mais importantes de nossa história. Na introdução do desfile, vieram as baianas, que representaram as pretas velhas, com bênção e proteção. Localizada no segundo setor do desfile, mas como uma ala móvel, a bateria veio representando ‘o som, a fé e a coragem negra em plena floresta’. Os passistas representaram no desfile a Tereza como líder quilombola.
Tal qual o conjunto de alegorias, as fantasias, embora estivessem de fácil leitura, não receberam o apuro estético devido para o que se espera de um desfile do Grupo Especial. A ala de baianas estava com um indumentária muito simples. Destaque para a ala que veio à frente da terceira alegoria, que era bastante leve mas conseguiu boa reunião de materiais deixando boa impressão.
Samba-Enredo
No aspecto da adequação da letra ao enredo, conforme defendido na pasta o samba cumpriu seu papel corretamente. Além disso teve excelente rendimento na voz do intérprete Pixulé, estreante no Grupo Especial de São Paulo. A obra impulsionou o módulo musical da apresentação da Barroca e deixou ótima impressão na pista do Anhembi, comprovando ser uma das melhores obras do carnaval deste ano.
Evolução
Quesito problemático no desfile da Barroca. Embora alas estivessem soltas, sem organização militar e com componentes brincando bastante, houve diversas irregularidades. Quando as primeiras alegorias começaram a deixar a pista e alcançar a dispersão, a evolução se tornou muito lenta destoando do início do desfile. Após a chegada da última alegoria, a bateria precisou contornar o carro para conseguir deixar a pista. A dispersão se tornou uma pedra no sapato neste quesito.
Harmonia
Bom desempenho da harmonia no desfile da Barroca. As las cantaram o samba com muita garra e emoção, como pedia a obra. Após o abre-alas uma ala coreografada apresentou grande desempenho, fazendo sua coreografia com correção, sem deixar de cantar muito o samba-enredo. O desempenho dos componentes contagiou o público nas frisas e camarotes, que começaram a cantar junto. Destaque também para o entrosamento entre o carro de som e a bateria.
Bateria
Junto com comissão de frente, um dos pontos altos do desfile da Barroca. Cumprindo o que determina o manual do julgador para 2020, os comandados de Acerola de Angola deram um show de bossas e convenções. Em um determinado trecho da obra a bateria fazia um paradão para permitir o canto da escola. A entrada do recuo foi com uma convenção, bem em frente à torre de julgamento. Um show.
Unidos da Ponte leva Monalisa em uma de suas alas
Com o enredo “Elos da Eternidade” a Unidos da Ponte prestou homenagem ao pintor Leonardo da Vinci em uma de suas alas. Com acabamento primoroso, a roupa possuía diversos tons de azul e detalhes em dourado. Dando um ar de nobreza ao figurino. Os componentes traziam nas mãos um adereço que também era feito com bastante capricho, reproduzindo a famosa pintura “Monalisa”. Destaque para o chapéu feito com um material que lembra veludo, com forte contraste com o branco e dourado que compõem o visual.
Com 65 anos, Bebel Rosa desfilou na ala “O Sorriso de Monalisa”. A roupa representava o retrato da Gioconda, simbolizando as obras de artes que se tornaram eternas. Em conversa com o site CARNAVALESCO a desfilante explicou a importância da fantasia.

“Essa fantasia significa para mim a importância da arte. É uma roupa maravilhosa. Linda, leve, bem feita e com muito capricho. Não tem cola, é tudo costurado na máquina. Não tem nada despencando, nada espetando e nem arranhando. Dá pra sambar a vontade e o adereço é leve. Pra quem sabe sambar, nada atrapalha”, contou a foliã.

