Diz o manual do julgador da Liesa, à respeito do quesito enredo que a proposta do carnavalesco deve ser analisada mediante sua importância e relevância cultural no aspecto da concepção apresentada e se foi passada de forma clara, objetiva e coerente na avenida no subquesito da realização. Mas onde ocorrem as falhas mais comuns em enredo nos desfiles? É o que o site CARNAVALESCO busca responder com a série ‘De olho nos quesitos’, que aborda enredo nesta reportagem.De olho nos quesitos: o que os jurados mais puniram em enredo nos últimos cinco anos
Diz o manual do julgador da Liesa, à respeito do quesito enredo que a proposta do carnavalesco deve ser analisada mediante sua importância e relevância cultural no aspecto da concepção apresentada e se foi passada de forma clara, objetiva e coerente na avenida no subquesito da realização. Mas onde ocorrem as falhas mais comuns em enredo nos desfiles? É o que o site CARNAVALESCO busca responder com a série ‘De olho nos quesitos’, que aborda enredo nesta reportagem.Série Barracões: Vigário conta um conto e faz críticas ao Brasil atual
Por Diogo Sampaio
Depois de 21 anos longe do palco principal da festa, a Acadêmicos de Vigário Geral retorna para Marquês de Sapucaí no carnaval de 2020, com o enredo “O Conto do Vigário”, desenvolvido por uma comissão de carnaval, formada por Alexandre Costa, Lino Salles e Marcus do Val. A proposta da agremiação é questionar a história oficial, contada pelos livros didáticos e validada pela arte erudita, sobre o paraíso chamado Brasil. A ideia é entender o porquê do “país do futuro” nunca ter “dado certo”, além de retratar como o “jeitinho brasileiro” está presente em terras tupiniquins desde a sua suposta descoberta.

“A Vigário está quietinha, porque a gente acabou de chegar. Mas garanto que quando a galera ver a Vigário entrar na Avenida, vai se surpreender. Não espere a Vigário Geral de uma maneira fraquinha, indefesa. A gente vai pra cima, vai para brigar. Não vou te dizer para ganhar carnaval, afinal a gente tem deficiências ainda, como o dinheiro. Mas a gente vai surpreender bastante o público e os jurados. As nossas fantasias estão bem legais, os carros também. Esperamos que o povo nos receba de braços abertos”, antecipou Alexandre Costa para a reportagem do site CARNAVALESCO.
Os ‘Contos dos Vigários’
Responsáveis pelo desfile campeão da Série B no ano passado, a comissão integrada por Alexandre, Lino e Marcus tem uma longa história com a Vigário Geral, iniciada no ano de 2016, quando alcançaram o vice-campeonato da Série D com o enredo “Maracanã-Guaçu e o Ninho de Deuses”. No ano seguinte, já pela Série C, realizam um carnaval com a mesma temática do atual, intitulado “Contos do Vigário – Nasce um Trouxa a Cada Minuto”. Todavia, segundo os artistas, não haverá muitas semelhanças entre os dois trabalhos, que seguem abordagens e recortes diferentes.

“Nós já havíamos feito esse enredo em 2017, pela própria Vigário. Porém, a princípio, quem estava na escola era um outro carnavalesco e a gente chegou com essa proposta já escolhida. Então, estamos tentando levar para a Sapucaí agora com um outra cara, com uma nova roupagem. Até para não cair na mesmice do que a gente já fez. Estamos saindo para uma outra linha, que lá atrás, a gente até abordou um pouquinho, mas agora vai vir mais pesado, que é justamente a questão política da coisa”, relatou Costa.
Porém, se não bastasse essa comparação, a comissão ainda tem de lidar com outra. Antes mesmo de a Vigário Geral anunciar seu enredo para 2020, a São Clemente, que desfila pelo Grupo Especial, escolheu o mesmo tema para este ano. Novamente, de acordo com Alexandre, trata-se de interpretações diferentes sobre o mesmo assunto. Para ele, o caminho escolhido pela amarela e preta de Botafogo é mais similar ao trabalho deles de 2017 que ao atual.

“A gente não tem medo ou receio de comparações. Até porque, pelo que nós conversamos com o Jorge (Silveira, carnavalesco da São Clemente), eles estão indo na linha que a gente fez em 2017, mais histórica. Ele também vai abordar coisas contemporâneas, mas a gente está indo por uma linha diferente da dele. Claro, vai haver coisas que irão parecer. Não tem como não falar de alguns fatos da atualidade, mas a ideia é a gente fazer um enredo diferente do enredo dele”, assegurou Costa durante a entrevista.
Viés político
A proposta de um discurso mais politizado, adotada pela Vigário Geral principalmente em seu terceiro setor, entra em consenso com uma tendência da folia carioca nos últimos anos, dos chamados enredos críticos. Para Alexandre Costa, esse caminho que vem sendo seguido pelas escolas resgata o papel social e contestador da festa.
“Carnaval antigamente: como era feito? Se formava os grandes blocos, chamado de blocos dos sujos, que vinha marinheiro, pirata, baianas, e o grande lance eram as reivindicações, era brigar pelos direitos. Então, acho que com esse enredo também facilitou este trabalho. É isso que a gente quer. A gente quer mostrar um grande carnaval, mas a gente também que dizer que a gente é brasileiro, que a gente está aqui, que a gente existe e que nós estamos dispostos a lutar pelos nossos direitos”, afirmou.
Comissão de carnaval
Há 13 anos juntos, o trio de carnavalescos iniciou a parceria assinando a Colibri de Mesquita, pelo grupo de avaliação. Depois passaram pela Chatuba de Mesquita, Rosas de Ouro, até chegarem a Vigário Geral. Para a reportagem do site CARNAVALESCO, Alexandre Costa relatou como funciona esse trabalho em equipe, além de explicar qual o papel de cada um dentro do projeto.
“As tarefas são bem divididas. Na verdade, todo mundo faz tudo, mas cada um tem uma responsabilidade. Eu, por exemplo, faço mais as alegorias. Porém, é claro que já peguei em fantasia enquanto os carros estavam parados. Já o Lino Salles pega essa parte de fantasias, enquanto o Marcus mais a parte de historiador. É ele que escreve, ele que defende… Porém, não quer dizer que ele também não cole galão, não recorte uma gola. Todo mundo é de tudo um pouco”, explicou.
Dificuldades financeiras e estruturais
Com experiências por todas as divisões de carnaval da Intendente Magalhães, Alexandre contou que ele e os parceiros estão usando muito do repertório que adquiriram ao longo da trajetória juntos para conseguir colocar o carnaval deste ano na Avenida. Dentre diversas soluções encontradas, Alexandre Costa chamou a atenção para o uso de materiais reciclados, retirados literalmente do lixo.

“Nós estamos no verdadeiro ‘conto do vigário’, porque não temos um centavo. Estamos tendo que se ‘virar nos 30’. Mesmo assim, a gente está fazendo um trabalho bacana que eu acho que vai surpreender a galera. A gente está na crise? Estamos na crise. Mas a gente está buscando soluções bem alternativas. Nos carro alegóricos, por exemplo, eu procurei soluções que fossem mais acessíveis para gente poder fazer, porque não adianta a gente viajar na maionese, criar um coisa e depois não ter como elaborar, como construir. Mudamos várias vezes as concepções, trazendo materiais alternativos. Então, o pessoal vai ver nas fantasias, por exemplo, uma ala que foi toda feita, literalmente, com lixo do ateliê, restinhos que sobra de tecido e embuti lá latinha. A gente deu uma pintada na lata para poder disfarçar, para criar a fantasia. Grande parte delas, aliás, são de coisas que a gente reciclou”, explanou.
Se não bastasse a ausência de verba da Prefeitura do Rio, a Vigário Geral confecciona seu desfile em um barracão com estrutura extremamente precárias e até insalubres. A ausência de telhas no local, por exemplo, já fez com que a escola perdesse parte do trabalho devido aos estragos causados pela chuva.

“Estamos nos virando. Fez um solzinho, a gente tira os plásticos e vamos trabalhar. Começou a chover, tampa tudo e vamos forrar o que der. Então, eu tenho, por exemplo, pintura: não está chovendo? Vamos fazer pintura! Começou a chover? Para a pintura, cobre tudo. Aqui no meu barracão, existem partes que não tem telha. Então, quando chove, chove mesmo em cima dos carros. Tem que tomar muito cuidado porque se já está na decoração, pra não estragar, se já tem escultura, para não danificar. Enfim, é assim que a gente está se virando aqui. Vamos aguardar que Papai do Céu pare de mandar chuva, pare de mandar água, para que assim não tenhamos mais perdas ou atrasos”, desabafou Alexandre.
Entenda o desfile
Responsável por abrir os desfiles da Série A no carnaval 2020, a Acadêmicos de Vigário Geral irá para Marquês de Sapucaí com algo em torno de 1600 componentes, além de 23 alas, três alegorias e um tripé. O enredo “O Conto do Vigário” será apresentado através de três setores, como conta o carnavalesco Alexandre Costa, um dos membros da comissão.
Setor 1: “A gente começa contando a história desde lá dos primórdios, desde a coisa da colonização. Nosso primeiro setor vem todo nesta visão, contando como foi esses trâmites, como que, desde aquela época, já se caía no ‘conto do vigário’. Então, é o colonizador trocando as coisas com os índios, é o espelhinho em troca das riquezas naturais, enfim”.
Setor 2: “O segundo setor é mais escravo, é a parte afro do enredo. Nele, a gente questiona: Será que a liberdade foi realmente verdadeira? Será que não foi um conto também?”.
Setor 3: “O terceiro setor é o Brasil de hoje. A galera vai se identificar demais com esse setor, porque é o que a gente está vivendo todos os dias, no cotidiano. É essa crise toda, inclusive a do carnaval, que o público vai ver passar na Avenida”.
Série Barracões: Jack Vasconcelos diz que tem a responsabilidade de fazer um desfile épico na Mocidade
Por Victor Amancio
Levando para avenida o enredo mais esperado pelo torcedor da Mocidade Independente de Padre Miguel, Jack Vasconcellos apresentará na avenida a pluralidade e luta da vida e carreira da “Elza Deusa Soares”, título do enredo. Em visita do site CARNAVALESCO ao barracão da agremiação, Jack contou que, por mais que seja uma figura pública, descobriu uma Elza diversa e que poderia fazer uma trilogia sobre a cantora. Recém chegado na agremiação, Jack segura a responsabilidade de fazer o desfile mais esperado pela comunidade da Vila Vintém. Ele diz que pretende fazer um desfile épico e que para ele ser enredo é o ápice da homenagem para qualquer artista.
“Tenho a responsabilidade de fazer um desfile épico. Estou fazendo um desfile que será definitivo. Elza tem a biografia escrita, tem filme e agora terá um desfile de escola de samba. Para mim, o ápice de homenagem a qualquer artista brasileiro é ter um desfile onde se concentra todas as formas de expressão popular de arte do Brasil em um único espetáculo. É a homenagem mais importante para um artista. Elza terá”.

Sobre a pesquisa, Jack fala que encontrou uma Elza com diversas faces, mas que é preciso ter um cuidado para não se perder em meio a tantas informações e não dizer ao que veio.
“Quando eu comecei a pesquisa, me deparei com uma Elza de várias faces. Ela tem várias passagens da vida, são muitas experiências que eu poderia agrupar que daria uma história com começo, meio e fim tranquilamente. É o fator mais importante do enredo. Por vezes um enredo que se abre muito acaba virando um tema que não se dá conta, e a gente não diz ao que veio e não explica nada. Todo enredo precisa de um começo, de um meio e um fim. Um dos motivos para eu aceitar o convite para fazer o carnaval da Mocidade foi justamente a Elza Soares, já saber que seria uma homenagem para ela. Engraçado é que a gente acha, por conhecer a Elza e ela ser uma figura pública, que já a conhece. Quando comecei a ler sobre ela, estudar, ouvi-la a gente descobre que ainda tem um monte de Elza’s que dariam uma trilogia na avenida, tranquilamente, sem se repetir”.

Jack fala que durante sua pesquisa o que mais chamou a sua atenção foi a Elza dona de si. Ele explica que essa mulher passional o inspirou e esse sentimento será traduzido no seu trabalho.
“Dentro da pesquisa, o que saltou meus olhos foi a questão da Elza ser dona da vida dela, até mesmo quando ela se entrega. Dá para ver nitidamente que a Elza é uma mulher de coração em primeiro plano, ela segue a intuição dela, vai no que ela acredita. Por mais que em alguns momentos pareçam que sejam uma borrada, ela vai lá e no final ela estava certa. Foi muito bom ver essa personagem passional pois, esse sentimento, passa na história e para mim como artista e criador, vai passar na cor, nas formas. Ela é uma pessoa forte, que luta, foge das mocinhas clássicas de romance. Eu acredito que será um desfile que tem uma teatralidade, há algo de épico envolvendo tudo. Não será um desfile que terá o belo pelo belo, por exemplo. Será um desfile dramático em todos os sentidos que esta palavra pode ter. Esse é o trunfo do enredo e que acaba passando para o desfile como um todo. Eu não costumo pensar em efeitos, em abrir ou fechar uma traquitana, penso no que eu preciso fazer ou montar para que as pessoas entendam a mensagem naquela parte. Esse enredo acaba me levando novamente para o teatro, que é uma área que eu já trabalhei, tem muito disso, a coisa carregada da emoção teatral no desfile”.

Sobre estética e luxo o carnavalesco diz que o mais importante para o enredo e o desfile não precisa de luxo ou algum tipo de material, somente precisa que a história seja entendida e atinja a todos.
“Primeiro temos que pensar no que precisamos para o enredo ser entendido, daí já tira um monte de carga ou pressões, de ser luxo, por exemplo. Não tem que ser nada, tem que ser o que a história precisa para ser entendida. Eu fui enveredando para um lado mais teatral e isso já me tirou muitas responsabilidades de materiais clássicos de carnaval. Experimentamos muita coisa e o que temos a favor é o histórico de vanguarda da Mocidade em relação ao desfile. Não sei dizer se isso andava sendo deixado de lado mas eu consigo enxergar um desfile com uma cara jovem, uma cara vanguardista que eu por exemplo tenho formação do que eu vi na década de 80 e 90 na escola. São essas minhas referências de Mocidade e acho que essa cara meio que foi atualizada, será uma escola muito contemporânea”.

Jack explica que não é chegado em fazer homenagens, mas que Elza tem um por que forte para ser homenageada e que irá retratar a história de luta e sobrevivência dela.
“Elza Soares ela tem uma história de vida de muita luta e sobrevivência, não tem como deixar de lado certos assuntos quando você trata da vida dela. Ela nos deu vários exemplos de como o pobre, a mulher, as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade podem ser vistas, podem sobreviver. Ela foi usando a arte dela a favor dessas lutas, é um enredo que vai andar por esse sítio. Nossa homenageada tem um comportamento político mas é apartidário, ela tem o ativismo em cima das causas sociais principalmente, desde cedo, não foi algo de agora. Isso estará presente no desfile e me deixou à vontade de fazer o tema, eu fico com mais vontade de fazer as coisas. Eu particularmente não sou chegado a homenagem, acho que tem que ter um por que forte e a história de vida da Elza justifica isso e eu vejo meu trabalho dentro dessa história várias vezes”.
Sobre o contato com a cantora, Jack revela que ela fez um único pedido:
“Elza só me fez um pedido que foi homenagear os professores no desfile. E no final do desfile vamos fazer isso através da ala dos compositores que adoraram a ideia”.
Falando sobre os enredos da Mocidade que Jack gostaria de ter feito, ele indica dois que para ele são primordiais.

“Mocidade tem dois enredos e consequentemente artisticamente falando que são ao meu ver definitivos e primordiais que são ‘Ziriguidum’ e ‘Tupinicópolis’, para mim são os dois enredos que qualquer carnavalesco gostaria de ter feito e incrivelmente são atuais. São os meus prediletos”.
Durante o pré-carnaval espalhasse boatos e a Mocidade se depara com dois distintos. Um lado diz que a escola passa por dificuldade financeira e o barracão está atrasado, do outro lado, que a escola está muito bem financeiramente e com o cronograma. Em sua fala o carnavalesco pede para que esperem o desfile.
“Eu digo para os torcedores e apaixonados pela Mocidade esperarem o dia do desfile para verem quem tem razão, se é quem diz que estamos atrasados ou que tudo está fluindo dentro do planejado”.
Entenda o desfile:
A Mocidade Independente de Padre Miguel contará o enredo “Elza Deusa Soares” através de cinco alegorias, com o abre-alas acoplado, e dois tripés, sendo um da comissão de frente. O carnavalesco explica que prefere que o público preste atenção no todo ao invés de setorizar pois acredita fechar a ideia do enredo mas explicou para o site CARNAVALESCO os caminhos do enredo.

“Eu prefiro que as pessoas prestem atenção no desenvolvimento da história, mais do que fatiado por setor pois acho isso triste e acaba fechando muito a ideia do enredo. Eu acho que é uma história que vai continuando e vai se desenvolvendo”.
Ele explica que a abertura do desfile se dá com Elza ainda menina que acontece no programa de rádio de Ari Barroso, quando dá aquela resposta histórica para o apresentador.
Setor 1: “Eles vão ver aquela criança, aquela menina que nasceu na Moça Bonita, que foi criada na Água Santa e que teve seu histórico de vida infantil de muito trabalho mas que acontece num programa de rádio onde ela dá aquela resposta para o Ari Barroso, que tentou diminui-la. Ela responde para ele que veio do Planeta Fome e ele decreta “Senhoras e senhores, nasce uma estrela. Desse início a gente vai contando como essa menina vai ganhando as capas, as experiências para se tornar essa Deusa do final do desfile”.
Setor 2: “Passamos pela Elza feiticeira, mística, religiosa do jeito dela”.
Setor 3: “Elza cantora da noite, cantora de rádio a grande artista vendedora de discos, madrinha da seleção, cantando com as grandes estrelas do mundo”.
Setor 4: “Elza pioneira puxando samba enredo”.
Setor 5: “Elza enfrentando todos os problemas e obstáculos que ela passou. O grande encerramento que é essa deusa que fala pelos excluídos e essas pessoas que precisam de representatividade. Essa grande deusa que partiu do Planeta Fome, que saiu de uma situação severa mas que agora através da sua arte consegue oferecer um grande banquete para quem tem fome de justiça, educação e etc”.
Série Barracões: Unidos de Padre Miguel aposta na ginga da capoeira para sair vencedora na Série A
Por Diogo Sampaio
É esporte, é arte, é dança, é música, é luta. Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, nasceu em solo brasileiro, mas traz nas raízes a herança africana. A capoeira é uma das mais genuínas expressões de brasilidade e resistência. Vice-campeã da Série A em três dos últimos cinco carnavais, a Unidos de Padre Miguel abre a roda para cultura brasileira, querendo mostrar todo seu gingado, com o objetivo de alcançar o tão sonhado título.
A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da vermelha e branca da Vila Vintém e conversou com o carnavalesco Fábio Ricardo, que explicou como surgiu o enredo da UPM para o carnaval de 2020.

“Dentro de tantas pesquisas que eu já tinha feito, veio a ideia de falar sobre a capoeira. Juntamente comigo, um amigo meu, Wilson, um curador de arte, complementou: e por que não gingar? A capoeira foi pano de fundo para muitos enredos, por que não aproveitar esse momento que nós estamos passando, de resistência, e o dela, de muita resistência a preconceitos durante a sua trajetória, desde a sua chegada ao Brasil? E por que não ser representada hoje como um grande enredo, uma grande personalidade que é da nossa cultura?”, indagou o artista.
No entanto, o enredo sobre a história da capoeira não foi a primeira opção. Inicialmente, em abril do ano passado, a Unidos de Padre Miguel lançou “Quem somos nós, Tarsila?”, em homenagem a pintora modernista Tarsila do Amaral. Porém, em junho, resolveu mudar de proposta e anunciou “Ginga”. Na ocasião, a agremiação alegou como justificativa para decisão o “atual cenário do carnaval carioca”.

“Como todo o mundo do carnaval já me conhece, principalmente, as pessoas mais próximas, sabem da minha grande paixão e o meu esmero sobre a grande artista Tarsila do Amaral. Sou um grande admirador. Eu sempre dei pinceladas, dentro da minha arte, absorvendo muito da Tarsila, seja nas cores, nas formas, eu sempre admirei, então sempre pesquisei. Saía exposição dela, eu estava presente. E há muito tempo já tinha vontade de fazer Tarsila, mesmo sabendo que ela já havia sido pincelada algumas vezes pela grande mestre e professora Rosa Magalhães. E aí, voltando com a UPM, porque não fazer Tarsila? Sendo que dentro do processo, pois já havia lançado esse (da Tarsila), apareceram novas normas dentro a Lierj. Já estava com o enredo praticamente montado com quatro a cinco setores, dividindo até com tripé, veio a norma dizendo que haviam tirado mais uma alegoria. Ou seja, se já estava difícil contar a história de Tarsila com quatro setores, quatro alegorias, imagine com três setores. Eu falei para eu mesmo: ‘Não, não posso estragar uma coisa que eu estudei quase minha vida toda de carnaval, desde quando eu era (assistente) do Max, pesquisando sobre Tarsila, acompanhando as coisa, não posso jogar, fazer um enredo com três setores e não falar do que ela realmente merece’. E aí, foi engraçado porque já tinha sido muito bem aceito pela escola e pela imprensa. Na época, a escola me fez a seguinte pergunta: ‘Fábio, qual o outro enredo que seria para superar esse?’. E me veio à cabeça que a escola já tinha um histórico de enredos afro,resolvi agradar a todos. Mas também não queria fazer um enredo afro, por fazer um enredo afro. Não queria um enredo que todo mundo já conhecesse ou acabasse batendo na mesma tecla. E porque não a capoeira? Aí surgiu a ‘Ginga’, que é a capoeira. Eu tinha outros enredos afro, como eu tenho muitas coisas bem legais, que eu descobri durante o ano em que fiquei ausente. Visitei muito aquele museu africano brasileiro que tem lá no Ibirapuera, em São Paulo. Só de lá, você tira uns dez enredos afro. Coisas que eu não sabia, uma delas foi a capoeira. Portanto, deixa a Tarsila guardada, ninguém pega porque o enredo é meu. Vai surgir um bom momento para ela aparecer novamente”, explicou Fábio.
Retornos em meio a dificuldades
Após passar um ano sabático longe da festa, Fábio Ricardo retorna justamente no grupo em que iniciou sua trajetória como carnavalesco. Foi através dos seus trabalhos a frente da Rocinha, entre os anos de 2008 a 2010, que o artista chamou a atenção de crítica e público, ganhando a oportunidade, em 2011, de debutar no Grupo Especial. Na elite, Fábio assinou carnavais na São Clemente, na Grande Rio e no Império Serrano. Para a reportagem do site CARNAVALESCO, Fábio Ricardo relatou sobre a experiência que está vivenciando ao voltar para “às origens” dez anos depois.

“Digo que não tem muita diferença, porque o meu amor pelo carnaval continua o mesmo. Acho que a única mudança nisso tudo é a minha maturidade. Na época que assumi a Rocinha, eu estava saindo de um processo e nunca imaginei que seria convidado para ser carnavalesco. Fui figurinista, aderecista e assessor do Max (Lopes, carnavalesco) por dez anos, trabalhei com João Trinta quatro, também na equipe de criação, mas nunca imaginei. E eu estava ou era um pouco mais tímido, mais reservado, mais contido, porém na arte e no bom gosto continuo o mesmo. Acho que durante esse processo todo de 2008, ano do meu primeiro carnaval solo, para cá, em 2020, ganhei maturidade em tudo, até em estética. Você acaba, dentro desse tempo, buscando a sua identidade, mesmo eu já tendo ela lá em 2008. As pessoas olharem seu trabalho e reconhecerem que ‘aquele é o Fábio Ricardo’, não tem preço. Não é olhar um trabalho e dizer assim: ‘De quem é esse trabalho? Parece com beltrano…’. Não, aquele é o Fábio Ricardo, isso é muito bom, ser reconhecido. Então, volto só com gostinho de quero mais, de ‘ah, que gostoso fazer’, sentar para colar as coisas, conversar no barracão… Isso que chamo de estar feliz no local de trabalho e retornar bem”, declarou.
Fábio retorna a divisão de acesso à elite em um cenário de profunda crise. Além da falta de estrutura já habitual do grupo, as escolas que compõem a Série A sofrem este ano os ônus do corte completo do repasse de verbas da Prefeitura do Rio. Sem essa subvenção, os profissionais e seus respectivos pavilhões têm de recorrer as mais diversas soluções criativas e alternativas para conseguir colocar um carnaval na Avenida.
“Já vim preparado para a Série A, sabendo que eu ia enfrentar todas essas dificuldades. Só que acabou que na minha época anterior aqui, não era tão difícil quanto é hoje. Em vez de melhorar, a forma de olhar para o grupo de acesso acabou piorando. É cada vez mais necessário usar sua criatividade naquilo que puder. Eu sei que tem hora que não dá mais para usar a criatividade, mas é preciso empregar certos tipos de recurso para você lá na frente não sofrer. É não inventar aquilo que vai te dar dor de cabeça. É exatamente essa a fórmula que o grupo de acesso faz. Não só eu ou só alguns, é de uma forma geral. O tempo de você agilizar as coisas é dar solução e não procurar problemas, usando a sua criatividade, botando para fora tudo o que você aprendeu. Isso, graças a Deus, dentro da minha experiência no carnaval, valeu os muitos anos trabalhando com pessoas, com mestres, que tinham poder de criatividade. Quando não tinha uma coisa, vai outra, tem de ser rápido”, analisou.

E mesmo diante das dificuldades, Fábio Ricardo garante que a Unidos de Padre Miguel irá manter o padrão de desfiles grandiosos e opolulentos dos últimos anos, mas sem ostentar materiais caros ou luxuosos. Para ele, é fundamental que qualquer carnavalesco que chega a uma nova agremiação respeite a identidade e as características estéticas daquela escola, sem querer impor seu próprio estilo, contudo colocando toques dele no trabalho.
“Sou um carnavalesco que, estando em uma agremiação, respeito muito o tipo de carnaval que ela gosta de fazer. Passei por grandes escolas na minha carreira, sempre estudando e vendo a melhor forma de eu conseguir adaptar a minha arte para elas. Porque é muito ruim você tirar a identidade da escola. Acaba ficando triste para todos os lados: da escola, do folião que desfila nela, do carnavalesco… Então, posso garantir que a escola realmente vem com estrutura de Grupo Especial. Quando divulguei os protótipos das fantasias deste ano, recebi muitos elogios pela crítica como: ‘Fábio, você está fazendo fantasias de Grupo Especial’ ou ‘Está melhor que muita escola aí do Grupo Especial’. O que eu fiz? Não tem fantasia minha cara, porque eu soube trabalhar com materiais acessíveis. É o que falo: bom gosto para fazer, às vezes menos é mais”, ressaltou.
Prevenção à chuva
Outra preocupação do artista é a precaução com uma possível chuva. Ano passado, a Unidos de Padre Miguel enfrentou um forte temporal na concentração, que foi responsável por danificar fantasias e alegorias. Todavia, de acordo com Fábio, esse cuidado já é feito há longa data em seu trabalho.
“Eu já peguei chuva na Avenida. E muita chuva! No meu primeiro ano na Rocinha, em 2008, antes de entrar, peguei um temporal, mas garanto: não caiu nada. Por quê? Porque você quando está fazendo a sua fantasia, a sua alegoria, já tem ciência, pela experiência que já teve de outros carnavais, de saber o que você pode levar para a Avenida para não te causar dor de cabeça. É você estudar antes de fazer qualquer coisa. Então por eu ter, graças a Deus, essa experiência de Avenida, dessas coisas todas, a gente acaba se calçando: isso funciona, isso não funciona, isso é demais, não vou colocar porque pode chover, porque ninguém está livre disso… Peço a Deus que não chova no meu dia de desfile, e nem no dos colegas também, pois é triste pra todo mundo”, afirmou.
Entenda o desfile
No carnaval 2020, a Unidos de Padre Miguel irá para Marquês de Sapucaí com 21 alas, três alegorias (sendo o abre-alas acoplado) e um tripé. O boi vermelho da Vila Vintém será a sexta e penúltima agremiação no sábado de carnaval, segundo dia de desfiles da Série A. Para a reportagem do site CARNAVALESCO, Fábio Ricardo explicou em detalhes acerca da setorização do enredo “Ginga”:
Setor 1: “O primeiro setor é o nascimento da capoeira, no sul da África, na tribo Mockup. A gente pega um pouco dessa estrutura de civilização, o quê era a tribo Mockup, como essa tribo funcionava, para saber o porque dessa grande efundula que eles faziam, que era o ritual da puberdade. É daí que eles tiram esses movimentos da capoeira, que são da natureza. Nesse mesmo setor, a gente usa da criatividade e da licença poética para fazer a transição para a chegada da capoeira junto com os negros aqui no Brasil, onde todas as tribos da África e nações diferentes se misturaram. O nosso abre-alas é o primeiro porto, que é o Cais do Valongo, local em que desembarcavam os negros. Dentro das minhas pesquisas, o primeiro movimento, a primeira imagem que nós temos da capoeira no Brasil, que só se chamava N’golo até o século XVII, foi de uma pintura feita por Debret e Rugendas no porto do Cais do Valongo. Tem até na nossa sinopse que, embora o Cais esteja manchado de sangue, nós trazemos a esperança. Atrás disso tudo, do Cais do Valongo, dessa atmosfera toda que é pitoresca, eles trazem na alma a África. Os apaixonados pela UPM vão sentir o que é essa grande fortaleza que esse negros trazem”.
Setor 2: “É um setor forte em que a gente já retrata a capoeira na Bahia, onde ela é muito vista, muito bem valorizada, apesar das resistências, da discriminação e da marginalização. A capoeira acaba se inserindo, dentro desse contexto, nas tradições da Bahia com os festejos, as festas religiosas, as casas de candomblé. Ela se divide em algumas casas e cultos, principalmente de Angola, e depois vai para outro festejo, que é a festa dos caboclos da Bahia. E poucos sabem que o nome capoeira vem da língua tupi-guarani e que significa mato ralo, rasteiro. Há algumas coisas de pesquisa que eu fiz onde tem “Mata do Capoeirão”. E porque? Porque era por onde os escravos fugiam, iam para a “capoeira” e quando eram encontrados a defesa deles era essa arte”.
Setor 3: “E aí tem o nosso último setor, que é a resistência que é a capoeira. Grandes personalidades da história brasileira jogaram e estarão presentes ali, representando juntamente com a capoeira, esse gingado que todos tivemos e essa resistência. Principalmente a Unidos de Padre Miguel, que passa por essa resistência hoje, no mundo do carnaval”.
Sambistas ganham identidade social das mãos de Wilson Witzel em cerimônia no Palácio Guanabara
Por Victor Amancio
Ouvir nomes como Osvaldo Alves Pereira, Iranette Ferreira Barcellos, Luiz Antônio Feliciano Marcondes, Selma de Mattos Rocha e Jomar Casemiro pode causar estranhamento aos sambistas, mas sem dúvida todo sambista conhece Noca da Portela, Tia Surica, Neguinho da Beija-Flor, Selminha Sorriso e Jô Casemiro. Nesta quarta-feira, em cerimônia no Palácio Guanabara, o Detran, em parceria com o Governo do Estado, entregou a sambistas como: Índio da Mangueira, Bira da Mangueira, Ronaldo Mestre Cartola Filho e Roberta Mestre Cartola Neto a identidade social com os nomes que são reconhecidos dentro e fora do mundo do samba.

Durante a cerimônia o presidente do Detran, Antonio Carlos dos Santos, discursou e falou da importância do reconhecimento destes sambistas e do carnaval.
“Este momento marca a inclusão e o reconhecimento social de grandes nomes do samba. O Detran deixa de ser um órgão de regulação de trânsito, aplicação de multas para iniciar uma etapa de socialização do órgão. É um prazer participar deste momento, por essas pessoas que são fundamentais para cultura Fluminense. Hoje consolidamos a identidade dessas pessoas”, falou o presidente.

Completando 53 anos, o governador Wilson Witzel esteve presente na cerimônia, entregou os documentos aos sambistas, sambou e se emocionou ao falar sobre sua relação com o carnaval. O governador disse que investir no carnaval é investir na cultura, na educação da cidade e que os sambistas formam cidadãos.
“O carnaval é cultura, é educação e a gente investe porque acredita, ama e vivemos o carnaval. Estar aqui no dia do meu aniversário, no meio do samba, faz esse dia ser ainda mais especial. Essa iniciativa reconhece a história que todos vocês construíram”.

Tia Surica em seu discurso falou da importância de receber a honraria enquanto está viva. Para a matriarca é a consolidação de uma identidade que recebeu ainda quando criança de sua avó.
“Quem quiser fazer por mim que faça agora. É uma satisfação muito grande, vou fazer 80 anos e agora ganhando esse reconhecimento. Fico lisonjeada com essa homenagem. Eu sou chamada assim desde que nasci, diziam os antigos que Suriquinha era um objeto curto e roliço e minha vó bordou uma fronha e de lá pra cá pegou, ficou consagrado Tia Surica”.

Uma das maiores porta-bandeira da história do carnaval também ganhou a sua identidade social que diz estar feliz com o reconhecimento.
“Agora é Selminha Sorriso oficial, é um privilegio não só para mim mas representar o samba. Ser reconhecida pelo nome artístico de uma cultura que muito tempo foi massacrada e perseguida e que ainda sofre alguns desmandos. Nós estamos vencendo e vamos vencer muito mais. Sambista é sinônimo de dignidade”.
Site CARNAVALESCO e Guaracamp distribuem em Madureira ingressos para os desfiles da Série A
Por Gabriella Souza
O sambista está onde o povo está! Para celebrar mais um ano da parceria, o site CARNAVALESCO junto com a Guaracamp, realizaram na tarde desta quarta-feira, a sua tradicional distribuição de ingressos para os desfiles da Série A, na rua Conselheiro Galvão. De baixo do pujante sol de Madureira, um dos bairros mais sambísticos da cidade, os ingressos voaram em meia hora. Entre sorrisos largos, olhares surpresos, agradecimentos, euforia e o Guaracamp na mão, a ação mostrou que o carioca sempre estará em clima de carnaval e já pronto para festejá-lo.

Quem passava em frente a loja não resistia em parar e sair com seu ingresso e Guaracamp na mão. O público agraciado foi diverso, eram ambulantes, donas de casa, motoristas de ônibus e até os passageiros de uma van pararam na porta da loja para receber. A reportagem do site CARNAVALESCO ouviu alguns desses populares acerca do que acharam da ação e de ganharem os ingressos para a Marquês de Sapucaí.

Wagner, 32 anos, pintor, mas atua hoje como ambulante nas ruas do Rio, declarou seu amor ao carnaval e agradeceu o ingresso que já estava desejando obter.

“Carnaval para mim é uma festa que fala muito da cultura do nosso do Brasil e principalmente do Rio de Janeiro,eu amo carnaval. Quase todo ano, sempre que posso, marco presença na Marquês de Sapucaí. Eu trabalho como ambulante e estava mesmo precisando de um ingresso para entrar, fiquei preocupado porque já está perto e veio isso hoje, que graças a vocês vou poder estar lá na sexta e no sábado trabalhando e curtindo essa grande festa”, contou.
Artur, 19 anos é ajudante comercial, nascido na Paraíba, chegou ao Rio de Janeiro mas ainda não teve a experiência de curtir o carnaval da cidade. Falou que essa será sua grande oportunidade de ver a festa de perto e que agora ficou muito mais animado e ansioso.

“Eu vou com certeza, vai ser a minha primeira vez na Sapucaí e espero que seja ótimo, todo mundo aqui me conta o quanto é bonito, vou pular muito esse carnaval e com certeza vou amar aquele espetáculo. Eu vim da Paraíba, vou curtir esse carnaval aqui no Rio de Janeiro, estou muito animado e agora ainda mais. E Deus quiser vou ano que vem e nos outros, vai ser tudo de bom”, declarou o animado jovem.

Bruno Leonardo, supervisor das lojas Guaracamp, ressaltou a relevância da parceria que trará benefícios para todas as partes. Disse estar animado com o carnaval e que levará também seus funcionários para prestigiar a festa.

“A parceria está sendo fantástica e a gente espera cada mais com isso trazer tanto mais clientes para nossa loja como mais foliões para nosso o carnaval. Simplesmente já é carnaval, só ver esse povo aqui hoje em Madureira. Com certeza eu e toda a minha equipe estaremos lá na Sapucaí, não perco nunca e sábado estaremos lá representando a empresa e prestigiando essa festa”, ressaltou Bruno.
João Vitor, estudante de 14 anos, disse que é sambista e não perde nada das escolas de samba, acompanhando sempre o site CARNAVALESCO. Se disse feliz em poder acompanhar os desfiles de perto.

“Todo ano eu acompanho carnaval, saio de bate-bola e não perco nada das escolas de samba, estou sempre acompanhando o site de vocês também. Fui domingo no ensaio da Mangueira no Sambódromo, o ano inteiro escuto samba enredo, sei todos e poder estar lá para ver de perto vai ser uma felicidade”, disse o jovem sambista.
Passando com pressa pelas ruas do bairro, Ana, de 28 anos, e dona de casa arregalou olhos quando ouviu ser anunciado que estavam distribuindo ingressos para o desfile. Correu para pegar e com um sorriso no rosto afirmou que não irá perder essa oportunidade.

“Já fui para o Sambódromo, fiquei muito animada aqui quando ele falou que estavam distribuindo ingresso porque adoro e sempre acompanho. Não vou perder de jeito nenhum”, contou enquanto apressava o passo para não se atrasar para o compromisso.
O mais empolgado foi o ambulante Fabrício, de 28 anos, que com os ingressos na mão começou a chamar as pessoas que passavam na rua para também receberemos ingressos.

“Carnaval é muito maneiro não é? Tudo de bom, povo gosta! Já fui para o Sambódromo e é um show, todo mundo tem que ir, não vai se arrepender. Esse ano minha presença agora já está garantida, pode ter certeza que vou com minha família e amigos”.
‘Entrevistão’: Lucinha Nobre abre o coração e fala da relação com Dudu Nobre, a Mocidade e a Portela
Por Victor Amancio
Veterana entre as portas-bandeiras, Lucinha Nobre é um dos grandes nomes do quesito. Passando por escolas como Mocidade e Unidos da Tijuca, hoje, a porta-bandeira defende as cores azul e branco de Madureira, lugar em que ela pretende seguir até o fim de sua carreira. Referência e precursora da técnica do bailado de casal, Lucinha coleciona notas máximas e segue fazendo um grandes carnavais. A porta-bandeira conversou com a reportagem do site CARNAVALESCO para a série ‘Entrevistão’ e falou do seu amor pela Portela, sua relação com a Mocidade e sobre os grandes carnavais de sua trajetória.

Você tem um faro impressionante para descobrir talentos. O Marlon já é uma realidade?
“Eu acho que o Marlon está numa crescente surpreendente, a maturidade dele está chegando muito rápido e acredito que seja por conta da grande responsabilidade. Ele está se saindo muito bem, fico feliz por ele, não somente pelo profissional mas pelo ser humano também devido as coisas que ele passou no início, se saindo muito bem, os lugares onde ele está conseguindo chegar com respeito e tranquilidade. Não é fácil mudar o curso da vida, ele veio de São Paulo, mudou a vida inteira para buscar um sonho e graças a Deus deu tudo certo, está dando, nesses 4 anos juntos. Estou muito feliz com o desenvolvimento dele pessoal e profissional”.
Embora você tenha começado em outra escola você criou uma identificação enorme com a Portela. Pretende encerrar a carreira na escola?
“Com certeza! Eu sei que não podemos fazer planos muito além, pois não é a gente que decide. O que eu posso dizer hoje é que me sinto muito bem aqui, é uma escola que aprendi a amar, é um lugar onde eu sempre tive vontade de voltar, todo mundo sabe, e aconteceu, fui convidada num momento muito bonito da escola, cheguei para comemorar um título. Fico muito honrada de ter ganho essa alegria e oportunidade”.

Mais de 20 anos depois como você vê aquele desfile na Mocidade onde você passou o desfile praticamente inteiro na ponta do pé?
“Eu gosto, de vez em quando eu assisto. Esses dia assisti uma entrevista do Jornal Nacional em que a gente falando sobre. Eu acho que foi um marco, até hoje as pessoas comentam, foi muito bacana. Eu e Renato falamos sobre isso, foi bem feito. Sinto saudades daquele momento. Acredito que se fosse hoje em dia eu faria melhor pois tenho mais experiência mas ao mesmo tempo o corpo e a capacidade que eu tinha antes é diferente de hoje. Foi uma fase muito bonita”.
Se você tivesse a chance o que você mudaria no quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira?
““Eu gosto do jeito que é. Se eu pudesse talvez pediria para justificar o 10. É muito subjetivo, as vezes a gente ganha a nota máxima, ou não, e o que você acha que tem que melhorar não fica muito claro. A gente perde ponto e não consegue entender muito bem o motivo. Acredito que justificar o 10 seria bom”.

Chama muito a atenção de todos sua relação com seu irmão. O que você pode falar do Dudu como pessoa e claro na parte artística?
“Como artista eu sou fã número um. Se vier falar mal ou se eu ouvir, eu brigo. Sou muito fã do trabalho dele, quando ele faz um samba ele manda para minha aprovação, a gente debate. Já aconteceu de coisas que eu sugeri entrarem em determinados sambas. Ele é muito inteligente, muito capaz. Como ser humano, pessoa, eu fico surpresa com a capacidade que ele tem de realização. Dá conta de quatro filhos e eu com um fico louca, uma mãe que ele super dá atenção, uma irmã que ele cuida muito. Conseguimos nos falar todos os dias e ele consegue me dar atenção, está sempre disponível para me dar um conselho. Eu acho estranho pois as pessoas tratam nossa relação como se fosse muito anormal mas fomos criados assim”.
Em um tempo onde há muita vaidade você e Selminha nutrem um carinho grande mútuo. Fala dessa amizade.
“Nos conhecemos há muitos anos e nossa amizade já passou por momentos em que as pessoas tentavam fazer intrigas dizendo que ela falava isso ou aquilo de mim e vice-versa. Sempre resolvemos conversar. Eu conheci a Selminha passista ainda. Hoje em dia, acho muito bacana, eu sou da noite e ela do dia, que as vezes ela está acordando e eu indo dormir mas a gente se fala, vejo que ela está online e conversamos. Nos falamos semanalmente, ela me apoiou muito quando parei de dançar, dizia que eu deveria voltar e sendo a Selminha Sorriso não precisava fazer isso. Ela me estimula, me inspira e me apoia. Fico muito feliz vendo que mesmo com a reviravolta que a vida deu ela está muito feliz. Ela merece, é um ser de luz e gosto de ter por perto. Eu sempre que posso falar com ela mando mensagem, áudio, antes do desfile ou depois, agora estou falando dela aqui e mais tarde vou falar para ela que falei sobre nossa amizade. É uma amizade muito bonita e eu acredito que deva servir de exemplo nesse meio tão cheio de vaidade. Ninguém precisa
desmerecer ninguém para brilhar”.

Você acredita que falta união entre a classe?
Lucinha: “Não só entre a classe. Dependendo do momento em que você está não vale mais a pena ficar alimentando rivalidade, discutindo por bobeira eu acho que a minha geração passou dessa fase. É diferente das meninas mais novas, não tenho muito contato. Tenho carinho e respeito pela menina da Grande Rio, a Taciana, acho que dança demais mas não é uma pessoa que tenho intimidade, não convivo com ela. É diferente de Rute, Giovana, são pessoas que eu vivi por muito tempo. Eu sinto entre as ‘veteranas’ é que estão todas amadurecidas, de bem com a vida, feliz, cada uma ocupando o seu espaço. Não tem mais aquela coisa de competição que tinha alguns anos atrás e até o público aprendeu a respeitar as características de cada uma. Dá para gostar de mim e da Giovana por exemplo, sem briga de quem é a maior ou a melhor. Somos todas maravilhosas”.
Como você viu essa polêmica da Corte? Você até se posicionou em rede social. Considera que ela está sendo alvo de preconceito?
“Eu infelizmente acompanhei. Eu vi o Marlon sofrendo muito preconceito também. Eu prefiro não ler, não me influenciar porque as pessoas atrás do computador elas estão cobertas de uma verdade, uma autoridade que no mundo real não existe. Estou bem afastada até pela falta de tempo mesmo. Eu trabalho no concurso há muitos anos, o primeiro concurso que eu participei foi em 2002, a Chélida que ganhou, e logo no ano seguinte ganhou uma paulista, a Amanda. Esse ano foi o primeiro ano desde 2002 que não fui na final. Na final eu estava muito apertada e não teria aquele começo meu e do Marcelinho preferi não ir. Eu gosto muito da Vivi, muito da Deisiane e sou apaixonada pela Amanda. Camila pra mim é um acontecimento, estive com ela em Cabo Verde, onde chegava uma humildade, uma pessoa respeitosa, sabia se posicionar até no café da manhã. Eu fiquei muito triste com o que aconteceu, até por que veio de pessoas que eu gosto muito e que tenho carinho e segundo que é tão desnecessário. Se fosse assim eu não poderia estar dançando com o Marlon, olha quantas alegrias ele já trouxe para Portela e para o carnaval do Rio de Janeiro. Temos outros tantos personagens: Pinah é mineira por exemplo. O carnaval é tão amplo, acho desrespeitoso até com quem vem, temos gente do país inteiro que junta dinheiro o ano inteiro, tem gente que vem de países do mundo inteiro. É muito triste”.

Você se considera a precursora da técnica no bailado do casal?
“O tempo diz. Quando eu entrei na dança já fazia balé, para mim, eu via ligação, quando eu tinha seis anos de idade, foi quando eu quis virar porta-bandeira. Eu falei para minha mãe que era muito fácil, era debulê, eu já tinha a visão do balé. Hoje em dia eu fico muito feliz em ver em que todos os casais tem ensaiadores, porque tem que ter alguém para ver de fora para colocar você numa posição. Gerou empregos, por exemplo a Vivi que está com a gente neste carnaval, ela não chegou a virar uma grande porta-bandeira mas é uma grande ensaiadora. Tem bailarinas que gostariam de ter sido porta-bandeira e hoje são ensaiadoras. Ajuda muito na linha, eu vejo o casal da Grande Rio, os dois fazendo balé e quando eu era mais nova tomava tanto esporro de porta-bandeira mais velha dizendo que eu estava desrespeitando. Hoje em dia quando vejo um casal com noção de dança clássica, pela linha de movimento, é muito mais bonito. Eu fico muito feliz com isso e hoje tem outras coisas como o respeito, o salário estar em dia, sobre as nossas necessidades como sapatos, roupas que são coisas que quando lá trás eu falava fiquei com fama de arrogante e difícil. Hoje em dia essas mesmas pessoas reconhecem que minha caminhada foi importante para o todo”.
Como foi representar a Clara com uma semelhança impressionante? Quando você se viu pronta na primeira vez o que sentiu?
“Eu achei muito parecida, eu estudei muito a Clara. A diretora do filme da Clara me deu o link do filme com a senha e eu via praticamente todo dia. Depois descobri uns momentos dela numa turnê no Japão, onde ela parecia estar muito feliz. Os momentos dela de desfile, as fotos. Eu ensaiava o sorriso dela que era completamente diferente do meu, ela era tinha uma coisa de calmaria que eu não tenho. Mas já na caminhada e até da outra vez que eu passei pela Portela as pessoas diziam que eu me parecia com ela, ouvia muito isso. Tia Surica dizia que eu tinha até o jeito dela. Eu sempre gostei dela, não foi difícil, só precisei focar para pegar o sorriso dela, levantar o braço do jeito que ela levantava enquanto cantava. Foi muito bonito. Meu irmão não sabia e chorou muito quando viu. Eu nem cheguei muito perto das pessoas que eu conhecia pois elas estavam chorando muito e eu não queria chorar durante o desfile. Outra coisa é que ela usava pouca maquiagem, então quanto menos maquiagem eu usava mais parecida eu ficava e isso foi um desafio porque eu gosto de maquiagem”.
Em que lugar está hoje a Mocidade no coração da Lucinha Nobre?
“Hoje, nesse momento a Mocidade vai falar de Elza. Me pegou de surpresa porque sou muito fã da Elza. Desde que eu sai da Mocidade eu não assisti nenhum desfile. Não sinto nada. Não tenho relação nenhuma. Tem gente que diz que não posso olhar as pessoas e sim a escola, mas o problema é que a Mocidade que eu conheci não existe mais. Esse ano eu estou até curiosa e acho que vou assistir o desfile. Se eu estiver na Sapucaí eu vou assistir. É Elza, uma das minhas três paixões”.
E como é trabalhar com Renato Lage e Marcia Lage? Aliás, como é a sua relação na construção das fantasias?
“Eu sou obediente. Eu adoro o Renato, adoro a Márcia, são pessoas fundamentais na minha vida que me ajudaram no começo, que me conhecem desde sempre, o Renato até antes. Está sendo bacana, Renato é inteligente demais, é engraçado e a forma como ele apresenta os projetos com animação. Ele tem acompanhado o processo de criação da roupa, estou muito feliz de trabalhar com ele, sou fã. Sempre tive vontade de trabalhar com ele mais velha, antes eu era muito menininha. Está sendo bacana”.

Qual foi o desfile da sua vida e qual você não gostou?
“Essa pergunta não tem resposta. O desfile da minha vida são vários, não tem como escolher um só. O que eu menos gostei sem dúvidas foi o último na Tijuca, em 2009. Era uma roupa com a cor que eu não queria, a minha relação com a escola estava muito delicada, a minha relação com o processo de produção da roupa não foi legal, o resultado também não. Pensar em um que não gostei foi esse. Dos que eu gostei, na Portela, 2011 eu amo, apesar do fogo a roupa era muito linda, foi um desfile de renascimento depois de tudo que passamos no barracão. O ano de 2012 eu gosto muito. Dos antigos eu gosto de 1996. Tem o de 1995, que foi um desfile difícil de fazer, ficamos muito tempo em pé esperando resolver o problema da escola. Não dá para escolher um só, seria injusto. Gosto muito do desfile de 2006 da Tijuca, 2008 que foi o ano da fada. Difícil, eu gosto da minha carreira, graças a Deus tenho mais acertos do que erros. Trabalho muito para no final dar tudo certo, óbvio que a nota importa mas eu quero olhar, me orgulhar e me sentir realizada com o que fiz”.

