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Portela 2022: samba da parceria de Marquinhos Diniz

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Compositores: Marquinhos Diniz, João Martins, Zé Luiz, Flavinho Bento e Willian Santanna
Intérpretes: Pixulé e Marquinho Art Samba

É Baobá
Tronco forte do destino
Que nas terras de Rufino ganhou forma de Jaqueira
O Canzuá da sagrada criação
Onde Paulo é Guardião, Orixá de Madureira
Mas o pilar, que une o céu e a terra, mora
Por onde aflora a cultura ancestral
Há tantos galhos matizados de lilás
Pra que avó dos orixás viva seu templo Natal
Quantas sementes desse meu lugar
Floriram da seiva do axé, Baobá
O Quilombo de Candeia pede Okolofé
Babá Igi Osé

Valei-me Nanã Buruquê! É hora!
Traz flores que Xapanã mandou
Pra cura da chaga de nossa gente
Tem reza de Preto Velho, mandinga de Marabô
Das cores de Oxumarê, a copa
Floresce muzimba, Jeje e Nagô
Brotam acordes de Paulinho da viola
Num amor azul e branco que Monarco me ensinou

Por esses mares de uma vida inteira
Corriam rios de sangue
Quem sabe as dores do Valongo Ressoam nas pedras do Mangue
Do chão pisado da Velha Gamboa Resiste a alma africana
Árvore sagrada, yorubana
O embondeiro que guarda a raiz do samba
Onde vi Casquinha, Argemiro e tantos mais
Ogans, yaôs, yabás
Portela é resistência, é meu dever lembrar
Fincada sob os pés de Olorum
Cajado de Oxalá

Meu baobá é flecha de Odé
Machado de Xangô, axé!
Se a vida é um jardim, Portela é a flor
Mais perfumada de um poeta sonhador

Portela 2021: samba da parceria de Denice Candeias

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Compositores: Denice Candeias, Robinho, Dimas Mello, Bia Lopes, Nana Alves, Lício Pádua e Alexandre Osório
Intérprete: Daniel Silva

IGI OSÈ BAOBÁ
NO AZUL VAI BROTAR SENHORA DO TEMPO
SEUS FILHOS SÃO LAÇOS SAGRADOS
E JUNTO A JAQUEIRA, RAIZ, FIRMAMENTO
VESTI, TEUS GALHOS DE OJÁS LILÁS
COM OS ORIXÁS, A ÁGUIA CANTA EM FORMA DE ORAÇÃO
A NATUREZA EMANA A LUZ
NO ALTAR DO SAMBA OSWALDO CRUZ

PORTELA… O VENTO SOPRA NA ALDEIA
A LUA DORME E O SOL SEMEIA
E COLHE OS FRUTOS PARA ALMA ALIMENTAR

TU ÉS…
A MÃE QUE VAI MATAR A NOSSA SEDE
TU ÉS…
A FONTE PARA FOME SACIAR
NAS SOMBRAS RENASÇO
DA SECA E DA DOR
NO SOLO SAGRADO, O NEGRO ESPLENDOR
UM FRUTO ANCESTRAL
RAÍZES QUE O HOMEM NÃO CORTOU
MUDA QUE NÃO SE CALOU
NOS QUILOMBOS E FAVELAS, BROTAM FLORES DE ESPERANÇA
JONGOS E MARACATUS, A CULTURA MINHA HERANÇA
FOLHAS SECAS, O PASSADO, SEMEAR SABEDORIA
E CULTIVAR O MEU JARDIM DE POESIA

SALUBA NANÃ BURUQUÊ
SOU FILHO DE OBALUAÊ
SAMBISTA DE MADUREIRA
QUANDO A SIRENE TOCAR
E A TABAJARA PASSAR
PORTELA NÃO É BRINCADEIRA

SALUBA NANÃ BURUQUÊ
SOU FILHO DE OBALUAÊ
SAMBISTA DE MADUREIRA
QUANDO A SIRENE TOCAR
E A VELHA GUARDA PASSAR
PORTELA VAI LEVANTAR POEIRA

Portela 2022: samba da parceria de Wanderley Monteiro

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Compositores: Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Rafael Gigante, Bira, Edmar Jr, Paulo Borges & André do Posto 7.
Intérprete: Wander Pires

Prepara o terreiro, separa a Mucua
Apaoká baixou no xirê
Em nosso celeiro a gente cultua
Do mesmo preceito e saber
Raiz imponente da “primeira semente”
Nós temos muito em comum
O elo sagrado de Ayê e Orun
Casa pra se respeitar:
Meu Baobá!

Ôbatalá colofé
(Tem) batucada no Arê
Pra minha gente de fé
Ayeraye
Nessa mironga tem mão de Ofá
Põe Aluá no coité e Dandá

Saluba, Mamãe! Fiz do meu samba curimba
Mata minha sede de axé
Faz do meu Igi Osè, moringa
Quem tenta acorrentar o sentimento
“Esquece” que ser livre é fundamento
Matiz suburbano, herança de preto
Coragem no medo
Meu povo é resistência feito um “nó na madeira” do cajado de Oxalá
Força africana, vem nos orgulhar!

Azul e Banto
Aguerê e Alujá
Pra poeira levantar
de crioula é meu tambor
Iluayê na ginga do meu lugar
Portela é Baobá
No gongá do meu amor
(Tem gira pro meu amor)

Portela 2021: samba da parceria de Jotacê

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Compositores: Jotacê, Jojó Varela e Djony do Cavaco
Intérpretes: Vitor Cunha e Rixxah

MÍSTICA
TABANKA LEVA O MEU SONHO
DE ÁFRICA ENERGIA QUE CANTAMOS
MÍTICA, A ÁGUIA SOBREVOA O BAOBÁ
SEMENTE DA VIDA MÃE PROTETORA
TRONCO QUE ABRIGA O BRAVO GUERREIRO
DA BRISA SERENA QUE SOPRA AS FOLHAS
AXÉ QUE BROTA DO PÉ, FRONDOSO IMBONDEIRO

DE GEGE, ANGOLA E NAGÔ, A COPA IMPONENTE
QUE OLORUM CRIOU
A NOBREZA E A ALTIVEZ COM A BENÇÃO DE OLOKÊ
OS RAIOS DA MANHÃ E A LUZ DE ILU AYÊ
UM DIA OUSARAM LHE TOMBAR,
SEUS GALHOS SE ESPALHARAM PELO PELO MAR,
RESISTINDO AS CORRENTES, VENCEDOR RESILIENTE
VIVA O VELHO BAOBÁ

IGI OSÉ, SOU NEGRA CONSCIÊNCIA
SOU NEGRITUDE, VOZ DA RESISTÊNCIA

A SEIVA QUE ROMPE AS MORDAÇAS E GRILHÕES
RENASCE NOS COSTUMES E NA FÉ
E ÀS CORES DO ARCO IRIS DE OXUMARÉ
TAMBORES QUE TOCAM NA LUTA DE UM QUILOMBOLA
NO ORGULHO DE SER FAVELA
NA FLOR DA JAQUEIRA DA MINHA ESCOLA
SOU EU PORTELA
QUE HONRA AS TRADIÇÕES DOS BAMBAS
DA VELHA GUARDA, A RAÍZ DO SAMBA
VOU ETERNIZAR

SALUBA NANÃ, MAJESTADE
SOU A ÁGUIA ALTANEIRA
DAS MARGENS DO RIO BENGO
MEU AMOR ETERNO DENGO
FINCOU RAIZ EM MADUREIRA

Casal da Vila Isabel celebra retorno dos ensaios com segurança sanitária: ‘Corpo sente falta de dançar e se movimentar’

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Apesar da pandemia da Covid-19 não cessar no Rio e nem no Brasil como um todo, a vida começa a ganhar ares de normalidade, com a retomada das atividades e o retorno de muitos trabalhos ao modelo presencial. No universo do carnaval não é diferente. Nesta semana, a Liesa decidiu que, caso haja vacina até lá, os desfiles de 2021 irão ocorrer entre os dias 08 e 11 de julho. Casais de mestre-sala e porta-bandeira já voltaram aos ensaios. Anteriormente, o site CARNAVALESCO conversou com Diogo Jesus e Bruna Santos, da Mocidade Independente, além de Daniel Werneck e Taciana Couto, da Grande Rio, para falar sobre o retorno destes casais aos ensaios presenciais. Desta vez, o bate-papo é com outra dupla que também já voltou aos treinos juntos: Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas, responsáveis por defenderem o pavilhão principal da Unidos de Vila Isabel.

“O que levou a gente a tomar essa decisão de retomar os ensaios foi a saudade, primeiramente, e a necessidade. A gente já estava há muito tempo parado. O martelo foi batido agora, mas a princípio eles (a Liesa e os dirigentes das escolas) tinham colocado como janeiro para isso acontecer, para a gente saber se teria carnaval ou não, e estava chegando o prazo. Já estamos em novembro e a Vila começou a se movimentar também. Até então, nossa escola estava parada, a gente não via muita necessidade de estar trabalhando, de fazer algo sem a perspectiva de uma volta definitiva. Com a retomada do processo todo do carnaval na escola, de uma forma em geral, a gente viu a necessidade de voltar, de começar devagarzinho, esperando que o carnaval realmente aconteça. E, logo no nosso primeiro dia de ensaio, a Liesa já bateu o martelo! Oremos, começamos bem, e vamos que vamos”, afirmou Marcinho.

“Muitos foram os fatores que nos motivaram. A escola já esta aos poucos retomando algumas atividades, por exemplo. Mas o principal motivo desta volta aos ensaios é a falta que o corpo sente de dançar, de se movimentar. Estávamos acostumados com essa rotina durante o ano”, completou Cristiane Caldas.

marcinho cris

Por conta da pandemia da Covid-19, a volta aos ensaios presenciais exigem uma série de cuidados. Para evitar o contágio pelo novo Coronavírus, medidas como o uso da máscara de proteção se tornaram fundamentais. “Estamos tomando todos os cuidados necessários, como álcool em gel a todo o momento, além da limpeza necessária de todo local e material utilizado”, destacou Cristiane.

Marcinho citou a mudança de ter de lidar com as medidas de prevenção na prática da dança. “A academia em que ensaiamos está bem focada na proteção dos alunos. A gente ali está seguindo os protocolos deles”.

Devido aos meses parados, por conta da quarentena, a falta de ritmo é outro obstáculo para dupla.

“Mesmo com toda sintonia que existe entre nós, ficamos bastante tempo parados, então é começar devagar pra retomar o ritmo. Voltar aos treinos juntos é ótimo, porque um dá apoio e suporte ao outro. No início da quarentena até a metade, confesso que não fiz nenhum tipo de atividade, me dei um descanso dessa cobrança, mas logo eu consegui alugar uns aparelhos que eu pudesse estar fazendo exercícios em casa mesmo e fui retomando aos poucos”, relatou Cristiane.

marcinho cris2

“Assim como a maioria das pessoas, eu achei que a pandemia iria durar duas semanas. Então, acabei relaxando e engordei. Fiquei de um jeito que eu nunca tinha ficado antes, em toda a minha vida, em relação ao corpo. E a partir de um momento percebi que tinha de me segurar, porque na hora que as coisas voltassem a funcionar, como é que eu iria estar? Foi aí que comecei a fazer algumas atividades em casa”, contou Marcinho.

Devido a estes desafios, a ausência de um samba oficial para o próximo carnaval não é algo que afeta aos ensaios da dupla. “Nesse início, o samba em si não é de grande relevância, porque a gente precisa voltar a forma primeiro. Para isso, não precisa de samba definido, não tem coreografia, nem nada disso. A ideia é a gente dançar solto, buscar o improviso, fazer realmente o nosso cérebro e o nosso corpo voltar a essa realidade da dança. E eu acho que essa volta vai ser ainda mais trabalhosa, porque a gente nunca ficou tanto tempo sem dançar. A gente geralmente fica, no máximo, dois meses parados. Vamos trabalhar bastante a questão do corpo, a parte física. E apesar de já estarmos fazendo outras atividades, a dança realmente, os movimentos específicos, são o nosso foco agora”, assegurou o mestre-sala.

“Nosso ensaio não é baseado somente no samba campeão do ano, ensaiamos o samba do último carnaval e outros que nós possamos vir a dançar na quadra ou em uma apresentação. Depois que o samba é escolhido, nós focamos em trabalhar só nele e sempre montamos nossa coreografia de desfile e quadra. E isso serve para todos os anos”, disse a porta-bandeira também.

Questionados pela reportagem do site CARNAVALESCO sobre a definição da data para os desfiles do ano que vem, que ocorreu nesta semana, Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas encararam como algo positivo.

“A notícia é maravilhosa. A gente sabe que há a necessidade de uma vacina ainda, mas é torcer para que ela saia logo e que todo o processo da realização do carnaval aconteça normalmente. A gente espera que isso ocorra o mais rápido possível”, declarou Marcinho.

“Estávamos nervosos para essa decisão, isso é um fato, mas desejo que essa vacina possa aparecer o quanto antes para que tudo possa acontecer da melhor forma. Ainda não sabemos como vai funcionar esse desfile no meio do ano, como vai ser o desenvolvimento de tudo isso, ainda tem muita coisa pra ser pensada. Quanto a previsão de data, temos um tempo pra pensar, nos adaptar a esse novo que está por vir, e acredito que será lindo, feito com todo amor de todos nós sambistas”, garantiu Cristiane.

Portela 2022: samba da parceria de Valtinho Botafogo

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Autores: Valtinho Botafogo, Rogério Lobo, José Carlos, Zé Miranda, Beto Aquino, Pecê Ribeiro e D´Sousa
Intérpretes: Zé Paulo Sierra, Diogão Pereira, Juliana Pagung e Flávio Martins.

Portela
Carrego o teu nome
Aonde quer que eu vá
Em vida e por vidas
Hei de te honrar (bis)
Só por te amar meu Baobá

Árvore sagrada
Força Yoruba
Luz divina de Obatalá

Oba oba oba oba

Oranian sou eu
Paulo Benjamim de Oliveira
Nobre feito palha de Omulu
Reencarnado nos braços de Nânã
Imortal por natureza
Negra realeza dos meus orixás
Tronco enraizado pelos ancestrais
Chama ensolarada de fulgor
Ilumina a “Jaqueira”, enfeita o azul
No céu do Cruzeiro do Sul

Igi osè oh Baobá
Reflete o lindo arrebol
Envolto pela cor lilás
És cura pra dor, és fonte de paz
Igi osè oh Baobá
Mãe África quem enviou
Santa semente, alma viva, liberdade
Que floresceu brasilidade.

Maculelê, Maracatu, tem capoeira
Nas rodas de Madureira vem dançar o Caxambu
Firma no canto Surica
Ciata vai se orgulhar
O nosso samba também é religião
Vi Natal baixar terreiro
Assentando o pavilhão
Salve o Rio de Janeiro
Resistência desse chão
Portela revela…
Preto da favela é bacharel

Um “Marco” na história
Monarco de glória
Sou Paulo da Portela o menestrel

Portela 2021: samba da parceria de Edynel

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Compositores: Edynel, Marcos Lauriano, Gadinelli, Sérginho Cataguases, Márcio Oliveira, Gylnei Bueno e Marcelo Marrom
Intérprete: Serginho Porto

IGI O$È SAGRADO ILÊ
O TEMPLO DOS MEUS ORIXÁS
UM ELO ENTRE ORUN AIYÈ
RESGUARDA A HISTÓRIA DOS MEUS ANCESTRAIS
O ONTEM, O HOJE, O AMANHÃ
SENHORA DO TEMPO A SEIVA DA VIDA
SALUBA NANÃ TEUS OLHOS CONTEMPLAM CHEGADAS E IDAS
ATOTÔ AJUBERÔ A CURA DO MAL RESTAURAÇÃO
MOTUMBÁ MEU PAI XANGÔ
NA FORÇA DO OXÊ A PROTEÇÃO

CRUZARAM O MAR DE YEMANJÁ
LEMBRANÇAS RESISTENTES DO YLÊ
EM GRÃOS PARA SEMEAR
HERANÇAS DE ILU AIYÊ

ALÉM DO ARCO-ÍRIS DE OXUMARÊ
A AFRICANIDADE APORTA AO CAIS
ONDE O NEGRO PISA O SOLO PRA VENCER
ALASTRAM-SE RAÍZES CULTURAIS
SURGE O MACULELÊ, CAXAMBÚ, CONGADA, O MARACATÚ
VERTENTES DE TODO LUGAR
E NA PEQUENA ÁFRICA O SAMBA
DE TRONCO FORTE NÃO SE DEIXOU DERRUBAR… JAMAIS

VAI VOAR
A MAJESTOSA ÁGUIA ETERNAMENTE
SOMOS RESISTÊNCIA DA CORRENTE
TÃO FORTE QUAL RAÍZ DO BAOBÁ
SOU PORTELA E VOU CANTAR
FAZER O MEU POVO VOLTAR A SORRIR
ANCESTRALIDADE NAGÔ YORUBÁ
A ÁRVORE DA VIDA VAI FLORIR

Portela 2021: samba da parceria de Bita da Portela

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Compositores: Bita da Portela, Jorge Nascimento, Joseth Rodrigues, Wagner Escóssia, Jorge Pqd, Roberto Brandão e Roberto Garrido
Intérpretes: Clóvis Pê e Lid de Souza

PORTELA, PEDE AGÔ AO ORIXÁ
IGI OSÈ BAOBÁ ÁRVORE SAGRADA DA VIDA
DO YLÊ DE YOURUBÁ SOU NEGRO DE LÁ
GUERREIRO DE OYÓ COM MUITO RESPEITO
NO ABRAÇO TE BEIJO, PRA SORTE ALCANÇAR
ESTRELA QUE BRILHA NO CÉU, CONDUZ O MEU CAMINHAR
MINHA ÁGUIA ALTANEIRA TÃO LINDA FAZ ARREPIAR
SALUBA NANÃ! OH, MÃE DE TODOS NÓS
EM SUAS ÁGUAS PODER DIVINAL
ATOTÔ, PAI OMULU, CURA O AIYÊ DE TODO MAL

BAOBÁ! BAOBÁ! É QUEM ME DÁ PROTEÇÃO
ESTENDE A MÃO, PRA ME LEVANTAR
COM A PERMISSÃO DE OXALÁ, O TEMPO DÁ, O TEMPO TIRA
BATENDO PALMA, FIRMA PONTO NESSA GIRA

É FONTE PRA MATAR A SEDE, PRA FOME DÁ FRUTOS E ACOLHE OS ANIMAIS
JOGADO AO MAR FOI REFÉM DA ESCRAVIDÃO
DOR, LAMENTO E PRECE, O ADEUS NÃO APAGA A SAUDADE
VIDAS, SEMENTES E RELIGIÃO
EM TERRAS DISTANTES A GERMINAR
NA FÉ DE OXUMARÉ, O ARCO-ÍRIS VEM ABENÇOAR
O RIO DE JANEIRO, MOVIMENTOS CULTURAIS
E O SAMBA NA PRAÇA ONZE REINARÁ
NAS RAÍZES DE PAULO DA PORTELA EM OSWALDO CRUZ
A EMOÇÃO EMBALA
O CORAÇÃO DA VELHA GUARDA E DAS BAIANAS
NO BATUQUE DO TAMBOR DA TABAJARA

CHEGOU A HORA PORTELA DE MADUREIRA CANTAR
O SHOW JÁ VAI COMEÇAR, COMUNIDADE
É TEMPO DE DEVOÇÃO, HOJE TEM SAMBA NO PÉ
MAGIA E MUITO AXÉ!

Leia a sinopse do enredo da Unidos da Tijuca para o Carnaval 2021

WARANÃ – A REEXISTÊNCIA VERMELHA

Tupana, criador das boas coisas do mundo, reinava no alto do céu na forma de A’at, o sol, enquanto seu irmão oposto, Yurupari, sob a proteção de Waty, a lua, regia as más na escuridão. Assim, as ações entre os dois deuses estabeleceriam o equilíbrio cíclico de Monã, as forças cósmicas geradoras do universo.

Contam que três irmãos, os varões Yucumã e Ukumã’wató e a bela Anhyã-Muasawê, viviam em Nusokén, uma floresta encantada, abundante, onde até as pedras poderiam falar.

Anhyã-Muasawê era a guardiã, a dona de Nusokén, pois detinha o conhecimento das plantas medicinais. Não existia folha que ela não conhecesse o poder. De tão bonita e habilidosa, todos os animais de Nusokén se enamoraram por ela, o que mergulhava seus irmãos no ciúme.

Certo dia, uma cobra verde tomada de amor usou o perfume de uma flor para atrair Anhyã-Muasawê e com apenas um toque em seu pé a fez engravidar. Quando Yucumã e Ukumã’wató descobriram a gravidez indesejada por eles, possuídos pela má energia de Yurupari, expulsaram a irmã e tomaram para si o controle do paraíso Nusokén, a proibindo de voltar. Ela e a criança que nasceria.

Anhyã-Muasawê vai para uma mata distante dar à luz a Kahu’ê, o kurumin mais bonito e alegre que já existiu. Kahu’ê era uma criança prodigiosa, dizem que começou a tagarelar bem cedo. Olhos vivos, atentos para as muitas perguntas que brotavam de sua curiosidade inocente. Fartava-se dos frutos que a floresta com bom grado lhe dava, mas havia uma iguaria que não era permitida a ninguém e que Kahu’ê se apetitou: a castanha da castanheira sagrada de Nusokén. Aquela, primeira, brotada das patas de uma onça e que estava sendo vigiada pela cotia e pelo macaco, Hanuã-Xuin, a mando dos irmãos Yucumã e Ukumã’wató.

Chegando lá, o kurumin arteiro subiu na árvore e saciou a fome até o cair da noite como se dono fosse daquele fruto proibido. Na verdade, era mesmo herdeiro daquelas terras, já que sua mãe seria senhora de Nusokén por direito.

Ao saberem pelos vigias da violação da castanheira sagrada, os tios de Kahu’ê, obsediados pelo espirito da inveja, invocaram Yuyrupari, que se transformou em uma serpente terrível e tirou a vida do pequeno índio.

Anhyã-Muasawê ouviu o grito de longe, correu em socorro a seu filho, mas não pôde evitar o pior. Uma tristeza súbita tomou aquela terra. O mal de Yurupari parecia ter vencido ao exterminar a existência de Kahuê quando os raios de Tupana rasgaram as nuvens. Ao tocarem o solo, falaram ao coração da mãe ferida que aquela maldade se tornaria bênção. Anhyã-Muasawê se transformou num pássaro, levou seu filho para os arredores do rio Maráw, enterrou os olhos do kurumin e os regou com suas lágrimas.

O olho esquerdo plantou em terras amarelas, do qual nasceu uma planta que não prestava. Era o Waraná-Hôp, o falso guaraná. O olho direito, plantado em terras pretas, gerou o Waraná-Sése, o verdadeiro guaraná. Com ele, Anhyã-Muasawê fez um elixir mágico para longa vida ao povo que floresceria das entranhas de Kahu’ê, enterrado embaixo de uma Abiu’rana. Seu ajudante, o passarinho Karaxué, cantava sua mais bela melodia quando Mary-Aypók nasceu do corpo de Kahu’ê. Era o “originador”, o primeiro Mawé. Tupana deu a ele de presente a língua que só era falada pelos seres de bem que o acompanhavam, chamada Sateré, a lagarta de fogo.

O segundo Mawé nascido da criança enterrada foi Wasary-Pót, o irmão gêmeo do “originador”.

Os irmãos cresceram. Mary-Aypók se casou com Ahút-Piã, a filha do papagaio, e concebeu o significado da palavra Mawé, o papagaio falante. Wasary-Pót desposou com Hano’onapiã’hop, filha da arara-piranga, e seus descendentes dariam as mais belas penas para adornar o povo que surgia.

O bendito kurumin Kahu’ê, fruto da união entre a ancestralidade indígena e os animais, renascia em uma raça de pele vermelha como a cor da pele do sagrado Waranã. Estava iniciada a nação Sateré-Mawé, o povo do guaraná. Descendente do fruto que cura as doenças das almas cansadas, dos fracos, que fortalece e devolve a força, a juventude. Revive.

Organizaram-se em clãs, construíram identidade e desenvolveram ritos e mitos regados a guaraná, pintados e gravados com branco do barro taguatinga, preto do jenipapo e vermelho urucum no remo sagrado Puratig.

Do bastão de guaraná ralado criaram o Çapó para beber nas festas, pajelanças e no Waymat, onde as tucandeiras iniciam os jovens para a vida adulta como símbolo de renascimento sob o comando dos Tuxauas.

Porém, não se engane em pensar que Yurupari descansou de sua maldade predatória, que deixou a vida na floresta em harmonia. Ele se fez ressurgir ao longo do tempo em colonizadores, missionários religiosos enviados às aldeias, caçadores, garimpeiros e madeireiros ilegais, grileiros de terras… Pelos desmatamentos e queimadas, os filhos-demônios de pele clara de Yurupari seguem semeando o caos em nome do capetal.

Mas os filhos do guaraná, peles vermelhas do Brasil, são predestinados, pois apenas povos sábios, de espiritualidade elevada, são capazes de reexistirem encantados pelas matas, acaboclados nos terreiros onde bradam sua força e encontrarem com os espíritos infantis de erês e ibejadas que, quando “chegam”, gostam de tomar guaraná.

Assim, completando o ciclo da eterna renovação, enfim o curumim Kahu’ê é elevado ao paraíso prometido Mawé, Nusokén, ou à Jurema, ou à Aruanda, quando na gira as crianças bebem seu guaraná e vão brincar.

Elas são a prova que o espírito do amor é muito maior que o ódio semeado por Yurupari.

Ele não vai vencer. Ele nunca irá nos exterminar.

Yiurupari jamais triunfará.

Jack Vasconcelos

 

ALGUMAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALVAREZ, Gabriel O. O ritual da Tocandeira entre os Sateré-Mawé: aspectos simbólicos do Waumat. Série Antropológica, Departamento de Antropologia, UnB, Brasília, 2005.

AMORIM, Claudia; PALADINO, Mariana. Cultura e literatura africana e indígena. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2012.

BRITTO, Leonardo Lucas; SOUZA, Sérgio Luiz de. Entre práticas e saberes: Incorporação de encantados na Umbanda. Centro Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa do Imaginário Social, Universidade Federal de Rondônia. Porto Velho: Revista Labirinto, 2018.

FIGUEROA, Alba Lucy Giraldo. Guaraná, a máquina do tempo dos Sateré-Mawé. Belém: Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi – Ciências Humanas, 2016.

FITTIPALDI, Ciça. A lenda do guaraná: mito dos índios Sateré-Maué. São Paulo: Melhoramentos, 1986.

FRABONI, Mauricio. Waraná: o legítimo guaraná dos Sateré-Mawé.

In: RICARDO, Carlos A. (Ed.). Povos indígenas no Brasil: 1996-

São Paulo: Instituto Socioambiental, 2000.
JARDIM, Tatiana. Umbanda: História, cultura e resistência. Centro de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 2017.

LORENZ, Sônia M. da S. Sateré-Mawé, os filhos do Guaraná. São Paulo: Centro de Trabalho Indigenista, 1992.

OLIVEIRA, José Henrique Motta de. Das Macumbas à Umbanda: uma análise histórica da construção de uma religião brasileira. Limeira, SP: Editora do Conhecimento, 2008.

UGGÉ, Enrique. As bonitas histórias Sateré-Mawé. Manaus: Secretaria da Educação e Cultura do Amazonas, 1993.

YAMÃ, Yaguarê. Sehaypóri: O livro sagrado do povo Saterê-Mawé. São Paulo: Editora Peirópolis, 2007.

Portela 2022: samba da parceria de Marquinhos de Oswaldo Cruz

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Compositores: Marquinhos de Oswaldo Cruz e Rogerio Lessa
Intérprete: Bico Doce

Oh Baobá
Senhor do tempo, raiz da memória
Hoje sou forte Guerreiro de Oyó
O samba navega nas águas da história

Nanã, Saluba mãe de todos Orixás
Estais, no axé de todos nossos ancestrais
De Paulo BenjamIm de Oliveira
Omulu abençoou
Oswaldo Cruz e Madureira

Laroiê Mojubá
Meu destino entreguei ao mensageiro
Oke Arô Oh meu Pai
Somos seus batuqueiros

Portela respira o samba como um velho baobá
Pilar da arte nas periferias
Supera tormentas de mares e males
Gira a baiana roda o tempo
Que o vento não carregou
São muitos os frutos de todas as cores
Amores de Igi Osé
Arco-iris de Oxumaré

Pequena ou grande África
Quilombos do dia a dia
Jongos, Maculelês
Vou me banhar nessa energia
Resiste e não esquece
Quem no berço se aquece
Meu samba Une Aiyê e Orum
Ora ye ye Ora ye ye ô mamãe Oxum