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Único carnavalesco negro no Especial, João Vitor fala sobre saída da São Clemente: ‘Que os caminhos dela sejam os do Ubuntu’

João Vitor Araújo, único carnavalesco negro no Grupo Especial do Rio de Janeiro, recebeu a informação que foi desligado da equipe da São Clemente para o próximo carnaval. No Dia da Consciência Negra, João Vitor, que é um dos grandes artistas da nova geração do carnaval, fez um post falando da saída.

“Dos muitos sonhos que tenho, e estou podendo realizar poucos deles, por hora, recebi hoje a notícia que infelizmente a partir de agora não sonharei junto com a São Clemente. Escola exímia na arte de falar aquilo que o povo quer ouvir. Eu ouvi e compreendi os motivos e desejo à agremiação toda sorte do mundo e que os caminhos dela sejam os caminhos do Ubuntu”, escreveu João.

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Em uma publicação nas suas redes sociais, a São Clemente anunciou que Tiago Martins seguirá como carnavalesco solo. “Reorganizamos nosso planejamento e entendemos como será a melhor forma de nos portarmos mediante aos impactos gerados. Reduzimos custos, mas mantendo a certeza que será uma jornada de muito trabalho e sucesso. A São Clemente segue forte e prestes a escrever novas páginas de sucesso em sua trajetória com uma equipe determinada a marcar seu nome na história”, diz o post da escola.

A São Clemente definiu também o cronograma do concurso de samba-enredo para o próximo carnaval. A sinopse será divulgada no dia 02 de dezembro através das redes sociais da agremiação. As parcerias terão duas datas para tirarem as dúvidas de suas composições. A inscrição e entrega dos sambas acontecerá no dia 11 de janeiro de 2021. A apresentação e final de samba ocorrerão em formato de live. Mais informações e regulamento completo serão divulgados na próxima semana.

Veja abaixo a íntegra do post de João Vitor

“Eu sempre pensei na coletividade e, por isso, amo fazer carnaval. Sou um artista criado no chão do barracão e minha maior faculdade foi a vida, foram as pessoas com quem me encontrei por esse caminho com quem aprendi para cheguei até onde estou.

Esse caminho me apresentou curvas muito sinuosas. Fico pensando sempre que, se eu não pensasse nos que caminharam comigo, duvido que teria passado da primeira delas. Este caminho é o caminho de tantos irmãos e irmãs que não tiveram a mesma sorte que eu, a sorte do lar, da família que, mesmo nas derrapadas deste caminho, não me deixou andar para trás.

Neste dia da tal “consciência negra”, estamos tão feridos com a morte absurda que nos agride todos os dias mas que, na última madrugada, teve um simbolismo maior. Foi um sinal para nos colocar em nossos “devidos lugares”? Se foi, entendam, continuaremos duros e fortes neste caminho. Eu continuarei. Continuarei porque muitos me inspiram a continuar e eu sei que minha luta vai inspirar muitos outros. Continuarei porque meu maior combustível é o sonho e nesta estrada não se sonha sozinho.

Dos muitos sonhos que tenho, e estou podendo realizar poucos deles, por hora, recebi hoje a notícia que infelizmente a partir de agora não sonharei junto com a São Clemente. Escola exímia na arte de falar aquilo que o povo quer ouvir. Eu ouvi e compreendi os motivos e desejo à agremiação toda sorte do mundo e que os caminhos dela sejam os caminhos do Ubuntu.

Acredito que o Brasil ainda precisa entender o que é Ubuntu. Ubuntu é uma lição de comunidade, de compartilhar espaços, de amor e gratidão. Ubuntu é uma filosofia que diz que pessoas são mais importantes que coisas, valorizar a comunhão e vencer na coletividade, é ter maturidade para desvalorizar o preconceito e valorizar a essência.
Ubuntu é um pensamento PRETO, Ubuntu está todo dia nos terreiros, nas nossas casas. Ubuntu é tudo, menos este país que nos exclui e mata. Quando o Brasil se enxergar como preto, talvez, nem seremos mais Brasil. Pelo menos não este que aí está.

boa sorte pro caminho de todos”.

Parceria de Aluísio Machado é apontada favorita para vencer samba no Império Serrano

A parceria de Aluísio Machado, Carlos Senna, Renan R. Valença, Ambrosio De Deus, Carlitos Bahiano e Beto Br De Souza foi eleita favorita para vencer a disputa de samba-enredo do Império Serrano, que acontece nesta sexta-feira, na quadra da escola. Eles receberam 82% dos votos.

* OUÇA AQUI OS SAMBAS FINALISTAS

A parceria de Paulo Cesar Feital, Henrique Hoffmann, Andinho Samara STS, André do Posto 7, Jefferson Oliveira e Ronaldo Fininho ficou com 6,8%. Quinzinho, Samir Trindade, Elson Ramires, Lopita 77, Beto R e Bello teve 5,2%.

As parcerias de Alípio Carmo, Franco Cava, Bujão, Fernando Barbosa, Fábio Barbosa e Jorge Quintal e de Lúcio Moraes, Luizinho Mendes, Solano Santos, Paulo Ribeiro, Rafael Gonçalves e Mano Gaspar terminaram com 3% cada.

No próximo Carnaval, o Império Serrano vai levar para a Marquês de Sapucaí o enredo “Mangangá”, de autoria do Carnavalesco Leandro Vieira.

Salgueirenses aprovam novo formato das eliminatórias de samba, sem aglomeração e projetam desfile em julho de 2021

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O Salgueiro abriu na noite de quinta-feira, em sua quadra, a fase de disputa de samba-enredo para o próximo carnaval. Até agora, sabemos que o Carnaval 2021 tem data prevista entre os dias 08 e 11 de julho, porém, para de fato acontecer, precisa da vacina contra Covid-19. Sendo assim, a vermelho e branco saiu na frente e realizou a primeira eliminatória, seguindo todas normas sanitárias e sem aglomeração.

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Foram 12 apresentações das 24 obras concorrentes. Apenas para diretoria salgueirense. Sem torcida das parcerias. Todos os presentes, inclusive, a imprensa tiveram que apresentar exame negativo da Covid-19 para entrarem na quadra. Todo o espaço estava com dispositivo de álcool em gel, informações sobre o uso de máscara e o cuidado com o próximo, além de banners com regras de ouro no combate ao novo Coronavírus.

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“Estar aqui significa muito para a gente. São as pessoas voltando aos trabalhos, esperança de dias melhores. Agora já temos uma data para os desfiles que é julho de 2021, o que nos traz ânimo para trabalharmos e acordarmos com mais força ainda. Não tenho dúvidas de que será um sucesso o carnaval em julho”, disse o presidente André Vaz, que também abordou o lado financeiro para a vida da escola de samba.

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“Nossa quadra sempre foi o nosso maior patrocinador, nossa maior fonte de renda. Assim como nossa boutique que se encontra aberta ao público de segunda a sábado e com vendas online, através do site do Salgueiro. Além do nosso programa de sócio torcedor. A tendência agora é triplicar o nosso faturamento”.

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O diretor de carnaval, Alexandre Couto, após todas apresentações dos 24 sambas concorrentes haverá o corte das obras para o próximo desfile.

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“Estamos trabalhando cada dia de uma vez. Estamos começando a nos readaptarmos na quadra e o próximo passo será o barracão. Fizemos uma parceria com um laboratório para fazermos exames com todas as pessoas envolvidas nas eliminatórias. Além disso, temos totens de álcool em gel, higienização nos microfones, tapetes de higienização. Tudo vai ser diferente, é o novo normal. Escutaremos mais o emocional, não temos o calor do público, da torcida”.

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Presentes no primeiro dia de eliminatórias de sambas, o casal de mestre-sala e porta-bandeira do Salgueiro, Sidclei e Marcella Alves, contou como está trabalhando em tempos de pandemia.

“Estamos fazendo reuniões por internet e se programando para voltar a essa rotina de ensaio. Já dançamos juntos há 7 anos, então, conhecemos bem um ao outro. Nosso carnaval 2021, começa hoje. Estou muito feliz por escutar a bateria, rever os amigos e pisar aqui”, disse Sidclei. Marcella completou: “Somos amigos. Fizemos os estudos e assistimos vídeos. Cada um está fazendo os exercícios em casa para se preparar ainda mais”.

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A dupla salgueirense aprovou a ideia dos desfiles acontecerem no mês de julho de 2021.

“É muito importante para o carnaval num todo, para se programar e preparar”. Marcella completou: “Nossa alimentação também é saudável e tranquila. É óbvio que durante o tempo de quarentena, virei boleira, doceira (risos). Mas, tudo já voltou ao normal, até a prática de atividade física. A palavra-chave é esperança, de tudo isso ir logo embora, da vacina chegar, de conseguirmos fazer um carnaval 2021 na altura dos sambistas, que o carioca, o Brasil merece e que a Liesa sabe realizar”, afirmou a porta-bandeira.

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Emerson Dias e Quinho, que formam a dupla de cantores do Salgueiro, também comemoraram a volta aos eventos na quadra.

Senti falta dessa energia, de rever os amigos, do próprio Quinho. Estamos cheio de vontade, 2021 será o carnaval do alívio. Temos uma direção sensacional, que esteve conosco durante toda essa pandemia”, disse Emerson.

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“Reencontrar pessoas que gostamos, pois respiramos isso. Encontrar a quadra aberta é imensurável, cumprindo as normas de saúde e segurança da OMS. Temos um canto e um chão forte, uma bateria coesa. Voltou a alegria da Salgueiro com essa nova administração”, citou Quinho.

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Os irmãos Gustavo e Guilherme, comandantes da bateria Furiosa, falaram da dificuldade para realização dos ensaios e como foi feita a seleção dos ritmistas para essa fase de disputa de samba.

“Os ensaios ainda não voltaram. Estávamos nos virando com muitas aulas online e agora aguardando um pouco mais para voltarmos definitivo no começo de 2021. Nosso critério foi escolher pela diretoria e alguns ritmistas, com uma bateria reduzida. Explicamos para cada nape e revezaremos. Tudo muito bem explicado e entendido”, garantiu Gustavo. “É colocar na cabeça que Julho será fevereiro, pisar forte na avenida e ir atrás do nossos objetivos”, completou.

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Dia da Consciência Negra: escolas de samba do Rio caminham para reaproximação com a origem e o espaço em que vivem

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Não existe no mundo forma mais democrática de conciliação entre os povos, classes, religiões e orientações sexuais do que o carnaval. Quatro dias de folia são capazes de unir a Zona Sul ao subúrbio carioca das mais diversas formas. Porém, basta chegar a segunda-feira pós folia que voltamos a ver a realidade do Rio de Janeiro que nos foi embaçada outrora pela festa. Apenas em 2019, segundo dados do Instituto de Segurança Pública do RJ (ISP-RJ), 78% dos mortos em ações policiais eram pretos e pardos. Um dado que assusta, incomoda e liga um alerta para qualquer pessoa que queira pensar num estado democrático de direito.

O professor Silvio de Almeida, autor do livro Racismo Estrutural, que explica com detalhes como pretos vivem num sistema criado para que eles não existam, apenas sobrevivam, afirmou em uma de suas entrevistas que “não se pode falar em democracia sem falar da questão racial”. E, ao que parece, as entidades carnavalescas cariocas entenderam que o assunto está em voga. Dos enredos já anunciados para o próximo carnaval, com exceção de Mangueira que ainda não definiu, Viradouro, Tuiuti, Tijuca e Imperatriz, todos os demais possuem temática afrocentrada. Seja homenageando seu mais ilustre torcedor, Martinho, na Vila Isabel, ou a homenagem aos deuses negros, como é o caso de Grande Rio e Mocidade, com Exu e Oxóssi respectivamente. Com a intenção de promover o debate a respeito do assunto no Dia da Consciência Negra, o site CARNAVALESCO ouviu alguns personagens do carnaval que fizeram parte da construção desses temas.

Para Helena Theodoro, autora e curadora do enredo do Salgueiro 2021, é necessário entender antes de tudo o processo de invasão em terra Brasilis e como foi a construção do que entendemos hoje como país.

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“Para exemplificar, vamos citar os EUA. Houve um projeto de nação muito diferente do Brasil desde sua fundação. Quando os fundadores dos EUA pra lá foram, tinham o propósito de criar um território para eles. Onde houvesse igualdade de oportunidades, sem a supremacia de um grupo que se dizia nobre e outro não. Eles saíram da Inglaterra para criar uma nova Inglaterra, dentro de valores e padrões diversos da que existia em seu lugar de origem. Criaram então o sonho de um espaço de liberdade onde não haveria por exemplo uma diferença de castas, e nenhum preconceito. Essa proposta vai fazer com que se valorizasse muito o espaço e território. Porque foram para lá construir algo, criar uma nação onde todos pudessem efetivamente viver e conviver. Já o Brasil, parte de uma outra premissa. Quando o português chega em terra brasilis vem com o objetivo de extrair e enriquecer. Nunca de fazer um novo Portugal. O Brasil construiu um projeto de nação excludente para negros e índios. Construiu inclusive uma mentalidade que começou no início do século XVI, quando pessoas de pele clara, através da guerra, dominaram as pessoas de pele escura ou amarela, e criaram um biopoder no sentido de dizer que já que são vencedores, eram melhores que os demais”, explicou.

Para Helena Theodoro, o debate sobre negritude no carnaval demonstra a valorização do verdadeiro dono da festa e da escola de samba.

“O convite para completar a vontade do Salgueiro de falar sobre resistência negra vem exatamente do estudo que eu e outros intelectuais negros fazemos da forma de resistência do movimento e da comunidade negra. como um todo. Para mostrar que a gente nunca aceitou a maneira de ser, viver e pensar que nos foi imposta pela comunidade europeia. E que esses elementos que para cá vieram sempre buscaram preservar seus valores e maneira de ser. O que as escolas de samba basicamente estão fazendo, e acrescento Salgueiro nisso, foi dar visibilidade ao povo negro que sempre esteve invisível. Uma escola de samba parte do principio de família extensiva, onde cantam e contam sua maneira de viver. É um terreiro na marques de Sapucaí com a família salgueirense, portelense e por aí vai. Tem uma implicação de responsabilidade de cada um com o coletivo, representando o território em que vivem e louvam a determinado Orixá. Esses são as forças da natureza que caracterizam aquela própria natureza. Quando Salgueiro se veste de vermelho e branco, representa o dono da pedreira que é o Morro do Salgueiro, Xangô. Sua bateria furiosa toca o alujá do rei da cidade de Oyo. A inteligência da comunidade negra faz com que mesmo dentro de uma aparência dos valores europeus, você está louvando Orixás, mantendo-os em pensamento, cuidando do seu território a sua maneira própria de viver”.

Nos últimos anos a dupla Gabriel Haddad e Leonardo Bora exaltou na Sapucaí pessoas pretas e suas representatividades. Ao lado da dupla, sempre esteve o antropólogo e enredista Vinicius Natal, que colaborou na construção dos enredos. Para ele, é preciso entender que mesmo com alguns enredos que talvez se afastem de sua origem, mas ainda assim são manifestações negras.

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“Primeiro a gente precisa compreender a escola de samba como um organismo plural. Ela pode ser várias coisas ao mesmo tempo. A minha visão de escola pode ser de que escolas podem e devem estar ligada a sociabilidades negras, dos morros e favelas, a produção musical, sua afirmação de identidade negra na cidade. Já para outras pessoas pode estar vinculada a uma visão comercial e empresarial. Gosto de pensar sempre como organismos e instituições negras, produtos da diáspora africana onde seus fundadores foram filhos e netos de negros escravizados. Então, beber nessa fonte e entender escola como esse organismo é fundamental para entender que ela tem influencia de diversas outras manifestações e festas. Acima de tudo é uma manifestação afrobrasileira, porque em suma maioria foi criada por sujeitos frutos, filhos e netos da abolição jurídica da escravidão negro-brasileira”.

Natal também afirma que o diálogo com pautas atuais sempre foram prioridades nas escolas de samba. Sejam essas pautas de direita ou esquerda no campo político.

“Acho que as escolas sempre negociaram com o tempo presente. Se precisasse falar de Vargas e exaltar o nacionalismo, muitas escolas fariam e outras talvez não. Caso fosse necessário se associar ao partido comunista, muitas também flertariam. Se fosse pra cantar abertura política, várias cantariam. Elas sempre negociam com o tempo. É fundamental para entender esse período que estamos cada vez mais debatendo a questão racial, é fruto de muita luta dos movimentos negros desde o século XIX até hoje. Negros como Abdias do Nascimento tem seus pensamentos refletidos até hoje no mundo inteiro. Também é necessário entender que as escolas são fruto da diáspora negra africana. Assim, elas não precisam necessariamente falar de um enredo de cultura negra para serem manifestações da cultura negro popular. O que quero dizer é que elas não precisam se afirmar somente pela narrativa de carnaval. Ser escola de samba já é um reflexo ancestral. Claro que acho muito positivo esses temas serem debatido e torço que mais e mais as temáticas cantadas na avenida venham junto de uma ação prática de dentro das escolas para combater o racismo que está dentro delas mesmas. Não podemos esquecer e muito menos romantizar que diversas escolas estão isoladas do mundo social e ainda são machistas, homofóbicas e também racistas dentro de sua estrutura. Além dos enredos as agremiações têm que assumir uma missão prática para combater o racismo na sociedade visto que elas são formadas no seio de comunidades afro brasileiras e representam majoritariamente essas comunidades”, concluiu o antropólogo.

André Rodrigues, integrante do departamento de criação da Beija-Flor, considera o momento importante para a história da festa, mas também exalta a contribuição diária das escolas para além do carnaval.

LOGO BEIJAFLOR

“Eu parto do princípio de que o Brasil não acordou só agora. A luta antirracista, pela sobrevivência da população preta, não só das pessoas mas também de seus pensamentos feitos e contribuição é diária. O movimento está acontecendo desde sempre. Tem o movimento negro, movimento das mulheres pretas, das feministas pretas. Um povo que luta todo dia contra o racismo. Essa ideia que a branquitude afirma que a gente nunca vai pra rua, é bem simples de quebrar. Quando vamos pra rua levamos tiro. Essa infelizmente é a grande verdade. Muitas pessoas só enxergaram a luta antirracista agora porque viram o movimento lá de fora e quiseram colocar aqui de uma maneira mais bacana de se debater. Escola de samba é e sempre será eternamente um grande instrumento disso. Muita gente esquece que é um movimento preto, com cultura de preto. Totalmente nosso e que ninguém faz igual. Até quando a escola negocia seu espaço e voz para falar de outras coisas, como os enredos CEP, ainda sim está sendo um mecanismo de levar o corpo preto de suas comunidades para visitar outros lugares”.

O artista finaliza dizendo que enredos com temáticas afro diaspóricas são uma forma de reaproximação das escolas com seu próprio lugar e origem de nascimento.

“Acredito que o movimento das escolas estarem voltadas para enredos mais afros, como é e sempre foi o caso da Beija-Flor, é um meio de busca pela reaproximação com a origem. Faz com que as escolas olhem para dentro delas mesmas, num movimento de procurar falar mais sobre isso e entender do espaço que vivem. As agremiações voltaram a ver que com essas pautas mais progressistas, são uma forma de dialogar com seu público antes, durante e depois do carnaval. Essas escolhas de enredo se devem a esse fato. Sabem que o diálogo será melhor com sua comunidade e também com a sociedade. A partir disso, o desempenho na Sapucaí é muito melhor, obviamente”, finalizou André.

Império Serrano divulga fantasias de seu enredo Mangangá

Em meio à preparação para a final de seu concurso de samba-enredo, que acontece nesta sexta-feira, o Império Serrano divulgou uma pequena mostra das fantasias de alas que irão representar a africanidade e o caráter lúdico do enredo “Mangangá”, de autoria e que será desenvolvido pelo Carnavalesco Leandro Vieira.

Nos figurinos divulgados (batizados de Exú, Mestre Alípio e Jagunço) as fantasias são uma apresentação visual dos personagens envolvidos na história.

JAGUNCO DIVULGACAO

“De um modo geral as fantasias que desenvolvi são a apresentação visual dos ‘atores’ envolvidos na trama que me serve de enredo. Em desfile, os orixás que guardavam um homem que diziam ter ‘o corpo fechado’, a figura de Mestre Alípio (espécie de griot dos saberes da capoeira no Recôncavo da Bahia e mestre de Besouro), bem como a força bruta e violenta dos jagunços que atendiam aos desmandos de senhores de engenho descontentes com a abolição da escravatura”, define o carnavalesco.

MESTRE ALIPIO DIVULGACAO

Sobre o visual geral que Leandro pretende imprimir em sua estreia no Império, o artista diz que “o enredo permite a escolha de um visual que mescla a africanidade com o caráter lúdico e fantasioso dos que contam histórias colhidas no terreno fértil do imaginário popular. Em Mangangá, sou um contador de histórias. Um homem atento aos ‘causos’ que ouvi. Meu trabalho como criador carnavalesco se deu como uma espécie de desenhista que dá contorno plástico aos personagens que atuam na trama que envolve a figura do capoeirista que apresento como enredo”, completou.

EXU DIVULGACAO DANCA

Besouro nasceu em Santo Amaro/Bahia, no ano de 1895, sendo o principal líder da luta contra a permanência do pensamento escravagista nos primeiros anos após a abolição. O hino oficial do Império Serrano, que embalará a comunidade da Serrinha com o enredo Mangangá será conhecido nesta sexta-feira, 20, a partir das 20h, na quadra da escola e ainda contará com transmissão ao vivo da TV Império Serrano e Canal FitAmarela a partir das 22h.

Portela 2022: samba da parceria de Marquinhos Diniz

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Compositores: Marquinhos Diniz, João Martins, Zé Luiz, Flavinho Bento e Willian Santanna
Intérpretes: Pixulé e Marquinho Art Samba

É Baobá
Tronco forte do destino
Que nas terras de Rufino ganhou forma de Jaqueira
O Canzuá da sagrada criação
Onde Paulo é Guardião, Orixá de Madureira
Mas o pilar, que une o céu e a terra, mora
Por onde aflora a cultura ancestral
Há tantos galhos matizados de lilás
Pra que avó dos orixás viva seu templo Natal
Quantas sementes desse meu lugar
Floriram da seiva do axé, Baobá
O Quilombo de Candeia pede Okolofé
Babá Igi Osé

Valei-me Nanã Buruquê! É hora!
Traz flores que Xapanã mandou
Pra cura da chaga de nossa gente
Tem reza de Preto Velho, mandinga de Marabô
Das cores de Oxumarê, a copa
Floresce muzimba, Jeje e Nagô
Brotam acordes de Paulinho da viola
Num amor azul e branco que Monarco me ensinou

Por esses mares de uma vida inteira
Corriam rios de sangue
Quem sabe as dores do Valongo Ressoam nas pedras do Mangue
Do chão pisado da Velha Gamboa Resiste a alma africana
Árvore sagrada, yorubana
O embondeiro que guarda a raiz do samba
Onde vi Casquinha, Argemiro e tantos mais
Ogans, yaôs, yabás
Portela é resistência, é meu dever lembrar
Fincada sob os pés de Olorum
Cajado de Oxalá

Meu baobá é flecha de Odé
Machado de Xangô, axé!
Se a vida é um jardim, Portela é a flor
Mais perfumada de um poeta sonhador

Portela 2021: samba da parceria de Denice Candeias

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Compositores: Denice Candeias, Robinho, Dimas Mello, Bia Lopes, Nana Alves, Lício Pádua e Alexandre Osório
Intérprete: Daniel Silva

IGI OSÈ BAOBÁ
NO AZUL VAI BROTAR SENHORA DO TEMPO
SEUS FILHOS SÃO LAÇOS SAGRADOS
E JUNTO A JAQUEIRA, RAIZ, FIRMAMENTO
VESTI, TEUS GALHOS DE OJÁS LILÁS
COM OS ORIXÁS, A ÁGUIA CANTA EM FORMA DE ORAÇÃO
A NATUREZA EMANA A LUZ
NO ALTAR DO SAMBA OSWALDO CRUZ

PORTELA… O VENTO SOPRA NA ALDEIA
A LUA DORME E O SOL SEMEIA
E COLHE OS FRUTOS PARA ALMA ALIMENTAR

TU ÉS…
A MÃE QUE VAI MATAR A NOSSA SEDE
TU ÉS…
A FONTE PARA FOME SACIAR
NAS SOMBRAS RENASÇO
DA SECA E DA DOR
NO SOLO SAGRADO, O NEGRO ESPLENDOR
UM FRUTO ANCESTRAL
RAÍZES QUE O HOMEM NÃO CORTOU
MUDA QUE NÃO SE CALOU
NOS QUILOMBOS E FAVELAS, BROTAM FLORES DE ESPERANÇA
JONGOS E MARACATUS, A CULTURA MINHA HERANÇA
FOLHAS SECAS, O PASSADO, SEMEAR SABEDORIA
E CULTIVAR O MEU JARDIM DE POESIA

SALUBA NANÃ BURUQUÊ
SOU FILHO DE OBALUAÊ
SAMBISTA DE MADUREIRA
QUANDO A SIRENE TOCAR
E A TABAJARA PASSAR
PORTELA NÃO É BRINCADEIRA

SALUBA NANÃ BURUQUÊ
SOU FILHO DE OBALUAÊ
SAMBISTA DE MADUREIRA
QUANDO A SIRENE TOCAR
E A VELHA GUARDA PASSAR
PORTELA VAI LEVANTAR POEIRA

Portela 2022: samba da parceria de Wanderley Monteiro

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Compositores: Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Rafael Gigante, Bira, Edmar Jr, Paulo Borges & André do Posto 7.
Intérprete: Wander Pires

Prepara o terreiro, separa a Mucua
Apaoká baixou no xirê
Em nosso celeiro a gente cultua
Do mesmo preceito e saber
Raiz imponente da “primeira semente”
Nós temos muito em comum
O elo sagrado de Ayê e Orun
Casa pra se respeitar:
Meu Baobá!

Ôbatalá colofé
(Tem) batucada no Arê
Pra minha gente de fé
Ayeraye
Nessa mironga tem mão de Ofá
Põe Aluá no coité e Dandá

Saluba, Mamãe! Fiz do meu samba curimba
Mata minha sede de axé
Faz do meu Igi Osè, moringa
Quem tenta acorrentar o sentimento
“Esquece” que ser livre é fundamento
Matiz suburbano, herança de preto
Coragem no medo
Meu povo é resistência feito um “nó na madeira” do cajado de Oxalá
Força africana, vem nos orgulhar!

Azul e Banto
Aguerê e Alujá
Pra poeira levantar
de crioula é meu tambor
Iluayê na ginga do meu lugar
Portela é Baobá
No gongá do meu amor
(Tem gira pro meu amor)

Portela 2021: samba da parceria de Jotacê

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Compositores: Jotacê, Jojó Varela e Djony do Cavaco
Intérpretes: Vitor Cunha e Rixxah

MÍSTICA
TABANKA LEVA O MEU SONHO
DE ÁFRICA ENERGIA QUE CANTAMOS
MÍTICA, A ÁGUIA SOBREVOA O BAOBÁ
SEMENTE DA VIDA MÃE PROTETORA
TRONCO QUE ABRIGA O BRAVO GUERREIRO
DA BRISA SERENA QUE SOPRA AS FOLHAS
AXÉ QUE BROTA DO PÉ, FRONDOSO IMBONDEIRO

DE GEGE, ANGOLA E NAGÔ, A COPA IMPONENTE
QUE OLORUM CRIOU
A NOBREZA E A ALTIVEZ COM A BENÇÃO DE OLOKÊ
OS RAIOS DA MANHÃ E A LUZ DE ILU AYÊ
UM DIA OUSARAM LHE TOMBAR,
SEUS GALHOS SE ESPALHARAM PELO PELO MAR,
RESISTINDO AS CORRENTES, VENCEDOR RESILIENTE
VIVA O VELHO BAOBÁ

IGI OSÉ, SOU NEGRA CONSCIÊNCIA
SOU NEGRITUDE, VOZ DA RESISTÊNCIA

A SEIVA QUE ROMPE AS MORDAÇAS E GRILHÕES
RENASCE NOS COSTUMES E NA FÉ
E ÀS CORES DO ARCO IRIS DE OXUMARÉ
TAMBORES QUE TOCAM NA LUTA DE UM QUILOMBOLA
NO ORGULHO DE SER FAVELA
NA FLOR DA JAQUEIRA DA MINHA ESCOLA
SOU EU PORTELA
QUE HONRA AS TRADIÇÕES DOS BAMBAS
DA VELHA GUARDA, A RAÍZ DO SAMBA
VOU ETERNIZAR

SALUBA NANÃ, MAJESTADE
SOU A ÁGUIA ALTANEIRA
DAS MARGENS DO RIO BENGO
MEU AMOR ETERNO DENGO
FINCOU RAIZ EM MADUREIRA

Casal da Vila Isabel celebra retorno dos ensaios com segurança sanitária: ‘Corpo sente falta de dançar e se movimentar’

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Apesar da pandemia da Covid-19 não cessar no Rio e nem no Brasil como um todo, a vida começa a ganhar ares de normalidade, com a retomada das atividades e o retorno de muitos trabalhos ao modelo presencial. No universo do carnaval não é diferente. Nesta semana, a Liesa decidiu que, caso haja vacina até lá, os desfiles de 2021 irão ocorrer entre os dias 08 e 11 de julho. Casais de mestre-sala e porta-bandeira já voltaram aos ensaios. Anteriormente, o site CARNAVALESCO conversou com Diogo Jesus e Bruna Santos, da Mocidade Independente, além de Daniel Werneck e Taciana Couto, da Grande Rio, para falar sobre o retorno destes casais aos ensaios presenciais. Desta vez, o bate-papo é com outra dupla que também já voltou aos treinos juntos: Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas, responsáveis por defenderem o pavilhão principal da Unidos de Vila Isabel.

“O que levou a gente a tomar essa decisão de retomar os ensaios foi a saudade, primeiramente, e a necessidade. A gente já estava há muito tempo parado. O martelo foi batido agora, mas a princípio eles (a Liesa e os dirigentes das escolas) tinham colocado como janeiro para isso acontecer, para a gente saber se teria carnaval ou não, e estava chegando o prazo. Já estamos em novembro e a Vila começou a se movimentar também. Até então, nossa escola estava parada, a gente não via muita necessidade de estar trabalhando, de fazer algo sem a perspectiva de uma volta definitiva. Com a retomada do processo todo do carnaval na escola, de uma forma em geral, a gente viu a necessidade de voltar, de começar devagarzinho, esperando que o carnaval realmente aconteça. E, logo no nosso primeiro dia de ensaio, a Liesa já bateu o martelo! Oremos, começamos bem, e vamos que vamos”, afirmou Marcinho.

“Muitos foram os fatores que nos motivaram. A escola já esta aos poucos retomando algumas atividades, por exemplo. Mas o principal motivo desta volta aos ensaios é a falta que o corpo sente de dançar, de se movimentar. Estávamos acostumados com essa rotina durante o ano”, completou Cristiane Caldas.

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Por conta da pandemia da Covid-19, a volta aos ensaios presenciais exigem uma série de cuidados. Para evitar o contágio pelo novo Coronavírus, medidas como o uso da máscara de proteção se tornaram fundamentais. “Estamos tomando todos os cuidados necessários, como álcool em gel a todo o momento, além da limpeza necessária de todo local e material utilizado”, destacou Cristiane.

Marcinho citou a mudança de ter de lidar com as medidas de prevenção na prática da dança. “A academia em que ensaiamos está bem focada na proteção dos alunos. A gente ali está seguindo os protocolos deles”.

Devido aos meses parados, por conta da quarentena, a falta de ritmo é outro obstáculo para dupla.

“Mesmo com toda sintonia que existe entre nós, ficamos bastante tempo parados, então é começar devagar pra retomar o ritmo. Voltar aos treinos juntos é ótimo, porque um dá apoio e suporte ao outro. No início da quarentena até a metade, confesso que não fiz nenhum tipo de atividade, me dei um descanso dessa cobrança, mas logo eu consegui alugar uns aparelhos que eu pudesse estar fazendo exercícios em casa mesmo e fui retomando aos poucos”, relatou Cristiane.

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“Assim como a maioria das pessoas, eu achei que a pandemia iria durar duas semanas. Então, acabei relaxando e engordei. Fiquei de um jeito que eu nunca tinha ficado antes, em toda a minha vida, em relação ao corpo. E a partir de um momento percebi que tinha de me segurar, porque na hora que as coisas voltassem a funcionar, como é que eu iria estar? Foi aí que comecei a fazer algumas atividades em casa”, contou Marcinho.

Devido a estes desafios, a ausência de um samba oficial para o próximo carnaval não é algo que afeta aos ensaios da dupla. “Nesse início, o samba em si não é de grande relevância, porque a gente precisa voltar a forma primeiro. Para isso, não precisa de samba definido, não tem coreografia, nem nada disso. A ideia é a gente dançar solto, buscar o improviso, fazer realmente o nosso cérebro e o nosso corpo voltar a essa realidade da dança. E eu acho que essa volta vai ser ainda mais trabalhosa, porque a gente nunca ficou tanto tempo sem dançar. A gente geralmente fica, no máximo, dois meses parados. Vamos trabalhar bastante a questão do corpo, a parte física. E apesar de já estarmos fazendo outras atividades, a dança realmente, os movimentos específicos, são o nosso foco agora”, assegurou o mestre-sala.

“Nosso ensaio não é baseado somente no samba campeão do ano, ensaiamos o samba do último carnaval e outros que nós possamos vir a dançar na quadra ou em uma apresentação. Depois que o samba é escolhido, nós focamos em trabalhar só nele e sempre montamos nossa coreografia de desfile e quadra. E isso serve para todos os anos”, disse a porta-bandeira também.

Questionados pela reportagem do site CARNAVALESCO sobre a definição da data para os desfiles do ano que vem, que ocorreu nesta semana, Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas encararam como algo positivo.

“A notícia é maravilhosa. A gente sabe que há a necessidade de uma vacina ainda, mas é torcer para que ela saia logo e que todo o processo da realização do carnaval aconteça normalmente. A gente espera que isso ocorra o mais rápido possível”, declarou Marcinho.

“Estávamos nervosos para essa decisão, isso é um fato, mas desejo que essa vacina possa aparecer o quanto antes para que tudo possa acontecer da melhor forma. Ainda não sabemos como vai funcionar esse desfile no meio do ano, como vai ser o desenvolvimento de tudo isso, ainda tem muita coisa pra ser pensada. Quanto a previsão de data, temos um tempo pra pensar, nos adaptar a esse novo que está por vir, e acredito que será lindo, feito com todo amor de todos nós sambistas”, garantiu Cristiane.