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Desfiles da Década: O sonho que se tornou real de uma Mocidade pra lá de Marrakesh

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O site CARNAVALESCO dá prosseguimento a série de matérias intitulada de “Desfiles da Década”, na qual apresentações marcantes que passaram pela Marquês de Sapucaí, entre os anos de 2011 e 2020, serão relembradas. Hoje, um desfile que simbolizou o reencontro da Mocidade Independente de Padre Miguel com seus grandes carnavais e que rendeu o sexto título a Verde e Branca, com o enredo “As mil e uma noites de uma ‘Mocidade’ pra lá de Marrakesh”. Em 2017, toda uma geração de torcedores independentes puderam ver pela primeira vez a escola fazer uma apresentação para disputar campeonato, que desde da comissão de frente, uma das mais marcantes no século XXI, até o quesito plástico, um dos maiores problemas da agremiação em anos anteriores, encantaram a Marquês de Sapucaí. Tudo isso embalado por um dos mais belos sambas-enredo da última década, defendido com brilhantismo por Wander Pires.

Antecedentes

O processo de resgate da Mocidade teve início às vésperas do carnaval de 2014. Na ocasião, a escola enfrentava uma grave crise que já durava alguns anos, agravada durante os preparativos para o desfile. O então presidente Paulo Vianna foi afastado temporariamente pela Justiça acusado de cometer irregularidades e má administração no cargo, tendo o vice Wandyr Trindade, mais conhecido como Vô Macumba, que assumir a presidência às pressas. Diante de um cenário desesperador, em que faltava apenas dias para apresentação oficial e não se tinha quase nada pronto, a agremiação contou com um verdadeiro mutirão para conseguir ir para Avenida e com ajuda fundamental de Rogério Andrade, que passou a ocupar o posto de patrono.

Após superar as dificuldades em 2014, a nova diretoria da Mocidade quis investir pesado para o carnaval de 2015 e apostou suas fichas na contratação do artista mais badalado na época: o carnavalesco Paulo Barros. Além disso, trouxe os coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, responsáveis pela comissão de frente da Grande Rio no ano anterior, para comandar o quesito. O enredo escolhido na ocasião foi o fim do mundo, uma proposta autoral de Paulo Barros, baseada em uma música de Paulinho Moska e Billy Brandão. Apesar dos esforços, o investimento feito não se concretizou na Avenida e a escola ficou na modesta sétima colocação, amargando mais um ano fora do desfile das campeãs.

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Jorge Teixeira e Saulo Finelon foram os responsáveis pela comissão de frente. Fotos: Henrique Matos/Liesa

Para 2016, já sem Paulo Barros, a escola recontratou o carnavalesco Alexandre Louzada, que já tinha tido uma passagem pela agremiação em 2012 e 2013. Houve também a contratação de outro artista, que vinha despontando com trabalhos na Unidos de Padre Miguel pela Série A: Edson Pereira. A dupla formada foi a responsável por desenvolver o enredo sobre Dom Quixote, que mesclava um passeio pelas principais obras da literatura brasileira com críticas ao cenário político e social do país. No entanto, por mais um ano, a Mocidade enfrentou problemas nos bastidores e na pista, terminando em um incomodo décimo lugar.

A parceria entre Edson e Louzada teve vida curta e, já para 2017, o segundo carnavalesco seguiu sozinho na escola. E depois dos fracassos anteriores, a agremiação resolveu arriscar a sorte em uma homenagem ao Marrocos, visando obter algum tipo de patrocínio. Em um primeiro momento, a ideia desagradou a comunidade e recebeu diversas críticas. Porém, o olhar lúdico dado por Alexandre Louzada ao enredo e o samba escolhido para o desfile serviram como o começo de uma virada na história independente, que culminaria na apresentação surpreendente daquele ano.

O desfile

A apresentação arrebatadora da Mocidade Independente começou justamente na comissão de frente, assinada pelos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon, intitulada “Teatro de Ilusões”. A ideia era de brincar com o universo mágico e os personagens relacionados aos contos das Mil e Uma Noites. De beduínos a odaliscas, a comissão reunia um total de 23 integrantes, oito a mais do que o limite máximo de 15 aparentes permitido pelo regulamento vigente à época. No entanto, tudo não passava de um truque de ilusão, conforme brincava o título da apresentação. Os beduínos se tratavam de bonecos, que eram controlados pelas odaliscas, que “magicamente” surgiam de dentro dos cestos que eles carregavam. Porém, este não era o único e nem o principal truque.

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O grande ápice acontecia no momento em que o bailarino representando Aladim saia de dentro do elemento cenográfico em formato de tenda, que acompanhava a comissão de frente, em cima de um “tapete mágico”, com o qual passeava pelo chão da Marquês de Sapucaí. Em seguida, ele retornava para dentro da tenda e depois de alguns segundos um aeromodelo, simulando o Aladim no tapete, saia sobrevoando a pista e as arquibancadas. O cuidado com os detalhes e as proporções criava a ilusão para o público presente na Avenida, pelo menos por uns instantes, de que realmente o componente estava voando. Uma cena que gerou um verdadeiro êxtase na plateia, com direito a muitos gritos e aplausos. Algo que não era visto desde a comissão de frente do desfile “É segredo”, da Unidos da Tijuca, em 2010.

“Este carnaval se resume em uma explosão de emoções. Apostar no que você acredita e ver tudo dando certo, o sentimento de dever cumprido em uma festa que mexe com o coração de muitos torcedores… Quando o Aladim fez seu primeiro voo no setor 1 foi o ápice que não vou esquecer nunca. Vou levar para o resto da minha vida! Essa comissão teve um papel muito importante na nossa carreira. Seremos lembrados para sempre como os pais do Aladim”, relatou o coreógrafo Saulo Finelon, um dos responsáveis pela comissão de 2017, em conversa com o site CARNAVALESCO.

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Após a comissão levar o público ao delírio, chegava a vez de Diogo Jesus e Cristiane Caldas, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mocidade, se apresentarem. Tratava-se do segundo ano da dupla junta defendendo o pavilhão principal da Verde e Branca de Padre Miguel. Já com um maior entrosamento em relação a estreia, os dois realizaram uma apresentação segura e sem falhas, com um figurino luxuoso, todo nas cores da escola. A fantasia da porta-bandeira trazia ainda um certo toque de ousadia ao abrir mão do uso do costeiro.

Depois do casal, o desfile tinha sequência com uma primeira ala, representando guerreiros marroquinos nas cores do país homenageado, até a chegada do imponente carro abre-alas, denominado “Bem vindos ao Reino Encantado do Marrocos”. Na frente da alegoria, nove pequenos tripés acoplados simbolizavam uma caravana de camelos, todos dourados e com movimentos. No chassi principal, uma reprodução de um monumento erguido ao rei Mohamed V, na cidade de Rabat, capital do Marrocos. Um carro que impressionava, mais do que pelo luxo ou pelo tamanho, pela beleza do conjunto.

Ainda no começo do desfile, outro momento de deleite visual ocorria durante a passagem da tradicional ala de baianas da Mocidade Independente, comandadas por Tia Nilda, que na ocasião vinham trajadas como vendedoras de chá de hortelã. A fantasia das senhoras de Padre Miguel era toda em tons de verde, mesclado com preto e detalhes em prata, e tinha direito a plumas na cabeça e no costeiro. Um detalhe interessante é que elas borrifavam uma fragrância sobre o público, enquanto evoluíam pela Sapucaí.

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Na sequência da apresentação, a segunda alegoria do desfile, que tinha como nome “Nos Mercados do Marrocos, Meu Ouvido é de Mercador, retratava o comércio do país africano e toda sua gama de produtos. Em alusão ao verso do samba-enredo que dizia “É o Saara de lá com o Saara de cá”, que por sua vez fazia uma brincadeira com o deserto marroquino e a região de comércio popular no centro do Rio, havia ainda um paralelo da relação Brasil – Marrocos, com o encontro das duas nações. Vale destacar, neste carro, o esmero nas esculturas e o belo trabalho de iluminação.

E assim como na segunda alegoria, há de se elogiar o trabalho luminotécnico realizado no terceiro carro, intitulado de “Abre-te, Sésamo, que o Samba Ordenou: As Riquezas do Solo Marroquino”. Todo em dourado, o carro fazia referências a história de Ali Babá e os 40 ladrões, tendo cavernas nas laterais representando os esconderijos em que os bandidos escondiam os frutos dos roubos. Uma curiosidade é que a escultura central, que representava Ali Babá, ganhou o rosto do carnavalesco Alexandre Louzada em uma homenagem feita pela equipe do barracão da escola.

“O carnaval de 2017 tem um significado especial para a minha carreira por se consolidar como o resgate da auto estima da Mocidade Independente, dessa torcida apaixonada que voltou a sorrir orgulhosa depois de um jejum de muitos anos desde a era Renato Lage. É importante pra mim também por ter sido um trabalho fruto de muita luta e dificuldades, superadas com um trabalho artesanal e criatividade, já que os recursos eram bem pequenos. Ao contrário do que muitos pensam, não houve patrocínio do Marrocos, pelo menos não que eu saiba, e também por reunir grandes profissionais”, afirmou Alexandre Louzada ao site CARNAVALESCO.

No setor seguinte, que abordava as riquezas e os mistérios do oceano que banha o Marrocos, o destaque fica para a bateria Não Existe Mais Quente. Os ritmistas comandados por Mestre Dudu vieram com a fantasia “Quem Dera Eu Fosse Simbad, Aventureiro, Marujo dos Sonhos”, um traje leve, que permitia uma boa evolução e não atrapalhava a execução dos motivos. Em relação ao ritmo, a bateria soube conduzir de forma segura o samba-enredo melódico, com direito a algumas bossas e até a coreografia.

Ainda nesta parte musical, também há de se destacar o trabalho da harmonia e da boa interação dos ritmistas com o carro de som liderado por Wander Pires, retornando para sua quinta passagem pela Estrela Guia de Padre Miguel. Aliás, o intérprete, que é cria da Mocidade, deu um verdadeiro show no microfone oficial em uma performance praticamente irretocável. Destaque também para o trabalho competente da direção de carnaval, comandada por Marquinho Marino, que devolveu para Padre Miguel a organização de desfile e uma defesa forte de todos os quesitos.

E muito deste bom desempenho de bateria e carro de som ocorreu graças a qualidade acima da média da obra composta por Altay Veloso, Paulo César Feital, Zé Glória, J. Giovanni, Dadinho, Zé Paulo Sierra, Gustavo, Fábio Borges, André Baiacú e Thiago Meiners. O samba-enredo não só era um dos melhores da safra de 2017 como também configura entre os melhores da última década. Além disso, o samba tocava no fundo do coração do componente e do torcedor independente ao exclamar, no final do refrão principal, o verso “Sonha Mocidade”. Um sonho, que diante daquela apresentação, era cada vez mais real.

“O samba de 2017 é uma coisa muito especial. Altay Veloso e eu sentamos para fazer esse samba, sabíamos que ia sair uma coisa bonita, mas dentro de uma escola onde a gente nunca havia participado de nada, como era a Mocidade, achei que íamos chegar como uma dupla estranha. Mas, para minha surpresa, o samba pegou dentro da quadra. Ele foi muito bem aceito e aquilo me motivou absurdamente. Era uma trilha nova, até porque o samba-enredo para mim era muito recente, porém comecei a sentir que aquela linha melódica estava entrando nos corações das pessoas. E o curioso é que esse samba foi feito muito rápido, em mais ou menos uma hora ele já estava pronto. Acho que o legado que este samba deixa é o de resgatar as células dos sambas antigos, de beleza, de apaixonamento, de emoção. Nós voltamos a imprimir em um samba-enredo a matriz dele”, disse o compositor Paulo César Feital para o site CARNAVALESCO.

A identificação do componente com a letra se refletiu no canto da escola, que entoou o samba-enredo do início ao fim. Até mesmo no quesito evolução isso se refletiu, com uma apresentação sem correrias ou sobressaltos, com o desfilante solto e animado.

“Minha memória mais marcante deste desfile foi quando eu vi, logo no início, o povo nas arquibancadas cantando o refrão do samba. Aquilo, para mim, estrondou no meu coração de tal forma como se Deus estivesse dentro de mim, e Ele está realmente, e naquele momento ele fosse um Rei Momo interno. Uma emoção, assim, maravilhosa”, contou Feital.

Fechando o setor sobre o oceano, a quarta alegoria, chamada de “Contos de Areia e Mar – Mil e uma Aventuras na Lendária Costa Marroquina”, trazia figuras reais que habitam a profundeza das águas, como os cavalos-marinhos, até aquelas do imaginário popular, como as sereias. A alegoria mesclava o colorido dos corais com um predomínio do verde e do azul, dando um belo efeito visual. Outro fator interessante era que, ao ser vista de cima, era possível ver a forma de um grande cavalo-marinho de 35 metros de comprimento.

No entanto, apesar da beleza, a quarta alegoria foi uma das mais problemáticas do desfile. Em diversos momentos da passagem pela Sapucaí, ela apresentou dificuldades de locomoção e chegou a encostar nas laterais da pista. Já no final do Sambódromo, um queijo que trazia uma destaque descolou e caiu. Apesar da queda, a componente não se feriu e deixou a Avenida normalmente. E como a estrutura que quebrou estava do lado oposto ao da última cabine de jurado, o incidente não iria acarretar na perda de pontos para escola.

Em seguida, ao falar da educação, o penúltimo setor do desfile era encerrado com uma alegoria que retratava a primeira universidade do mundo. Intitulada de “Oásis do Saber: Candeia da Humanidade”, ela era toda em branco e mudava de cor conforme a luz. Nela, havia ainda a presença da velha guarda da Mocidade Independente, em uma posição de destaque, em uma justa homenagem aos grandes guardiões do conhecimento e da história da escola.

A integração entre Marrocos e Brasil através do carnaval e da Mocidade era o tema do último setor. O carro que fechava a apresentação, denominado “Miragem Carnavalesca: Das Praças do Marrocos à Praça da Apoteose”, mostrava figuras clássicas da folia, como pierrô e colombina, mas tinha como grande destaque o símbolo maior da agremiação: o escudo, com a estrela-guia, todo em néon verde. Um grande desfecho, para um desfile emocionante, de uma escola que se reencontrava, após longos anos de crises e insucessos.

Apuração

Ao término dos desfiles, a sensação era de que a Mocidade Independente finalmente conseguiria retornar ao Desfile das Campeãs, depois de 14 anos longe. Os erros cometidos por escolas consideradas como favoritas ao título, como a atual campeã na época Mangueira, davam ainda uma esperança de algo a mais para escola. Na quarta-feira de cinzas, o que se viu foi uma disputa acirrada pelo caneco e uma liderança, de certa forma, surpreendente da Mocidade até o último quesito lido: Enredo. Após receber duas notas 9,9 em sequência, a Verde e Branca de Padre Miguel viu o campeonato escapar e ir para Portela, que voltava a vencer após 33 anos de jejum. Já a Estrela-Guia ficou com o vice-campeonato, que foi celebrado tanto quanto uma vitória.

Encerrada a apuração, a classificação final do carnaval 2017 do Grupo Especial teve a Portela em primeiro lugar com 269,9 pontos, apenas um décimo à frente da Mocidade Independente de Padre Miguel, que fechou com 269,8 pontos. A diferença mínima, décimo a décimo, também pode ser vista nas posições seguintes. Enquanto o Acadêmicos do Salgueiro concluiu com 269,7 pontos na terceira colocação, a Estação Primeira de Mangueira terminou em quarto com um total de 269,6. As duas últimas vagas no sábados das campeãs ficaram com a Acadêmicos do Grande Rio e com a Beija-Flor de Nilópolis, que mesmo em sexto lugar concluiu com somente 0,7 abaixo da Portela.

Na sequência da classificação, a Imperatriz Leopoldinense, a União da Ilha do Governador, a São Clemente e a Unidos de Vila Isabel ficaram no meio de tabela. Já as duas agremiações que enfrentaram graves acidentes durante os seus desfiles, a Unidos da Tijuca e a Paraíso do Tuiuti, ficaram na penúltima e última posição respectivamente. Todavia, ambas não correram risco de rebaixamento. A Liesa, liga responsável pelo Grupo Especial do Rio, decidiu cancelar o descenso para Série A naquele ano em uma plenária de emergência, realizada momentos antes da leitura das notas. Na reunião, também ficou decidido que, para compensar, duas escolas seriam rebaixadas no ano seguinte, o que acabou não ocorrendo.

Erro de jurado e divisão do título

Mas as surpresas e reviravoltas com o resultado não pararam por aí. Vinte dias depois da apuração, a Liesa divulgou as justificativas das notas dos jurados e um erro foi constatado no julgamento de Valmir Aleixo, do quesito Enredo. O jurado em questão descontou um décimo da Mocidade devido a falta de um destaque que considerava importante para a apresentação do enredo na Avenida. O problema é que a interpretação de Aleixo se baseava em informações da primeira edição do livro Abre-Alas, roteiro das escolas que é fornecido pela liga aos julgadores. Na versão atualizada, não constava mais a presença do destaque, retirado do desfile da agremiação após a ida de Camila Silva para o posto de rainha de bateria.

“A questão do erro do jurado cria um precedente único, pois o julgador em questão havia ignorado a errata enviada em tempo permitido pelo regulamento onde constava a retirada da Camila Silva da posição de musa e a sua inclusão como rainha de bateria. Um deslize que poderia ter passado despercebido, mas que a Mocidade estava atenta. Porém, quero ressaltar a vitória partilhada com a Portela que também fez um belo desfile naquele ano”, declarou Alexandre Louzada ao site CARNAVALESCO sobre o episódio.

Para efeito de comparação, caso a Mocidade Independente não tivesse perdido a pontuação, a Verde e Branca de Padre Miguel seria a campeã de 2017, porque ficaria empatada com a Portela. O desempate, conforme foi anunciado no início da apuração, era o quesito Comissão de Frente, em que a Azul e Branca de Madureira perdeu um décimo e a Estrela-Guia alcançou os trinta pontos. Diante disso, a Mocidade entrou com um recurso administrativo que solicitava a divisão de título. O pedido foi julgado em um plenária realizada no dia 05 de abril de 2017, entre a diretoria da Liesa e os presidentes das escolas de samba do Grupo Especial. Durante a votação, sete escolas de samba, incluindo a própria Mocidade, foram a favor da divisão do campeonato. Houve cinco abstenções, incluindo o Império Serrano que voltava à elite após vencer a Série A daquele ano. A única contrária à decisão foi a Portela.

Imperatriz Leopoldinense faz homenagem para Luizinho Drumond em sua bandeira

A Imperatriz Leopoldinense apresentou sua nova bandeira com uma homenagem ao seu patrono e presidente Luiz Pacheco Drumond. Foram adicionadas as letras LPD abaixo da estrela maior na bandeira, que simboliza o bairro de Ramos.

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A presidente Cátia Drumond falou sobre a homenagem:

“Mais do que um marco no tempo, o 62° aniversário da Imperatriz Leopoldinense pontua uma nova era para nossa escola querida. Trata-se da primeira passagem após a partida de nosso eterno presidente Luiz Pacheco Drumond, a primeira vez em que celebrar, mais do que um ato festivo, se torna um auto de respeito e reverência. Por aqui, seguimos trabalhando forte, focados num grande desfile para o próximo festejo, buscando a superação, a transposição dos limites, na rumo ao nosso grande ideal.

Nesta data tão especial, apresentamos a todos os Gresilenses, à nossa comunidade, aos torcedores e ao mundo do samba, através do bailado de nosso 1° Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira Thiaguinho e Raphaela, a bandeira que brilhará em nosso próximo cortejo, ostentando suas formas e cores tradicionais, agora com o brilho e a força da assinatura de nosso eterno patrono, através das iniciais LPD.

Este é o presente da Imperatriz em honra e gratidão ao homem que tanto lutou para transformá-la na verdadeira realeza da folia. Um carinho à memória de nosso herói! Ao fundo, o altar de São Judas Tadeu – nosso santo padroeiro – emoldura este momento mágico para toda a nação leopoldinense; sagrando assim o nosso manto para uma nova caminhada, guardando o passado em nosso olhar para o futuro, estabelecemos outra vez a conexão divina entre o céu e a terra, entre quem vive para perpetuar o legado passado pelas gerações e as lembranças daqueles que tanto amaram o carnaval.

Dizem os mais antigos, que quando um casal ergue seu pavilhão e dança em profunda harmonia, a energia viva do nosso chão vibra através do passo riscado dos pés e se eleva ao firmamento no giro bravio da bandeira, iluminando a morada dos sambistas que cumpriram sua jornada. Que esta dança, neste dia, nesta intenção, seja o prenúncio da eternidade de nossa querida agremiação, um gesto de carinho e inspiração, para que se cumpra a ciranda dos herdeiros, no terno semear da continuidade de nossa cultura e de nossa identidade gloriosa”.

Cláudio Vieira: ‘Não era o pintor’

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Como fazia habitualmente, Dona Neuma Gonçalves almoçou bem, tomou as suas braminhas e foi tirar uma  soneca no sofá da sala, onde a porta estava sempre aberta. A casa da filha de Seu Saturnino – um dos fundadores da Verde e Rosa – tinha uma frequência somente comparável à da própria quadra da Estação Primeira, ali ao lado.

Naquela tarde, Dona Neuma foi acordada com alguém batendo no portal, chamando. Sobressaltada, deu um pulo do sofá, procurando os óculos. Enxergou apenas o vulto de um homem, que dizia, timidamente:

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– Dona Neuma, sou eu, o Nenê.

Dona Neuma nem percebeu que o escurinho usava chapéu, um terno bem-ajambrado e fazia mesuras, saudando uma das mais importantes figuras da Corte Verde-e-Rosa. Reagiu, contrariada:

– Que pintor?! Eu não chamei pintor nenhum. Pintei minha casa outro dia. Vocês estão pensando o quê? Que eu sou milionária?

O sujeito ficou mais encabulado ainda. Resolveu se aproximar e se identificou:

– Não sou pintor, Dona Neuma. Sou o Nenê, o Nenê da Vila Matilde.

Era o fundador da afilhada paulistana, que vinha pedir permissão para homenagear a Mangueira no enredo daquele ano.

Viradouro estreia reality com aderecistas do Grupo Especial

A Viradouro estreia nesta terça, às 19h, o primeiro reality show do Carnaval carioca. “O Aderecista”, que será exibido pelas redes sociais da escola (Facebook e Youtube), é uma competição entre profissionais das escolas de samba do Grupo Especial, com o objetivo de valorizar e dar visibilidade aos artesãos da festa.

aderecistaAlém de troféu, o vencedor ganha um aparelho de TV em LED e os demais concorrentes, fornos micro-ondas. Na primeira edição, participam profissionais da Portela, Mocidade e Viradouro. Cada agremiação indicou um aderecista e um assistente. Representando a Portela, estarão Vera Galvão e Deborah Portela; pela Mocidade, os indicados foram Guilherme Ferreira e Kaleb Lopes. A terceira dupla do programa de estreia é formada por Biano Ferraro e Wladimir Viana, da Unidos do Viradouro.

Os jurados da disputa são os carnavalescos Alexandre Louzada, da Beija-Flor, Edson Pereira, da Vila Isabel, e o ator Aílton Graça, torcedor do Salgueiro e da Mangueira. A jornalista Alice Fernandes é a apresentadora da atração, que tem ainda as participações de Tarcisio Zanon e Marcus Ferreira, carnavalescos da escola de Niterói, orientando os competidores.

“O Aderecista” é um projeto da Muitamídia, que vai produzir outros modelos inéditos de reality para a Viradouro – última campeã da Sapucaí, em 2020 -, também enaltecendo profissionais que têm pouco destaque e que são fundamentais para a realização dos espetáculos que encantam o público no Sambódromo carioca.

Artigo: ‘Quatro anos em um: efeitos da pandemia sobre a criação do desfile de uma escola mirim’

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
MUSEU NACIONAL
LABORATÓRIO DE ESTUPRATES DOS DO DISCURSO, IMAGEM E SOM
OBSERVATÓRIO DO CARNAVAL
PROJETO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA OBCAR
AUXILIADOR: PHELLIPE PATRIZI
ARTISTA-PESQUISADOR: CLEBSON

Milton Cunha: “Olá, queridos leitores. Seguimos com as publicações do resultado da fascinante experiência de Iniciação Acadêmica que realizamos no Observatório do Carnaval, sob a liderança da Emerita Tania Clemente, pesquisadora do Museu Nacional. Doze alunos sambistas se inscreveram, das mais diversas origens: cantores, mestres de bateria, carnavalescos, todos desejosos de empreender pesquisa acadêmica sobre assuntos que lhes interessavam, mas ainda sem as diretrizes da teoria da pesquisa. Pois bem, seis conseguiram encerrar seus textos declaratórios das hipóteses e possibilidades que serão contempladas em futuros mergulhos, em cursos de graduação nas universidades. Todos os textos serão publicados nesta Declaração de Intenções: são textos em processo, pesquisa em construção. Mas que dá uma alegria danada a gente ler, porque é o início das investigações teóricas de um povo que tem muita prática e quer se aventurar por esta forma de documentação que é a Academia. O cânone está em festa. Viva o Episteme Ziriguidum e a força destes guerreiros pesquisadores que além do saber tem a disposição. Boa leitura!”

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Introdução

Desde a adolescência, me animo com a possibilidade de poder assistir aos desfiles das escolas de samba mirins, onde ocorre no mesmo palco das escolas dos “adultos”, a Avenida Marquês de Sapucaí, na região Central do Rio de Janeiro. Era para este lugar que todo ano reuníamos uma criançada da Baixada Fluminense rumo ao centro do Rio para acompanhar os cortejos infanto-juvenis, já que era o único dia de apresentações gratuitas. Geralmente, estes ocorriam nas sextas momescas, apesar de alguns anos terem sido transferidos para as quintas que antecediam a folia.

Anos mais tarde, em 1991, fiz a minha estreia nas agremiações mirins, na extinta Flor do Amanhã, escola formada por crianças de comunidades empobrecidas e em situação de rua lideradas pelo carnavalesco Joãozinho Trinta. Neste mesmo ano, pisei na Passarela do Samba como mestra-sala do Grêmio Recreativo Escola de Samba (G.R.E.S.) Unidos da Ponte, escola de samba localizada nas proximidades da comunidade onde eu morava, Gogó de São João, em São João de Meriti. Movido pela curiosidade e pelo amor ao carnaval, perguntei a diretoria se já haviam definido os nomes do casal de mestre-sala e porta-bandeira e, sem titubear, me ofereci para ocupar o posto. Este momento singular e apaixonante marcou a minha vida como um profissional do samba. Além da Flor do Amanhã, conduzi os pavilhões da Inocentes da Caprichosos e da Corações Unidos do C.I.E.P.

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Passados alguns anos, já na fase adulta, na época em que era figurinista de diversas agremiações do carnaval carioca, resolvi galgar posições mais altas e me tornar um carnavalesco daquele seguimento que me encanta desde tenra idade – o desfile que para onde olhava, só tinham crianças: as escolas de samba mirins do carnaval carioca. Após dois anos realizando o meu sonho de ser o principal responsável pela criação artística da Unidos da Cabuçu (2013/2014), trabalhei por igual período (2015/2016) em outra agremiação, dessa vez na verde e rosa mirim, a Mangueira do Amanhã, e atualmente estou a caminho do meu quinto carnaval na Pimpolhos da Grande Rio, no total de sete anos no cargo de carnavalesco desse seguimento de escolas de samba.

Essa admiração e curiosidade pelas agremiações infanto-juvenis motivaram esse projeto de pesquisa sobre a atual pandemia do coronavírus (covid-19), tal efeito na construção de um desfile mirim e a peculiaridade de se pensar dois enredos para um mesmo ano; o primeiro pensado para um carnaval “normal” e o segundo, elaborado e moldado para o momento pandêmico. Uma produção artística pensada na otimização de custos, mão de obra e tempo. Sem a autorização para a realização do carnaval em 2021, seja em fevereiro, seja em julho, e o período de entrega dessa pesquisa, não foi possível ser concluí-la na sua totalidade. O que se almejava era estudar os resultados pensados e estudados com toda mudança feita de enredos, fantasias e alegorias. Até a data de entrega desse texto, a produção e reprodução das alegorias e fantasias já estavam paralisadas há três meses e com o anúncio do cancelamento dos cortejos fez com que o foco mudasse e começássemos a planejar o carnaval de 2022, adiaram-se mais uma vez o primeiro enredo pensado. Esse ficaria para o carnaval de 2023. Fica então a missão de concluir essa pesquisa ao término desse carnaval.

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Nessa investigação narrativa pretendo mostrar como a escola de samba mirim Pimpolhos da Grande Rio não parou de produzir artisticamente o próximo carnaval, apesar das limitações impostas pela pandemia do coronavírus, e como foi todo o processo de criação e produção plástica da agremiação. Dentre os demais objetivos desta pesquisa, busco: descobrir novas formas de redução para a construção de um desfile de uma agremiação mirim sem comprometer a arte e a qualidade das fantasias e alegorias; provocar reflexões sobre os processos de reinvenção e adaptação de tais escolas de samba em momentos de escassez financeira e auto-sustentação baseada no que se produz dentro de uma agremiação.

Divido esse texto em cinco momentos. A primeira intitulada de G.R.C.E.S.M. e Pimpolhos, um breve apanhado do universo das Escolas de Samba Mirins e da Escola de Samba Pimpolhos da Grande Rio. Na segunda, Enredo e materialização das ideias são explicitados a importância desse quesito e como se constrói todo o processo em cima do tema. Com o título de Pandemia e suas complicações na cadeia produtiva dos desfiles, a terceira parte conta as consequências da quarentena no início do processo das tarefas de construção do enredo. A quarta nomeada de As consequências da pandemia para os cortejos, versa sobre os adiamentos e cancelamentos de datas por parte do Estado e L.I.E.S.A. e a última e quinta parte, As sequelas da doença na mão de obra dos barracões, aponta para a situação em que ficaram os colaboradores do espetáculo.

Esta investigação se detém a análise dos dados coletados em todo o processo de elaboração dos dois enredos propostos para o carnaval de 2021 – matéria prima, mão de obra, cronogramas, análises de materiais da mídia, livros e textos relacionados a carnaval e desfiles de Escola de Samba e a observação das consequências impostas pelo isolamento social da população devido à pandemia do covid-19.

1. G.R.C.E.S.M. e Pimpolhos

Denominadas, em sua maioria, como Grêmios Recreativos Culturais Escolas de Samba Mirins (G.R.C.E.S.M.), crianças e adolescentes de diversas localidades da região metropolitana do Rio de Janeiro apresentam gratuitamente os seus cortejos carnavalescos na terça-feira de carnaval com o foco na sociabilidade de seus integrantes. Tais agremiações, permeadas de projetos de cunho político-pedagógicos, relevam-se também pólos produtores de culturas negras e de ancestralidade, conforme ressaltou Ana Paula Ribeiro (2018):

Capitaneadas pela Associação das Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro (AESM-Rio), essas escolas teriam como projeto a circulação da cultura afro-brasileira a partir dos ensinamentos orais dentro das quadras das escolas de samba, tendo como forte componente as relações intergeracionais e como objetivos a formação para o trabalho e o movimento de manutenção/transformação do samba carioca (RIBEIRO, 2018, p.190).

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Embora as primeiras agremiações mirins sejam datadas no início da década de 1980, a exemplo do pioneirismo do G.R.C.E.S.M. Império do Futuro, fundada em 1983, contudo o primeiro desfile da escola só ocorreu em 1984 com a inauguração da Passarela do Samba Darcy Ribeiro, conhecida popularmente como Sambódromo carioca. Quatro anos mais tarde, em maio de 1988, foi a vez da criação da Liga Independente das Escolas de Samba Mirins (L.I.E.S.M.), responsável pelos desfiles entre os anos de 1989 e 2002, no entanto, a instituição continua sendo representante legal da escola de samba mirim Ainda Existem Crianças na Vila Kennedy, “filha” do G.R.E.S. Unidos da Vila Kennedy. Até 1989, as agremiações desfilavam abrindo os dias dos desfiles das escolas dos grupos de Acesso (atual Série Ouro) e Especial, as escolas eram dividas em três grupos que desfilavam no sábado, domingo e segunda de carnaval. De 1990 à 1992, os desfiles passaram para a sexta-feira de carnaval. Com a divisão do grupo de acesso em 1993 para 2 dias de desfiles, o cortejo infanto-juvenil passou para quinta-feira que antecedia os dias de folia até o ano de 1996. De 1997 ao ano 2000, os desfiles passaram para terça-feira de carnaval. Retornaram para sexta-feira em 2001 e permaneceram até 2012, porém desde 2013 até 2020, os desfiles voltaram a finalizar o carnaval carioca na terça-feira de carnaval. Desde o mês de junho de 2002, os desfiles são organizados pela AESM-Rio, órgão presidido atualmente por Edson Marinho e responsável pelos desfiles não competitivo entre as 16 escolas. Segundo Arleson Rezende, então diretor de comunicação e coordenador de avaliação da entidade, relembrou o ineditismo da iniciativa de se criar uma agremiação voltada para essa faixa etária:

O Carnaval mirim inicia sua existência com o sonho de um visionário em fundar uma agremiação carnavalesca formada genuinamente por crianças e jovens, onde aprenderiam como se desenvolve e a origem das escolas de samba e seus principais personagens e militantes. Arande Cardoso dos Santos, o Careca do Império Serrano, em 1979, Ano Internacional da Criança, teve a brilhante e desafiadora ideia, porém somente quatro anos após, com o apoio de grandes nomes do samba e carnaval como Alcione, Martinho da Vila e Beth Carvalho, entre outros, fundou a primeira escola de samba mirim, o Império do Futuro (REZENDE, 2012).

Dentre a totalidade das agremiações da instituição, doze são vinculadas a uma escola-mãe, (as tradicionais escolas compostas pelo público adulto), tal como ocorre com a G.R.C.E.S.M. Pimpolhos da Grande Rio, cujos laços “maternais” estão ligados ao G.R.E.S. Acadêmicos da Grande Rio, escola do município de Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro. Fundada no ano de 2002 com o propósito de participar dos desfiles mirins, a escola se apresentou pela primeira vez no carnaval seguinte, em 2003, com cerca de 1300 crianças oriundas do município. No ano seguinte, foi configurada ao status de Organização não-governamental (ONG) alçando o patamar de uma instituição independente, com a sua própria missão, visão, valores e objetivos e oferecendo as comunidades com quem a escola se comunica, possibilidades de construção cidadã tendo como foco a manifestação cultural afro-brasileira dos desfiles de escola de samba.

2. Enredo e materialização das ideias

Nos primeiros desfiles das escolas de samba cariocas, ainda na década de 30, não havia a obrigatoriedade de se apresentar um enredo calcado em uma dramatização completa do tema, do início ao fim do cortejo. Dessa forma, o tema escolhido e as fantasias e alegorias poderiam exibir uma discrepância artística entre elas, como atestou Simas e Fabato (2015) de que “não havia, nos primeiros tempos dos concursos, uma ligação necessária entre o enredo proposto pela agremiação, o aparato visual do cortejo e os sambas apresentados” (p.14). A única obrigação, no entanto, era de ser um enredo de cunho nacionalista como aconteceu no concurso do carnaval de 1938 cujo regulamento introduziu a obrigatoriedade de temas nacionais, fator de exaltação nacionalista da Era Vargas, sobretudo na véspera do período da ditadura do Estado Novo.

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Em 1939, no entanto, Portela integrou em enredo o todo do seu desfile. Foi a primeira vez de um desfile todo voltada para um tema (SILVA;SANTOS,1989). Portela se consagrou campeã capitaneada por Paulo da Portela, autor do enredo Teste ao Samba, sendo ele o próprio compositor do samba e tendo a responsabilidade da harmonia. Desde então, tornou-se importante o cuidado com o enredo que do cortejo e como esse tema passa na Avenida para que haja uma unidade. Essa se tornou uma obrigação da agremiação (CAVALCANTI, 2006), que por meio do tema selecionado para o carnaval, carnavaliza aquela história em fantasias, alegorias, adereços, samba de enredo e o ritmo da bateria.

A escolha dos enredos da Pimpolhos da Grande Rio a cada ano segue uma linha diferente. Nesses cinco anos em que faço parte da equipe de produção dos desfiles, tivemos enredos inspirados em palestras ministradas por Luiz Antônio Simas sobre o centenário do samba (2017 – 100 Anos de Samba, Pimpolhos de Bamba); construção coletiva do Núcleo de Ações Educacionais do departamento pedagógico da Escola sobre cidadania (2018 – Samba Cid com alegria, Pimpolhos canta a cidadania); uma composição de Heitor Villa Lobos da década de 1910, em uma parceria junto ao Museu que leva seu nome (2019 – O Carnaval da Crianças Brasileiras de Heitor Villa Lobos); uma obra da literatura infantil do autor Alexandre Rampazo (2020 – A cor de Coraline).

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As seleções de tais temas costumam ocorrer anteriormente ao calendário de seleção dos temas das diversas agremiações do carnaval carioca. Enquanto estas últimas começam a produzir seus desfiles a partir de setembro, no mês de agosto todas as fantasias das alas da Pimpolhos já foram finalizadas e estão ensacadas para serem entregues aos componentes da escola. Essa antecipação acontece porque a mão de obra da produção do desfile da Pimpolhos colabora também na feitura de alas na Acadêmicos da Grande Rio (outubro inicia-se a reprodução das fantasias) e por sabermos quais os materiais que serão utilizados e depois descartados pela da escola, conseguimos ter o parâmetro do que poderemos utilizar dos materiais usados e confeccionados no desfile da sua escola-mãe para o ano seguinte. Como exemplo, tal como sucedeu nos preparativos para a apresentação de 2020, quando a Pimpolhos optou por abordar em seu desfile um enredo a partir de um tripé cedido pela sua mãe Grande Rio. No elemento alegórico tinham alguns lápis de cores e um globo terrestre frequentemente usados nas escolas. Como queríamos levar um enredo sobre um livro infantil para a Avenida, nos foi proposto por uma diretora para que abordarmos a obra A cor de Coraline, já que nela são explicitadas cenas relativas a estes materiais e dessa forma poderiam reaproveitá-los em sua totalidade visando o nosso cortejo de 2020. Para tal compreensão, Cavalcanti (2006) ressalta:

O termo nativo “enredo”, utilizado na expressão corrente de “enredos carnavalescos”, é extraído de formas eruditas de criação artística e é muito enganoso. Num desfile, um enredo – ou seja a narrativa verbal, em geral escrita, que origina o processo artístico – funciona apenas parcialmente como princípio organizador da narrativa ritual propriamente dita. O termo indica, no ponto de partida do processo de criação coletiva, um ideal de unidade que assegura uma espécie de moeda semântica comum sempre pronta a ser trocada, expandida ou transformada em muitos outros significados. Sob esse aspecto, samba-enredo de um lado e alegorias e fantasias de outro como que se opõem (CAVALCANTI, 2006, p. 20).

Os preparativos para o desfile da Pimpolhos de 2021 iniciaram mais cedo do que o habitual,se compararmos ao período em que transcorreu cada etapa do processo criativo nos carnavais anteriores. Devido à experiência do ano anterior em que escolhemos um enredo inspirado na temática associada ao tripé que nos foi doado pela escola-mãe, dessa vez a ideia consistia em tentar aproveitar não somente um elemento cenográfico, mas todas as sobras de fantasias, adereços e peças do desfile de 2020 Tatalondirá, o canto do caboclo no quilombo de Caxias. Percebemos que muitos materiais utilizados pela escola-mãe no desfile apresentariam referências às culturas africanas e afro-brasileiras, analisamos então que, se seguíssemos essa mesma temática, teriam mais recursos para serem reaproveitados na construção do desfile da Pimpolhos visando o próximo carnaval.

Desta forma, o tema escolhido teve como ponto de partida o espetáculo infantil de O Pequeno Príncipe Preto. Obra de autoria do escritor e ator Rodrigo França, recentemente publicada em formato de livro, onde aborda de uma forma analógica a obra de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe, traços e costumes do povo e da cultura africana. Logo após a escolha do enredo, foram elaborados os croquis das fantasias e os desenhos das alegorias ainda em 2019, usando texturas, cores e tecidos usados pelo enredo da escola-mãe aguardando apenas a espera do aval para o início da confecção do desfile a partir do mês de março de 2020.

3. Pandemia e suas implicações na cadeia produtiva do desfile

A Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu o primeiro alerta do coronavírus em 31 de dezembro de 2019, depois que autoridades chinesas notificaram casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan. Em 9 de janeiro de 2020 saiu o resultado das primeiras análises da sequência do vírus junto com a primeira morte confirmada pelo doença. Começa então o contágio desenfreado por todo planeta.

Passado o carnaval, os casos de infectados com a Covid-19 foram aumentando consideravelmente pelo mundo. No dia 26 de fevereiro foi confirmado o primeiro caso no Brasil de um homem de 61 anos morador de São Paulo recém chegado da Itália. No dia 17 de março de 2020, o primeiro caso de morte em território brasileiro e no dia 24, em decreto do governador João Dória (PSDB), foi determinado à quarentena de 15 dias em todo estado. O mundo entrou em estágio de alerta. O momento coincidiu como a data que havíamos definido como o início da reprodução dos protótipos (16/03/2020). Por conta do crescimento dos números de pessoas contaminadas pelo coronavírus no Brasil e no mundo, foi pensada a necessidade de adiarmos por mais algumas semanas o início dos trabalhos artísticos no barracão da escola. Assim começamos a produção dos protótipos no dia 13 de abril, seguindo rigorosamente as normas de segurança sanitárias recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) tais como: a redução da mão de obra (evitar aglomeração) e da carga horária de trabalho dentro do barracão (o retorno dos colaboradores fora do horário de pico nos transportes públicos).

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De acordo com o novo cronograma de trabalho, todos os responsáveis pela construção dos protótipos se encontravam semanalmente. Os materiais eram distribuídos aos artistas, que a cada semana deixavam prontas as peças e as que restavam, seguiam com o andamento estabelecido a fim de concluí-las. Tanto na Pimpolhos, quanto na Acadêmicos da Grande Rio, usam-se um software de confecção de vestuário chamado Audaces, responsável pela organização dos moldes para o corte de forma que o desperdício de tecidos e aviamentos, diminui consideravelmente. Todos os encaixes geram plotagens que facilitam o ofício do cortador.

Paralelo a reprodução dos protótipos, todo o processo de feitura serviu de base para as aulas que antes eram realizadas no barracão de alegorias e fantasias em que alunos acompanham e aprendem todo processo de criação e produção do desfile de uma escola de samba mirim. A Plataforma Escola de Carnaval, criada em 2005, tem como objetivo educação, pesquisa, reflexão, produção e aprimoramento da cultura dos desfiles das escolas de samba mirins. Este projeto surgiu a partir da necessidade de se desenvolver programas artísticos e educacionais para capacitação nas áreas de gestão, criação e produção de seus desfiles.

O princípio da Escola de Carnaval é o contato com diversas formas de arte que interagem dentro de um barracão de alegorias e fantasias. São dadas aulas de criação e produção de desfile de escola de Samba mirim. A participação é efetiva do alunado nas atividades cotidianas da construção do cortejo Assim, são oferecidas todas as etapas de construção do desfile. Tema, enredo, sinopse, croquis, protótipos e sua apresentação, as etapas de construção de alegorias e fantasias (paralelamente ao período de reprodução com colaboradores), produção, concentração e o dia do desfile. Além do contato com profissionais do carnaval e do mercado de entretenimento.

Durante o período do curso, também são oferecidas palestras e aulas externas com diferentes pesquisadores e especialistas da área de gestão, produção e artes carnavalescas. Os participantes aprendem a prática do fazer carnaval dentro do próprio barracão.

Com as limitações dos tempos pandêmicos, todos os cursos oferecidos pela Pimpolhos seguiram no formato online. No curso de criação, semanalmente eram apresentados aos alunos todo processo de forração, adereçagem e finalização das peças que compunham os protótipos, enquanto em produção, todos os caminhos para a viabilidade na reprodução (valores de materiais, compra de tecidos e aviamentos, espaço físico dos encontros) Na reprodução dos protótipos dos anos anteriores, montávamos uma equipe composta de seis pessoas – três aderecistas, duas costureiras e uma modelista. Com a nova realidade, nossa equipe foi reduzida em 50%: uma aderecista, uma costureira e a modelista.

Dúvidas eram tiradas por aplicativos. Os protótipos ficaram prontos em 23 de julho 2020, já com os cálculos de gastos para a reprodução de todas as alas. Com o valor total em mãos, vimos que orçamento ficou acima do esperado, dessa forma as fantasias, por exemplo, dificilmente conseguiram serem reproduzidos dentro das normas da OMS em plena quarentena. Temíamos termos de cortar elementos das fantasias para facilitar a reprodução e baixar o orçamento. Após uma conversa com a gestão e a direção artística da agremiação sobre a possibilidade de um “plano B” para uma redução de gastos e otimização do tempo por conta da operacionalidade na “nova realidade” imposta pelo isolamento social provada pelo cenário pandêmico. Foi resolvido então que o enredo O Pequeno Príncipe Preto seria desenvolvido para o carnaval de 2022 e não em 2021 como havíamos pensado à princípio.

A partir da reprodução dos protótipos e desenhos de alegorias prontos desse enredo, resolvemos trocá-lo. Visando um desfile mais simples de execução e com custos reduzidos, o novo enredo Olha que linda a quitandinha de Erê foi escrito e elaborado com essa intenção e com maior participação da Escola de Carnaval. Dependendo da data em que se iniciam as dentro do barracão, os estudantes iniciam o curso acompanhando o atual estágio da produção artística. No ano de 2018, por exemplo, as primeiras aulas culminaram com a elaboração de fantasias especiais (mestre-sala, porta-bandeira, rei, rainha, princesa e miss simpatia da bateria, destaques, composição de carro, muso e musas) e o princípio da construção das alegorias. Os estudantes ficaram responsáveis pelos croquis dessas fantasias e a elaboração de adereços para a decoração das alegorias. Pela situação da escolha de um novo enredo, os alunos puderam acompanhar desde a escolha. A colaboração veio por meio de referenciais teóricos, textos, relatos e de imagens de orixás e de povos africanos. O enredo foi elaborado a partir dos fundamentos da religião de matriz africana, candomblé, em que a quitanda ou quitandinha é conhecida como a festa oferecida aos Erês (que em Iorubá significa diversão e brincadeira) nos barracões de Candomblé, exemplificado por esse trecho retirado da sinopse do enredo da Pimpolhos, Olha que linda a quitandinha de Erê, de minha autoria:

Esses seres infantis brincam de vender frutas em cestos de palha, relembrando a ancestralidade dos mercados africanos e dos escravos de ganho, que no Brasil vendiam quitutes para comprar sua alforria. O axé dos erês circula com as comidas e moedas, purificando os frequentadores da festa e os filhos da casa. A energia incontrolável e a verdadeira expressão de festa e alegria são os tons desse lindo momento dentro das casas de axé (PRATES, 2020).

Todo o processo de criação foi voltado para otimização financeira e redução de tempo. Sabíamos que teríamos de reproduzir as fantasias com a metade de nossa equipe. O desafio era manter a qualidade das fantasias, usando menos matérias-primas e mão de obra. Nossos adereços, antes feitos no E.V.A., foram testados no ethafoam e conseguimos um bom resultado com economia de mais de 50% no valor. Todos os elementos foram diminuídos desde as cruzetas, adereços e fantasias. Bermudas viraram shorts, saias longas foram reduzidas. Conseguimos economizar em materiais 21,14% e 45,53 metros de tecidos nos protótipos. Usamos a mesma equipe que trabalhou no primeiro protótipo. Nesta temporada, os adereços foram feitos no barracão e duraram 1 mês, economizando 2 semanas. Iniciamos no dia 05 de outubro 2020, terminamos no dia 03 de novembro de 2020 e a apresentação dos protótipos ficou marcada para o dia 16 de dezembro via live pelas redes sociais da Pimpolhos.

4. As consequências da pandemia para os cortejos

O mês de dezembro de 2020 acompanhou mais aumento significativo dos números de infectados e mortes pela covid-19. Em razão disso, tivemos de adiar por duas vezes a apresentação dos protótipos, que teriam ocorrido em 16 de dezembro de 2020, adiado para o dia 16 de fevereiro de 2021, e atualmente definimos a data final para 20 de março de 2021. Retorno dos colaboradores para a reprodução das alas no barracão não pode ser sinalizada. O governo junto com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (L.I.E.S.A.), organizadora dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, não tinham certeza se realmente teríamos os desfiles, até porque sem a imunização em massa, não teríamos como prosseguir com os trabalhos, tanto nos barracões quanto nas quadras.

A incerteza com o dia do desfile vem desde o início da pandemia. A própria LIESA adiou algumas vezes reuniões e tiveram alguns encontros para cancelamentos e definições do destino dos desfiles. Numa plenária realizada em 14 de julho de 2020, foi decidido aguardar até o mês de setembro para a tomada de uma decisão em relação aos desfiles. Os presidentes das agremiações já tinham concordado que só seria possível realizar os desfiles com a população vacinada. Na ocasião foi definida uma decisão sairia somente em setembro, data limite para as escolas começarem a produzir o carnaval. No dia 24 de setembro, os dirigentes decidiram que não seria possível ter o desfile em fevereiro. A falta de garantia da vacinação deixava em dúvida como construir e ensaiar o espetáculo. No dia 09 de novembro 2020, mais uma plenária onde foi decido que aguardariam até janeiro de 2021 para a decisão final para o desfile. Ficou acordado entre maio e junho caso a população estivesse imunizada. Em entrevista ao jornal ao jornal O Globo, Jorge Castanheira presidente da LIESA, disse que ainda era possível o desfile carioca ser a mesma data do de São Paulo:

Temos até janeiro de 2021 para decidir, esse é o prazo máximo. Vai depender de muitos fatores, principalmente a avaliação das autoridades sanitárias. Estamos imaginando a realização dos desfiles entre junho e início de julho, antes das Olimpíadas. Maio acredito que seja precipitado. Sobre o formato do evento, ainda não sei se seguiria nos moldes tradicionais, com o mesmo regulamento, ou se seria algo menor. Vamos continuar nos reunindo para debater, tudo está em estudo (CASTANHEIRA, 2020).

Num ambiente de dúvidas com a vacinação em relação à aprovação de outras vacinas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), da compra de vacinas, agulhas, seringas, insumos para a reprodução no Brasil, desavenças diplomáticas, negacionismo governamental, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, no dia 21 de janeiro, anunciou em suas redes sociais a inviabilidade da realização dos desfiles em julho:

Nunca escondi minha paixão pelo Carnaval e a visão clara que tenho da importância econômica dessa manifestação cultural para nossa cidade. No entanto, me parece sem qualquer sentido imaginar a essa altura que teremos condições de realizar o Carnaval em julho (PAES, 2021).

5. As sequelas da doença na mão de obra dos barracões

Nesse momento, são pouquíssimas as escolas que mantiveram suas equipes ou parte delas. Grande parte dos trabalhadores, por conta da crise sanitária, encontra-se desempregada e desassistida. Alguns grupos formados por sambistas de várias áreas e de seguimentos diferentes das agremiações mobilizaram-se para ajudar essa massa de desempregados formando redes de solidariedade:

– Bailado Solidário: Capitaneado pelo primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da G.R.E.S. Unidos do Viradouro, Julinho Nascimento e Rute Alves, doações, lives e leilões foram organizados com o objetivo de arrecadação de cestas básicas para casais de mestres-salas e porta-bandeiras atuantes, ou não, de qualquer grupo e que estejam em situação de vulnerabilidade:

– Barracão Solidário: Para ajudar aderecistas, ferreiros, pintores, seguranças, costureiras, soldadores, o carnavalesco Wagner Gonçalves, da Estácio de Sá, criou o projeto com colegas da profissão, curadores e jornalistas para ações de compra de itens da cesta básica e higiene e suporte financeiro.

– Ritmo Solidário: Organizado pelo sambista China do Estácio, a campanha mobilizou mestres de bateria de várias agremiações com o objetivo para ajudar ritmistas cadastrados pelos os mestres. Entre as ações houve leilão de peles usadas em instrumentos das baterias do Grupo Especial e Série Ouro, assinadas por cada respectivo mestre, além de apresentações virtuais com intérpretes e mestres de bateria de escolas de samba dos respectivos grupos.

Poucas agremiações tiveram a mesma atitude. Mediante a situação que ficou todos os colaboradores da festa, pensando num espetáculo que é considerado o maior do planeta, foi deflagrada a fragilidade das relações de trabalho nesse mercado. A grande massa de mão de obra de artistas e técnicos ficou sem suas funções e sem direitos trabalhistas. No dia 20 de Março de 2020, o congresso nacional decretou a lei Aldir Blanc que “dispõe sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas durante o estado de calamidade pública reconhecida” (BRASIL, 2020). O governo estadual do Rio de Janeiro abriu o período de cadastramento para profissionais de cultura. Artistas, produtores, técnicos, artesãos e outros trabalhadores da área. O auxilio foi de R$ 600, concedido por três meses consecutivos, podendo ser prorrogado conforme disponibilidade orçamentária. O texto da lei estabelece o destino do montante que não for endereçado aos artistas beneficiários. Caso haja recurso não destino, ele seria reencaminhado para os cofres da União, 20% dos artistas da capital carioca que tinham direito ao auxilio, ainda não tinham sido pagos em dezembro de 2020.

Parte da mão de obra das Escolas de Samba teve dificuldade no preenchimento do edital. Alguns integrantes não sabiam de detinham o direito a esse auxílio. Além de toda burocracia tradicional para ter acesso aos direitos ao auxílio do governo federal, a falta de canais de ajuda e cooperação a esses profissionais fez com que grande parte não tenha conseguido preencher corretamente o edital e muitos desistiram. Essa falta de informações da mão de obra dos barracões e a falta de orgãos que auxiliem esses trabalhadores provêm da cultura da informalidade, relações de trabalhos rasas e a falta de comprometimento dos contratantes com esses artistas.

O desfile da forma que costumamos produzir foi adiado para 2022. Pequeno Príncipe Preto será enredo para o carnaval de 2023. Um desfile que começou a ser concebido em 2019 ganhou mais um “capítulo” nessa epopéia imposta pela pandemia. A não ocupação do espaço público por quem durante tantos anos lutou para conquistá-lo, em 2021 deixou um vazio na cidade com seu espetáculo que deixou de arrecadar em média quatro milhões de reais com os festejos momescos.

Marcelo Alves, ex presidente da Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur), em entrevista ao site Money Time após o carnaval, no dia 02 de março de 2020, disse que a capital fluminense recebeu 2,1 milhões de turistas, ante 1,6 milhão no ano anterior. O carnaval movimentou R$ 4 bilhões na economia do Rio. Segundo ele, a ocupação hoteleira ficou em média em 93% e, em algumas regiões, chegou próximo à 100% na semana do carnaval. Dentre os hóspedes, 77% eram brasileiros e 23% estrangeiros. Um evento que agrega tanta gente e tantas receitas para o estado deixa seus construtores desassistidos. Isso nos mostra a necessidade de políticas voltadas para esse seguimento e a regularização dessa massa de artistas e trabalhadores:

As escolas de samba, longe de serem apenas um belo espetáculo plástico-musical, representam a trajetória de luta de resistência do povo brasileiro contra a exclusão e os estereótipos. Além disso, pela beleza estética e força cultural são um valioso exercício de cultura, com o qual o turismo educativo pode realizar grandes parcerias, auxiliando na promoção e na emancipação econômica e social das comunidades que, há décadas, realizam o “espetáculo popular mais belo da terra”, mas que,em geral, permanecem excluídas do acesso às riquezas geradas por este (TRAMONTE,2006,p.85).

No dia 04 de fevereiro de 2021, Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, anunciou em entrevista ao G1 Rio e TV Globo o município investiria cerca de R$ 3,2 milhões em incentivos ao Carnaval de rua carioca. Editais seriam lançados em março, preparados pela Prefeitura através da Secretaria de Cultura e da Riotur, para ajudar profissionais que atuam no segmento devido a não realização da folia em 2021. Vale ressaltar que estes editais iniciais serão voltados somente para os profissionais ligados aos blocos. Já para quem atua em escolas de samba, Paes que outro programa será lançado em breve, especificamente para esse público: “Na semana que vem teremos o lançamento de um programa voltado para os trabalhadores das escolas de samba”, disse o prefeito. Até a data de finalização desse texto, a prefeitura ainda não tinha dado uma posição sobre esse seguimento.

Considerações Finais

Com a preparação mais longa e com tantas dificuldades nunca dantes navegadas, o inexistente carnaval de 2021 que iniciou em 2019 e só terminará em 2023, mostrou o quão é importante a perpetuação de uma das características das Escolas de Samba, a necessidade da adaptação do que está acontecendo ao seu entorno. No caso da Pimpolhos, a troca de enredo e em consequência, a construção de novos protótipos somente ocorreu por conta de um cronograma sempre adiantado ao normal que se aplica nas produções dos desfiles, custo das matérias primas abaixo da produção anterior, almoxarifado com sobras de tecidos suficientes para montar algumas peças e uma gestão que acreditou e comprou a ideia que na economia que terá a reprodução para o desfile, dará para custear os gastos dos funcionários no mês da reprodução da segunda leva de protótipos. A equipe da Pimpolhos teve a possibilidade de pensar e produzir carnaval/pandemia e se adaptar a nova realidade tanto a produção artística quanto a pedagógica. Já as outras coirmãs não tiveram o mesmo caminho. O momento mostrou a fragilidade dessa produção cultural com seus colaboradores. A grande maioria da mão de obra ficou desassistida sem direitos trabalhistas no momento que a produção não retornou depois do carnaval de 2020. Redes de solidariedade foram formadas, pelos próprios sambistas, para ajudar essa massa. Também outra característica dos sambistas das escolas de samba. Poucas agremiações tiveram a mesma iniciativa.

Por ter ainda dois anos de estudos sobre esse ano de 2021, as análises e conclusões sobre esse carnaval não se cessam aqui. A economia em materiais, colaboradores e tempo do enredo Olha que linda a quitandinha de erê serão observados e comparados com os custos e cronograma do desfile de 2023 O Pequeno Príncipe Preto. Mais um capítulo na saga dessa manifestação de origem negra que por muitos anos, por ser preta, concilia, negocia e luta pelo direito de ocupação do espaço público para mostrar suas raízes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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REZENDE, Alerson. AESM: Dez anos de conquistas. Escolas de Samba Mirins, 2012. Disponível em: < https://escolasdesambamirins.wordpress.com/about/>. Acesso em: 13 fev. 2021.

RIBEIRO, Ana Paula Alves. O futuro do sambista e o sambista do futuro: juventude, sociabilidade e associativismo nas escolas de samba mirins do Rio de Janeiro. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 70, p. 189-207, ago. 2018. Disponível em: < http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-901x.v0i70p189-207>. Acesso em: 06 fev. 2021.

SILVA, Marília T. Barboza; SANTOS, Lygia. Paulo da Portela: traço de união entre duas culturas. Rio de Janeiro: Funarte, Instituto Nacional de Música, Divisão de Música Popular, 1989.

SIMAS, Luiz Antonio; FABATO, Fábio. Pra tudo acabar na quinta-feira: o enredo dos enredos – 1. ed. Rio de Janeiro: Mórula, 2015.

SOARES, Regiane. Quarentena começa a valer nesta terça-feira em todo o estado de SP. Folha de São Paulo, 24 mar. 2020. Disponível em: <https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo
/2020/03/quarentena-comeca-a-valer-nesta-terca-feira-em-todo-o-estado-de-sp.shtml>. Acesso em: 01 fev. 2021.

TRAMONTE, Cristiana. Muito além do desfile carnavalesco: escolas de samba e turismo educativo no Brasil. PASOS. Revista de Turismo y Patrimonio Cultural, El Sauzal, vol. 1, nº 1, enero, p. 85-96, 2003. Disponível em: < http://pasosonline.org/Publicados/1103/PS0
80103.pdf>. Acesso em: 03 fev. 2021.

Clebson Prates: carnavalesco, aderecista, figurinista, professor de história e de criação carnavalesca. Possui licenciatura e bacharelado pela UNISUAM (2000). Trabalha com arte carnavalesca desde 1991 em diversas agremiações do Grupo Especial e da Série Ouro. Atuou como carnavalesco em Taiwan na Dream Community, na Unidos do Cabuçu e na Mangueira do Amanhã. Atualmente é carnavalesco da Pimpolhos da Grande Rio onde atua também como cenógrafo,figurinista, produtor e diretor artístico da Carnaval Experience desde 2017.

Em recuperação médica, Quinho vê live do Salgueiro e agradece apoio da direção

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Um espectador ilustre acompanhou a live do Salgueiro, na noite de sexta-feira, em comemoração aos 68 anos da escola. O intérprete Quinho, ausente por estar se recuperando de uma cirurgia, após ser diagnosticado com uma infecção urinária, assistiu todo o show salgueirense, a homenagem feita pelo companheiro de carro de som, Emerson Dias, e, disse ao site CARNAVALESCO que ganhou estímulo para uma recuperação rápida da cirurgia.

Em recuperação médica, Quinho vê live do Salgueiro e agradece apoio da direção

“Eu sou muito emotivo. Essa live foi um bálsamo de felicidade e tenho certeza que já me deu um ânimo na minha recuperação. Sempre fui muito relapso ao cuidar da minha saúde. Achava que tudo externamente estava bom. Internamente, eu percebi que não estava. Tive essa infecção urinária e comecei um tratamento urgente”, explicou o cantor.

Quinho ressaltou o apoio do presidente do Salgueiro, André Vaz, e, mais uma vez, falou do amor que tem pela Academia do Samba.

“Desde o primeiro momento, o presidente André Vaz não mediu esforços e me ajudou de todas as formas para que eu tivesse um tratamento de qualidade. O Salgueiro é a minha vida, o meu amor e a minha paixão. Assim que eu receber alta, quero poder sentar na quadra da minha escola e pensar em tudo até os dias de hoje”, disse o intérprete salgueirense.

Carnavalesco Eduardo Gonçalves retorna à Lins Imperial para o Carnaval 2022

A Lins Imperial anunciou que a dupla de carnavalescos Eduardo Gonçalves e Raí Menezes será a nova responsável pelo desenvolvimento do enredo que a verde rosa levará para a Marquês de Sapucaí, no retorno da agremiação à Série Ouro da Lierj.

Carnavalesco Eduardo Gonçalves retorna à Lins Imperial para o Carnaval 2022

Conhecido da agremiação desde 2005 quando entrou na escola como carnavalesco, permanecendo até 2008, Eduardo Gonçalves à convite do presidente Flavio Mello retornou à agremiação para o Carnaval 2021 como diretor de arte e cultural, e foi promovido à carnavalesco para o Carnaval 2022, quando a agremiação do Lins desenvolverá o enredo em homenagem ao Antônio Carlos, o popular e inesquecível Mussum.

“A palavra carnavalesco para mim hoje é só mais um conceito. Pertencer a um projeto tão importante quanto essa homenagem da Lins Imperial ao Antonio Carlos Bernardes Gomes, o saudoso Mussum, é de um prazer imenso. De certa forma, eu já estava dentro dele como diretor de arte, desde o seu momento mais embrionário. Mas, voltar a assinar carnaval na verde e rosa do Complexo do Lins veio como uma surpresa, e me sinto honrado pelo convite e confiança, potencializando a responsabilidade para fazermos um carnaval diferenciado. A escola me acolheu em quatro grandes projetos, inclusive o campeão da Série B de 2007, a reedição do enredo “Chico Mendes o arauto da natureza.” São mais de 30 anos de carnaval, 28 trabalhos assinados, todos nos grupos de acesso, 5 campeonatos e só tenho orgulho de todos eles. É gratificante voltar a trabalhar com carnaval, ainda mais com pessoas as quais pude estabelecer trocas profissionais maravilhosas em outro anos, como o carnavalesco Raí Menezes, o diretor de carnaval, Maurício Dias, e o próprio presidente, Flavio Mello. É só felicidadis!”, comemora Edu Gonçalves.

Responsável pelo ateliê de roupas estratégicas da Lins Imperial há 6 anos, o estilista Raí Menezes assinará pela primeira vez um carnaval na Marquês de Sapucaí. Raí que trabalha há 31 anos no carnaval, estreou na Lins Imperial no último carnaval, já se tornando campeão em seu primeiro ano. Uma aposta alta da verde e rosa do Lins.

Absurdo! Governo suspende recursos para cultura em cidades com restrições

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O governo suspendeu o repasse de novos recursos para atividades culturais em estados e municípios que adotaram restrição de locomoção e de atividades econômicas como medida de combate à pandemia. A portaria da Secretaria Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura foi publicada nesta sexta no Diário Oficial da União.

“Só serão analisadas e publicadas no Diário Oficial da União as propostas culturais, que envolvam interação presencial com o público, cujo local da execução não esteja em ente federativo em que haja restrição de circulação, toque de recolher, lockdown ou outras ações que impeçam a execução do projeto”, diz o texto da portaria.

A medida vale por 15 dias, mas pode ser prorrogada ou suspensa, “a depender da manutenção ou não das medidas restritivas nos referidos entes da Federação”.

Em nota, a Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo explicou, com isso, serão priorizadas as análises das propostas culturais que possam ser executadas, entre elas reformas de museus, patrimônios tombados e eventos online.

“A Secretaria de Incentivo e Fomento à Cultura, pasta da Secretaria Especial da Cultura, emitiu uma portaria para agilizar os projetos com reais possibilidades de execução. Essa é uma medida que visa garantir eficiência e probidade da aplicação dos recursos públicos, tendo em vista que não haveria justificativa para liberar recurso público de um projeto que, no momento, não possa ser executado”, diz a nota.

Com informações da Agência Brasil

Cláudio Vieira: ‘O preço de uma sociedade’

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Natal voltava das compras com uma de suas amigas. O carro estava abarrotado de sacolas de supermercado, que foram descarregadas na calçada.

Foi quando o motorista do presidente da Portela percebeu que o marido daquela tal criatura estava plantado na porta do prédio, braços cruzados, soltando fumaça pelas narinas.

Preocupado, cochichou com Natal:

– Chefe, o homem está aí na porta…

05mar Natal2

Natal não se fez de rogado. Desceu do velho Ford e foi logo dizendo para o marido da tal criatura:

– Escuta aqui… Você vai ficar aí olhando ou vem ajudar a carregar as compras?

Após prova de conhecimento, Waleska Gomes assume a primeira posição no Carnaval Wall

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A disputa está ficando acirrada no Carnaval Wall. A prova desta semana foi de conhecimento e contou com a participação de Gisele Alves, a Passista do Milênio. A beldade contou um pouquinho da sua trajetória e, ao final, os participantes tiveram que responder questões ligadas a história da sambista. Waleska Gomes levou a melhor e assumiu a ponta com 280 Confetes.

Os confinados ficaram encantados com a visita da Passista do Milênio que tem 51 anos de vida e 31 de Avenida. O bate-papo que parecia despretensioso, na verdade era uma prova! Os participantes tiveram que acertar as perguntas feita pela nossa apresentadora, Mari Rodrigues. Cada pergunta possuía três opções de resposta e eles deveriam levantar a plaquinha com a letra correspondente. Com esta prova, Waleska alcançou o primeiro lugar com 280 pontos. Oito participantes estão empatados com 240 pontos são eles Rhuanan, Jhonatan, Bruna Negreska, Robério Theodoro, Sérgio Cordeiro, Daniel Oliveira, Isadora Salles e Rodolfo Massera. Em seguida temos Flávia Felix com 200 e João Arruda e Kaka Morenah empatados com 160.

Não conseguiu assistir o sexto episódio? Veja abaixo:

Produção disponibiliza sirene na casa do Carnaval Wall

Depois de um dia de prova a casa do Carnaval Wall amanheceu com uma sirene. A produção disponibilizou um alarme fornecido por um dos parceiros do programa que servirá como uma espécie de ajuda. Quem precisar conversar, reclamar, desabafar, vai poder tocar a sirene e ir para um lugar reservado encontrar com Mari Rodrigues. Jhonatan já estreou o apoio! Ele foi desabafar sobre a treta que rolou na primeira festa e confessou, se pudesse, eliminaria Flávia Félix. Os confinados não sabem disso.

Enquanto alguns sambistas curtiam o dia de sol na piscina, Jhonathan decidiu tocar o alarme. Ele foi para a suíte da apresentadora, Mari Rodrigues e desabafou sobre o desentendimento entre Flávia Félix e Waleska Gomes.

“Teve uma briga entre duas personalidades do carnaval, só que foi uma briga desnecessária e isso deixou a casa dividida. Sou amigo de todo mundo aqui não tenho problema com ninguém, conheço todo mundo, alguns, claro, tenho mais afinidade. Me envolvi com o intuito de separar. As duas são minhas amigas, mas Waleska conheço há mais tempo. A casa amanheceu dividida”, contou Jhonatan para Mari.

Mari acalmou o participante e perguntou caso ele tivesse o poder de eliminar uma das duas do jogo, quem ele escolheria. O confinado disse que tiraria Flávia Felix. Ao final da conversa, a apresentadora informou que Jhonatan não pode contar aos outros participantes que esteve com ela, caso isso aconteça, será automaticamente eliminado.

Veja abaixo o episódio 7: