Com mais de três décadas de trajetória conjunta sob o pavilhão da Beija-Flor de Nilópolis, Claudinho e Selminha Sorriso se tornaram mais do que um casal de mestre-sala e porta-bandeira: são memória viva, referência estética e elo afetivo entre gerações de torcedores. Para quem cresce acompanhando a escola, é praticamente impossível imaginar a azul e branca sem a presença dos dois na avenida.
“Eles são o casal mais simbólico pra mim, porque eu cresci vendo eles. Já estavam lá quando eu nasci. É muito simbólico acompanhar essa trajetória desde a minha infância”, afirma Yuri Costa, 29 anos, morador de Nilópolis. Segundo ele, o entrosamento construído ao longo desses 30 anos transforma a dança em algo quase indescritível. “É como feijão com arroz, sabe? É impossível imaginar um sem o outro. É um casamento profissional, um casamento de dança”.
Yuri Costa, 29 anos, morador de Nilópolis
O sentimento se repete entre muitos torcedores da Baixada Fluminense, especialmente em Nilópolis, onde a Beija-Flor é mais do que uma escola de samba: é identidade local, senso de comunidade e resistência cultural. Diogo Oliveira Monteiro, de 39 anos, define a experiência como um privilégio. “Para quem é da Baixada, quem é de Nilópolis, sabe o que a Selminha e o Claudinho representam pra gente. Eu não consigo pensar em Beija-Flor sem eles”.
Diogo Oliveira Monteiro, de 39 anos, define a experiência como um privilégio
Diogo diz enxergar no casal a imagem de uma realeza preta em movimento. “Ela vem na avenida representando toda uma comunidade. Quando passa, olha a gente no olho. Está ali por nós. Isso é muito forte.” Ao imaginar um futuro em que Selminha possa ocupar a presidência da escola, ele não hesita: “Seria o auge. Ela tem potencial pra isso”.
Essa presença não se limita ao espetáculo do desfile. Para Vinicius Silva, de 27 anos, designer e torcedor desde a infância, a atuação da dupla na comunidade é tão impactante quanto na Marquês de Sapucaí. “Consegui ver a Selminha de perto em um projeto com a ala mirim da Beija-Flor. A força que ela e o Claudinho têm dentro da comunidade é algo difícil de substituir”.
Vinicius Silva, de 27 anos, designer e torcedor desde a infância
Na avaliação dele, além da excelência técnica, o que sustenta a grandiosidade do casal é a relação de confiança construída ao longo de décadas. “O entender do passo de cada um só no olhar é mágico. A química entre eles é vital. Como torcedor da Beija-Flor, sim, considero o maior casal da história do carnaval”.
Mesmo quando o assunto é inevitável, como a possibilidade de uma despedida da avenida, a fala dos torcedores é atravessada pela certeza de que o vínculo com a escola jamais será rompido. “Um dia vai chegar. Não sei se estou preparado, mas eles não vão deixar de ser Beija-Flor. Vão passar a bandeira pra próxima geração, mas continuarão ao nosso lado”, define Yuri.
Na Beija-Flor, Claudinho e Selminha Sorriso representam mais do que excelência técnica ou longevidade na função. Eles simbolizam continuidade, compromisso e ligação profunda com o território e sua gente. A cada desfile, reafirmam o papel do casal de mestre-sala e porta-bandeira como guardiões da memória, da identidade e da tradição da escola, não apenas na avenida, mas no cotidiano da comunidade que ajudaram a construir e fortalecer ao longo de décadas, e, com isso, são devidamente reconhecidos, valorizados e aclamados.
A Liga RJ e o Centro Universitário Celso Lisboa realizaram, no último sábado, 6 de dezembro, durante o Esquenta Carnaval, a entrega de bolsas 100% integrais de graduação e pós-graduação para mestres de bateria da Série Ouro. A iniciativa inédita marca o início de uma agenda permanente de formação e desenvolvimento para profissionais do carnaval carioca.
As bolsas contemplam mestres que, ao longo dos anos, dedicam suas trajetórias à construção artística e cultural das escolas de samba, mas que raramente estiveram no centro das políticas de formação. A entrega na pista de desfiles, em meio ao evento, simbolizou o reconhecimento institucional a um grupo fundamental para a cultura e a identidade do carnaval.
Para Diego Carbonell, diretor de sustentabilidade da Liga RJ, o momento foi de forte emoção.
“Já fui ritmista, diretor e mestre. Conheço a luta e a dedicação desse segmento, que por muitos anos ficou em segundo plano. Ver esses mestres recebendo uma oportunidade concreta de estudar, sem custo, me emocionou profundamente. É uma reparação simbólica e o primeiro passo de um projeto maior que queremos consolidar para transformar vidas por meio da educação”, afirmou.
Segundo o CEO da Celso Lisboa, Felipe Kotait Borba, “a iniciativa marca o início de uma parceria entre as instituições e reforça o compromisso genuíno do Centro Universitário em apoiar a formação dos profissionais do carnaval carioca”. Borba acrescentou que “a parceria ainda está sendo estruturada, mas o futuro desses cinco talentos já está assegurado”.
Entre os contemplados, a mestra Laísa, que recebeu uma bolsa integral para cursar a pós-graduação em Marketing Criativo e Inovação em Negócios, celebrou a oportunidade.
“É muito especial viver esse momento. A gente se entrega ao Carnaval o ano inteiro, e nem sempre imagina que portas como essa possam se abrir. Ter a chance de me qualificar e ampliar meus caminhos profissionais é algo que levo para a vida. É reconhecimento, é incentivo e é, principalmente, possibilidade de futuro”, disse.
A parceria entre Liga RJ e Celso Lisboa seguirá ampliada com novas iniciativas ao longo dos próximos anos, reforçando o compromisso com educação, inclusão e valorização dos profissionais que constroem o carnaval.
Em mais uma segunda-feira, o Paraíso do Tuiuti realizou seu ensaio de rua em São Cristóvão, movimentando o povo ao redor e fazendo um grande treino para a escola. O Quilombo do Samba levará para a Avenida o enredo “Lonã Ifá Lukumi”, sobre a criação e a prática do Ifá cubano entre os escravizados, e depois, ex-escravizados, do país insular. A noite teve como destaque o desempenho de Pixulé e seu entrosamento com toda a parte musical do Tuiuti, o que chamou bastante a atenção, além dos bailados de Vinícius e Rebeca pelas ruas, encantando quem veio prestigiar o ensaio.
Neste dia de Nossa Senhora da Conceição e de Oxum, a comissão de frente do Tuiuti fez uma apresentação especial para louvar Oxum, sem deixar de mostrar o que vem sendo ensaiado. David Lima, responsável pela comissão da escola, comandou o momento no qual, em certo trecho da coreografia, a Senhora da Água Doce assumia o centro junto a um babalaô, sendo louvada pelos bailarinos. O momento foi significativo para a data, na medida certa, sem comprometer a coreografia da agremiação. No geral, a comissão apresentou a mesma base coreográfica do primeiro ensaio de rua, com fortes movimentos de braço, pernas e joelhos, e movimentos afro, repetindo muito bem a dose.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Fotos: Matheus Morais/CARNAVALESCO
Vinícius Antunes e Rebeca Tito passaram bem elegantes pelas ruas de São Cristóvão, mostrando muita graciosidade nos movimentos apresentados nesta segunda-feira. Seguindo a coreografia que vêm mostrando nos ensaios, o casal demonstra cada vez mais confiança e entrosamento, perceptíveis na dança, nos gestos e nos movimentos de ambos, especialmente nos trechos das cabines. O bailado permanece clássico, nos giros e no cortejo, com instantes mais leves ao longo da apresentação.
SAMBA E HARMONIA
Pixulé teve uma grande noite no ensaio do Quilombo do Samba. O intérprete cantou muito bem e com muita força, mantendo o ritmo e a intensidade enquanto durou o treino, demonstrando precisão e domínio da obra “com habilidade”, como ele mesmo costuma dizer. A ala musical da escola, sob os cuidados de Leonardo Bessa, também esteve muito forte e auxiliou perfeitamente a execução e o canto do samba. A comunidade, por sua vez, não parou de cantar durante toda a noite, mostrando estar com o samba na ponta da língua.
EVOLUÇÃO
O Tuiuti teve uma evolução muito tranquila, sem correrias ou atropelos, passando de forma suave pelas ruas de São Cristóvão, mas sem deixar de demonstrar força. Os componentes estavam muito entregues ao enredo, movimentando-se bem dentro das alas. A escola levou também algumas alas coreografadas, algumas com mais movimentos, outras mais simples, mas todas fluíram bem, sem qualquer problema no quesito evolução ao longo do trajeto.
Leandro Azevedo, diretor de carnaval da escola, avaliou o ensaio desta segunda e destacou como o samba vem crescendo e auxiliando a evolução dos componentes.
“O samba está crescendo, a comunidade, a cada dia que passa, cantando mais… A escola está em uma crescente, e é isso que a gente quer. Sempre dá para melhorar uma coisinha ou outra, mas estamos evoluindo, e o mundo do samba está abraçando cada vez mais o samba do Tuiuti. É um samba sempre entre os melhores, encaixou bateria, Pixulé e samba-enredo. Isso significa que estamos no caminho certo para conseguir uma ótima nota em harmonia e evolução. São dois quesitos importantes — não que os outros não sejam —, mas estamos vendo no dia a dia que o Paraíso do Tuiuti tem condição de chegar aos 40 pontos em ambos”.
OUTROS DESTAQUES
A bateria do mestre Marcão esteve muito bem também, seguindo firme durante o ensaio. Realizou duas paradinhas com atabaque, nas quais a rainha Mayara Lima fez toda a diferença, sambando no ritmo da obra, participando de uma das bossas e apresentando os ritmistas da “SuperSom”.
A Em Cima da Hora entrou na pista de desfile da Cidade do Samba buscando mostrar um novo patamar da escola, com quadra reformada, novos ares e mais investimento. E a impressão foi positiva, com uma bonita comissão de frente, uma escola pujante e um ótimo samba. A agremiação de Cavalcante trará o enredo “Salve Todas as Marias — Laroyê, Pombagiras”.
Márcio Moura trouxe uma comissão com a pombagira como elemento central, rodeada de rosas caveiras. Uma coreografia com dança dinâmica e bastante teatralização, bem realizada, com elementos de incorporação. O casal Marlon Flores e Winnie Lopes apresentou um bom desempenho, com uma agradável sintonia entre ambos, e uma coreografia mais marcada na segunda parte do samba. Winnie mostrou elegância nos giros, e Marlon, precisão em seu bailado.
A primeira ala, com componentes segurando bandeiras com a palavra “Laroyê”, veio cantando bastante. O refrão principal foi entoado com força pela escola, até mesmo pelas alas com o canto ainda por evoluir. Algumas alas apresentaram um canto bem irregular, mas, no geral, a harmonia foi satisfatória.
A evolução da Em Cima da Hora foi forte, com inúmeros componentes pulando e sambando, indo no embalo do bom samba. Samba que foi o destaque do ensaio da agremiação de Cavalcante, com uma bela interpretação de Igor Pitta e do carro de som, sustentando a ótima obra por toda a apresentação, contando com uma pegada quente da bateria de mestre Leo, que jogou o samba para cima, principalmente na parada do refrão de cabeça. A obra se comunicou bem com o público na parte final do minidesfile.
Terceira escola do minidesfile da Série Ouro, a Inocentes de Belford Roxo mostrou boa força de quesitos, muita organização e criatividade, e só houve deslize na evolução, em um momento de desatenção que resultou em buraco. A comissão de frente dos coreógrafos Sergio Lobato e Patrícia Salgado trouxe a literatura de cordel, com os bailarinos representando os cangaceiros na fantasia em preto e branco, a mesma paleta de cores que é retratada nesse tipo de arte. A caracterização dos componentes se destacou bastante, até pela maquiagem branca no rosto. Na performance, traziam instrumentos, dançavam forró, mas também produziam passos mais cômicos, interagindo com o público e dando o tom mais presente no enredo.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Vinicius Jesus e Thainá Teixeira, apresentou alguns passos mais de forró e xaxado, mas mostrou muita intensidade nos passos mais clássicos de casal. A dupla também mostrou entrosamento e muita doçura, sempre se procurando na dança. A saia de Thainá produzia um efeito interessante nos giros por conta das dobras.
O intérprete Ito Melodia, muito festejado, grande contratação para este carnaval e com experiência em enredos desse tipo, soube dar o tom certo para a apresentação, colocando irreverência e alegria no canto, sem exageros, mas de forma espontânea, como já é conhecido, cantando com correção e mantendo o ritmo lá em cima com a ajuda da bateria Cadência da Baixada, de mestre Washington Paz, que trouxe bossas de xaxado no refrão do meio (“Era gente dançando daqui…”) e, no refrão principal (“Samba, meu povo”), uma “bandinha” de charanga.
Na evolução, a escola pecou em um momento em que abriu buraco entre as passistas e a rainha que vinha à frente da bateria. Apesar desse ponto, em relação ao restante da escola houve mais organização e muita espontaneidade dos componentes, impulsionados pelo bom rendimento do samba. A rainha Carolane Silva, aliás, estava toda de azul e mostrou samba no pé e simpatia com o público. Em 2026, com o enredo “O sonho de um tal pagode russo nos frevos do meu Pernambuco”, a Inocentes de Belford Roxo será a segunda escola a pisar na Sapucaí na sexta-feira de carnaval.
Já no finalzinho da tarde do último sábado, a Botafogo Samba Clube pisou na passarela de desfile do Esquenta da Série Ouro trazendo muita organização de seus componentes, mas com espontaneidade, impulsionada por uma boa apresentação da Ritmo Alvinegro, que ajudou no rendimento do samba. A comissão de frente de João Pedro Santos trouxe três pequenos elementos cenográficos, com cenários floridos e uma tela vazia que era decorada com elementos que havia na parte de baixo, como bromélias, e no final da performance formavam o símbolo da Botafogo Samba Clube, enquanto os componentes, vestidos de pintores, dançavam.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diego Moreira e Beatriz Paula, estava vestido de branco e fez uma coreografia mais pautada na dança tradicional, com algumas pontuações em momentos do samba, como no trecho do “Mandacaru”, em que fizeram um xaxado marcado na bossa da bateria. Destaque para Beatriz, com bons giros e bastante intensidade durante a apresentação para o local que representava o júri. O tripé que vinha no início da escola, todo prateado, trazia a imagem do homenageado em pintura e o símbolo da escola.
Sem um grande ponto de explosão, o samba teve no intérprete Nêgo e no time de vozes de apoio da Botafogo um trabalho de destaque na melodia, principalmente nos momentos mais melodiosos, como na segunda do samba, a partir do trecho “Vem contemplar as bromélias”. O canto da comunidade teve um rendimento regular, com maior destaque para as alas iniciais.
Na evolução, a equipe da Botafogo teve um bom cuidado com o deslocamento das alas e com a organização, que definia bem onde começava e terminava cada ala, isso sem deixar o passo marcado e sem cortar a alegria dos componentes. A bateria Ritmo Alvinegro, agora de volta com mestre Marfim no comando, fez uma bossa de xaxado na parte do “Mandacaru”. Antes do desfile, a rainha Wenny Iza surgiu em uma plataforma toda florida e saudando o público da Cidade do Samba; em seguida, foi coroada pelo David Brazil. Em 2026, a Botafogo Samba Clube vai abrir o sábado de carnaval com o enredo “O Brasil que floresce em arte”.
Primeira escola a pisar na pista de desfiles da Cidade do Samba, a Unidos do Jacarezinho fez uma apresentação correta, sem grandes erros, mas com destaque principal para o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. A comissão de frente, de Akia Almeida, homenageou o padroeiro da escola, Oxóssi, e, por conseguinte, também homenageou Xande de Pilares, o enredo da escola, pois o cantor também é filho do orixá. Na apresentação, foram 12 componentes representando os caçadores de Odé e um prior sendo o próprio Odé. Caracterização legal, com máscaras que chamaram a atenção pelos detalhes. Boa movimentação e uso do espaço da passarela na Cidade do Samba.
Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Maycon Ferreira e Lorenna Brito, grande destaque desta primeira apresentação do Jacarezinho, vestidos na paleta do dourado, procuraram uma coreografia mais tradicional, voltada para os passos clássicos de casal. O que mais se destacou foi a postura da dupla, com finalizações precisas, expressões marcantes e muita delicadeza e correção na procura de um pelo outro.
A bateria “Show Mil”, de mestre Rafael Pelezinho, fez algumas bossas para um samba que não é um dos mais aclamados da Série Ouro, mas que passou bem no geral, levado pelos intérpretes Ailton Santos e Thiago Acácio, mais impulsionados nos dois refrães. A evolução não teve grandes problemas de buracos ou correria, mas não chegou a empolgar muito também pelo horário, ainda de muito calor, e com a Cidade do Samba bem vazia. Já o canto da comunidade não teve grande destaque: algumas alas cantando, mas a maioria ainda muito tímida, mesmo com o bom trabalho do carro de som, com destaque para as vocalizações de Thiago Acácio e tendo Ailton Santos mais focado em seguir reto no samba e manter o bom andamento.
Na abertura, um tripé trazia símbolos ligados aos orixás de devoção do cantor Xande de Pilares. Logo depois, as baianas, em um destacado tom de rosa que ainda refletia o sol forte no momento da apresentação. A rainha Thalia Antonella veio em um rosa mais delicado da escola e mostrou samba no pé e muita animação. Em 2026, a Unidos do Jacarezinho vai abrir a sexta-feira de carnaval com o enredo “O ar que se respira em novos tempos”.
A Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) divulgou nessa segunda-feira o calendário dos ensaios técnicos para o Rio Carnaval 2026. Ao todo, cada escola fará dois ensaios no Sambódromo, já com a luz e o som que serão utilizados nos desfiles oficiais. A entrada segue gratuita. Além dos ensaios das escolas do Grupo Especial, algumas datas também contemplarão parte dos desfiles das escolas mirins. Uma parte das agremiações desfilará na sexta-feira, dia 20 de fevereiro, e a outra parte nas datas sinalizadas abaixo.
Por Gustavo Lima, Naomi Prado, Lucas Sampaio, Gustavo Mattos, Eduardo Frois e Will Ferreira
As escolas de samba do Grupo de Acesso I de São Paulo participaram neste sábado dos minidesfiles realizados na Festa de Lançamento dos Sambas-Enredo do Carnaval 2026. As agremiações abrilhantaram o início da noite com as apresentações para o público, que compareceu massivamente à Fábrica do Samba, localizada na Barra Funda. Confira a seguir uma análise do que cada postulante a uma vaga na elite da folia paulistana apresentou na passarela.
CAMISA 12
Retornando ao Grupo de Acesso I após 20 anos e encarregada de abrir as apresentações, a Camisa 12 mostrou para o público que cada vez mais se identifica com enredos de cultura africana. Com uma comissão de frente caracterizada e coreografando de acordo com a proposta do enredo “Princesas Nagô, Rainhas do Brasil – A origem da fé, herança de Ketu”, assinado por Delmo de Moraes, que falará sobre as mulheres que fundaram o primeiro terreiro de candomblé no Brasil, a agremiação da torcida corintiana também teve no samba conduzido por Clóvis Pê e Tim Cardoso um fator positivo. A comunidade cantou forte ao som da obra e contribuiu para uma animada abertura das apresentações da segunda divisão da folia paulistana.
UNIDOS DE VILA MARIA
Segunda escola a desfilar, a Vila Maria aposta no enredo “Do chão que alimenta à culinária que encanta: Brasil, um banquete de sabores”, assinado por Vinícius Freitas, para retornar ao Grupo Especial após três carnavais. Os destaques da apresentação da “Mais Famosa” vão para as roupas dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, em especial o primeiro, formado por Camila Moreira e Carlos Eduardo, que evoluíram com uma fantasia de plumas arroxeadas deslumbrante. A bateria “Cadência da Vila”, agora comandada pelo mestre Marcel Bonfim, mostrou que continua afiada e ajudou a elevar o nível do samba conduzido pelo intérprete Clayton Reis.
ACADÊMICOS DO TUCURUVI
Mordidos após o polêmico rebaixamento no Carnaval de 2025, os Acadêmicos do Tucuruvi mostraram vigor para conduzir o enredo “Anti-Herói Brasil”, assinado por Nicolas Gonçalves. Terceira escola a se apresentar, a trupe da Cantareira teve na comissão de frente um ponto forte. Caracterizados de malandros liderados por uma entidade, deram o tom da proposta do tema, que é celebrar o povo brasileiro, os anti-heróis que superam com bravura os desafios do dia a dia. A quarta ala da agremiação da Cantareira, uma das poucas com caracterização específica dentre as apresentações do Acesso I, veio justamente representando diferentes perfis de pessoas comuns, chamando a atenção do público.
A “Bateria do Zaca”, comandada pelo mestre Serginho, mostrou a já conhecida boa forma e ajudou a animar os componentes, que cantaram forte o samba comandado pelo intérprete Hudson Luiz.
MANCHA VERDE
A quarta apresentação foi de outra agremiação que teve um rebaixamento surpreendente. Após anos disputando título na elite, a Mancha Verde volta ao Acesso I e já no minidesfile demonstrou sua força. Apostando na reedição do enredo “Pelas mãos do mensageiro do Axé, a lição de Odu Obará: a humildade”, do Carnaval de 2012 e assinado desta vez por Rodrigo Meiners, a apresentação teve como principal destaque a harmonia. O samba, que assim como na primeira vez foi comandado pelo intérprete Freddy Vianna, é um dos mais cantados na quadra alviverde há anos, o que tornou muito fácil para a comunidade se empolgar ao som da obra.
Destacaram-se também a bela caracterização da comissão de frente, com uma coreografia vibrante, e o alto astral do primeiro casal, formado por Adriana Gomes e seu novo parceiro, Thiago Bispo.
NENÊ DE VILA MATILDE
Após bater na trave em 2025, a Nenê aposta no enredo “Encruzas – Nenê de Corpo e Alma no Coração de São Paulo”, assinado por Danilo Dantas, que exaltará o famoso cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, para retornar ao Grupo Especial. A Águia da Zona Leste foi a quinta escola a passar pela pista e, entre seus principais destaques, esteve o grande número de desfilantes. A comunidade compareceu em peso e cantou o samba defendido pelo intérprete Tiganá com vigor. A obra teve um bom desempenho no desfile, embalada pelas notas criativas da “Bateria de Bamba”, comandada pelo mestre Matheus Machado.
PÉROLA NEGRA
Retornando como campeã do Grupo de Acesso II e sexta escola a se apresentar, a Pérola Negra foi também a primeira agremiação do ano a apostar em um tripé no minidesfile, o que se tornou padrão até o final do evento. A alegoria era basicamente o símbolo da escola, porém grande e rica em detalhes. A “Joia Rara” também optou por não abrir a apresentação com uma comissão de frente coreografada, apostando no encanto da comunidade de sua escola mirim, a Perolinhas do Amanhã, para conquistar o público.
O animado samba, defendido pelo intérprete Lucas Donato e Juan Briggs, embalou a comunidade da Vila Madalena ao longo do desfile, que contou também com alguns componentes caracterizados de acordo com o enredo “Valei-me cangaceira arretada, Maria que abala a gira, valente e bonita que vence demanda”, assinado por André Machado, que celebrará a força da mulher nordestina por meio da figura da cangaceira Maria Bonita, esposa de Lampião.
DOM BOSCO DE ITAQUERA
A escola da Zona Leste foi a sétima a se apresentar e, desde o início, impressionou o público com sua comissão de frente caracterizada e evoluindo em passos bem comuns de enredos afro. O tripé que veio em seguida contou com a presença de uma destaque fantasiada em referência ao enredo “Mariama – Mãe de todas as raças, de todas as cores. Mãe de todos os cantos da Terra”, assinado por Fábio Gouveia.
O exaltado samba da Dom Bosco, defendido pelo intérprete Rodrigo Xará, mostrou força na pista por meio do forte canto da comunidade. Outro destaque vai para as várias rosas distribuídas ao público ao longo da passagem da comunidade itaquerense.
INDEPENDENTE TRICOLOR
Iniciando sua apresentação com um tripé gigantesco com o símbolo e o nome da escola, a Independente Tricolor foi a oitava e última escola do Acesso I a se apresentar. A comissão de frente passou caracterizada e evoluindo de acordo com a proposta do enredo “N’Goma – A primeira festa na manhã do mundo”, assinado por Léo Cabral e Yuri Aguiar. Chamou a atenção um componente do quesito carregando um tambor e o tocando em dados momentos da coreografia, sendo referência direta à proposta central do tema. O primeiro casal da escola, formado por Jeff Anthony e Thais Paraguassu, levantou o público com vigor e uma bela dança.
A Acadêmicos de Niterói realizou mais um ensaio na Avenida Amaral Peixoto neste domingo e, mais uma vez, o samba da agremiação se destacou pela excelente comunicação com o público, principalmente em seu chiclete refrão de cabeça, na boca do povo que assistiu ao ensaio e também dos componentes. A obra faz jus à figura extremamente popular do homenageado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cresce a cada apresentação da azul e branco e se firma como alicerce para um desfile quente na Marquês de Sapucaí. O casal Emanuel e Thainara foi outro destaque do ensaio, com mais uma ótima apresentação que mostrou todo o entrosamento da dupla. A Niterói tem a dura missão de abrir os desfiles do Grupo Especial no domingo de Carnaval, apresentando o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, de autoria do carnavalesco Tiago Martins.
Emanuel e Thainara vivem um momento especial na carreira, estreantes como primeiro casal no Grupo Especial e vindos de um excelente minidesfile, onde exibiram todo o seu talento. Neste ensaio, seguiram o padrão de apresentação que alcançaram, com muita uniformidade nos movimentos, leveza gestual e elegância, exibindo o entrosamento que possuem dos últimos carnavais. Um desempenho que abre um ótimo horizonte pensando no desfile oficial.
EVOLUÇÃO
Calcada na força de seu samba e puxada pela comunicação com o público presente na Amaral Peixoto, a Niterói mostrou uma evolução firme, com as alas preenchendo bem a pista e mostrando animação e garra. Exceto no refrão principal, onde a escola balançava os braços cantando “Olê, olê, olá, Lula, Lula”, dando uma bonita movimentação e uniformidade à evolução, os componentes desfilaram muito soltos, podendo cantar e sentir o samba cada um à sua maneira, sem perder a organização. O ritmo de evolução foi confortável, sem correria, e a azul e branco foi avançando na pista com tranquilidade.
SAMBA E HARMONIA
A obra que a Niterói levará para a avenida já nasceu popular e segue em crescente, impulsionando toda a apresentação da escola. Além do refrão de cabeça, que é o grande momento de explosão do samba, o trecho “sem mitos falsos, sem anistia” é muito cantado e se tornou outro ponto de destaque. A primeira parte é mais extensa e, em alguns momentos, passa de forma mais morna, porém tem sido levantada por Emerson Dias e seus apoios com muita garra e domínio do samba.
No seu todo, a obra tem puxado o desempenho da Niterói nos quesitos de chão e contribuiu para uma competente harmonia exibida no ensaio. A maior parte dos componentes cantou com entusiasmo diversos trechos, até menos explosivos, como o trecho central “vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz…”. A primeira parte mostrou alguns componentes com canto mais irregular, mas na segunda parte o canto cresceu consideravelmente, até uma explosão no refrão de cabeça.
Emerson Dias, intérprete da agremiação, falou sobre a força e popularidade do samba:
“O samba já está num patamar, numa esfera fora do âmbito só do Carnaval, no Brasil inteiro. É um samba que qualquer postagem na internet alcança 100 mil visualizações, milhares de comentários. Podemos ver a força deste samba no minidesfile. O samba está numa crescente muito boa, e isso é o mais importante. Sabemos da responsabilidade e da dificuldade que será alcançar a permanência, mas estamos preparados e brigando muito para que isso aconteça”, afirmou.
OUTROS DESTAQUES
Uma pequena menina ao lado da musa Karinne Rodrigues roubou a cena com muita fofura e samba no pé. Karinne também se destacou com bastante samba e carisma.
A bateria de Branco Ribeiro passou com firmeza e contribuiu para o bom desempenho do samba da escola.
A comissão de frente não se apresentou no ensaio; a cabeça da escola abriu com o casal de mestre-sala e porta-bandeira.