Em um minidesfile de forte presença cênica e canto vigoroso, a União de Maricá mostrou a força de sua comunidade com uma belíssima comissão protagonizada por mulheres negras, um casal com boa apresentação, um samba-enredo que levantou a Cidade do Samba e destaques performáticos que trouxeram brilho à passagem da agremiação. A escola será a sexta a desfilar no sábado de carnaval com o enredo “Berenguendéns e Balagandãns”, assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira.
Patrick Carvalho apresentou uma comissão de frente formada por mulheres negras, com a pivô vestida como baiana, adornada com joias e carregando ervas nas mãos, em uma cena que evocou o gesto ritual do banho de folhas. A coreografia explorou movimentos inspirados nas danças dos orixás, compondo um quadro de grande beleza visual e uma composição cênica de fácil leitura, reafirmando a excelência artística do quesito. Já o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Fabrício Pires e Giovanna Justo, teve bons momentos, especialmente quando Giovanna avançou com firmeza para apresentar o pavilhão, imprimindo personalidade ao bailado.
A União de Maricá calou seus críticos com um canto vigoroso. O pré-refrão “e a quem renega a mulherada, vai dormir com esse barulho” e o refrão principal foram entoados com potência por toda a escola. Zé Paulo Sierra conduziu o samba com precisão e firmeza, em um samba feito sob medida para seu canto melodioso, apoiado por arranjos vocais de excelente qualidade executados pela equipe do carro de som. No paradão realizado durante o desfile, a comunidade respondeu de forma constante e aguerrida, sustentando o ritmo do samba sem perder o fôlego. A evolução da escola combinou técnica e fluidez, garantindo uma passagem bem organizada pela pista. Ainda assim, merecem atenção os espaços que surgiram entre o primeiro casal e a ala performática em alguns momentos do trajeto.
Chamou atenção a performance de Carlinhos Salgueiro, que surgiu com máscara de pedras e capa prateada, criando momentos de grande impacto cênico ao interagir com o público e ao revelar diferentes camadas do figurino. A ala de Maculelê, que veio logo depois de Carlinhos, também se destacou com uma coreografia dinâmica, repleta de giros e, sobretudo, com muita vitalidade na dança.
A Acadêmicos de Vigário Geral apresentou um minidesfile em que a comissão de frente tensionou o encontro entre europeus e povos indígenas. O primeiro casal mostrou vigor e personalidade, o canto e a evolução oscilaram ao longo da passagem, e a bateria reafirmou sua força como um dos trunfos da escola. A agremiação fechará os desfiles da sexta-feira de Carnaval com o enredo “Brasil Incógnico: O que os seus olhos não veem, a minha imaginação reinventa”, assinado pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini.
Sob a coreografia de Handerson Big, a comissão de frente surgiu com figurinos que remetem aos primeiros europeus que chegaram ao Brasil. Os movimentos desmontam a perspectiva colonial dessa chegada, explorando gestos que muitas vezes colocam os conquistadores em situação de desajuste, enquanto, em alguns momentos, o grupo evoca a presença dos povos indígenas, tensionando o encontro entre colonizadores e nativos. Houve problemas pontuais de figurino, com peças de roupa se deslocando em dois componentes durante a apresentação.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Johny Matos e Isabella Moura, apresentou um bailado vigoroso e aguerrido. Isabella se destacou pela precisão nos giros rápidos e pela chegada flecheira ao encontro do mestre-sala. No trecho “a pele preta, a coroa e o cocar”, os dois se encaram com punhos fechados e sorrisos cativantes, sintetizando em gesto a força do verso. Em sua primeira temporada como primeiro casal na Série Ouro, Johny e Isabella demonstram personalidade e potencial de crescimento ao longo da temporada.
O canto da Vigário apresentou oscilações ao longo do samba, com trechos intermediários menos participativos, mas o pré-refrão e o refrão principais foram entoados com vigor pelos componentes. A interpretação de Danilo Cezar ajuda na harmonia da escola: seu canto projeta bem os versos e faz com que cada estrofe seja compreendida na Cidade do Samba, em uma belíssima performance. A evolução da escola foi regular, sem grandes problemas, mas um pouco mais de fluidez entre as alas pode tornar a passagem ainda mais coesa.
Entre os destaques da noite, a bateria “Swing Puro”, comandada por mestre Luygui, reforçou seu lugar como um dos pontos fortes da Unidos de Vigário Geral. Com boa pegada e organização, o conjunto sustentou a escola com segurança e apresentou bossas que dialogam com o universo fantástico proposto pelo enredo.
O Arranco do Engenho de Dentro apostou na gargalhada em um minidesfile de clima circense, marcado por uma comissão de frente brincante, canto e evolução oscilantes e uma bateria que se destacou como ponto alto da apresentação. A escola será a terceira a desfilar no sábado de carnaval com o enredo “A Gargalhada é o Xamego da Vida”, assinado pela carnavalesca Annik Salmon.
Os coreógrafos Lipe Rodrigues e Márcio Dellawagah apresentaram uma comissão de frente composta por clowns. Os palhaços exploraram gestualidades típicas da palhaçaria: mãos expressivas, caretas, piruetas e a presença de quatro integrantes em pernas de pau, resultando em uma apresentação leve e divertida. O casal Diego Falcão e Denadir Garcia entregou um bailado gracioso, em sintonia com o clima brincante do enredo. Denadir destacou-se em seus movimentos, com giros precisos e canto firme, interpretando trechos marcantes do samba-enredo. Ainda assim, faltou precisão na sincronia da dança do casal.
O canto da escola azul e branca oscilou entre as alas. As baianas defenderam o samba com propriedade, enquanto a ala coreografada com pompons pouco cantou. O pré-refrão “não tem corda bamba que faça meu riso tombar” impulsionou a participação dos componentes e deu corpo à passagem. Apesar da instabilidade na harmonia, os intérpretes Pâmela Falcão e Rodrigo Tinoco mostraram categoria e energia, sustentando uma performance contagiante para o público das arquibancadas. A evolução também apresentou momentos irregulares: houve formação de buracos entre algumas alas, especialmente após a saída da bateria do recuo, que deixou um bom espaço vazio na altura do ponto de simulação da cabine.
A bateria “Sensação”, comandada pela mestre Laísa, foi um dos grandes destaques da noite. Com firmeza e criatividade, o quesito apresentou uma bossa inspirada em ritmos circenses, transportando a Cidade do Samba para o clima de um verdadeiro picadeiro e reafirmando a bateria como uma das forças da agremiação.
Desde 2017, a Nenê de Vila Matilde não pisa no Anhembi como parte do Grupo Especial de São Paulo. Oito anos se passaram, mas o sentimento de pertencer ao Especial nunca saiu da comunidade azul e branco, de quem vive a escola no dia a dia e de quem chora ao ouvir o hino da sua escola do coração. Por isso, o CARNAVALESCO ouviu quem realmente sente a dor e a saudade de estar aonde nunca mereceu ter saído. Muitas perguntas surgem, muitas delas sem respostas: será que chegou a hora? O que ainda está faltando? Quando sentiram que podia e não deu? E, acima de tudo, o que é preciso para que o acesso finalmente aconteça?
No olhar de quem cresceu nos becos da Zona Leste, a baiana Elma Leda da Silva, 66 anos de vida, 25 anos de agremiação, a Nenê não é só uma escola, é uma herança que se carrega no peito. E é com essa emoção que ela traduz a força da comunidade.
“A Nenê é mais do que uma escola. É família, é história, é raiz. Já sentimos que dava, já chegamos perto, já choramos pela chance que escapou. Mas nunca deixamos de lutar. O que falta? Falta união total, falta acreditar de verdade, todos juntos. Acreditar que a Nenê pode voltar para o grupo especial, e a gente vai lutar por isso. A gente vai voltar a sorrir, eu não tenho dúvidas disso”, disse Elma.
Quando o tempo passa e o sonho insiste em permanecer vivo, a esperança ganha nome e sobrenome na comunidade. Fábio Jonas, 48 anos, 20 anos de Nenê, “Malandro da Vila” traduz esse sentimento com a verdade de quem batalha ano após ano.
“Não chegou a hora, passou da hora. A gente está lutando dia após dia, carnaval após carnaval, para que esse acesso tão sonhado chegue. O que falta para acontecer? Na realidade, eu não sei te dizer, porque cada ano que passa a gente acaba superando, a gente não sabe o que o jurado quer. A cada erro, a cada ano, a gente acaba superando erros passados para, quando subir, nunca mais cair. 2025 e 2024 foram dois anos especiais para mim. Em 2024, fizemos um belo carnaval; em 2025, fizemos um desfile maravilhoso, tanto para o público quanto para o jurado, mas infelizmente não conseguimos o sonhado acesso. O que é preciso para conseguir o acesso? Calor humano, amor à escola e, principalmente, muita garra”.
Há quem olhe para números. Mas há quem olhe para a alma da escola e ali enxergue a resposta. Sthephanye Cristinne, 27 anos, 24 de carnaval, musa da Nenê, fala com a confiança de quem sente a Nenê vibrando mais forte a cada ensaio.
“Se chegou a hora? Eu tenho certeza que sim. Eu acho que, no ano passado (2024), tivemos pouca diferença na pontuação; está muito claro que faltaram poucos décimos para conseguirmos o acesso. A escola está muito bem preparada para esse momento, e eu tenho certeza de que vai dar tudo certo. Eu confio muito no projeto que me foi apresentado e que foi apresentado para a comunidade, que está acreditando nisso. O que está faltando nesse momento? É simples: nada! Porque a Nenê tem uma comunidade muito aguerrida. Porém, é uma escola tradicional, e, atualmente, infelizmente, ou felizmente, o carnaval é midiático; as pessoas acreditam muito naquilo que é visto. Mas eu acredito muito na tradição e na força da minha escola. Eu tenho a sensação de que a escola se sente no Especial, é como se o acesso fosse só um nome. Para a Nenê, isso é apenas um título. É uma escola que se sente muito forte e totalmente capacitada para chegar ao Grupo Especial. Para a gente, estar no acesso não diminui a vontade de estar no Especial. Eu acredito na garra da comunidade, que faz isso acontecer em cada ensaio. A gente mostra que merece, e isso vai acontecer de uma forma muito bonita”.
Quando a caminhada é longa, a dor da espera se mistura à certeza do futuro. Rodrigo Oliveira, 45 anos, 28 anos de Nenê, diretor geral de Harmonia da Nenê, nas palavras o peso dos anos e a determinação de quem acredita que o retorno está mais próximo do que nunca.
“Passou da hora de subirmos para o Especial. A gente não aguenta mais esses nove anos no Grupo de Acesso. Tivemos um período sabático, em que a Nenê teve que reaprender, reorganizar, reciclar e, enfim, fazer todo esse processo para poder tomar um caminho de retomada. Nos últimos anos, a escola vem fazendo um bom trabalho, e eu tenho certeza de que esse caminho está sendo muito bem construído. Tomara que agora, em 2026, seja a hora da gente voltar e ficar para valer no lugar de onde a gente nunca deveria ter saído. O ano do Faraó Bahia, em 2023, foi o ano em que senti que íamos conseguir o acesso. Foi um ano que tinha tudo para dar certo, mas infelizmente não aconteceu. Na sua pergunta ‘o que falta?’, acredito que agora eu posso te responder, porque o que falta, a gente está buscando e tentando eliminar. Agora é lutar bravamente e conquistar o que sempre sonhamos”.
Entre lágrimas, sorrisos e a certeza de que cada ensaio é uma luta pelo acesso, a Nenê de Vila Matilde segue caminhando com a força de quem nunca desistiu. A escola que aprendeu a se refazer, viu gerações crescerem sob o solo azul e branco, transformou dor em resistência e saudade em trabalho. A escola continua focada no propósito de voltar ao lugar de onde jamais deveria ter saído. O futuro não é uma promessa distante; ele está sendo construído agora, na fé de uma comunidade inteira.
Se a hora chegou? Talvez a resposta esteja justamente na união, na tradição e no amor que transbordam nos depoimentos de quem vive a Nenê todos os dias. Para a Vila Matilde, o acesso não é apenas uma colocação no papel: é um reencontro com sua própria grandeza. E quando a comunidade acredita, trabalha e sonha junto, o impossível deixa de existir. A Nenê segue forte e preparada.
Quando o grande dia chegar, será mais do que um retorno: será a afirmação de uma história que nunca deixou de brilhar.
Após uma semana longe do Boulevard 28 de Setembro, a Unidos de Vila Isabel voltou a pisar na rua nesta quarta-feira, 10 de dezembro, para a realização de mais um ensaio de rua em vista do Carnaval 2026. Com Tinga carregado nos braços ao final do ensaio, em uma noite muito potente do intérprete, a escola do Bairro de Noel demonstrou uma evolução tranquila e fluida ao longo do treino desta noite, além de os componentes estarem com o samba de cor e salteado, mantendo a boa performance dos últimos ensaios. A Vila Isabel homenageia Heitor dos Prazeres no Carnaval 2026, com o enredo “Macumbembê Samborembá – Sonhei que um sambista sonhou a África”, onde cantará a vida e a obra do sambista e multiartista que foi fundamental para o surgimento das escolas de samba.
Comandada por Alex Neoral e Márcio Jahú, a comissão de frente da Vila se apresentou com uma coreografia com bastante movimentos que remetiam a religiões de matriz africana em geral, marcando bem a relação com a religiosidade de Heitor dos Prazeres e com suas origens. A apresentação também contou com passos bem firmes, movimentos rápidos, e o elenco se dividindo em dois a partir do refrão do meio, em uma proposta interessante quando a outra metade fica observando como “responsáveis” do grupo que se apresenta, para depois trocarem, e por fim se unirem, chamando bem a atenção de forma positiva.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Raphael e Dandara realizaram, de frente à simulação da cabine, uma coreografia bem tradicional e bastante suave, bem sincronizada e unitiva entre eles, com movimentos clássicos nos giros e no cortejo realizado por Raphael a Dandara, além de contar com alguns gestos e movimentos descritivos em alguns momentos, em especial os que remetem à cultura e à religiosidade afro-brasileira, como no próprio refrão do samba, em que ambos demonstram passos e gestos de Oxum e Xangô, que encerraram demonstrando muita força também nesta parte final do bailado do casal.
SAMBA E HARMONIA
Levantado nos braços pelos componentes e torcedores da escola ao final do ensaio, Tinga defendeu mais uma vez muito bem o samba da Vila, mostrando o total domínio da obra, conseguindo levar a comunidade a cantar muito bem junto a ele, e ao carro de som, que também está bem afinado ao cantor, todos sob a direção de Douglas Rodrigues. O samba a cada semana prova seu valor com o canto forte do Povo de Noel, que não deixou a obra cair em nenhum momento durante esta noite.
Tinga falou com o CARNAVALESCO ao final do ensaio, destacando a alegria do torcedor da Vila com o samba e a expectativa para o próximo carnaval.
“Tudo maravilhoso, estamos felizes demais, e preparados para esse carnaval lindo que vai ser o da Vila Isabel. O mais importante é que a comunidade está feliz, cantando com alegria e muito forte. Vamos em busca desse sonho tão sonhado título”, disse.
EVOLUÇÃO
O Boulevard foi palco de uma evolução muito fluida da agremiação. Durante todo o treino a escola passou sem atropelos ou correria, mas também sem longas paradas, com os componentes vibrando a cada momento, se movimentando bem soltos nas alas, e demonstrando muita segurança com o samba da escola. Moisés Carvalho, diretor de Carnaval, fez um balanço da evolução da Vila ao longo dos últimos ensaios, que enxerga de uma forma muito positiva, e reforça que a Vila busca sempre se fortalecer para o dia dos desfiles do Grupo Especial, com os ensaios de rua.
“Saldo positivíssimo, a gente vem fazendo o nosso trabalho incansável de canto, de evolução. Quando não tem 28, vamos para a quadra. A Harmonia está trabalhando incansavelmente para fortalecer o canto e a evolução da escola, que é uma marca da Vila Isabel. E voltar para 28 é sempre um arrepio, acho que a comunidade está de parabéns, também todo mundo que vem prestigiar o nosso ensaio e todos os segmentos. Fechamos o ano dia 17, com chave de ouro, e visando, em janeiro, entrar novamente com o pé firme na 28, atrás do campeonato”, declarou.
OUTROS DESTAQUES
O presidente da Liesa, Gabriel David, acompanhou o ensaio de rua da Vila, cumprimentando o Povo do Samba antes do início do mesmo, entre o esquenta e a arrancada da escola. A bateria de Mestre Macaco Branco também seguiu com seu nível de excelência e entregou mais um grande ensaio na 28 de Setembro, realizando as bossas pensadas para os ritmistas. A rainha Sabrina Sato não esteve presente no ensaio desta quarta. O ensaio do dia 17, quarta próxima, será o último do ano para a escola, que retomará os mesmos em janeiro.
A União do Parque Acari cantou o seu enredo “Brasiliana”, um tributo ao primeiro grupo de teatro negro do Brasil. Com um dos sambas mais bonitos e poéticos do grupo, a escola passou com correção, tendo como destaques o samba e a ótima apresentação de seu casal de mestre-sala e porta-bandeira, pecando no canto falho de seus componentes.
Fotos: S1 Comunicação
A comissão de frente ensaiada por Fábio Batista exibiu componentes com uma bonita vestimenta, com um rei central portando seu cetro. A coreografia foi muito bem executada, vigorosa e limpa. O casal Renan Oliveira e Amanda Poblete teve um excelente desempenho. Amanda, de volta à Sapucaí como primeira porta-bandeira após ausência em 2025, mostrou um bailado encantador, exuberante e leve. Renan a acompanhou com muita elegância.
Com um samba de muita beleza, mas pouco explosivo, o canto foi irregular por parte dos componentes. Nem o refrão de cabeça sustentou o canto na totalidade das alas. Em alguns momentos o canto foi mais satisfatório; em outras alas, havia componentes calados. A Acari veio com um pequeno contingente e passou com rapidez pela pista, mas sem correria, conseguindo manter organização entre suas alas. O samba mostrou sua beleza, com um desempenho correto de Leozinho Nunes e Tainara Martins. A bateria dos mestres Daniel Silva e Erik Castro imprimiu um bom ritmo e bossas bem precisas, dando um bom “molho” ao samba.
O Império Serrano pisou na pista homenageando Conceição Evaristo. A escola desfilará no sábado de carnaval com o enredo “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”. A agremiação da Serrinha mostrou toda a sua competência de chão, de fundamentos e de canto em um belo minidesfile, à altura da homenageada Conceição Evaristo.
A comissão comandada por Marlon Cruz trouxe uma interpretação de Conceição como destaque principal, com outras 13 mulheres com vestimentas fazendo alusão a livros e escritas. Uma coreografia simples, porém bem executada. A parte final da apresentação, com Conceição recebendo um grande livro com a bandeira do Império na capa, foi bem pensada e deu um ápice maior para a apresentação.
O casal Matheus Machado e Maura Luiza realizou uma apresentação com coreografia mais solta, com alguns problemas de sincronismo na realização dos movimentos, mas com bastante energia. Uma apresentação regular.
A comunidade imperiana não costuma falhar quando o assunto é canto, e mais uma vez cumpriu o quesito com correção. Apesar de não ter sido um canto avassalador, a maior parte das alas levou bem o samba no gogó. A reta final da segunda parte combinada com o refrão principal levantou o canto da escola. A evolução foi um pouco irregular, com os componentes acelerando no início e depois alternando com momentos em que a escola ficava parada. As últimas alas evoluíram com uma constância maior. Na parte final da pista, o Império abriu um buraco entre passistas e a bateria.
O bonito samba obteve um bom rendimento, realçando suas qualidades poéticas. Vitor Cunha e seus apoios defenderam o samba com competência, acompanhados de uma precisa bateria comandada pelo mestre Sopinha. O bom refrão principal mostrou força.
Apresentando um bom número de componentes, a Unidos de Bangu foi a sexta escola a se apresentar na Cidade do Samba. Com um samba que tem sido bastante elogiado neste pré-carnaval, a Bangu poderia ter ido melhor com seus intérpretes principais, mas ainda assim conseguiu chamar a atenção do público já muito presente naquele momento. Os componentes da comissão de frente da Bangu, comandados pelo coreógrafo Fábio Costa, em homenagem a Leci Brandão, não podiam fazer diferente e vieram de sambistas, trazendo também um pouco do clima de gafieira para a Cidade do Samba. As roupas estavam nas cores da escola, e a apresentação foi muito focada na dança, o que trouxe um frescor para o início do desfile e produziu um bonito efeito visual, mesmo sem grandes efeitos ou surpresas.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Leonardo Moreira e Bárbara Moura, mostrou intensidade e movimentos com bom grau de dificuldade, indo bem, com giradas intensas da porta-bandeira e se procurando, preferindo o estilo mais tradicional de dança de casal, mas fazendo uma coreografia com passo de dança para o orixá “batendo cabeça” no refrão principal, no “Ogunhê, meu pai Ogum”. Apenas em um momento houve um pequeno desencontro na segunda do samba, mas nada que tenha maculado a boa apresentação da dupla. Na frente da escola, as baianas vieram com uma fantasia tendo o tecido “fazenda” entre o branco tradicional e o vermelho. O tripé do início do desfile representava a favela e os barzinhos onde o samba floresce, nas cores verde e rosa, escola do coração de Leci, a Estação Primeira de Mangueira.
Sem os intérpretes Fredy Vianna — presente no minidesfile de São Paulo com a Mancha Verde — e Pipa Brasey, apesar do esforço do time de vozes que tinha, entre outros, os experientes Sandro Motta e Ronaldo Ylê, o desempenho ficou abaixo do que obviamente seria esperado com a dupla, ou ao menos com um dos dois intérpretes presentes. Mas, ainda assim, a ótima obra mexeu com o público e com quem desfilava. A escola apresentou um canto irregular no início, mas que cresceu à medida que avançava pela pista. Destaque para o refrão principal e para o trecho logo adiante, pela ótima resolução melódica: “Chama o morro do Pau da Bandeira”. A bateria Caldeirão da Zona Oeste, de mestre Dinho, homenageou a coirmã Mangueira com uma bossa representando o surdo de primeira da Verde e Rosa no trecho do samba que citava a escola. No refrão de baixo, também havia o toque para o orixá.
A escola pareceu um pouco grande, mas evoluiu bem, sem apresentar buracos ou grandes espaçamentos, com fluidez e espontaneidade. A rainha Camila Prins estava toda brilhosa, cheia de joias que tinham brilho quase próprio; fantasia bem rica, chamando atenção e mostrando samba no pé e simpatia. Em 2026, com o enredo “As coisas que mamãe me ensinou”, a Unidos de Bangu será a quarta escola a pisar na Sapucaí na primeira noite de desfiles da Série Ouro.
A Unidos da Ponte foi a quinta escola a se apresentar e, mesmo sem ter Thiago Brito em São Paulo também para o minidesfile, a agremiação viu seu carro de som aumentar o rendimento do samba e ajudar a escola a fazer uma boa apresentação. Thiaguinho e Jéssica, primeiro casal da Ponte, mostraram muita desenvoltura e impressionaram quem assistia. Os componentes da comissão de frente da Ponte, comandados pela coreógrafa Juliana Frathane, trouxeram o ritmo homenageado no enredo. Os “funkeiros” mandaram diversos passinhos, com leques na mão e bonés com luz de LED.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Thiaguinho Mendonça e Jéssica Ferreira, saiu do lugar-comum que seria, para um enredo como esse, trazer diversos passinhos. Ao contrário, muito elegantes na vestimenta azul-marinho, abusaram do bom gosto também na dança. Com muito vigor, intensidade, mas, acima de tudo, postura e técnica, apresentaram-se misturando a dança tradicional com algumas pontuações no samba, como o punho cerrado no trecho “Na força do black onde o negro é rei”, e depois, com muito charme, fizeram passos juntos, com bastante sensualidade, no trecho “tem charme no viaduto”. Na entrada do desfile, teve também um tripé enorme, com muita luz de LED e néon, que trazia o “paredão” dos bailes funk, com as caixas de som empilhadas.
Mesmo sem Thiago Brito, Matheus Gaúcho mostrou bastante valentia levando o samba com o andamento um pouco mais para cima, com a ajuda da bateria “Ritmo Meritiense”, de mestre Juninho e mestre Alex Vieira. Apesar de a obra em si não ter conseguido se destacar, a dupla de intérpretes e todo o carro de som fizeram um trabalho muito bom, mantendo o clima sempre alto e mostrando que houve muito ensaio, com a boa colocação de terças e vocalizações no trabalho.
Já o canto da escola poderia ter sido melhor: foi tímido, com poucas alas cantando. Na evolução, a escola mostrou alegria e trouxe, em diversas alas, os passinhos misturados com o samba, que deram um astral legal para o desfile da escola. A rainha Thalita Zampirolli chamou atenção com uma fantasia de muito brilho entre o prateado e o azul. Em 2026, com o enredo “Tamborzão – O Rio é baile! O poder é black!”, a Unidos da Ponte vai encerrar os desfiles do Carnaval da Série Ouro.
Com mais de três décadas de trajetória conjunta sob o pavilhão da Beija-Flor de Nilópolis, Claudinho e Selminha Sorriso se tornaram mais do que um casal de mestre-sala e porta-bandeira: são memória viva, referência estética e elo afetivo entre gerações de torcedores. Para quem cresce acompanhando a escola, é praticamente impossível imaginar a azul e branca sem a presença dos dois na avenida.
“Eles são o casal mais simbólico pra mim, porque eu cresci vendo eles. Já estavam lá quando eu nasci. É muito simbólico acompanhar essa trajetória desde a minha infância”, afirma Yuri Costa, 29 anos, morador de Nilópolis. Segundo ele, o entrosamento construído ao longo desses 30 anos transforma a dança em algo quase indescritível. “É como feijão com arroz, sabe? É impossível imaginar um sem o outro. É um casamento profissional, um casamento de dança”.
Yuri Costa, 29 anos, morador de Nilópolis
O sentimento se repete entre muitos torcedores da Baixada Fluminense, especialmente em Nilópolis, onde a Beija-Flor é mais do que uma escola de samba: é identidade local, senso de comunidade e resistência cultural. Diogo Oliveira Monteiro, de 39 anos, define a experiência como um privilégio. “Para quem é da Baixada, quem é de Nilópolis, sabe o que a Selminha e o Claudinho representam pra gente. Eu não consigo pensar em Beija-Flor sem eles”.
Diogo Oliveira Monteiro, de 39 anos, define a experiência como um privilégio
Diogo diz enxergar no casal a imagem de uma realeza preta em movimento. “Ela vem na avenida representando toda uma comunidade. Quando passa, olha a gente no olho. Está ali por nós. Isso é muito forte.” Ao imaginar um futuro em que Selminha possa ocupar a presidência da escola, ele não hesita: “Seria o auge. Ela tem potencial pra isso”.
Essa presença não se limita ao espetáculo do desfile. Para Vinicius Silva, de 27 anos, designer e torcedor desde a infância, a atuação da dupla na comunidade é tão impactante quanto na Marquês de Sapucaí. “Consegui ver a Selminha de perto em um projeto com a ala mirim da Beija-Flor. A força que ela e o Claudinho têm dentro da comunidade é algo difícil de substituir”.
Vinicius Silva, de 27 anos, designer e torcedor desde a infância
Na avaliação dele, além da excelência técnica, o que sustenta a grandiosidade do casal é a relação de confiança construída ao longo de décadas. “O entender do passo de cada um só no olhar é mágico. A química entre eles é vital. Como torcedor da Beija-Flor, sim, considero o maior casal da história do carnaval”.
Mesmo quando o assunto é inevitável, como a possibilidade de uma despedida da avenida, a fala dos torcedores é atravessada pela certeza de que o vínculo com a escola jamais será rompido. “Um dia vai chegar. Não sei se estou preparado, mas eles não vão deixar de ser Beija-Flor. Vão passar a bandeira pra próxima geração, mas continuarão ao nosso lado”, define Yuri.
Na Beija-Flor, Claudinho e Selminha Sorriso representam mais do que excelência técnica ou longevidade na função. Eles simbolizam continuidade, compromisso e ligação profunda com o território e sua gente. A cada desfile, reafirmam o papel do casal de mestre-sala e porta-bandeira como guardiões da memória, da identidade e da tradição da escola, não apenas na avenida, mas no cotidiano da comunidade que ajudaram a construir e fortalecer ao longo de décadas, e, com isso, são devidamente reconhecidos, valorizados e aclamados.