Tempo de sonhar: Paraíso do Tuiuti aposta de exaltação de personalidades negras para emocionar o público e fazer história
Com o enredo “Ka Riba Tí Re – Que nossos caminhos se abram”, a Tuiuti aposta na exaltação a contribuição de grandes figuras negras para a humanidade e uma ode ao futuro negro. Iman Shervington, que desfila pela primeira vez pela escola na Ala Show, em entrevista para o CARNAVALESCO falou sobre a força que esse samba irá trazer para à Sapucaí.

“Esse samba irá mostrar para os meninos e meninas que é um orgulho ser negro! Que na negritude também tem grandeza, também tem realeza, tudo. Apesar de, por muitas vezes, isso não ser explorado, mas, a Tuiuti irá trazer isso para o Brasil e, também para o mundo inteiro assistir.”

A Escola carrega em sua essência, assim como o carnaval, resistir e lutar por pautas que são tão necessárias em serem retratadas em um momento de grande destaque. É unanime que os componentes estão confiantes no título do Carnaval de 2022. Caso a escola conquiste o primeiro lugar, irá superar o feito histórico de 2018, em que se sagrou vice-campeã com o enredo “Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus, está extinta a escravidão?”.
A Paraíso do Tuiuti, abrirá o segundo dia de desfiles do Grupo Especial que será no sábado, dia em que se comemora, no Rio de Janeiro, dia de São Jorge, ou Ogum, um dos padroeiros da escola. Rosaria Xavier, desfilante da ala das baianas há 3 anos pela Tuiuti, destacou que voltar à Sapucaí é como se todos nós estivéssemos renascendo, toda à tristeza desses últimos anos será transformada em alegria e garra no desfile.
Na busca em superar o histórico vice-campeonato de 2018, a bateria, que foi obteve três notas 10 e um 9,9 no ano citado, do Mestre Marcão está preparando diversas novidades para os espectadores no desfile, Kleber Komka, ritmista no carnaval há 36 anos e em seu primeiro ano pela escola frisou que o momento é muito importante, mas que não se pode perder o foco.

“A alegria de voltar é enorme, mas não podemos desconcentrar, a finalidade é conseguir obter a nota máxima, o trabalho está muito bem-feito. Tanto que, até hoje, nas vésperas do desfile estamos acertando um ou outro detalhe, mas a bateria já está pronta e com uma base muito sólida”.
“A Tuiuti vem se preparando nesses últimos meses com ensaios consistentes, desde os que ocorreram no Sambódromo, até os de rua. Se os componentes da escola estão confiantes, a comunidade de São Cristóvão parece está polvorosa com o que a agremiação vem apresentando. Vanessa Frota, passista da escola, conta que a ansiedade aumentou ainda mais após o adiamento dos desfiles para abril, mas que a energia se multiplicou. A necessidade de extravasar essa alegria é o que nos dá ainda mais disposição”.
Leonardo Antan: ‘Narrativas carnavalescas e negras se destacam em ótimos trabalhos visuais’
“Alô mundo, o carnaval voltou!” Parafraseando o grande Neguinho da Beija-Flor, foi com sentimento de felicidade e emoção que os sambistas do grupo Especial voltaram a ocupar a Marquês de Sapucaí nessa sexta-feira, dia 22. Cercado de expectativas, os desfiles levaram para Avenida para enredos fortes e emocionantes. Ainda assim, foi uma noite de enredos que deixaram a desejar em alguns aspectos.

Retomando sua vitoriosa parceria com a lendária Rosa Magalhães, a Imperatriz homenageou Arlindo Rodrigues contando sua grande contribuição para a história do carnaval. Grandes desfiles de Salgueiro, Mocidade e da própria Rainha de Ramos foram recordados na pista, sob a assinatura da professora que usou o branco, as cores comuns das três agremiações para conduzir o tapete cromático. O enredo estava sendo contado não só em formas e fantasias, mas também nos materiais utilizados. Cada setor trazia um elemento que Arlindo introduziu no carnaval: a ráfia nos anos de Salgueiro, o acetato no setor da Mocidade e os espelhos deram o brilho da alegoria que celebrou o título de 1980 da Imperatriz. Rosa mostrou porque é um dos grandes nomes artísticos da folia, deu o nome com alegorias requintadas e muito bem acabadas, até mesmo grandiosas para seu estilo mais compacto habitual. Nem de longe, a verde e branco parecia ser a escola vindo da Série Ouro, mostrou sua grandeza e deve brigar pelo meio da tabela com tranquilidade.

A Mangueira também chegou lembrando sua história e grandes artistas do seu panteão. A homenagem a Cartola, Jamelão e Delegado começou a emocionar na Comissão de Frente, muito bem elaborada e realizada pelo casal Rodrigo Negri e Priscilla Motta. O enredo abordou aspectos da vida dos homenageados, sob a assinatura de Leandro Vieira, que optou por escolhas bastante pessoais na condução desses elementos do desfile. Por exemplo, no setor em referência a Jamelão, não vimos os grandes carnavais que tiveram o intérprete, mas sim a sua carreira como cantor de samba-canção e de gafieiras que ambientaram a terceira alegoria. Na concepção do artista, Leandro deixou as cores da escola para abusar do vermelho, mostrando assim uma mudança de cenário na narrativa, num claro exemplo de como cor também ajudava a contar o enredo. Por falar nisso, o visual apostou no uso derramado de verde e rosa, como Leandro nunca realizou na Mangueira. Inspirado em Júlio Mattos, grande campeão pela Estação Primeira, o uso de prata deu um ar sofisticado à famosa combinação da escola na abertura. A última alegoria, uma caixinha de música que tinha Delegado como bailarino, foi um dos destaques do cortejo.

Lá vem Salgueiro! A academia do Samba mostrou sua potência explosiva ao cantar “Resistência”, o samba guiou um cortejo com muita explosão e forte comunicação com o público. O enredo que versou sobre a presença preta na cultura carioca optou por um tratamento mais cronológico, nesse sentido, Alex de Souza concebeu alegorias bastante cenográficas, que reproduziam épocas e figurinos a rigor. A abertura se destacou visualmente, ao celebrar a clássica estética “afro-geométrica” da Revolução Salgueirense, com destaque para a escultura de Djalma Sabiá como um griô. Já no final, os últimos setores apresentaram formas menos bem resolvidas. A narrativa teve problemas de fluidez ao partir do Teatro Municipal para o Baile Charme em poucos elementos, criando uma ruptura estética na agremiação. Faltando uma amarração geral, que seria avaliada no saudoso quesito Conjunto. Ainda assim, Alex de Souza mostrou porque é um dos artistas mais talentosos e requintados da folia carioca, colocando o Salgueiro na briga pelas Sábado das Campeãs mais uma vez.

A São Clemente homenageou Paulo Gustavo no cortejo que marcou a estreia do artista Tiago Martins como carnavalesco solo. Apesar da pertinência e importância do humorista para a cultura brasileira na última década, o enredo seguiu uma linha de condução bastante simplória, que usou de elementos bastantes clichês para guiar seu desenvolvimento. O terceiro setor apresentou um tripé que fazia alusão ao bolo de casamento do artista, seguido pela ala “Dermatologista”, em referência a profissão de Thales Bretas, esses elementos são uma ótima mostra das decisões equivocadas da condução do carnaval. Visualmente, os figurinos eram leves e jocosos, mas o trabalho cromático também deixou a desejar, com uma paleta bastante colorida mas que não conversava entre si. Algumas fantasias e alegorias tiveram problemas de acabamento. Os pontos positivos ficaram por conta da bateria da agremiação e a última alegoria em preto e amarelo, que se destacou no conjunto. De maneira geral, a São Clemente deve brigar pelo rebaixamento.

Lá vem a Viradouro, aí! A atual campeã do carnaval carioca comemorou o fim da pandemia lembrando um momento histórico parecido: a folia de 1919, após a gripe espanhola. Um dos melhores enredos da noite, o tema foi desenvolvido com bastante pesquisa e aprofundamento histórico. A abertura abusou das cores escuras e tons de preto, lembrando o lendário cortejo campeão da alvirrubra de 1997, assinado por Joãosinho Trinta. Outra setor que se destacou foi o penúltimo, que lembrou os festejos populares na Praça Onze, permeado por vermelho e branco com toques de palha, dando um belíssimo efeito visual. As alegorias foram irregulares, apresentando algumas combinações mal resolvidas esteticamente. Ainda assim, o grande senão do desfile foi sua parte musical, um andamento acelerado não ajudou o samba-enredo, que acabou rendendo menos do que poderia. Se em 2020, a atuação da bateria em parceria com o intérprete Zé Paulo impulsionou a escola para o título, o mesmo não aconteceu esse ano.

A gigantesca Beija-Flor de Nilópolis encerrou o primeiro dia de apresentações propondo “empretecer” nossos pensamentos. O enredo passeou pela contribuição negra na cultura, mostrando grandes artistas, pensadores, filósofos, escritores e sambistas que produziram saberes fundamentais para o nosso país. Apesar de bastante temático, o enredo era bastante denso, com muitas referências e um trabalho de pesquisa bastante aprofundado. O visual foi concebido com competência, do imponente e ousado abre-alas até as esculturas de Pinah e Laíla no final, cada alegoria apresentou uma proposta diferente em cores e formas. Infelizmente, alguns percalços de execução e ausência de composições no segundo carro podem prejudicar a agremiação. A ala das baianas foi um dos destaques, reproduzindo a obra da artista plástica Rosana Paulino com bastante sensibilidade. Se reencontrando na Pista, a azul e branco fez um cortejo como há tempos não fazia, se destacando pela boa atuação do seu carro de som e sua ala musical. A tradicional comunidade de Nilópolis mostrou sua força e colocou a Beija-Flor na luta pelas primeiras posições.
Entre altos e baixos, a Beija-Flor junto a Viradouro e Imperatriz foram os destaques da noite, com boas apresentações também de Mangueira e Salgueiro em contraste ao mal desempenho da São Clemente.
Série Barracões: Com carnaval grande, Vila Isabel quer mostrar as diversas faces de Martinho no aguardado enredo para o carnaval de 2022
Não há como falar da Unidos de Vila Isabel, sem falar de Martinho José Ferreira, que se consagrou carregando o bairro e escola no nome, como o Martinho da Vila. Após anos de espera da comunidade, Martinho, que é o presidente de honra da escola, será o enredo da Vila para o carnaval de 2022. Com um gigantesco projeto para o desfile, característica do carnavalesco Edson Pereira, a Vila pretende mostrar a multiplicidade de Martinho na avenida: o artista, o escritor, o partideiro, o intérprete e o poeta de Vila Isabel.

Em entrevista ao Site CARNAVALESCO, realizada no barracão da escola, Edson Pereira conta que a grande surpresa positiva que teve na pesquisa do enredo foi se deparar com as diversas faces de Martinho como artista, muito além de ser apenas um cantor e compositor de alta qualidade. Além disso, segundo o carnavalesco da escola, na pesquisa, ele pode constatar ainda mais a importância de Martinho para a moldagem da identidade da Vila Isabel como escola.
“O mais surpreendente na pesquisa do enredo foi concluir como a Vila Isabel se coloca, diante da chegada do Martinho, como uma escola com uma forte negritude, com um poder de fala muito grande quando se trata de negritude e também a multiplicidade do Martinho como artista, porque muitos conhecem ele com o partideiro, o músico, o interprete, mas não conhece muito o Martinho como um grande escritor e grande poeta. Então, isso foi algo que me surpreendeu muito, além da simplicidade dele”.
Escolha do Enredo
Aguardado pela escola há muitos anos, o enredo sobre Martinho quase ocorreu no carnaval de 2010, mas o artista declinou da ideia por julgar mais pertinente, à época, homenagear o Noel Rosa, outro histórico compositor do boêmio bairro de Vila Isabel, em seu centenário. Logo após o fim do carnaval de 2020, o último antes da pandemia, a escola anunciou que homenagearia o artista no carnaval subsequente. Ao carnavalesco, Edson contou que a tomada de decisão partiu da escola e que a ideia foi prontamente acatada por ele.
“O Martinho é um enredo que é almejado pela comunidade da Vila Isabel, há muitos anos e esse é meu terceiro carnaval na escola, primeiro, eu fiz Petrópolis, depois, eu fiz Brasília e agora, veio esse presente que é fazer Martinho da Vila. O enredo não é autoral meu, a construção do enredo, sim, é minha e partiu da escola essa ideia de fazer a homenagem ao Martinho, que eu acho super justa”.

Plástica da escola
No projeto, Edson Pereira não fugiu de suas características e montou mais um desfile grandioso, com muito volume e riqueza de detalhes no conjunto alegórico.
“Eu acho que a plástica por si só e falando sobre mim mesmo, o maestro que conduz essa ópera, é o que todo mundo já sabe, uma grande escola, uma volumetria grande, com momentos muito específicos e especiais durante o desfile e a gente vai fechar o carnaval, um carnaval de redenção e a gente pretende que ele não termine ali, como diz a música, que não se acabe na quarta-feira de cinzas”.
Lado Político do homenageado
O carnavalesco também comentou sobre a cobrança, a qual considera não existir, por parte de algumas pessoas, para que a veia política de Martinho, como militante e ativista, entre no enredo da escola. Ao falar sobre o assunto, Edson afirmou que essa parte da vida do artista estará no desfile, porém sem ser o foco ou o fio-condutor do desfile da Vila Isabel.
“Eu não considero que exista essa cobrança porque, se você vai falar de um enredo e de uma pessoa que viveu esse momento tão político da nossa história, obviamente, isso tem que estar presente. Mas, não precisa ser o foco do enredo, até porque a gente não está fazendo um enredo biográfico, a gente não quer falar de tristeza e de momentos ruins, a gente simplesmente vai citar esse momento porque é importante não só na história do Brasil, mas também na história do Martinho da Vila. Então, é um momento que vai estar presente e tem que estar presente, mas não obrigatoriamente ele tem que ter toda essa evidência e essa cobrança que as pessoas colocam”.
Grande Trunfo do desfile
Como não poderia ser diferente, o grande trunfo da Vila Isabel para o carnaval de 2022 é o seu enredo. Embalada pela emoção de homenagear o grande ídolo e representante da comunidade, a escola espera encerrar a segunda noite de desfiles do Grupo Especial com Martinho aclamado pelo povo.
“O grande trunfo desse enredo é o próprio Martinho porque, a partir do momento que você tem um bom enredo, você tem um bom samba e você tem uma boa comunidade para abraçar esse ícone da escola. Eu acho que o Martinho é o grande trunfo”.
Entenda o desfile
A Unidos de Vila Isabel encerrará a segunda noite de desfiles do Grupo Especial, em 23 de abril, com 9 alegorias( o máximo são 6, porém serão três acopladas no abre-alas), 1 tripé/chassi da comissão de frente e cerca de 2.900 componentes. Edson explicou um pouco de como estão divididos os setores da escola.
Primeiro Setor: “Todo o carnaval será sintetizado a partir da plástica do abre-alas porque a gente fala do grande pensador negro, como formador de opinião, que deixa como herança para Vila Isabel, que se constroi a partir do Martinho também. É uma história que se comunga, que fala das mesmas questões, o Martinho consegue dar cara para Vila Isabel. Então, isso está no abre-alas, o morro dos macacos agradecendo, como o samba mesmo já diz, “ o dono do palco, zumbi lá do morro”. É isso que ele representa para o morro dos macacos e para a Vila Isabel”.

Segundo Setor: “Eu abro as porteiras da parte mais singela da vida do Martinho, que foi a infância dele, em Duas-Barras, onde ele morava, numa roça, e foi alfabetizado, já ali com sua veia artística e aí, eu coloco ele como um pequeno passarinho, livre, com toda inocência de poder cantar e escrever. Ele foi alfabetizado pelo pai, a mãe era lavadeira e a avó era cozinheira. Então, isso a gente consegue sintetizar isso diante de um cenário mais de roça, de sua origem humilde”.
Terceiro Setor: “Eu falo da voz de expressão do Martinho como negro e a liberdade de expressão, quando ele faz essa contrapartida de Brasil e Angola e vira o embaixador negro, na época nem se existia esse título, ele vai pra Angola e é reconhecida, dali, como Martinho para o mundo, não somente o Martinho da Vila. Então, nesse setor, a gente está falando de Martinho para o mundo”.
Quarto Setor: “Eu coloco como setor de Gbalá pela importância da criança e a herança que Martinho deixa como um grande Griô, o griô da esperança, comunicando-se com as crianças, que são a esperança do futuro de um futuro melhor. E, aí, a gente coloca um baobá e todo esse ambiente africana porque, no nosso conceito de enredo, ele é o nosso griô, da sapiência, da esperança e do conhecimento”.
Quinto e último setor: “A gente fecha o carnaval falando que o Martinho, com tudo isso que ele constrói e sua história, desce o morro de chinelo de dedo e vai levar todo seu conhecimento para a 28 de setembro, para o asfalto, como está no trecho do samba e para fazer dali, o carnaval do povo porque, até então, o carnaval era burguês e era sintetizado somente na favela e ele traz isso para o asfalto. Então, essa importância de hoje, de reconhecimento e de valorização, está no fechamento do carnaval da Vila”.

