Assumir o microfone de uma escola como a Portela nunca é um gesto simples. Ainda mais quando o contexto envolve perdas, afetos e a necessidade de manter viva uma história que ultrapassa nomes e vozes. Ícone do carro de som do carnaval, Zé Paulo da Portela fala com franqueza sobre o momento que vive na escola de Madureira, o crescimento do samba, a parceria com o mestre Vitinho e o desafio de conciliar dois compromissos sem perder rendimento. Mais do que técnica, o intérprete expõe sentimento, identidade e responsabilidade.
Ao comentar a chegada ao carro de som da Portela em um momento tão delicado, Zé Paulo deixa claro que a situação nunca foi encarada como uma substituição direta, mas como um encontro necessário com a própria história.
“Eu estou muito feliz, porque é prazeroso demais estar cantando na escola do meu coração. Eu comecei a cantar por causa da Portela, por causa de um samba específico dessa escola. Me sinto muito honrado de estar aqui como portelense. Eu não estou no lugar do Gilsinho. Infelizmente, aconteceu isso com um amigo nosso, com um irmão de profissão, foi tudo muito repentino. Eu tive a sorte de ter cantado o samba na eliminatória, isso facilitou um pouco a escolha da escola, e também a conversa com a União de Maricá para que eu pudesse fazer as duas escolas e para que as ligas se entendessem. Ao mesmo tempo que é muito prazeroso, é triste, porque a gente perdeu um irmão. Não é substituição. É uma forma de a gente se encontrar para manter o legado dele. É muito difícil, porque ele não exime o cantor, não exime o compositor e não exime o músico. Eu vou tentando colocar um pouco da minha identidade. Eu sei que tem gente que não curte muito, mas é o meu jeito. Eu não vou mudar, porque já estou há 40 anos fazendo isso e vou continuar fazendo”.
Com o samba crescendo nos ensaios e sendo apontado como um dos destaques do ano, o intérprete vê o momento com serenidade e senso coletivo, destacando o ambiente interno da escola como fator decisivo.
“O sentimento é de trabalho bem feito. Não só na eliminatória, mas também em tudo o que a gente vem fazendo nos ensaios. Somos uma família mesmo, a gente se ajuda muito. O dia em que um não está bem, o outro compensa. Acho que isso é o mais importante da Portela hoje: ter noção do que a gente tem que fazer. O samba está subindo de proporção na hora certa, e quando a gente chegar no desfile, vai estar 100%”.
A relação com o mestre de bateria Vitinho aparece como um dos pilares desse processo. Mais do que parceria profissional, Zé Paulo aponta uma conexão construída ao longo de anos de trabalho conjunto.
“Vitinho é um irmão. A gente trabalha junto há muitos anos, gravando, fazendo eliminatórias, produções de disco e tudo mais. É uma irmandade mesmo. O fato de sermos amigos próximos faz com que a gente converse muito, troque muito, e isso deixa tudo mais fácil. Ele é um cara sensacional, tem a mesma vibe que a minha”.
Dividido entre Portela e União de Maricá, Zé Paulo não romantiza o esforço físico, mas reforça que o amor pelo que faz sustenta a rotina intensa.
“Falar que é fácil, não é. É cansativo. Mas quando a gente faz o que ama, existe prazer e dedicação. Quando eu cheguei aqui, estava bem cansado, o final de semana foi muito intenso. Mas eu pensei: eu tenho irmãos aqui também. A gente se ajuda, vai para cima, tira força de onde não tem para fazer acontecer. Amanhã a gente descansa”.
Mais do que responder sobre técnica ou rendimento, Zé Paulo da Portela deixa claro que o momento vivido na escola passa por pertencimento, memória e verdade artística. Sem tentar ocupar espaços que não lhe cabem, o intérprete sustenta sua trajetória com identidade própria, consciente de que, no carnaval, cantar também é um ato de respeito à história e, sobretudo, de continuidade.
O Anhembi vai reviver grandes momentos da história do Carnaval, é o que promete a Primeira da Cidade Líder, que realizou seu ensaio técnico no último domingo. A escola apresentou uma proposta ambiciosa para 2026: revisitar grandes desfiles que marcaram a carreira de Paulo Barros. A Primeira da Cidade Líder será a décima escola a desfilar no sábado, 7 de fevereiro, pelo Grupo de Acesso II. O ensaio deixou claro que prometem inovar, assim como o homenageado do enredo.
O diretor de carnaval, Rodrigo Minuetto, falou sobre o projeto: “Todo mundo é fã do trabalho do Paulo Barros e da forma de fazer carnaval, então todos os grandes carnavais feitos por ele vão passar nessa avenida”, prometeu.
Em um panorama geral, o que se pôde observar são referências claras e uma leitura objetiva do enredo “Paulo Barros, o Gênio do Carnaval”.
O esquenta já antecipava essa leitura, com sambas de desfiles assinados por Paulo Barros, como Unidos da Tijuca 2010 e 2014 e também Viradouro 2007. Ao longo do ensaio, referências diretas a esses carnavais surgiram de forma recorrente.
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
COMISSÃO DE FRENTE
O homenageado é conhecido por revolucionar o quesito, então naturalmente eleva a expectativa em torno da comissão de frente. E o primeiro ensaio da Cidade Líder indicou uma aposta em coreografias sobre um elemento alegórico. Foi possível observar um carro com encenações em cima, além da presença de um ator representando o carnavalesco, que surgia em diferentes momentos da apresentação, entrando e reaparecendo sobre o elemento.
A dinâmica indica possíveis surpresas guardadas para o desfile oficial. Questionado durante o ensaio sobre a possibilidade de troca de figurinos, como na consagrada comissão de frente da Unidos da Tijuca em 2010, um dos coreógrafos respondeu com o próprio enredo de 2010: “É Segredo!”, mantendo o suspense em torno do quesito.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Fabiano Dourado e Sandra de Jesus foi à avenida fantasiado de Mulher-Maravilha e Super-Homem. A escolha também dialoga diretamente com o Carnaval da Unidos da Tijuca em 2010, quando Paulo Barros explorou o universo das identidades secretas dos super-heróis. A apresentação seguiu os movimentos tradicionais do quesito.
HARMONIA
A escola apresentou bom rendimento de canto ao longo da pista, com alas respondendo bem aos chamados coreográficos que incentivavam a participação das arquibancadas. Um dos momentos de maior interação aconteceu no trecho do samba em que se canta “o povo aplaudiu”, quando os componentes interagem diretamente com o público. Em uma possível arquibancada Monumental cheia, o trecho mostra potencial de crescimento para o desfile oficial.
EVOLUÇÃO
A evolução da Primeira da Cidade Líder se mostrou organizada ao longo da pista e com alguns elementos alegóricos já estruturados. O carnavalesco Anderson Rodrigues falou sobre o que podemos esperar:
“Estamos falando de um cara que é revolucionário, que é o Paulo Barros, então você pode esperar surpresa em todos os lugares. Vai ser um desfile incrível”.
Foram cerca de 50 minutos de ensaio, o limite para as agremiações do Acesso II. As alas apresentaram coreografias simples, mas bem executadas, dialogando com o samba e com as chamadas feitas pelo intérprete. Em muitos momentos, essas coreografias ajudaram a puxar a arquibancada.
SAMBA
De fácil assimilação, o samba-enredo mostrou boa comunicação com os componentes e com o público. A obra cumpre o papel de narrar o enredo de forma objetiva, conduzindo a homenagem por meio das referências aos grandes desfiles do carnavalesco, sem dificuldades de entendimento ao longo do ensaio.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada pelo mestre Ale, não realizou recuo, característica comum a escolas com menos componentes. Apresentou arranjos bem encaixados ao longo da pista. O destaque ficou para a caixa rufada, que se sobressaiu no conjunto musical e fez recordar as antigas batucadas paulistanas.
Durante todo o ensaio, vimos referências a enredos históricos de Paulo Barros. Uma delas remeteu diretamente ao desfile da Unidos da Tijuca em 2011, “Esta Noite Levarei Sua Alma”, com elementos ligados ao medo, terror e cinema. Inclusive, houve a presença de um carro alegórico simulando um barco com monstros e fantasmas em cima, em clara alusão ao abre-alas daquele carnaval. O intérprete Thiago Melodia também apareceu caracterizado com maquiagem aterrorizante e irreconhecível.
Outro momento facilmente reconhecível foi a aparição de um sósia de Michael Jackson, referência recorrente nos desfiles assinados por Paulo Barros. O carnavalesco já utilizou o Rei do Pop em pelo menos quatro desfiles — Unidos da Tijuca 2005, 2006, 2010 e 2012 —, recriando coreografias inspiradas em “Thriller”.
Também houve menção ao histórico Carnaval de 2014 da Unidos da Tijuca, o “Acelera, Tijuca”, com a presença de Ayrton Senna em um carro de Fórmula 1 no meio da bateria.
A Camisa 12 realizou seu primeiro treino no Sambódromo do Anhembi, dando início à preparação para o desfile de 2026. A escola concluiu sua apresentação em 56 minutos. A comunidade ainda precisa realizar ajustes no quesito harmonia para o próximo ensaio. A escola será a primeira a desfilar no domingo de carnaval pelo Grupo de Acesso 1. A Camisa 12 levará para a avenida o enredo “Princesas Nagô, Rainhas do Brasil – A origem da fé, herança de Ketu”, assinado pelo carnavalesco Delmo de Moraes.
A comissão de frente, liderada pelo coreógrafo Walmir Rogério, apresentou uma proposta coerente com o enredo. Os bailarinos, vestidos com peças inferiores em tecido afro, meninos sem camisa e meninas com top preto, apostaram em uma coreografia diretamente ligada à letra do samba.
Três personagens centrais representaram as princesas nagô, homenageadas da escola no Carnaval de 2026, e tiveram grande destaque durante a apresentação nos módulos. Em determinado momento, as três são cercadas pelos demais integrantes da comissão e avançam à frente, enquanto os outros apontam em sua direção, simbolizando uma saudação. A ala também utilizou expressões corporais e vocais durante os movimentos, com a emissão de gritos ritualísticos.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Steffany e Luã apostaram em uma apresentação marcada pelo sincronismo. Em um dos momentos da coreografia, a dupla avança para a cabine do jurado, enquanto o mestre-sala executa um passo que remete ao orixá Oxalá e a porta-bandeira acentua o gingado de acordo com a melodia do samba. Esse movimento, se realizado com maior precisão e cautela, pode evitar que, em condições climáticas adversas, o pavilhão se enrole.
No dia do ensaio, o clima esteve favorável, o que facilitou o desfraldar da bandeira. Vestidos de azul, Steffany e Luã realizaram um bom ensaio técnico.
HARMONIA
A Camisa 12 precisa de atenção especial no quesito harmonia. Os componentes do primeiro setor apresentaram um desempenho satisfatório ao longo da pista; já no último setor, muitos integrantes demonstraram não dominar completamente a letra do samba, o que deixou o canto irregular.
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
Vale destacar que os refrões são bem cantados por toda a escola, especialmente nos momentos em que a bateria executa as bossas. Ainda assim, a parte musical da Camisa 12 tem potencial para extrair um canto muito mais intenso do que o apresentado neste ensaio.
EVOLUÇÃO
Apesar de algumas alas ainda não dominarem a letra completa do samba, foi possível perceber um bom trabalho da equipe de harmonia na evolução da agremiação. Os componentes desfilaram com adereços de mão, como bexigas, realizaram coreografias gerais nos refrões do samba-enredo e apresentaram alas coreografadas.
O andamento da escola foi contínuo, cadenciado e sem grandes oscilações. Os integrantes da Camisa 12 desfilaram alinhados, mas sem algo robotizado: mostraram-se descontraídos e com liberdade para brincar o carnaval.
SAMBA-ENREDO
Com um dos sambas-enredo mais fortes do Grupo de Acesso 1, a Camisa 12 foi assertiva em sua escolha. A obra, composta por Turko, Maradona, Cláudio Russo, Imperial, Silas Augusto e Rafa do Cavaco, apresenta uma melodia empolgante e de fácil assimilação. Já nas primeiras passagens, ao menos os refrões do meio e o principal rapidamente ficam na boca do povo.
O samba possui grande potencial de crescimento e extrapola os limites da própria escola, estimulando também o público a cantar junto. A letra traduz com clareza a proposta do enredo, tornando o conjunto do trabalho de fácil leitura para os jurados.
Os intérpretes Tim Cardoso e Clovis Pê conduziram o samba de forma alegre e segura, com boa dicção e afinação.
Ao CARNAVALESCO, os cantores fizeram um balanço sobre esse primeiro ensaio técnico. “Para nós que estamos no carro de som, a gente tem ideia daquilo que está ali apenas. Quando percebi várias pessoas na arquibancada vibrando e gostando, foi o sinal de que está funcionando. Às vezes a gente cria uma falsa impressão. Na minha visão, o carro de som foi sensacional, tudo muito afiado. Mas teve um momento em que eu esqueci algo, e o Tim Cardoso me salvou. Isso mostra como a sincronia é fundamental, porque, senão, não funciona”, diz Clovis Pê.
“Superou as expectativas. A gente veio com uma coisa na cabeça e, quando chegou aqui, estava muito melhor do que a gente imaginava. Graças a Deus, foi o primeiro passo e foi com o pé direito”, completa Tim Cardoso.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada pelo mestre Lipe, foi mais uma vez o grande destaque da agremiação. Com bossas bem definidas, naipes afinados e acentuados, os ritmistas apresentaram um trabalho de excelência. A rainha de bateria, Vanessa Aggio, e a madrinha Ana surgiram com figurinos luxuosos à frente dos ritmistas.
Destaque também para o quadro de musas da escola, que apostou em carisma, brilho nas fantasias e bom entrosamento com o samba.
A Embratur, o Ministério da Cultura e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) assinaram, nesta segunda-feira, na Cidade do Samba, o termo de cooperação que assegura o apoio do Governo do Brasil à realização dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. O acordo prevê o repasse de R$ 12 milhões, distribuídos de forma igualitária entre as 12 agremiações.
O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, ao lado do presidente da Liesa Gabriel David, do diretor Elmo, da ministra das Mulheres, Marcia Lopes, e Cassius Rosa, do Ministério da Cultura. Foto: Marcio Menasce/Divulgação
O presidente da Embratur, Marcelo Freixo, destacou o papel estratégico do Carnaval na promoção internacional do Brasil e na geração de emprego e renda.
“O Carnaval da Sapucaí é uma vitrine do Brasil. É a nossa imagem para mais de 160 países. Investir nesse evento é fortalecer a nossa imagem no exterior, impulsionar o turismo e garantir que essa cadeia econômica continue gerando emprego e renda para milhares de pessoas”, disse Freixo.
Cassius Rosa, secretário executivo adjunto do Ministério da Cultura, ressaltou a importância do apoio público à maior manifestação cultural do país.
“O Carnaval é patrimônio cultural brasileiro e política pública. Esse apoio reafirma o compromisso do Governo do Brasil com a cultura popular, com os trabalhadores do Carnaval e com a preservação dessa tradição que move o país”, declarou.
Já o presidente da Liesa, Gabriel David, celebrou a parceria e a previsibilidade garantida às escolas de samba.
“O Carnaval é uma das principais manifestações culturais do país e as escolas de samba movimentam a economia não apenas no período dos desfiles, mas o ano todo, com ensaios, feijoadas e outras atividades culturais e sociais. Isso sem falar na geração de empregos, com uma imensa cadeia produtiva que atua nos barracões, criando e desenvolvendo o maior espetáculo da Terra”, celebrou Gabriel.
O apoio federal ao Carnaval do Rio tem sido mantido nos últimos anos e reforça o evento como um dos maiores espetáculos culturais do planeta, com forte impacto turístico, econômico e simbólico para a cidade e para o Brasil.
Por Gustavo Mattos, Letícia Sansão e Will Ferreira
O Anhembi foi tomado por símbolos, gritos ritualísticos e uma atmosfera de encantaria na noite em que a Colorado do Brás realizou seu ensaio técnico rumo ao Carnaval de 2026. Sob a presidência de Antônio Carlos Borges, o KA, a escola apresentou um trabalho coeso, organizado e carregado de significado, traduzindo na pista a potência do enredo “A Bruxa está solta – Senhoras do Saber renascem na Colorado”, desenvolvido pelo carnavalesco David Eslavick.
Com a proposta de ressignificar a figura historicamente perseguida da mulher sábia, a Colorado transformou o ensaio em um verdadeiro manifesto visual e sonoro. A narrativa apresentada reforçou a ideia de que a bruxa deixa de ser alvo da fogueira para assumir o posto de rainha, com o caldeirão fervendo liberdade, resistência e ancestralidade. A escola será a 2ª a desfilar na sexta-feira pelo Grupo Especial e volta à pista para novo ensaio no domingo, 01 de fevereiro, às 18h30.
COMISSÃO DE FRENTE
Coreografada por Paula Gasparini, a comissão de frente apresentou uma leitura clara e teatral do enredo. Os componentes vieram caracterizados como bruxas, com maquiagem carregada, expressões marcantes e gestual ritualístico. Um tripé foi utilizado como elemento central da apresentação, delimitando espaço na pista e servindo de base para a movimentação do mago, personagem que conduziu parte da narrativa.
O caldeirão foi o grande símbolo da coreografia. Em diversos momentos, os integrantes se posicionaram ao redor dele, executando movimentos circulares com as mãos, como se invocassem forças ancestrais. Em pontos específicos, o mago desceu do tripé, aproximou-se do caldeirão e realizou a ação de mexê-lo, reforçando a ideia de ritual coletivo. Os gritos emitidos durante a coreografia criaram impacto sonoro e dialogaram com a proposta de intimidação e resistência, como se as bruxas assumissem o controle do espaço.
Na Arquibancada Monumental, o mago foi erguido pelos integrantes, em uma imagem simbólica que sugeriu a inversão de poder: aquele que antes julgava passa a ser conduzido pelas forças que tentou silenciar. A comissão conseguiu ocupar bem a pista, mantendo clareza narrativa e conexão direta com o enredo apresentado.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Bruno Mathias e Jéssika Barbosa realizou uma apresentação segura e alinhada tecnicamente. Houve sincronia constante entre os movimentos, com o mestre-sala valorizando a porta-bandeira em seus giros e deslocamentos, mantendo o olhar atento e o corpo sempre a serviço da bandeira. Jéssika apresentou controle nos giros, com boa sustentação do pavilhão e leitura precisa do samba, evitando que a bandeira perdesse desenho ao vento. Bruno trabalhou com variações coreográficas que dialogaram com os momentos do samba, alternando proteção, cortejo e marcações mais incisivas, sem se colocar de costas para a porta-bandeira ou comprometer a comunicação entre o casal.
O conjunto apresentou fluidez, respeito aos fundamentos e presença cênica, contribuindo para o impacto visual do ensaio e reforçando a identidade da escola.
“O ensaio teve um saldo muito positivo e mostrou a evolução do trabalho construído ao longo do tempo. Apesar do estranhamento inicial natural diante do novo, os ensaios específicos no Anhembi ajudaram no entrosamento, e agora o foco está no refinamento dos detalhes. A coreografia, que dialoga com elementos de magia e bruxaria, exige ajustes finos, especialmente com o jurado mais próximo, o que aumenta a atenção aos detalhes, mas sem alterar o andamento da apresentação”, disse a porta-bandeira.
“Sem recesso entre um carnaval e outro, o trabalho vem sendo desenvolvido desde abril, com ajustes contínuos entre enredo e coreografia. O ensaio com a escola inteira trouxe a emoção real da pista e confirmou que tudo o que foi construído ao longo dos meses tende a funcionar no desfile. Com o jurado mais próximo, a exigência por sincronismo e acabamento aumenta, mas também intensifica a emoção do contato direto. A Colorado, que completa 50 anos, prepara um desfile histórico, marcado por entrega, amor e emoção visíveis na avenida”, completou o mestre-sala.
HARMONIA
Sob comando do intérprete Léo do Cavaco, a harmonia da Colorado apresentou momentos de grande entrega coletiva. O canto ganhou força especialmente nos trechos de retomada após apagões, quando bateria, carro de som e componentes voltavam juntos, criando um efeito de impacto na pista.
Em alguns pontos estratégicos, principalmente no retorno do canto após a bateria, foi possível perceber oscilações na intensidade vocal de determinadas alas, o que refletiu em uma leitura menos vibrante para quem acompanhava de fora. A ala localizada no segundo setor apresentou maior constância no canto, enquanto alas mais ao fundo demonstraram variação, algo que pode ser ajustado com maior atenção ao direcionamento do carro de som.
Léo do Cavaco manteve presença constante, conduzindo o samba com clareza de letra e boa comunicação com a escola. A ala musical teve papel fundamental na sustentação do andamento, garantindo que o canto não se perdesse mesmo nos momentos de menor resposta coletiva. Pequenos desencontros de letra foram pontuais, como a troca do verso “Sou eu, sou eu, sou eu / O grito calado na perseguição” por variações fora da composição original, algo que tende a ser corrigido com a repetição dos ensaios.
EVOLUÇÃO
O trabalho dos diretores Flávia Vieira, João Daniel e Luciano Lopes resultou em uma evolução organizada e bem distribuída ao longo da pista. Nenhuma ala apresentou embolamento, e não foram observados buracos significativos entre os setores, mantendo a leitura visual limpa e constante.
As alas desfilaram com alegria, sambando soltas em sua maioria, o que valorizou o conjunto e reforçou a identidade popular da Colorado. Houve atenção aos deslocamentos e preenchimentos naturais da pista, sem necessidade de correções bruscas ou retornos para fechamento de espaços. A escola demonstrou entendimento coletivo do ritmo do desfile, algo essencial para a construção de um conjunto competitivo.
SAMBA
O samba-enredo, de autoria de Léo do Cavaco, Thiago Meiners, Claudio Mattos, Sukata, André Valencio e Vitor Roblanco, mostrou rendimento consistente ao longo do ensaio. Trechos como “Vem ver! Vai ferver o caldeirão / Tem magia nesse chão” ganharam força na pista, especialmente quando a escola respondeu em uníssono ao comando do intérprete.
Momentos narrativos mais densos, como “Sou eu, sou eu, sou eu / O grito calado na perseguição”, exigiram maior atenção das alas para manter clareza de dicção e intensidade emocional. O carro de som teve papel decisivo para sustentar esses trechos, ajudando a escola a não perder o fio condutor da narrativa musical.
O samba se mostrou bem assimilado pela maioria dos componentes, com potencial de crescimento à medida que o canto coletivo se torne ainda mais homogêneo, especialmente nos setores finais do desfile.
OUTROS DESTAQUES
A bateria comandada por Acerola de Angola contribuiu para a dinâmica do ensaio, com paradinhas bem distribuídas, apagões que dialogaram com o samba e bossas que foram acompanhadas pelo público nas arquibancadas. A resposta da escola às intervenções rítmicas mostrou sintonia entre ritmo e canto.
“Após um longo período de preparação, a bateria conseguiu entregar no primeiro ensaio técnico um trabalho consistente, com som mais afinado e melhor executado, ainda que exista margem clara para ajustes até o desfile. O saldo foi bastante positivo, sobretudo pela organização e pelo caráter mais intimista do ensaio, com apoio fundamental de diretores e equipe. Entre os pontos a evoluir estão o canto da bateria e o andamento, especialmente em algumas bossas que podem fluir com mais naturalidade — aspectos que serão trabalhados nos próximos ensaios. Para 2026, a bateria aposta também em ousadia visual e conceitual, com uma fantasia especial alinhada ao enredo e estratégias inéditas no miolo, buscando uma batida ideal e um desempenho ainda mais impactante na avenida”, explicou mestre Acerola de Angola.
A rainha Talita Guasteli teve presença marcante, interagindo com o público, cantando o samba e realizando coreografias que acompanharam as convenções da bateria. Com figurino adequado ao ensaio, ela se mostrou integrada ao conjunto, reforçando o clima de celebração e protagonismo feminino proposto pelo enredo.
No último domingo, a Unidos do Viradouro pisou na Avenida Amaral Peixoto para mais um ensaio de rua, em Niterói, visando ao desfile oficial. Faltando pouco menos de um mês para a apresentação na Marquês de Sapucaí, a escola realiza os ajustes finais, lapida os quesitos e fortalece o que já tem de alto nível. O último ensaio mostrou uma agremiação com apetite de avenida, pisando como um furacão na pista para um treino que teve clima de jogo oficial, tamanha a energia exibida pelos componentes numa largada de rasgar o chão. A vontade foi tamanha que, em determinado momento, a vermelho e branco acelerou o passo, assentando o ritmo com o passar do ensaio, mas sem perder a forte pegada. Além do ensaio quente, o grande destaque foi a apresentação do casal Julinho e Rute, sempre unindo entrosamento impecável, técnica e energia. A Viradouro buscará seu quarto título do Grupo Especial com uma homenagem dentro do seu quintal, falando de mestre Ciça, com o enredo “Pra cima, Ciça!”, desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. A agremiação será a terceira escola a desfilar na segunda-feira de carnaval.
Fotos: Luiz Gustavo e Gabriel Radicetti/CARNAVALESCO
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Julinho e Rute são a exemplificação máxima da definição de casal que se comunica com o olhar. Dançando juntos desde 2008, eles já conhecem todas as características, forma de dançar e gestual, e encaixam tudo isso numa apresentação com uma sintonia fina impressionante. A dança leva uma pitada de elementos coreográficos inspirados na letra do samba, mas o grosso da série é mais tradicional. O início da apresentação já contou com rodopios com alto nível de execução por parte de Julinho, entre eles um giro com apenas o pé esquerdo no chão, enquanto Rute realizava seus giros em progressão com a precisão característica.
Aliás, impressionou a quantidade de giros executados por Rute na primeira parte da série, todos com muita elegância, controle do corpo e bandeira firme. Na segunda passada do samba, o casal executou uma dança com elementos de balé, seguida de uma sequência de giros terminada em sentidos diferentes e elementos de dança de terreiros, como o xirê, no trecho “reza perfeita pra me completar, feiticeiro das evocações, atabaque mandou me chamar, pra macumba jogar poeira”.
Depois, uma sequência de giros soltos em torno do próprio eixo levantou o público com a energia com que os gestos foram executados. A condução de Julinho na parte final do samba foi extremamente elegante, antecedendo a finalização da série com mais giros em progressão no refrão de cabeça, todos executados com imensa precisão. Uma apresentação limpa, com coreografias pertinentes e postura corporal perfeita.
HARMONIA E SAMBA
A arrancada da Viradouro em seu ensaio mostrou do que essa comunidade é capaz, um canto que simplesmente já entrou explodindo a Amaral Peixoto com tamanha intensidade. Foi uma largada de desfile oficial, com os componentes louvando um homenageado que faz parte da mesma família, o que acrescenta forte componente emocional ao canto da escola. A primeira ala é a ala das crianças, o que poderia representar um risco ao canto logo na abertura do desfile, mas a garotada deu um banho, entoando o samba inteiro e servindo de exemplo para as alas que vinham em sequência.
O canto seguiu muito forte na totalidade da escola, com praticamente nenhum componente destoando ou mostrando dificuldade para acompanhar o samba no gogó. Os momentos em que a bateria parava no trecho “sou eu, mais um batuqueiro a pulsar por você” proporcionaram um clímax no canto e na comunicação com o público que assistiu ao ensaio e veio junto com a agremiação, alcançando o êxtase no refrão de cabeça.
Wander Pires e seus apoios do carro de som mostram total domínio do samba, explorando as boas variações melódicas que a obra possui. O trecho “reza perfeita pra me completar, feiticeiro das evocações…”, que possui um canto mais corrido, está muito mais fluido, sem atropelos. O refrão de cabeça é de uma comunicação que ultrapassa a pista de ensaio e alcança o público, potencializando uma obra que está na prateleira de cima do Grupo Especial em 2026.
EVOLUÇÃO
Como um furacão presente na letra do samba, a Viradouro evoluiu na pista nos primeiros minutos mastigando e saboreando o asfalto da Amaral Peixoto, com os componentes dando uma aula de preenchimento de pista e movimentação solta, escola brincando na avenida. Só que esse ritmo acelerado fez a vermelho e branco apressar o passo em demasia e imprimir uma correria por alguns minutos, com alas passando muito rapidamente. Com a aproximação da bateria no segundo recuo, o ritmo da escola assentou e a evolução foi mais constante, seguindo com muita energia e leveza por parte dos componentes. A lateralidade e o uso de todo o corpo foram um grande mérito dos desfilantes, dando volume e fazendo a passagem da escola ser pulsante o tempo todo. Como de costume, os minutos finais do ensaio da Viradouro foram de comemoração e reverência ao mestre Ciça.
O diretor executivo da agremiação, Marcelinho Calil, falou sobre a temporada de ensaios. “O balanço é o melhor possível, a escola já tem na Amaral Peixoto a sua casa, o processo tem cada etapa a ser cumprida, seu período de amadurecimento. A gente chega em janeiro praticamente pronto, na minha concepção, com o nível de exigência que a gente está acostumado. Tecnicamente, a escola está em um altíssimo nível, aproveitando um enredo e um samba que nos proporcionam um fator de emoção muito forte; a escola está vibrando e feliz por ser Viradouro e cantar uma homenagem em vida a um dos maiores mestres de bateria da história do carnaval. O ensaio hoje foi espetacular, estamos vindo muito redondos nos últimos ensaios, o que se tem a ajustar é em um campo mínimo. Conseguimos trazer na Amaral Peixoto um número de componentes muito parecido com o da Sapucaí, e essa avenida tem uma configuração muito parecida com a Marquês de Sapucaí, de forma que a escola consegue desenvolver quase na sua plenitude o que acontece no desfile. Fazendo um grande ensaio aqui, como tem feito e como foi hoje, a Viradouro consegue ficar pronta para fazer o carnaval do nível que a gente está acostumado e buscar mais um título”, declarou.
OUTROS DESTAQUES
Ciça é o centro das atenções. O homenageado se mantém compenetrado durante todo o ensaio, mas, no final, o Caveira é só sorrisos. A bateria da Viradouro se mostra encaminhada para o desfile oficial sob a batuta do mestre e do enredo.
A escola veio com um grande time de passistas, uma ala com alguns passos ensaiados e outra ala com samba solto, ambas cantando muito o samba da agremiação de Niterói.
A comissão de frente, comandada por Rodrigo Negri e Priscilla Mota, não esteve presente no ensaio, deixando a cabeça da escola para o casal de mestre-sala e porta-bandeira.
A Acadêmicos do Grande Rio realizou, na noite do último domingo, mais um ensaio de rua em Duque de Caxias, confirmando um estágio avançado de maturidade em segmentos centrais do desfile. Com casal de mestre-sala e porta-bandeira em apresentação vigorosa e precisa, samba cada vez mais assimilado pela comunidade, bateria segura e consciente e uma evolução marcada pela beleza das alas coreografadas, a escola apresentou um treino que reforça confiança e leitura coletiva da obra. Na reta final de preparação para o carnaval, a Tricolor de Caxias demonstrou entendimento crescente do enredo “A Nação do Mangue”, assinado pelo carnavalesco Antônio Gonzaga, projetando um desfile consistente para a Sapucaí, onde será a terceira escola a se apresentar na terça-feira de carnaval.
É sempre impactante ver Daniel Werneck e Taciana Couto em cena. Há, desde a entrada, uma sensação de vigor e inteira disponibilidade corporal que sustenta a apresentação do casal. O que se destaca é o dinamismo da dança, construído a partir de uma combinação muito bem resolvida entre coreografia e fundamentos tradicionais do bailado de mestre-sala e porta-bandeira.
Os giros surgem com rapidez e precisão, e Taciana se afirma como uma porta-bandeira extremamente ágil, com finalizações limpas, bem desenhadas e “chegadas” no tempo exato do movimento. Há um rigor técnico evidente, mas nunca rígido: o vigor físico se traduz em fluidez, e não em tensão.
Fotos: Marcos Marinho e Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
No trecho inicial, marcado por uma dança mais tradicional do casal, chama atenção a forma como Daniel conduz o cortejo, abrindo espaço com rapidez e clareza para que Taciana desenvolva seus giros com segurança e leveza. Esse momento estabelece uma base sólida, de leitura imediata, para o que vem depois.
Em outros pontos da apresentação, a coreografia incorpora movimentos que dialogam com a simbologia da orixá Nanã, integrando referências da dança ritual ao vocabulário do mestre-sala e porta-bandeira. Essa fusão é feita com inteligência e respeito à tradição, sem descaracterizar o bailado, mas ampliando seu repertório expressivo.
O resultado é uma apresentação dinâmica, coesa e visualmente muito bonita, que equilibra técnica, vigor e comunicação simbólica, reafirmando a maturidade e a força cênica do casal.
SAMBA E HARMONIA
Evandro Malandro se afirma como um intérprete de inteligência cênica rara. Querido pela comunidade e plenamente conectado ao público, ele conduz o samba com uma performance cativante, que não se limita à execução vocal, mas atua diretamente na mobilização da escola. Seu canto convida, chama para perto, envolve componentes e espectadores, criando uma atmosfera de participação coletiva.
Ao lado da equipe de som e da bateria comandada pelo mestre Fafá, Evandro é peça central para a manutenção do rendimento do samba da Grande Rio. Há um cuidado evidente com a sustentação da obra ao longo do percurso, ainda que se trate de um samba que exige mais constância do que explosão.
Do ponto de vista da harmonia, é possível perceber uma evolução clara na resposta da comunidade à medida que a temporada avança. A escola canta mais e canta mais forte, especialmente no trecho “Freire ensina um país analfabeto que não aprendeu o manifesto da consciência social”, entoado com vigor pelos componentes e acompanhado, inclusive, pelo público presente na Avenida 25 de Agosto. Trata-se de um momento em que o samba encontra ressonância direta na voz da escola.
O trecho “Ponta de lança e daruê / Dobra o gonguê, a revolução já começou”, do refrão principal, também apresenta sinais evidentes de maior assimilação. Se em ensaios anteriores ainda surgia de forma mais tímida, agora já se percebe uma confiança maior do componente em cantar o trecho de cabeça, com entrega e segurança. É um indicativo de amadurecimento da obra dentro da comunidade.
Ainda assim, o samba da Grande Rio apresenta uma característica particular que impacta diretamente sua condução: não se trata de um samba explosivo. Sua lógica não é a da crescente rumo a um clímax, mas a da permanência. Assim como o próprio mangue que inspira o enredo, um território de avanço difícil, de ritmo próprio, em que o caminhar exige adaptação, o samba pede constância, atenção e sustentação contínua.
Esse desenho impõe um grau de dificuldade elevado. Manter a intensidade sem um ponto explícito de explosão é um desafio, e a comunidade, em grande medida, consegue cumprir essa exigência. Ao longo do ensaio, no entanto, nota-se uma leve oscilação: o rendimento perde um pouco de força conforme a escola avança, recupera-se parcialmente mais adiante e volta a se afirmar nos momentos finais.
EVOLUÇÃO
A evolução da Grande Rio se apresenta, de modo geral, marcada pela constância. No primeiro setor, tudo transcorre de forma bem coordenada, com avanço tranquilo, ordenado e sem sobressaltos. A escola se desloca com segurança, mantendo fluxo e leitura clara do conjunto.
À medida que o olhar se desloca da bateria para trás, a dinâmica da evolução passa a exigir uma leitura mais atenta. Não se trata exatamente de um quadro problemático, mas de um processo que se torna mais denso, mais exigente em termos de organização e fluidez. Ainda assim, o canto se sustenta e a escola segue avançando, mantendo a estrutura do desfile em movimento.
Um ponto alto da evolução está na liberdade progressiva dos componentes, que aos poucos soltam mais o corpo e ocupam a pista com maior espontaneidade. Nesse contexto, as alas coreografadas da Grande Rio merecem destaque: são alas visualmente bonitas, que introduzem dinamismo e enriquecem a leitura da evolução, funcionando como respiros ao longo do percurso.
A região da bateria, no entanto, concentra um dos principais desafios do ensaio. A presença da rainha de bateria, Virgina Fonseca, acompanhada por um número elevado de seguranças, interfere diretamente na fluidez da evolução durante o treino de rua, criando zonas de contenção e impactando o deslocamento natural da escola. Trata-se de um fator circunstancial, mas que, ainda assim, produz efeitos visíveis no rendimento do conjunto.
Mesmo assim, percebe-se que o componente vem se soltando gradualmente. Há margem clara para que a Grande Rio permita ainda mais liberdade ao corpo coletivo, favorecendo uma evolução mais solta, mais viva e mais confiante. É nesse espaço de liberação que a escola pode encontrar um ganho decisivo para transformar o ensaio em um desfile plenamente competitivo na Sapucaí.
OUTROS DESTAQUES
Entre os pontos altos do ensaio, merece registro especial a bateria comandada pelo mestre Fafá. Com execução precisa e condução segura, a bateria apresentou um rendimento correto do início ao fim, sustentando o samba com clareza rítmica e regularidade, qualidades fundamentais para uma obra que exige constância mais do que explosão. A solidez da bateria funciona como eixo de sustentação para o canto da escola e para a leitura geral do desfile.
No fim do ensaio, mestre Fafá avaliou o treino de forma positiva, destacando a forte resposta da comunidade nesta reta final de preparação. Segundo ele, mais do que a música, “a Nação do Mangue já está na rua”, percepção reforçada pelo ensaio cheio, pelo canto consistente da escola e por uma bateria que ele definiu como madura e consciente do próprio papel. “A gente trabalhou, trabalha e está trabalhando muito para recuperar os pontos perdidos, sempre com humildade, sabedoria e respeitando o manual do julgador. A expectativa é fazer, na semana que vem, o último ensaio de rua de forma positiva, como uma celebração, e chegar aos ensaios técnicos com maturidade para voltar a disputar a nota 10 e brigar lá em cima com a pontuação máxima”, afirmou o mestre.
O ensaio também contou com a presença da rainha de bateria Virginia Fonseca, que acompanhou de perto o trabalho do segmento, atraindo atenção do público e reforçando a visibilidade do momento. Gabriel David, presidente da Liesa, também esteve presente no ensaio da Grande Rio. Ele acompanhou a atividade ao lado do intérprete Evandro Malandro e gravou seu quadro de entrevistas.
OPINIÃO DO DIRETOR
Após o ensaio, o diretor de carnaval, Thiago Monteiro, avaliou de forma muito positiva o rendimento da escola nesta reta final de preparação. Segundo ele, o momento confirma um processo de amadurecimento gradual e consistente da Grande Rio.
“Cada dia que vai chegando mais perto do Carnaval, a escola vai ficando mais pronta, mais preparada para aquilo que ela vai enfrentar no dia 17 de fevereiro. Hoje eu estou muito feliz. A escola respondeu muito bem: as alas, a bateria, o carro de som, enfim, a organização como um todo”, afirmou, destacando a resposta da comunidade como um dos pontos centrais do ensaio.
Ao comentar especificamente o rendimento do samba, Thiago reforçou a leitura estratégica adotada pela escola ao longo da temporada. Para ele, o crescimento da obra faz parte de um planejamento consciente. “O nosso samba vai esquentando, vai crescendo a cada etapa da preparação. Quando chega na avenida, ele estoura. E esse é o momento certo de estourar. Não adianta queimar a largada”, explicou. Demonstrando confiança no processo, o dirigente projetou um desfile de forte impacto: “A escola está consciente de onde quer chegar. No dia 17, vocês vão ver uma Sapucaí dominada pelo mangue”.
Apesar da avaliação positiva, o diretor fez questão de adotar um discurso exigente em relação aos ajustes finais. “Nós não estamos prontos ainda em nada. Agora é a sintonia fina”, disse, citando todos os setores da escola. Para Thiago, o bom desempenho não basta quando se pensa em título. “Não adianta passar bem. O bom não ganha. O que ganha é o ótimo. O que ganha é o ‘uau’. O que ganha é a surpresa”, concluiu.
A Acadêmicos de Niterói realizou, no último domingo, mais um ensaio de rua na Avenida Amaral Peixoto, seguindo a preparação para o desfile oficial que será realizado daqui a um mês. Estreando no Grupo Especial, a escola tem a complicada missão de tentar permanecer na elite do carnaval e, para alcançar tal feito, tem se preparado com bastante afinco, apresentando uma melhora constante semana após semana.
Desempenho apoiado em seu samba, que segue tendo muito rendimento e potencializando o canto da azul e branco, que entoou a obra com força nas alturas durante todo o treino. Um samba de apelo popular e assimilação fácil, comprovando suas credenciais dentro dos ensaios da agremiação e esquentando os componentes para uma dura disputa. No geral, o ensaio foi redondo, apesar de algumas ausências, como a do intérprete Emerson Dias e do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Emanuel e Thainara. A Niterói abrirá o desfile do Grupo Especial no domingo de carnaval, homenageando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins.
Fotos: Luiz Gustavo e Gabriel Radicetti/CARNAVALSCO
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão, comandada por Handerson Big e Marlon Cruz, apresentou uma coreografia marcada pelo dinamismo e passos rápidos, com muito uso dos braços e poucas trocas de posições entre os bailarinos. Na segunda parte do samba, os componentes ampliaram o uso do espaço para a apresentação e realizaram uma coreografia com uma característica mais aguerrida, com gestos de punho erguido e pedidos de palmas. Vale destacar o canto forte durante a apresentação no ponto de simulação de cabine de jurados. Uma coreografia de passagem desempenhada com qualidade.
EVOLUÇÃO
Niterói é mais uma escola que tem trabalhado a questão de uma evolução mais solta, mais livre, com movimentos por toda a pista, uso da lateralidade e trocas de posições entre os componentes, atendendo à exigência da espontaneidade, que foi oficializada como subquesito de evolução no julgamento do Grupo Especial em 2026. Algumas alas ainda passaram mais fechadas em sua evolução padrão, com linhas fixas, mas é clara a tentativa de diversas alas de soltar mais o componente, e isso foi alcançado com êxito em parte da escola. Enredo e samba populares facilitam uma evolução mais empolgada, e a azul e branco está conseguindo explorar essas valências. Um belo ensaio da agremiação no quesito, além de ter mantido um ritmo constante em sua passagem na pista, sem abertura de espaços ou aceleração em demasia.
HARMONIA E SAMBA
O canto foi o grande destaque do ensaio da Acadêmicos de Niterói. Certamente, parte significativa das pessoas que irão desfilar na escola tem identificação e predileção pelo homenageado do enredo, o que ajuda a proporcionar um canto mais visceral e emocional. A harmonia já iniciou com um ponto de partida alto por conta do samba, e a crescente é visível: foram pouquíssimas alas em que o canto apresentou inconsistência.
Na maior parte das alas, o que se ouviu foi um canto vigoroso em todos os pontos do samba, sobretudo nos momentos em que há uma subida de tom, como no trecho “A prazo, à vista é, tem filho de pobre virando doutor, comida na mesa do trabalhador”, em que o canto ecoa ainda mais forte. O refrão principal, inspirado em um jingle de campanha de Lula, é a identificação absoluta do enredo e crava o ápice de desempenho no quesito, com todos em uma só voz.
Sem Emerson Dias, Diego Nicolau comandou o samba no microfone principal e manteve o rendimento do samba, principalmente na primeira metade do ensaio. Na parte final, o desempenho foi mais morno, sem a interpretação animada e aguerrida de Emerson, mas o carro de som segurou com correção. O refrão principal suscita discussões sobre a inspiração em um jingle de campanha, mas é inegável a força que o trecho possui. A primeira parte, mais poética, tem se mostrado bastante funcional e passada com força. O trecho “por ironia, treze noites, treze dias, me guiou Santa Luzia, São José alumiou” possui uma melodia muito agradável e dá uma quebra interessante na meiúca do samba.
OUTROS DESTAQUES
A bateria, comandada por Branco Ribeiro, passou com um desempenho redondo e contribuiu para o bom rendimento do samba no ensaio. Branco falou sobre o trabalho faltando um mês para o desfile oficial.
“Vem sendo uma temporada de ensaios muito boa. Conseguimos aproveitar bastante o tempo que tivemos para poder construir nossa identidade e, ao mesmo tempo, fazer as construções em cima do samba. Nosso maior acerto foi definir isso tudo cedo, o que nos deu tempo de amadurecer todas as ideias e entender o que a gente poderia levar ou não. Agora estamos trabalhando em cima de detalhes, correções e direcionamentos dentro dos segmentos individuais. Construímos o nosso conjunto de bossas pensando na facilidade da execução. Como sabemos que muito dificilmente iremos conseguir ganhar tempo e criar um entrosamento de 20 anos como muitas baterias têm no grupo, cientes do nosso material humano, mesmo sendo uma galera muito boa, optamos por jogar dentro do que o samba pede, dentro da sua linha melódica, para não correr nenhum tipo de risco, tendo em função o nosso objetivo principal, que é a permanência da escola. Por uma questão de segurança, regulamento e para favorecer a escola, optamos por jogar dentro de um nível técnico de conforto”, afirmou.
A ala de passistas mostrou bastante samba no pé e sorriso no rosto, sendo um destaque da noite. A rainha de bateria, Vanessa Rangeli, se fez presente e se mostrou à vontade no posto, com algumas coreografias durante as bossas da bateria.
O primeiro casal, Emanuel e Thainara, não esteve presente no ensaio, tendo o posto na cabeça da escola ocupado pelo segundo casal, Weslley Cherry e Mariana Azevedo.
Por Will Ferreira, Ana Carla Dias e Letícia Sansão
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
A Estrela do Terceiro Milênio pisou pela primeira vez no Anhembi, em virtude do ciclo do Carnaval 2026, no último domingo. Quinta escola a desfilar no sábado de Carnaval, em noite de Grupo Especial na folia paulistana, a agremiação defende o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo. Encerrando a passagem com 59 minutos no Sambódromo, a Coruja mostrou força no conjunto de quesitos. Sempre presente em todos os grandes eventos que envolvem escolas de samba, o CARNAVALESCO conta como foi o primeiro ensaio técnico da Estrela do Terceiro Milênio no Anhembi, no ciclo do Carnaval 2026.
Bicampeã do Estrela do Carnaval (prêmio organizado e concedido pelo CARNAVALESCO) nos anos de 2023 e 2025, a comissão de frente da Estrela do Terceiro Milênio, coreografada desde 2023 por Régis Santos, novamente chamou atenção. Para representar a vida de Paulo César Pinheiro, diversos personagens foram vistos: crianças, adultos, roupas coloridas e indumentárias com cromia mais fechada.
Os grandes momentos, entretanto, aconteciam quando dinâmicas mais extremas surgiam. Em dado momento, por exemplo, apareciam dois capoeiristas que saíam do grande elemento alegórico, atividade muito presente no cancioneiro do homenageado. Em outro instante, uma porta-bandeira era notada, além de sambista, Paulo César Pinheiro também compôs sambas-enredo.
O segmento, mais uma vez, deixou todos curiosos para saber o que será apresentado no desfile, e, graças às premiações obtidas pela escola no quesito, identificar se a qualidade do trabalho novamente será de excelência também estará em pauta.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Quem começa a acompanhar o carnaval neste momento duvida que Arthur Santos e Waleska Gomes dancem juntos “apenas” desde 2024. Em mais uma ótima apresentação, o que mais chamou atenção foi a extrema sincronia entre os movimentos do mestre-sala e da porta-bandeira, entendendo, com sinais quase imperceptíveis (e com memória, é claro), o próximo movimento a ser feito, bem como o estado de espírito do parceiro.
A coreografia, por sinal, também merece destaque: se ambos não se furtaram a girar no Sambódromo, Arthur e Waleska também capricharam na escolha de movimentos que vão além da dança a ser julgada pelo jurado, algo bastante desafiador ao homenagear um dos grandes compositores da história do Brasil, identificado com uma série de gêneros distintos.
HARMONIA
Desde quando começou a se tornar habitué dos grupos que desfilam no Anhembi, a Estrela do Terceiro Milênio é dona não apenas de uma comunidade que canta alto, como também de pessoas que saem do Extremo Sul de São Paulo e chegam à Zona Norte bastante receptivas às outras coirmãs, querendo desfrutar e falar de Carnaval. No Sambódromo, no último domingo, a força do Grajaú, novamente, se fez presente: com canto em elevado volume, a Coruja não dormiu, mais do que isso, acordou e sacudiu quem estava nas arquibancadas.
Há, por sinal, um conjunto de alas que merece ser destacado: quem estava entre os espaços destinados ao terceiro e ao quarto carros alegóricos teve um canto ainda mais forte que o dos demais desfilantes. Se o quesito não é motivo de preocupação imediata (e há anos é assim), é interessante notar como tal discrepância no canto será trabalhada pela escola. Quando o patamar é de excelência, a régua também sobe, seja na avaliação da imprensa, seja internamente.
“Cada ano traz um enredo diferente, mas este é especialmente marcante, porque, além de intérprete, também sou compositor, o que cria uma identificação ainda maior ao cantar uma obra em homenagem a Paulo César Pinheiro, um dos poetas mais incríveis da nossa música. A expectativa está centrada na responsabilidade de contar a história de um grande artista. O samba dialoga diretamente com a identidade da nossa escola, que é de comunidade, de pé no chão, de povo bravo, e também com a força cultural da Zona Sul, marcada por movimentos como o Pagode da 27. Trazer um poeta de grandes sambas e obras para uma comunidade que tem tudo a ver com isso nos deixa muito felizes e reforça o quanto esse enredo combina com o Grajaú”, comentou o intérprete Darlan Alves.
EVOLUÇÃO
O forte canto da escola também ajuda no quesito em questão. Como o staff da escola simplesmente não precisa pedir para que os componentes cantem, cada um deles, naturalmente, fica mais atento à organização do espaço entre si. Por sinal, é importante pontuar que, em relação às outras coirmãs, os harmonias da Estrela do Terceiro Milênio, ao menos no último domingo, estavam bastante leves.
Com diversas pessoas observando cada passo dos desfilantes, como é possível imaginar, não foram identificados itens passíveis de despontuações no quesito neste ensaio técnico.
SAMBA
Desde quando o samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio para 2026 foi escolhido, a obra é bastante elogiada não apenas pela comunidade ou por torcedores da Coruja: a canção ganhou os ouvidos de quem acompanha o carnaval paulistano, não importa onde esteja.
Tal canção, é óbvio, é música para os ouvidos de quem quer que seja. Some-se a isso a força do canto da Milênio e tem-se mais um quesito no qual nada pode ser despontuado. Vale destacar, também, a ótima noite de Grazzi Brasil e Darlan Alves, mais focados em executar o samba do que em tentar empolgar a comunidade, por mais que isso não seja necessário no Grajaú. Falando em sustentação, a “Pegada da Coruja”, bateria comandada pelo mestre Vitor Velloso, mais do que estar em ótima sintonia com a dupla de intérpretes, inovou: um naipe de berimbau foi criado dentro da bateria exclusivamente para o desfile.
“Foi um ensaio de energia maravilhosa, especialmente na ala musical, com a bateria e as alas passando e cantando muito. O Grajaú mostrou mais uma vez ser um chão bonito, onde todo mundo canta junto, com garra e alegria, refletindo a força de uma escola que vem de longe, do fundão, mas cresce unida. A homenagem aos compositores traduz o que embala a vida e o Carnaval, e o nosso samba, dolente e cheio de garra, vem sendo cada vez mais assimilado. A expectativa está muito alta, porque a Milênio vem fazendo um trabalho bonito, crescendo a cada ano. Este já é meu quinto carnaval na escola, e sinto que ela evolui a cada temporada; apesar de jovem, segue em plena ascensão, o que me deixa ansiosa e confiante de que será um desfile muito lindo”, disse a intérprete Grazzi Brasil.
OUTROS DESTAQUES
A noite foi ainda mais especial para a comunidade e para a nova rainha da “Pegada da Coruja”, justamente por ser a primeira vez em que ela chegou ao Anhembi. Sávia David fez questão de interagir com o público e convidar a todos para exaltar os ritmistas. Ao lado dela, na corte da bateria, as princesas Geovanna Pyetra e Marcella Cavalcanti completaram o time com graciosidade e simpatia.
“Mesmo com as dificuldades logísticas de uma escola distante como o Grajaú, estamos realizando um trabalho intenso e coletivo, com ensaios frequentes e muito empenho de todos os setores. O primeiro ensaio geral foi bastante positivo, ainda com ajustes a fazer, mas dentro de um contexto muito forte. A bateria trabalha para entregar um grande resultado junto com a escola inteira, que ensaia muito e é constantemente cobrada pela direção. A expectativa é clara: podem esperar uma Estrela do Terceiro Milênio muito dedicada, organizada e preparada para apresentar um excelente carnaval”, explicou o mestre Vitor Velloso.
A Dragões da Real realizou na noite do último domingo seu primeiro ensaio técnico visando à preparação para o Carnaval 2026. O treino teve como destaques a parte musical e a evolução. Como sempre, o canto da comunidade esteve nas alturas. O carro de som, liderado por Renê Sobral, soube interpretar o samba indígena, e a bateria “Ritmo que Incendeia” conseguiu dar sustentação ao samba. Destaque também para a evolução solta que os componentes da Dragões da Real executam todos os anos. Um detalhe interessante foi a presença da torcida da escola, localizada no Setor B (Monumental), que levou várias bandeiras com mastros contendo a logomarca do enredo. Com as cores, criou-se um efeito visual interessante em meio ao público.
O fato é que a Dragões da Real realizou um ensaio técnico de almanaque, em nível de elite, brigando pelas maiores posições. A escola é uma potência há muito tempo e se mostra cada vez mais determinada a levantar o caneco. A agremiação da Vila Anastácio será a terceira escola a desfilar na sexta-feira, com o enredo “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”, assinado pelo carnavalesco Jorge Freitas. A Dragões da Real faz seu segundo ensaio técnico no dia 1º de fevereiro.
COMISSÃO DE FRENTE
Comandada pelo coreógrafo Ricardo Negreiros, a comissão de frente da Dragões da Real simbolizou muito bem a força da mulher indígena. Destacou-se pela objetividade, sem muitos detalhes, diferentemente do que foi apresentado em anos anteriores. A maioria do elenco é feminina, com quatro homens e uma criança. A coreografia consistiu em colocar as mulheres encenando sobre o elemento alegórico, enquanto outros acontecimentos se desenrolavam no chão. Havia claramente uma personagem principal, realizando movimentos característicos da cultura indígena, além de expressões faciais marcantes.
A responsabilidade de apresentar a escola e saudar o público ficou com os integrantes que estavam no elemento alegórico. A proposta de Ricardo Negreiros neste ensaio foi mostrar, de forma objetiva, quem são as Guerreiras Icamiabas. A garra e a força das personagens na dança foram executadas com êxito.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Rubens de Castro e Janny Moreno realizou um ensaio seguro. Eles dançaram com a fantasia do Carnaval 2025, o que ajudou a abrilhantar o ensaio e também a dar o tom da próxima fantasia. A proposta envolveu giros no sentido horário e anti-horário, e a vestimenta serve para o controle de peso, como o uso de adereços de cabeça e apresentações em frente às cabines nessas condições.
Vale ressaltar o empenho da dupla na coreografia dentro do samba, além do cumprimento dos movimentos obrigatórios previstos no regulamento. É perceptível a felicidade do casal com o samba-enredo. O sorriso e a entrega nas movimentações, com referências aos passos indígenas, evidenciam esse sentimento. Trata-se de um casal que não aposta em movimentos excessivamente intensos nos giros, mas que trabalha com propriedade dentro das regras que o carnaval exige.
Ainda dentro da dança, é válido destacar que Rubens de Castro e Janny Moreno formam o casal mais experiente, em termos de idade, do carnaval paulistano. O mestre-sala demonstra um jogo de pernas elegante, com samba no pé e riscado refinado, priorizando a arte do quesito. Janny Moreno, com seu sorriso marcante, acompanha o parceiro à altura.
Janny afirmou que o objetivo é sempre a nota 10, mas reconhece que há espaço para evolução.
“A nossa expectativa sempre é nota 10, mas sempre dá para melhorar. Esse foi o nosso primeiro ensaio com toda a comunidade. O próximo, no dia 1º de fevereiro, será melhor ainda”, disse.
Rubens contou que os ensaios anteriores ocorreram sob chuva e que este foi o primeiro com a pista em boas condições. Seguindo a linha da companheira, afirmou que ainda há pontos a ajustar. “Fizemos cinco ensaios na chuva, então a novidade veio neste, no seco. Pneu de chuva no seco. Entregamos tudo e testamos tudo, mas sempre tem algo a mais que queremos ajustar. Somos assim, sempre buscando um pouquinho mais”, declarou.
HARMONIA
Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO
Avaliar o canto da Dragões da Real chega a ser chover no molhado. A escola possui uma das melhores harmonias do carnaval de São Paulo. O canto é potente e envolve componentes de alas, crianças e até as baianas. Diferentemente de 2025, quando o samba era mais emotivo, a obra atual é forte e foi concebida para ser cantada com garra. A comunidade comprou a ideia e mantém o sorriso no rosto. É impressionante notar o prazer que os componentes têm em desfilar e participar da agremiação da Vila Anastácio.
O refrão de cabeça e a segunda parte se destacam por elevar o tom do samba-enredo, e foi perceptível o aumento do canto dos componentes nesses trechos. As palavras Juremê e Juremá ecoam com força por serem oxítonas, o que contribui para o aumento da intensidade sonora. A frase “Corre sangue pelas veias”, presente na segunda parte do refrão de cabeça, tem a palavra “veias” prolongada, gerando ainda mais impacto.
Outro ponto positivo foi a constância do canto da comunidade. É natural haver queda de rendimento vocal ao longo da pista, mas isso ocorreu de forma mínima. Esse fator é importante, já que a última cabine, localizada próxima à dispersão, é responsável pelo julgamento da harmonia e do samba-enredo. Manter o ritmo do canto até o fim é essencial.
Há, porém, um ponto de atenção. Em algumas bossas executadas pelo mestre Klemen Gioz, algumas alas tiveram dificuldade para retornar à mesma sintonia do carro de som. Isso pode ter ocorrido pelo fato de o Anhembi ainda não estar com o sistema de som completo em funcionamento. É algo que merece observação.
“Eu que agradeço pela cobertura, mais uma vez. Estou muito feliz, porque temos ensaiado bastante, e muitas coisas que treinamos na quadra e na rua, quando chegam aqui, algumas funcionam e outras não, já que o ambiente é diferente. Hoje, graças a Deus, tudo o que testamos funcionou. Isso me deixa muito feliz. Testamos coisas novas na parte musical, ajustes que já vínhamos trabalhando, e, quando chegamos aqui, decidimos colocar em prática para ver se daria certo, e deu certo. Praticamente 99,9% da parte musical, junto com a bateria, foi testada e aprovada neste ensaio. Estou muito satisfeito. A comunidade cantou muito, houve uma boa reverberação, e acredito que estamos no caminho certo. Cantar um samba indígena é um desafio que eu gosto bastante, porque procuro incorporar o enredo. Quando ele traz uma história tão bonita, com lendas e espiritualidade, eu me entrego completamente, estou adorando esse samba. Sem dúvida, o som com toda a estrutura montada é diferente, traz mais potência e permite que a gente se escute melhor, mas, como as arquibancadas não estão cheias, isso também influencia. O som do carro de som funcionou bem, havia algumas caixas que davam retorno para a pista, e isso ajudou. Claro que, quando tudo estiver funcionando plenamente, será muito melhor, é outra realidade”, disse o intérprete Renê Sobral.
EVOLUÇÃO
É empolgante acompanhar a evolução da Dragões da Real. A forma como os componentes se movimentam de um lado para o outro, brincando de carnaval, representa a essência da folia. Trata-se de uma movimentação organizada, sem bagunça, com cuidado para evitar buracos e escapes entre as alas. A liberdade dos desfilantes transmite alegria, e isso é incentivado pelos próprios integrantes da harmonia. Não houve qualquer ocorrência de falhas entre as fileiras, divisões de escola ou buracos. Todo o quesito foi apresentado de maneira correta.
Outro destaque é o uso das camisetas das alas. Todas exibem o nome de seus respectivos grupos e utilizam cores diferentes, criando um visual interessante e uma sensação de desfile, como se fossem fantasias coloridas.
SAMBA-ENREDO
O samba caiu como uma luva na voz do intérprete Renê Sobral, mesmo sendo o primeiro samba indígena que ele interpreta na carreira. O cantor é acompanhado por uma equipe experiente e de extrema qualidade, com nomes como Jorginho Soares, Helber Medeiros e a voz feminina de Mayara Costa. Destaque também para o entrosamento da ala musical com a bateria “Ritmo que Incendeia”, liderada pelo mestre Klemen.
Renê Sobral afirmou estar extremamente satisfeito com o ensaio, especialmente pelo sucesso dos arranjos testados. “Estou muito feliz, porque temos ensaiado bastante. Muitas coisas que treinamos na quadra e na rua, quando chegam aqui, às vezes funcionam e outras não, pois o ambiente é diferente. Hoje, graças a Deus, tudo o que testamos funcionou. Isso me deixa muito satisfeito. Praticamente 99,9% da parte musical, junto com a bateria, foi testada e aprovada neste ensaio. A comunidade cantou muito, houve boa reverberação, e acredito que estamos no caminho certo”, declarou.
É a primeira vez que o cantor interpreta um samba indígena, e ele se diz fascinado pela história. “Gosto bastante, porque procuro incorporar o enredo. Quando ele traz uma história tão bonita, com lendas e espiritualidade, eu me entrego completamente. Estou amando esse samba”, afirmou.
O intérprete também comentou sobre o sistema de som do Anhembi e minimizou a ausência da estrutura completa. Segundo ele, quando tudo estiver montado, a experiência será ainda melhor. “O som com toda a estrutura é diferente, traz mais potência e permite que a gente se escute melhor. Como as arquibancadas ainda não estão cheias, isso também influencia. O carro de som funcionou bem, havia algumas caixas de retorno para a pista, o que ajudou bastante. Quando tudo estiver funcionando plenamente, será outra realidade”, completou.
OUTROS DESTAQUES
A bateria “Ritmo que Incendeia”, comandada pelo mestre Klemen, apresentou um andamento satisfatório para o samba, com bossas bem executadas. Klemen avaliou o ensaio como positivo. “Quando a bateria entrou no recuo, vimos que a escola estava cantando e evoluindo bem. Tudo o que nos propusemos a fazer foi realizado. Como toda escola costuma dizer, é apenas o primeiro ensaio. No segundo, vamos ajustar alguns detalhes, mas, no geral, foi exatamente o que queríamos”, explicou.
O músico elogiou o enredo e destacou o empenho da escola na busca pelo título. “Senti que a bateria assimilou bem a técnica e abraçou esse enredo, que é muito bom, talvez o melhor. A escola vem trabalhando muito, na quadra, no barracão e no ateliê. Nós, da bateria, ensaiamos toda semana e vamos dar mais de 100% para alcançar nosso maior objetivo”, finalizou.
A corte de bateria esteve completa, com a rainha Karine Grum, a princesa Yohana Obyara e a musa Lexa. Destaque para uma alegoria localizada no primeiro setor, que explodia serpentinas para o delírio do público.