No próximo sábado, dia 27 de junho de 2026, o Berço do Samba abre as portas para o futuro da comunicação digital. A quadra da Estácio de Sá receberá a oficina “Todo mundo pode criar conteúdo!”. O projeto surge em um cenário em que o carnaval se consolida cada vez mais como uma plataforma de entretenimento e cultura ativa o ano inteiro. De acordo com a idealizadora do projeto, o objetivo principal é descentralizar o conhecimento técnico de marketing e dar voz a quem verdadeiramente faz a engrenagem do carnaval girar.
“A comunidade do samba já produz cultura, estética e narrativas belíssimas de forma orgânica todos os dias. O que o projeto faz é oferecer as ferramentas e estratégias certas para que esses componentes se tornem os principais narradores das suas próprias histórias e da história da sua escola de samba nas redes sociais”, afirma Thayná.
Com duração de três horas, a oficina abordará técnicas práticas de criação, planejamento e tendências da creator economy, adaptadas à realidade vibrante dos barracões, ensaios e bastidores das escolas de samba.
As inscrições são gratuitas e as vagas são limitadas. Os interessados devem garantir a participação de forma online, por meio do formulário oficial (https://forms.gle/5qmeMh9sPGpphXYf6)
Oficina “Todo mundo pode criar conteúdo!”
Data: 27 de junho de 2026 (Sábado)
Horário: Das 09h às 12h
Local: Quadra da Estácio de Sá
Inscrições: https://forms.gle/5qmeMh9sPGpphXYf6
A Unidos de Bangu definiu o enredo que levará para a Avenida no Carnaval 2027. A mais antiga escola de samba da Zona Oeste do Rio de Janeiro apresentará o tema “A Outra Ceia”, inspirado na consagrada composição de mesmo nome e concebido como uma homenagem ao compositor Marquinho PQD, que faleceu em 2025. A agremiação optou por um caminho diferente das tradicionais homenagens biográficas. Em vez de reconstruir a trajetória do artista por meio de datas, acontecimentos e passagens marcantes de sua vida, a escola escolheu celebrar seu legado a partir de sua própria obra, entendendo que é nos versos que sua presença permanece viva e pulsante.
Composta por Marquinho PQD em parceria com Carlito Cavalcante e André Renato, a canção “A Outra Ceia” servirá como ponto de partida para a construção da narrativa carnavalesca. A obra reúne características marcantes da produção artística do compositor, reconhecido no universo do samba pela capacidade de transformar experiências cotidianas em poesia carregada de fé, ancestralidade e fundamento.
Ao levar “A Outra Ceia” para a Marquês de Sapucaí, a Unidos de Bangu pretende exaltar a essência criativa de Marquinho PQD, valorizando sua sensibilidade artística e a força de seus versos, que seguem ecoando na memória e no coração do povo do samba.
O desenvolvimento do enredo ficará sob responsabilidade dos carnavalescos Ariel Portes e Ester Domingos, que serão os encarregados de traduzir para a Avenida o universo poético presente na obra escolhida pela escola para o Carnaval 2027.
A Unidos de Padre Miguel anunciou uma decisão inédita em sua história: para o Carnaval de 2027, a escola não realizará disputa de samba-enredo e optará por encomendar o seu hino. A presidente da Unidos de Padre Miguel, Lara Mara, explicou a decisão e agradeceu aos compositores que sempre estiveram ao lado da escola.
“Para 2027, resolvemos inovar e encomendar o nosso samba. É um carinho enorme que temos por todos os compositores que, ano após ano, dedicaram seu talento e apresentaram obras lindas em nossas disputas. Nossa ideia é valorizar ainda mais esses poetas que fazem parte da nossa história. Tenho certeza de que sairá mais um grande samba para 2027”, declarou a presidente.
A obra ficará a cargo de compositores prata da casa, que assinarão juntos a nova composição. O lançamento da obra acontecerá em uma grande festa na quadra da escola, no dia 11 de setembro.
“Mesmo com a mudança no formato, vamos manter nossa tradição de fazer uma grande festa, assim como fazíamos com as finais de samba. Será uma noite especial para celebrarmos juntos esse novo hino”, afirmou Lara Mara.
O novo hino embalará o enredo “Yèyé Omó Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas”, desenvolvido pelos carnavalescos Allan Barbosa e Ricardo Hessez e inspirado em itans sagrados de Iemanjá. A narrativa conta a trajetória de Iemanjá, senhora do mar e da liberdade, até o encontro com Oxum, orixá dos rios, unindo as águas doces e salgadas em uma só celebração.
Em 2027, o Boi Vermelho será a quarta escola a se apresentar na Marquês de Sapucaí, no sábado, dia 06 de fevereiro, em busca do título e do retorno ao Grupo Especial.
A União de Maricá anunciou mais uma importante novidade em seu processo de fortalecimento institucional e de marca. Na manhã desta sexta-feira, a escola lançou oficialmente sua nova linha de produtos em parceria com a Kappa, uma das marcas esportivas mais tradicionais e reconhecidas do mundo. A nova coleção da União de Maricá já está disponível para os torcedores, componentes e admiradores da escola por meio do link https://www.lojauniaodemarica.com.br, plataforma lançada também nesta sexta-feira para concentrar a venda dos produtos oficiais da agremiação.
Para Matheus Santos, presidente da escola, a parceria representa um marco na trajetória da agremiação, que chega pela primeira vez ao Grupo Especial.
“É uma honra ter uma marca tão grande mundialmente ao lado da União de Maricá, acreditando no nosso projeto e na força da nossa escola. Essa parceria mostra que estamos no caminho certo, construindo uma marca cada vez mais forte e conectada com o nosso público. Estamos muito felizes com o lançamento dessa linha de produtos e posso garantir que vem aí uma camisa linda, que será lançada em breve e vai impactar muita gente”, disse Matheus.
A parceria entre União de Maricá e Kappa reforça o momento de crescimento vivido pela escola, que segue investindo na valorização de sua identidade, na aproximação com seus torcedores e no desenvolvimento de novos projetos dentro e fora da Avenida.
Fundada na Itália, a Kappa construiu uma trajetória de destaque no esporte mundial, patrocinando clubes, seleções e atletas de diferentes modalidades. Com presença internacional consolidada, a marca se tornou referência por unir tradição, qualidade e identidade em seus produtos e, aos poucos, vem enfreando no universo do samba.
Enredo: Yèyé Omó Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas
PRELÚDIO
Os Itans nascem da palavra viva. Correm de boca em boca, mudam de corpo, ganham novas águas na voz de quem conta e na memória de quem escuta. Por isso, não cabem em uma única versão. São caminhos de Axé, narrativas que atravessam o tempo sem perder o fundamento.
É dessa ancestralidade que a Unidos de Padre Miguel parte para levar à Sapucaí uma releitura dos Itans das divindades africanas que habitam as águas, abrindo caminho para celebrar o encontro sagrado de duas Yabás. A escola transforma mitos em canto e conto, reverenciando Yemanjá e Oxum como águas de mistério e força.
Nesta travessia, a Vila Vintém homenageia suas filhas, suas mães, suas avós e todas as mulheres que carregam no corpo, na voz e na memória a correnteza do Axé.
“Mergulhei
A Unidos foi além da imaginação
O reino das águas de Olokun…”
SINOPSE
A avó acolheu a neta no colo, no chão sagrado do terreiro. Conhecia o Axé, o peso das guias no pescoço, o cheiro da quartinha lavada. Sabia que história de fundamento nunca vem de uma boca só. É rio feito de muitas versões.
A menina, ainda miúda, ouvia com os olhos acesos, embalada pela doçura de quem já testemunhou muitas partidas:
“Escuta, minha neta. No tempo em que o Infinito era a única morada, Olodumare-Olofin soprou o fogo e inventou o começo. Mas a solidão é deserto e, do peito do Senhor do Princípio, brotou o mar que engoliu o mundo. Lá embaixo, onde o sol não alcança, Olokun fez seu trono de mistério. Mas, acima, onde o sal corta a espuma e nina o balanço dos barcos, quem reina é sua filha, Yemanjá, mãe de tudo o que o mundo ainda haveria de conhecer.
A Rainha se casou com Olofin-Odudua e pariu dez filhos. Guardava consigo um frasco sagrado, além de conchas, pentes e búzios — lembranças do mar dados por sua mãe Olokun. Mas até a água salgada se cansa quando lhe querem impor margens demais. Triste nas terras de Ifé, Yemanjá buscou o horizonte e partiu.
Foi parar em Abeocutá. Lá encontrou Okerê, o Rei de Xaci. Desse encontro nasceu um amor. O casamento foi selado por um pacto de silêncio: ele jamais zombaria de seus seios sagrados, fonte perene de nutrição e amor; e ela jamais revelaria as fraquezas que ele escondia quando a noite lhe tirava a compostura.
O pacto é fundamento. Quem rompe o segredo desperta a fúria.
Um dia, Okerê voltou tomado pela bebida. A cachaça lhe incendiou a língua e ele passou a cuspir fogo dentro do próprio lar. Yemanjá ergueu a voz. Não aceitaria a afronta nascida da quebra do pacto. Okerê, ferido no orgulho, zombou do corpo da Rainha e afrontou sua grandeza.
Yemanjá, soberana como o oceano, não aceitou a traição e decidiu partir. Levava consigo a força e a certeza de seu poderio. Queria voltar ao colo de Olokun, reencontrar a ancestralidade profunda.
Na pressa da fuga, o frasco sagrado que trazia consigo, presente de sua mãe, partiu-se ao chão. A água doce rasgou a terra e abriu um rio caudaloso. Ali, minha neta, desabrochou a força de Oxum. Ela surgiu no brilho das águas doces e caminhou lado a lado com sua mãe Yemanjá.
Okerê, cego de soberba, tentou barrar a passagem e transformou-se em uma imensa montanha. Ergueu-se em muralha de pedra, o grande Oquê, para represar Yemanjá e Oxum.
Mas a bravura das Yabás não conhece cabresto. Yemanjá evocou a justiça do fogo e convocou seu sangue: Xangô. O céu virou breu. O couro do mundo respondeu ao chamado da Mãe. Sob o comando de Yemanjá, o trovão anunciou o acerto de contas: o raio de Xangô e a correnteza furiosa partiram a soberba de Oquê. A montanha cedeu à força das águas, rachou-se em duas, e o rio encontrou caminho.
Yemanjá seguiu. Oxum seguiu com ela. Quando enfim chegaram ao colo de Olokun, o mar se abriu como ventre antigo para receber e coroar suas filhas. Daquele encontro, minha neta, ficou o ensinamento: água de Rainha não se barra. Yemanjá é mãe de amor imenso. Oxum é ouro vivo na correnteza doce. Quando o rio beijou o mar na foz sagrada, o Axé passou de uma mulher para outra e nunca mais deixou de ser encontro.”
A neta ouviu tudo em silêncio.
A menina cresceu, os anos passaram, mas a voz da avó permaneceu guardada, ressoando como atabaque. Mais tarde, descobriu-se Filha de Yemanjá e compreendeu que sua avó era Filha de Oxum. Entre as duas havia uma foz: o encontro de uma avó-rio que banhou a vida de uma neta-mar.
A neta prometeu que aquela voz atravessaria a Avenida em forma de Escola de Samba. Na Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel desfilará o encontro de Yemanjá e Oxum, inspirada pelos Itans das águas e pela memória desse Axé. Hoje, a neta não caminha sozinha. Carrega a avó na fúria das águas que lavam o Pavilhão do Boi Vermelho.
A Vila Vintém, pedindo licença apenas ao Sagrado, abre seus caminhos para contar que nenhuma mulher se curva diante de montanha alguma. Onde a avó ensinou amor, a neta conduz o destino.
O Boi Vermelho brada na Sapucaí: a história de uma mulher pode abrir passagem para muitas.
No Carnaval de 2027, a voz da avó correrá na neta. A Coroa de Yemanjá e o amor de Oxum romperá a pedra e o Boi Vermelho atravessará a Sapucaí levado pela força das águas…
A Unidos de Padre Miguel, banhada em Axé, deságua na Sapucaí como a eterna correnteza da ancestralidade da Vila Vintém.
Carnavalescos: Allan Barbosa e Ricardo Hessez
Enredistas: Clark Mangabeira e Victor Marques
Imersa na história do desaparecimento da calunga Dona Júlia, a Imperatriz Leopoldinense desembarcou no Recife para dar continuidade às pesquisas que embasam o enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia”, desenvolvido para o Carnaval 2027. Até o próximo domingo, a presidente Catia Drumond, o carnavalesco Leandro Vieira, o diretor de Carnaval André Bonatte e outros segmentos da verde, branco e dourado vão cumprir uma agenda de atividades voltadas ao aprofundamento histórico e cultural da narrativa que será apresentada na Marquês de Sapucaí. O roteiro inclui visitas ao Museu do Homem do Nordeste e aos tradicionais terreiros Ylê Oxóssi Guangoubira e Ylê Xambá, espaços diretamente ligados à trajetória da boneca sagrada.
“A Imperatriz segue forte no seu planejamento para 2027, e para desenvolvimento do enredo, é fundamental estarmos in loco, para acompanhar cada momento de pesquisa, imersão e estudo dessa história tão rica encontrada pelo nosso carnavalesco. Estar em Recife, ao lado de nossa equipe, fortalece ainda mais o belo desfile que estamos preparando para a Marquês de Sapucaí. Dona Júlia irá guiar nossa caminhada rumo à vitória”, afirma a presidente Catia Drumond.
A programação da Rainha de Ramos contempla ainda encontros com a Nação do Maracatu Porto Rico, uma das mais tradicionais agremiações de baque virado de Pernambuco. Foi em seus cortejos que a calunga Dona Júlia ganhou destaque ao longo de décadas, tornando-se símbolo de resistência, ancestralidade e preservação da cultura afro-brasileira.
Além da pesquisa para o desenvolvimento do desfile, a viagem também prevê a produção de conteúdo audiovisual e o fortalecimento do intercâmbio cultural entre a escola de samba e as instituições pernambucanas envolvidas na construção do enredo.
Em 2027, a Imperatriz Leopoldinense irá fechar a noite de desfiles da segunda-feira de Carnaval, dia 08/02, na busca do décimo campeonato de sua história.
A parceria entre André Gonçalves e Gabriel Mello existe há alguns carnavais e, neste ano, eles foram consagrados com a missão de serem os diretores de carnaval da Unidos da Tijuca. Em 2027, a agremiação levará à Sapucaí o enredo “A Cabeça do Santo”, idealizado pelo carnavalesco Lucas Milato, que celebra a literatura brasileira e a cultura regional. Em entrevista ao CARNAVALESCO, a dupla comentou as expectativas para esse novo momento.
“Eu, André, jamais esperava isso do presidente Fernando Horta. Para mim, foi maravilhoso, porque, junto ao Gabriel, fizemos um trabalho de formiguinha. Viemos trabalhando juntos há muito tempo. O sentimento é gigantesco. Tem muita história para contar. […] Faremos um casamento perfeito para mostrar à família tijucana o nosso trabalho e a nossa dedicação à escola. Iremos nos dedicar ao máximo para trazer a escola campeã novamente”, disse André.
“Para mim, é uma honra! Quando você assume um cargo desses com um amigo ao lado e com alguém por quem você torce, em quem você acredita, é fantástico. Eu fui muito acolhido na Tijuca, sei o tamanho da responsabilidade, mas sei também do nosso potencial para continuar o trabalho que foi iniciado, melhorar e aperfeiçoar. O pessoal vê a gente sempre junto e fala: ‘Pô, vocês estão juntos o tempo todo?’. Vocês vão ver isso transmitido para a escola. Como diz o nome: Unidos da Tijuca. A gente está assim, unidos”, afirmou Gabriel.
O trabalho em dupla não é uma novidade para eles. Dessa forma, a divisão de tarefas não é uma questão e já está pré-estabelecida de acordo com a facilidade de cada um em determinadas áreas, mas sempre em uma orientação recíproca.
“O Gabriel vai ser uma pessoa que vai me ajudar muito, e eu vou trabalhar mais na parte operacional, na construção do carnaval. Com orientação mútua: eu com o Gabriel, o Gabriel comigo. Assim, faremos um grande trabalho e colocaremos em prática o projeto do carnavalesco”, contou André.
“A gente não tem um muro que divide os dois lados, mas o André tem uma expertise fantástica nessa parte operacional, do barracão, da produção de fantasias, da execução. E eu vou muito para o lado da comunidade, do trabalho institucional da escola, da relação entre enredo, carnavalesco, artistas e carro de som. A gente vai se ajustando”, disse Gabriel.
Um dos momentos mais aguardados pelos apaixonados por carnaval é a disputa de samba-enredo, mas, segundo Gabriel Mello, é também um período que exige equilíbrio entre a valorização dos compositores e dos patrocinadores.
“Eu já fui compositor e convivo com os compositores, tenho uma visão muito diferente do que é a disputa. A gente entende que o formato, no geral, está ruim, está caro demais, precisa de muito patrocinador para colocar um samba, e o verdadeiro compositor não tem espaço. Mas entendemos que eles também inflacionam a disputa. Vamos procurar achar um meio-termo, porque o que interessa para a gente é um grande samba. E vamos fazer o que for preciso para ter isso novamente”, afirmou Gabriel.
Em referência ao samba-enredo de 2026, a dupla afirma que a história continuará mudando. Em 2027, os novos diretores de carnaval querem que os tijucanos voltem aos tempos de glória.
“A história vai continuar mudando. Não existem atos únicos transformadores, pois a transformação é um processo. A Tijuca resgatou sua essência africana em 2025 com Logun-Edé; a escola resgatou sua veia social em 2026 com Carolina; e agora continua na literatura, mas se volta para o seu regionalismo, que fez a Tijuca de Gonzagão, de Dona da Terra e de tantos outros carnavais da escola. Se Deus quiser, a gente está no caminho para que, de fato, chegue aonde o tijucano quer, nesta nova página tão esperada: a volta dos tempos de glória. A gente bateu na trave, agora é só tocar para o gol”, contou Gabriel.
“A verdade é que faremos juntos um grande trabalho para a Unidos da Tijuca”, concluiu André.
Eterna “Rainha das Rainhas”, Viviane Araujo abriu o coração sobre a sua longevidade no carnaval e a forma como lida com as pressões externas sobre o tempo. Em entrevista ao programa “Sem Censura”, da TV Brasil, a estrela do Salgueiro e da Mancha Verde comentou sobre os recorrentes comentários etaristas que sugerem que cada ano seria o seu último à frente das baterias.
Para Viviane, embora esse tipo de questionamento seja recorrente na sociedade para mulheres que ocupam espaços de destaque, ela busca não absorver a negatividade.
“É chato, né? Às vezes é muito chato, às vezes machuca, com certeza”, confessou a atriz. O que eu procuro fazer é falar assim: ‘Pera aí, é uma pessoa, duas estão falando isso e um milhão aqui estão me querendo ali’. Não posso dar importância para isso”.
Com décadas de experiência cruzando o Sambódromo, Viviane revelou que o sentimento ao pisar na Avenida continua sendo sua maior motivação, superando qualquer crítica sobre sua idade. “O amor que eu sinto, a vontade que eu tenho ainda de estar ali é muito maior. Não dou importância porque se realmente a gente olhar e ficar, a gente acaba adoecendo de fato”, afirmou.
Mais do que apenas desfilar, Viviane compreende seu papel como uma inspiração para outras mulheres que também enfrentam o preconceito de idade. Ela acredita que se manter ativa publicamente serve como um incentivo para que outras sigam seus caminhos sem se sentirem limitadas por números.
“A gente tem esse papel. Quem aparece publicamente é uma referência. Esse caminho ele não tem fim, ele vai terminar a hora que você quiser, não a hora que os outros quiserem”.
A história de Tia Ciata atravessou gerações, ajudou a construir os alicerces do samba e segue viva na memória de quem carrega seu legado. Em 2027, a matriarca será a grande homenageada do Paraíso do Tuiuti, que levará para a Avenida uma narrativa dedicada à mulher que se tornou símbolo de resistência, acolhimento e preservação da cultura afro-brasileira. Para Gracy Mary Moreira, bisneta de Tia Ciata, acompanhar esse reconhecimento tem sido um momento de profunda emoção. Acostumada a ver a ancestral lembrada nas alas de baianas das escolas de samba, eça destaca que a homenagem ganha uma dimensão ainda maior quando a personagem histórica se torna o centro da narrativa de um desfile.
“Está sendo emocionante, muito especial. Todos os anos, as alas das baianas de qualquer escola já são uma homenagem à Tia Ciata, mas hoje ela está sendo enredo. Isso é potência e importância”, afirmou.
A escolha da Paraíso do Tuiuti marca um momento histórico para o carnaval carioca. Embora o nome de Tia Ciata já tenha sido citado em diferentes desfiles ao longo dos anos, esta será uma das raras ocasiões em que a trajetória da sambista, mãe de santo e liderança comunitária será contada de forma integral na Avenida.
Mais do que uma personagem histórica, Tia Ciata representa a força das mulheres negras que ajudaram a construir a identidade cultural do Rio de Janeiro. Foi em sua casa, na região da Pequena África, que sambistas encontraram espaço para manter viva uma manifestação cultural que enfrentava perseguições e preconceitos no início do século XX. Para Gracy, a homenagem também representa uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre a importância da ancestral para a história do samba.
“Falar sobre ela, sua história e sua representação é incrível. Agora, vamos concretizar isso junto do Tuiuti, e quero agradecer demais à escola por isso, por estar trazendo a matriarca do samba como enredo”, destacou.
Com desenvolvimento do carnavalesco Renato Lage, o desfile promete apresentar não apenas a trajetória de Tia Ciata, mas também a herança deixada para gerações de sambistas. Uma história que ultrapassa os limites da família e se confunde com a própria história do samba brasileiro.
Ao transformar a matriarca em protagonista, a Paraíso do Tuiuti reforça a importância de preservar memórias que ajudaram a construir a cultura popular do país. E, para quem carrega esse sobrenome e essa herança, o desfile será também um encontro entre passado, presente e futuro na maior celebração do samba.
Embora o Carnaval tradicionalmente seja associado a grupos que não são majoritários em relação a direitos na prática dentro da sociedade, é sempre necessário discutir o quanto integrantes de tais conjuntos de pessoas sentem-se livres e à vontade na folia. Para destacar o protagonismo das mulheres em tal espaço, o Encontro Nacional das Mulheres do Samba no Congresso Nacional das Escolas de Samba (CONASAMBA) contou com eminentes mulheres da folia brasileira. Sempre atento a tudo que envolve escolas de samba e cobrindo o CONASAMBA, o CARNAVALESCO traz um panorama do que foi debatido por elas.
A mediadora do Encontro foi Débora Eloisa Justino, Diretora Financeira da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP) e Diretora Institucional da FENASAMBA. Ela foi acompanhada por:
– Solange Cruz, presidente da Mocidade Alegre (São Paulo)
– Edleia dos Santos, presidente da União das Escolas de Samba Paulistanas (UESP) entre 1993 e 2009 e celebrada como “eterna presidente” da instituição
– Lana Flores, presidente da Protegidos da Princesa Isabel (Porto Alegre)
– Maria Elisa Abreu, presidente da Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais (Liga-MG)
– Odette Carvalho, fundadora do Império de Casa Verde (São Paulo), embaixadora do samba paulistano e idealizadora do Instituto Evaristo de Carvalho
– Tatiana Souza, presidente da Liga das Escolas de Samba de Florianópolis (LIESF)
Lembranças e comando
As primeiras falas de cada uma das participantes, mais que introdutórias, foram valiosas para identificar a relação de cada uma delas com o ambiente carnavalesco.
A primeira a falar foi Edleia, popularmente conhecida como Leia, que relembrou a própria trajetória em escolas de samba. Solange começou a fala se utilizando como exemplo: “A mulher tem que ter todo espaço. Não tem do jeito que a gente mereceria, mas a gente vai se infiltrando e participando. Quero saber tudo o que está acontecendo, falo tudo que tenho que falar. É assim que vamos galgando e ganhando espaços. Não tem outro jeito de ser a não ser se posicionar”, destacou Solange.
Maria Elisa foi a primeira a citar algo que permeou algumas falas: “Durante muitos anos, as mulheres foram a força que sustentavam as escolas de samba nos bastidores: organizavam, costuravam, acolhiam, administravam e faziam o Carnaval acontecer – mas, muitas vezes, elas não participavam das mesas de decisões. O meu marido me chama de chata todo dia: eu fui diretora de Carnaval durante muitos anos de uma escola de samba em Belo Horizonte em que o presidente era o meu esposo, e ele falava que eu passei na fila da chatice dez vezes. E, durante esses anos todos, percebi que a mulher chata era mais organizada”, disparou.
Tatiana, empossada como presidente da LIESF na última semana, relembrou a própria trajetória na Consulado, atual bicampeã do carnaval de Florianópolis, e falou dos projetos que possui enquanto presidente eleita da instituição: “Temos grandes objetivos, como criar um instituto da liga, o LIESF do Amanhã, no qual vamos trazer projeto de trabalhar o ano inteiro com formação, capacitação e trazendo a paixão por escolas de samba para as crianças, destacou”.
Lana deu o próprio exemplo para abrir a conversa: “Ser presidente, hoje, é o maior desafio que temos enquanto mulher. Ao menos para mim, foi. Mulheres fazem tudo ao mesmo tempo, e imagine o que é pegar uma escola de samba e fazer tudo. Pagar a conta de água, de luz, de internet, ver lixo, ver banheiro, plantar árvore, fazer a manutenção dos espaços, todos os BOs… toda essa questão social nós temos que ter com a escola tal qual temos na nossa casa. Hoje, a Protegidos é de proteção e de acolhimento. Já fui quase tudo na escola: diretora, carnavalesca… até rainha de bateria eu já fui!”, comentou.
Dona Odette relembrou a raiz familiar intimamente ligada ao samba paulistano e saudou as parceiras de Encontro: “Hoje, o Carnaval é toda essa maravilha, mas não podemos esquecer dos carnavalescos que apanharam, que foram presos, que eram chamados de vagabundos e eram presos no Carnaval e só saíam na Quarta-Feira de Cinzas. Quando eu vejo mulheres falando que são presidentes comentando todo o trabalho que têm, me sinto orgulhosa. Fui me especializar na questão da Ala das Baianas por sentir que, em São Paulo, estamos em crise. Pesquiso desde o fundamento e vou escrever um livro a respeito”, disse.
Prosseguimento
Mediadora, Débora deu um exemplo que aconteceu algumas vezes na UESP: “Quando chega numa roda da diretoria, algumas pessoas cumprimentam todos os homens e me deixam por último. Nada contra, mas sempre pensam que eu sou a secretária do presidente. Aí o Alexandre Magno, o Nenê, presidente da UESP, aponta para mim e fala que eu sou a diretoria financeira da instituição. Eis que eles reagem como se aquilo fosse o fim do mundo. Por quê? Mulher pode ser o que ela quiser e onde ela quiser”, afirmou.
Solange foi incisiva na defesa dos direitos femininos: “Muita gente passa e a gente fica, sempre buscando o melhor para fazer acontecer. Não é fácil, às vezes querem calar a nossa voz, mas a minha não calam. Se você fala alto, eu também vou falar. Se você falar palavrão, também vou falar. A partir do momento que a Leia, por exemplo, tem voz, todas temos que ter. Não queiram abaixar a nossa voz nem não deixar a gente não participar daquilo que é um direito nosso. Como mulher, isso me incomoda muito – mas não me cala”, disse.
Tatiana utilizou uma música para refletir: “Outro dia eu refleti sobre ‘Não Deixe O Samba Morrer’. Quando eu fiquei pensando, imaginei que a canção é um chamado não para quem está de fora, mas para quem está dentro. A LIESF tem vinte anos e, pela primeira vez, ela é liderada por uma mulher. Somos nós que fazemos alegorias e fantasias e nem sempre somos nós que levantamos os troféus. As mulheres precisam se ver nesses lugares. Se hoje eu sou presidente da LIESF, eu já vi a persistência e o não desistir das mulheres”, comentou.
Maria Elisa resgatou o passado e mostrou ter excelente memória: “Um dia, com cinco anos de idade, eu tive o meu primeiro contato com o Carnaval e eu disse que seria dona daquilo. Quando eu falei isso, uma pessoa do meu lado me disse para eu parar de ser pirralha e que eu jamais vou conseguir estar nesse lugar. Em 2011, quando eu fui nomeada Diretora de Carnaval, eu lembrei daquela situação – e a pessoa que me mandou deixar de ser pirralha assistiu a essa cena”, orgulhou-se.
Lana desabafou e trouxe uma situação comum a diversos sambistas: “Tem uma hora que me deixa muito nervosa enquanto presidente: a hora que a sirene toca. Parece que tudo vai desabar, mas sou eu quem estou ali, a escola vai andar e tudo aquilo fui eu quem fiz. É o momento em que o presidente não faz mais nada, sem saber até onde vamos. Tem anos nos quais eu mal sei onde eu vou – com porta-bandeira, passistas ou Harmonia. Também estou aliviada, já que cumpri com tudo”, revelou, que também comentou que “adora resolver problemas” e que “detesta dramas”.
Edleia teve outra lembrança – o momento em que assumiu a presidência da UESP: “Quando alguém falou que teria eleição e falaram que eu seria a presidente, eu recusei e disse que aquilo era coisa de maluco. Quando me disseram que tudo acontecia na minha sala, voltei atrás. Eu tinha um filho de dois meses, ia de escola em escola fazendo campanha. O seo Nenê me fez um desaforo, dizendo que eu não aguentaria a pressão. Teve uma vez que um presidente deixou R$ 7 mil no cofre porque queria ganhar o Carnaval, mas eu não fui na dele. Outra vez, um presidente falou que tinha uma armação para favorecer uma escola e eu pedi para ele falar no plenário. Lá, ele desconversou”, destacou – pouco antes de confirmar que dava sapatadas na porta em determinados momentos, como entrou para o folclore da folia paulistana.
Odette seguiu destacando as tradições do segmento no qual tanto pesquisou: “A gente precisa entender e pesquisar. Uma baiana, certa vez, me disse que as baianas em específico têm três qualidades: a que vende acarajé; a mãe-de-santo; e a de escola de samba. Isso eu aprendi em Cachoeira, de onde saiu Tia Ciata. Já em Alagoas, eu entendi porque a baiana gira: quando ela gira para a direita, ela traz os bons fluidos, quando ela gira para a esquerda, ela espanta os maus”, finalizou, relembrando a cidade em que a figura histórica fundou a Irmandade da Boa Morte e viveu a juventude.