Por Gustavo Lima e Will Ferreira

Panorama geral: após a apuração de 2025, muito se falou sobre eventuais mudanças no regulamento do Carnaval de São Paulo – sobretudo a respeito da importância (para muitos exagerada) da pasta entregue aos jurados. A grande expectativa é para ver se o que foi muito falado será executado – e isso, é claro, só será conhecido na terça-feira. O Anhembi com uma grande reforma também é um ponto que merece destaque em relação à expectativa criada nos sambistas. Por fim, a ótima safra de sambas-enredo, a estreia de uma agremiação no pelotão de elite e a situação de pavilhões gigantes da folia paulistana também valem menção. Absolutamente todas as escolas têm um desafio e algo a provar – o que dá apenas mais molho à disputa.

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Foto: Felipe Araujo/Liga-SP

Rosas de Ouro: Quinze anos depois, a Brasilândia voltou a conquistar a taça com um desfile irrepreensível – com “Rosas de Ouro em Uma Grande Jogada”. Para a Roseira, o desafio é mostrar que o título não foi à toa. O enredo “Escrito nas Estrelas”, por sinal, guarda muitas semelhanças com a apresentação campeã no ano anterior: um enredo lúdico e aberto, que possibilita uma infinidade de possibilidades; um samba-enredo que não caiu nas graças da bolha carnavalesca paulistana; e a manutenção de boa parte da equipe que sagrou-se campeã. Com o peso do pavilhão oito vezes campeão do Grupo Especial, é impossível duvidar da força azul e rosa.

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Acadêmicos do Tatuapé: Após a penalização de 2022, a azul e branca começou a escalar – foi quarta em 2023, terceira em 2024 e segunda em 2025. Pela progressão na tabela, 2026 é ano de título. Com quesitos que são certeza de nota máxima (a Harmonia da agremiação é um desbunde e o Casal Foguinho já está na lista de melhores casais da história do Carnaval de São Paulo), a escola precisa, mesmo com um ótimo histórico recente de desfiles, vencer a desconfiança que o samba-enredo campeão trouxe – canção que recebeu críticas mistas entre quem acompanha a folia paulistana. O enredo sobre a agricultura com um viés mais social, por outro lado, foi muito celebrado. Outro ponto de curiosidade é a “Qualidade Especial“, que terá mestre Cassiano pela primeira vez no comando.

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Gaviões da Fiel: Os dois últimos anos mostraram que a “Torcida Que Samba” está de volta à briga pelo título. Pelo segundo ano consecutivo, a agremiação acertou na escolha do samba-enredo – em uma temática indígena que é sempre um desafio para uma escola que não usa verde. Os dois décimos perdidos no cômputo geral em samba-enredo no ano passado seguem inconcebíveis, mas a escola do Bom Retiro mostrou ter força nos demais quesitos para brigar pela taça do jeito que for. Com a manutenção de boa parte da equipe somada a tudo que foi dito até aqui, é impossível não colocar a alvinegra como uma postulante real ao título. O desafio da agremiação para 2026 é manter o altíssimo nível atingido e saber como lidar com o incômodo e longuíssimo jejum no Grupo Especial, que chegou a 23 anos.

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Fotos: Gustavo Lima e Will Ferreira/CARNAVALESCO

Mocidade Alegre: O que fazer depois de um 9.7, que não era dado à escola desde 2017? O desfile de “Quem Não Pode com Mandinga, Não Carrega Patuá” não trouxe o terceiro tricampeonato da Morada do Samba e teve alguns pontos negativos visíveis, mas mostrou que, no conjunto, a escola do Limão segue fortíssima. Tanto enredo quanto samba foram muito bem recebidos pelos sambistas de São Paulo – e isso se fez presente na ótima safra de obras nas eliminatórias, que teve uma final para lá de disputada. Desde cedo o tema em homenagem a Léa Garcia foi feito com muito requinte, apresentado em teatro e de fato abraçado pela comunidade – um hino que une a ancestralidade africana com exaltação a carreira da artista. O quesito Evolução, que não era despontuado na agremiação desde 2020, custou meio ponto no geral e dois décimos no saldo final da apuração de 2025 – tornando-se o grande desafio para uma correção em 2026.

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Camisa Verde e Branco: Entre os sambistas paulistanos, a pergunta que mais se fez entre março e setembro foi “E o Camisa, hein?”. Em um imenso imbróglio jurídico, o Trevo foi lançar enredo e samba enquanto outras coirmãs já estavam fazendo ensaios há semanas. A questão é que pavilhão gigante sabe se acertar na hora certa: “Abre Caminhos” foi muito bem recebido e a canção, para muitos, é o melhor samba-enredo de 2026. Fechar o carnaval é uma responsabilidade gigante e a quinta colocação da escola foi recebida com muita surpresa por muitos – o que, na realidade, mostra o quão competente é o Camisa ao interpretar o regulamento. Por tudo que aconteceu, de maneira bastante contraditória e com uma dose de caos (tal qual Exu, orixá homenageado em 2026), é justo dizer que, mesmo com toda a pressão, o simples fato de conseguir colocar a Barra Funda no Anhembi já é uma grande vitória em um ciclo carnavalesco que começou tão adverso.

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Dragões da Real: Desde quando chegou ao Grupo Especial, todas as vezes em que a Vila Anastácio ficou de fora do Desfile das Campeãs um ciclo foi finalizado. A sexta colocação em 2025, claramente, foi o sinal de que algo precisava mudar – o que não necessariamente implica em trocas de nomes na equipe. Saíram de cena os enredos mais amplos e, com uma temática indígena fortíssima, o samba sobre as guerreiras icamiabas foi muitíssimo bem recebido pelos sambistas paulistanos. Um dos quesitos em que a agremiação foi despontuada, porém, precisa ser corrigido com urgência em mais uma temporada em que tudo indica que a Dragões será candidata ao título: desde 2017 a escola não gabarita (ou seja, tira apenas notas dez) em Alegorias.

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Águia de Ouro: Após chegar ao penúltimo quesito na liderança da apuração de 2025 e terminar a leitura das notas fora até mesmo do Desfile das Campeãs (bem em Evolução, que sempre foi garantia de nota na Pompeia), a escola teve uma importantíssima mudança: o histórico mestre Juca saiu do comando da Batucada da Pompeia depois de 34 anos, sendo substituído pelo também torcedor do Águia de Ouro mestre Rodrigo Moleza. O enredo patrocinado sobre Amsterdam foi recebido com surpresa, e o samba-enredo polarizou ainda mais a opinião da bolha carnavalesca: alguns amam a irreverência e o ar noventista da obra, enquanto outros lamentam a escolha mais popular da agremiação. Apesar da dicotomia, há um desafio ainda maior: há anos com João Carlos Camargo, que faleceu, a agremiação teve que contratar um novo mestre-sala Alex Malbec para bailar com Monalisa Bueno – e uma nova parceria sempre requer atenção na primeira temporada juntos.

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Estrela do Terceiro Milênio: O Grajaú, pela primeira vez, estará representado duas vezes consecutivas no Grupo Especial. E, para manter a consolidação na elite, Paulo César Pinheiro foi escolhido como enredo. O samba-enredo é elogiado, a comissão de frente é bicampeã do Estrela do Carnaval, Arthur Santos e Waleska Gomes estão consolidados como primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, o quinto horário de sábado é um dos que mais faz campeãs em São Paulo… as expectativas são grandes, mas é importante destacar a mudança bem no principal posto de uma escola de samba. Mesmo com a experiência de ter sido o mandatário da Coruja entre 2016 e 2022, o retorno de Gilberto Rodrigues, o Giba, à presidência da Milênio transforma-se em um desafio não pela capacidade, mas pela mudança.

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Foto: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO

Vai-Vai: O ano de 2025 foi ainda mais intenso para a eterna efervescente maior campeã do Carnaval paulistano. O segundo desfile esteticamente questionado foi apenas o início de uma temporada em que a agremiação também teve a conturbada saída de Sidnei França, opiniões divididas a respeito do patrocinado enredo sobre a cidade de São Bernardo do Campo e um samba-enredo que, se não figura na lista dos mais aclamados, ao menos ganhou força graças aos fortes refrãos. Se estreias sempre são sensíveis, os bastidores do Vai-Vai fazem com que a chegada de Pedro Trindade e Mirelly Nunes ao posto de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Saracura passe longe de ser o principal desafio da agremiação.

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Fotos: Lucas Sampaio/CARNAVALESCO

Colorado do Brás: Após o rebaixamento por conta de uma penalização alheia aos quesitos em 2022 (e que lhe daria a melhor colocação da agremiação desde 1987 no respectivo ano), a escola mostrou o motivo pelo qual é conhecida por interpretar bem o regulamento. Sem sofrer na apuração e com uma abertura de desfile empolgante em 2025, desfilar um pouco mais cedo virá bem a calhar para a instituição. O celebradíssimo enredo sobre bruxas gerou um samba-enredo que também agradou, mas que mostrou no minidesfile ter uma segunda estrofe mais longa que o normal, exigindo soluções da Harmonia e da ala musical – tarefa que fica bem mais fácil quando a obra tem qualidade, como é o caso da canção que embalará o desfile de “A Bruxa está Solta – Senhoras do Saber Renascem na Colorado”.

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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Império de Casa Verde: O ciclo do Carnaval de 2025 do Tigre começou com um enredo celebrado, um samba criticado e um desfile que rendeu o pior resultado da escola desde 2012. Foi, certamente, a agremiação que mais mudou nomes na elite da folia paulistana: Patrick Vicente e Sofia Nascimento chegaram para o posto de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sergio Cardoso chegou para comandar a comissão de frente, Tiago Nascimento subiu para o microfone principal ao lado de Tinga e Fabinho LS tornou-se presidente da instituição. Se a renovação deu o tom no Império, a repetição da receita dos desfiles arrasa-quarteirão de 2023 e 2024 voltaram: o enredo sobre balangandãs foi bem recebido, tal qual o samba. Se as diversas mudanças são desafiadoras para uma escola que adora o gigantismo, a transformação pode ser a força do Tigre para retomar o protagonismo.

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Barroca Zona Sul: O samba do ano no Estrela do Carnaval 2025 entrou para a história da folia paulistana, mas o desfile cheio de incidentes levou a verde e rosa para a rabeira da tabela. Apesar disso, a fórmula das últimas apresentações foi mantida: um enredo sobre um grupo minoritário. Mais do que isso: se, em 2025, a Faculdade do Samba trouxe Iansã para o Anhembi, em 2026 o enredo é Oxum. A grande mudança é a chegada de Rafael Tinguinha para duplar com Dodô Ananias no microfone principal da instituição em um samba, novamente, belíssimo. A canção, entretanto, traz um grande desafio para o Barroca: desfilar com uma obra que foca na melodia (e não na explosão, como o samba de 2025) logo após a escola de maior torcida em São Paulo (instituições desportivas à parte) e fechando a noite (sendo que a agremiação está acostumada a desfilar nos primeiros horários) é algo que enche os foliões de curiosidade.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Tom Maior: De volta ao Grupo Especial, tudo indicava que a escola navegaria em mares tranquilos em 2026 por conta da força no quesito a quesito da agremiação – que a fez, por exemplo, ter pontuação de campeã em 2022. O enredo sobre Uberaba com foco em Chico Xavier gerou um samba-enredo que, graças ao que aconteceu com Gilsinho, ganhou novo significado e nova força em relação à comunidade. Ainda em relação à canção, a agremiação ganhou um novo componente em seu carro de som: o intérprete Leozinho Nunes, de grande trajetória no Rio de Janeiro, fará a sua estreia no carnaval paulistano. Entretanto, há um calcanhar de Aquiles no mapa de notas da agremiação do Sumaré: desde 1996, a agremiação não consegue gabaritar o quesito Evolução quando está no Grupo Especial.

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Fotos: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Mocidade Unida da Mooca: Demorou bem mais do que deveria (o não-acesso da escola em 2020 é uma aberração), mas a MUM, enfim, está no Grupo Especial de São Paulo. Para vencer a conhecida má-vontade dos jurados com escolas que aparecem pela primeira vez na elite (desde 2012 uma agremiação que chega ao topo não permanece em tal agrupamento), a Mooca se antecipou em tudo. Foi a primeira a anunciar enredo e samba. Mais do que isso: a escola foi à rua pela primeira vez em agosto, mostrando uma celeridade nunca antes vista no Carnaval paulistano. Se outras escolas mudam boa parte da equipe ao chegar no primeiro grupo, a ordem na Mocidade Unida da Mooca foi a manutenção dos quadros: Jefferson Gomes e Karina Zamparolli seguem como primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, mestre Dennys permanece à frente da Chapa Quente e o microfone principal da escola manteve Gui Cruz e Emerson Dias, mas ganhou a adição da elogiada Sté Oliveira – que apenas subiu um posto, já que era do carro de som mooquense.

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